"Sou uma Argila mole": a reinvenção com Manoel Soares no Ïnterioriza
15 Apr 2025 · 41 min
This content was created by GHION.AI . This content was uploaded by GHION.AI . This is a podcast titled '"Sou uma Argila mole": a reinvenção com Manoel Soares no Ïnterioriza' recorded on April 15, 2025. It features a conversation in Portuguese between Isabela and Manoel Soares, discussing topics such as personal reinvention, neurodivergence, mental health, and societal roles. Manoel shares his experiences and insights on living authentically, the challenges of public life, and the importance of understanding neurodivergence in personal and professional contexts.
Chapters
Seja bem-vindo, bem-vinda ao Interioriza. A partir de agora, nós teremos 30 minutinhos de assuntos que já passaram do tempo da gente interiorizar. E essa edição, ela é muito especial porque está aqui conosco, Manuel Soares. Bem-vindo.
Obrigado, meu amor.
Obrigada por ter aceitado o nosso convite. Antes de eu apresentar você, antes das pessoas falarem, ah, é aquele rapaz. Quem é o Manuel Soares hoje?
Acho que um argila mole.
Agila mole, me conta mais.
Uma agila mole, você pode fazer um vaso, você pode fazer uma estátua, você pode fazer um encosto de parede, você pode fazer um peso de papel. Acho que pela primeira vez na minha vida adulta, eu tô vivendo as possibilidades de ser o que eu quisesse. E isso eu acho muito desafiador, assustador, mas desafiador.
Eu acho que eu entendo, quando a gente experimenta a liberdade.
É, porque eu saio da minha juventude e vou pra frente de uma lente. Eu tenho 26 anos de comunicação, então eu vivi a minha juventude e o meu início de vida adulta na frente de uma lente. Então, querendo ou não, você vive sempre um estado de vigilância, você vive um estado de... auto e hétero monitoramento. E pra mim tá sendo muito diferente agora poder viver a vida sem esse monitoramento público. É diferente, é legal.
Embora você continue uma pessoa pública, você só não está dentro de uma... Eu vou usar o termo que eu usei, tá? Pra mim. Posso usar? Quando eu saí da última emissora, é uma gaiola de ouro de portas abertas. Ser livre é poder continuar sendo uma pessoa pública, ou seja, nós temos um papel como comunicador, você é comunicador há 26 anos, como eu, mas quando você fala num estado de vigilância, num estado de cobrança...
Eu vou dizer a você que é muito mais sobre nós do que sobre o espaço que nós estamos. Eu acho que existem alguns arquétipos de quem está num lugar de visibilidade e tal, que acabam nos condicionando a comportamentos que nós julgamos serem os comportamentos. E tem uma coisa que é muito interessante quando você, por exemplo, trabalha com comunicação, Porque você vira meio que alguém que coloca os seres humanos em balanças de precisão. E aí você categoriza as pessoas. Então, fulano é assim, ciclano é assim. E, geralmente, você busca as pessoas em cima de perfil. Ah, precisamos de um personagem assim pra essa matéria. Tal, não sei o quê, não sei o quê. E a gente vê a vida assim. Porque a gente, né? Quem trabalha com comunicação, trabalha 12, 15 horas por dia nessa velocidade. só que você esquece que você também é algo que vai para a balança de precisão só que você está tão imerso naquilo e obviamente existe ali uma arrogância de quem está em processos comunicacionais de achar que você não é parte desse ecossistema chamado humanidade. Você acha que não. Fulano é assim, o bombeiro é assim, o empresário é assim, o advogado é assim. Ah, já falou igual advogado, já falou não sei o quê. Você começa a definir quem é o quê, mas você não tá se dando conta que você também tá sendo um quê. E aí é muito doido quando você sai desse ecossistema, que aí você começa a se perguntar, mas vem cá, Fora tudo isso, quem sou eu? E eu acho que isso, obviamente, quando a pessoa é motorista de aplicativo, quando a pessoa é advogado, quando a pessoa é servente de obra, é gari, quando a pessoa é CEO de uma empresa, você se veste de um arquétipo para viver aquele momento da sua vida. E às vezes você não consegue se desconectar dele com a velocidade e a serenidade necessária. E a vida me deu essa oportunidade. A vida me permitiu que depois de eu ter vivido 26 anos dentro de uma roupa, que eu pudesse tirar essa roupa, ficar nu na frente do espelho e dizer, beleza, que roupa que eu vou botar? É... E... E aí o mundo se abriu, né? O mundo de... Na perspectiva profissional, na perspectiva familiar.
