Como ser de verdade trabalhando com propósito? João Branco - EP 58 - Ïnterioriza
20 Feb 2024 · 33 min
João Branco left his job as Vice President of Marketing at McDonald's Brazil to become a professor. He talks about what it means to work with real purpose and how intention shapes your career.
Chapters
Quando o Luciano Santos veio aqui ao programa, ele disse assim, Isa, você precisa falar com o João Branco. Eu, João Branco? Quem é o João Branco? Confia em mim. Então, apresento para vocês agora o João Branco, aqui na interior, Isa, que vai nos falar como nós podemos ser de verdade trabalhando com um propósito. João, bem-vindo.
Oi, Isa. Oi, pessoal. Prazerzão estar aqui com vocês. Obrigado, Luciano, pela ponte, hein?
Não é.
Vamos nessa.
Não é. João, por que eu não te conhecia? Porque antes você era...
Eu era vice-presidente de marketing do McDonald's no Brasil.
Então, gente, eu não tinha o convívio com o João. E aí eu gosto muito quando alguém me diz assim, você precisa conhecer tal pessoa. Eu já sei que é o universo ali nos conectando para transmitirmos uma missão que vai democratizar algo que vai fazer bem para a maior parte das pessoas. Aí você não trabalhou, você saiu do Mac.
Sair e, aliás, corrigindo o que eu falei. Eu falei, eu era vice-presidente de marketing, mas eu não era nada disso, né? Eu estava trabalhando como vice-presidente de marketing. Eu era um marqueteiro, trabalhava como marqueteiro.
Quantos anos você ficou no MEC?
Fiquei nove anos. Agora, a gente não é o nosso cargo, né, Isa? A gente não é gerente, a gente não é professor, a gente não é manicure, a gente não é motoboy, a gente está trabalhando com alguma coisa. Eu tinha plena consciência de que eu estava. numa empresa muito grande, muito legal, fui muito feliz trabalhando lá, muitos momentos alegres.
Isso é ótimo.
Mas agora eu tô num outro momento, agora trabalhando como professor, mas sigo a mesma pessoa, sigo aquele João, que é marido da Nátaly, pai do Matheus, pai da Júlia, que é um cara de fé, que é também uma pessoa que tem dificuldades pra fazer algumas coisas e facilidades pra fazer outras.
Por que você tem facilidade?
Eu tenho facilidade com números, eu tenho facilidade com pensar em soluções pra problemas, eu tenho facilidade em me comunicar, acho, e tenho facilidade pra ter ideias diferentes.
Rapaz, você não quer ser presidente do Brasil? Tem facilidade pra resolver problemas, tem um monte aqui.
Mas é que eu tenho um monte de dificuldade também.
Me conta quais são as dificuldades.
Eu sou péssimo em tocar instrumentos, eu sou péssimo em... chegar num consenso entre muitas pessoas, essa habilidade política, eu vou confessar que não tá nas minhas fortalezas.
Também não gosto, não.
Também sou péssimo em decorar números, fatos históricos, sou péssimo em andar de skate, em assobiar, sou péssimo em um monte de coisa.
Entendi. Viu? É bom a gente já começar aterrissando aqui sobre pontos fortes e pontos que não são tão fortes e tá tudo certo.
Tudo certo.
O que você descobriu, An?
Eu acho que cada um de nós tem um conjunto de habilidades, de talentos que a gente vai descobrindo ao longo do tempo. Talvez tenha nascido pra ser uma excelente cantora de ópera e nunca nem experimentou cantar ópera na vida. Talvez você seja uma excelente funkeira e nunca nem experimentou.
Alô, Anitta.
Será, né? Então, eu acho que ao longo da carreira, ao longo da vida, a gente vai sendo exposto a situações que a gente vai descobrindo. Olha, eu comecei a fazer isso aqui. Pô, eu tentei desenhar e eu vi que, assim, se eu praticasse isso aqui, talvez eu tivesse aqui uma habilidade, hein? E eu fui descobrindo. Como é que você descobre? Pelos elogios que você vai recebendo, os feedbacks sinceros, não os puxa saco, né? Aquilo que as pessoas vão falando, olha só. E aí você descobre um pouco um lugar de onde você consegue fazer algo que é muito útil para os outros. Porque eu não acho que a gente nasceu com a habilidade pra tocar piano legal só pra gente tocar pra gente mesmo. Só pra gente ficar fechado em casa tocando, olha que bonito. Não. As pessoas precisam de uma música pra deixar a sua vida mais feliz. Então a hora que você descobre que você consegue fazer uma musiquinha, não precisa ser o melhor pianista do mundo, mas a música que você faz toca os outros, agrada os outros, melhora a vida dos outros, você tá descobrindo aí algo que é muito útil em você. E aí vai empurrando, então, a sua carreira, o seu trabalho pra isso, porque isso vai te dar uma satisfação diferente no trabalho.
