60% e 70% dos brasileiros estão insatisfeitos com a vida? Dr. Pablo Vinícius - EP 32 Ïnterioriza
17 Sept 2024 · 34 min
Isabela talks with Dr. Pablo Vinícius about why 60% to 70% of Brazilians report dissatisfaction with life. They discuss sleep deprivation's impact on mental health, the difference between unhappiness and illness, and why lifestyle changes matter more than over-medicalization.
Chapters
Dr. Pablo Vinícius, direto de Brasília, especialmente aqui pro Interioriza. Obrigada.
Obrigado, convite.
Muito obrigada.
Eu que agradeço.
Muito obrigada. Pablo, nós fizemos tantos movimentos juntos durante a pandemia e que alegria então poder te receber agora, né, fisicamente. Mas nós vamos continuar falando do assunto que a gente já falava antes. Somos o país mais ansioso do mundo. Ah, tá bom, Isabela. O que que isso significa? Tá na hora da gente entender os desdobramentos dessa informação. Porque se você parar um pouquinho pra pensar, nenhuma ponta fica solta. Porque somos o país mais ansioso do mundo, porque a privação de sono tem deixado as pessoas mais irritadas, porque as crianças estão mais... Por que as crianças estão mais impacientes? Será que os adultos estão mais pacientes? Tudo isso tá ligado, né, doutor?
A saúde mental é um resultado. A saúde mental não é conquistada por uma ação. Você não vai ter saúde mental só porque dorme bem, mas se alimenta mal. Você não vai ter saúde mental só porque tem uma altíssima capacidade de gestão de problemas, mas se dorme pouco. Então, eu tenho uma frase muito interessante que eu gosto de falar no consultório, que é assim. Não tem como viver bem vivendo mal.
Ah, exato.
Não tem como estar bem fazendo escolhas ruins. Não tem como dormir com Deus e o diabo ao mesmo tempo na mesma cama. Mas de uma forma pueril, infantilizada. Nós carregamos esse pensamento, que é típico das crianças, porque elas acham que sim, que é possível, na fase adulta ainda. Nós não estamos amadurecendo em relação a isso. Então a gente vê adultos achando, de fato, que é possível eu escolher coisas opostas ao mesmo tempo e usufruir das duas ao mesmo tempo.
Entendi.
Então eu quero ter um prazer enorme com o Benno Big Mac. E eu quero ser magro.
Pegou? Eu quero trabalhar, eu quero ser a pessoa que mais bate meta neste planeta. E quero ter família, e quero transar, e quero ter saúde.
Uma melhor mãe do mundo.
Não vai ter como.
E ser plena. Não vai ter como. Então, saúde mental é fruto das escolhas e é uma somatória dessas escolhas.
Perfeito. No seu livro, que eu recebi em 2021, esse aqui, Antitaja Preta. Doutor Pablo Vinícius, venda sem prescrição médica, a leitura deste livro pode transformar a sua vida. Por quê? O que eu vejo diante da tarja preta? Algumas pessoas estão medicalizando muitas dores e aquelas que têm diagnósticos e que já chegaram num nível tão devastador de saúde, que têm indicação para remédio, não querem tomar, porque têm medo do, ou seja, têm muito preconceito. Então a gente está banalizando o uso dos remédios?
Eu costumo dizer que eu participo de dois movimentos na saúde mental. Eu sou um defensor árduo da existência da doença mental, enquanto um comprometimento cerebral, que essas pessoas precisam de ajuda. Nós estamos já há algum tempo aqui conversando, até antes das câmeras. Nesse tempo que nós estamos aqui conversando, dois brasileiros cometeram suicídio. A cada 40 minutos, um brasileiro comete suicídio. a cada 5, 10, 15 segundos, uma pessoa se mata no mundo.
Tá, aí o suicídio no mundo, tá.
Nós estamos falando de coisa séria e que precisa de ajuda. Por outro lado, eu atravesso o pêndulo e me posiciono como um crítico ferraz e pesado e ácido contra a banalização do diagnóstico psiquiátrico.
Tá.
E, pelo incrível que pareça, se você me perguntasse, como é que é a tua experiência de consultório?
Isso, eu já ia perguntar. Como é que as pessoas estão chegando no seu consultório?
De cada 10 pessoas que eu atendo, posso te afirmar que 6, 7 não estão doentes. Elas estão só sofrendo. Quando eu falo só sofrendo, eu não estou... Anulando... E nem minimizando a dor humana.
