Como funciona a prevenção da Síndrome de Burnout - Dra. Ana Paula Peña Dias - EP 53 - Ïnterioriza

Neurologist Dr. Ana Paula Peña Dias explains how stress damages the brain and what actually prevents burnout. She shares why managing stress protects your neurological health and what strategies work.
Chapters
E aí, como é que estão suas emoções? E agora, como é que ficam nossas emoções após a pandemia? Essa é uma pergunta que tá na capa do livro dela. Doutora Ana Paula Pena, que está aqui no Interioriza. Ana! Meu Deus do céu, que privilégio receber aqui.
Obrigada, meu amor. Obrigada pelo convite, tô muito feliz.
Eu não tenho nem palavras pra agradecer o movimento que você tá fazendo na medicina. Eu vou falar aqui com as minhas palavras, depois eu gostaria que você falasse com as suas. Dr. Ana Paula Pena é neurologista formada pela USP e por muito tempo trabalhou com o AVC. e descobri há pouco tempo, inclusive, o que te levou a se aprofundar no AVC. Tenho pra mim que as nossas experiências pessoais ou com os nossos familiares é o que nos guiam nas nossas escolhas. Então, quando você me contou que a partir da experiência familiar com AVC você foi nessa linha e agora você está dando um passo antes do AVC, que é o burnout, só confirma aquilo que eu sempre pensei, mas como eu não sou médica, né? Então, com vocês, doutora Ana Paula Pena, neurologista, que agora está trabalhando em prol da prevenção do burnout. Por que, Ana, você fez essa mudança? Isso, Isa.
Então, primeiro, é um prazer enorme estar aqui, né? Eu admiro demais o teu trabalho e a coragem que você teve de iniciar esse movimento, né, Isa, pra que as pessoas consigam identificar os sinais e sintomas do burnout pra não adoecer, pra não chegar lá. E você foi a pioneira nisso, né, ninguém falava em burnout nesse país, todo mundo ia colocando a sujeira pra debaixo do tapete. Então, eu te admiro demais, já te falei isso, e você me inspira a continuar esse movimento. Aprendo demais com você. E, realmente, você tem razão, né? Eu era uma neurologista tradicional, então eu cuidava muito de AVC, eu tive uma história bem bacana lá no ABC Paulista, de onde eu sou, onde eu... era chefe de um serviço muito grande de neurologia e lá eu implantei a linha de cuidado do AVC na minha tese de mestrado foi essa, eu sou mestre em gestão de saúde pública lá pelo sírio-libanês e Depois, inclusive, fui secretária municipal de saúde sempre nesse movimento relevante do AVC, que é uma coisa que até hoje funciona muito bem lá no ABC Paulista. E você tem razão, porque eu comecei a identificar, né, dentre essas causas possíveis para levar uma pessoa ao AVC, né, a gente já tem os conhecidos, obesidade, hipertensão, diabetes, Essas são aquelas causas que a gente já está acostumado. Mas eu comecei a ver, sim, cada vez mais, as pessoas sofrendo AVC porque não olharam da forma adequada para o estresse. E o estresse crônico, a gente já sabe que leva a uma alteração absurda de neurotransmissores, liberação de cortisol, mudança na parede dos vasos que vão causar o AVC. Então, resolvi voltar E começar a estudar ali a base disso que é o estresse. E estudando estresse hoje em dia não tem como não falar em burnout, né? Porque o estresse hoje, claro que existe ali o estresse da dona de casa, existe o estresse da mãe, existe o estresse do estudante.
Sem estresse. O estresse, ele pode ser muito aliado, adaptativo, não é?
