O que uma advogada tem a dizer sobre o Burnout? Priscila Arraes | EP 03 - Ïnterioriza 2ºTemporada
12 Mar 2024 · 33 min
Priscila Arraes, a lawyer specializing in occupational diseases, talks about burnout and employer liability. She discusses how hard it is to prove burnout in court and why data and research matter for recognizing workplace risks.
Chapters
Oi, que bom saber que você tá aqui no Interioriza, dessa vez estreando no estúdio do Amauri Mauro, e eu estou com a doutora Priscila Arrais, advogada. Bem-vinda, Pri.
Muito obrigada.
Advogada de qualquer causa ou advogada especialista?
Advogada especialista em doenças ocupacionais, principalmente burnout.
Por que você escolheu essa área, Pri?
Bom, em 2007, eu fui fazer uma especialização em Direito do Trabalho, Processo de Trabalho, na escola da magistratura. E tinha um assunto que estava… Que era novo pra todos nós, que era a responsabilidade objetiva do empregador. Então, isso era novo. E eu quis falar sobre isso, escrever sobre isso. Foi aí que eu me interessei pelo assunto, começando pela responsabilidade objetiva do empregador. É um assunto mais delicado, mais difícil, porque nós não estamos falando de hora extra, adicional, noturno. equiparação salarial. Nós estamos falando de responsabilidade civil, e responsabilidade civil é uma matéria mais específica para o direito civil, que a gente aprende mais no direito civil e não no direito do trabalho.
Mas na prática muda o quê?
Bom, existem diversas regras que você precisa conhecer e respeitar do direito civil. Então, a responsabilidade civil é o assunto mais complicado, mais difícil do direito do trabalho. mas também mais apaixonante.
Nossa, eu não sei agora pra onde eu vou, gente, nessa conversa, porque você me fala que em 2007 a responsabilidade objetiva do empregador era um assunto novo.
Sim, nós tínhamos uma lei, o Código Civil trouxe um artigo que tratava da responsabilidade civil em 2002, só que a aplicação desse artigo, que falava da responsabilidade civil objetiva do empregador, ou seja, na Justiça do Trabalho, Era questionável, como que nós vamos fazer isso? A partir de que momento que a responsabilidade é objetiva? Ou seja, porque em regra, a responsabilidade é subjetiva e você tem que provar a culpa ou o dolo do empregador pra você conseguir responsabilizá-lo das consequências com o trabalhador.
A culpa ou a inocência, você diz, do trabalhador?
A culpa ou a inocência do empregador.
Do empregador?
É. Agora, quando você fala de responsabilidade objetiva, você não discute isso. A partir daquele momento em que você tem responsabilidade objetiva, não precisa provar culpa ou dolo. E quando que isso ocorre? Era esse o questionamento. Quando que eu posso considerar que o empregador é, sim, responsável? A partir do momento que ele coloca o trabalhador num risco?
Já sabido.
É, um risco já sabido, um risco maior do que a normalidade. Quer um exemplo de uma responsabilidade objetiva? Acidente de trânsito com um motorista. Assalto pra bancário. Então, é lógico que, ordinariamente, eles têm mais risco do que os demais trabalhadores de um assalto. Frentista, bancário.
Você quer me dizer, então, por exemplo, faz parte do jogo de quem escolhe trabalhar num banco que ele pode ser assaltado?
É mais arriscado.
É mais arriscado, ele tem mais riscos. Então, essa é uma responsabilidade objetiva. Isso já está comprovado. Assim como se eu trabalhar numa empresa com o áudio, o som muito alto, e eu não usar um protetor auricular, eu posso ter um problema auditivo.
É muito mais provável que tenha. Então, por causa disso, por causa da probabilidade, outra possibilidade, outro exemplo de risco, de responsabilidade objetiva, é o trabalhador que se acidenta, por exemplo, quando ele atua com animais. É imprevisível a atitude do animal. Então, se você não tem previsibilidade, você também não tem como se proteger. E não havendo possibilidade de proteção efetiva, não tem como falar em responsabilidade subjetiva. Porque aí você... Como você vai provar que o empregador fez ou não fez algo para proteger o trabalhador que atuava com o gado, por exemplo?