É...
O mundo se abriu.
26 anos dentro de uma roupa e agora você está experimentando uma roupa nova. Qual é a roupa que hoje você está usando?
Na verdade, eu estou nu.
Está nu.
Eu estou nu. É... E isso eu acho que é o mais legal. E eu descobri que as pessoas podem ficar nuas. E ficar nu não é pecado.
Quando você diz as pessoas podem ficar nua, o que você quer dizer?
Que você pode acordar de manhã e dizer não sei. O não sei, o não entendi são palavras muito proibidas nos tempos de hoje. Você tem a liberdade de dizer não sei. E ao mesmo tempo, quando você se permite a dizer não sei, você começa a estar disponível a saber de fato. Quando você diz não eu já sei, quando você tem uma verdade a ser defendida, essa verdade ela te impede de se conectar com esse arauto de verdades que existe no universo. E eu tô podendo dizer não sei pra um monte de coisa. Tá sendo muito bacana. E virar e não faço ideia. Vou estudar, vou pesquisar. E aí você vai, aí é aquela coisa, tipo, sei lá, você pega a estrada pra ir numa direção, aí você descobre que tem uma fruta bonita aqui, tem um pôr do sol legal ali, tudo isso que eu tô utilizando são mais alegorias de linguagens, mas... E você se permite, se permite inclusive ser fraco, né? Que a fragilidade não é algo também permitido. São muitas coisas interessantes, assim.
Estou adorando esse papo. Inclusive, quando eu falo para plateias com muitos homens, eu digo, olha, você mostrar sua fragilidade não diminui a sua masculinidade, se esse for o seu medo. Pelo contrário. O que você diria para quem está te acompanhando? O quanto você dizer, não sei, vou buscar essa informação, te deixa mais forte?
Geralmente se atribui esse comportamento da manutenção da estética alfa masculina ao homem. E eu particularmente não sei se as mulheres já conseguiram observar o que acontece com elas quando a gente deixa de ser alfa. quando a gente fica fraco. Talvez no primeiro momento aconteça esse acolhimento mesmo de, poxa, é bom te ver assim, tal, tal, não sei o quê. Mas existe também o ser chamado de pamonha. Existe o ser chamado de mole. Existe o ser chamado de chorão. O comportamento desse homem, ele não se desenhou só pela vontade desse homem. Ele se desenhou também por uma convenção social de que o papel da mulher era esse e o papel do homem era esse. Então assim, nós vivemos isso. Hoje, por exemplo, quando você começa a debater temas um pouco mais catalisadores na sociedade, que são temas que estão muito quentes, como, por exemplo, a questão do aborto e as condições do aborto, você vê que não tem mais homens debatendo. Os homens entenderam que eles precisam recuar, porém a perspectiva masculina está sendo defendida pela boca de algumas mulheres. A perspectiva da deslegitimação do corpo da mulher está sendo debatida nesse lugar. Então, eu acho que a fragilidade masculina não ocupa necessariamente o corpo do homem, assim como a rusticidade masculina não necessariamente ocupa o corpo do homem. A gente está falando de visão de mundo. E essa visão de mundo nem sempre é possível se adequar. Claro que tem horas que eu vou conseguir ser o Manuel sensível e o Manuel apaziguador. Tem hora que eu vou conseguir ser isso, e eu preciso estar disponível pra ser isso. Mas tem hora que eu sou o defensor do meu clã. E tem hora que é o seguinte, que quem vai pegar a espada e o escudo e vai derrubar o gigante sou eu. E se eu fugir desse processo, advogando a favor de uma outra versão de Manuel, talvez o gigante destrua a minha casa. Então, a questão não é se você precisa substituir a força pela fragilidade. A questão é você se permitir, quando for necessário, ser frágil também.
Excelente. Quando você fala no seu clã, Eu vejo você com seus filhos.