Perfeito. João, o que que você foi descobrindo, então, na sua carreira? Quando você fala, a gente vai ouvindo, prestando atenção nos feedbacks, e vai percebendo que, poxa, aquela decisão que eu tomei lá atrás, legal, mas agora eu posso tomar outra. Já faço essa introdução porque muitos de nós, ao escolhermos uma profissão ou um relacionamento, temos a tendência de achar que a gente não pode mudar de ideia, que a gente não pode encerrar um ciclo e começar outro. Então, o que você descobriu na sua jornada ainda lá no MEC?
Bom, primeiro comecei minha carreira em finanças. Lá atrás, meu primeiro emprego foi numa área de planejamento financeiro. Falei que eu tenho facilidade com números, queria trabalhar em marketing, mas meu primeiro emprego foi bem em finanças. E eu comecei bem. Fui rápido, mas no meio do caminho eu olhava o pessoal que fazia o fechamento do mês da firma, sabe? O pessoal que faz o fechamento da contabilidade. Então eu achava aquilo chatézimo. Falei, nossa, eu não quero fazer isso. Eu gosto de número, mas isso aí não.
Curioso que você falou, eu gosto de números, mas eu não memorizo números.
Pois é.
Tá.
Então, eu não sei, talvez eu seja... Tenho facilidade com lógica, eu não sei. Eu tenho alguma coisa boa com o número, eu tenho alguma coisa péssima com o número. Eu tenho uma coisa excelente com memória também. Eu gravo o rosto, assim, eu podia trabalhar no FBI, acho. Mas eu sou péssimo de lembrar quando foi mesmo que a gente viajou, sei lá.
Não lembro.
Não lembro. E aí eu fui descobrindo, eu gosto de número, eu gosto de resolver problemas com número, eu não gosto de contabilidade, fechamento, de demonstração de resultado, não gosto. Beleza, aonde que isso pode ser útil então? E aí uma dica, pessoal que tá querendo mudar de emprego, de trabalho, pensa numa mudança gradual. Fala, João, eu sou excelente cozinheira, mas eu queria trabalhar com marketing. Vai trabalhar com marketing de comida. Primeiro, porque aquilo que você já sabe vai ser útil no próximo passo, não vai jogar tudo fora. Então, eu trabalhava numa empresa farmacêutica em finanças, mudei para marketing de remédio.
Qual era a farmacêutica de finanças?
Trabalhava na Novartis, que é uma empresa farmacêutica. Trabalhei lá quatro anos em finanças. Depois eu fui para a P&G, que é uma empresa marqueteira de bens de consumo, mas eu comecei trabalhando em marketing de remédio por causa dessa mudança gradual. Aí deixou ver se eu sou um bom marqueteiro.
Peguei.
E fui. Lá eu podia virar um marqueteiro que cuida de, sei lá, de marketing de vários países, ou que faz a parte mais introdutória, que desenvolve o produto, ou que faz o fim da jornada, que pensa no ponto de venda. Falei, não, como eu sou bom aqui de números e tal, eu sou bom de ficar bem no meio mesmo, no meio campo aqui, que é montando o que eu vou vender, para quem que eu vou vender, organizando os projetos. E fui vendo que eu realmente ia bem aí. Só que ao longo de... Fiquei sete anos na P&G, depois cinco anos na Ferreiro, depois nove anos no MEC, eu fui vendo que eu também, opa, eu sei apresentar legal, eu sei dar uma aula sobre isso legal, tenho uma certa didática. Olha, eu sei explicar de uma maneira que muita gente entende. Não sei qual que é esse marqueteiro que fala que você não entende.
Sim.
Fala tudo em inglês, fala tudo difícil. E aí, eu fui me encantando por essa aula de me comunicar também, que é o que eu tô fazendo agora.