Mas aí eu provo como?
Não prova. Você tem um acidente, tem responsabilidade objetiva. Ou seja, o empregador vai responder por todos os danos causados para aquele trabalhador. Mas olha só, eu quero chegar num ponto, Isabela, que eu acho que você com essa sua cabeça fantástica, você já tá... Já tô. Já. Eu sei que você já tá, você já fez todas as conexões necessárias, embora você não tenha feito direito. Mas a realidade é que isso é estatística. Isso é estudo, isso é... São dados. São dados. Você não tem na lei todas as atividades, aliás, não tem na lei as atividades que são consideradas atividades em que o empregador tem responsabilidade objetiva. Não existe isso na lei. Como que a gente chegou às atividades que têm responsabilidade objetiva do empregador?
Como?
Estatística, dados, informações. Então, vai haver um momento em que a síndrome de burnout vai ser considerada uma doença do determinado trabalho. Se você trabalha como bancária, por exemplo, então a responsabilidade é objetiva, porque o risco de adoecer com síndrome de Burnout é muito maior do que nas demais atividades. E eu acredito que isso é o que vai acontecer. E exatamente com, por exemplo, a atividade bancária. Nós vamos ter, a jurisprudência vai entender em algum momento que determinadas atividades levam ao adolescimento por síndrome de burnout.
Doutora Priscila Reis, para tudo, o que a gente precisa fazer? Uma manifestação? Sair pelada? O que a gente precisa fazer?
Pesquisa, estudo, dados, informações. E é por isso que é importante a gente ter institutos como o ISMA-BR, institutos como o IPFEM, porque a conscientização da Carol Milton, por exemplo, porque a gente precisa de dados e a gente sabe que a gente tem subnotificação no Brasil.
Então, até agora o que eu entendi? Que em 2007 você começou a se aproximar desse assunto chamado responsabilidade objetiva do empregador, que para determinada atividade há um risco. E se eu, como funcionário, viver alguma situação dessa, está embutida já na responsabilidade do empregador.
Sim, se eu tiver consequências, não se eu viver. Se eu tiver alguma consequência na minha vida, algum dano, né? Isso. tem o dano, tem o nexo entre o dano e a atividade lá exercida, então a responsabilidade é do empregador. Porque na Constituição Federal, a gente teria que provar. Pela Constituição Federal, a responsabilidade é subjetiva. Então eu tenho que provar aonde o empregador teve culpa, na regra geral.
Na regra geral. Então, responsabilidade objetiva do empregador é regra geral? É lei? Não.
Subjetiva é regra geral, objetiva é exceção. Está na lei, mas é exceção. Não se aplica a qualquer situação a responsabilidade objetiva. A regra geral é, eu tenho que provar onde o empregador errou. Então, por exemplo, atualmente, se eu vou pra Justiça do Trabalho e quero uma indenização, eu tenho que provar qual o dano que eu sofri, onde o empregador errou, ou na omissão ou na ação.
Qual o dano, qual foi a omissão.
E o nexo entre o dano e a ação ou a omissão. Tudo isso é responsabilidade objetiva. Quando eu não consigo demonstrar isso, eu não consigo a indenização. Isso é a regra geral, está na Constituição Federal, está nos artigos das leis infraconstitucionais. Agora, a responsabilidade objetiva é a exceção, porque nem todas as atividades são consideradas atividades de risco. E como a gente não tem na lei o que é atividade de risco e o que não é atividade de risco, Eu quis estudar exatamente isso. Quando que eu vou poder aplicar a responsabilidade objetiva na relação do trabalhador com o empregador? Não existe ainda uma lei que diga quais são as atividades.
Não tem.
Não existe. É uma construção. jurisprudencial, ou seja... Você chama quem?
Ministério Público? Você chama quem pra essa conversa?
Você precisa... Sabe quem você pode chamar pra falar sobre esse assunto? O Sebastião.
Doutor Sebastião Oliveira, um beijo, sinto um abraço demorado, cheio de energia, positivo e respeito, meu e da doutora Priscila Reis. Pra quem não tá associando o nome, eu menciono o doutor Sebastião já em praticamente todas as entrevistas. Ele é desembargador de Minas Gerais, é vice-presidente do Tribunal Regional do Trabalho de Minas e é um dos maiores defensores desta fala coerente sobre a evolução das leis que afetam os direitos do trabalhador.