Sim.
Você é pai neurodivergente, tá correto falar assim?
Sim.
De duas crianças neurodivergentes.
Na verdade de três.
Três. O que isso significa? Para quem ainda não se aproximou desse assunto.
Bom, a primeira coisa que eu acho que nós precisamos fazer é desmistificar o conceito de neurodivergência.
Ótimo.
Neuro, para você que acompanha a gente, vem de neurônio. Então, você tem vários neurônios na sua cabeça. Divergência vem de divergência.
Diferente.
Diferente. Então, muitas vezes, quando os neurônios se comportam de maneira diferente no cérebro, e isso é categorizado como neurodivergência. Só isso. Algumas neurodivergências causam transtornos. Então, por exemplo, o trânsito está congestionado. Isso é um transtorno. E aí, quando nós começamos a analisar, você tem transtorno de comportamento, porque a maneira como o cérebro se organizou gerou um transtorno de comportamento. Você tem o transtorno motor da fala, que a criança pode falar, mas ela não consegue, através do cérebro, emitir o comando para os nervos trigêmeos, que saem aqui do sistema nervoso central, para que a criança articule. Então a neurodivergência passa por um universo e aí você tem duas categorias de neurodivergências. Você tem a neurodivergência adquirida, que é aquela neurodivergência que é o Alzheimer e outras neurodivergências que são adquiridas com o tempo. E você tem as neurodivergências nativas, que são aquelas que você já nasceu com ela, como TDAH, como autismo e outras. Burnout, por exemplo, é uma neurodivergência adquirida. Então, a partir do momento que você começa a entender quem você é no jogo do bicho, Você inclusive naturaliza mais algumas relações e para de ficar exigindo da vida algumas coisas que a vida não tem obrigação de te dar. E isso é muito interessante porque às vezes as pessoas começam um processo de descoberta apontando o dedo para o outro. Hoje, eu sou uma pessoa que tem o TDAH, o laudo tá comprovando que eu tenho autismo também, suporte 1, e eu tô categorizado em altas habilidades, que é quase o que eles chamam de superdotado. Porém, não é dentro daquela poesia de, ai, o Manuel, é mais inteligente que outras pessoas, a hipótese nenhuma não é sobre isso e a superdotação não pode ficar transitando nesse lugar a superdotação significa que o meu cérebro gasta em alguns momentos cinco vezes mais energia que o seu só que os nossos dois cérebros tem a mesma quantidade de energia significa que no fim do dia meu cérebro não tem energia para fazer algumas coisas que são necessárias então é um estágio de sofrimento muito intenso Mas eu compreendo isso hoje. Então, a energia que seria necessária para que eu ouvisse uma pergunta sua e você fazer todo o caminho, e como eu já sei onde essa pergunta vai terminar, o meu cérebro não tem energia para consumir isso. Então, no meio da sua pergunta, eu falo, já entendi, vamos pra frente? E aí, nessa hora, você fica rude. Entende? Então, essa condição neurodivergente me coloca nesse lugar, e eu hoje, graças a Deus, consigo, quando inicio relações profissionais, relações de amizade, relações de afeto, já consigo dizer para as pessoas, olha, Eu tenho TDAH, eu sou um homem autista, eu tenho essas características, então assim, vai chegar um determinado momento que a situação vai ficar difícil pra mim e talvez eu precise me retirar. Quando eu divido isso com a pessoa, inclusive eu dou a ela mais tranquilidade. Quando eu compreendo que meus filhos, eu tenho seis filhos ao todo, o Ezequiel é um menino autista com TDH, o Isael é um menino autista com deficiência intelectual e o Leonardo é um menino com TDH e outros contextos. Quando eu compreendo isso, eu sei exatamente até onde ir e onde parar. Então eu recomendo às pessoas que estão agora assistindo, que assim como elas fazem um exame cardíaco, assim como elas fazem um exame na sua questão física, cara, faz uma investigação neurodiversa na sua vida. Faça uma consulta com o neuro e pergunte, tá tudo bem? Porque agora que eu tenho 44 anos, algumas coisas começaram a ficar muito mais difíceis pra mim que antes.
Por exemplo?
