Entre a Vida e a Fé: O Dia em que o Médico Virou Paciente - Edição Especial com David Uip
27 Jun 2025 · 41 min
Dr. David Uip, an infectious disease specialist, talks about treating AIDS patients in the 1980s and leading Brazil's COVID response in 2020. He discusses burnout, what it felt like to become a patient himself, and how faith sustained him through both epidemics.
Chapters
Olá, seja bem-vindo, bem-vinda ao Interioriza. Hoje, em um lugar muito especial, no consultório do doutor David Wipp, um dos principais infectologistas do mundo, um dos pioneiros no tratamento da AIDS aqui no Brasil. Doutor, muito obrigada.
Muito obrigado, prazer em te receber, linda, grávida.
Gravidíssima!
O Antônio está chegando.
Antônio está chegando. Essa provavelmente é a minha última entrevista antes da chegada dele. Eu fiquei muito feliz por você ter aceitado o meu convite para falarmos sobre saúde e depois para falarmos com foco em saúde mental. Quando você lidou com a AIDS, na década de 80, era um assunto com muito preconceito. Como foi trabalhar naquele momento com tantos pacientes precisando de mais acolhimento, quando todo mundo estava querendo se distanciar de tudo aquilo?
Primeira história. O primeiro caso de AIDS autóctono que um brasileiro pegou no Brasil é desse consultório.
Desse consultório?
Desse consultório, 1982.
Uau!
Então, veio um paciente do interior de Minas, emagrecido, com febre, e nós suspeitamos que pudesse ser algo parecido com o que nós estávamos vendo em São Francisco, Nova Iorque. Aí aconteceu uma coisa muito interessante. Ele teve um quadro agudo de vesícula que precisou ser operado. Então ele foi operado. Febrão, emagrecido e o cirurgião percebeu que além da vesícula devia ter alguma coisa a mais. E biopsiou. Gânglios e o fígado. Para nossa surpresa, veio como diagnóstico, além da vesícula, o achado de uma micobactéria chamada micobactéria avium intracelular. desconhecida por todos nós na época, mas se assemelhava com as descrições dos primeiros casos de AIDS nos Estados Unidos. Então naquele momento não tinha diagnóstico. Faz exame pra AIDS. Não tinha. Nós fizemos a associação do quadro clínico, laboratorial com a hipótese e publicamos o primeiro caso em 1983. Então eu estou nessa história desde o primeiro caso. Eu vivi... 40 anos. Olha, 83, já 42 anos, e 43 anos. E eu vivi os piores momentos da arte, por conta que até 96, quando surgiu o coquetel, os medicamentos fortes, a grande maioria dos pacientes morreu. Então eu perdi amigos, eu perdi pacientes, eu perdi parentes. Quando eu perdi irmãos, meus irmãos que morreram com intervalo de 15 dias, foi um desastre. Então, do ponto de vista do atendimento, foi uma coisa muito difícil. E aí nós, infectologistas, aprendemos pela primeira vez a ligar com a morte, porque até então era uma especialidade vencedora. Mesmo as doenças mais graves, você tinha diagnóstico e solução. A AIDS, você tinha diagnóstico e não tinha solução. Você lidava com a sobrevivência dos pacientes. Então, muitas vezes você fazia o diagnóstico, tentava sustentar a vida, mas a morte era inexorável. E com grandes estigmas e preconceitos, de todas as formas. Lembro que na época eu tinha dificuldade de encaminhar pacientes para outros médicos.
Eles não queriam atender.
Não queriam atender. Os cirurgiões queriam atender porque tinham medo. do contato. Então, desde o ponto de vista do tratamento das pessoas e as famílias, como no relacionamento médico. Eu sempre fui um indivíduo muito posicionado e comecei a criar, a falar de coisas que incomodaram a população. As formas de transmissão, os riscos contra o preconceito, embora muitas vezes eu não fui bem entendido, mas eu falava cientificamente. Foi um momento muito, muito difícil. Quer dizer, você perdia muitos pacientes todos os dias. E ali também, eu falo que era uma doença que não poupou ninguém.
Não poupou ninguém?
Não poupou ninguém, rico, pobre, branco, preto, patingiu todo mundo. Então, foi extremamente doido. Foi muito difícil e superar aqueles momentos exigiu muito de todos nós, todos os profissionais de saúde. Eu não me limito a especialidade, mas outras especialidades, enfermeiros, fisioterapeutas, é uma coisa extremamente difícil.
