Rir para Viver: Varlei Xavier, o Palhaço que Venceu o Burnout com Alegria EP 22 - Ïnterioriza
16 Jul 2024 · 34 min
Varlei Xavier, a clown and educator, talks with Izabella Camargo about recovering from burnout through clowning and theater. He uses humor as a therapeutic tool in education, blending body, mind, emotions, and spirituality into his work.
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Será que a educação pode vir acompanhada de alegria? Será que a educação pode vir com um palhaço, uma palhaça? Será que a educação pode vir com coração e emoção? Nosso entrevistado de hoje do interioriza, Varley Xavier, educador, artista, palhaço, poeta, que mais?
Pai de dois gatos, pai de uma filha, esposo de uma esposa. Que se fosse dois, eu seria bígamo. E um pouco mais de outras coisas que a gente vai descobrir também. Que eu tô descobrindo agora.
É mesmo? O que você tá descobrindo agora?
Porque eu tô passando exatamente por aquele momento que você fala de atualização de identidade, né?
É mesmo? Me conta mais.
Porque eu também passei por um episódio como muitos daqueles que você já ouviu. E que você relata, né? Então, tem uma série de coisas que eu tô descobrindo sobre mim. Através também de análise, também estou terminando minha formação em psicanálise. Então, tem isso também. Então, tem muita coisa ainda sobre mim que aos 44 anos, eu ainda estou descobrindo.
Gente, que introdução maravilhosa. Acho que foi o primeiro entrevistado da minha vida que tem a coragem de dizer... Não, então, tem um monte de coisa que eu ainda não sei. Tô aprendendo. E a gente tá aprendendo o tempo inteiro, né, Varley?
O tempo inteiro. Aliás, um dos meus heróis na vida, que é o Cláudio Tebas, ele diz o seguinte... Maravilhoso. Ele fala... Eu morro de medo das pessoas acharem que eu tenho as respostas. Porque eu morro de medo que elas acreditem no que eu falo.
Muito bem. Olha, esse papo vai ser muito curioso porque, Varley, você trabalhou já como inspetor de alunos, é professor de língua portuguesa. Tudo indo muito bem, obrigada. Até que?
Eu sou professor de língua portuguesa e professor de teatro também. E nesse caminho, em 2007, eu tenho um primeiro episódio. Eu já tava ouvindo ali sobre o burnout.
Em 2007.
Tenho um primeiro episódio na rede pública. Depois de uma série de questões, uma série de violências, eu tenho o primeiro… Físicas ou psicológicas? As duas coisas. As duas coisas. E aí, eu decido fazer uma mudança de carreira. E aí eu comecei a trabalhar muito mais como professor de teatro, embora ainda fazia algumas pequenas aulas de língua portuguesa, até que esse caminho, ele vai se desenrolando pra que eu me estruture muito bem como professor de teatro. E que dentro sempre da área do teatro estudantil, que se o teatro já é uma área mal vista, mal remunerada, imagina o teatro dentro da escola, né? Quando isso acontece, depois de 15 anos ali dentro daquela carreira, sendo muito bem respeitado, eu decido, por uma questão de escassez, fazer uma mudança pro mundo corporativo, né? Chega a minha filha, com 12 anos em casa, porque ela vem de uma adoção sócio-afetiva. E aí, ela foi aluna da minha esposa, então tem todo um histórico ali. E ela vem, e aí me vem aquela choque de realidade. De agora você não tem que comer, agora você tem que dar almoço.
Tipo, a responsabilidade aumentou.
Exatamente. E aí eu faço uma mudança para o mundo corporativo, dentro do mercado de educação, setores de materiais didáticos, sistemas de ensino e tudo mais. E isso me desconecta de quem eu sou. Eu passo quatro anos e meio dentro desse cenário. Até que o ano passado, em maio, mais ou menos, eu tenho o primeiro episódio mais sério. Passo por uns 15 dias de afastamento. Retorno. O retorno no primeiro dia foi muito acolhedor. No quarto dia, já foi assim. Preciso que você volte a correr uma maratona. Decido sair, no dia seguinte vem uma proposta de uma outra empresa. Eu entro, eu já entro adoecido. E ali, eu passo por um processo muito grave que me leva para a UTI. E eu permaneço meses ali em afastamento, até que em… em fevereiro, eu decido, novamente, ouvindo as palavras de Isabela Camargo, você não vai se curar num ambiente que te adoeceu. Decido fazer uma mudança.