Ele é a sumidade no Brasil em responsabilidade do empregador, em danos causados pelo trabalhador em razão de adoecimento.
Então tá, eu chamo o desembargador, quem mais? Ministério Público, dados, IPFEM, ISMA?
Pra que a gente consiga concluir que a gente, na verdade, já imagina que seja, né? Algumas atividades são sim consideradas de risco, são sim mais arriscadas para o adoecimento mental.
Assim como para outras atividades, existe mais risco para doenças físicas.
Exatamente, é isso mesmo. Responsabilidade, muito bem lembrado, um exemplo bancário que tem Lerdort é responsabilidade objetiva.
Só lembrando que, na década de 90, quando os bancários começaram a desenvolver lesões por esforço repetitivo, sabe o que a turma dizia? Frescura! Por que está com dor no dedinho? Porque está digitando muito? Nós já vivemos isso, tá, mundo? Depois de muitos dados, indenizações, dores, afastamentos, demissões. Depois de muito choro.
É, exato. Muito choro. A Luciana Baruch fala de um acordo, né? Porque precisa toda... Ah, eu já sabia que era assim, mas agora eu vou aceitar. Então, foi aceito que, de fato, Lerdort é uma doença ocupacional.
Relacionada ao excesso de digitação.
Com tensão. Tensão. A tensão é necessária. Então, aí, mais uma vez. quando você tem o descompasso entre o que você consegue entregar a sua capacidade, as suas possibilidades, a sua energia, com o que você precisa entregar, que é exigido de você. Então você tem esse descompasso, e aí você acaba tensionando e lesionando mais facilmente. Porque se não, a gente teria Lérdore, por exemplo, como responsabilidade objetiva na orquestra sinfônica.
Exato. Atenção na atividade.
Exatamente. Atenção na atividade.
Então não é só atenção mundo, não é só a atividade ou só a atenção. É a atenção na repetição.
Exatamente.
Tensão na repetição. Eu vou até notar que isso é muito poderoso. Pri, vamos lá. Tensão na repetição. Se eu tenho uma conta corrente e eu gasto mais do que coloco crédito, eu vou ter um problema. Meu nome vai ficar sujo, eu vou ter um problema reputacional. Meu nome vai ficar sujo. E na saúde, é a mesma coisa. Se você não se recupera do gasto que você empenhou, você vai ficar doente. Eu gosto de fazer essas comparações porque fica mais fácil pra turma entender. No caso do burnout, então, o tempo já tá passando aqui, eu não gostaria de encerrar o nosso programa sem antes de falar o que te fez, desde 2007 pra hoje, 2024, essa entrevista sendo gravada em março de 2024, O que fez você focar a sua energia para as vítimas de Síndrome de Burnout?
Eu conheci a Síndrome de Burnout mais ou menos em 2010. Assim, num caso real, prático, em 2010. E de lá pra cá, o que eu tenho visto é um aumento muito significativo de números. Então, eu comecei há uns quatro anos, tanto que os vídeos do meu canal, você vê lá atrás, três, quatro anos, comecei a ter vídeos de burnout.
O seu primeiro caso foi em 2010.
O meu primeiro caso foi em 2010. E esse caso, pra mim, foi assim... Eu não conhecia a doença, não conhecia a síndrome. E eu comecei a ver essa pessoa adoecendo e agravando a situação dela. E ela continuava trabalhando. Ela era uma funcionária de uma grande empresa, mas era no interior de uma cidade pequena, de um estado de uma cidade pequena, em que ela tinha, por exemplo, a responsabilidade de cuidar de todo o dinheiro da empresa na casa dela. na casa dela e ela pagava funcionário e ela foi assaltada algumas vezes e eu sei que ela foi desenvolvendo a síndrome de burnout e demorou muito tempo para ela de fato se afastar do trabalho. Ela se aposentou por invalidez, ela tinha menos de 30 anos de idade quando ela adoeceu, ela não conseguiu se recuperar porque nem os médicos, nem eu mesma, nem ninguém entendeu exatamente o que ela tinha. Nós ganhamos o processo e muito tempo depois a gente conseguiu o diagnóstico. Então, hoje eu olho pra trás e penso que a gente, inclusive eu, falhamos nessa identificação. Porque naquela época não se falava tanto de Síndrome de Burnout. Eu não sou médica pra diagnosticar. Claro, eu não faço diagnóstico. Mas eu podia ter insistido mais pra que ela se afastasse do trabalho. E naquela época, eu não tinha a visão que eu tenho hoje. Hoje, quando alguém chega pra mim com síndrome de burnout, eu falo, se afaste do trabalho.