Como era a sua percepção em lidar com os pacientes, que ainda não tinham nenhum tratamento que pudesse dar sobrevida, e o preconceito em relação ao tema? Quando você diz, eu tentava explicar e as pessoas se recusavam, por quê?
Primeiro... Eu rapidamente fui aprendendo as formas de transmissão, porque não sabia. Se você pega as primeiras publicações, fazia parte do risco haitianos. Não tinha nada a ver. Mas eu comecei a perceber que a transmissão de homem para mulher era maior do que mulher para homem. Isso foi uma celeuma, porque eu falei, publiquei cientificamente e divulguei. Isso, naquele momento, foi visto como preconceituoso. Não tinha nada de preconceituoso. Era uma realidade. Mas abria uma discussão das formas de transmissão. Quem transmite para quem e como. Naquele momento era sexo, eram drogas injetadas, transfusão de sangue, transmissão materno-fetal. E o desconhecido. Muitos se assustavam com o contato pessoa a pessoa. Muitos se assustavam com hábitos regulares. Então, era um temor incrível. E eu tenho muitas histórias. Eu tenho histórias extremamente importantes de pessoas que sobreviveram naquela época. Eu tenho pessoas vivas até hoje. Então, são muitas histórias.
Nesses últimos 42 anos, qual foi a maior lição do tratamento da AIDS no Brasil, que você teve contato.
Pelo amor de Deus. É interessante. O médico, acho que faz parte do médico um pouco de prepotência. Aí eles acabaram com a nossa prepotência. Nós percebemos, não é a prepotência ruim, a prepotência de você ter o poder de curar as pessoas. Quando você vê o inevitável, que esse poder saiu das suas mãos, é uma enorme frustração. E nós tivemos que lidar com a frustração. Então foi uma frustração muito grande, mas um enorme aprendizado. E lidar com a morte, para o médico, é uma coisa muito difícil. Eu tenho uma história muito interessante de um programa chamado Diálogos Impertinentes.
Diálogos Impertinentes?
Que era na Folha de São Paulo. E quem foi debater o tema comigo, morte, foi a Lígia Fagundes Telles. A Lígia, o Cortella moderador, a Lígia ia falar como filósofa da morte, e eu como médico ia falar da morte. Na hora que eu chego no Tuca, lotado, eu não era minimamente conhecido. Estava lotado por conta dela, da Ligia. Então, começou. E eu me preparei para falar tecnicamente da morte. Qual é a morte encefálica, a morte cardíaca. A hora que eu vejo a Ligia, eu falei, ah, para. Então, eu acabei falando da minha vivência da morte com a AIDS. E foi um programa muito interessante, que evoluiu assim, de uma forma que foi tomando volume o programa. Chegou no final, o Cortella falou, cada um vai dizer o que achou do outro. A Lígia falou, você para médico até que é um cara mais sensível do que eu imaginava. Eu falei, você para filósofo, tem mais medo da morte do que eu. Então foi muito interessante o programa. Anos depois, eu virei médico da Lígia. E a Lígia veio aqui e falou, olha, eu gostei tanto de você, que eu quero que você cuide de mim. E ela me presenteou, curiosamente, naquele tempo não tinha DVD. Então, depois foi transformado em DVD, ela me presenteou com o DVD daquele programa. Então, a morte foi um aprendizado difícil, conviver com isso no dia a dia. E claro que todos nós amadurecemos muito.
Doutor, nós estamos falando então da década de 80 e agora eu quero chegar um pouquinho mais perto de onde nós estamos em 2020. Aí você lida com uma outra onda de um problema ainda que poucas pessoas tinham conhecimento e muitas mortes. Que momento foi esse? Em 2020?
Pois é. De novo, o primeiro caso de Covid foi eu que vi.
É mesmo? Aqui em São Paulo?