Inclusive, quando você fala aqui da... das suas experiências. Deixa eu já contar aqui para a turma que o João é autor deste livro. de propósito. Coloque a atenção certa, coloque a intenção certa no seu trabalho e preencha sua rotina de satisfação e significado. Lançado pela Editora Gente, é um baita livro. Aí aqui atrás tem algumas frases, né? E aí o Marcelo Pimentel, o senhor do Grupão de Açúcar, ele diz assim, João nos provoca a pensar sobre como, por meio da minha vida, do que eu faço, nos tornamos capazes de deixar um legado positivo na vida de outras pessoas. João, você acha que isso é para todo mundo ou é só para pessoas como o João Branco, como eu, que vivemos situações e não fugimos da crise existencial? No caso, você nem teve crise do ponto de vista que não é positivo. Isso é pra todo mundo?
Eu acho que é pra todo mundo. Agora, antes de eu responder por que eu acho isso, eu tive também a minha crise de me perguntar, será que eu tô fazendo a coisa certa? Neste momento, tem médicas salvando vidas, tem bombeiros apagando incêndios, e eu tô aqui fazendo embalagem de chocolate, fazendo promoção de drive-thru, fazendo material de ponto de venda de escova de dente, trabalho muito pouco nobre, sagrado, importante. Será que eu não devia largar tudo e ir trabalhar numa ONG, fazer um negócio, sei lá.
Você pensou isso?
Pensei muitas vezes. Porque marqueteiro tem a reputação de vendedor de carro usado, sabe? Marqueteiro parece que é o trabalho que você faz. Você tá tentando empurrar um produto com uma pessoa que não precisa, cobrando mais caro do que vale, usando todas as técnicas possíveis de enganação. É isso que marqueteiro faz. Todo mundo acha isso.
Mas não é.
Não é. Não precisa ser.
Ótimo.
Não deve ser.
Ótimo.
Só que ainda assim, mesmo se eu trabalhar com muita ética, com muito cuidado, tem trabalhos que são tão mais necessários. Mas no meio dessa reflexão eu descobri que não. Se tivesse só médicas e bombeiros no mundo, o que a gente ia comer? O que a gente ia vestir? Onde a gente ia dormir? Como a gente ia pra lá e pra cá? Então a gente precisa de cabeleireiro, a gente precisa de cantor, a gente precisa de jogador de futebol, a gente precisa de jornalista, a gente precisa de juíza, a gente precisa até de marqueteiro.
Exato.
Então eu vou fazer o meu trabalho da melhor forma possível. E foi assim que eu levei a minha carreira.
Entendi.
Agora, em um determinado momento, também entendi que pra perceber que num trabalho até de um marqueteiro dá pra ter propósito, sentido e significado, eu precisava trabalhar com a intenção certa.
Perfeito.
Ou seja, qualquer um que faz um trabalho que é legal no sentido de ser de acordo com as leis moral e ético, qualquer um que faz um trabalho assim pode ver sentido, propósito, significado no que faz. Eu sou recepcionista do prédio aqui onde a gente está. Pô, que grandes diferenças eu faço no mundo? Muitas. Eu cheguei aqui, faltando 10 minutos pra começar, a pessoa percebeu que eu já tava ali preocupado com o horário, foi super atenciosa, rapidinho ela digitou ali, já ligou aqui, me explicou como que faz pra passar na catraca. Se aquela pessoa tá fazendo isso com a intenção de melhorar o meu dia, Parte do impacto que nós vamos causar hoje aqui foi por causa daquela excepcionista.
Viu? Concordo.
Parte do impacto que nós estamos causando aqui é porque aqui atrás dessas câmeras tem gente muito cuidadosa olhando se o áudio tá legal, se a qualidade da imagem, se a qualidade da foto. Eu cheguei aqui e me perguntaram, você quer um cafezinho? Você quer uma água?
Tô com você.
Parte do impacto é isso. Então, qualquer trabalho, não importa. Ah, mas o meu trabalho eu só falo com 10 pessoas. Aquelas 10 pessoas precisam de você. Agora, se no seu trabalho você impacta milhões de pessoas, você tem uma responsabilidade ainda maior. Você não vale mais do que quem fala só com 10 pessoas. Seu valor não muda. Seu valor, da sua pessoa, de quem você é. você tem a mesma possibilidade de impactar a gente. Um impacto é uma coisa que talvez faça mais diferença ou tu faz menos diferença, mas a gente precisa do trabalho de todo mundo. Então todo mundo tá ouvindo a gente aqui agora, não importa o que você faça, não importa. Se você é vendedora, se você é sapateiro, eu preciso de sapato.