Até pra não prender em mim, Isabela, quantas pessoas de 40, 50 anos, de até 60 anos, você ouviu falar, que infelizmente tiraram a própria vida? É que chegou uma hora que o cérebro cansou.
O seu corpo já fez de tudo para se adaptar. Não deu mais.
Não deu mais. Então, assim, não é por acaso que nós temos um alto índice heterolesivo nessa idade. Não é por acaso. É porque o cérebro bateu no teto, ele passou 50 anos tentando. Chegou a hora que ele disse, não aguento mais. Então assim, hoje eu tenho conversado com a comunidade empresarial, tenho conversado em palestras e tal, exatamente chamando as pessoas para terem um cuidado com a sua agenda de neurodivergência, até para que as entregas sejam entregas mais qualitativas, porque quando você tá em paz com a sua cabeça, a sua entrega, os seus resultados, eles são muito melhores, eles são muito melhores. Então a gente não tá falando de solidariedade, a gente não tá falando de ESD, nós estamos falando de indicadores de desenvolvimento, de market share dentro da empresa, estamos falando de aumento de receita.
Negócio.
A gente tá falando de negócio. O bem-estar mental e emocional do funcionário é extremamente lucrativo. Mas pra isso acontecer, nós precisamos romper a barreira do preconceito da saúde mental. Aí fala, bem, Manoel, mas aí é contraditório que você disse que a minha saúde mental é responsabilidade minha e não da empresa. Agora você está dizendo para a empresa que a minha saúde mental também é responsabilidade dela. É responsabilidade dela se ela quiser o seu melhor.
Sim.
Você quer a melhor versão do Manuel? Cuide dele. Se você colocou um executivo em um ponto de decisão crucial para a empresa, Garantir que ele vai ter a melhor saúde mental, garantir que ele vai dedicar a quantidade de horas no seu momento mais produtivo para esse momento é importante. Não deixe só a cargo dele essas decisões. Porque se fizermos isso, a gente vai, infelizmente, colocar essa pessoa num lugar de esgotamento. E aí, em pouco tempo, você talvez perca um grande talento que levaria a sua empresa mais longe.
Exato. Isso é o que eu defendo todos os dias da minha vida. Quando você está falando sobre neurodivergência, e aí você me fala sobre neurônios que agem de forma diferente, todos nós, então, somos neurodivergentes. Todos nós. Porque, Manuel, se todos nós temos funcionamentos diferentes...
A gente tem que tomar um pouco de cuidado só para não confundir particularidades neurais com neurodivergência. Neurodivergência é quando o comportamento neural compromete funcionamentos elementares da vida, que são as AVDs, atividades de vidas diárias. Quando você não consegue estar junto de pessoas, quando você não consegue trabalhar em grupo, quando você não consegue dormir direito, quando você estabelece algumas compulsões em sua vida. Neurodivergência é quando o comportamento neural compromete Algo que é fundamental. Neuroparticularidades, aí estamos falando de outra coisa, que cada um tem a sua neuroparticularidade.
Pronto, essa palavra, neuroparticularidade.
Então assim, é só pra daqui a pouco não colocarmos, ah, tudo agora é autismo, tudo agora é burnout, tudo agora é isso. Não, existe sim um cenário em que a pessoa na década de 70, na década de 80, que era neurodivergente e não se tratou quando criança, hoje muitas vezes está consumindo álcool em excesso, está consumindo droga em excesso.
Se anestesiando.
Essa pessoa talvez não esteja nem mais viva. Então, muitas vezes, aquele tiozinho que está sentado no bar, 9 horas da manhã, tomando uma cerveja, o que ele está fazendo ali é um mecanismo de autorregulação. Eu me lembro, quando eu trabalhei na construção civil, tinha um mestre de obra, seu Francisco, que trabalhava com a gente, que ele tinha a necessidade de tomar uma branquinha antes de começar a trabalhar, para dar uma regulada na lei.
Você chamou isso de mecanismo de...?
Autorregulação.
Isso, tá, nós vamos falar sobre isso, tá?