Aqui em São Paulo. Lembra do indivíduo que estava na Itália? veio para o Brasil, foi para o Einstein. O pessoal do Einstein viu, fez o diagnóstico e a família me chamou. Então, eu fui ver e tive contato vis-à-vis, vi os exames e falei, olha, não estou sentindo mais o médico, ele está muito bem conduzido pelo pessoal do Einstein, mas foi também o primeiro caso. Então, olha a história. O primeiro caso de AIDS e o primeiro de COVID. E nisso, o governador, o João Dória, me chamou para coordenar o grupo de contingência, o centro de contingência de São Paulo. Nós votamos esse grupo em 48 horas e foi, na minha opinião, foi o grupo divisor de águas porque nós traçamos a política pública não só de São Paulo, do Brasil, em cima de um apoio de governo incondicional, primeiro de João Dória e do Rodrigo Garcia. Então, eu acho que essa experiência como coordenador O que o João Dória me escolheu? Eu fui secretário de Estado três vezes, mas ele me escolheu muito mais pela minha experiência de conviver com epidemias. Então, foi uma coisa enlouquecida. São 4 mil mortes por dia. E nós decidindo em cima de pouco conhecimento. O que nos ajudou? É que a Europa estava na frente dois meses e os Estados Unidos um mês. Então nós víamos o que estava acontecendo e nós criávamos as decisões que sempre foram muito difíceis. As pessoas, talvez no primeiro momento, pensaram que eram decisões informais. Não eram. Nós estávamos muito documentados naquilo que era possível. e muito bem amparados, escorados, com cientistas da priminíssima qualidade. Então eu acho que fez total diferença esse grupo de contingência, que até no final nós fizemos um documentário. Porque a ideia foi o seguinte, essa história vai ser contada de formas diferentes. Então nós vamos deixar contado do jeito que foi. E é muito interessante.
Em 2020, você disse, eram 4 mil mortes por dia.
Na evolução da doença, 4 mil mortes por dia. No pior momento. Mas olha a história. Quando nós fomos entender São Paulo, São Paulo tinha 3.500 leites de UTI adultos. Sabe quanto chegou? 14 mil. E montar leite de UTI não é parede e aparelho. São equipes treinadas. São Paulo... profissionais. E São Paulo resistiu. Aqui ninguém deixou desatendido, ninguém foi enterrado em bala. Nós resistimos e ajudamos o Brasil. Porque São Paulo atendeu, tanto no público como no privado, brasileiros de todos os lugares. Então eu acho que São Paulo teve um comportamento muito produtivo, muito interessante nesse embate contra a E aí, doutor, lá.
Em 2020, você já estava vivendo um acúmulo de muitas situações estressoras. Não só o estresse crônico, que faz parte do dia-a-dia de qualquer médico, os médicos trabalham muito. Naquele momento, além do estresse crônico, ou seja, o que já vem acontecendo todos os dias, você descobriu uma outra coisa. Qual foi o diagnóstico?
É, a história começa bem interessante. Eu vou falar bem... Começa do início.
O tempo é seu.
Começa do início. Era o seguinte. Quando o João Dória me convidou, a família quis me matar.
A sua família, né?
A minha família. Você está de brincadeira. Você tem três existentes, você trabalha muito e vai entrar numa dessas. E eu falei pra minha família que duas. Ou eu me escondo, ou eu vou fazer o que eu sempre fiz. E aceitei. E já foi uma situação difícil perante a família, porque a coisa foi se evoluindo.
Qual era a sua idade naquele momento?
Hoje eu tenho 73, são 5 anos e 68 anos. Mas naquele momento eu sou reitor do Centro Universitário FMABC. Naquele momento nós não tínhamos recursos para bancar a proteção dos alunos. Os residentes dos hospitais suportavam, mas ter máscara, luvas, avental, óculos para todos os alunos, para eles não deixarem os estágios presenciais, nós tivemos que ir atrás de recursos. E aí valeu os amigos, o Davi Safra, a Fundação Safra nos ajudou muito. A Calabim nos ajudou muito, a Bia Braga, o irmão João Antônio, nos ajudaram a ter recursos para tocar um centro universitário de 10 cursos da área de saúde.
Para amparar os alunos com EPIs.
Para amparar os alunos com EPIs e inventar a história do ensino à distância. Então, universidade, reitor. A clínica aqui, nós chegamos a ter 75 doentes internados ao mesmo tempo. Imagina. é você visitar 75 pacientes. Eu tenho um grupo muito grande aqui, é um grupo de médicos e infectologistas de primeiríssima qualidade, mas todo mundo teve que fazer a parte. E coordenando a pandemia.
Ou seja, a família já disse, já tá demais com a faculdade, com a clínica e com as políticas públicas. Muito bem.