Exatamente, né? Como você mesma sempre diz, né, Isa? Existe o estresse positivo e o estresse negativo. Eu tô aqui sendo entrevistada pela Isa, né, que é uma das maiores comunicadoras que a gente tem aqui no país. Claro que eu tô no estresse, né? É uma coisa que... Eu tô aqui com friozinho na barriga, não tô? Mas é um estresse show de bola, é um estresse que me motiva. Que me deixa antenada, que deixa a minha atenção, né? Pra eu não desfocar, pra eu não ficar pensando na lista do supermercado. Pra eu não pensar onde é que minhas filhas estão, né? Então é um estresse positivo. Agora, o estresse negativo é o estresse que muda o funcionamento do meu corpo. É o estresse que me prejudica, que me leva a ter mais erros, imperfeições e tudo mais. E aos sintomas físicos, cognitivos e… psíquicos, né? Então, aí com isso que eu comecei a estudar o burnout.
O Ana, então, pegando na sua resposta, quando é que o estresse passa a ser disfuncional? Ou quando que ele nos deixa... Vamos mudar a pergunta. Quando é que o estresse nos deixa disfuncional? Porque se ele pode ser tão bom, quando que ele passa a ser ruim?
Legal, excelente pergunta, Isa. Justamente, né, Isa, o meu trabalho na internet, nas redes, no podcast e tal, é justamente para que as pessoas entendam que o burnout é um contínuo de sintomas. Ninguém acorda com o burnout, tá? Você vem passando por situações Por meses, anos, né? Semanas, de repente, dependendo se é uma coisa muito intensa. Mas em geral, meses ou anos que você foi negligenciando esses sinais e sintomas do teu corpo, do estresse crônico. Que vira uma exaustão ocupacional, que no final vira o esgotamento, que é o burnout. Então vamos lá, respondendo a tua pergunta, em que momento que esse estresse deixa de ser um estresse bacana?
Quando é que o cortisol, que é necessário para o aprendizado, para a vida, para o entusiasmo, ele passa a ser negativo?
Perfeito. o teu corpo começa a te mostrar, né? Então, por exemplo, primeiro assim, coisas que a gente faz relacionadas ao trabalho que vão nos levando a esse quadro desse estresse crônico, né? Então, qual seria a minha parcela de culpa nisso, vamos dizer assim, né? excesso de auto-cobrança, perfeccionismo, uma negligência com os sinais do meu corpo. Então, isso é lá atrás, quando a gente começa a ter esse estresse crônico um pouquinho desfuncional. Então, eu vou me cobrando, eu quero trabalhar cada vez mais, de repente, para ter mais dinheiro, para conquistar meu primeiro milhão. Hoje em dia, essa geração mais nova, acha que fazer um milhão é assim, e aí quer trabalhar 16 horas.
E que isso vai ser felicidade?
E que isso vai ser felicidade. Aí chega lá, conquista um milhão e vê que não é felicidade nenhuma, enfim. Então, tem essa nossa parcela. E aí, claro, a gente sabe que dentro das empresas a gente tem cada vez mais situações terríveis ali de assédio, uma série de questões, excesso de cobranças, metas e tal. Mas voltando um pouquinho pra pergunta da Isa. O estresse, então, ele começa a dar sinais no meu corpo de que não tá legal. Então, muda o meu sono. eu começo a ter dificuldade pra pegar no sono, ou o sono fica mais leve, ou eu tenho aquela coisa de despertares ao longo da noite, então...
Interrupção.
Interrupção. E eu não acordo descansada, eu acordo já... Ai, meu Deus do céu, já tô acabada, já tô cansada demais, né? Eu já queria que já fosse de noite. Sabe quando toca o despertador e você fala, meu Deus, eu não tô acreditando. Aí você começa a ter, por exemplo, aquela coisa da síndrome do domingo à tarde, né? Domingo começa a ser o pior dia da semana é domingo, né? Domingo à tardezinha pra noite que você começa a ficar super angustiada, toca ali a música do Fantástico, é uma desgraça na sua vida porque você começa a entrar realmente numa tristeza por entender que você tem ainda um dia pra passar pela frente. sintomas como dor de cabeça, dores no corpo, alterações de sensibilidade, formigamento, alterações vasculares, né? Problemas de muitas dores nas pernas, queda de cabelo, lesões de pele, né?