Porque ele precisava tomar uma branquinha pra regular lenta, como ele dizia. Na verdade, o regular lenta era o sistema nervoso central dele precisava baixar. E, naquele momento, aquele álcool fazia isso. Só tem um problema, aquele álcool tinha uma série de efeitos colaterais, como cirrose, foi motivo pelo qual esse homem morreu, Porque ele não tinha um tratamento. Então assim, existem mais neurodivergentes agora? Sim, existem alguns estudos que comprovam que o uso excessivo de telas, a exposição excessiva a telas tem despertado agendas de neurodivergências em lugares muito perigosos. Existe tudo isso, mas a neurodivergência ela sempre existiu. A única diferença é que ao invés de nós tratarmos essas pessoas com respeito, a gente chamava ele de o louco da rua.
É como eu digo, o burnout, como eu defendo bastante a educação desse tema, a turma diz que é um problema novo. Não, é um problema antigo com nome novo, como o bullying. O bullying na minha época era zoeira. Então eu não posso dizer que o bullying é uma coisa nova. Não, sempre existiu com outros nomes. Então a neurodivergência sempre existiu com outros nomes. Quais eram os nomes?
Cara, você tinha o louco da rua, você tinha o tantã, você tinha o retardado, você tinha um monte de nome pejorativo que acompanhava uma pessoa neurodivergente. Você tinha. E você inserir uma palavra nova no hábito... de uma língua é muito difícil. É muito difícil. Então, assim, o fato de nós reconhecermos a existência dessas pessoas naturaliza a introdução dessa palavra no nosso idioma. Vai levar um tempo, vai levar um tempo. Hoje de manhã, por exemplo, eu conversei, eu tive uma conversa muito forte com o meu irmão sobre a minha sobrinha. Falei pra ele, eu falei, cara, identifiquei nela, tais e tais e tais e tais traços. Pá, pá, pá. E comecei a explicar pra ele os meus medos, que ela ficaria mais vulnerável. Há uma série de violências sociais. Todo uma conversa. E aí, ele me ouviu mais ou menos por uns 40 minutos, eu vindo pra cá no carro. Ele vira e diz, é, a professora dela falou pra mim, eu até xinguei a professora. Mas pô, com você falando também, eu acho que pode ser verdade. E eu vou começar a prestar atenção. Eu falei, pois é, essa resistência que você teve chama-se rigidez cognitiva. E aí expliquei pra ele um pouco o que era rigidez cognitiva e tal. Ele disse, É, e fulano tinha assim e tal, não sei o quê. E ele começou a fazer uma anamnese intuitiva no cenário familiar. Eu falei, pois é, e a genética é determinante nisso também e tal. Então, assim, a partir do momento que você encontra interlocutores saudáveis pra conversar sobre isso, a conversa naturaliza. E eu, como homem, eu consigo ter um diálogo muito bacana com a comunidade masculina. Pra virar e dizer, cara, seguinte, velho, isso aí que você tem não é porque você é machão, não é porque você é brabão, isso aí que você tem é rigidez cognitiva. Isso aí que você tem é TDAH porque você não tem controle dos impulsos. Entendeu? E aí você começa a botar o cara pra analisar, não, cara, você não é valente. Você tem um comportamento suicida, só que suicida não é só o cara que pula do prédio. O cara que cria uma situação para ser demitido, o cara que trai a esposa com a vizinha, ele está cometendo micro suicídios em pequenas áreas da sua vida. O menino que sai empinando a moto na favela, todo mundo que coloca a sua vida ou parte da sua vida em risco está cometendo um micro suicídio. Então muitas vezes, é muito comum dentro das empresas, as pessoas terem uma pessoa que ela dentro da empresa é super quietinha, super calminha. Aí quando vai na festa da empresa, na festa da empresa, a pessoa joga a raba pra cima, dança e faz isso aqui. Gente, olha a Isabela. Eu achei que era uma santinha, gente. Tá fazendo uma muvuca nisso aqui.
Não sei o quê.
Na verdade... Aquela Isabela dentro da empresa, que fica naquele comportamento fechadinho, que você achava que era quietinha, ela tá fazendo um processo de contenção que no fim do dia, isso é tão exaustivo pra ela, que fica difícil. O que você identifica ali é um comportamento adverso que precisa de um atendimento neurodivergente. Então tem alguns detalhezinhos dentro do ambiente profissional, dentro do cenário empresarial que vai nos ajudar a ter a melhor versão do nosso funcionário. Mas aí o gestor, ele precisa ter olhos para ver.
