Bate papo com a Livraria @martinsfontespaulista sobre o livro DÁ UM TEMPO!

This content was created by GHION.AI . This content was uploaded by GHION.AI . This is a YouTube video titled "Bate papo com a Livraria @martinsfontespaulista sobre o livro DÁ UM TEMPO!" created on September 9, 2020. It features a conversation between Rafael, a bookseller from Martins Fontes Paulista, and journalist Isabela Camargo. They discuss Isabela's book "Dá um Tempo, Como Encontrar Limites em um Mundo Sem Limites," covering topics like time management, the impact of digital life on our analog brains, and the importance of setting boundaries in a fast-paced world.
Chapters
Boa tarde, pessoal. Sou o Rafael, livreiro da Martins Fontes Paulista, e hoje estou aqui com vocês para mais uma de nossas lives literárias. Hoje o nosso assunto é extremamente importante, muito interessante, e falaremos do incrível livro Dá um Tempo, Como Encontrar Limites em um Mundo Sem Limites, da Isabela Camargo. Hoje o nosso bate-papo vai versar com filosofia, história, psicologia e outras temáticas importantes para a contemporaneidade, como gerenciar o nosso tempo, como organizar a nossa vida e como ter uma vida saudável. Hoje, então, receberemos a jornalista Isabela Camargo. Antes do nosso bate-papo, vou passar aquele costumeiro recado para vocês. É um prazer enorme representar a livraria Martins Fontes Paulista nesta live. É importante dizer que o nosso espaço é extremamente democrático, aberto a todas as pessoas, independente de gênero, etnia, credo, orientação sexual ou convicções políticas. Que todos os leitores e participantes de nossos eventos sintam-se bem acolhidos pela nossa equipe. O acervo da Livraria Martins Fontes Paulista possui 200 mil títulos à pronta entrega, disponíveis em nossas lojas e também no site martinsfontespaulista.com.br. É com muito prazer e honra que recebemos hoje Isabela Camargo. Vamos ver se a Isabela já está disponível aqui pra gente. Olha lá. para o nosso bate-papo, galera. Vamos aguardar um instante que ela tá chegando por aí. Esse bate-papo promete bastante hoje. Isabel tá pra entrar. Vamos aguardar um momento, galera. O livro é muito interessante. Eu adorei fazer a leitura. É importante dizer pra vocês também que Esse livro está entre os três mais vendidos da Livraria Martins Fontes Paulista. Nós tivemos que fazer a requisição de mais pela tarde de hoje, porque nós já estávamos sem no nosso estoque. É um livro que trata de um tema importante, sobretudo nesse momento de distanciamento social, em que muitas pessoas estão com dificuldades de repaginar a sua vida, de lidar com o momento distinto, com uma nova rotina, e o tempo parece que nem sempre é o nosso amigo, nem sempre está de acordo e caminhando conosco. Isabela Camargo, muito prazer, seja bem-vinda!
Tudo bem, querido? Boa tarde, boa noite, na verdade, para você, para todos que estão aqui conosco.
Muito prazer, você me ouve bem?
Ouço bem, vejo bem, aliás, te vejo com dois filhos atrás de você. Que alegria! É inexplicável, na verdade, a gente ver um filho literário. Foram quatro anos de pesquisa, então estou muito feliz de estar aqui com você, Rafael.
Nossa, é um prazer enorme, Isabela. Nossa equipe ficou extremamente feliz em saber da sua participação. Você já é uma pessoa que tem um carinho enorme aqui entre os livreiros O seu livro nós sempre indicamos aqui para os clientes É assim, por si só ele já é altamente vendável Ele já é um filho que nós já adotamos com muito carinho aqui na livraria E sem dúvida quem ainda não leu vale demais a pena fazer a leitura Isabela, eu gostaria de pedir para você fazer uma apresentação. Eu sei que dispensa apresentação à sua figura, à sua personalidade, mas eu gostaria que você fizesse uma apresentação para a gente dessa sua carreira, dos seus trabalhos majoritários, por gentileza.
Rafael, obrigada pelo espaço, aliás, obrigada pelo tempo de cada um que está aqui conosco, porque escolhendo estar aqui, estão escolhendo também não fazer outras coisas. Falar de tempo é falar exatamente de escolhas, mas já já a gente fala disso. Bom, eu sou jornalista há 15 anos, comunicadora há 23, então eu comecei no rádio, depois fui para a TV, fui para o hard news e depois fui para a escrita. Vejam, o caminho da comunicação. Eu trabalhei muitos anos na Band, trabalhei muitos anos na Globo e hoje, então, sigo com essa mensagem, embora esteja trabalhando na Rádio Bandeirantes de manhã, também sigo com essa mensagem do livro, dá um tempo, Como Encontrar Limite em um Mundo Sem Limites. Rafael, por quê? Nós estamos vivendo num mundo express, em um mundo analógico, mas o nosso cérebro ainda, perdão, o mundo digital, o mundo express, mas o nosso cérebro ainda é analógico. Se a gente não parar um pouquinho pra pensar nisso, aí o tempo ele pode passar muito mais rápido pra quem, evidentemente, não pensar no que está fazendo no tempo. Então, minha trajetória começou no rádio, pra TV e agora chego então na livraria. Veja, que coisa mais incrível. E eu tô muito feliz de estar aí no catálogo da Martins Fontes.
Sem dúvida. E não só no catálogo, mas já dentre os mais vendidos. Isso é algo preponderante a ser dito. É muito legal você estar junto de nomes muito importantes já da literatura e também do jornalismo. O seu livro está vendendo muito bem. É bem como o novo da Daniela Arbex, assim como o livro novo da Helena Ferranti. Então, assim, é um primor estar já nesse espaço. Isso é muito legal. Isso é muito importante. Eu gostaria de pedir para você, Isabela, contar como foi um pouco o processo de elaboração desse trabalho. Você começa em 2017 com um anseio, com uma ideia, será que o tempo está passando mais rápido ou estamos passando mais rápido pelo tempo? E a partir daí vai desdobrando-se em um universo que talvez até você não esperava. Conta um pouco para a gente como que é o processo, como foi o processo de criação.