E aí, eu toquei. E nisso eu fiquei doente. Eu peguei Covid e fiquei bem doente. Naquele momento, não se sabia direito o que fazer. Então, quem me tratou, o Frosner, na Lucetânea, que trabalhou comigo, e eu fiquei em casa. Mas foram 14 dias de terror. Eu tinha pneumonia, eu me senti mal. Você ia dormir e não sabia se acordava. Então, foram 14 dias duríssimos. No 15º, eu voltei coordenando a pandemia.
Foi prematura essa volta?
Prematuríssima. Se hoje... Bom, eu não faria diferente. Eu teria voltado de qualquer forma.
A missão é mais forte do que qualquer incômodo.
E eu voltei. Aí teve uma entrevista coletiva, nós tínhamos aquelas coletivas, e eu contei o que era o COVID. Isso sensibilizou muito os jornalistas e quem ouviu. Falei, isso aqui não é brincadeira. Eu sei o que eu passei.
A doença não poupa ninguém.
Não poupa ninguém. E foi muito curioso, por conta que houve uma reunião na Secretaria de Saúde do Estado, num domingo à tarde, que eu fui na sequência. Eu fui com o João Dória para o Hospital das Clínicas e, naquele momento, o Hospital das Clínicas mudou a história da pandemia, porque transformou um prédio em leite de UTI para Covid. E aí o Dória pediu para eu correr para o Palácio para dar uma entrevista para a empresa. Cheguei no Palácio e não conseguia falar. Estava acabado. A noite passei super mal. No dia seguinte, o diagnóstico de Covid. Então, domingo essa reunião, idas e vindas, na segunda o Covid e eu fiquei doente. Na volta teve a entrevista coletiva e, no dia seguinte, uma polêmica enorme por conta de como eu havia sido tratado. E eu não vou dizer, porque o meu tratamento, primeiro foi eu que me tratei, segundo que eu não divulgo tratamento de ninguém, terceiro, seja lá o que eu falar, se eu falo que eu tomei alguma coisa naquele momento, as farmácias iam ser validas. Se eu não falo, Falo que não tomei nada, era desesperança. Pinhatal da cronoquia. Isso causou uma polêmica enorme, um embate enorme.
O silêncio naquele momento foi a sua escolha?
Eu não tenho a menor dúvida que eu agi da melhor forma ética. Não tenho a menor dúvida, mas você sabe bem o que é uma entrevista ao vivo. Você tem milévimos de segundos para tomar a tua decisão. E foi assim, eu não fui prevenido da pergunta. Isso criou um grande problema, eu fui muito atacado nas redes sociais, fui muito ameaçado, eu, minha família. Tentaram invadir a clínica, tentaram invadir minha casa, ameaçaram meus filhos, meus netos, e as pessoas diziam que eu era inimigo do povo, porque eu não quis contar minha cura. Imagina, não tinha nada absoluto confirmado, se eu ia ficar falando de fatos off-label, que é o menor sentido. Então eu não tenho dúvidas que eu tomei a melhor decisão, se mais paguei o preço. Eu perdi metade da minha clínica. As pessoas me ligavam e falavam, você é um monstro, você não quis falar como você se curou. a minha filha do meio, ela faz parte de um grupo de oração, aonde a escola que a filha estuda, a escola católica. E o que falaram nesse grupo de oração, assim, inimaginável. O Davi tem que perder o CRM, precisa acabar o grupo de oração. Então foi muito emblemático tudo isso. E naquele momento, teve a Páscoa. Eu reuni minha família, falei, olha, Nós vamos ter que ter muita vivência para suportar tudo isso. Porque todos nós fomos muito atacados. Mas eu aprendi com a vida. A história conta. E a história contou. Então foi muito interessante. Mas, um outro estresse, sim, incrível. E naquele momento eu decidi me afastar da linha de frente da comunicação. Eu continuei no grupo, dirigi no grupo, mas não... Se expondo tanto. Todos os dias é uma coisa incrível.
E aí, doutor, neste momento, com todos esses ataques, a sua imunidade já muito baixa, o seu estado emocional também muito fragilizado por todas essas acusações, você sentiu uma arritmia e depois dessa arritmia veio um outro diagnóstico?