Ok.
Eu só estou falando que aquilo não corresponde a uma doença. Então, nem toda dor... Nem todo sofrer, nem toda tristeza significa depressão. Assim como nem toda desatenção é TDH.
Falei ontem com um grande amigo, estilista, ele tinha esquecido um nome lá do livro, ele falou que o meu é o TDH. Aí eu olhei pra ele e falei assim, Eduardo! Você é criativo, você já produziu duzentas coisas hoje, você é só estudando, isso não é TDAH, meu amor. Não é isso, perfeito. Faz sentido?
Total. E é isso que tá acontecendo. Quando a gente banaliza as palavras, a gente esvazia as palavras do conceito delas. Então quando eu falo, um médico, um psiquiatra fala de depressão, cara, eu tô falando de uma entidade, de uma doença.
Doença.
E quando um cidadão, uma pessoa leiga fala, eu tô com depressão, isso me machuca.
Também.
Porque não é depressão, a doença é depressão. Às vezes ela tá usando até de uma forma de expressão. Mas a tristeza não necessariamente é a doença depressão. A desatenção, a dificuldade de se concentrar, a dificuldade de produzir, às vezes nada tem a ver com TDAH. Mas eu tenho que fazer uma meia-culpa com a minha área da psiquiatria. Porque os psiquiatras estão meio sem paciência e eles mesmos estão dando os diagnósticos muito rápidos. Então eu te dou um exemplo da desatenção. Doutor, eu marquei essa consulta porque eu tenho certeza que eu tenho TDAH. É mesmo? Aí eu vi um vídeo no YouTube com os sintomas. Eu olhei aquilo e falei assim, eu tenho TDH. Eu falei, então você marcou essa consulta pra eu chancelar o seu diagnóstico? Você nem quer conversar comigo? Não, claro, vamos conversar. Aí eu vou conversar. E o seu sono, como é que tá?
Pronto.
Vamos começar por aí? Aí ele não entende porque eu quero começar pelo sono. Dormo bem, dormo super bem. Que horas que você vai pra cama? Uma da manhã. E que horas você acorda? Uma às cinco pra trabalhar. Você não tem TDH, você tá privada de sono.
Privação de sono já foi usada como técnica de tortura, gente. Essa informação não pode ser...
Os sintomas da privação de sono são os mesmos do TDH.
Quais são?
Só pra terminar, então antes da gente diagnosticar TDDH na queixa de desatenção, eu tenho que fazer uma investigação das possíveis causas da desatenção. Uma delas é a privação de sono.
Totalmente.
E eu só posso falar que alguém tem TDDH quando eu corrigir a privação de sono.
Tá.
E os sintomas vão dessa desatenção, que é essa falta de foco. Te pergunto, dorme uma noitinha ruim, como é que é o dia seguinte? Você consegue render?
Não, agora veja, também tem uma outra questão, Pablo. Quando você tem menos idade, eu me lembro do Ricardo Amorim falar isso pra mim. Conforme o tempo passa, as responsabilidades aumentam, o tempo continua o mesmo. Mas se você não corrigir as suas atividades, você vai reduzindo o tempo de sono. E aí ele me contou, ele falou assim, Iza, se eu vou ter que dar uma palestra na noite anterior, se eu não dormir bem, me faltam palavras.
Isso é muito do seu livro, né? Você trabalha sobre tempo, né? E é isso aí. Então se eu não entender o sono como prioridade e... A minha vida mudou muito, tanto do ponto de vista profissional quanto pessoal, quando eu fui fazer medicina de sono. Porque a minha formação básica é psiquiatria, mas com 10 anos de profissão, eu vi que era muito pouco o que eu sabia na minha prática clínica. E eu comecei a atender pacientes dependentes de remédios para dormir. Aquilo começou a me machucar muito. Eu falei, eu preciso saber mais sobre isso aqui. Aí eu fui fazer medicina de sono aqui em São Paulo, inclusive. Foi uma revolução. Foi uma revolução na minha vida pessoal, porque hoje pra eu perder uma hora de sono. Ah, tem que valer muito a pena. Olha, começou a mudar a minha vida pessoal e a minha vida profissional com o meu paciente. Porque hoje eu abordo isso com ele. Doutora, eu tô com depressão.
Tá.
Ah, tá com depressão? Tô triste, tô melancólica, eu quero morrer, não consigo fazer mais nada, tô na cama. Ela termina de falar, eu falo, como é que tá teu sono? As pessoas não entendem porque eu parto do pressuposto e ali na consulta, eu inicio a minha entrevista com o sono.