Respondo sim, Rafa, mas antes eu quero te fazer uma pergunta. Posso te chamar de Rafa?
Com certeza.
Então troca. Você já sentiu que o tempo está passando mais rápido? Você já teve essa percepção?
Eu já tive em vários momentos, confesso.
E você acha que o tempo está passando mais rápido ou a gente está passando mais rápido pelo tempo?
Olha, eu tinha uma ideia antes da leitura do seu livro, agora eu tenho um pouco mais de lucidez sobre o que anda acontecendo, mas eu não quero estragar. Eu tinha a ideia de que o tempo passava mais rápido sim, viu?
Isso, pois é. O Rafa, então, quando eu estava trabalhando na reportagem, na TV Globo, eu ouvia muitas pessoas. Quando eu estava na rua, então, cada dia numa rua, cada dia com pessoas muito diferentes umas das outras, mas Sempre alguém vinha e me questionava. Eu não tenho tempo para fazer nada. O tempo só pode estar passando mais rápido. Ah, porque eu vi uma teoria que diz que isso, que aquilo. Eu falei, opa, pera lá. Porque quando essas teorias começam a entrar, se você não chega com a informação correta, elas começam a ganhar força. Enfim, mas Eu fui buscar então a resposta para saber se o tempo estava passando mais rápido ou nós estávamos passando mais rápido pelo tempo. Então primeiro fui buscar respostas com os físicos, astrônomos e com o cosmólogo que nós temos aqui no Brasil, que inclusive é quem dirige o Museu do Amanhã. Então todos eles me disseram o seguinte, gente, o tempo da natureza Isso não é spoiler, isso não vai inviabilizar a leitura do livro, tá? Mas o tempo da natureza, ele continua igual. Então, o sol não está nascendo se pondo mais rápido, as fases da lua não estão mais rápidas, as estações do ano não estão encurtando. O que está acontecendo é que neste tempo mecânico, que nós colocamos neste relógio e em quadradinhos de calendário, aqui ó, Este tempo que foi construído ao longo do tempo, inclusive a história dos calendários e do relógio, essa história já dá outro livro, mas este tempo de 24 horas que foi criado por muitas pessoas que foram cada um buscando seus interesses, nós é que estamos colocando mais coisa nesse tempo. Então veja, Físicos, astrônomos, confirmam. Nada está acontecendo com o tempo da natureza. Nós é que não estamos percebendo o tempo passar. Nós é que não estamos lembrando, inclusive, de observar este tempo natural. Porque a gente não sai das telas. A gente está de tela em tela. A gente está de um compromisso a compromisso, né, Rafa? Então, se eu te perguntar assim, Rafael, nós estamos em que mês do ano? Você vai me dizer?
9.
Hoje é que dia? Terça. Que fase da lua nós estamos? Quando vira inverno pra primavera? Tudo isso é tempo, não é? Você combinou comigo, vou entrar três minutos antes das seis. Teremos uma hora de live. Quantas horas você está dormindo? Em quanto tempo você se alimenta? Há quanto tempo você não tira férias? Ou seja, Rafa, a gente tá falando de tempo o tempo inteiro. E esse nosso tempo é finito. Dentro de um tempo que é infinito. Portanto, com o tempo da natureza nada está acontecendo. Lembrando que este relógio de ponteiros já foi uma ampulheta. E essas 24 horas foram de uma forma artificial colocadas para nós. E aí no livro, Rafa, eu trago a evolução da comunicação dos transportes. Essas transformações explicam muito das razões de como estamos. Então essas evoluções explicam porque estamos como estamos. É evidente que quando o mundo circulava, quando as informações circulavam pela velocidade das pernas de um cavalo, a informação corria a uma velocidade. Depois veio o trem a vapor. Depois vieram outras formas de transporte muito mais velozes. Então, uma informação que antes poderia demorar seis meses para chegar até nós aqui no Brasil, hoje chega no mesmo instante. Então, nós saímos de um tempo que durava meses, um tempo de informação, para um tempo instantâneo. E se eu pegar a palavra instantânea, na hora me vem a palavra miojo. Vivemos num mundo miojo. Eu posso fazer uma massa artesanal, cozinhar por um tempo, ou eu posso pegar um saquinho e em três minutos eu estou alimentada. Percebe? Então é evidente que nós estamos passando mais rápido pelo tempo, porque estamos querendo colocar cada vez mais coisas dentro dessa agenda. E aí o dia vai parecer insuficiente. Isso às vezes é muito contraditório também, já vou passar a palavra pra você, porque tem momentos da semana em que esses momentos voam, outros param. Então a gente vive momentos de sensações, de percepções de tempo voando ou tempo parando o tempo inteiro. Vai depender de como você lida com a sua agenda. Não são todas as pessoas que sentem que o próprio tempo está acelerando. Mas aí depois, se você quiser, eu falo sobre isso.
Perfeita elucidação. Eu gostaria de entrar num tocante, que você menciona isso, menciona no livro, viver em um mundo digital com o cérebro analógico. Você agora há pouco mencionou isso novamente. Eu gostaria de te perguntar, Isabela, como se dá esse descompasso? Porque muitas vezes nós não estamos observando esse encaminhamento e a gente também começa a padecer de alguma maneira com essas demandas, com esses multistímulos e de alguma maneira o nosso corpo tem uma estrutura, ele tem um eixo, ele é uma forma orgânica. Como se dá isso na contemporaneidade, esse descompasso? Onde que isso pega? Onde está o problema em não entender isso, Isabela?
Nossa, pergunta fantástica, Rafa. Em algum momento da história, eu não consegui chegar nesse momento, alguém da medicina separou o cérebro do corpo. Então, quando a gente fala saúde física e saúde mental, parece que estamos falando com partes que não se comunicam.
Certo?