Foi pior que isso. Eu vinha me sentindo diferente nas reuniões. Eu estava me sentindo mais agressivo. Eu sou um cara absolutamente moderado. Ninguém tira o tom da minha fala. Eu estava vendo, mas me controlava. Aí teve uma reunião no Palácio com todos os secretários, com o governador, com o Bruno Cobras, prefeito, que foi uma reunião muito interessante. E chegou num momento, eu falei, Se eu não estou ajudando, estou indo embora. Cheguei no consultório uma quinta-feira, tive a sensação iminente de morte. Eu passei mal, fiquei arrítmico, com a sensação que eu ia morrer. Foi uma quinta-feira. Na sexta-feira, eu fui super investigado, especialmente por três existentes. E nada mais, nada diferente do que eu sabia. Aí eu me toquei. Passei de todos os meus limites e liguei para o Wagner Gattaz, meu amigo, meu colega de turma. Contei para ele, ele falou, Davi, você é banal, você passou de todos os limites físicos e emocionais. Não tem como. E aí é uma pancada, por conta que você percebe que é exatamente isso e tem que tomar decisões. E o Wagner falou, vou te indicar, fortemente e você precisa se afastar." Falei, me ligaram, tudo bem. Agora, como é que eu me afasto? Não dá. Então eu tomava antidepressivo de manhã à noite e frontal no bolso para apagar o incêndio. E a sensação é horrível. É horrível. É algo que vem, que aperta e você tem a sensação em mim que vai morrer. E aí eu tomei outra decisão, que foi contar.
Falar sobre o assunto.
Falar sobre o assunto. Do jeito que eu fiquei. Primeiro para mostrar que eu sou tão vulnerável quanto todo mundo. É claro que eu passei de todos os limites. Poucos chegaram nos limites que eu passei. Mas, primeiro que eu sou um ser humano vulnerável com todo mundo. Depois, eu tenho certeza que, contando essa história, muitos vão se identificar e procurar ajuda. E foi isso que aconteceu. Até hoje, tem pessoas que me procuram por viver coisa semelhante ao que eu vivi. E essa história durou dois anos. Eu fui tratado durante dois anos.
Quando você diz essa história durou dois anos, o tratamento da síndrome de burnout durou dois anos?
Dois anos. Não foi simples. Então, toquei a vida. Ia deixar de ver os doentes. E assim era uma coisa inesquecível. Tinha hora que eu via um doente e via doente. Põe luva, põe máscara, põe óculos, sai do quarto, faz tudo de novo. Chegou uma hora que eu não conseguia sair do lugar. Eu não conseguia sentar e levantar de novo. Estava absolutamente extenuado e sem saída. Eu tive que continuar.
Essa situação que você descreve é como uma desfuncionalidade. Você estava de corpo presente, mas sem conseguir fazer as suas funções.
Eu fui obrigado a fazer minhas funções a despeito de não estar de corpo presente. Esse é o ponto crucial. Eu não me dei o direito e sair do que eu estava fazendo, como foi recomendado pelo Vagra. Você tem que parar. Como é que eu parava? Então foi muito difícil.
Nessa época do diagnóstico da síndrome de burnout, você estava dormindo quantas horas por noite?
Eu sempre dormia muito pouco. Eu dormia em média quatro horas por noite. É uma vida duríssima. Sempre tive e dei muito plantão na minha vida. Mas aí era assim, eu dormia por conta de medicamentos. e as mesmas quatro horas. Dia seguinte, eu tinha que tocar a vida. Não teve como.
Na década de 80, doutor, a psicóloga Cristina Maslachi, ela lança um livro no mundo chamado The Cost of Caring, o custo de cuidar. E ela coloca que os profissionais mais sensíveis ao burnout, primeiro grupo, profissionais da área da saúde, depois da educação, comunicação, direito e tudo mais. Por que que os profissionais da área da saúde estendem tanto o próprio limite? É pelo acesso aos remédios? É por essa ideia de que por ser médico eu posso resolver tudo o que me acontece?
Não, só tem uma palavra. Missão. Se você não entender isso como missão, você não sabe explicar nada. Então, eu sempre achei que eu tive missões a cumprir. E cumpri. Quando eu fui secretário, foi a mesma coisa. No meio do meu primeiro mandato de secretário, eu pus três instentes. Isso foi numa quarta-feira, tive alta na sexta, na segunda eu estava trabalhando. Então, ou você entende isso como missão, que pode ser chamado de outras coisas. Eu chamo talvez até para me autodefender de missão. Mas é um total exagero. Nós saímos, passamos de todos os limites. Isso é minha história de vida. Eu sempre fui desse jeito.