Sim.
As queixas são diurnas. A doença parece ser do dia, mas às vezes a causa tá na noite.
Tá.
E a gente precisa investigar isso.
Tá. Então deixa eu só pegar aqui uma informação para depois dela a gente continuar. De cada 10 pessoas que chegam no seu consultório, 6 estão dizendo que estão...
Tem dores, tem os seus sofreres, estão incomodadas, estão insatisfeitas, de fato estão chorando, mas isso não necessariamente corresponde a uma doença mental.
Tá. De repente pode ser a falta de aceitação de alguma situação, a falta de calibragem, a falta de moderação diante de alguma situação normal da vida.
Uma insatisfação.
Uma insatisfação, então. Insatisfação.
Exatamente.
Muito bem. Te perguntam muito qual é a diferença entre tristeza e depressão?
Muito.
Como é que você responderia assim, rapidamente, pra quem tá acompanhando a gente?
Duas palavras minhas chaves. A primeira palavra significa coerência. Coerência entre o que eu sinto e o que eu vivo. Pega os seus sentimentos. Pega aí a sua tristeza, o seu choro, a sua angústia, a sua raiva, o seu ódio, o seu pânico, o que for. Coloque isso frente a frente com a sua vivência, com o seu dia a dia. E faça a seguinte pergunta. Um ser humano no meu lugar, vivendo o que eu vivo, estaria sentindo o que eu sinto? Se a resposta for sim, isso é coerente. Esse sentimento é normal. Ainda que seja um sentimento mais difícil de ser sentido. Às vezes você tá numa tristeza profunda, mas seu filho tá numa UTI. É coerente.
Tá, dependendo da circunstância.
Então, sentimentos, eles têm que ser coerentes com a vivência. Onde está a doença mental? Na incoerência.
Na incoerência.
Doutora, eu não sei por que eu estou sentindo isso.
Tá.
Tá demais. Tá. A doença mental, ela mora aí. E uma outra palavra mágica chama-se funcionalidade.
Isso.
O sentimento, quando começa a alterar a produtividade, ele já está caminhando para a patologia. Então, facilmente, rapidamente, você consegue colocar esta pessoa na normalidade ou na patologia. E é fácil. Está coerente? E eu levo o paciente a entender isso. Quando ele começa a se queixar, a primeira pergunta que eu faço é sono. A segunda é... Aconteceu alguma coisa na sua vida que você está sentindo isso? O que eu quero com isso? Buscar a coerência.
Sim.
E levar ele a entender que é coerente.
Sim.
E a terceira pergunta que eu faço é sobre a funcionalidade.
Perfeito.
Então, de uma forma muito pragmática, a gente consegue colocar as pessoas nesse prumo adequado. É nesse sentido que lá no final da entrevista eu consigo detectar que 60, 70% das pessoas não estão doentes.
Não estão doentes.
As suas dores são coerentes com as suas vidas. Elas estão insatisfeitas. Você sabe quantos por cento dos brasileiros estão insatisfeitos com as suas próprias vidas? Você sabe quantos por cento dos brasileiros desejam mudar as suas vidas? 60%.
Que pesquisa é essa?
Foi publicada recentemente, tem uns 2, 3 anos, eu te passo. 60% dos brasileiros estão insatisfeitos com a sua própria vida. Sabe onde essas pessoas estão? Nos consultórios psiquiátricos.
Nos consultórios psiquiátricos. Você acredita, então, que há um excesso de medicalização da dor?
Nesse sentido, sim. Porque eu estou insatisfeito. Olha só o que acontece. Eu estou insatisfeito com a vida, isso me machuca, isso me dói. A gente tava até falando da diferença de burnout pra dor, né?
Eu queria aproveitar e inclusive pegar esse gancho porque a diferença entre esgotamento e burnout é a perda de funcionalidade.
Isso. Mora aí, né?
Tem muitas pessoas que estão cansadas ou exaustas e falam assim, ah Isabela, aquilo lá que você fala, que você teve, eu já tive, mas qual foi a perda de funcionalidade? Não. Não, porque cansaço é uma coisa, esgotamento é outro. Se você não trata o esgotamento e vive uma situação com características de assédio, e eu preciso ter essa informação, aí você tem uma coisa chamada dano existencial, que o desembargador Sebastião Oliveira explica já há muitos anos. É uma situação que rompe com o seu projeto de vida. Então, a mesma coisa, eu já queria pegar essa carona só pra explicar isso.