Por conta própria.
Por conta própria. Porque, num determinado momento, olha, não. Aqui, agora, na hora de você voltar, só tem isso aqui pra você. Pra resumir, volte a fazer o que você fazia.
É, impossível. Qual foi o diagnóstico quando você estava na UTI?
Quando eu estava na UTI, eu explicando todo o caso para o médico, ele falou, você está em burnout. Falei, doutor, por favor, então você coloque no atestado burnout. Porque naquele primeiro episódio, em maio de 2023, aconteceu a mesma coisa, você está em burnout. Os dois diagnósticos saem depois como depressão e ansiedade. Até hoje, eu não sei explicar por quê. Porque eu falei, por favor, coloque no atestado. Quando eu saio, na hora que a enfermeira me entrega, ela fala assim, não, o doutor colocou esse porque esse daqui já contempla. Eu não sei dizer, eu não sei se é medo dos médicos de falar, de colocar em respeito. Porque eu tava num contexto de muito assédio, de muita pressão. Não sei explicar porquê. E isso também me complica na minha saída, né? Porque, teoricamente, eu não tenho como provar que eu estava em burnout, que a minha doença era ocupacional. Mas era.
Quando você levanta a questão, eu não sei dizer se eles não fizeram isso por medo ou não, você quer resposta? Quero. Nós já conversamos isso, inclusive, com a doutora Ana Paula Pena, aqui neste estúdio do Amaury Mauro, num programa do Interiorism, em que estava ela, inclusive, no seu lugar, uma advogada trabalhista, uma médica também, nós quatro falando sobre isso, e a doutora Ana Paula Pena disse muito bem. Muitos médicos têm medo de colocar o diagnóstico correto por retaliação. Só que muitos médicos também se esquecem que também podem desenvolver o burnout. Por quê? Vamos lá. Marley, você, quando começa a sua trajetória, estou entendendo que começou na educação, os profissionais da educação e da saúde, de acordo com a Cristina Maslach, que é uma das principais pensadoras da década de 80, ela lança um livro, o título era The Cost of Caring, o custo de cuidar. E ela coloca os profissionais da saúde e da educação como os principais sensíveis, profissionais sensíveis ao burnout. Por quê? Com o idealismo, que agora... Outro dia a gente estava num evento de educação e aí teve um profissional de saúde, inclusive, que falou assim, mas o profissional que tem burnout é muito idealista. E aí eu fiquei confusa. Agora isso não é uma característica boa, é uma característica ruim? Não sei, você me diz. É boa ou ruim ser idealista?
Eu sofro todos os dias os custos de ser idealista, mas eu não consigo ser outra pessoa.
Eu também. Bate aqui. Muito bem, muito bem. Então, vamos voltar. Então, respondendo, os médicos têm medo, assim como outros profissionais também, que poderiam aceitar, estou falando só de aceitar, a entender. Realmente, a sociedade evolui, as consequências evoluem, as leis evoluem e assim por diante. Mas vamos voltar ao seu caso. Você disse que estava vivendo alguns tipos de assédio e eu recebo um livro digital do Varley chamado Fratura Exposta, a poética de Umbernaut. Foi assim que eu conheci o Varley. A Tati nos apresentou digitalmente e cá estamos presencialmente para compartilhar com você essa trajetória do Varley e que agora nos presenteia com um livro digital chamado Fratura Exposta, a poética de um burnout. Como é que você conseguiu ainda encontrar inspiração no meio de tanta dor? Porque só quem não tem condições de levantar um cotonete sabe o que eu estou falando.