Então vou por partes, inclusive. Se no passado a força que eu mais usava no meu trabalho era a física, é evidente que os movimentos repetitivos causavam consequências físicas. E quando você está com o seu corpo cansado, você pega, deita e doar. Certo? Então, se você faz um movimento repetitivo, por longos períodos, aquilo vai te causar uma necessidade de pausa, que você vai na hora, você vai parar. Então se você caminha demais, você vai, quando suas pernas começarem a doer, você vai parar. Já que quando o cérebro está em exaustão, nós dificilmente sentimos essa dor na perna. A dor cerebral, ela se manifesta por todo o corpo. Então vem um enjoo, vem uma tontura, vem uma dor de estômago, vem um processo de inchaço nas pernas, tudo isso é o seu cérebro querendo dizer, para um pouquinho, a gente precisa descansar um pouquinho. Então, como nós estamos lidando com muitas máquinas, Rafa, a gente tem realmente uma percepção muito ingênua de que nós também poderemos nos recarregar como um celular em algumas horas de bateria, ou que nós não precisamos descansar. Então, eu trabalho muito no livro esse conceito da pausa voluntária para evitar uma pausa involuntária. Eu preciso parar um pouquinho para poder continuar. Eu preciso fazer um pouquinho de nada para conseguir fazer tudo o que eu quero. Então perceba, quando você me pergunta qual é a relação dos novos tempos com o nosso cérebro, é que agora nós não estamos mais usando a força física, estamos usando a força intelectual. É evidente. E que se eu não parar para pensar um pouquinho, Rafa, que o nosso cérebro ainda é aquele do tempo das cavernas, por pequenos ajustes que já houve, mas ele ainda é o cérebro das cavernas. A medicina ainda é muito jovem diante de todo o nosso tempo. Então, eu preciso olhar para o meu cérebro, eu preciso olhar para o meu tempo, para a minha respiração com mais humildade e com mais consciência que, se eu não fizer as pausas necessárias, eu vou ter que fazer pausas violentas ou involuntárias. Você quer ver um exemplo comparado à máquina? Se o nosso computador começa a ficar mais lento, o que a gente faz? Não manda ele para o concerto? Não manda ele para uma revisão? Então, por que se o meu cérebro está me enviando uma informação e pedindo para um pouquinho? Chegamos no nosso limite hoje. Por que eu tenho essa ilusão que eu não preciso me dar um tempo? Eu faço muitas comparações com a velocidade nas autostradas, o painel do carro, tem milhares de exemplos aqui pra tentar compartilhar com vocês com muita humildade que nós temos vários exemplos ao nosso redor que precisamos nos colocar na agenda, precisamos observar para todos os sinais que o nosso corpo está enviando. E se eu negligenciar esses sinais, pronto, vai dar ruim lá na frente, viu, Rafa? Então é como o painel do carro que está acendendo uma luzinha e você ignora. Até que uma hora o carro vai parar e você vai dizer, mas como assim esse carro parou? Mas ele estava te avisando. Então nós precisamos dar as condições necessárias para o nosso cérebro funcionar nos tempos de hoje com tempo de qualidade. E aí Rafa, já passo a palavra pra você. Eu entrevistei alguns neurocientistas. Inclusive, um deles, o doutor Fulvio Scorza, da Unifesp, ele diz, o cérebro precisa, Rafa, de duas coisas pra funcionar bem. Ele precisa de outras coisas pra funcionar muito bem, mas pra funcionar bem a gente precisa de oxigênio e glicose. Então, como nós estamos respirando, se estamos correndo de tela em tela, de compromisso a compromisso? Nossa respiração está curta? Se eu estou respirando mal, eu estou pensando mal. Se eu estou desembalando mais e descascando menos, eu estou me alimentando pior do que eu deveria. Se eu não dou tempo para as refeições, se eu estou comendo em cima da mesa ou cada vez correndo mais, Eu também não estou oferecendo para o meu organismo inteiro condições para funcionar bem. Você entende, Rafa, como um assunto vai puxando o outro, porque é infinito. Falar de tempo, por mais que pareça subjetivo, eu gosto muito de falar isso. Porque às vezes eu começo a falar, as pessoas olham assim, lá vem aquele papo. Mas, gente, a gente fala de tempo o tempo inteiro, mas dificilmente para para pensar nele. E eu coloco nesse livro, inclusive, Rafa, coisas muito práticas. Tem teoria do buraco da minhoca? Não. São coisas muito práticas, então eu brinco, né? É o que tá aqui nos ponteiros, é o que tá aqui nos quadradinhos, são os exames médicos, enfim, tudo o que a gente acaba ignorando, mas que faz parte das nossas 24 horas.
Sim, sim. De fato, é muito esclarecedor fazer essa reflexão, mas no automatismo e nesse processo de robotização a gente acaba esquecendo. Mas para entrar um pouco nisso que você comentou, Isabela, eu gostaria que você falasse um pouco de algo que eu achei formidável, compartilhei enquanto lia também, e uma interlocutora minha, minha companheira, ficou assim fascinada com essa concepção, que é a demanda dos contratos de tempo não assinados. e como isso gera um desdobramento de estafa profundo e que muitas vezes nós não temos um tato para compreender isso. E também, juntamente com os contratos de tempo não assinados, eu gostaria que você desdobrasse um pouco sobre as problemáticas de adoecimento, partindo desse pressuposto do que está multitarefado, daquilo que está sobrecarregando a nossa psique, somatizando esses problemas conosco. Você pode fazer uma explanação sobre isso, Isabela, por gentileza?
Posso sim. Quanto tempo nós temos?
Nós temos 40 minutos, mas você... Para explicar, você pode fazer uma boa síntese para a gente.