Porque a insatisfação, ela é um primórdio disso tudo. Ela tá lá na base. É fazer o que não gosta, é fazer o que não quer, é estar num lugar onde não quer.
Os valores são diferentes.
Seja um relacionamento. Tô insatisfeito com meu relacionamento, tô insatisfeito no meu trabalho. É porque o burnout, o conceito, é mais a questão do trabalho, né? Mas essa insatisfação, ela pode ser um apartamento que eu tô no prédio, que eu tô no bairro. É uma insatisfação. Essa insatisfação crônica, ela vai gerando um desconforto emocional. Ela vai prejudicando o sono, ela vai prejudicando a qualidade de vida. Ela vai trazendo dor existencial. E muitas vezes você comenta isso com uma colega num bar, num restaurante, e a colega fala, Migan, você precisa ir pro psiquiatra, tem um ótimo, doutor Pabllo, vai lá. Aí chega a Miga lá. Doutor, mas que essa consulta? Porque a Miga me mandou aqui. Eu comentei com ela que eu tô mal. Ela ficou preocupada. Então não é que elas vão por maldade, não.
Sim, sempre na tentativa de curtir, cuidar, sim, sim.
E eu falei, por que a amiga mandou aqui? Ela é sua paciente e ela ficou preocupada comigo. E aí nós vamos conversando e a gente descobre que ela não tem depressão, ela tem insatisfação.
Insatisfação.
Mas as pessoas querem medicar a insatisfação sabe pra quê? Pra dar conta de viver na insatisfação.
Que é a zona de desconforto.
Que vai fazer ela mudar. E aí entra a minha frase célebre. Os remédios psiquiátricos. estão tornando as situações insuportáveis, insuportáveis. Ela tá tornando o intolerável, intolerável.
Normalizando o anormal.
Na medida em que eu anestesio e te consigo manter numa situação que já não era pra ser mantida. Nesse sentido, eu sou absolutamente contra medicar.
Tá.
Porque é a dor, é a insatisfação, é essa zona de desconforto que vai falar, vamos mudar?
Você sabe que esses dias eu até brinquei, né? Falei assim, olha, cuidado pra não confundir zona de conforto com zona de desconforto. Tá, então já entendemos. Existe uma...
É legal isso. Porque o remédio psiquiátrico pode transformar a zona do desconforto numa zona de conforto na medida em que ela não vai sentir mais nada.
E deixa eu contar uma coisa pra você, Pabllo. Nesses últimos anos, o que eu tenho percebido é que toda dor é uma mensagem.
Isso, perfeito.
E aí ou você vai ouvir a mensagem e tentar entender o que essa dor está querendo dizer ou você vai anestesiar a dor. E quanto mais você anestesia a dor, mais chance você está tendo de ter aí de fato um problema de saúde. E quando eu estou falando de saúde, eu já não estou mais recortando nem mental nem física, só lembrando aqui que a mente faz parte do corpo. Então, a medicalização então da dor não é só uma lenda, está acontecendo.
Está muito.
E aí, como é que você... Aí, tá. Então, esse é um caso. Agora, o outro caso. A pessoa tem uma prescrição, ela precisa de ajuda. Eu precisei. Até hoje eu tomo. Outro dia, numa palestra, uma pessoa falou assim, Isabela, quando você recebeu alta da sua psiquiatra, eu... Que dia que eu recebi alta da psiquiatra? Ou seja, eu tomo remédio ainda de tarja preta, sim. Os danos que eu tive em 2016, Foram muito profundos. Tem gente que não consegue recuperar nunca. Então, aí a pessoa tem a recomendação e ela não quer. Ou por vergonha, ou porque ela vai ficar dopada. Como é que você explica, então, para quem tem a recomendação? Ou seja, viu que não é satisfação, que é uma doença mesmo.