Absolutamente.
Eu jamais fico tentando fazer essa pessoa retornar praquele trabalho na situação que ela tá. Não, se afasta 15 dias, 20 dias e volta. Eu não faço isso. Eu aprendi nessa... nesse atendimento, sabe? E eu tenho visto um número muito crescente, muito substancial de síndrome de burnout. Algumas pessoas vêm com o diagnóstico do Google, O autodiagnóstico. E acham que a gente vai validar, mas a maior parte das pessoas foi a médicos, teve o diagnóstico.
Bom, só fazendo aqui algumas ponderações. O diagnóstico da Síndrome de Bernalti é clínico. Não é teste em revista, não é pegar matérias no Google e achar que está com isso aí. Não. Você já sabe que cansar é uma coisa, esgotamento é outra, burnout é outra. No burnout você perde funcionalidade. Esse caso que você mencionou dessa moça que trabalhava nessa empresa, Provavelmente ela era colocada como super responsável, super competente e super apta a lidar com todo aquele dinheiro na própria casa. Então eu estou fazendo o meu melhor. Mas e o risco disso?
Pois é, existia um risco que era desproporcional à capacidade de suportar ela.
Segurança?
Sim, no mínimo isso. Isso seria responsabilidade objetiva já. Se a pessoa está com dinheiro dentro de casa, além disso, tinha também uma responsabilidade muito grande com os funcionários, porque ela estava lá para pagar esses funcionários, para cuidar da empresa naquele interior. E era muito mais do que ela podia suportar.
Só lembrando que quando os engenheiros constroem uma ponte, eles fazem vários estudos, tá? Imagina aqui, sou engenheira, vão construir uma ponte ali em São Paulo, na Marginal Pinheiros, tem pouca ponte, não vou construir mais uma. Aí eu sou engenheira, eu faço milhares de cálculos, vários, vários, vários cálculos, pra ver quanto essa ponte vai suportar de peso. Aí, passa um caminhão, com o triplo ou quatro vezes mais de peso do que já tá ali na plaquinha escrito. Faça assim. Aí o caminhão, por excesso de confiança, o caminhoneiro, né, no caso, o caminhão ainda não vai sozinho, fala, não, não, dá pra passar. É sobre isso que eu quero dizer. Quando você fala, ela não tinha as condições suficientes para segurar todo aquele escopo de trabalho, é a mesma coisa que você querer colocar mais roupa dentro de uma mala. Tipo, já deu. O zíper tá estufando, você tá insistindo. E aí ele estoura. A ponte, tiveram cálculos, ela tá segura, tá todo mundo passando. Mas aí a hora que uma situação acontece, Ela rui, ela rompe. Por quê? Porque o limite não foi respeitado. O limite não foi respeitado.
E a gente... Veja, a gente não tem essa preocupação com as pessoas. A gente age como se as pessoas, todas elas, tivessem a mesma capacidade ou a capacidade que você... Pior, a empresa não avalia e não é capacidade de entrega, de ser bom, de ser... Não, os melhores...
Não é má vontade, não é má vontade.
Existem capacidades diferentes, existem características diferentes das pessoas. Nem todo mundo é bom em tudo. E a gente tem que respeitar isso. E a falta de respeito a isso faz com que as empresas deem muito mais do que aquilo que a pessoa tem capacidade de entregar. E exijam. Algumas empresas fazem isso.
Peri, antes da gente encerrar, como que as... Ah, não, antes de encerrar. Então, o diagnóstico... é clínico. Quem pode fazer? Psiquiatra, neurologista ou até um clínico geral que tenha conhecimentos.