Perfeito. Aliás, todos gostamos de um bom resumo, né gente? É o que a gente está tentando aqui. Rafa, primeiro a gente precisa entender o zeitgeist deste nosso tempo. Zeitgeist é uma palavra em alemão e que significa espírito do tempo. O espírito deste nosso tempo é totalmente diferente do espírito do tempo anterior. Qual tempo anterior? Todos. Todos os períodos da história tiveram seus zeitgeists. Zeitgeist é um conjunto de crenças, culturas e uma macro tendência. Nessa nossa macro tendência atual, nós temos o algoritmo, nós temos a internet, nós temos o excesso de acessos. E se eu não tiver autocontrole, se eu não souber filtrar estes acessos, eu posso cometer equívocos. Uma boa comparação, Rafa, é em relação à alimentação. Se eu comer todo o hambúrguer disponível no mundo, não vai adiantar depois ocupar que o hambúrguer engorda? Quem controla a ingestão do hambúrguer sou eu. Então, se eu não controlar esse dedinho nervoso que fica em feeds infinitos, e de tela em tela, se eu não souber o que eu vou consumir de informação neste excesso de acessos, eu estou sobrecarregando essa máquina. Então, nós estamos entre o sutil e o denso o tempo inteiro. Se eu não observar esse zeitgeist, se eu não aceitar que o passado é passado e que não adianta ficar com aquele rose view. Você lembra do filme Meia Noite em Paris, que o escritor vai pra Paris, aí quando ele volta no tempo achando que naquele tempo era melhor, ele reencontra outros autores que também queriam viver em outros tempos. Ou seja, a gente tem, infelizmente, e aí os médicos explicam isso no livro, uma ilusão também que o passado era melhor que o presente. Mas a própria história mostra que nós estamos apenas vivendo mais uma mudança. E essa, ela não vem com a velocidade das pernas de um cavalo. Ela vem com a velocidade do satélite. Inclusive é que é a que permite nós estarmos aqui para todo o Brasil. Se vocês me permitirem, eu deixo essa live salva inclusive no YouTube. E aí nós estamos criando sabe o que, Rafa? Uma marca no tempo, uma pegada digital. Então aquelas pessoas que procurariam um conteúdo, que vão procurar um conteúdo no futuro, elas podem encontrar aqui na live Martins Fontes, dia 8 de setembro, 6 e 22 esse conteúdo. Percebe como esse Zeitgeist é totalmente diferente? Então, nesse excesso de acessos, nesse excesso de informação, nesse nosso desejo de consumir tudo, inclusive o Frei Beto menciona uma palavra que sempre provoca uns cinco pontos, uns cinco graus na escala Richter do terremoto, que é a ganância. Nós temos sim uma certa ganância de fazer tudo, ler tudo, estar por dentro de tudo. Então é nessa vontade, é nessa ilusão que poderemos fazer tudo isso sem nenhuma consequência e vamos então sobrecarregando o nosso tempo. Então eu vou só fazer aqui, dar um passinho para trás. Para quem pensa que o tempo está passando mais rápido, eu recomendo que vocês coloquem o meu tempo está passando muito rápido. Porque o tema da natureza nós já sabemos que está na média igual. Então é muito importante a gente trazer essas partes agora para responder sua pergunta sobre os contratos de tempo. Existem alguns contratos de tempo que são sociais, que servem para todos. Por exemplo, se a aula está marcada para começar às 7 da noite e o professor se atrasa e chega às 7h15, ele está descumprindo um contrato social. Ele está descumprindo um contrato de tempo. Quem assinou esse contrato? Diretamente ninguém, mas indiretamente todos nós. Essa é a hora combinada da escola. Se o banco está programado para fechar às 4 da tarde, eu chego lá 10 para as 4, a porta está fechada, o banco está descumprindo um contrato, percebe? Bom, isso é um contrato geral. Agora, se eu te mando uma mensagem, Rafa, E eu, cinco minutos depois, te cobro uma resposta, eu estou fazendo você cumprir um contrato que você não assinou. Percebe? Então hoje, muitas amizades, muitos relacionamentos profissionais, inclusive, passam por esses contratos que nós não assinamos, mas somos cobrados frequentemente. Então, nesse zeitgeist, é por isso que eu proponho como encontrar limite em um non-ser limites, porque vivemos em uma cultura em que a objetividade também não é bem-vinda Não é? Então, se você disser não posso responder hoje ou não responder, você já vai provavelmente pensar, vai ficar, vai rolar um melindre se você não souber colocar os seus limites. Então, o que eu gosto muito de dizer, Rafa, é que tudo com delicadeza, tudo com elegância, porque assim como eu e você, Rafa, podemos viver todas essas situações, nós também podemos cobrar ou podemos estar cobrando alguém pela mesma coisa. Porque tá muito automático. Porque como agora é instantâneo, eu tenho a ilusão que a pessoa do outro lado da tela está esperando a minha mensagem. Ou do e-mail está esperando a minha mensagem. Eu vivi nesses quatro anos, Rafa, de pesquisa. Eu entrevistei 150 pessoas. Duas delas me chamaram demais a atenção. Uma foi o Frei Beto. Quando eu mandei o e-mail pra ele, dizia assim a resposta, Rafa, obrigada pela mensagem, responderei assim que for possível. Não pense que estou do outro lado da tela para responder a sua mensagem, prezo por outros a fazê-las. No primeiro momento, você pega essa informação, você fala, nossa, que indelicadeza, mas não, ele está dizendo, eu não estou diante do computador, então não espere essa resposta para ontem, certo? E o Ricardo Morim também. Isso não é fofoca, tá, gente? Isso é um fato. Se você mandar uma mensagem para o Ricardo Morim hoje por e-mail, ele vai dizer, olha, convites para tal, tal, tal coisa, até novembro eu não posso considerar. Minha agenda já está cheia. Então, o que ele está fazendo? Ele está colocando limite em um mundo sem limites. Portanto, isso é um contrato de tempo. Se você não estabelecer as suas regras, alguém vai estabelecer por você e você vai ser cobrado e você vai ficar com essa aflição para dar conta dessa agenda que você não pediu. Faz sentido, Rafa?
Muito sentido, muito sentido. E é de uma maneira muito, parece que orgânica, muito natural a gente cair nisso sem perceber. A gente já está cansado, já está envolto em tudo isso e não sabe nem mesmo o porquê. Diante dessas multinuâncias, dessas demandas imensas em um período em que vivemos também. Eu gostaria que você falasse para a gente um pouco da famigerada premissa do tempo é dinheiro. Você falou um pouco da ganância no sentido de poder fazer tudo, sentir que pode aproveitar tudo. ler um livro ao mesmo tempo que escuta uma música, conversa com um amigo, vai tatear o celular, enfim. E nesse aspecto propriamente da vida de trabalho, o tempo é dinheiro, em qual instância isso pode ser prejudicial? Onde a gente pode perder a mão com essa ideia? Qual é a grande questão que está nessa frase? tão disseminada, né Isabela?