Pessoas que são muito comprometidas, irresponsáveis, nesses últimos sete anos que eu tenho estudado muito sobre a síndrome de Burnout, para poder falar da prevenção, estão mais sensíveis ao Burnout. Estão pessoas muito comprometidas, responsáveis e que se negligenciam. Você disse que o seu tratamento durou dois anos. E qual foi a sua mudança de estilo de vida? O que você deixou de fazer para conseguir ter mais qualidade de vida?
Minha vida continua absolutamente igual. Continuo reitor da universidade. Estou no meu oitavo ano. Continuo tendo uma clínica. Graças a Deus.
Muito bem sucedida aqui em São Paulo.
E para aumentar a minha história, eu virei diretor nacional da infectologia da Rede D'Or. 80 hospitais. Então eu, Ana Lúcia Tânia, cuidamos da infectologia de 80 hospitais da Rede D'Or. Então, essa novidade tem um ano e meio.
Mas aí, doutor, a sua recuperação com a síndrome de burnout, você atribui, além da medicação, a que mais?
Olha, as pessoas me perguntaram se eu fiz terapia. Meu brinco, ele fala, olha, eu devia ter feito terapia 12 horas por dia, 8 vezes por semana.
8 vezes por semana?
O que é fundamental.
Sim.
Mas eu não tinha essa oportunidade. As coisas estavam de um volume. Então, sei lá, vou te dizer uma coisa que o médico não gosta de falar. Mas eu gosto, você deve ter percebido aqui na clínica, que eu sou de vídeo que tem muita fé. Sim. Santa, santa. Eu tenho o terço no bolso.
Eu tenho uma tatuada aqui, ó.
Terço aqui, talvez eu sou indivíduo. Fé. Eu sou indivíduo formado. No meu primário eu fiz uma escola de padres, São Francisco Xavier. Então eu tenho uma formação católica muito forte. Eu rezo duas vezes por dia. Eu acho que isso me ajudou muito. A fé.
Isso me deixa muito feliz.
Médico acha que ter fé é um negócio que não combina com ciência. Eu acho exatamente o contrário. Quando você tem ciência, tem fé, você é diferente.
Sim. A ciência somada a fé muda muitas jornadas, muitos desfechos, não é?
Tem jeito.
Doutor, antes da gente encerrar, você mencionou que sentia, antes do diagnóstico da síndrome de burnout, uma sensação de quase morte. Você consegue dar mais detalhes de como eram esses sintomas para quem está nos assistindo poder também reconhecer que não podemos normalizar o anormal? O que de anormal estava acontecendo?
Olha, isso é um recado que tem que ser bem dado. Eu sou um indivíduo treinado, experiente e saiu da minha mão. Acho que essa é a primeira coisa. Eu não tive controle sobre as minhas emoções E eu somatizei, tive sintomas. Eu fiquei arritmico, eu fiquei hipotenso. Então, foi uma coisa muito difícil. Agora, a pior sensação do mundo é aquele aperto que vem, que te afoga, que acerta o pescoço e você não sabe o que fazer. Por isso que eu chamo o remédio de bombeiro. Naquela hora, o que eu podia fazer? Orientado pelo Wagner, eu me dedicava fora os antidepressivos de manhã à noite. Então é a pior sensação do mundo. Eu nunca tive... Olha, tenho três estentes. Tive um Covid que não foi simples, mas a pior sensação que eu tive foi essa. Parece um pânico sem controle. É muito ruim.
Você está falando da...?
Do Carnal. Passei muito mal, tanto do ponto de vista dessa sensação de que não vai dar, como organicamente, de reprodução clínica.
Pronto. Pra gente, já encerrando, doutor, quais foram os aprendizados, então, que você teve com a síndrome de Burnout, sabendo de todas as características que envolvem esse problema ocupacional, porque o problema não é o trabalho, O trabalho é maravilhoso, a gente ama o que faz, é transformador. O trabalho, quando a gente ama o que faz, é promotor da saúde. Mas quais foram os seus aprendizados nesse período? E aí depois eu lhe dou a minha tese.
O primeiro foi valorizar mais as coisas que eu via. Muitos pacientes chegavam e me descreviam sintomas e sinais à semelhança do que eu tinha. A partir do momento que eu tive, eu quantifiquei isso da forma que deveria quantificar.
Você já tinha diagnosticado burnout em outros pacientes?