Médico do trabalho.
Médico do trabalho, perfeito. Uma pessoa com habilidades de te ver como um ser inteiro.
Sim.
Eu me segurei hoje para não chorar. Aliás, eu sei que hoje vai ser um dia bem interessante de muitos conteúdos de gravação aqui nos estúdios do Amaro e Mauro. Mas eu preciso mencionar uma coisa. Quando você disse, aos olhos de hoje, e eu tenho certeza que essa moça, se ela te ouvir, ela vai se emocionar, eu poderia ter insistido para ela se afastar. Quando eu estava na minha jornada do burnout, eu fui para cinco especialistas e um deles, um gastroenterologista, ele tinha todos os elementos para me interditar. Ele considerou a fazer transfusão de fezes em mim. De tão grave que era o meu problema no intestino. De tão grave que... De tão descompensada que eu tava. E eu fui justamente numa consulta pós-trabalho na madrugada. Então... E a gente já se encontrou e eu falo ao doutor, ou doutores que me conhecem, se você está vendo que a pessoa está definhando, que ela está completamente fora do eixo, mas aquilo não tem necessariamente nexo com o que você faz, pede para ela procurar um outro médico ou considere propor para ela um afastamento. Porque se naquele momento ele tivesse me dito, Isabela, isso aqui é muito anormal, Você tá com uma proliferação de bactérias que isso pode te matar. Era me interditar, né? Mas ok, então eu não estou dizendo que ele foi culpado, eu estou dizendo que quando a gente tem um conhecimento, ou eu coloco ele em prática a favor das pessoas, ou...
É, e tem que ter a humildade de perceber que você talvez não seja capaz naquele momento de cuidar dessa pessoa.
Mas ok, depois que você sabe, então o que eu vou fazer com isso?
Não, o que eu vou fazer? Eu não consigo resolver esse problema, porque pra mim é maior do que aquela minha competência. Então o que eu vou fazer? Vou indicar pra um outro médico pra avaliar, porque isso é anormal, isso não tá certo. Enquanto a gente não chega ao diagnóstico e ao tratamento correto, vamos afastar a Isabela, porque ela não tem condições de trabalhar.
Não tem condições de trabalhar. E aí só um outro ponto é quando você fala sobre reintegração. Senhoras e senhores, advogados e advogadas desse Brasil, promotores e promotoras, juízes e juízas, como é que você vai fazer uma pessoa voltar para o ambiente em que ela adoeceu? Por mais medidas pedagógicas que aconteçam, é muito difícil você afirmar que aquele contexto todo mudou.
Muito difícil. Não dá tempo até da empresa entender o que aconteceu, onde parou.
Eu me lembro quando eu fiz uma audiência e o juiz falou assim, mas você gostaria de ser reintegrado? Eu falei, doutor, eu nunca pedi pra sair. É claro que eu quero voltar, eu não pedi pra sair. A situação e aí, com o passar do tempo, então tudo isso depende muito de repertório e tempo, a reintegração, naquele caso, me aderceu ainda mais, porque eu fui colocada num lugar inferior ao que eu estava, eu tinha que entrar pela porta de emergência, as pessoas não falavam comigo e, quando me olhavam, elas fugiam de mim. Então, foi muito desafiador. Então, eu não desejo a ninguém. Me lembro de um trabalho que eu fiz no Ministério Público do trabalho de Campinas, olha que interessante, Campinas tem um trabalho incrível com o Ministério Público. Eles tinham, não sei agora como é que tá, um número de pessoas afastadas do trabalho. Igual em São Paulo, a gente tem um impostômetro que vai rodando. Lá é o número de afastamentos do trabalho. Olha que fantástico. E era uma campanha chamada Dor Pode Te Marcar. Que quando uma pessoa se afasta por um problema físico, quando ela volta, ela já sempre te perconceito. Imagina então de uma dor que ninguém tá vendo. Então dói mais, tá? E adoece mais.
E por ser inversível, tem essa questão de você ter que ficar provando a todo tempo, para todas as pessoas, muitas vezes até para a sua família. Então, cada... Imagina você... Cada é um estupro. Você, toda vez que você vai falar, você sofre de novo.