Precisa ter disponibilidade.
Eu acho que eu gestorei todos os seus tempos.
Não, foi maravilhoso. Agora que estava começando a ficar bom o assunto, quando você fala em rigidez cognitiva, eu uso o termo de indisponibilidade. O contrário, então se você está disponível a tratar isso na sua empresa, por falar nelas, então elas estão estendendo o tapete vermelho para você entrar.
Cara, eu acho que hoje nós temos um cenário favorável pra isso. E nós temos gestores inteligentes que estão tirando isso da caixinha da bondade e da consciência social da empresa. Estão colocando isso numa caixinha de melhora de resultados.
Estratégia de negócio.
Cara, eu sou muito mais a favor disso. Eu costumo dizer, isso eu ensino na minha casa pros meus filhos, que o seguinte, não existe nada sem plano de negócio. Se você quiser qualquer coisa, eu falo pro meu filho, me apresenta o plano de negócio disso. Me apresenta por que isso é interessante para esse nosso ecossistema. Porque se eu ficar dizendo para o cara, olha, cuide da saúde mental do seu funcionário, porque você vai ter o selinho... Não é sobre isso, cara. É o seguinte, a sua empresa precisa ter bons resultados, você como gestor precisa melhorar os seus indicativos. No fim das contas, isso tem que refletir na planilha de Excel e a conta tem que fechar.
Antes da gente encerrar, você falou sobre o mecanismo de autorregulação. Então, nós temos vários mecanismos. Tem gente que bebe, tem gente que fuma. O cigarro, por exemplo, para quem ainda mantém o hábito de fumar, é um mecanismo de autorregulação. Tem gente que compra, só que tem gente que bate, tem gente que agride.
Que tem relações sexuais de maneira compulsiva.
Então, quais são os mecanismos de autorregulação que você entende que hoje podem ser trabalhados dentro da empresa? Porque quando você fala que você viveu a sua experiência, será que só você estava vendo isso? Não, provavelmente esse comportamento desse homem também era visto por outras pessoas. Claro. O Manuel, eu nunca me esqueço. Numa determinada situação que eu vivi, veio à tona o consumo de drogas de uma pessoa que trabalhava com a gente lá dentro da emissora. Mas eu estou falando de remédios. Ele era viciado em remédios. E isso era de conhecimento de todos. Então não adianta ir na hora que a pessoa não tem mais como se adaptar, trazer aquilo como um problema. Se você já estava sabendo daquilo por anos, faz sentido o que eu estou dizendo? Ou seja, quando você fala olhos para ver, é disponibilidade para entender que reconhecer uma pessoa que precisa de ajuda, ajude. Só que o comportamento em algumas empresas é justamente o oposto. É o de segregar, o de isolar, e eu queria sua opinião então sobre isso pra gente ir encerrando. Como o seu exemplo pode então ser muito positivo pras empresas?
Eu não posso dizer a você que eu não tô vendo as empresas tentarem.
Sim, concordo.
Eu tô vendo as empresas tentarem, cada um à sua forma. Só que às vezes, sem querer, eu vejo as empresas tentando, inclusive, reinventar a roda. Não é necessário reinventar a roda. Existem núcleos hoje de saúde mental que podem ajudar nisso. Existem especialistas em análise do comportamento. especialistas sérios que podem fazer uma análise de comportamento. A empresa tem cultura. Você precisa entender qual é a cultura da sua empresa quando falamos de saúde mental. Você precisa contratar, uma vez a cada seis meses, um analista do comportamento dos gestores da empresa para que essa pessoa faça essa análise e emita um relatório dos padrões de comportamento. A partir dos padrões de comportamento, talvez esse analista do comportamento indique quais dessas pessoas precisam fazer uma investigação de neurodivergência. Porque a análise de comportamento indica que essa pessoa tem um conjunto de ações e de operações que podem colocar em risco o desenvolvimento da máquina motriz da empresa. E aí não significa que você tem que mandar essa pessoa embora. significa que você precisa pensar numa lógica de investimento.