Em outros pacientes, mas talvez eu não tivesse valorizado os sintomas como eu passei a valorizar. Foi um enorme aprendizado. Segundo, identificar. Eu passei a fazer diagnóstico. Tenho casos aqui espetaculares, porque as pessoas vêm com outras histórias. Eu tive uma dentista que ela tinha dois filhos, no meio do Covid, e trabalhava oito horas por dia. Teve o Covid. Pós-Covid, ela procurou inúmeros médicos. Neurologista, cardiologista, em busca do diagnóstico dos sintomas. Quando ela chegou aqui, o coronatóxico, que é exatamente o que eu tive, ela chorou uma hora e meia.
Chorou uma hora e meia?
Chorou uma hora e meia. Então, isso também. Eu aprendi a identificar os sintomas mais sutis. que talvez antes eu não me desse de conta. E passei a divulgar. Então hoje, eu falo que médico tem que ter uma característica. Tem o que eu vi, o que não está falado. O Barnaldo me ensinou mais ainda isso.
Somos educadores no tema. Doutor, quando você fala sobre as características sutis, eu vou trazer aqui uma percepção que eu tive nesses últimos sete anos. o que faz a gota transbordar o copo? Qual é a situação limítrofe entre uma pessoa que é comprometida, responsável, sabe que está vivendo uma situação aguda, além da crônica. Nesses últimos sete anos eu cheguei em uma situação que todas as pessoas que eu pergunto elas reconhecem. Uma situação com características de assédio. Ou seja, aquele corpo que já está há anos se segurando, já está no limite, acontece uma situação de assédio. Você concorda com isso?
Totalmente. Só que eu posso escolher qual das situações de assédio que eu vivi. Porque foi mais de uma. Essa de ser julgado publicamente é uma coisa inacreditável. Eu não sabia como funcionava. Foi lá atrás. De repente, o mundo estava contra mim. Depois que eu fui saber como é que funcionava esse meio maléfico de divulgação, na verdade, não eram as pessoas, eram os computadores, os robôs que fizeram isso. A partir da ideia, numa manhã, uma assessora me falou, olha, tá estranho, que entraram num vídeo 20 mil vezes, numa manhã. À tarde era o vídeo mais visto do mundo. eu viro de críticas à minha história, ao que eu estava fazendo. Então, isso foi um gatilho óbvio. E outros, as reuniões sempre muito tensas, as coisas foram se somando.
O quanto esse episódio afetou, ou o quanto a saúde mental entrou na pauta da sua vida?
Olha, eu sempre me considerei um indivíduo estável. Com momentos diferentes em vida. Lá pra trás, eu era mais impossível. Chegava a ser... Eu era jogador. Eu era agressivo jogando.
Futebol?
Futebol. Era um bom atleta. E o tempo foi me modulando. Até que eu cheguei no estágio que eu estou hoje, tem muitos anos, que eu tenho... não saio do escritor, não mudo meu tom de voz, sou hiperposicionado, mas de um jeito hoje muito mais moderado. Então, foi algo que eu fui conquistando. Foi difícil. Nessa história do Barnaut, eu olhava e falava, bom, e agora? E daqui pra frente? Essa é a grande interrogação. Como é que vai ser? E se acontecer de novo? Essas são perguntas que eu deixo no ar. Não sei se vai acontecer de novo. Eu não diminuí meu rígido e nem abrandei minhas posições. Continuo igual. É um risco, provavelmente. Agora, aos 73 anos, não vai ser diferente.
Sim. Para a gente encerrar, quando você comenta que ficou agressivo, Nesses últimos anos, também, eu fui fazendo um levantamento de todos os sinais e sintomas até o penúltimo, antes das ideias suicidas. É a agressividade. Tanto que muitas pessoas, familiares, inclusive, perguntam, né, até que ponto eu posso ver o meu familiar, eu tô vendo que ele está num caminho de adolescimento, mas qual é a característica que, atenção, não dá mais pra aceitar. Quando um sujeito que não era agressivo, fica muito agressivo. Eu ouvi de um médico, inclusive, um cardiologista, que ele só percebeu que estava doente quando ele estava muito agressivo com os pacientes.
Eu acho que a palavra que eu senti não foi bem agressividade, foi irritabilidade.
Irritabilidade com agressividade, uma irmãzinha da outra.