Total.
Eu preciso do que você vende. Faz uma diferença naquela vida da pessoa que vai falar com você hoje.
Antes de eu continuar com uma frase que tá aqui no seu livro, quero só reforçar que a transição que você fez foi em um momento em que você estava muito bem obrigada. A turma tende a achar que transição só é feita quando tem alguma coisa ruim e não precisa ser.
De jeito nenhum. Eu acho que a transição pode ser ocasionada porque você não aguenta mais trabalhar lá. E aí eu diria, se você tá enfrentando conflitos de valores pessoais, Se você está num lugar onde você sente que não bate com os seus princípios, você tem toda a razão de buscar uma transição. Vai! Não é pra você ficar aí. Agora, se você está num lugar só que você está vendo que tem um chefe chato, tem um cliente caloteiro, será? Eu queria tanto achar um trabalho que eu amo, que tudo vai ser lindo. Vou dizer pra vocês, eu desisti de achar esse trabalho aí. Não existe trabalho perfeito. Trabalho é perrengue. Trabalho é espinhento. Sempre vai ter um troço lá que você não gosta. Quer uma prova disso? Vai conversar com alguém que trabalha numa ONG? Vai conversar com alguém que é totalmente dedicado a, sei lá, um projeto religioso? Um jogador de futebol? Um youtuber? Pergunta pra eles. Aí esse trabalho que parece que é fácil, que é legal, que é bonito, que é gostoso. Pergunta pra eles. Eles vão ter as mesmas reclamações que você tem.
Porque isso significa que, ao desenvolver o seu talento, nem todos os dias serão de êxitos. Você vai viver em previstos, vai viver desafios, vai viver altos e baixos. Mas, se você estiver com o propósito e com a intenção correta, você vai entender que aquilo faz parte do jogo.
Agora você me deu um gancho. Quando eu tive aqueles meus questionamentos, sabe? De pensar, será que eu devia estar fazendo isso? O que eu fiz? Eu fui buscar ajuda. Tem gente que consulta, vai fazer terapia. Tem gente que faz algum processo de coach, de mentoria, né? Sei lá. Eu busquei uma pessoa que pensava muito parecido comigo e que era muito mais experiente do que eu. Tem que bater, tem que dar esse match, né? Então, se tem dificuldade sobre lidar maternidade e trabalho, pega uma pessoa que você vê que lida muito bem com isso, bem mais experiente que você, que também é mãe, que também trabalha, porque é mais fácil, né? Então, eu fiz isso. Fui conversar com uma pessoa, Antônio Nasser. Ele é um coach que atende lá em Curitiba ou online, aí fica uma dica pra galera, tá? No meu caso, tudo a ver. Fala com ele e falou assim, João, quantos dias você trabalhou já na vida? numa dessas conversas, né? E eu já tinha trabalhado, sei lá, mais de 3 mil dias, né? Eu já trabalhei faz uns 15 anos na época. Você já trabalhou mais de 3 mil dias. Quais desses dias você chega em casa, põe a cabeça no travesseiro e fala assim, hoje o que eu fiz era o que eu devia ter feito. Era aquilo que eu... Parece que eu nasci pra fazer isso. Hoje o que eu fiz, eu faria até de graça. Teve algum dia assim? Quais dias foram esses? E eu travei assim, fiquei uma semana pensando. Que dias? Teve dias assim? Que dias? Eu cheguei em casa e falei assim, é isso. Por que você tá aqui conversando comigo que você tá meio incomodado no seu trabalho? Quer dizer que tem uma coisa que não tá legal nos seus dias. Mas todos os dias estão péssimos. Todos os dias estão horror. Ou tem dias que não. Você fala assim, esses dias aqui. E eu fiquei pensando nisso. Minha conclusão, os dias que eu fui promovido, os dias que eu ganhei um grande aplauso, o dia que eu saí no ranking de melhor marqueteiro do Brasil, o dia que o meu projeto foi muito elogiado, o dia que eu ganhei um aumento, foram muito legais.
Mas não foram.
Mas não foram esses dias.
Quais foram esses dias?