Mário Quintana, poeta que eu amo, tem um poema que diz o seguinte, Da vez primeira em que me assassinaram, perdi um jeito de sorrir que eu tinha. Depois, de cada vez que me mataram, foram levando qualquer coisa minha." E aí o poema segue dizendo que a única coisa que sobrou daquele defunto, ele usa exatamente essa palavra, foi um toco de vela. No meu caso, o que sobrou foi a voz. E quando eu bebi muito da sua fonte, Isa, no sentido de ouvir muitos podcasts onde você foi, eu ainda estou com a minha capacidade de leitura comprometida e isso para um professor de português é dificílimo assumir. Bebi muito dessa fonte e eu lembrei muito sobre danos existenciais e tudo mais. E aí eu fui percebendo que a única coisa que me sobrou foi a voz. E o que estava sempre dentro de mim sempre foi a poesia. O meu primeiro poema, que na verdade era uma frase, eu ditei pro meu pai. Nem lembro, mas era um poema sobre o plano cruzado. Você vai entender, mas muita gente aqui não vai entender, né? E eu sempre escrevi, desde pequeno. Então, quando eu virei inspetor, o meu principal trabalho era um trabalho voluntário com as crianças de poesia. A poesia sempre esteve lá, foi o que me levou pra fazer teatro, porque eu sempre gostei de recitar a poesia. Então, eu precisei resgatar a poesia pra me reencontrar comigo mesmo. Então, foi aí que eu comecei a escrever. E o livro, mais do que o desejo de ter uma publicação de um livro físico, é um rito de passagem. Eu decido que eu vou fazer o lançamento digital no dia que eu assino a minha carta de demissão. E aí é que eu começo a fazer um processo para lançar digitalmente o livro de poemas. Então, ele é mais um processo catártico do que talvez um desejo de uma obra literária.
Tem uma das páginas aqui que eu estou vendo o crachá. Posso falar?
Pode.
Posso dar esse spoiler? A imagem é um crachá. Vou pedir para a nossa edição depois colocar. A imagem é um crachá e está aqui. Vida resumida à função exercida em horário comercial.
Exatamente.
Mas o Varley, como é que nós vamos encontrar esperança em tudo isso que a gente tá falando? Porque tudo que você tá vivendo, tá descrevendo, é muito triste. Você tem que parar na UTI, né, pra... fazer uma mudança de uma vida que você já sabia que nesse ritmo aqui nós não vamos continuar, não vamos conseguir continuar. Especialmente no meio de educação, ou seja, nós estamos colocando pessoas doentes e adoecidas cuidando das crianças que queremos que sejam as salvadoras do planeta. Se a gente não consegue salvar nós, nós queremos que... Como é que vai ser?
Pois é. Vamos adicionar mais um dado aí, que talvez entristeça mais, para que depois a gente possa fazer um outro movimento.
Tá bom, tá bom.
O primeiro trabalho onde eu permaneci durante quatro anos e meio ali era um material didático socioemocional.
Tá.
Mas, num determinado momento, tudo vira mercadoria.
Uhum.
Então, um dos meus poemas, que é um haikai super curto, diz, planilha vale mais que olho que brilha. Então, eu muitas vezes era chamado para encantar as pessoas, não é por isso, não é à toa que eu tenho encantamento aqui. no meu braço. Muitas… Durante a pandemia, eu fui a pessoa chamada pra ir pro escritório, mesmo em lockdown, pra gravar vídeos de aulas digitais. Aí, alguns roteiros começaram a não vir tão bons. Então eu comecei a roteirizar também os vídeos. E aí gravava, às vezes chegava em casa às 11 da noite, pra gravar no dia seguinte. em todo aquele contexto, só que isso não entra pra conta do contrato assinado. E tem um outro fator que é, dentro destas empresas, o assédio ou todas essas questões de cobrança e pressão, ela vem dentro de um sistema que eu chamo no livro também de veladamente cruel. Que é, olha, nós estamos cuidando de você. Você é uma pessoa importante pra nós. Nosso maior ativo são as pessoas. Mas, na verdade, você tem que pegar voos de madrugada. E aí você ouve a justificativa. Mas a agenda quem faz é você. Só que nessa agenda que você faz, não tá à conta da meta que você tem que bater. Então, a sua meta é alta. E aí, assim, organize-se em cima, mas a quantidade de pratos para empilhar, e sempre é inventado um novo prato. vira algo insustentável, ou o que foi insustentável pra mim. E aí me vem uma sensação muito difícil de fraqueza. Daqui a pouco o papo vai ficar fofo, tá?
Daqui a pouco vai ficar bonito.