Eu ficava irritado com coisa nenhuma, fato que nunca me aconteceu, saindo do controle. Então, isso é complicado. Você perceber... É muito interessante que no começo você percebe e não admite. Você vai em frente. Até que a coisa se torna do tamanho que tomou. Só para dar uma boa lembrança para todo mundo, felizmente, eu nunca tive nenhuma ideia de suicídio. Nunca me passou pela frente, a minha missão aqui é outra. E com a fé que eu tenho, nem é possível. Mas eu entendo as pessoas que chegam a esse extremo. Sim.
Doutor, você comentou sobre EPIs para os seus alunos. Os equipamentos de proteção individual, eles foram evoluindo desde a década de 70. Em 2023, eu comecei a falar sobre os EPIs da saúde mental. Assim como nós temos EPIs para os riscos físicos, precisamos começar a falar sobre EPIs da saúde mental. Faz sentido esse termo para você?
Só que você vai me enfiar como?
Doutor, no início da década de 70, os EPIs eram vistos como despesa. Os empresários não viam a necessidade de oferecer um equipamento de proteção para um operário, um funcionário e tudo mais. E em 2023, eu comecei a cruzar os dados. Eu não sou médica, eu não sou engenheira de segurança do trabalho, eu sou uma jornalista. E comecei a cruzar dados. Em 2023, nós já tínhamos os problemas relacionados à saúde mental como uma das três causas de afastamento do trabalho. E aí eu me pergunto, pra cadê então os EPIs da saúde mental? E comecei a reconhecer o que estava deteriorando a saúde mental das pessoas. Em uma dessas pesquisas, me disseram que era o número de interrupções. Ou seja, você tá lá concentrado e chega alguém sempre te interrompendo. No fim do dia, a energia já foi embora, e você não conseguiu realizar o seu trabalho. Aí eu fiz, peguei emprestado essa ideia da churrascaria. Posso falar, não posso falar agora. Isso funciona, tá, gente? É só usar. No início as pessoas fazem piada, mas depois funciona. Mas isso, doutor, é só pra tangibilizar os outros EPIs. Existem recursos que vão ser responsabilidade da empresa como segurança psicológica, direita desconexão, flexibilidade e responsabilidade do indivíduo. Assim como os EPIs, você pode oferecer o equipamento e o sujeito não usa. Eu vejo placas obrigatórios de EPI, mesmo com risco visível. E quando nós estamos falando de saúde mental, nós estamos falando sobre dores invisíveis. Que então, só pra fechar, como é pra você então agora aos 73 anos? Vendo todas essas evoluções de NRs, normas regulamentadoras, que é pra nossa segurança. Porque o cinto de segurança tem gente que usa pra não levar multa e não por segurança. E os EPIs são pra nossa segurança. Faz sentido isso pra você?
É, eu acho, eu estou vendo acontecer muito as empresas se preocuparem com isso, inclusive contratando assessorias profissionais para dar o ritmo. Se você começar pelo número que hoje 30% das pessoas têm algum tipo de problema na área emocional, faz total sentido. Quer dizer, de onde vem isso? quais são os fatores. Então eu acho que faz total sentido você trabalhar com a prevenção. Ainda existe muito preconceito nessa área. Muitas vezes eu encaminho meus pacientes num tratamento psicólogo, da psiquiatra. Eles lutam muito. Eu até aprendi a receitar. A primeira receita sou eu que dou pra conhecer o indivíduo no que ele precisa. Então, faz total sentido que você tenha mecanismos de prevenção. Do ponto de vista de empresas, mais ainda, e as pessoas que não têm sensibilidade, muitos não têm, pensam em resultados financeiros isoladamente, vão perceber que se preocuparem com isso, até os resultados serão melhores. Sim. Eu não tenho dúvida. Agora, essa percepção, esse conhecimento, tem a ver com cultura e educação. Isso demora.
Demora. Você é um educador da saúde há muitos anos. Eu sempre gosto de falar com os médicos, né? A medicina lhes dá o passaporte direto para ser um comunicador, porque aí você salva vidas também por onde você passa. E você salva vidas, doutor, por onde você passa. Muito obrigado por toda a sua luta, por toda a sua persistência. Muito obrigada por ter continuado a sua missão.
Muito obrigada.
Muita saúde.
Saúde, plantóide.
Pra nós. Muito obrigada pra você que nos acompanha até aqui. Foi uma entrevista, de fato, emocionante e que pode mudar o desfecho de saúde de muitas pessoas. Então, se esse assunto te comoveu, fez sentido pra você, compartilhe com quem você quer bem e a gente se encontra em breve.
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