Família é Quem Ama: Gravidez aos 40, Madrastas e Convivência Saudável
31 Dec 2025 · 44 min
This content was created by GHION.AI . This content was uploaded by GHION.AI . This is a podcast titled "Família é Quem Ama: Gravidez aos 40, Madrastas e Convivência Saudável" recorded on June 24, 2025. It features a discussion among multiple speakers, including Bruna Pitaluga, Ruth Manos, and Isabela, about the challenges and societal perceptions of pregnancy after 40, the role of stepmothers, and the importance of a supportive community. The conversation touches on topics such as the evolution of prenatal care, the impact of societal expectations on women, and the dynamics of modern family structures.
Chapters
Hoje é a primeira vez que nós temos mais mulheres engravidando depois dos 40 anos, isso é um dado epidemiológico, estatístico, do que mulheres mais jovens.
A gente é tão ensinada a pensar na rivalidade feminina como uma naturalidade, sobretudo quando a gente já partilhou um homem.
Aonde nós estamos hoje no século 21? Em que eu tenho a biologia dizendo: tenha filhos. E eu tenho a sociedade dizendo: não tenha filhos porque eu quero que você entre no mercado de trabalho.
Você acredita que existe alguma distância entre a teoria e a prática? Existe? Neste especial Interioriza a Maternidade, eu vou conversar com duas mulheres extraordinárias que têm um currículo que vale a pena depois você pesquisar direitinho sobre cada uma delas, porque elas são advogadas, médicas, escritoras, mães, e vão compartilhar aqui nesse episódio ideias para você tomar melhores decisões com o pé no chão, sem ilusão. Então quero apresentar para vocês aqui Ruth Manos, escritora, advogada, professora universitária, doutora em Direito Internacional, pós-graduada em Direito Internacional. Por isso que eu falei, depois procura a capivara dela toda, porque é muita coisa. E ao lado dela também nós temos a Doutora Bruna Pitaluga, que veio especialmente de Brasília aqui pro Interioriza. E aí, a Doutora Bruna, criadora do método pré-natal do século 21, referência nacional no ensino de suplementação na gestação, médica obstetra, empresária, mentora de profissionais da saúde. Ou seja, este episódio poderia já virar uma série da Netflix.
Se deixar, a gente faz.
Estamos aqui. Só estou aguardando o contrato.
Obrigada, Bruna. Obrigada. Quero só trazer aqui uma introdução de onde eu conheço as duas. Eu conheci a Ruth Manos logo que ela lançou esse livro aqui, Mulheres Não São Chatas, Mulheres Estão Exaustas. E para mim foi um grande divisor mesmo intelectual sobre o assunto. Eu não era mãe, eu não tinha empresa e eu já achava isso. Então hoje, anos depois, eu já sei. Que livro fantástico!
Não, que esse título é um título que o meu sonho é que um dia ninguém se identifique com ele, do tipo: "Nossa, mas eu nem acho que eu sou chata, nem tô exausta, né?" Mas eu acho que por enquanto ainda temos um longo caminho com isso reverberando para as pessoas.
Pronto, se você não concorda com esse título, você pode escolher o outro dela, que é o Guia Prático Anti-Machismo, tá? Se você não quiser esse livro, você ainda pode ter esse aqui, ó: Desfeita. Se você achar que nenhum desses também vai ser útil pra você, um dia ainda vamos rir de tudo isso. Esse aqui é um bálsamo pra gente poder ter coragem pra seguir mesmo quando a gente quer fugir. Então conheço a Ruth já há muito tempo e a Doutora Bruna logo que eu tive a notícia da gestação e tive o contato com o assunto glicose alta, pré-diabetes gestacional. Claro que no primeiro momento eu entrei em pânico, no segundo momento eu fui pro Google buscar respostas, não encontrei, mas encontrei a Doutora Bruna já falando sobre o assunto. Eu falei: opa, tá aí uma pessoa então que eu preciso estar por perto e fico muito feliz por tê-la aqui. Então o programa de hoje ele tem tudo pra gente poder contribuir com as pessoas que querem saber então o seguinte: Em que momento que nós estamos de tempo mesmo cronológico sobre o que sabemos, Bruna, sobre gestação? Porque o seu conteúdo, né, o pré-natal do século 21, já diz que estamos vivendo um contexto muito diferente do passado. Isso nós já sabemos, mas na prática, então, na prática, o que isso significa?
Significa uma mudança enorme. Da nossa compreensão sobre o que é gestar. No século passado, a gestação era vista como uma doença, como o feto era um parasita, o neném consumia a mãe, a mãe era uma pessoa—
Mas era de verdade?
De verdade! A mulher era fragilizada, o estado gestacional era um estado de fragilidade e que o neném era uma coisa ruim dentro daquele corpo consumindo ela. Isso foi visto durante muito tempo. O que a gente sabe hoje é que é uma mudança muito grande, é que o estado gestacional é um estado de fortaleza, seu sistema imunológico é muito mais ativo, você está muito mais plena, a quantidade de hormônios que você tem, o seu cabelo fica melhor, sua unha fica melhor. É claro que isso de acordo com a fisiologia. Se é o que acontece dentro da prática de muitas mulheres é outra situação. Aquilo que é comum não necessariamente é o normal. Então a gente tem que aprender O que estamos vivendo é uma mudança muito grande de mulheres, em como essas mulheres engravidam e o que elas trazem do antes para dentro da gestação. A sua história com as alterações de glicemia, elas são muito mais comuns hoje do que são, do que eram no passado. Hoje nós temos mulheres que engravidam, hoje é a primeira vez que nós temos mais mulheres engravidando depois dos 40 anos, isso é um dado epidemiológico estatístico. Do que mulheres mais jovens. Isso foi publicado tem 1, 2 semanas, inclusive.
Como?
Sim, houve mais fertilização.
Eram mais de 40 do que adolescentes? Do que adolescentes.