Mas me vem uma sensação de fraqueza, de vagabundice, de eu sou a pessoa que não aguenta pressão. Eu sou sensível demais. Eu cheguei a ouvir de uma gestora, você precisa ter uma casca mais dura. Você precisa… Eu sou chamado pra todos esses movimentos, porque eu sou artista. Mas eu ouço que você precisa sentar mais na caixa da sua função. Vi agora um post que você fez sobre os sapatos. É exatamente isso. Num determinado momento, eu tava me vendo pra encaixar.
Pra me encaixar. Se encolhendo. Essa publicação que o Wally tá dizendo é uma provocação que eu faço com o sapatinho da minha filha, né? Que em determinado momento, quando eu fui colocar o sapatinho nela, não servia mais, né? A Juliana tá crescendo, graças a Deus. E aí, a hora que eu vejo aquele sapatinho, eu pensei, ou eu reclamo que não serviu, ou eu agradeço. Porque se eu ficar insistindo em colocar o pezinho dela aqui, vai machucar. Então, quando a gente se encolhe pra caber nos lugares, é sempre muito difícil. Você vai adoecer cedo ou tarde. E aí, falando nisso, eu pego aqui mais um poema do seu livro. Doente de relógio. Inflamação crônica. Muitas horas comprimidas em pequenas doses de vida. Que coisa mais linda. É triste no máximo, mas que coisa mais linda.
Essa leitura não é uma leitura alegre, não é uma leitura agradável no prefácio. Inclusive, eu falo sobre isso, assim, né? Mas era algo que eu precisava. Foi muito bom, por exemplo, eu ouvir de uma aluna, que está próximo do que nós chamamos de burnout, já foi para a enfermaria da empresa, falando, Varlay, eu precisei comprar seu livro quando eu tava indo pra enfermaria. E eu me senti acolhido, eu senti que eu não tô sozinha.
Senti acolhida, não estava sozinha. Janeiro, branco. Setembro, amarelo. O resto do tempo, alerta vermelho. Não precisa, né?
Que é exatamente isso que eu vivi.
E aí, qual a lição que você tira? E o que você hoje leva como um palhaço mesmo? Você se veste? Como é que você faz agora esse trabalho na educação desse tema?
Legal. Esse trabalho já existia antes de eu entrar para essas empresas.
Oficialmente.
Oficialmente. Ele começa a surgir lá em 2007, quando eu estou naquele período e eu vejo a escola doente, vejo o trabalho que se faz em palhaços e hospital. Estou me formando ali no curso de formação de atores e eu me faço a seguinte pergunta. Se tem palhaço em hospital, por que não tem palhaço na escola? Se a escola, às vezes, é um lugar tão doente ou mais doente do que um quarto de UTI. Nesse caminho, eu começo a experimentar a linguagem do palhaço em sala de aula. Mas não o palhaço professor que se veste ali, usa o que o pessoal chama de fantasia. A linguagem do palhaço é a aceitação da sua falibilidade.
É mesmo?
É. O palhaço não leva alegria. Porque ele não tem a escritura da alegria? Quem diz isso também é meu amigo Cláudio Tebas. Ele é a imperfeição. Por que a gente ri do palhaço? Você vai no circo, então vamos supor que você leva a Gelina do circo. Aí você tem lá as pessoas que estão andando na corda bamba. Você tem o mágico que faz coisas maravilhosas. Aí você tem a pessoa que dá salto mortal.
Aí vem o palhaço.
Aí vem o palhaço.
Que faz... É.
Cai. Ri. Toma tapa na cara. Toma tortada na cara. E aí, ele olha pra gente e a gente se reconhece nele. Ele é a única pessoa falível no circo. E é por isso que a gente ri. E aí, o que o palhaço faz na educação? Ele é imperfeito. Ele não entra pra ensinar. Na educação, todo mundo quer mostrar pra criança, mostrar pra quem tá ali o que é certo. O palhaço, ele entra pra ser imperfeito. Então, ele entra, ele senta com as crianças. E ele pergunta o que tá acontecendo. E a partir daí, ele vai errar. Só que ele tem que errar dentro de uma zona de aprendizagem. pra que a criança olhe, e aí é lindo quando acontece isso. Porque a criança fala, pera! Ah, peraí, entendi! Ela vai ajudar o palhaço nesse processo.