Dá um letramento.
E aí, cara, nessa hora, eu acho que é fundamental que o gestor coloque isso na planilha.
Sim.
E tá tudo bem. Claro que você, pra mudar a cultura, às vezes você tem que levar uma palestra bacana pra você amortecer essas ideias nos corações, porque o profissional dentro da empresa, o que ele entende? Cara, se eu disser na empresa, que eu tô meio deprimido, daqui a pouco, primeira oportunidade que os caras tiverem, os caras vão me mandar embora. Se eu disser na empresa que eu tenho crise de pânico, primeira oportunidade que tiver, vão me mandar embora. Mas vamos lá. Você que tá acompanhando a gente, você é gestor. Você acha que o seu funcionário, de 35, 40 anos, que sofre de terror noturno, um funcionário seu sofre de terror noturno, Ele tem, durante a noite, crises de pânico em que o subconsciente dele informa a ele que um animal vai devorar o pé dele. Ele fica acordado durante quatro horas da noite. Você acha que ele vai entregar o seu melhor se ele passou a noite acordado?
Não.
Nessa hora, nós começamos a entender que o analista de comportamento, quando ele estiver analisando o comportamento desse funcionário, vai ver que o funcionário começa a ter umas microausências. Microausência é quando o cara tá ali digitando e daqui a pouco o cara dá uma... Apagão. Parado. Ele não digita, não faz nada.
Ele teve uma... Aham.
Daqui a pouco o cara volta. A microausência, quando não tratada, ela pode virar uma média ausência até um transtorno futuro. Então... Por favor, leve uma análise de comportamento para dentro do seu espaço, leve palestrantes para que a cultura da empresa compreenda a análise do comportamento como algo benéfico para a vida deles. E aí eu vou dizer a você, eu sou um melhor pai. depois que me coloquei na condição de uma pessoa que analisa o meu comportamento e trata a minha neurodivergência, virei o melhor amigo, virei o melhor marido, sou o melhor profissional. Hoje eu tenho três empresas trabalhando com tecnologia e o meu cérebro, ele não se cansa tanto e ele consegue absorver muito mais. Você tem ideia, sei lá, não aprendi a ponto de virar um virtuoso, mas eu comprei um piano sozinho em casa em quatro meses Eu comecei a compor e tocar música pra minha família.
Uau!
Por quê? Porque o meu cérebro estava... Então, assim, você não faz... Cara, as pessoas não fazem ideia, Isabella, de aonde o cérebro delas pode chegar se ele tiver cuidado. é magnífico. Recomendo todo mundo que encontre a paz mental, mas a paz mental você não vai encontrar só meditando, fazendo ioga ou tirando férias prolongadas na Europa, porque, como diz o Emicida, nós temos muitos cenários de depressão com aparência de férias. Gente que tá muito infeliz nas ilhas gregas.
Sim, sim, sim. Eu costumo dizer, Manoel, que saúde mental é Didi. Decisão individual, diária e intransferível. Então, cuidar da saúde mental não é fazer terapia, não é subir no Pico do Himalaia pra meditar. Saúde mental é todo dia igual saúde bucal. Você escova o dente todo dia. Pronto. E mesmo assim você vai ao dentista. Isso é saúde mental. É você saber o que você precisa fazer para preservar a sua saúde mental todos os dias e começa pelo sono. O sono é o primeiro faxineiro da saúde mental. Depois vem higiene pessoal, alimentação. Fazendo tudo isso todos os dias, você ainda pode precisar ir ao terapeuta, sabia? Igual ao dentista. Só que há 300 anos, Manuel, se você tivesse dor de dente, arranca. Porque era frescura ir no dentista. Então, o que aconteceu de 300 anos pra cá? Educação é o tema. E nós, então, estamos trabalhando a educação na saúde mental. Que bom. Que bom saber que a gente pode seguir juntos.