Essa pessoa eu adoro. Porque essa é para essa que eu sinto que eu estudo todos os dias, que eu me dedico todos os dias. Então quando chega um paciente no meu consultório e fala, eu não queria estar aqui, eu não sei porque eu estou aqui, foi minha mulher que me mandou aqui. Meu filho que me mandou aqui. Eu não fui nem o que marquei essa consulta. Que bom. Eu fico assim, vibrando. Por quê? Porque ele precisa de mim. Não que os outros não precisam de mim. Até precisam pra ouvir o que eu tenho a dizer. Isso é curativo, viu? Se tiver tempo, eu conto a história desse caso, que é emblemático. Como eu transformei uma pessoa pelo que eu falei no consultório. Sem remédio. É o causal do boêmio. A história do boêmio. Chegou uma mulher com Um casal. Aí a senhora, ó, porque ele, ele, não sei o quê, pipopá, o quê? Ok, a senhora podia me esperar lá fora, que eu vou entrevistar? Sim, entrevistei. Chama ela lá, hein, bro. Aí eu falei assim pra ela, olha, o seu marido tem um problema muito sério, menina. Tá vendo? Como foi bom? Você não queria vir? Tá vendo? Qual é? O seu marido é boêmio.
Boêmio?
Boêmio. Foi arregalou, igual você arregalou aí pra mim. Gosta da cerveja. Da noite.
Violão.
Até três horas da manhã. Eu não acredito que eu vou dar uma consulta num psiquiatra pra ouvir que meu marido é boêmio. Pra isso eu não precisava de um psiquiatra? Sabe por que eu tive que falar isso pra senhora? Porque a senhora me procurou como técnico, como médico. Eu não sou seu amigo.
Não sou o quê?
Seu amigo.
Seu amigo.
Então eu não tenho relação afetiva com a senhora, então o meu posicionamento com a senhora é eminentemente técnico. E você sabe por que a senhora quer transformar a boemia dele num diagnóstico médico?
Entendi.
Porque sendo doença tem tratamento. E a senhora no fundo veio aqui esperando um remedinho pra ele dormir nove horas da noite de conchinha com a senhora.
E aí você não deu remédio?
Me xingou, acabou com a minha vida.
Foi cancelado das redes.
Fechou a porta, bateu a porta. Não deu nem tempo de eu falar, pega lá o seu dinheiro. Ela já tá. Oito meses depois, tô lá atendendo. Aí entra uma pessoa. Pois não, só lembro do boêmio. Vem me matar aqui dentro agora. Lembro, claro, nervoso. Aí ela... Calma! Ela viu que eu fiquei... Calma! Eu primeiro vim aqui pra te pedir desculpa aquele dia.
Uau!
Pra te pedir perdão. A forma que lhe tratei. Aí eu falei, claro, a gente tá acostumado. E segundo, pra dizer que aquilo que o senhor falou ficou reverberando, assim, me maltratando na minha cabeça. Conclusão. Conversamos, pensamos, nos separamos. Porque concluímos que ele não é pra mim e eu não sou pra ele. E eu vim aqui pra falar pro senhor continuar falando o que o senhor fala. Não deixe de ser quem é o senhor do jeito que o senhor é. Fale.
Porque aquilo foi muito importante pra minha vida. Imagina se você tivesse recomendado uma medicação.
E eu falei isso pra ela. Eu falei assim, eu posso dar um diagnóstico pra ele e eu tenho um remedinho aqui que ele vai dormir 10 horas da noite de conchinha pra senhora todos os dias. Só que nesse momento eu estarei criando um doente.
Aham. Olha que interessante.
E é isso que às vezes a gente faz. Porque, principalmente entre casais, às vezes você tem um comportamento que me desagrada, eu te chamo de quê? Doente. Eu quero que você marque a consulta pra ter um diagnóstico. Simplesmente porque você tem um comportamento que não me agrada. Então nós estamos inventando diagnósticos e doenças pra simplesmente comportamentos que não agradam o outro. Aí eu te chamo de doente.
Então, só para esclarecer, deu para entender o que é tristeza, o que é depressão, o que é circunstancial, o que é uma doença, o que é insatisfação, o que é depressão, tudo isso nós já falamos, e agora você está me trazendo o seguinte, cuidado com o que você pede, porque você pode ter, e é evidente que a gente tem muito mais farmácia do que bibliotecas nas esquinas, eu não sou contra as farmácias, também já estou dizendo isso, mas está na hora da gente ser mais responsável com o que nós fazemos conosco, e antes de passar para o próximo assunto, mesmo tomando a medicação, ela não anula a sua responsabilidade de mudar o estilo de vida.
Perfeito. Eu falo isso muito com o paciente. O medicamento agora é necessário, eu falo isso para ele. Você está muito mal. E é até covardia eu falar nesse momento que você precisa fazer atividade física.
É, não vai ter condições.
Você não tem condição.
Exato.