Isso eu acho que é muito pessoal, tá? Acho que cada um vai ter os seus dias. Mas no meu caso, foram dias em que eu fiz algo por alguém que só eu podia ter feito. Essa foi minha conclusão. Eu falei, olha, aquele dia tinha uma pessoa na minha equipe que precisava de uma ajuda que só eu podia dar. Uma ajuda que tinha a ver com o nosso trabalho, com a nossa profissão, mas que ia além, que deixava essa pessoa melhor. Uma pessoa que tava grávida no trabalho e que não tava se sentindo bem, que precisava de uma ajuda, precisava de um chefe que entendesse aquilo. Uma pessoa que não tava performando legal, mas que precisava de alguém que mostrasse o caminho de como performar legal. Ou de uma pessoa que tava num lugar errado. E que precisava de alguém que de uma maneira muito empática, humana, chegasse e falasse, olha, vamos ter uma conversa? Só que eu cheguei só em quatro dias dos meus 2 mil dias, 3 mil dias. Só tinha quatro exemplos pra dar. E aí a conversa foi, será que a gente não conseguiria colocar um dia desse por ano? Um dia desse por mês? Um dia desse por semana? Será? O que que tava diferente nesse dia? E a minha conclusão é que eu não precisava mudar de emprego pra mudar de trabalho. Eu precisava mudar eu. Eu precisava perceber essas oportunidades no dia a dia de fazer a diferença na vida de alguém. Vou dar um exemplo muito bacana aqui. Aí no verso do meu livro tem a história, tem um depoimento do Paulo Camargo, que foi meu chefe no McDonald's, tá?
Abre aspas. Um livro incrível para nos ajudar a ter uma conversa sobre trabalho com o nosso próprio coração.
Isso aí. O Paulo foi presidente do MEC, ou seja, executivo de uma baita empresa, um cara muito cobrado pro resultado. Ele é ex-militar, então é um cara super exigente. Ele me ligava 24 horas lá, tava sempre pedindo coisa. Só que ele também me dava vários exemplos.
Ah.
Disso que eu tô falando. Ele era capaz de, por exemplo, um dia, a gente tá andando no escritório assim, rápido, né? Indo pra reunião atrasado, falando, João, nós temos que melhorar a rentabilidade, nós temos que melhorar o lucro, nós temos que mudar o resultado, nós temos que fazer isso, porque tal, tal, tal. E no meio do caminho ele parar e fala, João, pera só um minutinho, eu preciso fazer um negócio. Ia ali, dava seis passos pro lado, chegava uma pessoa que tava ali e falava, cara, Olhando no olho dele assim, você foi muito bem no seu trabalho hoje. Hoje você fez uma apresentação sensacional.
Parabéns.
Muito legal o que você fez. Quem que era aquele menino? Era um rapaz que tinha começado a sua carreira fritando batata lá no McDonald's num restaurante. e que, ao longo do tempo, foi performando bem, mostrou interesse em trabalhar numa vaga no escritório, conseguiu fazer isso, que não é fácil.
Não é.
Veio uma oportunidade, foi pro escritório. Logo no começo, ele cheio, né? Um universo novo, assim, é quase como se você tivesse ido trabalhar numa outra empresa, num outro país, num outro contexto. Você tem que aprender ali como funciona. De repente, ele vai muito bem. O presidente da empresa para ele no meio do corredor só pra elogiar. Ele dá aquela travada e fala assim, Paulo, se o meu pai ouvisse isso que você tá falando, ele não acreditaria. E o Paulo vira pra ele e fala assim, então vamos fazer uma chamada de vídeo com seu pai.
Liga pra ele, exatamente.
Pega o celular. É mesmo? É mesmo. Liga. O Paulo pega o celular e fala assim, seu fulano, eu tô aqui com seu filho. Sou presidente do McDonald's.
Você vai me fazer chorar.
Mas eu queria te dizer, seu fulano, que tudo aquilo que o senhor fez pelo seu filho valeu a pena. O seu filho tá indo muito bem aqui.
Preciso de lenço.
Hoje ele detonou aqui na reunião. Hoje ele foi muito bem. Ele tem um potencial enorme. A gente acredita muito no seu filho. Seu fulano, muito obrigado pela educação que o senhor deu pro seu filho, tá bom? Desliga o telefone. Fica os dois chorando ali, eu chorando aqui.
Eu chorando aqui.
Volta pra falar comigo e segue como se nada tivesse acontecido. Ih, João, precisa melhorar a retabilidade, vamos lá pra reunião, tal, tal, tal, tal, tal. Três minutinhos que você parou no seu dia ali, mas você percebeu, entendeu, que tem alguém ali. E pensa, não é que ele tava fazendo isso porque é um cara que tá ali...