E tem lugares como a espiritualidade, que é fundamental você saber quem você é espiritualmente. Tem lugares como você compreender como o ambiente da sua infância determinou que você é hoje, entender a história, a linha do tempo da sua existência. Então assim, você não precisa abrir mão, sabe? Às vezes dobrar o joelho, orar, ir pra cabeça no congá, chamar o orixá, você ir lá fazer uma meditação com o Buda, tudo isso ajuda porque você é corpo, mente e espírito. Você precisa ter em mente que o seguinte, o seu espiritual também determina esse processo e você não precisa renunciar a isso. Eu digo a você que a saúde espiritual, ela precisa andar de mãos dadas com a saúde mental, mas obviamente, ado, ado, ado, cada um no seu quadrado.
Quanto mais longe você está da espiritualidade, mais perto você está. Ou da síndrome de burnout ou de um outro problema ocupacional. Ficar tranquilo quer ver se é bem pior. Eu tô falando isso porque eu posso dizer. Quanto mais a gente se afasta de nós, quanto mais a gente se afasta da espiritualidade, mais perto a gente tá de um lugar bem ruim. Então, que bom que você trouxe ainda a espiritualidade pra gente. Manuel, você é... fundador do programa multiplataformas Bombo, embaixador da União Africana, pai de seis crianças, marido. Você falou que você tem mais três empresas?
Temos três empresas, eu e minha esposa.
E tá dormindo que horas, rapaz?
Na verdade, é... Parece que eu tô fazendo bastante coisa, mas quando você dedica a cada coisa o tempo necessário pra que algo aconteça e você não gasta tempo se impondo perante as pessoas, tudo fica mais fácil. Então assim, às vezes você precisa deixar o artista trabalhar. Então se eu contrato um gerente de TI pra minha empresa e ele me traz um conjunto de soluções, eu não perco tempo testando o conhecimento dele e me impondo sobre ele. Eu ouço ele e acolho ele. Isso gasta muito menos energia. Então, por exemplo, eu sou embaixador da União Africana. Cara, eu, sei lá, das últimas minhas 50 viagens internacionais, 30 delas foram pro continente africano. Eu não vou pra lá como especialista. Eu vou pra lá como uma pessoa para um processo de aprendizado. Eu não me comporto, por exemplo, como dono dos meus filhos. Eu sou anfitrião deles nesse planeta. A minha função é recebê-los, e como um bom anfitrião, eu preciso que eles tenham uma boa estadia nesse mundo. Eu sou anfitrião. E quando eu recebo você na minha casa, eu não sou seu dono, eu sou seu anfitrião. Depois do momento que você começa a se dar conta disso, você começa a expressurizar, começa a impor menos. Então, é muito interessante essa lógica de você respeitar qual é o lugar de fato. E eu também hoje sei. Por exemplo, eu sou um cara que, como eu tenho uma audição aguçada, eu sou um homem auditivo, então eu percebo o mundo através dos sons. Cara, eu tenho um tempo de limite de ficar, por exemplo, em ambiente cheio de gente. Eu não consigo ir a um estádio de futebol. Então assim, eu sei qual é o rolê.
Você já sabe quais são os seus limites.
Cara, e aí eu consigo fazer esse monte de coisa e consigo encontrar espaço pra fazer dezenas de outras. Porque tá tudo certo, entendeu? Mas, é isso, escova o dente todo dia, marca o dentista direitinho, faz a coisa acontecer.
Meu querido, pra quem quer te encontrar.
Cara, é... Arroba Manoel Soares, né, nas redes sociais. Pode entrar no site manuelsoarestudujunto.com.br. E ali tem um pouquinho da nossa história, do que a gente faz. E quem quiser pensar junto, trabalhar junto, construir junto, tô disponível, porque eu acho que nós precisamos expandir a nossa visão nos mais diferentes lugares. E digo pra você, eu sou um cara que eu adoro cozinhar. Eu adoro tocar, eu adoro viver a vida. Então, assim, eu acho que hoje eu sou muito menos chato do que eu era.
Agila mole. Eu adorei. Seguimos juntos. Muito obrigada.
Beijo.
Obrigada pelo convite. Obrigada você pelo seu tempo, que nos acompanhou até aqui. Tenho certeza que você se emocionou, como eu. Compartilha com quem você quer bem. Tenho certeza que essas palavras podem também contribuir para melhores decisões das pessoas que fazem parte da sua vida. Até o próximo interioriza.
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