Então vamos passo a passo. Mas faz um acordo comigo. Eu vou te dar um medicamento. Ele vai te melhorar. Mas não pare aí. Não se acostume com essa melhora do remédio. Use a melhora do remédio pra mudar sua vida.
Como estímulo.
Seu estilo de vida, novas escolhas, novas decisões. Mude o que você tem que mudar. Porque se você se acostumar só com a melhora do remédio, você não estará melhor. Você só estará anestesiado.
Anestesiado.
Melhor estará se tiver intervindo nos fatores causadores da sua doença. Aí você está melhor. Pronto.
Perfeito. Pablo, antes da gente encerrar, onde a falta de sono entra nisso tudo? Quais são as correlações que você pode fazer entre tudo que nós estamos vivendo como sociedade, em termos de agressividade, violência, irritação, perda de produtividade, X, com a privação de sono?
A privação de sono, as doenças do sono, hoje, é a mãe de todas as doenças.
Repete, por favor.
A privação do sono. Ou os distúrbios do sono, como a insônia, a apneia. A má qualidade do sono. Ou a falta de sono. É o guarda-chuva. É a mãe, o pai, a avó, o avô das doenças clínicas que estão aqui embaixo.
Para tudo, Brasil. O Pablo... Agora vou começar a até gaguejar. Eu juro por Deus, vocês já sabem que eu não sou médico, eu sou psiquiatra, eu sou neurologista, eu sou comunicadora, eu sou especialista em comunicação que estudou área da saúde já há seis anos. Eu esbarro nisso todos os dias. Porque diante de várias pessoas que me procuram, a primeira coisa que eu pergunto é, como tá seu sono?
Perfeito.
Eu não encontrei nenhuma pessoa até hoje que me descrevia alguma situação muito incômoda.
Que tava dormindo ótimo.
Que tava dormindo bem.
Porque aqui, nesse guarda-chuva, estão as doenças mentais. Depressão, ansiedade, pânico. Aqui estão as doenças clínicas, endocrinológicas. Aqui está a obesidade. Aqui estão as doenças infecciosas. Eu vou... Um minuto. Olha que caso. Uma paciente chega para mim. Meu ginecologista me mandou aqui. Eu falei, por quê? Porque eu tenho uma infecção de candidíase de repetição há três anos. E já gastei mais de 20 mil reais. Já fui a São Paulo. Já fui em Rio de Janeiro. Já fui no Rio Grande do Sul. E eu falei, por que você tá aqui? Porque ele tá achando que eu tô com depressão e pediu pra que o senhor me ajudasse, me tratasse. Eu falei, o quê? Primeira pergunta que eu fiz?
Como é que tá a sua sonhora?
Tá ótima, ela perguntou. Aí eu falei, você jura? Você acorda bem? Ah, não, eu acordo cansado. Quanto tempo de noite você tem? Quatro horas de sono por noite. Há quanto tempo você dorme assim? Desde 2019, um pouco antes da pandemia. Há quanto tempo você está com a infecção de repetição? Há uns três anos. Eu falei assim, é isso. Você está com essa infecção de repetição porque você está privada de sono. Então por isso que eu falei do guarda-chuva.
Totalmente.
Os processos infecciosos crônicos que se repetem está relacionado à falta da imunidade que não está sendo reposta no sono de qualidade.
Dormiu mal, viveu mal. Último sono, último sono. Último dado da Associação Brasileira do Sono diz que quem dorme menos de seis horas por noite tem quatro vezes mais chances de morte.
É isso aí. É isso aí. Isso é só um dado. Se você quer saber mais sobre sono, leia um livro, chama-se Porquê Dormimos.
É sensacional.
E ali estão as relações que ele faz. Sabe como acabou a história dessa paciente? Falei pra ela, fui aumentando as horinhas de sono dela, ela foi, foi, foi. Um dia ela me encontra e falou assim, doutor, eu estou de férias, estou em Pupiauí, com o meu namorado. Ela já não namorava mais, ela tinha vergonha do cheiro. E ela falou, meu namorado. Ela falou, você está boa? Estou ótima. Só porque voltou a dormir. Remédios, pomadas, médicos e tratamentos e dinheiro e viagens. Ninguém nunca tinha perguntado do sono.
Eu posso fazer um gráfico assim? Olha, quanto menos sono, mais irritabilidade, menor fica a minha imunidade.
