Cíntia Gonçalves é a nossa entrevistada no Unha Talks de hoje (14/03)

Publicist Cíntia Gonçalves talks about 19 years at the ad agency Almap, her path to leadership, and balancing creativity with motherhood. She shares career lessons and reflections on diversity and inclusion in a salon conversation with host and manicurists.
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Olá! No Minha Talks de hoje, nada mais nada menos que Cíntia Gonçalves.
Olá!
Tudo bem? Que bom que você aceitou o meu convite. Imagina! Olha, o que essa mulher tem para nos contar, eu tenho certeza que vai surpreender você. Cíntia, vamos explicar por que estamos Né, aqui num salão de cabeleireiro, porque eu sempre entendo que quando a gente tá fazendo a unha, tá fazendo escova, a gente solta o verbo, não é? Que esmalte você vai passar hoje? Cinza. Eu vou no mais avermelhado. Quem vai estar com a gente hoje é a Carol, que vai estar comigo, e também a Dani, que vai estar com a Cíntia. Meu respeito, admiração por todas as manicures que levantam nosso astral quando a gente consegue fazer a unha, não é? Você consegue fazer unha toda semana, ô Cíntia?
Não.
E aí, quando não consegue?
Quando não consegue é isso, passa um creminho e vai, dá uma disfarçada e vai.
Para algumas mulheres fazer a unha não é tão importante, mas para outras fazer a unha pode ser um código. Tem alguns ambientes que a gente precisa estar com a unha sempre feita?
Eu acho que sim, acho que é um código de autocuidado, né, que é uma coisa tão importante. Por um lado é você se cuidar, né? Então volta de férias, às vezes quero pintar o cabelo, no meu caso, fazer aquela faxina, fazer a unha. É um sentido de faxina mesmo, né? E também é legal no ambiente tá arrumadinha, né?
Não tem demais, sempre arrumadinha. Agora, gente, a Cintia, ela tem essa carinha de menina, não é? Ainda é uma menina, mas ela tem muita responsabilidade em muitos uma das campanhas publicitárias que nós já vimos, não é? A Cíntia é publicitária, formada em comunicação, trabalhou por 19 anos em uma das maiores agências de publicidade do Brasil, que é a Allmap. A Allmap também foi considerada por 4 vezes a melhor agência do mundo, não é? Pelo Festival de Cannes. O que isso significa na sua carreira, Cíntia? Tudo o que você desenvolveu na Allmap significa o quê? Para a mulher por trás da executiva?
Eu acho que desde pequena, eu brinco, a minha mãe dizia: "Ah, essa tia arteira", né? Porque eu adorava inventar coisas e tudo mais. Então acho que desde sempre eu sabia assim, pra mim, que eu ia trabalhar com criatividade. Então aos 23 eu vim pra São Paulo pra daí trabalhar na UAP.
Como é que foi essa chegada? Pra quem está nos assistindo, né? Como é que isso pode servir, inclusive, de inspiração para quem quer dar um passo aí na carreira?
Então, eu estava na faculdade lá em Porto Alegre e em um determinado momento da faculdade estávamos estudando cases interessantes que estavam acontecendo naquele período e aí a proposta, um dos cases propostos para estudo foi o case de reposicionamento de havaianas, né, onde saía de um chinelo por um acessório de moda, né, que aí virou, todo mundo usa, é uma marca aí que é ícone de moda hoje no Brasil e no mundo, né. E eu lembro de ter contato com esse case e pensar, poxa, eu quero conhecer quem tá por trás disso aqui. Então eu vim para, eu estava em São Paulo, tinha ficado 2 dias aqui e decidi ligar para telefonista da agência, porque eu não conhecia ninguém, e pedir a ela para me passar a diretora da área de estratégias. E eu pedi: "Olha, eu vou voltar pra Porto Alegre esse final de semana, mas eu queria muito te conhecer, conhecer a agência e tal." E aí ela falou: "Olha, acabou de desmarcar uma reunião que eu tinha hoje à tarde e eu posso te receber, vem pra cá." Uau! Eu entrei 2 da tarde na agência, saí às 6 da tarde apaixonada por tudo assim. E eu lembro de atravessar a rua, ligar pros meus pais e dizer: "Olha, eu acabei de encontrar o lugar onde eu quero trabalhar." E aí a diretora de planejamento me ligou e falou: "Cíntia, não tem uma vaga, mas eu consigo um período de experiência de 3 meses. Você topa?" Eu falei: "Claro que eu topo!" E aí foi isso que aconteceu e os 3 meses viraram aí 19 anos, quase 20.