Tudo isso está relacionado ao estresse.
Ao estresse, exatamente.
Quantas referências nós podemos ter relacionada ao estresse? Existe um número? Por exemplo, mais de 100 manifestações podem vir do estresse.
Não existe um número, mas eu diria que... eu desconheço um número, mas eu acredito que mais de 100 com toda certeza, porque se a gente for só para as reações imunológicas, A gente sabe que o estresse faz cair a imunidade. O tanto de doença imunológica, autoimune ou infecciosas que você pode ter por conta dessa baixa imunidade, vamos dizer que é quase infinito, né? Então, acho que a gente abre uma porteira pra doenças mentais, neurológicas, né? Esclerose múltipla, surto de esclerose múltipla, Guilain-Barré, enfim. Guilain-Barré! O Guillain-Barré é uma paralisia no corpo todo autoimune, tá? O corpo cria anticorpos contra os nervos, contra as raízes nervosas. E aí você vai tendo uma paralisia das pernas, dos braços. O Rony Vaughn teve Guillain-Barré, não que tenha sido por estresse, né? Mas o Guillain-Barré, ele pode acontecer pós alguma reação vacinal, mas ele pode também ser autoimune. E o auto-imune pode vir pelo estresse.
Acessa o sistema nervoso.
Totalmente.
Então, quando você mencionou a música de um programa dominical, pode ser qualquer gatilho que te mostre que aquele descanso não foi suficiente para a recuperação do seu cansaço.
Exato.
Porque tem muita gente que nem assiste mais televisão. Eu, por exemplo, pratico alienação consciente.
Maravilhoso.
Ah, mas você não ficou sabendo?
Não.
Não, mas eu fiquei sabendo de outras coisas, né? Que é o que eu busco aqui pra trazer no interioriza, pra gente democratizar a informação que vai nos levar à saúde de fato. Ana, aqui na contracapa do seu livro, que aliás, gente, vale muito a pena, tá? É um livro fácil de ler. Tem uma série de entrevistas de pessoas que vocês admiram com certeza, né?
Inclusive a Isa.
Eu tenho uma participação aqui também. Aqui na contracapa tá assim, ó. Somos uma fonte infinita de saúde e bem-estar. Só precisamos aprender o caminho para acessá-la. Vou repetir. Somos uma fonte infinita de saúde e bem-estar. mas só precisamos aprender o caminho para acessá-la e preservá-la, né, Ana?
E preservá-la, exatamente.
Como é que eu acesso essa fonte de saúde para fazer a manutenção das emoções, né? Porque que elas ficaram bagunçadas, isso é um fato, mas agora, como é que eu organizo?
Exato. é muito trabalhoso, né, Isa? Então, muita gente vai até o meu consultório, busca atendimento e fala... e vai atrás da pílula mágica, da bala de prata, né? E eu já digo que não existe, né? Dá trabalho, dá muito trabalho. É uma vigilância constante, né? O autocuidado é uma vigilância constante. Então, pra gente acessar essa fonte de bem-estar e de saúde, a gente tem que estar o tempo todo de olho nos nossos nos nossos sintomas, no nosso corpo. Será que meu corpo hoje tá legal? Ah, não sei, eu tô meio esquisita, tô meio estranha, tô meio cansada, minha memória não tá legal, que é um outro sintoma neurológico super importante do estresse, né? Porque tem gente que fala assim, Por que o neurologista está estudando estresse? Isso não é do psiquiatra, não. O neurologista olha só tudo de doença neurológica que a gente falou aqui, né? Então, qualquer médico que esteja... De repente, um médico que trata da imunidade também pode estudar, um médico de família. Eu acho que o estresse é uma doença que ele perpassa todas as especialidades médicas, né? E a neurologia, ela é muito... É uma especialidade muito conectada com o estresse, né? Então, por