Não tinha segundas intenções, não. Era aquela mesma.
É óbvio que aquele menino não vai mais querer sair daquela empresa. É óbvio que isso faz bem pro negócio também. É óbvio que aquela pessoa vai trabalhar melhor, vai produzir mais. Mas assim, existe uma intenção genuína de você aproveitar as oportunidades que estão na sua vida ali. Sabe, eu fico muito abismado de ver quando a gente tem um atendente do McDonald's que percebe que tem uma cliente que tá ali, que pediu um café, mas que tá chorando na mesa. E aí a atendente escreve no guardanapo que esse café deixa o seu dia um pouquinho melhor hoje.
Gente, eu vou chorar de novo.
Só isso!
Só isso!
E acontece muitas vezes na pessoa que percebe. O que mudou essa pessoa? Ela recebeu um treinamento especial? Ela é uma pessoa iluminada? Não! Ela só estava atenta. Ela só estava percebendo. Eu falei, é isso que eu preciso mudar. Eu não preciso mudar de emprego? Eu não preciso mudar de função? Eu posso ser um marqueteiro? Eu não preciso ir para um lugar que não tem meta para bater? Eu não preciso ir para uma empresa que não vai me cobrar? Não! Eu preciso eu mudar a minha intenção, eu preciso dar propósito no que eu faço, por isso que o livro chama assim.
Uma salva de palmas, senhoras e senhores. Só pra dar até meu sutiã que tá saindo aqui do lugar. Nossa senhora, o João... Só pra confirmar, você e o Paulo choraram nessa situação? Não foi só eu que chorei agora?
É lógico, é emocionante.
Demais, cara.
É emocionante, só que assim, ele fazia muito. E aí eu via o quanto que eu errava também, né? E quando eu comecei a fazer um pouco mais e como que muda... E não tem problema, você nunca fez isso, tá? Às vezes a gente fala, cara, eu nunca fiz isso. Experimenta hoje. Experimenta hoje virar pro garçom que vai te levar um negócio na mesa, olhar no olho dele, chamar pelo nome e falar, olha, tava tão gostoso isso aqui que você me serviu hoje, obrigado, viu? Faz uma diferença. Às vezes aquele cara tá tendo um dia péssimo, acordou 5 horas da manhã, deixou uma criança doente em casa, tá com problema na família e ele tá indo lá trabalhar e ele escolheu te servir com cuidado. Reconhece isso. É uma diferença brutal.
Você sabe que uma vez eu tive uma experiência breve em Brasília e eu fui ao shopping, estávamos eu e o meu marido, nós pedimos um café. Simples assim. Aí a moça veio, eu me lembro de ter falado, Paula, tudo bem? Eu quero tal, tal, tal café. Foi um incômodo para ela. Eu percebi que eu incomodei ela quando eu falei o nome dela. Falei, tudo bem? Eu quero tal, tal coisa. Eu senti que incomodou. Aí, depois, ela veio, trouxe o café. Aí, na hora de pagar a conta, ela chegou e falou... Por que você chamou o meu nome? Porque é o seu nome, Paula, não é? Mas, aqui em Brasília, ninguém me vê. Ninguém nunca me chamou pelo nome. Então, Paula, vamos para São Paulo. Vamos lá trabalhar comigo. Ou seja, você é a Paula, você me recebeu, eu estou aqui. Eu não sou melhor nem pior do que ninguém, você não é melhor nem pior do que ninguém, nós somos idênticas. Você tá me servindo café nesse momento, pode ser que amanhã sou eu que tô te servindo café, ou seja, eu tô te vendo. Eu me lembrei então dessa situação que eu vivi, mas é isso de novo, eu não sou melhor nem pior que ninguém, foi só um estado de presença.
É, a gente percebe, né?
Bom, Paulo Camargo, eu sou Isabela Camargo, então a gente deve ser primo, tá? Na nossa árvore genealógica, eu preciso levar meu currículo pra você? Não é porque eu sou caça, pessoas assim. Não é porque você é exigente que você não pode ser amoroso, não é porque você cobra que você está fazendo isso por mal? E você sabe que isso é o que nós ensinamos na segurança psicológica? Você já assistiu o Ted Lasso?
Já assisti.