Que eu acho muito bom, né? Adolescentes.
Gente, então isso é um breaking news, espera lá.
É um breaking news, a primeira vez que nós temos mais mulheres engravidando acima dos 40 anos do que mulheres jovens. E essa é uma mudança gigantesca, Isabela.
Como é que eu posso oferecer o mesmo pré-natal Não, a mulher também tem uma fisiologia diferente.
Você sabe melhor do que eu o estado de saúde mental, o comportamento dessa mulher. Essa mulher, por que ela está engravidando depois dos 40 anos? Ela entrou no mercado de trabalho, não é verdade, Ruth? Ela entrou no mercado de trabalho, ela tem mais estresse, ela tem alteração do sono, ela tem comportamentos dietéticos alimentares, mais ingesta de bebida alcoólica. Tudo isso interfere na gestação. Então eu não posso falar mais de uma gestação do século 20 no século 21. Por isso que existe a comparação: o século passado e o pré-natal do século 21.
Você sabia disso? De que no passado o feto era visto como um parasita?
Não.
Muito louco, né? É um absurdo, né?
Eu brinco que às vezes parece mais parasita depois que nasce, né? Às vezes tem dias que... Mas eles são ótimos. Mas não, não fazia ideia.
Eu fiquei bem impressionada Fiquei bem impressionada, não, fiquei impressionada com essa informação porque é tanta cobrança hoje, então século 21, é tanta cobrança para essa mãe que se engravida depois dos 40. Outro dia eu vi uma pessoa com a minha idade, 44 anos, grávida, mas ela tinha o cabelo branco. Ela optou por deixar o cabelo branco, sendo massacrada na internet porque que absurdo essa mulher com 44 anos. Ao mesmo tempo em que eu soube recentemente pelo Dr. Drauzio Varella que mulheres que dão à luz depois dos 40 anos vivem mais. Então você tem que lidar com as informações, por isso que eu falei, a distância entre a teoria e a prática é muito grande. Ao mesmo tempo que você tem ainda uma opinião pública massacrando quem engravida depois dos 40, você tem milhares de mães tentando engravidar e só estão conseguindo engravidar depois dos 40 Porque não tiveram chance de fazer antes. Eu, a minha vida inteira, Ruth, eu queria te ouvir sobre isso. A minha vida inteira eu achei que eu não seria mãe. Eu tinha mais certeza que eu não seria mãe do que seria. Muitas coisas aconteceram até eu encontrar o meu marido, até ter a primeira filha aos 40 anos e agora gestante de novo. A minha saúde está muito melhor agora do que aos 40, mas eu também sei das minhas limitações. Então queria te ouvir em relação a isso. Sobre essa polêmica em torno do envelhecimento de óvulos, que isso é um fato.
Sim.
Isso é um fato, né? Os óvulos envelhecem. Vão envelhecer, isso é um fato. Ao mesmo tempo em que a mulher é cobrada por uma postura absolutamente equilibrada e perfeita em todos os cenários da vida, então ela vai deixar essa gestação um pouquinho depois, só que o corpo está inflamado, vai ser mais difícil engravidar. Então, lidar com tudo isso, Ruth, como é que você vê hoje esse assunto? Porque você é mãe há menos de 3 anos, né? Então fomos mães com mais maturidade.
Pois é, eu tive Joaquim com 34 anos e é muito interessante como nesses 2 anos desde que ele nasceu o tema invade a vida, né? Eu sempre falo que quando falam assim: "Nossa, mas você teve filho, agora você só tá falando de filho." Eu falo: "Gente, imagina que você tá em mar aberto, você só vê mar, todos os lados, em cima, embaixo, e alguém vem querer conversar sobre castiçal. Eu falo: gente, não vai acontecer hoje, hoje eu só estou vendo o mar, eu vou conversar sobre mar. E esse tema foi se tornando tão importante para mim que agora, né, eu tô escrevendo um livro que sai no começo do ano que vem sobre ter ou não ter filhos. Porque é uma pergunta que cada vez se torna mais natural, né? Até algumas décadas atrás, né, geração talvez das nossas mães, mas mais das nossas avós, Era um dado adquirido, né? Você nasceu para isso, você nasceu para se casar e para ter filhos, né? Não existia muito plano B. Conforme o mundo vai avançando e conforme a gente tem uma inclusão nossa no mercado de trabalho, que não se dá porque um belo dia o mundo do trabalho falou: "Nossa, as mulheres, elas são ótimas, vamos chamá-las." Foi um chamado do capital, né? O capital precisou inclusive pagar salários mais baixos e por isso chamaram a gente para estar lá, não é por reconhecimento. Né, ao longo do tempo. Mas o que que acontece? Cada vez mais a gente tem mulheres com dúvida: será que eu quero? Será que eu quero ter filho? Será que eu quero perder esse protagonismo que eu tenho na minha vida? Será que eu quero compartilhar, né, com outra, com outro ser humano, né, a essência do que eu sou? E que é uma pergunta muito válida e maravilhosa. Eu falo, tô escrevendo esse livro porque eu fui durante 34 anos uma mulher sem filhos muito muito feliz. Eu há 2 anos sou uma mãe muito feliz, mas eu falo que ter filhos me fez entender quem quer ter 12 e quem não quer ter nenhum. Dá para entender perfeitamente, né? E acho que é um livro para trazer dados realmente sobre tudo isso. Agora, quando a gente tá falando da questão do envelhecimento dos óvulos, eu acho que a gente precisa ter uma análise crítica disso. Eu sou advogada trabalhista, né? E hoje em dia existe um debate, tem até a minha sócia até um artigo sobre isso, sobre a oferta de congelamento de óvulos como benefício trabalhista, que está acontecendo cada vez mais nos Estados Unidos e vai começar a aparecer por aqui. Será que isso é uma coisa boa?