Te invalidam.
Então você tem que repetir, repetir, repetir aquilo que te faz sofrer pra que você, pra que as pessoas acreditem em você. E isso só piora.
Só piora. Como é que essas pessoas chegam até você, Priscila, porque hoje você é uma das principais vozes do direito que defende burnout no Brasil. Eu, pra todas as pessoas do direito que eu conheço, eu falo, você já se aproximou da saúde mental, especificamente dos problemas relacionados à falta de saúde mental e o burnout? Porque, A gente precisa de mais empatia ao tema e mais dedicação, mais interesse. Eu vou lidar com uma pessoa que está com burnout da mesma maneira que ela está com o Lerdort? Ou seja, um problema de saúde mental tem as mesmas consequências que um problema de saúde física?
E é muito desafiador lidar com a pessoa. É mais desgastante pra mim como profissional, pra minha equipe, porque a pessoa tá doente.
Super!
Então não tem como. Então ela tem uma ansiedade que exige dela uma resposta mais rápida, da gente uma resposta mais rápida.
Exato. Mais paciência, porque a gente não consegue lembrar das coisas.
Sim, não consegue. O que eu faço? Eu não tenho contato só com o meu cliente. Eu dou o meu celular e normalmente o marido, a esposa, o filho, a mãe ou o pai tem contato comigo. Porque ontem mesmo eu estava falando com o marido de uma cliente minha. Ela passou na perícia, a perícia afastou, afastou até 9 de março, e ela não conseguia, começou a chorar desesperada e não conseguia entender. Porque o atestado dela, da médica dela, ia muito além daquela data. O INSS liberou pra trabalhar a partir do dia 10, e ela se apavorou. Era uma coisa simples.
Não tá preparada ainda? Não, ela não tá preparada.
E saiu ontem a decisão. Então, assim, quando ela viu, ela não tinha mais condição de... Passou o dia chorando, desesperada, o marido... Enfim, é desafiador nesse ponto. É desafiador, porque a justiça também não está totalmente preparada. Os peritos não estão preparados. E eu ouso dizer que vai demorar um tempo ainda, porque nós temos uma fobia com esses problemas de saúde que não são provados por um marcador biológico. Cadê o exame, Isabela? Você não tem exame de sangue que diz que você tem burnout? Cadê o raio-x da burnout? Não existe raio-x. Não existe exame de sangue. Não existe marcador biológico. Então, se você não tem um marcador biológico, você não tem nada. Você não tem coisa nenhuma.
Será?
Então, exatamente. Por conta disso, é muito desafiador. E eu vou dizer pra você que eu ouço dos meus próprios colegas. Eu não pego processo de síndrome de burnout. De outros eu ouço, eu falo pro meu cliente falar pro médico dar um atestado com outro CID, porque esse de burnout não quero.
Pri, infelizmente o nosso tempo acabou. Mas eu já quero dizer que depois desse episódio você vai ter acesso a um outro interioriza com a Priscila e mais duas convidadas e a gente vai se aprofundar em alguns dos assuntos que não deu tempo da gente falar aqui. Mas já foi muito interessante te ouvir e ver que você mesmo não ter vivido o burnout, você se interessou pela causa. Isso me faz lembrar da Fernanda Bianchini, uma grande amiga e irmã de vida que não é cega e tem um instituto que reabilita cegos. Então, a gente não precisa viver a dor pra cuidar das pessoas. É claro que no meu caso, por exemplo, ok, eu vivi uma dor e aí eu me aprofundei pra prevenir essa dor. Mas só pra finalizar a questão do marcador, tá? Que aí a gente depois continua no próximo episódio. Até o século XVI, os médicos se negavam na existência... Até o século XVI, os médicos recusavam a ideia da bactéria. Bactéria não existe. Eu não vejo. Até que foi criado o microscópio. E aí, com o microscópio, o que acontece com as bactérias? Elas aparecem.
Ah, então elas só existiram a partir dali?
