Alexandra Loras é a nossa entrevistada de hoje no Unha Talks 18/04

Alexandra Loras, a French journalist and presenter, talks about racial issues in Brazil and her experiences as a black woman in elite circles. The conversation happens while getting nails done as part of the Unha Talks series.
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Olá, seja bem-vindo a mais um Unha Talks, um programa em que a gente traz mulheres superpoderosas enquanto fazemos as unhas, já que essa é uma atitude repetida por mulheres de todas as idades, classes sociais, é muito democrática. Alexandra, obrigada por ter aceitado o meu convite. A gente, Alexandra, é escritora de vários livros, Jornalista, apresentadora francesa, veio da França para o Brasil, já nós vamos conversar sobre isso. E hoje faz um trabalho maravilhoso, tirando das mulheres o melhor delas, não é?
É, tentando resgatar a autoestima delas e trabalhando esse empoderamento sutil através de ferramentas que, assim, todos podem nos ajudar a revelar a melhor versão de nós mesmas.
Já que você falou sobre autocuidado, para muitas mulheres a unha entra no pacote de autocuidado, tá? Então, antes da gente começar a falar dos nossos esmaltes, eu vou apresentar quem vai cuidar das nossas mãozinhas, então, neste Unha Talks. Quem vai fazer as unhas da Alexandra é a Dani. E quem vai cuidar das minhas patinhas é a Ana, querida. E um beijo para todos os manicures de todo o Brasil que sempre mudam o nosso astral, tem esse poder em uma hora. Não é, Alexandra? Você vai mudar qual cor?
Então, hoje estou com cinza acabado e vou trocar por um nude. Para a pele negra, então adoro esses novos tons de nude que vão se combinando com todo o arco-íris de nossas cores de pele.
Perfeito. Eu vou trocar o meu rosa, tive uma fase rosa esses dias, vou passar uma cor mais escura. Como que é fazer a unha para você? Faz parte de um pacote de autocuidado ou você fica numa boa semana sem fazer?
Então, eu gostava muito da dinâmica nos Estados Unidos ou na Europa, onde fazemos unhas gel. Então, durante três semanas, lavando louça, cozinhando, cuidando dos filhos, temos unhas impecáveis durante três até quatro semanas. mas aqui no Brasil é uma religião, a unha, semanal, então é como um ritual. Então já me acostumei, porque também gosto de ir relaxar no salão, bater um papo com as vizinhas. Então hoje virou uma dinâmica meio cultural, assim, antropológica para mim, ir conversar com minha manicure ou minhas vizinhas. Assim, virou uma coisa muito legal. Antes era uma coisa prática, onde ela sai, não fala com ninguém. Porque na Europa não falamos com ninguém. É mesmo?
Não, não.
É muito cultural. No cabeleireiro não vai falar. com os vizinhos, que é muito mais descontraído e tem essa conexão. O Brasil mexeu muito comigo justamente por isso, por ser um país extremamente optimista e alegre. Também que esses últimos anos vão dar uma forma um pouco pessimista do Brasil se enxergar. Eu sou das optimistas. Eu vejo São Paulo como Nova Iorque nos anos 50. Eu sinto uma efervência na economia. para mim, tudo está melhorando e as pessoas reclamam, mas porque elas estão se empoderando mais e mais economicamente, mas se olhamos os carros novos na rua, a maioria são novos. Então, as pessoas têm, assim, quando olhamos as universidades, é a primeira vez da história do Brasil que a maioria das universidades públicas tem uma maioria de alunos negros. Então isso é também na primeira vez. Eu acho que o país está melhorando, saindo pouco a pouco dessa apartade, dessa segregação cordial na qual eu entrei em 2012. Ainda era muito, muito diferente de hoje.
Eu ia te perguntar, né, o que te impactou positivamente e negativamente no Brasil, mas antes a gente precisa saber como é que você trocou Você tocou a França pelo nosso país, porque você sabe mais do Brasil do que muitos brasileiros.