Que lindo!
Quando ela faz isso, ela aprende não só o conteúdo, mas ela desenvolve linguagem, ela desenvolve competências socioemocionais.
Então o palhaço, ele entra pra ser um instrumento na educação, mas numa educação em que as pessoas não são perfeitas, as pessoas precisam de uma das outras.
Exatamente. Eu falo que a gente combate uma doença degenerativa que se chama medo de errar.
Isso é fantástico.
E esse trabalho surgiu também porque eu errei uma conta de matemática quando eu era criança e a reação da professora foi horrível. E eu nunca mais fui bom em matemática. Então, o que eu quero quando a gente vai pra sala de aula? Mostrar que o erro, ele é um material extremamente rico pra gente mostrar pra onde a gente vai. Então, o que o palhaço faz em sala de aula é manifestar o melhor erro possível. Melhor erro. Como é que essas duas palavras estão juntas? quando o palhaço descobre onde a criança está e ele erra um passo atrás para a criança conseguir ensinar. Exatamente. E aí acontece um movimento lindo. Durante todo esse processo que eu vivi, eu resgatei a poesia e eu resgatei esse sonho, porque eu fiz um TED Talk em 2019, bem no período em que eu fiz a minha transição. E eu resgatei esse sonho, porque nesse caminho, a gente montou uma ONG. E a ONG, assim, ela tava muito... muito mais devagar do que ela poderia. Então, quando eu decido sair, é também com o intuito de levar palhaços pra cinco regiões do Brasil. E é lógico, isso está muito longe de acontecer. Nós estamos em duas escolas hoje. Mas se a gente é idealista e se a gente é romântico, eu não posso me ocupar de uma outra coisa que não seja trazer o lírico o lúdico. Eu sou a mistura dessas coisas. Eu sempre fui aquele palhaço com a lágrima no rosto, sabe? Não que necessariamente o meu palhaço tenha isso. Mas sabe aquele bem estereótipo do cara, que ele é engraçadão? Eu encontrei o meu espaço na escola como o bobo. Como o palhaço da turma. Então... Mas eu sempre fui muito mais sensível. Aquela pessoa que gostava de escrever poesia, que se apaixonava. Então... Eu tô de volta pra essas duas coisas.
Você se reencontrou.
Exatamente.
Você precisou viver a dor, ou seja, o burnout, né? Que é uma fratura exposta, pra se reencontrar.
Exatamente.
Então, você renasceu em vida?
Tô renascendo ainda. Acho que tô num processo, assim, eu tô um bebezinho ainda. Porque tá muito recente, né? Então, a gente tem que ser muito honesto e falar que, assim, a recuperação...
É muito demorada.
É.
Sabe que no início, quando alguém me perguntou isso, e aí eu falei, não sabia a resposta, claro, né, eu tava vivendo, e aí uma grande amiga, a Carol Milters, um beijo Carol, ela falou assim pra mim, Isa, quatro anos no mínimo. Ah, que lenta. Né, Carol sabe disso, imagina que absurdo, ela demorou tanto, eu não vou demorar tudo isso. Até doente a gente se acha Num tanto que a gente não espera o tempo de recuperação daquilo que te destruiu. Então demora, tá? Porque não chega de um dia pro outro, então não vai embora de um dia pro outro.
Eu ainda me sinto vagabundo, porque na UTI a minha impressão é que eu tava enganando os médicos, né? Eu tinha a clara impressão de que assim, nossa, eu tô aqui, mas olha, eu tô bem. Eu tô enganando os médicos.
Agora, uma pergunta. O seu livro se chama Burnout é uma Fratura Exposta.
Fratura exposta, a poética de um burnout.
Fratura exposta, a poética de um burnout. Mas o burnout não está exposto. Você acha que seria melhor se ele estivesse exposto?
Com certeza, porque durante todo esse processo eu falava assim, tudo que eu queria era uma perna quebrada. Inclusive, tem um poema que eu gosto muito, que eu acho que ele diz de uma forma muito clara, Exatamente o que eu ainda vivo.
Conta pra nós.