Então. O Ted, que é um treinador americano, ele é um ser humano que presta atenção no que as pessoas estão falando. Isso não significa que ele não cobre. Isso não significa também que ele não fique bravo.
Mas tem formas, né?
Ai, gente do céu!
Tem forma de cobrar, tem forma de demitir. Gente, dá pra você... Eu não tô falando pra gente ser... Ah, então você vai aceitar qualquer tipo de performance, você vai ser injusto e você vai fazer de conta que é uma obra de caridade ali o seu trabalho. Não! Você precisa ser o melhor profissional possível, mas de uma maneira justa, humana, sensível, né? Até na hora de demitir, as pessoas percebem isso, se você tá se importando com elas ou não.
Ô, João, temos um problema, porque o Alexandre já me mostrou lá na plaquinha de cinco minutos. Eu tenho um monte de coisa pra te perguntar. Caramba! E aí, depois, mesmo assim, vendo todo esse contexto, por que você quis sair desse ambiente?
A única razão de eu ter querido sair do MEC foi por entender que eu poderia causar um impacto ainda maior, talvez, aqui fora. Então, quando eu tava no MEC, eu lancei o livro quando ainda tava lá, faz um ano, eu acabei de sair. Eu comecei a receber muitos convites pra conversar sobre isso. Porque é estranho você ver um marqueteiro falando sobre trabalhar com o coração. É estranho. Só que esse conflito, esse paradigma aí, talvez seja algo que... João, vem aqui dar uma palestra pra gente sobre como vender mais. A Valéria fala, vocês querem saber como vender mais? Mostra pro cliente que você se importa com ele. Trabalha com o coração. Mostra que você tá lá não pra vender, pra empurrar um negócio que ele não precisa, mas pra você ajudar, pra você oferecer uma coisa que vai melhorar um pouquinho a vida dele. Se até no Mac que entrega só um pacotinho de batatinha frita na mão de alguém, eu consigo ver isso. Imagina você que faz o que você faz, faz um impacto muito maior na vida das pessoas. E isso é inédito. É um negócio que eu falo, nossa, que inusitado. Eu achei que ele viesse falar aqui da tecnologia, da beleza, da criatividade, ele me fala isso. E isso ganhou uma atração e isso enche o meu coração de uma coisa diferente.
Agora o seu olho brilhou, tá?
Porque é diferente. Então, eu adoro vender coisas, ajudar a gente a fazer estratégia de marketing legal. Eu ajudo bastante gente fazendo isso também. Eu dou dicas de marketing, meus conteúdos lá. Arroba, fala João Branco, me segue lá, gente. Dão um monte de conteúdos de como vender mais. Mas quando eu falo isso... Eu vejo que é um impacto diferente. Eu fico diferente. E eu percebi que, opa, é uma coisa que eu sei fazer bem. É uma coisa que as pessoas precisam.
Entendi.
E é uma coisa que quando eu dou o meu melhor, faz uma diferença. E se eu pudesse aceitar todos os convites que estão me fazendo pra falar sobre isso? Pô, hoje minha agenda não permite. Mas será que eu conseguiria me dedicar integralmente a isso? A hora que a coisa começou a ficar de um jeito que minha agenda não dava mais, eu tomei essa decisão. junto com a minha esposa, né? Que tem que estar junto nesse barco. E falar, vou então pra esse caminho e fiz essa transição por propósito. Porque eu quero ter mais dias, Isabela, chegando no fim do dia, colocando a cabeça no travesseiro e falando, era isso que eu devia ter feito hoje. Era isso, né? O que eu fazia no Mac, eu também tinha essa sensação por causa dessa intenção. Mas quando você vê um... Cara, eu tenho chance de fazer um impacto ainda maior. E tem gente que acha que só dá pra fazer transição se você vai pra uma coisa mais glamurosa, mais famosa, sabe? Hoje eu falo, mas João, você saiu de vice-presidente do MEC, você tava ganhando tudo que era prêmio, você tava bem, a empresa gostava de você, saiu pra ser professor. Às vezes eu acho que alguém virou assim pra um maestro, sabe? Da orquestra. E falou, mas você saiu da posição de maestro pra ir tocar piano? Mas normalmente não é essa sequência. Normalmente você começa tocando o instrumento, você tá lá no terceiro naipe, tem uma hierarquia ali na orquestra, né? Você começa tocando o violino nas notas mais fáceis, depois as mais difíceis, depois você faz o solo, aí se você for muito bem você pode virar o maestro e tal, tem uma hierarquia. Você saiu de maestro pra ir tocar piano? É porque eu descobri que eu toco piano de um jeito diferente e cada vez que eu toco piano as pessoas gostam e eu... Cara, é isso.