Não sei se é o caso, mas eu consigo ter um olhar talvez sociológico, antropológico sobre o Brasil, por justamente vir de uma outra cultura. Então eu consigo analisar, observar de longe. Mas eu vim ao Brasil há sete anos atrás, ao lado do meu esposo, que foi nomeado aqui como consul-geral da França, em São Paulo. E foi uma revolução, assim, porque eu já vinha para o Brasil visitar meu irmão, que casou com uma brasileira há 20 anos atrás. Então meus sobrinhos são brasileiros, e então já tinha uma aproximação com o Brasil. Mas esperava também encontrar um país com uma democracia racial, de fato, o que é o pedigree do Brasil lá fora, de que aqui é um país tão miscigenado, todo mundo se dá super bem, não existe racismo, etc. Bom, minha realidade foi outra.
Você ouvia isso lá na França?
Claro, não só na França, no mundo inteiro. O Brasil tem esse pedigree de ser um país miscigenado, da democracia racial. Então, se fala fora do Brasil que está tudo resolvido, que aqui não existe preconceito. E, para mim, é o país mais racista do mundo, o Brasil. Porque eu acho justamente que os países mais miscigenados, justamente, têm polaridade muito maior. E aqui tem uma narrativa do loiro, uma fascinação pelo loiro e pelos olhos claros e pela pele branca, que é uma coisa absurda, essa fascinação. Vejo isso com o meu próprio filho. Porque ele nasceu branco, loiro, e realmente vejo como as pessoas todos os dias incentivam a beleza dele como se fosse algo superior.
Dizem o quê dele?
Ai, alemãozinho, anjinho, pequeno príncipe, que anjinho, que maravilha, seu filho, que loirinho lindo, o tempo todo. E vejo assim, eu não tive esses olhos de os de pequenininha. Agora, é interessante para mim olhar como criar uma criança com todos os privilégios, de certa forma. Só que eu percebo também que ser uma mulher negra dentro dessa elite não é um privilégio. Muitas pessoas falam de privilégio, de privilégio. Eu não acho isso um privilégio, eu acho isso um absurdo, uma coisa tão violenta, tão chocante de nunca ver outras negras e outros negros na elite, nos espaços de poder desse país, que tem uma maioria de negros. de 114 milhões de pessoas negras no Brasil que consomem 1,7 trilhões de reais por ano que são, na maioria, mas que são tratados como minorias e que até mesmo quando você olha para o governo, o congresso, o senado tem menos de 1% de negros nesses espaços 4% na televisão, sempre no papel do bandido, do traficante do safado, a mulher negra é sempre relatada como servicial, como hipersexualizada ou faxineira. Então, eu acho que chegou o tempo de olhar por essa ficção que vamos usando para bombardear nossos cérebros e tem uma consequência sistêmica na neurociência que faz as pessoas serem cheias de esterótipos, cheias de... clichês, e precisamos pedir para a Globo, que você trabalhou muito tempo lá, pedir para a SBT, Bond, para todo esse audiovisual que vai formatando, que vai criando no seu imaginário, usar do espaço deles para reparar essa dor histórica ligada à escravidão e contar novas histórias. Então eu consegui entender muito mais minha própria cultura opressora, colonizadora, dominante, porque os europeus invadimos o mundo inteiro, dividimos entre nós o mundo inteiro, em nome de nosso Deus, criando genocídios, apagando civilizações, culturas, matando milhões de pessoas nesse processo, trazendo escravidão. Bom, nós somos limpos de uma história assim. E o Brasil mexeu comigo porque ele me mostrou um lado Claro, desagradável, mas de um lado também muito agradável, no sentido de que cheguei aqui com um título que me deu a oportunidade de ter esse palco de fala. Esse lugar de fala onde a elite e a mídia quis escutar uma consulesa da França negra, casado com uma aristocrata, diplomata, e que eles gostaram de me dar espaço de falar para conhecer como era a minha vida. Então, se você olha, fui apresentadora de TV na França há 7 anos, ninguém me perguntou sobre a questão racial na França.