Você na Almapa, Cíntia, você chegou, você cresceu bastante, não é? Até se tornar sócia da agência. A que você atribui isso?
Então, eu sempre acreditei que o trabalho estratégico, ele é um trabalho com pessoas e sobre pessoas, né? Então, acho que os trabalhos estratégicos mais bacanas são aqueles que trazem aquele insight que é assim, todo mundo fala: "Nossa, é isso mesmo que acontece comigo!" Os resultados que a gente tem quando a gente encontra esse "é isso mesmo", essa verdadezinha aí, eles são maravilhosos.
Do que você mais se orgulha desse período?
Acho que a relação com o meu time, né? Eu consegui construir ao longo dos anos uma relação com as pessoas que estavam comigo muito próxima, né? Eu acho que existia tanto de um lado quanto de outro, né? Porque a relação é uma via de duas mãos, é a confiança. E eu tenho muito orgulho disso porque é difícil na posição de líder você conseguir manter esses vínculos profissionais, você conseguir ouvir que tem alguma coisa que você fez que foi muito legal, mas que teve uma outra que você fez e não foi legal. Então, eu sempre me lembro um dia que eu juntei todos os meus diretores e falei assim: "Então, estamos aqui hoje para falar, o tema é: o que eu faço que atrapalha vocês?" Uau! E aí ficou aquela, eu falei: "Não, nem pensem, nós não vamos sair daqui enquanto eu não ouvir isso." E é muito engraçado que até hoje eles lembram desse dia, eu também, porque me custou horas de terapia.
Foi um dia só?
Foi não, pelo amor de Deus, foi umas duas horinhas.
Ah, não teve nenhum peteco?
Não, foi bom. Então isso é muito importante, né? Porque quando você está nessa relação de aprendizado, você aprende, o outro aprende e as descobertas acontecem, né?
Agora, pra isso, pra gente aprender, a gente tem que ter muita humildade. Você tem que querer, né, também ouvir o que eu faço e não agrada. E muitas vezes é isso que você vai ouvir que vai fazer você evoluir, crescer profissionalmente.
Com certeza, é isso que faz a diferença.
Cíntia, você que lida com estratégias, com pessoas, com ideias, de onde vêm suas inspirações? Tem que ter um ambiente, um dia, uma situação que te favoreça, uma intuição, uma ideia, ou não?
Eu acho que não. Eu acho que muitas vezes a gente tá com uma ideia que veio, a gente não sabe muito bem de onde nem muito bem pra quê. Então, naquele momento pode não fazer sentido, aí passou um tempo você fala: "Nossa, como isso tem a ver com aquilo?" Então, a criatividade é muito esse fazer conexões e conectar coisas que naturalmente muitas vezes estão em ambientes totalmente diferentes. Então, já aconteceu de eu estar com a minha filha e com isso ter uma ideia que tinha a ver com o meu trabalho, ou meu marido que trabalha no meio da música também, com arte, enfim, e aquilo ali me disparar um insight para uma estratégia. Eu acho que quanto mais você estiver aberto e disposto a viver experiências diferentes, mais fonte para criatividade você tem.
Perfeito. Quantas pessoas estavam abaixo de você quando você trabalhava na Almappi?
Quatrocentas e poucas.
Quatrocentas pessoas, né? Ou seja, um time muito expressivo. E por que eu usei no passado, né? Estava na UMAP, porque tudo isso que nós falamos até agora é para mostrar o caminho que a Cíntia percorreu até aqui e que não será o caminho que agora você passa a percorrer. Como surgiu a ideia e como você tomou a decisão de sair da UMAP e seguir o seu caminho?