As empresas estão então subsidiando o congelamento de óvulos para manter a pessoa sem engravidar por aquele período.
Teoricamente é só uma oferta, né, do tipo: não, mas você obviamente pode ter filhos quando você quiser. Mas você imagine que você congelou óvulos na semana passada e aí você tropeçou e ficou grávida naturalmente. Essa mulher vai ficar à vontade? Essa mulher vai ficar à vontade para depois de um ano desses óvulos congelados por sei lá quantos mil reais, às custas da empresa, para decidir que vai ser mãe ali dentro? E aí tem um livro da Nancy Fraser chamado Capitalismo Canibal, no qual ela fala uma coisa que eu acho essencial a gente entender de um ponto de vista crítico, Que é quando a gente está falando em certos avanços tecnológicos, como congelamento de óvulos, como as bombas de retirar leite, o mercado de trabalho está se utilizando disso para um certo apagamento da feminilidade. Ou seja, a gente congela os seus óvulos para você só pensar em ter filho quando a gente não quiser você mais aqui, né? E a gente, né, eu mesma parei para pensar nisso. A bomba de leite que eu mesma usei sem fio Você consegue tirar leite dos dois peitos enquanto você está trabalhando, você não precisa nem sair para uma salinha para fazer isso, porque isso vai por baixo da roupa. Então será que a gente está incluindo mulheres dentro do seu feminino de ser ou não ser mãe, de tirar leite, de parir dentro do mercado de trabalho? Ou a gente só está arranjando formas de elas serem cada vez mais parecidas com os homens e depois elas vão ser mãe ou cuidar de criança em outro ambiente, mas não aqui na nossa empresa?
Bruna, sabia disso? Olha que chocante!
Esse dado é extremamente relevante. Eu não sou ativista do congelamento de óvulos, Eu não sou. E você fala a respeito disso, eu acho importante a gente falar sobre as mulheres, porque o congelamento de óvulos, ele é vendido como se fosse— você tem um seguro, e que na hora que você precisar, você usa o seguro, como se isso fosse uma certeza. Então você tem aqui um documento que garante que você pode adiar sua gestação pelo tempo que você quiser. E a história, ela é bem diferente, né? E eu acho que inclusive a gente tem que falar sobre saúde mental dessas decisões. Falta nós debatermos sobre como essas mulheres se sentem sabendo que elas têm óvulos congelados aos 45 anos. Como é que elas se sentem aos 45 anos dizerem: poxa, mas eu já fiz meu mestrado, meu doutorado, meu PhD, já morei, mas eu tenho meus óvulos congelados. Será que agora é a hora? Porque agora que eu terminei meu PhD eu tenho uma vaga de diretora, por exemplo. Como é que nós trabalhamos com a ideia de que a sua fertilidade está dentro de um congelador e não dentro mais de você, porque aos 45 você não pega mais os seus óvulos. A chance de engravidar depois dos 45 é maior do que 1%. Então, será que a gente está trabalhando isso de forma correta? Eu trago dados biológicos, eu fico pensando nisso, Ruth, feito você, porque a minha área de trabalho hoje, como eu tenho um perfil muito— eu falo muito, sou uma líder muito grande daquilo que eu falo, sobre gestação, quem me procura hoje na minha prática clínica são mulheres 40, com mais de 40 anos, que vão procurar, que tem gestações mais complicadas. E eu vejo essa dinâmica, essa, passei a vida inteira debatendo sobre isso e chegou uma hora que eu me vi desesperada. Então atendo muito mais fertilização in vitro, atendo muito mais mulheres com ovo doação, que dependem de óvulos doados de outras mulheres para terem seus próprios filhos, de embriões congelados que ficaram. Ela tem paciente que até fala para mim Eu tive que fazer terapia porque eu tive meus dois filhos, mas eu tinha mais 8 embriões congelados.
E aí, o que eu faço com isso?
Eu tinha 8 filhos congelados no laboratório. Como a gente aborda isso? Nossa, eu fico arrepiada! Como é que a gente aqui é arrepiada? Como a gente aborda isso? Não sei. Vou trazer um dado biológico importante sobre ter ou não ter filhos. Ter filhos confere mais longevidade e saúde para mulher do que não ter. O sistema imunológico, quem tem filhos tem menos doença autoimune, tem menos Alzheimer, tem menos sclerose múltipla, tem menos. As questões imunológicas são mais reguladas quando nós temos filhos, porque biologicamente mulheres e homens são distintos na funcionalidade. O seu corpo foi feito para esse momento. Gestar o Antônio é você, a maior Ferrari que você pode imaginar, Ferrari turbo hiper mega, só 10 no mundo, é você. Isso traz para você ao longo da sua vida um equilíbrio que você não teria se você não tivesse engravidado. Estar com o Antônio da sua barriga traz uma informação de tolerância que repercute dentro do seu sistema imunológico, do seu sistema cardiovascular, do seu sistema nervoso central, do seu cérebro, produz mais ocitocina. A ocitocina tem uma série de questões relacionadas A saúde mental. Então, o debate, e eu acho extremamente— porque é exatamente isso que eu falo, aonde nós estamos hoje no século 21? Em que eu tenho a biologia dizendo: tenha filhos. E eu tenho a sociedade dizendo: não tenha filhos porque eu quero que você entre no mercado de trabalho.
Ô Ruth, outro dia eu ouvi um executivo dizendo assim pra funcionária dele: só não me tenha filho esse ano. "Segura a Ruth." Aí na hora, na hora não, logo depois, na primeira oportunidade, eu chamei esse executivo e falei assim: "Olha só, isso que você falou pra ela pode ser caracterizado como assédio." "Ah, mas era brincadeira." "Então, tá na hora da gente parar de fazer brincadeira com a vida dos outros." Fiquei feliz com esse dado de que as mulheres gestantes bastantes, né, tem um sistema imunológico maior. E Ruth, apesar de todos os desafios, eu tô falando da Ruth porque a Ruth tá com uma criança pequena, igual eu, seus filhos são mais velhos, né. Eu acho que mesmo depois dos desafios, Deus dá carga extra para nós, né, só pode, para quem acredita em Deus, porque ele tá na natureza da carga extra.