exemplo, eu começo a ter ali problemas de sono, dor de cabeça. Então, todos esses sintomas que eu tô dizendo, e eu preciso estar muito atenta. Cuidar muito do sono, Isa. Isso é uma coisa que eu sempre falo. Toda entrevista que eu dou, podcast e tal, eu faço questão de dizer sobre o sono. Porque se a gente falar assim, Ana, tá, eu não tenho tempo pra fazer atividade física, eu não tenho tempo pra comer direito, a minha vida é uma loucura, meu chefe é porque você não conhece, Ana, você não sabe, meu chefe, o que ele faz comigo. Tá, tudo bem, a gente vai começar a pensar com calma. Mas eu só vou pedir uma coisa pra você. Vamos cuidar do sono? Porque o que a gente tem feito, Isa? Nesse mundo hiperconectado, nesse mundo como é hoje em dia, a gente negligencia demais o sono e a gente deixa pra dormir na hora que sobra. do nosso dia, né? Então, a gente não planeja que tem que dormir às 10 horas, né? Aliás, a Isabela, pessoal, um parêntese aqui, tá? É uma dessas pessoas que eu tiro meu chapéu porque estivemos juntas viajando em Porto Alegre. Vou contar um segredinho aqui pra você que gosta da Isa, tá? A Isa, 10 horas da noite, tá na cama. Tá, inclusive... Vamos dar um contexto? Vamos dar um contexto, pode dar.
Eu e a doutora Ana Paula estávamos lá em Porto Alegre para um evento da Isma BR, que é a maior instituição que mede estresse no Brasil. E aí, no último dia... depois nós teríamos o congresso, né? Então, o curso de gerenciamento do estresse eu tava fazendo pela segunda vez e a Ana foi... Eu fui pela primeira. Aí acabou o curso. Ah, vamos então agora sair.
Claro, jantar.
E jantar. Vamos colocar em prática o que falamos, porque nós também precisamos nos incluir para o lazer.
Sim.
Só que aí quando deu nove e pouco, tava todo mundo bem alegre, tá, gente? Era um lugar, assim, muito gostoso, de vinho e tal. Aí eu falei, meninas, eu vou embora.
Pois é, eu não acreditei.
Sim, vocês já sabiam disso, né? Eu, 9h30, 9h20, eu falei, vou pegar um Uber, eu vou, vocês estão bem. Maravilhoso. E vocês voltam bem pro hotel, então... Sim. É interessante você trazer isso, né? Porque se eu vou dizer, vão falar assim, ah, ela tá querendo aparecer. Não, gente, é verdade. É um fato.
É verdade. Não, a Isa, ela...
Eu tento o máximo colocar em prática o que eu falo.
Exato. Não, é super bacana isso, super legal. Tira o meu chapéu, porque ela realmente faz a coisa. E aí, ah não, e aí teve o dia do café da manhã também. Isa, vamos descer para tomar o café da manhã? Não já tomei porque eu acordei mais cedo, porque eu fui malhar. Eu malhei no hotel, fui fazer esteira, porque eu faço direitinho pra poder tomar o café. Falei, gente, essa mulher, ela é de verdade mesmo, ela faz de verdade.
Mas veja, já que você trouxe isso, não significa que eu não deslize.
Claro.
E se eu, de repente, fui indelicada com alguém ou se eu espanei em algum momento, como já aconteceu.
Claro. Somos humanos, né?
Sim. Desculpa. É uma palavrinha mágica porque mostra o quanto também nós somos humanos. Então, de fato, quando eu posso, eu vou dormir na hora certa, vou acordar na hora que eu preciso, vou fazer aquilo que eu já sei que eu preciso acessar essa saúde aqui que você fala, essa saúde, essa fonte infinita de saúde e bem-estar, ela precisa de você. Você precisa fazer escolhas. Então, hoje eu tenho muito orgulho de dizer que sim, a maior parte do tempo eu estou conseguindo fazer o que eu falo.
Perfeito, Iva.
O meu maior desafio hoje é fazer atividade física bem cedinho, porque é o horário que me faz bem. Nem sempre eu consigo.