João, eu posso passar cinco minutos do nosso combinado? Bora. Posso? Duas perguntas. Você comia Mac todo dia?
Eu comia duas vezes por semana. Sexta-feira quando eu fiz.
Todo mundo te faz essa pergunta?
Não, tá tudo bem. Adoro.
Nossa, eu fui agora muito autêntica.
Duas vezes por semana.
A pergunta é a seguinte. O que você quer dizer que o seu trabalho não é só o seu trabalho?
Gente, vocês já fizeram a conta? Quanto tempo você passa trabalhando na vida? A hora que eu fiz a conta, eu assustei. Pensa que hora que você acorda, pra onde você vai, o que você faz, como é o seu dia e depois que hora que você dorme. Minha conclusão nisso foi que eu passo mais da metade da minha vida acordado, trabalhando. Tira o tempo que você tá dormindo. O tempo que eu tô acordado, mais da metade do tempo eu tô trabalhando. Provavelmente você é assim também. Se você colocar o tempo que você tá pensando no trabalho, talvez sobre muito pouco ali que não é trabalho. Mas olha só, tudo que você faz que não é trabalho, tudo junto, namorar, passear, viajar, ir no supermercado, limpar a casa, pagar a conta, cortar o cabelo, fazer o que quer que seja que você faz na sua vida, tudo junto não dá o tempo que você passa trabalhando. Você ganhou um presentão de Deus chamado vida, um ingresso. que tem aí mais ou menos uns 80 verões. Você gasta metade desse ingresso fazendo o que você chama de trabalho, profissão, ofício, horário comercial, ou talvez você chame de tortura. Eu não sei como é que você chama o seu trabalho, mas o seu trabalho não é só o seu trabalho. Seu trabalho não é o lugar onde você vai trocar tarefas feitas por salário pago. Você não vai lá trocar horas de trabalho braçal por dividendos, por faturamento. Você vai lá pra passar metade da sua vida sendo útil pros outros, entregando um pouquinho de você pros outros e sendo recompensado por isso. Espero que você seja muito bem recompensado. Mas lembra que a maior recompensa não vem do lucro, do faturamento, do salário. Vem de como você se sente depois de ter feito algo por alguém. Enxergue o seu trabalho assim, que ele não é só o seu trabalho. Ele é metade da sua vida e ele é parte da sua missão se você trabalhar com essa intenção. Fechou?
Pra encerrar, eu vou lendo aqui uma frase que tá aqui na orelha do seu livro. Essa aqui é uma obra de arte que eu tô criando com cada convidado que vem aqui. É uma cerimônia das areias. Gostaria que você escolhesse uma cor e colocasse aqui. Você imagina que cada convidado vem e contribui com a sua areia, mas está contribuindo com a vida de todos nós, porque eu já não sou a mesma pessoa. do que começamos esse programa, não dá para separar mais o João da Isabela, assim como não dá para separar mais as areias que estão aqui.
Que legal!
Enquanto isso, eu quero te dizer que trabalhar não é um mal necessário, porque o mundo precisa do que você faz. O seu trabalho é um bem necessário e pode ir muito além das suas tarefas diárias. Ele está prestes a se tornar a sua missão.
Escolhi o vermelho, que é a cor do livro, a cor um pouquinho da minha roupa, a cor um pouquinho do McDonald's.
É a cor do meu batom que eu escolhi especialmente pra hoje.
E é a cor do coração, né? Pra gente lembrar de trabalhar com o coração. O trabalho é um bem necessário.
João Branco, de propósito, editor agente, além do Instagram, fala, João Branco, foi muito especial esse encontro. Obrigada por ter vindo, obrigada pelo seu tempo. Você que está nos acompanhando, compartilhe com quem você quer bem que, olha, essa conversa vai ajudar a tomar novas decisões. Até o próximo interiorismo.
Valeu.
More from GHION.AI
20VC: Is Chamath Right: Is DPI The Only Thing That Matters | Does OpenAI Even Matter | Mary Meekers AI Report: The Analysis| IPO Breakdown: Chime, Circle & Thoma Bravo's New Fund