Deve ter uma varanda assim, com uma vista, um andar alto.
Você acumula inclusive, o que eu queria trazer agora, mais essa polêmica, Érica, tá? Você é mãe do Joaquim, que tem 2 anos, e você é madrasta. E este nome já carrega um peso, como se a madrasta sempre fosse uma pessoa ruim, especialmente nos desenhos da Disney. Tô assistindo agora um monte de desenho com Angelina, eu falo: gente, todas as madrastas, né, chegaram no momento em que o pai precisava de um apoio feminino, e depois o pai morre sempre. E a mulher, uá! Então assim, você acumula a mãe do Joaquim de 2 anos e você tem um enteado de 15. Nossa! Como é que você tá equilibrando isso?
Outro universo.
Você sabe que eu falei outro dia que eu não sei se eu nasci pra ser mãe, estou descobrindo, né? Mas eu digo que eu nasci pra ser madrasta, porque é um lugar que eu adoro. Meu primeiro casamento eu fui madrasta da Francisca, né? Quando me casei com meu primeiro marido, a Francisca tinha 3 anos. Separei, ela tinha 11. E na sequência conheci o Agostinho, meu marido, que já tinha o Caetano com quase 12, né? O Caetano e a Francisca têm mais ou menos a mesma idade. A Francisca é absolutamente presente nos meus dias. Eu sempre falo muito sobre isso, sobre a nossa responsabilidade sobre a vida das crianças. Não interessa: nossa, mas meu divórcio foi difícil, meu Claro, sim, nunca é fácil, né? Mas as crianças não têm nada a ver com isso. Então vamos arranjar forma de preservá-las no possível. E hoje a Francisca é a madrinha do Joaquim.
Uau!
Olha só! E todos se dão muito bem, ela e o Caetano. E eu falo que o lugar de madrasta é um lugar que ele tem exatamente o oposto do lugar da mãe, né? Porque a mãe tem essa, com todas as críticas sociais que a gente possa ter, Existe esse lugar do sagrado, do milagre, da mãe, do respeito. Nossa, né? Existe uma validação social, nossa, quando a gente se torna mãe, que é uma coisa que eu conheci agora, mas que te dão quase um, né? Mercado, não tô falando do mercado de trabalho, tô falando de uma coisa assim meio moral, né? Do tipo, nossa, ela é mãe, ela é boa, ela é generosa, ela é cuidadora. E a madrasta tem lugar oposto. Eu falo que foi o único lugar na minha vida no qual eu cheguei que não existia uma presunção favorável a mim, que eu tinha que provar que eu era boa, que eu era legal. A minha vida inteira todo mundo sabia que eu era uma pessoa legal. E quando você é madrasta, parece que você precisa ficar nesse lugar, e as pessoas te parabenizam pelas coisas mais toscas, né? Então, por exemplo, eu não ter saído da vida da Francisca, as pessoas falam: ai, mas que lindo! Enquanto a gente pega uma mãe que vai viajar durante duas semanas, ai, que horror! Total. Eu sou a mesma pessoa nas duas relações. Eu sou a Ruth como madrasta, Eu sou a Ruth como ex-madrasta, sou a Ruth como mãe, eu sou a mesma pessoa. Então eu acho que a gente precisa trabalhar esse lugar, né? Até porque isso ainda tem muito a ver com rivalidade feminina, né? Eu falo com a Mônica, mãe da Francisca, e com a Raiana, mãe do Caetano, o tempo todo. "Ó, aconteceu isso, o que você acha?" Ele tá comigo hoje, meu marido tá viajando, tá na Coreia. Eu brinco, eu tava falando com a Raiana no carro antes de vir, eu falei: "Ele falou que vai não sei onde hoje depois da escola, tudo bem? Fica de olho, não sei o quê." Que legal! Ao mesmo tempo, eu tô falando com a Mônica porque a Francisca tá pensando em vir pra cá nas férias e eu falei: "Você acha que ela tá preparada pra pegar voo sozinha? Como é que a gente pensa nisso juntos?" Acho isso maravilhoso! Isso é sororidade!
Exato!
Então assim, como é fácil a gente arranjar as desavenças e o passivo ser das crianças. Nós somos adultos, eles não têm poder. Quem tem poder de definir esses rumos somos nós.
Nossa, parabéns, parabéns! Agora é uma coisa que te agrada, por exemplo. Eu fiquei agora impressionada e muito orgulhosa do que você tá me trazendo. Esse ponto de vista para mim é muito novo.
Eu acho que a gente é tão ensinada a pensar na rivalidade feminina como uma naturalidade, sobretudo quando a gente já partilhou um homem. Eu acho que o ponto tá exato, né? Tem um, acho que uma frase que eu acho que dá, Valesca Zanello, que ela fala assim: homens são homens são ensinados a amar muitas coisas, mulheres são ensinadas a amar os homens. Por que que a gente tem tanto problema com a ex-mulher do nosso marido, com a mulher do nosso ex-marido? Por quê? Porque vem dessa ideia de que o que a gente tem mais de importante na vida é esse homem. É claro que se outra mulher já tocou nele, isso é um problema. A gente, pelo amor de Deus, a gente foi micareta, a gente já tocou em muita gente, já foi tocada por muita gente, vambora! Não estamos mais em 1970.
Concordo total, total.