Alexandra, gente, já foi capa de diversas revistas, mas uma delas sempre me vem à cabeça. No título você tá com uma roupa belíssima na capa, né? E o título é Samba, Champanhe e Preconceito. Então você conviveu com pessoas que tomavam champanhe e você sentia preconceito delas ou nesses ambientes não?
Não, com certeza, nesses ambientes, claro, porque até mesmo recebia mais de 6 mil pessoas por ano na residência consular. E o protocolo francês faz questão de eu ficar na entrada para dar a bem-vinda aos convidados da residência. E quantas vezes pessoas passaram na frente de mim achando que era a empregada doméstica.
Sério?
É, claro, claro. E isso é uma vestida de glória coelho, superproduzida, cílios, pastichos. Mas é isso, é muito difícil na cabeça da elite brasileira ver uma mulher negra como anfitrião.
Então, Alexandra, pelo que você nos explicou, você viu o que poderia ser um problema para algumas mulheres e uma oportunidade. E falar sobre o racismo aqui no Brasil, você estava dando de braçada, em palestras, e trazendo esse olhar dentro das empresas.
Então, como assim, vejo que o Brasil é um país de oportunidade, um país onde a miscigenação e esse multiculturalismo é uma riqueza que ainda está sendo enxergada como uma tragédia. Mas eu amo esse síndrome do vira-lata. É mesmo! Porque eu me encaixo, eu sou uma vira-lata, então eu me sinto totalmente em sintonia com o síndrome da vira-lata, do colonizado que nunca tinha ouvido esses conceitos lá na Europa. E o que eu gosto no Brasil é essa flexibilidade. A partir do momento que você consegue convencer e abrir os olhos através de minhas palestras, das consultorias que eu faço sobre o empoderamento da mulher e sobre diversidade etnogracial, consigo negociar com as pessoas mais opostas a minhas ideias, mais duras, a mudar. Então isso é magnífico, porque nunca imaginei poder trazer uma cimentinha de conscientização na revista Vogue e ajudá-los a perceber a falta de representatividade. E nesses últimos anos, desde que fizemos nosso editorial com a princesa Paola Braganza de Orléans, vestida, que aceitou esse vestido de empregada doméstica servindo cinco negras, Conseguimos aumentar de 600% a presença da mulher negra na revista Vogue. E fomos finalistas do Prêmio Globo por ser a melhor imagem do ano. Não ganhamos, mas chegamos finalistas. E o que foi sensacional É ver que a Vogue, ela é a revista mais poderosa do mundo, aliás, do Brasil, mas do mundo. Porque quando você olha a folha, o Estadão, ele tem um dia de vida. O dia seguinte, você joga esse jornal. A Vogue, você não joga depois de um mês de vida. Ele transita na manicure, olha, na manicure, no cabeleireiro, no dentista, no médico, na fazenda. Então está em tudo. Então que seja empregada ou CEO, todo mundo vai em um momento olhar a Vogue. Então a Vogue, ela fica dois anos transitando. Então ela vai educando as mentalidades. Por isso que temos anorexia também. Anorexia não existe na aldeia da Amazônia ou lá, sabe, em lugares da China, onde não chegou a mídia. A anorexia é uma consequência do Karl Lagerfeld e de tantos outros ter tirado nossos peitos, nossa bunda, de ter tentado criar essa mulher. Incapaz de alcançar, que é uma mulher de 1,80m, mais gérima, photoshopada ainda mais magra. Então, para você se sentir sempre ruim, para nunca conseguir alcançar esse padrão de beleza, você vai consumindo. comprando cosméticos, roupas, acessórios para tentar preencher esse vazio de não conseguir alcançar esse padrão de beleza. Então, se olhamos a maior revolução do século passado, se olhamos por todas as mudanças do século passado, a maior revolução foi a revolução feminista. Foi o fato das mulheres entrarem no mercado de trabalho. porque antes não tinha acontecido. E acelerou o mundo, a economia mundial, porque as mulheres entraram no mercado de trabalho, mas os homens ainda não entraram nas tarifas de casa. E eu, assim, fico muito feliz porque meu... companheiro, de jornada. Participa muito mais, vou dizer, a criação de nosso filho, porque é um acto político.