Claro, você tem uma filha pequena, palestra no Brasil, é difícil.
Mas não vamos desfocar aqui do assunto, né? Você trouxe aqui meu exemplo, porque, acredito que pra você...
Falando do sono.
É, o quanto sono pra mim é inociável.
Não, chamou atenção, né? Porque primeiro que é difícil a gente ver hoje em dia as pessoas praticando aquilo que elas falam, na internet principalmente, né? Mas enfim, voltando a essa questão do autocuidado. O sono, as pessoas deixam pra dormir na hora que sobra do dia, né, Isabel?
O que sobra?
O que sobra? O que sobrar? Eu vou empurrando o meu dia, vou condensando o meu sono. Então eu vou fazer tudo o que eu quiser. Eu vou fazer um curso extra, uma pós-graduação, reuniões, lives, sei lá o que mais. E vou dormir na hora que sobrar. Roubada. Roubada a nível máximo.
Por 20 e poucos anos, você até consegue dormir menos.
Até consegue, né? Mas depois de um certo tempo, se você tem... Passou dos 30, você trabalha, você tem família, vai dar ruim, vai dar ruim. Então assim, coloca horário pra dormir. A higiene do sono, gente, é algo tão simples, mas assim, ninguém faz. Ninguém fica sem olhar o celular uma hora antes de dormir. Ninguém não, mas vamos dizer que 10% da população faça isso, né? Ir pra cama com celular é muito ruim pro nosso… Pra nossa higiene do sono. Por que a luz azul do celular atrapalha a produção de melatonina? A maioria das pessoas já sabe disso. Por que você fica hiperestimulado com aquelas informações que você tá vendo? Porque o celular, não é que você tá lá também, olhando, de repente, um vídeo de meditação.
Não!
Você tá nas redes sociais, olhando a vida maravilhosa das pessoas que você não tem, olhando aquela festa que você não foi convidado, olhando os milhões que um tem e você ainda não tem. Enfim, né, tem toda aquela questão. As conversas de WhatsApp, que ali sempre tem uma questãozinha ou outra que te incomoda. Então assim, é uma coisa que tá te deixando mexido. E não tem como relaxar pra dormir. Então, são muitos elementos, Sabisa. Então, de uma forma, a alimentação, as pessoas comem... O que eu mais vejo no consultório, né? Com o burnout. A pessoa sofre, sofre, sofre no ambiente de trabalho, muitas vezes tem anorexia no ambiente de trabalho, ou não comem nada, porque fica ali no mal-estar, que não consegue comer, chega em casa, se dá de presente, entre aspas, comer porque eu mereço. Eu vou comer porque eu mereço. Então, ali eu vou comer um hambúrguer, eu vou comer uma pizza, aí só come besteira, doce, açúcar.
Só se recompensa sem mais.
E aí a noite vai ser péssima, porque picos de insulina, o açúcar vai atrapalhar o teu sono, o teu cortisol vai explodir e é isso.
Não tem como você ter uma noite boa de sono se você tem dias muito ruins.
Exato, exato.
Ana, a gente tem aqui um compromisso com o tempo, em média 30 minutos do interioriza e eu preciso tocar no assunto aqui contigo porque quando me dizem que não só o burnout, mas os problemas relacionados à saúde mental são frescura, E eu fico muito feliz por você, uma neurologista formada pela USP. Então, assim, para aqueles que querem ouvir da neurologia, o que acontece no nosso cérebro quando o burnout atinge níveis graves?
Excelente pergunta, Isa. A gente precisa desmistificar essa história da saúde mental. Presta atenção, pessoal. O cortisol e a adrenalina fazem um verdadeiro estrago no nosso cérebro, tá? eles alteram a arquitetura, o calibre do hipocampo. O hipocampo é a nossa região responsável pela memória, que está lá dentro do sistema límbico, que é o sistema mais primitivo das emoções. Então, eu já vi hipocampos em ressonância iguais ao tamanho de um paciente com Alzheimer.