Eu acho que tem todo um processo de— eu passei a minha vida inteira aqui em São Paulo dentro da UMAP, né, são 19 anos. Então eu fiquei mais tempo ao mar do que com meu marido. Chegarei lá, mas nós estamos a 13. Então é bastante tempo, né? E eu tive a oportunidade de me reinventar muito, né? Eu fui aprendendo assim com cada fase, com cada etapa, com cada desafio, e isso foi muito legal. E de um tempo para cá eu falei: nossa, agora será que não seria legal eu pensar na estratégia, no caminho da Cíntia, né? Fazer isso que eu faço para as marcas, fazer esse trabalho de desenvolvimento que eu sempre tentei fazer pela minha equipe, que tal se eu fizesse um pouquinho para mim, né? Então, isso foi um processo super bacana porque eu comecei naturalmente a abrir os olhos para outras frentes, conhecer pessoas novas, e aí isso foi me dando ideias, muitas vezes não só só dentro da caixa propaganda.
Então, pelo que você está me dizendo, a Cintia atualizou a própria identidade e viu que esse ciclo muito bom chegou ao fim. E, me permita, a gente não precisa esperar que o ciclo se encerre quando ele fica ruim. A gente pode encerrar um ciclo ainda quando ele está bom. Faz sentido?
Total!
É isso?
É isso sim, porque senão a gente— eu tive a oportunidade de acompanhar muito esses ciclos, né, de diferentes profissionais, tanto na agência quanto em clientes que eu tive contato, né. E é super interessante quando você consegue estar resolvida assim para dar um próximo passo, né.
Cíntia, tem uma filha, um marido, uma missão, e teve 400 pessoas junto com você. Como é que você fazia para dar conta de tudo isso?
Então, acho que a maternidade, ela me ajudou muito nesse sentido, do narcisismo, né? Porque eu era muito workaholic, eu posso dizer, muito focada somente no trabalho. E enfim, eu amo trabalhar, meu marido também. Então eu trabalhava de dia, trabalhava no jantar, né? E super bacana, super divertido e tudo mais. Mas eu acho que a maternidade me colocou essa questão, né? Eu falo que a maternidade é quase como uma uma lente que dá o tamanho certo às coisas. Então foi um aprendizado para mim. E aí eu decidi ser mãe assumindo para mim mesma que os pratinhos iam cair. Eu acho que isso foi, agora olhando para trás, acho que foi muito bem, uma decisão muito bem tomada. Porque a maternidade para mim ela não veio junto com a culpa. "Não veio, agora estou trabalhando, devia estar com a minha filha, agora estou com a minha filha, mas eu queria estar trabalhando." Você não viveu isso? Eu acho que em alguns momentos sim, mas eu acho que é muito menos a quantidade e muito mais a qualidade do tempo.
Quais foram as situações que você viveu que você teve que engolir seco? Sabe, o machismo, piadinhas, ou seja, você viveu algum tipo de preconceito sendo líder de uma das maiores empresas do Brasil?
Sim, claro, eu acho que isso é uma questão cultural que faz parte, né?
Ainda, né?
Ainda, ainda, mas eu me vejo como uma pessoa muito privilegiada, né? Eu nunca ia imaginar que eu cheguei aonde eu cheguei, né? Com todas as condições que eu tenho. Eu costumo dizer que a gente vive numa bolha, né? Quando a gente pensa, São Paulo, não é o país, por exemplo, e com a atividade profissional, enfim, que eu tenho e tudo mais. Então eu sinto que tem aí um privilégio, mas também tem uma responsabilidade de saber lidar com isso. Acho que algumas vezes eu lidei melhor, outras nem tanto, mas é um mundo que está se abrindo e não vai haver mais retrocesso.
Teve alguma situação que você viveu que poderia ser um problema e você transformou em oportunidade?