Então assim, vamos colocar outras coisas na frente, os interesses das crianças. Não tem coisa mais prazerosa do que quando eu vou para Portugal, a gente saiu para almoçar todo mundo, meu ex-marido, meu marido, não sei o quê, na formatura do Caetano, tá a avó, a avó-drasta, a mãe, a madrasta, eles merecem isso. A gente fala tanto sobre: "Ai, a criança merece que a mãe dê atenção." "Não, essa criança merece ter uma alimentação balanceada." Não, as crianças merecem ter famílias que das formas mais diversas funcionem de algum jeito.
Salva de palmas para a Ruth.
A parabéns pelo mínimo, né?
Não, é fantástico, tô com você e que bom que você trouxe esse conteúdo aqui, essa experiência, né? Quando eu falo conteúdo, é essa experiência. Já que você falou em 1920, deixa eu trazer agora para 2020 com a Bruna para a gente falar antes do programa acabar, porque assim, Papo bom flui muito rápido, né, meu pai? Já acabou, nem começou, já acabou. Ô Bruna, qual é a diferença então para esta mulher muito mais informada, né, como a Ruth tá trazendo aqui? Qual é a diferença do pré-natal de uma mulher de 40 anos hoje do século 21 para o pré-natal do século passado? Porque eu tô no século 21, mas convivo com pessoas que tiveram filhos no século passado, sem dúvida, e ficou entre essa programação antiga e a programação nova, tá? E agora eu faço o quê? Eu vou validar quem? Só a minha intuição? Só o que os médicos falam? Mas aí eu desconsidero o que minha mãe fez? Qual é a diferença principal hoje no pré-natal do século 21, especialmente então agora para essa mulher 40+?
Acesso ao conhecimento, a verdade. É que eu acesso ao conhecimento. Porque quando a gente vai fazer, por exemplo, uma comparação do século 20 com século 21, o que a gente está pensando aqui é o seguinte: eu tinha um carro a combustão, agora eu tenho um carro elétrico.
Exato.
Eu tinha... Você tem que mudar, as informações mudam. As informações sobre o genoma humano aconteceram no final da década de 90. Como é que a gente até lá a gente não sabia sobre genética, a gente achava que o ser humano era super complexo, sei lá o quê, vai descobrir que não é nada disso. Então hoje o que a gente tem é que ter acesso ao conhecimento. Com um telefone na mão a gente tem acesso ao conhecimento. E a leitura de tudo que você tem acesso tem que ter lógica e sentido. Tem sentido para você? Porque falarem para você numa consulta de 10 minutos, que é o que acontecia no pré-natal, acontece ainda muito, não posso dizer que não, numa consulta de 10 minutos: olha, Isabela, você tem uma glicemia aumentada, a partir de agora você vai fazer isso, "Mas tá, mas por que eu tô com a glicemia aumentada? O que aconteceu? O que eu posso fazer?" Eu acho que demanda muito também a gente mudar um pouco a nossa postura. Nós estamos acuados. Então um médico, um profissional fala e você fica: "Ai, ele é o dono da verdade." Ninguém é dono da verdade. Ninguém é dono da verdade. Mas você tem que estar sempre numa parceria com o profissional para que isso funcione de forma adequada. Esse é o grande, essa é a grande base do pré-natal do século 21, é informação e conhecimento. Então quando eu falo, inclusive nas redes sociais, é exatamente sobre isso. A informação tá aqui para quem você quiser, você vai fazer ou não se você quiser. A vida é sua, o destino é seu. Eu falo com mulheres, mulheres que têm filhos, eu não tô falando com crianças desamparadas. Elas vão escolher inclusive o destino dessas crianças, então a gente tem que começar a falar sobre isso a partir de agora. Queria trazer um ponto interessante do que a Ruth falou, porque biologicamente nós nunca tivemos filhos sozinhas. Nós nunca tivemos. A gente tá falando de sororidade como se fosse assim, agora eu dou um troféu para sororidade, né? Mas a gente nunca teve filho sozinha como comunidade, como sociedade. Quem cuidava do filho da Ruth era Bruna, Isabela, Joana, e todo mundo tava ali junto cuidando daquele filhote como uma grande comunidade. Exatamente. E nós perdemos isso. E eu acho importante a gente resgatar isso, porque um filho ele não é só da Ruth, ele está inserido numa sociedade e ele vai ter um papel nessa sociedade. Então que todos apoiem isso. Vindo para cá, uma moça tava segurando o neném, toda vez acontece isso comigo dentro do avião, ela tava segurando o neném tentando botar a mochila no compartimento de cima e eu falei para ela: deixa eu me oferecer para segurar o neném, eu não posso, é mais forte do que a mochila. "Olha o negócio que ela colocou no tio." Ela olhou para cá assim: "Eu estou andando no aeroporto na segunda conexão e ninguém se ofereceu para segurar o meu filho para mim." Aí eu falei: "Não tem problema nenhum." Porque eu falei: "Gente, é isso que nós somos. Nós somos mulheres que cuidamos de outros filhotes." Então, aonde nós estamos nisso?
Posso completar uma coisa? Um convite?
Por favor! Ela é ótima!
Adorei!
Adorei!
Não, mas sabe uma coisa que eu tenho falado muito, gente? Rede de apoio, pai é corresponsável. Rede de apoio é o avô, rede de apoio é o padrinho, é o tio. E eu tenho me desafiado muito a isso, né? Meu marido está na Coreia por 40 dias a trabalho. E quem eu faço questão de colocar na minha rede de apoio é o meu enteado. "Ó, eu preciso fazer uma reunião, não sei o quê." "Faz o que você tiver que fazer no celular e assume o seu irmão." Que legal! Aí parece que tem um correspondente na faixa de Gaza no quarto. "Ah, pum!" Enquanto ninguém chorar, tá tudo bem.
Só coloca um colete de gás.
Fui para Portugal. Meu primo, jovem solteiro, bonitão, de 28 anos, que nunca tinha carregado um bebê.
Carrega.