Esse aforismo que nos persegue. Gente, é muito bom conversar com uma pessoa inteligente assim, que sabe fazer uma pergunta boa dessa. Rafa, você falou exatamente a ilusão que nos faz acreditar que tempo é dinheiro o tempo inteiro. Então, essa ilusão de ser multitarefa também alimenta um outro raciocínio em que eu Se eu fizer uma coisa só, estou perdendo tempo, e se eu não fizer nada, meu Deus do céu, estou perdendo tempo e dinheiro. Então vamos por partes. Essa frase, vamos entender o contexto. Tempo é dinheiro, esse aforismo foi dito por Benjamin Franklin lá no século 18. Revolução industrial bombando. Os artesãos estavam trabalhando nas linhas de produção. Os donos das fábricas não eram só donos das fábricas, eles eram os donos do tempo daqueles trabalhadores. A história mostra, Rafa, relógios gigantescos na parede, porque nem todos tinham esse relógio mecânico aqui que hoje você compra por um real. Relógio, ele começou, inclusive eu trago essa história no livro, assim como os livros também, eles eram restritos a minúsculos grupos de eruditos, no caso o relógio só para famílias muito ricas, então com o tempo o relógio começou a ficar mais popular, mas lá na época da Revolução Industrial os donos das fábricas também eram donos do tempo dos trabalhadores e essa frase foi dita num contexto em que o Benjamin estava dizendo para o comerciante, cuidado que tempo é dinheiro, se você não souber usar o seu tempo você vai perder, grosso modo é isso.
E.
Aí a gente veio alimentando esse aforismo. Aforismo, gente, é uma frase pequena que explica muita coisa. E não para pra pensar. Então, tempo é dinheiro? Sim, mas nem todo tempo é dinheiro. A sabedoria é quando a gente consegue identificar quando o nosso tempo é dinheiro. Aí a gente entra numa outra linha que é o ócio, que é o tempo livre. Domenico Di Masi, o famoso sociólogo italiano, ele tentou devolver a dignidade para o ócio décadas passadas. E até hoje tem gente que acha que o ócio é uma bobagem. E até hoje pessoas evitam o tempo livre com medo do julgamento alheio que pode ser assim nesse sentido. Que preguiçoso. de pessoa vagal que não sei o que, porque parece que se você não estiver fazendo nada, você está cometendo um crime Percebe como isso volta lá pro início da nossa conversa? Como essa necessidade de preencher não só a agenda, mas o tempo inteiro vai ter consequências. Então vamos lá. A Cris Junqueira, que é a cofundadora do Nubank, ela participa do livro e ela inclusive diz, para mim tempo é dinheiro, mas ela está dizendo nisso, ela está colocando essa frase no contexto em que ela tenta passar para os funcionários do banco o seguinte Você quer fazer uma reunião? Seja objetivo, porque é o seu tempo, mas das pessoas da reunião E esse tempo pode estar sendo utilizado para outra coisa Então veja, se eu estou no meu trabalho, sim, aquele tempo significa dinheiro Porque eu estou trocando as minhas horas de vida por um salário Aí vai ser burrice minha se eu estiver fazendo essa troca e lá no meu emprego observando o movimento das nuvens. Agora, eu acabei o meu trabalho, eu estou com, agora, eu passei da catraca, vamos dizer, eu dei o desligar aqui no computador. Este tempo que eu teria livre, se eu também utilizar esse tempo para trabalhar mais, Se eu encher esse tempo com mais tarefas, Rafa, esse é o problema. É quando nós queremos transformar todo o tempo em dinheiro. O problema é quando você quer maximizar a agenda, subtraindo as horas de sono, achando que com isso você vai ser mais produtivo e que com isso você vai ser mais genial e tudo mais, percebe? Então uma frase a gente pode ir para vários caminhos, mas Com a história do multitarefa, como você falou, aquela cena da pessoa com o telefone aqui, escrevendo, observando e tal, os especialistas já explicam que essa é uma ilusão tremenda. Por quê? Eu posso fazer duas atividades ao mesmo tempo. Uma manual, tô lavando a louça e tô te ouvindo na live lá com o Christian Dunk. Maravilhosa. Isso eu posso. Agora, prestar atenção na live de vocês e em outro conteúdo que me exija concentração e raciocínio é uma grande ilusão. Por quê? Na prática eu fico alternando a atenção e vou pegando frames de palavras que o meu repertório já conhece. Percebe? Então aí você tem a impressão que você falou assim, nossa, eu tava ouvindo lá o Rafael falando com o Christian e aí eles disseram tal coisa e ao mesmo tempo eu tava vendo aqui. Isso é uma grande ilusão. Isso é perda de tempo. Porque se você quiser se aprofundar no seu raciocínio a partir do que você ouviu daqueles dois conteúdos que te exigiu a parte cognitiva, você vai ter que voltar pra um deles. Olha, então eu perco o tempo na ilusão que eu estou fazendo duas coisas ao mesmo tempo. Isso não é Isabela que está falando, isso são os especialistas que me disseram e eu coloquei em prática. Realmente, é só perceber. Então, se eu vivo num mundo, Rafa, que alimenta essa crença, eu preciso fazer várias coisas ao mesmo tempo. Se este aparelho maravilhoso que está permitindo que a gente esteja aqui também pode ser o veneno, a diferença entre o remédio venenoso, ou seja, o chocolate, por exemplo, que te acalma também é o que te vicia. E assim a gente entraria até no vício da