A Juiza do Trabalho Mylene Ramos Seidl é a nossa entrevista de hoje (04/04) no Unha Talks!

Labor judge Mylene Ramos Seidl talks about her path from a difficult childhood in São Paulo to the bench, facing discrimination along the way. She tells young people, especially black girls, that education and self-worth are the keys to changing your life.
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Olá, hoje no Unha Talks nós vamos conversar com a juíza do trabalho, Milene Ramos. Tudo bem, Milene?
Tudo bem, olá. E.
Quem vai nos acompanhar é a Dani, a manicure que vai fazer as unhas da Milene. Quem vai fazer a minha unha é a Eliene. Um beijo pra todas as manicures que sempre levantam o nosso astral quando nós conseguimos fazer a unha, não é, Milene?
Verdade.
Agora, me conta, você vai trocar o seu esmalte, você tá de rosa, vai passar que cor hoje?
Ah, eu queria um nude.
Nude? Eu, vai ser ao contrário, eu vou trocar o vermelho e vou colocar uma rosinha. Você me inspirou rosa.
Esse rosa tá realmente bem bonito.
Não tá? Bem feminino. Então eu vou aqui no rosinha. Então, enquanto nós vamos fazendo a unha, Milene vai contando então pra nós partes da história dela que eu tenho certeza que podem inspirar você. Milene, quais foram os caminhos que te levaram ao direito e depois a ser juíza do trabalho de São Paulo?
Olha, Isabela, quando eu era criança, eu não imaginava que eu ia ser juíza. Eu nasci na periferia da Zona Sul de São Paulo e vinha de uma família muito numerosa, né? E meus pais não tinham realmente condições financeiras para me proporcionar um estudo. Eu estudava em escola pública. Então, o que eu queria apenas era sobreviver. eu não tinha um sonho, eu não achava que eu ia ser juiz ou advogada ou astronauta eu apenas pensava um dia após o outro eu vou sobrevivendo.
Você começou a trabalhar muito cedo?
Eu comecei a trabalhar sem registro fazendo bicos por volta de 10 anos de idade tinha uma vizinha que vendia cosméticos por catálogo então eu pegava aquele catálogo com ela quando chegava da escola e saia pelas ruas do bairro vendendo cosméticos.
Isso pra ajudar a renda da família?
Não, na verdade eu não ajudava na renda, dizer que realmente... Às vezes sim, comprar um presentinho de dia das mães, algo do gênero, mas era algo que eu tinha em mim, que eu achava necessário ter alguma atividade e fazer alguma coisa pra ter alguma renda. Eu gostava, por exemplo, de biblioteca pública, que ficava longe de casa. Então, se eu não tivesse nenhum dinheiro, eu teria que ir a pé, o que acontecia muitas vezes. Então, a renda eu usava exatamente para isso. Também ajudava uma pequena fábrica no bairro de caixas, envelopes, levava para casa aquele trabalho e fazia aquelas caixas, montava caixas, colava envelopes.
Ou seja, desde cedo você procurava ser muito útil.
Sim, sim.
E as referências que você teve do seu pai e da sua mãe, quais foram?
Olha, foram as melhores possíveis. Meu pai e minha mãe não estudaram, não tiveram uma formação educacional formal, mas são duas pessoas. Meu pai já falecido, ele era extremamente inteligente, e um coração maior que tudo, minha mãe também. Então, eu aprendi muito com eles e agradeço muito a educação que eles me deram no sentido de ser uma pessoa correta, uma pessoa honesta, de ter compaixão pelo próximo. Tudo isso eu aprendi em casa.
E quais foram os caminhos que te levaram a se interessar pelo direito?
Então, Isabela, o direito veio como algo bastante inusitado. Eu tinha 17 anos, ia fazer vestibular e fui fazer a inscrição para esse vestibular. E no ônibus, que demorava mais de uma hora para chegar até a faculdade, eu fiquei pensando no que eu queria me inscrever no vestibular.
Não sabia ainda.