Mas você também deixou, porque muitas mulheres acabam não deixando que os maridos participem.
Não é curioso isso? É nosso veneno, precisamos deixar o homem entrar nessa dinâmica. Eu fiz uma viagem quando meu filho tinha um ano. Eu deixei ele três semanas com o pai sem notícia de como se virar. Eu entreguei meu filho e deixei ele se virar. Então não tinha até agora tem que pegar tal mamadeira para comer papinha, etc. Não, você vai agora aprender. E se você olhar os países mais resolvidos sobre a questão do gender gap e da diversidade de gênero, em paridade, como a Suécia, a Islândia. Eles obrigam os homens a ter uma licença de paternidade de três meses e não podem pegá-la ao mesmo tempo que a esposa. Então, eles são obrigados a aprender a fazer papinha, trocar fraldas e se virar. Só que quando você se virar dentro dessa dinâmica de se tornar pai e aprender o que é ser pai, você curte de estar em conexão com esse ser humano que você também trouxe no mundo. Então você se torna protagonista dessa vida que você trouxe no mundo, sabendo que essa vida precisa de você para se desenvolver. Então entregamos o protagonismo para homens se virar, participar e curtir também ser pai. E precisamos mostrar o caminho, porque não só as mulheres somos 52% da população mundial, Damos também luz aos 48% de homens. Então, quer dizer que não somos as machistas e com vieses inconscientes do patriarcado, educando nossos homens a não se tornar bons pais. Por que temos dificuldade de entregar um carinho para meninas, quando a maioria das mulheres dirigimos?
Tá mudando, né? Tá tudo mudando.
Não, mas entregar um carrinho para meninas ainda não está mudando. E bonecas para meninos ainda pior, porque tem esse lado ligado a um medo e a uma homofobia que não tem nada a ver. dar uma boneca para um menino é também ter medo dele se tornar um bom pai? Então precisamos repensar, debater mais sobre essas questões e enxergar o quanto nosso mundo evoluiu drasticamente nesses últimos 20 anos com a internet. Agora precisamos também acelerar nossa cultura, mentalidade e tradição que realmente muitas delas são ultrapassadas.
Sim, perfeito. Gente, além de linda, inteligente, né? Eu falei que essa entrevista é assim demais. Alexandra, tem uma pergunta aqui que desde o início, desde que eu te vi, né? Pessoalmente. Eu tinha visto você em dezenas de fotos com aquele cabelão que eu amo. Aliás, eu vivo de lenço no cabelo, levantando o cabelo. E aí agora eu tô te vendo de cabelo liso. Por que você fez essa transição?