Ficou, a gente ficou juntos e hoje— E eu cheguei ao ponto de sair para um trabalho durante 3 horas e ele ficar sozinho com ele. Eles aprendem. A gente também tem que dar essa chance. Opa! Meu sogro, o padrinho do meu filho, que se oferece o tempo todo e que muitas vezes a gente fica assim: "Ai, será que ele vai saber?" Gente, são homens, são pessoas adultas.
Exato.
A gente também precisa fazer isso, porque isso beneficia a gente e beneficia a criança, sobretudo os meninos, deles verem que homens também cuidam.
Perfeito. Falamos sobre a questão de rede de apoio no episódio com a Dani Junco.
Ah, que legal, tava lendo o livro dela agora.
A Dani Junco é, ela tem a maior aceleradora de mães do Brasil, que é a Bitumami, tem mais de 200 mulheres envolvidas com a Dani, e nós falamos sobre a criação da rede de apoio. Então uma coisa é você reclamar que você não uma não tem, a outra é você também se colocar no lugar e bom, então vou criar, então vou ensinar. Ah, mas eu vou ter que ensinar isso, né? Talvez, tenta, né, que o resultado pode ser muito bom. Deixa eu trazer aqui uma questão: Ruth, como é que você descobriu que estava grávida do Joaquim?
Nossa, eu queria ter um vídeo, sabe vídeo que o pessoal faz agora, não sei o quê.
Gente, você sabe que eu só fiz assim no vídeo, com um desses, um teste da Clearblue.
Foi, tem um de tirinha também, não tem? Era de tirinha, não sei. Enfim, mas eu fiz um desses num domingo de manhã, porque, né, só dando contexto, eu parei de tomar pílula e a minha médica virou e falou assim, ela falou: Ruth, ó, seguinte, parou de tomar pílula, legal, mas durante 2 meses protege só para a gente ver como é que seu corpo tá voltando e tal. Aí no primeiro mês, sucesso. No segundo mês, eu não sei se eu engravidei no dia -2, no dia 9, sei lá que dia que era, sei lá se o fluxo o período não era regular. Cuidado com tabelinha, não funciona, gente. E assim, eu já tava querendo ter filho, mas ter sido logo ali, e foi muito um susto, né? E eu lembro aquela coisa, e até gosto, né, de contar do momento em que eu tive certeza. Eu fiz aquele, tomei um susto, mas na véspera, quando a coisa tava atrasada, a gente tava no carro e o meu enteado, ó, eu já vou emocionar aqui, ele colocou, colocou uma música, colocou You're Just Too Good to Be True, e a gente baixou os vidros à noite cantando os três aquilo no carro. Ela falou: "I love you, baby." Eu falei: "Eu tô grávida." E aí, meu amor, você aceita?
Eu falei: "Bruna, abraça ela que eu tô longe. Se eu sair daqui, eu vou destruir todo o cenário." Ai, que coisa mais linda!
E aí foi um desses assim. Não foi do tipo: "Ai, que lindo!" Foi do tipo: "Meu Deus, e agora?" Falando da Dani, né?
Ela falou assim, ó: "Não, o casal vai lá..." Esse programa é de adultos, né? Então, o casal vai lá, transa sem camisinha, acho que vai ganhar o quê? Um iPhone? Aí vem tipo: nossa, eu tô grávida! Olha só que interessante, porque isso aqui não tinha então antes da gente viver as experiências que nós vivemos. O teste, beleza, o teste já existe há muito tempo. Esse aqui, por exemplo, né, da Clearblue. Eu fiquei muito feliz que a Clearblue está conosco nessa temporada de maternidade, porque as minhas gestações e outras, e outras situações que eu achei que eu estava grávida, eu sempre já deixava em casa. Porque eu fiz uma experiência com implante de hormônio. Depois que eu tirei o implante, eu falei: eu quero ver como é que meu corpo funciona. Então, conscientemente, falei com meu ginecologista, falei assim: olha, não vou tomar anticoncepcional. Ah, Isabela, fica tranquila, vai demorar para engravidar, você tem 39 anos, vixi, a mulher demora para engravidar, né, tomando anticoncepcional tanto tempo. Veio rapidinho. E aí, agora com Antônio, a mesma coisa. Neste intervalo entre deixa eu saber como é que meu corpo funciona, né, porque a gente fica tomando esses anticoncepcionais, né, por tanto tempo. E aí eu já deixava vários testes porque eu sentia uma oscilação, eu teste, pronto, teste, aí vi o resultado, beleza. Mas aí eu descobri uma outra coisa, escuta essa, Ruth. Existe um teste hoje para quem está tentando ou não engravidar, que é um teste de ovulação digital. E aí você vai saber em que dia do mês você pode ou melhor não, dependendo da sua decisão, né? Você entendeu?
Nunca tinha pensado nisso, que eu tô no não, né? Pelo amor de Deus.
Então pronto.
Mas é útil também, né?
Olha que interessante isso. É tecnologia a favor.
É o século 21.
Das nossas decisões. Isso é legal.
É o século 21. É isso. Essa é a tecnologia. "Como se chega a uma coisa que parece muito simples, mas quanto se demorou para ter o desenvolvimento tecnológico?" Isso é uma reação muito interessante, inclusive do ponto de vista técnico.
Quantas vezes mulheres solteiras que não sabem se estão rolando ou não vão lá: "Ah, é esse aqui, opa, hoje vamos!" Não, se você não quer engravidar, não brinca, não vai para balada hoje não, melhor não. Assiste um filme, fica tranquila se você não quiser engravidar. Agora, se você quiser engravidar, eu tô falando de uma mulher mulheres solteiras, mas também tem muitas mulheres casadas e que por alguma razão não é o momento. Antes da gente encerrar, quero trazer para vocês uma outra questão polêmica. Hoje é o dia que eu tô trazendo todas, esse programa, todas as polêmicas, né? Mulheres inteligentes. Não sei se vocês sabem, mas uma mulher que tem um plano de saúde, ela tem uma carência de 300 dias para gestação entrar. Eu fiquei, eu estou sem plano de saúde na gestação, porque entra a transição de um plano de saúde, encerramos, Thiago saiu do emprego dele, não temos plano de saúde até fechar um plano. Fechamos o plano, 15 dias depois eu tava grávida. Ah não, mas você não tem direito. Então quero trazer aqui esse ponto, tá? Acho muito importante a gente levar essa discussão, porque como é que você vai falar para uma mulher que ela tem que então Planejar o contrato de um plano de saúde antes de planejar a gestação? Não é estranho isso?