Aí eu pensei, chegando na faculdade, eu pensei, eu vou me inscrever em Direito? Porque, pelo menos se eu não tiver emprego, eu posso abrir um escritório, eu posso sempre ter alguma coisa para fazer e não vou ficar desempregada. Isso foi em 1982, nós tínhamos um desemprego, uma crise econômica muito complicada aqui no Brasil. E você sabe, Isabela, que sendo uma menina negra da periferia, você tem muito mais dificuldade para encontrar emprego. O desemprego sempre é maior para a população negra e principalmente para a mulher negra. Então acho que foi isso que me motivou a fazer direito. Fiquei pensando, poxa, vou poder sempre fazer alguma coisa, mesmo que seja por conta própria.
E aí você foi, fez o curso de Direito, e quando virou a chave para você pensar em ser juíza do trabalho? Quero defender os trabalhadores que, de repente, têm algum problema com as suas relações de trabalho?
Então, a questão de ser juíza veio bem depois que eu já estava formada e eu trabalhava no Tribunal Regional Federal de São Paulo como técnica judiciária, num cargo para quem era formada em Direito. E comecei a me interessar pela magistratura, comecei a ver a magistratura como um caminho. E aí por que a magistratura do trabalho? Porque sendo filha de trabalhadores, eu acompanhei durante toda a minha infância, a minha adolescência, as dificuldades que meus pais tinham no trabalho. Meu pai uma vez foi demitido por justa causa injustamente, ele não tinha feito absolutamente nada. e ficou doente muito cedo de tanto trabalhar. Ele teve um derrame enquanto trabalhava durante três dias sem parar, sem dormir.
Três dias sem dormir. Ele era exigido a ficar todo esse tempo acordado?
Era. Era. Ele estava trabalhando numa construção. E no terceiro dia, ele sofreu um derrame cerebral. Com 36 anos, ele ficou dois meses internado em estado gravíssimo. Quando conseguiu se recuperar, ele foi aposentado por invalidez. E ainda assim, continuou trabalhando, fazendo bicos. E... E vi também, em um período muito curto, que meu pai comprou uma mercearia perto de casa. Então, acho que o que mais me animou, mais me inspirou a ser juíza do trabalho, foi ter convivido com esses dois lados, como era difícil ser trabalhador, mas também como era difícil ser empresário. Viver essas duas realidades. Então, pensando nisso, quando eu decidi fazer concurso para juiz, Eu queria a justiça do trabalho, porque eu falei, eu conheço muito bem os dois lados e vou poder fazer um trabalho equilibrado, justo.
Milene, você me disse que o lado do trabalhador é difícil, você viu esse lado, o lado do empresário é difícil e ser uma juíza negra no Brasil é fácil ou é difícil?
Não, não é fácil, Isabela. Se você pensa que hoje, em 2019, apenas 18% de toda a magistratura brasileira é formada por pessoas negras, num país onde 54% da população é negra. Então, nós fazemos parte de uma minoria Existe um desequilíbrio nessa composição muito grande e o fato de que você não tem muitas juízas negras e juízes negros leva algumas pessoas menos evoluídas a não conseguirem ver em você a figura de uma autoridade.
Você ouviu já alguma coisa que te deixou muito triste?
Eu não diria que fiquei muito triste, mas eu ouvi algo que na época Eu fiquei bastante indignada no processo que eu julguei, em que uma pessoa era acusada de ter sido... havia sido demitida sobre a acusação de ser um neo-nazista. E essa pessoa, após ouvir todos os depoimentos e analisar as provas, Eu verifiquei que essa pessoa não tinha razão, ele não tinha o direito que ele buscava naquele processo. Eu julguei de acordo com a minha convicção e com a legislação vigente. Houve um recurso contra a minha decisão e esse recurso dizia textualmente que a juiz havia praticado um ato de racismo ao julgar o processo incrocedente, aos pedidos incrocedentes, havia discriminado contra aquela pessoa ante a acusação de neonazismo e queria a anulação da minha sentença exatamente por esses motivos.
O que você sentiu na hora?
Eu senti muita indignação, mas depois, Isabela, na verdade, eu acabo, por fim... E você sabe que essas situações de racismo e discriminação são mais comuns do que se pensa aqui no Brasil. Esse país é extremamente racista. Então, depois da indignação, eu acabo por sentir pena de pessoas assim.