internet. Então eu preciso Primeiro, me conhecer e fazer boas escolhas. Se nós tivéssemos cinco segundos, Rafa, eu falaria se conhecer, fazer boas escolhas e dormir. Pronto. Acabou a live. Obrigada. Entende? As respostas simples são as que mais incomodam. E quando nós falamos sobre multitarefa, é uma ilusão, você vai perder tempo. Eu sei que as meninas sempre ficam bravas quando eu falo isso, mas Sim, nós mulheres temos uma habilidade de fazer coisas manuais e cognitivas ao mesmo tempo. A história já mostrou isso, nem vou perder tempo dizendo com isso. Os homens, alguns desenvolveram essa habilidade, outros não, e tá tudo certo. Percebe? Mas, no geral, fazer duas coisas cognitivas ou duas coisas manuais ao mesmo tempo é perda de tempo. Então, vamos lá. Se eu venho com esta ilusão, Se eu estou com uma overdose de informação, se eu ainda não me dei conta que o filtro é meu, que a curadoria é minha, eu vou entrar então naqueles caminhos em que lá na frente eu vou me sentir usada pela internet, que a internet é vilã e tudo mais, e não é. Então, resumindo tudo que você me perguntou, tempo é dinheiro? Depende da hora. Eu vou ter que também identificar quando o tempo não é dinheiro para que eu use esse tempo livre Não é livre com o telefonezinho aqui não, tá gente? É livre Nossa, mas pra que Isabela? A gente desaprendeu, né? A não fazer nada A gente tá muito intolerante, sabe Rafa, ao silêncio A gente tá intolerante à demora, a gente tá intolerante a tudo o que deveria ser necessário para a gente manter o nosso ritmo equilibrado. Percebe? Então, tudo é imediato, ou tudo é para ontem, mas nem tudo é urgente. Na verdade, nada é urgente, porque é nessa ilusão, ou delusão, como a monja Coen disse no livro, delusão é quando a gente acredita em algo que é ilusão. É como eu olhar um recorte na internet e acreditar que aquela foto, aquela pessoa é daquele jeito mesmo. Eu já sei que aquilo é um filtro. Isso é perda de tempo. Então, eu posso continuar nesse caminho perdendo tempo com tudo isso. Ou, como a gente está propondo aqui, parar um pouquinho, fazer uma pausa voluntária para evitar uma pausa involuntária. Eu preciso fazer um pouquinho de nada para conseguir fazer tudo. E por isso que espaços como esse, como o que você está proporcionando pra mim, ele é fundamental para que as pessoas tenham consciência que mesmo numa estrada de alta velocidade tem radar e eu preciso frear. Por quê? Então é muito curioso eu falar assim pra você, nós precisamos desacelerar nesse mundo express. Aliás, esse vai ser até o tema, é um dos conteúdos do TED, que vai acontecer o TEDx em dezembro. Como desacelerar nesse mundo express? Eu não estou pedindo pra ninguém parar. Agora parou, pronto, para tudo.
Não.
É só pegar o exemplo da estrada. Se eu estou numa estrada de alta velocidade, 120 Km por hora, eu preciso parar em alguns momentos pra poder continuar. Por que essa estrada tem limite? Porque se eu ultrapassar o limite, eu me coloco em risco e coloco outras pessoas em risco.
Perfeito. Muita lucidez na reflexão, muita lucidez. Quando você comentou da Monja Koi, ficou uma reflexão na minha leitura que eu gostei demais, que inclusive é exemplificado, se eu não me engano, é com Candy Crush. Quando você simplesmente vai passar o tempo Você precisa passar o tempo, então você passa algumas horas ali naquele jogo e que sentido faz naquele período em que você está ali de você vivenciar o tempo? E nesse diálogo é interessante porque a gente muitas vezes não está conseguindo ter uma noção epistêmica da situação. A gente está passando pelo tempo talvez acreditando que esteja vivendo. E muitas vezes, quando a gente vai se deparar com isso, Isabela, a gente já está algumas horas na frente do Android, tem o sentimento de culpa, o quanto eu poderia ter lido, o quanto eu poderia ter feito, e eu vejo inúmeras pessoas com essa culpa. E o tempo, por conta de ser multi... As percepções são muito distintas. Muita coisa. E parece que tudo também tem uma questão do pouco aprofundamento. A gente está muito conectado e talvez pela multiplicidade de contatos, de coisas, a gente não se aprofunde em absolutamente nada. Então, a gente cai também num paradoxo. E o seu livro traz um suporte para compreender isso. Acho que é fundamental para a leitura, mas eu queria que você falasse, na verdade, sobre o descompasso em que nós entramos no período do isolamento social. Esse é um tema muito interessante e que muitas pessoas se depararam com o contrário de suas expectativas. Preciso ter tempo, preciso ter tempo, preciso ter tempo. Preciso ter tempo com a minha família, preciso ter um tempo para pensar sobre a minha vida. E diante dessa pausa involuntária também, de uma conjuntura social, as pessoas se depararam com algo desconhecido, que é o si mesmo.
Isso.
Como funcionou isso para você? Isabela, o que o seu livro traz de contribuição para que a gente compreenda como lidar com essa... Aqui também é um conceito que eu gostei muito, que você coloca, que é sobre a identidade. Você quer atualizar a identidade?
Atualização de identidade.
Atualização de identidade. Conte para a gente como lidar nesse momento de isolamento social e sobre a atualização de identidade, o quão é importante.