Que diz o seguinte. Abateu-se sobre mim a quebra, a combustão. O carvão queimado ao fim não retorna a seu estado. Doença que não se vê. Identidade decomposta. Tenho neurônios em fratura exposta.
É bem isso mesmo. Agora, enquanto nós não podemos mostrar a dor que ainda é invisível, ainda temos muito preconceito, que os seus poemas, então, que o seu trabalho ajude a dar dignidade a todos os assuntos. Você já me trouxe aqui, e acho que você provavelmente aprendeu junto comigo aqui no interioriza, qual é a figura de um palhaço. que é colocar uma figura, no caso da escola, ele pode ser instrumento, inclusive, para as crianças ensinarem. Eu achei isso maravilhoso.
Pois é, e isso vai prevenir lá no futuro. que nós não tenhamos adultos que cheguem nas posições de trabalho, todas elas, que entendam que errar não faz parte, que eu preciso esconder o erro. Um espaço que não tem a segurança psicológica.
Eu ia falar disso agora.
O meu desejo enquanto pessoa que está à frente do Instituto é criar um espaço, embora ninguém ainda seja empregado ali, mas com a minha diretoria, com a minha equipe, de segurança psicológica. Um espaço onde eu discuto com as minhas palhaças assim, gente, se a gente trabalha com medo de errar e vocês não manifestam, não entenderem que isso faz parte também, eu estou fazendo algo de errado. Então, não se cobrem tanto, porque vocês vão adoecer. Então, a gente faz muito esse movimento do diálogo, mas eu acredito que ainda é um começo. Então, eu estou num movimento de construir esse espaço, com os meus, pra que a gente possa construir com as crianças. E aí, quem sabe, num momento que eu não esteja mais aqui, alguma coisa comece a mudar. Porque a gente sabe que a mudança, ela demora também, né?
Mudança cultural. Vamos lá. Eu ia falar sobre a questão da segurança psicológica, e foi bom que você já trouxe. Então, quando você me trouxe a questão do erro, Isso pra mim é música, tá? Porque a segurança psicológica é um movimento que começou oficialmente na década de 90 nos Estados Unidos na Universidade de Harvard com a engenheira Amy Edmondson. Harvard, engenheira, década de 90. E ela tem um livro chamado Organização Sem Medo em que ela estudou qual era a diferença entre as empresas que tinham erros e cresciam e as empresas que tinham erros e faliam. Onde ela encontrou a grande bala de prata que todo mundo busca? Quando você trata um erro de forma pedagógica, crescimento. Quando você trata o erro de forma punitiva, falência. E aí, nas empresas, quando eu falo isso, a turma me olha assim, do tipo, então eu vou ter que conviver como com o erro? De forma pedagógica. Você vai precisar ouvir e entender quais foram as intenções daquela pessoa que errou na tentativa de acertar. Existem pessoas que erram na tentativa de errar mesmo, e aí nós estamos falando de caráter, nós estamos falando de aprendizado. Então, quando você me traz, que agora você está pegando toda a sua experiência como educador, Levando essa linguagem como palhaço para as empresas faz todo sentido. Ou seja, o quanto a gente está abrindo mão de ideias, soluções, punindo quem erra.
O professor Saturnino De La Torre é um professor da Universidade de Barcelona. Ele tem um livro de natureza pedagógica chamado Aprender com Erros, o Erro como Estratégia de Mudança. É maravilhoso esse livro porque ele traça um gráfico sobre os tipos de erro, né? Então, tem quatro quadrantes. Então, existem erros lógicos que nós não queremos que aconteça, por exemplo, um piloto de avião. Nós não queremos que eles errem. Só que, para esse piloto, ter segurança na hora de pilotar o avião, ele tem que ter errado antes.
Exato.
E aí, tem um quadrante, que é o quadrante da direita. Depois eu te mando esse gráfico, que é super legal.
Ótimo.
Ele vai falar de processos construtivos. No canto de cá, no canto direito, tá a arte. No canto de cá, estão os acidentes, as falhas mortais e tudo mais. Então, ele vai falar que os erros que muito nos interessam corrigir são os erros que estão neste quadrante. É muito legal. Depois eu compartilho contigo.