Teve uma, algumas, né? Mas tem uma que eu lembrei agora quando tu me perguntou. Logo que eu me tornei sócia, estava em Cannes, né, que tem o Festival de Cannes Mundial, enfim, e tinha um evento de um veículo onde todos os sócios de agências tinham sido convidados. E eu combinei, falei, vou me arrumar enquanto lá embaixo e tal, e o meu marido ia levar minha filha para o parquinho, que era em frente. E aí eu falei para ela: "Olha, a mamãe não vai com vocês no parquinho, a mamãe tem um jantar, depois a gente se encontra." E aí nisso eu estou descendo, estou falando com a secretária, ela falou: "Cíntia, não tem, tu não está na lista de convidados." "Como assim?" "Não estava na lista de convidados." "Não, vamos, vai mesmo assim, mas vamos mesmo assim." "Não, a gente dá um jeito, eu falei: "Não." Educação eu ganhei desde berço. Falei: "Não vou, não fui convidada, não vou ir." E aí eu comecei a trocar a roupa. E a minha filha tinha 3 anos. Falou: "Mamãe, por que você está indo no parquinho agora? Você não ia jantar?" E nesse momento eu olhei para ela e pensei: "Nossa, agora não faz sentido eu explicar para ela." Mas eu não quero. Ter que dar essa explicação quando ela tiver 7, 8 anos.
Sim.
Eu acho que se eu mudar a minha atitude também de ocupar esse espaço de líder, porque eu acho que muitas vezes esse espaço nunca é dado, né?
Tem que conquistar.
O cargo ele tá ali, mas ele é um título, né? Então acho que quando você se sente confortável onde você está, na posição Aí as coisas mudam um pouco.
O que você acredita, qual o maior movimento social que nós estamos vivendo? Qual a maior ruptura dessas crenças que nós já começamos e que está te inspirando inclusive a começar um novo caminho?
Eu acho que essa porta da diversidade, da inclusão, aprender com o diferente, porque a gente só aprende com o diferente, se for com a gente mesmo espelho, a gente vai ficar num ciclo ali, confortável talvez, que incomoda pouco, mas também que te leva, não ensina nada. Então eu acho que esse é um super caminho de olhar para o diferente como uma coisa positiva, de abrir as portas para o diferente, de convidar, de incluir. E isso está em tudo, né? Ele começa no gênero, mas vai para muitas outras frentes as frentes assim. E eu acho isso incrível e acho que a minha filha já vai talvez nem pensar sobre isso, espero, lá na frente, né? Então estamos nós aqui abrindo essas portinhas.
Não é? O que que você diria então, pra gente encerrar, se você tivesse um megafone para transmitir uma mensagem para meninos e meninas que não só querem dar um passo na carreira ou querem seguir essa intuição como você seguiu?
Eu acho que coragem, né? Eu acho que coragem de se abrir e ouvir você mesmo, que é isso que eu tive, é isso que eu tento ter em todos os momentos de decisões, sabe? Porque eu acho que quando você se conecta com você, você se conecta melhor com todo mundo, né, à sua volta.
Agora, para ter coragem, você tem que vencer o medo. Então, como vencer o medo? Do julgamento, do preconceito, do fracasso, do erro.
Eu acho que é essa vontade de aprender, eu acho que é a aprendizagem. E às vezes os erros, muitas vezes, ensinam mais do que os acertos. Então é se dar essa oportunidade de errar também. E tudo bem, porque com isso você vai sair diferente. E é isso que importa no fim. E nesse caminho a gente se reinventa, a gente aprende coisas novas e fica bem mais divertido.
Maravilha! Então é com essa fala de aprendizado, de humildade, que a gente encerra o nosso Unha Talks de hoje. Carol, deixa eu só mostrar aqui junto com as minhas unhas aqui com a Cíntia como ficou. Ficou bonito? Ficou bonito? Super! Cíntia, gratidão absoluta! Tchiquitiquitiqui! Com a unha, com a unha, com a unha!
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O processo de reconhecer limites, mesmo quando a vida parece exigir sempre mais.

Depois de tantas histórias, aprendizados e pausas necessárias, o @interior_iza está de volta