Você vê, né, Rafa? Eu começo o livro provocando, trazendo o passado para a gente compreender o presente. É fundamental a gente dar uma olhadinha no retrovisor para poder olhar para o para-brisa. É por isso que o retrovisor é bem menor do que o para-brisa, porque você também não pode ficar muito tempo parado no passado, mas ele serve de referência, é muito importante. Em relação à pandemia, muitos reclamaram daquilo que sempre pediram. Muitos reclamaram daquilo que sempre pediram. Quem pediu o que, Isabela? Numa segunda-feira, muitas pessoas pediam mais tempo em casa, mais tempo com a família, menos tempo no trânsito. Mas aí, quando não gastaram mais esse tempo no trânsito e ficaram mais tempo com a família, ué, mas marido, esposa, que família é essa? Não existia mais tanta convivência. Aliás, muitas famílias conviviam aos finais de semana e nas férias. O que, de novo, deixa todo mundo aqui no raso. Então todos vivemos num oceano de conhecimento com um dedo de profundidade. Todo mundo sabe um pouquinho de tudo, mas no fundo não sabe nada. por falta dessa pausa, dessa consciência, e que eu proponho, inclusive, algumas pessoas me perguntam, mas quanto tempo de pausa? Eu não tenho tempo. Eu falei, bom, um minuto, dentro de 24 horas, acho que é razoável, né? Começando por um minuto. E começando por um minuto, Rafa, eu já vou chegar em tonalização de identidade fazendo o que? Inspirando. Aliás, eu esqueci de pedir pro pessoal quando estava chegando pra fazer uma inspiração profunda. Eu recomendo então que agora todos só respirem profundamente, pensem na respiração. O intervalo entre a inspiração e a expiração, Rafa, é o que eu chamo de tempo. Porque quando a gente inspirar e não expirar mais, significa morte. Então eu só tenderei a ter um tempo de qualidade se eu conseguir aceitar para ter humildade que sim, a respiração é quem vai dar o meu ritmo. Então eu posso estar vivendo num mundo express, só que se eu tiver pelo menos consciência do que eu posso fazer com a minha respiração, eu vou ter o meu próprio ritmo. É por isso que pessoas que vivem em grandes cidades, algumas conseguem ter um ritmo mais orgânico, mais coerente com o ritmo biológico. E é por isso também que muitas pessoas que vivem em cidades pequenas, mas se estiverem hiperconectadas, estarão num ritmo absolutamente diferente. Então eu posso equilibrar o meu estado interno, eu posso manter o meu ritmo saudável, eu posso ter o meu tempo de qualidade mesmo vivendo num fuzuê, por exemplo, como São Paulo. Você está sempre correndo contra o tempo. Quem já não falou isso? Quem corre contra o tempo, na verdade, está correndo contra a própria agenda Pronto, falei. Dói, tá? Eu sei que dói, mas é só assim que a gente acorda, Rafa Quem corre contra o tempo está correndo com a própria agenda, está correndo com os prazos Ai, mas Isabela, como você é rude, nem sempre os prazos foram determinados por mim Mas então, eu tendo um prazo de fora, o que eu vou poder organizar dentro? Pra não também sobrecarregar essa agenda. Aí entra o limite nesse mundo sem limites. A gente quer dizer sim pra tudo. A gente tem muito medo das consequências do não. E aí, é um papo com a outra live, tá, Rafa? Mas aí, todo esse caminho que eu traço, do passado pro presente, é pra gente fazer a atualização de identidade. Por que será Rafael? todos que estão aqui conosco. Que a gente precisa atualizar o documento de identidade, de períodos em períodos, carteira de um motorista. Será que a gente só muda fora? Ou a gente muda dentro? Então, nós também mudamos dentro. As nossas células mudam, o nosso paladar muda, o nosso cheiro muda, a textura do nosso cabelo muda Será que é só isso que muda? As minhas ideias também mudam, as minhas preferências mudam, as minhas amizades mudam E Rafael, se eu não parar para atualizar tudo isso, eu posso estar vivendo num tempo absolutamente equivocado, perdendo muito tempo com o que não mais faz sentido Aí você vê o apego das pessoas a outras pessoas, amizades que não combinam mais com esta identidade que você tem. Você continua fazendo coisas que você nem gosta mais. Mas aí, não, mas eu sempre fiz isso no passado? Sim, no passado. Ninguém é o passado. Tá certo? Então é nessa atualização de identidade que eu preciso rever quem eu sou hoje. Isso vai passar primeiro. Onde eu estou? São Paulo. Que estação é? Inverno. Ah, mas tá calor. Ah, sim, porque se eu me aproximo da primavera os dias são mais quentes, entende? Ah, quantas horas eu preciso dormir? Ah, hoje eu preciso dormir 8 horas para estar funcionando muito bem no dia seguinte. Ah, mas no passado eu dormia 5 horas e tava ótima. Sim, no passado eu tinha 20 anos. Isso é, assim, a coisa mais chocante da atualização de identidade. É quando você se dá conta que você está se esforçando, colocando a máquina para rodar numa velocidade insustentável, hoje, considerando as suas características do passado, Rafa. Então, eu preciso hoje reconhecer quais são as coisas essenciais da minha agenda. Eu, Isabela, hoje, Aprendi que minhas horas de sono, Rafa, são as coisas mais importantes da minha vida Eu viro uma onça quando o meu marido, o Thiago, dói Ele quer assistir uma série ou tem alguma festa e a gente acaba ficando até mais tarde Porque eu sei o custo disso pra mim no dia seguinte Eventualmente, uma coisa ou outra, tudo bem Mas quando a exceção vira rotina, é aí que está o grande perigo Quando a gente trata como normal o que é anormal também é outro perigo. Então é na atualização de identidade que eu vou conseguir planejar um futuro desejável e coerente, Rafa. Certo Agostinho, eu trago no livro, ele foi um grande estudioso de séculos atrás dizendo que o correto da gente chamar presente do presente, presente do passado e presente do futuro Porque eu te pergunto, Rafael, aonde estão passado e futuro? Estão no presente. Eu só consigo lembrar do passado agora. Eu só consigo pensar no futuro agora. Pra quem tá entrando aqui na live, já já vai acabar e pode ser que pegou só esse pedaço e fala, nossa, que papo maluco. Não. A gente tá o tempo inteiro ou lembrando, de algo do passado, ou lembrando de algo que eu tenho que fazer no futuro e planejando, ou sofrendo pra frente, ou sofrendo pra trás, ou seja, dificilmente você tem consciência das consequências dos seus atos hoje. E Rafa, pra encerrar essa parte, muitas pessoas só querem um futuro desejável, né? Nossa, eu quero um futuro assim, eu quero uma aposentadoria assado, e aí eu provoco. Qual passado você quer ter? Você quer se orgulhar do seu passado também? Então eu só terei, olha a linguagem, eu só terei um passado que eu me orgulhe em um futuro desejável se eu tiver consciência das consequências do que eu faço agora. E pra isso eu preciso fazer atualização de identidade, Rafa. Senão eu vou perder tempo precioso querendo fazer as coisas hoje com uma saúde, com uma condição do passado. Faz sentido?