Gostei. Já vou avisar aqui. Atenção à edição para a gente colocar esse gráfico. Indo aqui para a nossa conclusão, hoje você está dirigindo o Instituto Palesso Aprende. E quem quer acompanhar mais o seu trabalho? De repente, quer também o seu livro? Como nós podemos fazer?
Bom, você pode, amigo internauta, entrar aí no meu Instagram, arroba Varley Xavier, ou no Instituto, no Instagram do Instituto, que é arroba Palhaco Aprende, e ali você vai ter acesso ao meu livro, você vai ter acesso a outras coisas que eu estou fazendo também. Importante dizer, Isa, aproveitar esse espaço, que nós estamos aprovados na Lei Rouanet. E agora, o nosso maior desafio é captar recursos, pra que as empresas nos ajudem pra levar esse trabalho para as escolas públicas. Então, o projeto já está aprovado. Então, eu costumo dizer que nós já temos o dinheiro, tá na conta de vocês, ajudem a gente.
Ou seja, vocês já estão com o dinheiro que já vem da Lei Rouanet, agora é executar.
Exatamente. Então, a dedução fiscal, a gente precisa que empresas façam o aporte pra gente, pra que a gente comece a executar e comece a ampliar esse trabalho, pra que no futuro a gente capacite pessoas em outros lugares do Brasil e aí sim a gente comece a chegar um pouco mais perto desse sonho.
Excelente. Gostei demais da nossa conversa. Você gostou?
Nossa, demais. Você sabe quando você se imagina batendo bola com um craque? Então, por exemplo, você falou, tava falando, trabalhou com o Boechat, né? Imagino que deve ser uma coisa maravilhosa. Ou vamos imaginar uma pessoa que é atleta. Vou jogar a bola, vou bater bola, sei lá, com o Ronaldinho Gaúcho, com o Zico. É o que eu tô sentindo aqui hoje, né? Tô batendo bola com uma craque aqui. Então, pra mim, tá sendo maravilhoso.
Estamos somando. Estamos somando, meu querido. Varley Xavier, que história. Trouxe total aqui uma reconfiguração sobre o palhaço. Antes de fechar, eu ouço muitas pessoas dizendo que têm medo de palhaço. Então, nós também já estamos educando aqui o papel verdadeiro do palhaço, porque a figura dele também foi destroçada nos últimos tempos.
E o medo do palhaço, ele precisa ser acolhido. Então, quando a gente entra em sala de aula, a primeira coisa que a gente faz antes de entrar É observar se tem alguma criança com medo.
E aí?
E aí a gente mostra pra criança que nós não vamos invadir o espaço dela. Você fica aí, que eu fico aqui e não vou chegar perto de você. O que costuma acontecer é que no final da aula a criança já tá perto. Ou a gente retira a criança da sala, ou a gente retira o palhaço da sala naquele momento. Acontece um processo e, naturalmente, o palhaço é sendo trazido para aquela realidade. E as pessoas têm medo de palhaços por vários motivos. Porque, lógico, tem um monte de obras de ficção que vão tratar essa figura como uma figura enigmática. E aí, ela é, né, se a gente tem uma máscara ali que cobre o rosto de alguém. Porque de repente, dentro da maquiagem, ela é muito carregada. Tem também a questão do que eu brinco dos palhaços de açougue. Que é, vai inaugurar um açougue ali na esquina. Aí eles pegam uma pessoa que não tem preparação nenhuma. Botam uma fantasia, um nariz vermelho. E aí, essa pessoa tá com o microfone, grita, dá nó na cabeça, no cabelo. Então, o mau uso da linguagem também tem esse movimento. Mas nós somos muito respeitosos com o medo de palhaço.
Ou seja, existe uma origem, assim como nós também somos muito respeitosos com aqueles que ainda acham que saúde mental é uma bobagem, né? Existe muita história por trás de todo esse preconceito. Temos muito trabalho pela frente, né, Varley? Que a gente possa, então, descansar. Se inclui na própria agenda para a gente poder continuar. Obrigada, meu querido.
Eu que agradeço.
Até breve. Você que nos acompanha até aqui já sabe o que fazer. Compartilha com quem você quer bem, deixe um comentário e a gente se encontra no próximo interioriza com mais ideias que já passaram do tempo da gente assimilar. Até mais.
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