As relações são assim, vamos fazer os gráficos? Quanto menos sono, mais obesidade. Quanto menos sono, mais irritabilidade. Quanto menos sono, mais desatenção. Quanto menos sono, mais depressão. Quanto menos sono, mais tudo isso. Mais gripe. Quanto menos sono... Mais intolerância. Mais intolerância. Mais isso, mais briga. O sono, ele é a mãe, o pai, a avó, o avô da saúde física e mental.
Boa noite, gente. Vou aproveitar que você está aqui. Doutor, vou dizer pra gente encerrar o seguinte. Hoje, o meu tempo de sono é inegociável.
Isso.
Mas eu só descobri isso depois que eu perdi a minha saúde. Aí eu recupero a minha vida, beleza? Então, o que que eu não posso abrir mão? Meu sono. Isso. Eu ainda tô insistindo muito pra que o meu segundo inegociável seja a minha atividade física. Mas eu já consegui colocar o sono. O que que significa o inegociável? Pode ser quem for. Dez horas eu já estou dormindo.
Isso, isso.
Porque seis horas eu vou acordar. E eu já sei que para funcionar bem no dia seguinte, sem ficar me entupindo de café, anestésicos, energética, etc. Eu preciso dormir oito horas. Sempre foi assim. Aí agora quem está ouvindo isso fala assim, então quantas horas eu preciso dormir?
Isso é muito individual. Em relação a sono, não há nada universal.
Que barulhão! Mas tudo bem, gente, repete.
Em relação ao sono, não há uma receita universal. Se você leu um livro, se você ouviu de alguém dizendo que o ideal para sono é dormir 8 horas, 9 horas ou acordar isso, mentira. Porque isso é determinado biologicamente e geneticamente. Você precisa de 8, eu preciso de 9. Tem gente que precisa de 6, tem gente que precisa de 12. Então, como descobrir isso? Pegue umas férias que vocês estejam descansados e durma. E acorde sem despertador em poucas horas. Nossa, eu me sinto bem quando eu durmo. Pronto.
Eu me lembro quando o Rodrigo Boccardi, nós trabalhamos juntos na Globo por muito tempo, ele falava, amanhã eu vou dormir até acordar. Quando ele estava de folga, ou seja, amanhã eu vou dormir até acordar.
Eu achava o máximo. que deveria ser o normal pra gente, né?
Entendi.
Que deveria ser o normal. Então vivemos numa sociedade privada de sono, vivemos numa sociedade sobre um império do despertador, e isso tá maltratando muitas pessoas.
E o pior, eu vou dizer o que é, tá? Atenção. Este aparelho, ele não é mais, né, só pra você se comunicar com as pessoas. Aqui tem máquina fotográfica, tabelas, banco, mas também tem o despertador, então se você Ao desligar o despertador, já vai com o dedinho nas mensagens ou redes sociais?
Você já traz tudo pro início do seu dia, né?
Eu deixo o telefone no modo avião, aí eu desligo o despertador, levanto, aí vou escovar o dente, fazer minha higiene, vou cuidar da Angelina, aí quando eu consigo colocar o uniforme na Angelina, ou seja, vamos começar agora o dia, aí eu tiro do modo avião. Porque senão vão vir as demandas.
Ontem eu estava participando de uma entrevista e a pessoa me perguntou isso. Qual é a primeira coisa que tem que fazer quando acorda e abrir os olhos? De saúde, física e mental. Sol na cara, no olho, na retina. Sol, abre tudo. Antes de qualquer coisa. Para que você inicie o ciclo do cortisol alto e da melatonina baixa. É a primeira coisa que tem que ser feita. Quando eu pego a minha bebezinha no berço... Giovana. Papai, mamãe. Eu adoro pegar ela, quando ela acorda. Primeira coisa que eu faço. Aí pongo ela e falo, bom dia, Sal!
Exato, exato.
Porque ali eu tô inibindo a melatonina dela, eu tô estimulando mais ainda o cortisol dela pra vida dela. Então antes de celular, antes de qualquer coisa, o ideal é fototerapia, é sol na retina.
Pra gente encerrar, pra quem está nos assistindo e ainda está dormindo mal, ainda não se convenceu que precisa pegar esse dedinho, desligar o telefone mais cedo, não ficar consumindo conteúdos. Você conhece gente que acorda para ir ao banheiro à noite e pega o telefone?
Demais.
Teve pesquisa. Eu não me lembro agora o número.
Tem mesmo.