Totalmente, totalmente.
Falam muito, né?
Muitos falam muito, na verdade. Amplia muita coisa, né? Qual será o passado que você vai desejar? Isso é incrível, né? É uma sacada, assim, incrível. Agora, é interessante isso e a gente tem aqui oito minutos de live. Infelizmente, o tempo... Marcaremos outras. Muito rico esse diálogo, muito interessante, mas eu não gostaria que findasse essa nossa conversa, Isabela. Porque, inclusive, é um capítulo que eu gostei muito, que você vai desdobrando a música, sobretudo, mas pensando a arte como instrumento do tempo. E eu gostei demais, porque há uma estigmatização da arte, do ócio criativo, do que é contemplar uma obra de arte. Muitas vezes é colocado como algo risível, desnecessário, uma reflexão à poesia, à própria pintura de um quadro. Enfim, nas demandas do capitalismo, isso vai ficando cada vez mais estigmatizado.
Gostaria que você falasse sobre isso.
É muito difícil de lidar por vezes, até porque a gente acaba se culpando, talvez, por ter um debruçamento estético, uma questão sobre o sublime, enfim. Eu gostaria que você falasse para a gente o quão preponderante é para uma vida salutar a arte, a música, e como se dá isso de uma maneira mais do que subjetiva, mas para a saúde mesmo do corpo, para a saúde da vida. Como é preponderante, Isabela, por gentileza?
O Rafa, é muito curioso quando você me pergunta isso porque, como eu disse, nós estamos desaprendendo a contemplar. Nós estamos intolerantes ao silêncio, à pausa, à demora, esquecendo que antes uma carta demorava meses e hoje eu não tenho paciência para o download de um documento. Então a gente vai se cobrando e se colocando mais numa velocidade que vai também nos distanciando da arte, que vai nos distanciando do natural, que vai nos distanciando de nós mesmos. Então estamos iludidos, indo de tela em tela, um oceano de conhecimento com o dedo de profundidade, e parece que se eu investir o meu tempo numa livraria, eu estou perdendo tempo. E eu digo que é absolutamente o contrário. Percebe? Então eu preciso, nessa atualização de identidade, reconhecer se tempo é dinheiro o tempo inteiro ou se eu preciso de um tempo livre para reorganizar minhas ideias, refrescar os pensamentos. E aí, Rafa, a gente tá falando de uma coisa que é muito individual. Porque uns olham para um jardim e se admiram. Uns olham para uma livraria como a Martins Fontes e ficam excitados. Outros não. Outros passam por um jardim e não percebem a beleza dele. Então, veja, a gente acabou nem entrando muito em relação ao isolamento, mas nesta parada involuntária, alguns despertaram, outros não. Alguns ficaram ansiosos, outros não. Alguns admiram a Mona Lisa no Louvre, outros não. Percebe? Então, o que nos torna iguais são as nossas diferenças. E aí o que eu vejo como um grande ganho de tempo, Rafa, é a gente realmente estar com os afins e não perder mais tempo com aquelas pessoas que não estão mais na mesma vibe. E a música, por exemplo, é um grande exemplo disso. Você falou agora há pouco, aí vai tocar Epitáfio. Devia ter feito mais, trabalhado menos, blá, blá, blá. Eu posso escolher qual é a minha música. Lenine canta a paciência. Precisamos de calma na alma. Então qual é a música que eu quero que seja o instrumento? Qual música eu quero que marque o meu período? que marque este meu momento. Sabe, Rafa? Então, quando você olha para o seu tempo finito, dentro do tempo infinito, as coisas começam a ficar um pouquinho mais cada uma no seu lugar. O que eu já digo é que não tem nada certo nem errado, tem a sua percepção. E se o tempo parece maior ou menor, isso quem vai definir é cada um. De novo, porque o tema da natureza continua igual. Respondi pra você?
Seguramente. Mais uma vez, com muita clareza, muita inteligência. Adorei. Adorei a resposta. A gente tem agora três minutos pra afinar a live, Isabela. Muito conteúdo, um papo muito legal. Reforçar pra galera. Leia um livro, dá um tempo, como encontrar o limite em um mundo sem limites. A Isabela fez um trabalho muito especial, cuidadoso. Aqui vai versar com filosofia, ciência, espiritualidade.
O Rafa, posso te propor uma coisa?
Pois não, claro.
Quem quiser adquirir o livro digitalmente, A gente pode fazer o seguinte, até sexta-feira, por exemplo, aí na sexta-feira eu vou e coloco uma dedicatória em cada livro. O que você acha? Que aí vocês podem entregar na casa das pessoas com uma dedicatória. Sabe por quê? Porque se quem está nos acompanhando vai dedicar tempo para a leitura do livro, o mínimo que eu posso fazer é dedicar um pouco do meu tempo para colocar uma dedicatória para cada um Então quem adquirir pela livraria até sexta-feira, eu passo aí, se puder Vou de máscara, gente, pode deixar e coloco uma dedicatória. O que você acha?
Acho fantástico. A equipe aqui do marketing já mencionou que a gente acerta os detalhes depois direto E é muita gratidão, você tem uma generosidade imensa, uma boa vontade, uma inteligência que democratiza todo esse conhecimento para a gente. Isabela, profundamente grato. A Martins Fontes Paulista não tem palavras para agradecer esse momento, essa generosidade, essa bondade. Muito grato, tenha uma ótima noite. Obrigado a todos que nos acompanharam. Obrigado, Isabela.
Pelo seu tempo, pelo tempo de todos. Obrigada pela confiança e até mais.
Até mais, galera. Não deixe de fazer aquisição. Dá um tempo. Como encontrar limite em um mundo sem limites. Um abraço forte. Até mais, ver. Até a próxima live, galera.
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Depois de tantas histórias, aprendizados e pausas necessárias, o @interior_iza está de volta