Ok. Então, é um tema bem polêmico, mas fico feliz por você me perguntar. A minha vida inteira eu alisei, desde pequenininha alisei o cabelo, por justamente esses padrões geocêntricos que vão querendo apagar nossa beleza natural. E o Brasil foi uma... Foi um cardápio cultural excepcional para realmente entender a minha negritude, mergulhar dentro da minha identidade, dentro da minha beleza. E assumi meu cabelo crespo durante seis anos aqui, de todas as formas, conturbante, tranças, black power. E curti muito, até um certo ponto em que eu percebi que em todos os espaços entrava como um ato político em cima da minha cabeça, onde as pessoas só interagiam comigo sobre o meu cabelo. E era uma agressão e micro-humilhação de micro... assim, desconforto, que chegou um momento em que eles ganharam. Vou te dizer, você vai, por exemplo, no almoço da Condesa Matarazzo, que eu amo e que foi uma mulher incrível, que me acolheu quando eu cheguei em São Paulo, e todas as amigas, primeiro, no início, me olhavam torto, tipo, ai, mas o que essa negra está fazendo aqui? até ser apresentada como consulesa da França, todo mundo... Ai, querida, vai organizar um jantar na minha casa, sabe? Então, tudo bem. Com o meu status, estava respeitada. Mas, quando eu chegava com minhas tranças, ou meus dreads, ou meu afro, tinha sempre umas 15 mulheres, nesses almoços, que chegavam e falavam... Mas esse cabelo é seu? E muito alto, sabe? Não era... Esse cabelo é seu? Estávamos tendo uma conversa e chegava... Esse cabelo é seu? Tinha uma invasão, como se... Imagina eu chegar num espaço da elite e chegar... Esse botox é seu? Esse ceio é seu? Esse aplique é seu? Esses cílios são seus? É uma coisa de uma invasão, de uma falta de códigos, de protocolo. de respeito, de educação. Só que como o corpo da mulher negra foi objetizado, ele foi estuprado, ele foi escravizado durante séculos, a mulher branca não percebe que quando ela está tratando com uma pessoa negra, ela está numa zona de conforto, de me tratar como se estivesse lá só para sambar ou para um certo entretenimento dela.
Você viveu uma situação de micro humilhação?
Sim, todos os dias. Todos os dias. Tenho mil histórias assim. Mas não tenho só isso. É o que é fantastico no Brasil. É que tem essa parte ruim, mas que não é tão ruim para mim porque eu já ultrapassei essa dor. Eu acho que hoje... Onde me dói mais é no meu país. Quando as pessoas duvidam da minha legitimidade de ser francesa, porque sou negra, isso me machuca.
Lá na França?
Claro. Mas aqui também, as pessoas me perguntam, mas você é francesa mesmo?
Sim.
Mas onde você cresceu? Em Paris. Mas onde você nasceu? Em Paris. Mas antes de quê? A França tem 400 anos de escravidão e 300 anos de colonização. Com certeza somos uma multidão, uma mistura de muitas histórias.
A sua mãe é francesa e o seu pai é africano.
É da Gâmbia, sim. Mas se eu olho minha família, da minha mãe, ou até minha família em geral, assim, temos um laço até 1109.
Total.
Então, que legitimidade você quer a mais? Só porque tenho uma melanina, me tira a minha possibilidade de ser francesa, a minha cultura. Eu nasci lá, cresci lá. A primeira vez que fui na Gâmbia, eu tinha 21 anos. Então, claro que a Gâmbia faz parte da minha história e estou muito orgulhosa das minhas raízes gambianas. Mas não vou mentir a mim mesma, não tenho a cultura da Gâmbia. Quando vou lá, sou vista como uma estrangeira.
Se você tivesse um megafone para falar para meninos e meninas, o que você diria?
Temos tempo? Quantos minutos eu tenho?
O que sairia do coração da Alexandra?
Vou dar uma dica para vocês. Gostaria vocês hoje fazer uma lista de cinco pessoas que inspiram vocês. Pode ser um vizinho, pode ser um colega, pode ser uma celebridade, um jornalista, pode ser um dentista, um advogado, qualquer que seja, cinco pessoas que você admira. Hoje, através do Instagram, LinkedIn, Twitter, Facebook, você pode alcançar quem você quiser. Então, eu gostaria de você escrever para essas cinco pessoas, hoje e não amanhã, porque sempre amanhã é amanhã. Hoje, escrever essa declaração simples. Olha, eu venho acompanhando sua jornada há anos e tenho imensa admiração por você e gostaria de você se tornar meu mentor. E ser meu mentor seria só me dedicar 30 minutos uma vez por mês nesses próximos seis meses para você me contar sua história de vida e me dar dicas para eu me tornar a melhor versão de mim mesmo. Imagina você receber essa carta. Você gostaria de ajudar essa pessoa? Então pensa que tem um monte de pessoas que vão querer se tornar seu mentor ou sua mentora. Posso assegurar que se você coloca isso em prática, daqui a um ano você vai dar um pulo quântico na sua carreira, na sua missão, no seu relacionamento. Temos que nos autorizar a merecer o melhor.