Bom, mas você deve ter tido situações também que você se orgulhou de estar onde você estava, de causas que você julgou.
Sim.
Não é?
Sim.
Foram 25 anos servindo o Judiciário do Paraná e de São Paulo.
Isso.
Tem algum caso, assim, que você lembra, que você se orgulha de ter conseguido julgar o lado, dado, na verdade, a causa para o lado correto?
Eu acho que eu posso lembrar de um caso que me marcou bastante, porque foi um acidente de trabalho muito triste que aconteceu. Todos são tristes, né? E esse foi, além de triste como todos, um acidente de trabalho de grandes proporções. Houve um desabamento de uma obra e houve um resgate muito dramático, mas no final morreram 10 trabalhadores naquele desabamento. E eu assistindo aquilo, tinha acabado de acontecer, e minha mãe falou para mim, é mais uma coisa que não vai dar em nada. Cheguei no trabalho para começar minhas audiências do dia normalmente, aí veio a minha diretora falar comigo, doutora, olha o processo que chegou aqui, é urgente. Era uma ação civil pública que lidava justamente com aquele desabamento. E foi um processo assim que me marcou muito pela simplicidade daqueles trabalhadores, da história toda daquelas pessoas que faleceram. Mas nós fizemos o resgate de 64 outros trabalhadores da mesma empresa que estavam trabalhando em condição análoga à escravidão. Então tudo isso foi feito de um dia para o outro e ainda o resgate estava acontecendo ainda das vítimas no desabamento. Mas para... Resumir, nós conseguimos em três meses fazer um acordo que foi muito satisfatório, com a intervenção, claro, do Ministério Público, que é o autor da ação civil pública. Então, conseguimos em três meses resolver e em menos de seis meses todas as vítimas estavam indenizadas.
Geralmente, quando eu ouço um juiz ou vejo um juiz, Sempre tenho a imagem que vocês são rígidos, exigentes. Essa rigidez, ela se mantém em toda a vida ou não? Dá pra ter uma vida pessoal leve e com alegria?
Olha Isabela, eu sou uma pessoa que gosta de leveza na minha vida. algo que os advogados sempre comentavam, as advogadas quando entravam na minha sala de audiência, na sala de audiências era de que sentiam bem, que sentiam um ambiente leve porque é uma profissão tão difícil, você lida com coisas tão difíceis que se você não procurar ser mais leve você vai sofrer muito você acaba se tornando uma pessoa com mais problemas ainda do que aqueles que você já vê diariamente.
Você conseguia sair do trabalho e não levar o trabalho junto?
Nem sempre. Nem sempre. Muitas vezes você acaba pensando naquilo que você viu durante o dia ou naquele julgamento que você ainda leva pra casa, porque é muito comum. Você terminou as audiências, você vai pra casa, mas você ainda tem os julgamentos do dia pra fazer. E eles normalmente são feitos à noite. Muitas madrugadas eu atravessei julgando os processos.
E a vida pessoal, como é que fica?
Prejudicada. Muitas vezes não dá pra sentar aqui e ter um momento como esse. Ah, já passei mais de um mês sem fazer unha.
É mesmo? Sim. E como é que você se sentia assim diante de outras pessoas?
Ah, escondendo as mãos.
Se escondia as mãos?
É, virando assim, dando uma viradinha, escondendo quando os processos eram físicos, escondendo atrás dos processos, né? Sério? Sim.
Um pacote de autocuidado da Milene. A unha está dentro dele. O que você faz assim pra levantar a sua autoestima, o seu astral?
Olha, hoje a unha passou a ser, né? Eu tô com um pouco mais de tempo. Eu gosto muito de fazer Pilates.
Eu também adoro.
Shiatsu. Muito bom, me sinto super bem.
Para a gente encerrar a parte da discriminação e preconceito, hoje, quando você começou, você vê alguma diferença para hoje, para as meninas negras entrarem no direito ou tentarem até um cargo de juíza? Já mudou?