Tantas coisas que a gente tem que planejar e mais isso, né?
É exatamente isso que eu ia falar. Eu como advogada, por exemplo, você é autônoma, você contribui para a Previdência para saber se você vai ter, né? Porque se você é CLT você sabe que você tem uma licença-maternidade remunerada. Mas se você é uma MEI, se você é uma ME, você contribui com as guias da Previdência para saber se você vai ter, de quanto vai ser o seu salário, se é que você vai ter. Então assim, são muitas camadas.
Muitas.
E são camadas que normalmente um pai não pensa. E eu acho que esse é um convite, né, acho que, sobretudo o seu marido que é um homem tão ativo nessas coisas, do tipo, eles precisam pensar junto com a gente. É o plano de saúde, é o plano de saúde do bebê, que eu tomei um susto que eu não sabia que nos primeiros 30 dias você tem que registrar o bebê, senão o bebê Vai ter carência também. E quem que tá com cabeça nos primeiros 30 dias de um filho para lembrar de fazer o registro no plano de saúde? Espero que o pai, espero que o pai, que pelo menos ele assuma essa responsabilidade. Mas enfim, são muitas coisas para a gente pensar sozinha, né? O corpo já é uma coisa muito grande para a gente pensar sozinho, mas as burocracias pelo menos deveriam ser partilhadas.
Acho muito incoerente. Então, no século 21, nós temos 300 dias de carência para uma mulher ter direito ao plano de saúde na gestação. Então, se eu pudesse falar aqui de uma política pública ou de uma discussão pública que a gente precisa começar, é isso, é esse direito que a mulher precisa ter nesse período de 300 dias, porque é inadmissível.
Mas vamos lá. Essa é uma discussão muito difícil, vou até te interromper, Isabela, essa é uma discussão extremamente difícil e o Brasil, ele é um dos países que oferece o sistema público de saúde, que não é, obviamente, com todas as suas suas demandas e suas— mas o SUS, e aí essa alegação: existe o SUS, o SUS existe, você ao pagar o imposto você tem o SUS. Então como a discussão é feita no nível privado e no nível público? Essa é uma discussão de saúde pública, essa é uma discussão de saúde privada? Qual é a linha tênue que separa essas duas questões? Porque em tese todas nós aqui temos, a gente pode entrar em qualquer hospital do sistema público de saúde. Então é muito É muito delicada a questão de uma empresa que sempre é a intermediária do serviço de saúde, que é o que a gente chama de seguro saúde ou plano de saúde, enfim, ela é uma intermediária, ela é uma atravessadora, e aquilo que nós de fato temos dentro do Brasil, que é o sistema público, que é o SUS, que é o Sistema Único de Saúde.
Sem dúvida, estou com você. A questão é: ao entrar num plano de saúde, eu como mulher, de 43 anos na época, não ter direito então dos exames da minha gestação naquilo que você já está se propondo apagar é bem ruim.
Com certeza absoluta.
É uma discussão pra gente depois pensar.
Com certeza absoluta.
Bom, pra gente encerrar, Ruth, qual frase ou qual conselho ou o que que você gostaria de ter ouvido antes de ser mãe?
Antes de ser mãe, ou tipo grávida, entendeu? Já sabendo que eu seria mãe ou não.
Se você quiser, explica direito a sua pergunta. O que você gostaria de saber, sabido, antes de ter o Joaquim? Pronto.
Eu acho que eu tenho falado muito sobre o lance da maternidade padrão ouro. Muitas pessoas falam assim: nossa, a gente fica sobrecarregado, a gente tá cansado. Sem dúvida nenhuma, estamos. Mas eu acho que tem um papel muito grande de redes sociais aí de pregar pra gente um tipo de maternidade que é do tipo: ai, agora é a rotina de sono, agora é a rotina de leitura, agora rotina de alimentação, agora é a rotina de— gente, a vida fica um inferno, a vida fica chata, sabe? E aí começa assim: ai não, porque você quando tá grávida tem que colocar música, tem que falar com o bebê, tem que colocar o fone na barriga, tem que não Leia história para criança. E aí vão colocando requisito, requisito, requisito. E isso a gente faz uma análise socioeconômica disso muito claro, de que quanto mais atribuições a gente colocar para uma mulher, menos ela tem disponibilidade para crescer na carreira, menos ela tem disponibilidade, ela tá se sentindo em dívida, ela não vai pedir mais para ninguém, nem para o chefe, nem para o marido, porque ela se sente uma devedora do mundo. Mas ficam falando muito. E aí você abre o Instagram, o que que te aparece? Ai, fazer lancheiras lindas tomate cereja, um coração, coelho no pão de forma. Tá todo mundo maluco, sabe? Então assim, qual é o padrão de maternidade que a gente tá pregando? Sim, porque que fica todo mundo— porque a gente fica buscando uma referência, porque a influenciadora faz um bolo de 25 andares para criança a cada mês, com uma festa temática, e a gente tá achando que ser uma boa mãe é isso.
Exato.
O padrão ouro é um padrão loucura. E eu sempre falei isso assim, eu razoavelmente cedo percebi isso, mas gostaria de ter entendido isso antes de ser mãe. Porque muitas vezes você tem pessoas que decidem que não querem ser mães porque elas acham que ser mãe é isso.
Exato.