Alexandre, então, deu a dica, acho que do ano, né? Pedir mentoria, pedir uma orientação pra quem a gente admira. Eu adorei, eu vou fazer isso também. Então, pra encerrar, croissant ou pão de queijo?
Ai, ai, ai! Definitivamente pão de queijo agora!
Olha, adorei!
Espero que não tenha tantos franceses assistindo.
Não.
Eu acho que... Ah, sim, gosto muito de pão de queijo. Com certeza, quando eu cheguei, não conseguia entender até mesmo o brigadeiro com leite condensado. Agora sou viciada.
Não tinha brigadeiro na França?
Não, não existe. Mas tem macarrão, né? Nem pode existir, porque eu tive que reeducar o meu paladar para curtir o brigadeiro. Porque o brigadeiro é muito doce. Gente, leite condensado, mais açúcar, mais chocolate. Que delícia o brigadeiro! É uma bomba! De glucoso.
O que você mais gosta, então, da culinária brasileira?
Ai, eu gosto... Bom... Eu gosto muito da muqueca. Ah, não, o tombaki. O tombaki, o açaí com pipoca de tapioca. A cozinha de Manaus é a minha preferida. É espetacular e gosto muito também da... da mistura na baia do acarajé, de toda essa culinária afro que vem do Benin, do Togo, e que as pessoas não sabem. Nem sabem o que é o Benin, é um país na África. E o acarajé vem de lá. Só que eles usam o acarajé como ofrenda espiritual. Então é interessante, eles quase não comem o acarajé. Igual para a muqueca, tem tantas coisas que vêm da África que são assimiladas como brasileiras, mas que têm uma ascendência africana. Como o carnaval, a Globo fala que o carnaval vem da Venecia. Ai, que merda. O carnaval vem do kondomblé, vem de cada etnia africana que faz carnaval. Até mesmo no Uruguai, o carnaval se chama kondomblé, porque vem de uma raiz afro, onde você olha todas as etnias na África, vai se pintando, fazendo uma performance e festas para celebrar, muitas coisas. tem uma coisa de que a Oktoberfest é assimilada à Alemanha, à Festa Junina à França, mas tudo que é negro é assimilado como brasileiro. E deveria ter também uma forma... Até mesmo a Alemanha já foi embranquecida. A Yemanja é uma deusa negra que vem do Congomble, que vem da África. Tem um amigo que me mandou uma foto de uma Yemanja negra e falou, olha, pensando em você, ennegreceram a Yemanja. Eu falei, que loucura. Não, embranqueceram a Yemanja, como embranqueceram o Machado da Assis, o Oscar Freire, o André Rebolsa, o Teodoro Sampaio. Então, só que não, são negros. que não entraram nos livros didáticos como negros acadêmicos, intelectuais, inventores, que participaram do desenvolvimento do Brasil de forma muito bacana. E hoje precisamos repensar o sistema educacional. Então, com certeza, mando também uma mensagem para todos os roteiristas, redactores, de sempre tentar repensar nosso mundo fora dessa apartade, dessa segregação estrutural.
Pronto, por isso que a Alexandra está aqui no Brasil com a gente, para poder colocar essa mensagem, para poder colocar essa mensagem não só no coração, na mente, E espalhar essa mensagem de igualdade, que é o que a gente precisa. Alexandra, merci.
Obrigada. Merci, ma chérie.
Merci. Oh, aqui, olhinhas feias.
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