Está mudando? Então, o que a gente tem hoje, Isabela, é que existe um sistema de cotas em algumas universidades que estão auxiliando, tornando um pouco mais fácil para pessoas negras, indígenas, e até mesmo para aquelas de um poder socioeconômico menor, adentrar em boas faculdades. Isso tem sido muito importante para mudar a vida dessas pessoas, desses grupos historicamente discriminados, para que eles possam ter uma formação e sonhar com uma profissão, até como de juíza, como de astronauta, por que não, né?
Todos podem.
Todos podem.
Todos podem. Da sua época para agora, já teve alguma evolução, tirando a questão das cotas, porque é arbitrário, né? As faculdades são obrigadas a ter o número de cotas.
Sim.
No geral, você percebe já alguma evolução?
Então, nós temos cotas no serviço público também, federal. Então o concurso para juízes do trabalho é um concurso que hoje já existe em cotas, então você vê um número um pouco maior de negros adentrando o judiciário como juízes. Eu imagino que daqui a alguns anos nós vamos ter o resultado disso com um reequilíbrio, um equilíbrio na verdade, porque nunca houve desses números.
O que você mais gostou dos seus 25 anos como juíza no Paraná e São Paulo?
Acho que o que eu mais gostei foi ter conseguido tantas conciliações, fazer com que tantas pessoas se conciliassem nas audiências. Eu sou modéstia à parte, muito boa em conciliar, em conversar. E, inclusive, teve um caso que me marcou, que eu fiquei super feliz, é que o rapaz tinha sido demitido de um restaurante, aí entrou com o processo trabalhista, fez um acordo na audiência e foi recontratado na audiência. O empregador, eu perguntei, não tem, não tá precisando lá? Porque ele tava desempregado. O empregador, olha, ele era um bom funcionário, né? Aí eu falei, não gostaria de contratá-lo novamente? Ele, sim. E já saiu com o emprego.
Emocionada. Só não posso chorar porque agora vai borrar minha maquiagem, mas parabéns. Mi, pra gente acabar, se você tivesse um megafone e pudesse falar pra todos os meninos e meninas, periferia, áreas centrais, o que você diria pra meninos e meninas?
O que eu diria é que, como eu que saí da periferia e estou ocupando outros espaços, eu diria para esses meninos, para essas meninas, não se limitarem, sonhem, façam planos, se preparem que vocês vão chegar lá.
Como é que cada um vai descobrir a sua potência se o entorno, às vezes, é tão opressor? Na prática, o que você recomendaria? Desde não aceitar um tipo de discriminação, buscar as informações...
Informação e educação. Quando você se educa, quando você aprende, quando você se informa, ninguém vai te passar para trás, sabe? você vai conseguir chegar lá, porque você sabe quais são os seus direitos, você sabe o que você pode, o que você não pode, quais são os seus direitos, quais são as suas obrigações também, né? Porque a cada direito também correspondem obrigações. Então, eu diria para essas crianças, para eles procurarem realmente se informar, afastar-se das fake news, do zap, aquele monte de mentira que vem no zap, procurarem a realidade, procurarem a fundo, lerem, se informarem realmente, estudarem com afinco, sempre.
Estudar. Para as meninas negras, alguma dica especial?
Saibam que vocês são lindas como vocês são, não acreditem nos estereótipos, eurocêntricos, de que a beleza está apenas em uma pessoa de pele alva, de cabelos claros, de olhos claros aprenda-se desde cedo a valorizar você como você é e tenha certeza, você é linda!
Parabéns, parabéns. Trabalho fantástico. Olha, nós conversamos hoje com a juíza do trabalho, Milene Ramos, que nos deu uma aula sobre superação, força de vontade, elegância. Uma das mulheres mais elegantes que eu já vi e mais sábias que eu conheci. Obrigada, Milene.
Muito obrigada, Isabela.
Um beijo.
Ah, querida. Foi um grande... Prazer.
Tudo que a gente nem pode se abraçar muito forte, senão a unha, ela vai borrar, não é?
Verdade.
Mostra aqui pra câmera como ficou. As meninas também, vem pra cá.
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O processo de reconhecer limites, mesmo quando a vida parece exigir sempre mais.

Depois de tantas histórias, aprendizados e pausas necessárias, o @interior_iza está de volta