Não sei qual a porcentagem de brasileiros que acordam para fazer xixi e checam mensagem no telefone. Aí dorme mal, não sabe por quê. É. Tá, então pra essas pessoas ainda, qual é a sua recomendação pra gente começar a cuidar melhor do nosso sono?
O que é um sono de qualidade? É um cérebro e um corpo tranquilo que você entrega pro seu travesseiro. Por que que nós estamos vivendo uma epidemia de insônia? Porque nós estamos entregando um corpo e um cérebro pegando fogo pro nosso travesseiro. Você não vai dormir. E aí você vai marcar uma consulta com o médico falando que você tá com insônia. E ele vai te dar um remédio pra dar uma pancada no teu cérebro. Então, sono de qualidade é quando você entender que você tem que entregar esse cérebro relaxado pro seu travesseiro.
Boa!
Então, pelo incrível que pareça, o corpo que você bota na cama é o mesmo corpo que tá vivendo durante o dia. Não tem dois corpos, não tem dois momentos. Sério? Porque as pessoas acham que tem uma chave.
Eu achei que quando eu deitava, tudo se apagava.
É outro corpo, é outro cérebro, é outra vida. Não é, eu tenho que te falar que aquele cérebro que você entrega para o seu travesseiro é o cérebro que está vindo tenso, nervoso, ansioso, cheio de problemas. O que é dormir bem então? Você pode até ter um dia assim, tenso, nervoso, ansioso, com problemas, mas você tem que ter capacidade de relaxamento, que se inicia duas horas antes de você se entregar para a cama. E é aqui que eu começo a diminuir o estímulo luminoso, lá em casa mesmo, eu tomo todo o cuidado do mundo, chega uma determinada hora eu começo a desligar as lâmpadas, bota luz indireta de abajur, tira a luz do teto, bota filtro de celular, no celular, no computador e ler. Antes de dormir em telas, diminui em 10 a 20 minutos a quantidade de sono profundo.
Repete.
Ler telas antes de dormir, por causa da luz azul, diminui em até 10, 15, 20 minutos a quantidade de sono profundo, que é o sono reparador. Então às vezes você até dorme, mas tá acordando cansada, é porque o teu sono tá superficializado e você nem sabe. Você tá sem sono profundo.
Não sei se você sabe, mas é no sono que acontece toda a faxina do nosso corpo, toda a produção dos hormônios.
Eu sou apaixonada. O Alzheimer está relacionado com má qualidade de sono. Quando a gente vai chegando aos 40, 50, nós vamos perdendo algumas características do sono. E olha que interessante, alguns estudos mostram que por perder algumas fases importantes do sono, ou pelo menos diminuir fases que faz a faxina, é que começa o acúmulo das proteínas do Alzheimer.
Exato, exato, exato.
Então tem estudos mostrando que esse processo de envelhecimento do sono é que é um fator de risco para o Alzheimer. Então se a gente começar a intervir mais cedo nessa qualidade do sono, nós estamos protegendo-nos do Alzheimer.
Ah, eu vou dormir, pode ser um programa, doutor? Falando sério.
Dá sono, não dá pra falar de sono?
Não, é que esse horário, né? Inclusive, a gente tá gravando aqui no Panambi, já está à noite, e eu fico muito honrada em ter você. A Cecília também está aqui, tá, gente? Cecília é a esposa, tá? Doutor Pabllo Vinicius, a mãe da Giovanna. Obrigada pelo tempo de vocês. Que bom que a gente pôde falar sobre isso. E pra quem quer continuar te acompanhando, quais são as páginas?
Eu tô no Instagram, arroba DR Pabllo Vinicius, no YouTube, DR Pabllo Vinicius. E é um prazer estar recebendo vocês lá, porque eu costumo falar que mais do que cuidar de pessoas, eu gosto de ensinar pessoas. Porque quando a gente ensina, a gente cuida duas vezes. Então eu sou muito mais professor do que médico. E a minha consulta é uma consulta em que eu ensino meu paciente a viver melhor. É como se realmente desse um anzol pra ele pescar. e se tornar um ser humano completo, saudável, independente até de mim mesmo.
Cuida da pessoa, não de uma doença.
Exatamente.
Obrigada, Pablo. Muito obrigada. Se fez sentido pra você, tenho certeza que fez. Compartilha então com quem você quer bem. Provavelmente você conhece alguém que não está dormindo bem e vai se beneficiar muito dessas informações. Eu te encontro no próximo Interioriza. Até mais.
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