Ou só porque eu tive um marcador em que eu via pra crer ali. E só uma provocação, tá, gente? Se o cortisol não for um indicador sanguíneo, eu abandono todos os meus certificados. Mas ok, a história ainda vai nos mostrar isso, né? Pri, pra quem está te acompanhando e está apaixonado, apaixonada por você e quer continuar agora consumindo os seus conteúdos, quais são as suas páginas?
A gente tem um canal no YouTube que a gente fala sobre direitos de quem tem burnout. Eu tenho uma playlist enorme que vai ajudar as pessoas a saírem daquele... Uma enciclopédia. desespero que é não saber como agir com o INSS, com o empregador, que é Arrais e Centeno, é o meu sobrenome.
Arrais.
Arrais e Centeno, com C. E tem o Instagram, que é o PriArrais__Advogada, porque eu prefiro ser chamada pelo nome.
Claro.
Eu prefiro. Não tem doutora. É Priscila Reis.
Eu adoro chamar as pessoas de doutora e professora. Então me chama de professora. Então professora, doutora Priscila Reis. Adoro. Doutora, professora Priscila Reis. Nós temos ainda outros assuntos, como eu disse, que serão tratados no próximo episódio, mas neste aqui eu gostaria que você deixasse uma mensagem, não só para as pessoas que estão vivendo ou na dúvida se estão com o Barnaut ou não, ou buscando seus direitos, Você não entra contra ninguém, tá? Você sempre busca os seus direitos. Muda a linguagem quando você usa, porque judicializar uma causa não é o que ninguém quer. Mas se a gente precisa judicializar uma causa, é porque os seus direitos foram rompidos.
E não por culpa sua. Nesse caso, não por culpa do trabalhador.
Qual é a mensagem que você deixa para os advogados do Brasil se interessarem um pouco mais para aprender? Porque os casos vão aumentar, isso é um fato.
A mensagem que eu deixo para os advogados é que, mesmo que não seja uma causa fácil, mesmo que não seja um processo simples de lidar e não é de fato, envolve diversas coisas, diversos problemas nesse processo, é importante que a gente faça sim esse trabalho mais claro. Não superficialmente. Estudando, se aprofundando na própria síndrome, não basta conhecimento de direito. Você tem que entender a pessoa. Você tem que entender como que ela chegou àquela situação que ela está. Você tem que entender o histórico de vida dela. Por que que ela se permitiu essa Tentar cumprir aquilo que ela não ia conseguir por tanto tempo. Por que isso aconteceu? Está nela isso. Também está nela. A gente precisa olhar pra gente também. Não tô tirando de maneira nenhuma a responsabilidade da empresa. Afinal, eu sou advogada só do trabalhador. Eu não atuo pra empresa. Mas eu quero que o trabalhador entenda que ele pode, sim, dizer não.
Que ele pode... Dar tempo dele prevenir.
Sim, dizendo não. Não estando sempre disponível.
Reconhecendo seus limites.
Sabendo que ele não precisa ser super-herói. Reconhecendo seus limites.
Porque este modelo, que existe em algumas empresas, vai continuar acontecendo. Mas com as informações que hoje você tem, você pode tomar outras decisões.
Sim.
Salve de palmas! Esse estúdio tá maravilhoso e no próximo episódio você vai ver a continuidade, então, desse papo com a doutora professora Priscila Reis, com mais duas convidadas, a neurologista Ana Paula Pena e a médica advogada Luciana Barucchi.
Meu Deus!
A gente vai se aprofundar um pouquinho mais sobre o Burnout. Pri, muito obrigada. Eu desejo que muitas pessoas te procurem e que você possa ser farol Neste contexto em que a gente vive com tantas perturbações, tanta confusão, que você possa ser farol, então, na vida de muitas pessoas. Obrigada.
Obrigada, Isa.
E você já sabe, né? Deixa um coraçãozinho. Você já sabe o que tem que fazer. Mas se você puder compartilhar esse episódio pra alguém que você sabe que vai melhorar, vai pensar de forma melhor, te agradeço profundamente. Obrigada e até o próximo interioriza.
More from GHION.AI
20VC: Is Chamath Right: Is DPI The Only Thing That Matters | Does OpenAI Even Matter | Mary Meekers AI Report: The Analysis| IPO Breakdown: Chime, Circle & Thoma Bravo's New Fund