E não é, né? Eu fui uma grávida que tinha uma super dificuldade de ter conexão com a barriga. Eu vinha de um luto do meu pai, então eu sempre tava, né, com medo de perda, com medo e tal. E o único momento que eu me conectava com meu filho era quando eu ia fazer uma caminhada, colocava um pagode, batucava na barriga.
Barriga.
Eu fui uma mãe que não conseguiu ter um parto normal, e nem foi a mãe que mais tinha esse sonho, porque você tem um sonho sobre o parto, e a coitada da médica que tem que lidar com um monte de sonho lidando com uma realidade. Não dá para fazer isso. A pessoa: não, mas eu quero, é meu sonho. Gente, o parto dos sonhos é o parto seguro, é o parto bom para mãe, o parto bom para o filho. Eu fui uma mãe que achou que ia amamentar e não sei o quê, e com 2 meses já precisava de complementação, e com 4 meses já não amamentava. E nada disso tirou o meu vínculo fabuloso com meu filho. Honestamente, eu não queria nem que ele fosse mais vinculado comigo. Eu não queria. Eu, para sair daqui, tive que negociar água de coco, tudo, não sei o quê, para o menino ficar com o babaca. Ele adora, mas que não queria me deixar sair. Então assim, tudo isso para dizer: se você não ouviu música clássica na barriga, se você não leu histórias para barriga, se você não teve um parto normal, se você não amamentou por muito tempo, tudo isso é contornável, né? Eu brinco assim, a minha maternidade não é padrão ouro, ela não é nem padrão bronze, eu brinco que ela é padrão papelão e ela é fabulosa para mim e para ele.
É isso.
Ai, que orgulho de ser amiga dessa mulher, ô Bruna! E o que que você como médica gostaria então de falar para mulheres, né? Para todas as Ruths, todas as Isabelas, todas as mulheres nesse pré-natal do século 21. Qual é a mensagem que você gostaria de deixar, que é fundamental então para esta tentativa de coerência no que a gente fala e no que a gente consegue praticar?
Eu concordo com a Ruth em absolutamente tudo. A gente hoje acha que a maternidade é o quanto a gente floreia, é a perfumaria, é o quanto a gente maqueia, é o pão de forma do coelhinho, é exatamente isso. A maternidade eu acho que é uma mudança, é uma— não vou dizer uma devoção, porque parece uma coisa assim que você está se entregando, né, e que você se perde naquilo. Mas a maternidade ela é uma escolha que tem que ser não egoísta, de certa forma. Eu decidi ter um filho, e sabendo que ter um filho não tem romance nenhum. Eu tenho meu filho porque eu vou deixar aqui. Uma vez eu li uma frase que eu acho lindo: ter filhos é transformar-se uma coisa assim eterno. E eu acho essa coisa mais linda, porque é isso que a gestação de fato é. Então eu acho que a maternidade tem que parar de ser exatamente isso. Eu, quando criei o meu perfil, inclusive, para falar nas redes sociais, eu criei o perfil para as minhas pacientes terem embasamento, porque como eu consolo, ficava muito cheia. Ela fala assim: mas você tá falando uma coisa que ninguém falava para mim. E eu falava: eu vou botar isso aqui porque você pode discutir isso em casa com a sua mãe, com o século passado interferindo naquilo que nós estávamos fazendo no presente. E eu acho que hoje, muito mais importante do que tudo isso, é você falar assim: o que que eu quero da minha gestação? Acho que a maternidade começa muito nesse momento. Você não precisa botar música clássica, mas você talvez tenha que saber, poxa, o que que eu fiz hoje que ficou legal para mim? Porque o que tá bom para você tá bom para o seu filho. Então, a sua atividade física, aquilo que você come, como você se comporta. Hoje eu "Não, porque eu não vou trabalhar no período noturno, porque eu tô cansada e não tá bom para mim." Então eu acho que é muito importante que a gente desmistifique essa questão da, enfim, de florear, do romantismo, porque a maternidade ela é bem diferente disso. A gente decide ter filhos porque a gente decide transformar outras vidas a partir daquilo que nós somos. Então a gente fala: "Nossa, mas é que eu tenho um pouquinho disso aqui." E deixar essa eternidade para as outras gerações.
Excelente, excelente. Quero agradecer a Clear Blue, que está comigo nessa temporada, a Juliana Pacífico, a Ju Butler Shopper e Sonhos de Ninar, que nos ajuda a deixar esse cenário fofo, lindo, fofo, lindo, lindo, lindo, fofo. Dá vontade de levantar agora, mas é cenário, então não podemos. E quero agradecer Ruth e Bruna por terem feito todo o remanejo na agenda de vocês para estar aqui. Olha o quanto isso é valioso, sabe? Você veio de Brasília, fechou sua agenda, deixou de atender outras pessoas, você acionou babá, afilhado, enteada, todo mundo para estar aqui. Então muito obrigada, sabe? Que vocês tenham em dobro todo esse amor que vocês colocaram nesse episódio. Ruth, além dos seus livros, qual é a sua rede?
@rutmanos. É bom ter um nome esquisito, é que é só @rutmanos.
Manos de manuscrito. Que você então continue contribuindo conosco com todo o seu capital intelectual e toda a sua experiência emocional agora como mãe, que só vai deixar o mundo melhor. E Bruna, suas redes?
Ah, eu tô em todos os lugares. Bruna Pitaluga, DRA, que é Doutora, DRA Bruna Pitaluga.
Pronto. Obrigada mais uma vez. Que a gente possa seguir juntas então compartilhando informações que vão contribuir para quem precisa tomar decisões. Se esse assunto fez sentido para você, se tocou seu coração, compartilhe com quem você quer bem. Assim a gente leva informações corretas e coerentes para mais pessoas. Até a próxima, interioriza! Esse episódio tem o patrocínio de Clear Blue, uma marca P&G.
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