Atrofiado, né?
Atrofiado, Isa, atrofiado. O córtex pré-frontal, que é importante pela tomada de decisões e tal, ele fica também hipofuncional. A gente já tem estudos de radiologia funcional, de ressonância funcional, que mostram que eles estão alterados, ou seja...
Eles se alteram por quê?
Pelo cortisol e pela adrenalina, pelo estresse. Então, gente, existe sim explicação neurocientífica para as lesões cerebrais causadas pelo estresse. Não é frescura. Então, quem acha que esses sintomas que a pessoa está tendo é corpo mole, é mimimi, é fraqueza, não é nada disso. Cada vez mais, A ciência está estudando o burnout e o estresse crônico, não só o burnout, né? O estresse levando a distúrbios ansiosos, depressão e tudo mais. Então, a gente precisa levar isso a sério, pelo amor de Deus, né?
Que fique bem claro, o excesso de estresse afeta o órgão mais vulnerável de cada um. Você pode ter burnout, você pode ter outros problemas de saúde, inclusive um AVC. Se você ainda acha que o que nós estamos falando é bobagem, segue em frente. Se você acha que trabalhar 15, 16 horas todos os dias não vai te trazer consequências, manda bala. Mas depois que você estiver doente e ter que abrir mão de toda a sua agenda, de todos os seus clientes, de todos os seus relacionamentos, é mais difícil a gente cuidar da saúde quando a gente perde a saúde. Então, para um pouquinho de repetir frases insustentáveis. Para de ficar curtindo conteúdos de... Pessoas que não têm as características que você tem. Se alguém está conseguindo fazer algo sobrenatural, depois a gente conversa. Lá na frente a gente vai ver como é que está a saúde dessa pessoa. Sabe por quê, Ana? Porque todos nós já sabemos o que precisamos fazer. Todo mundo já sabe o que precisa fazer, Ana.
Exato. Sabor emprástico.
Aqui o interioriza é um lembrete daquilo que você já sabe. A questão é, o que que tá faltando pra você colocar em prática? Exato. É pela dor ou pelo amor? Você que escolhe.
Exato, exato.
Então, neurologicamente, sim, nós vamos perdendo capacidade. Já que você falou no Alzheimer, Ana, antes da gente encerrar, o que que eu costumo ver? Quando a turma fala assim, nossa, eu tô tão esquecida e Alzheimer. Não, você tá cansada. Para de brincar com coisa séria.
Exato, isso.
Você sabe, Ana, que eu não tenho mais... Eu tô com uma paciência maravilhosa, minha saúde tá maravilhosa, mas eu tô sem paciência pra certas coisas que...
Certos comentários.
Não dá mais.
Concordo.
Não dá mais pra gente brincar. Que estresse, é coisa de Ubernaut, não. Sabe? A falta do gerenciamento do estresse é coisa seríssima. Então para de ficar brincando com coisa séria. Não dá mais. Vai brincar com outras coisas. Não dá pra brincar mais com a saúde, Ana. Só que eu não sou neurologista. Então você, neurologista, fala com a turma. O que precisa fazer? Sério.
Gente, eu aprendo tanto com a Isa. É tão bobagem isso, né?
Não é neurologista.
Claro, somos diárias que se complementam. A Isa é uma pessoa que sabe muito sobre o burnout. É uma tremenda estudiosa no assunto, e eu aprendo demais com ela. A gente precisa se olhar, se cuidar. Tudo que a Isa falou, eu assino embaixo. Pode ser assim? Eu vou carimbar. Pega o meu carimbo aí, produção. Eu vou dar uma carimbada, porque aí fica mais fácil. Ela faz a receita e eu carimbo.
A gente vai fazer um negócio desse depois, tá?
Pode ser, pode ser.
Olha!
Tem enfermeira em hospital que faz a receita pro médico, o médico vai lá e carimba, quando o médico tá com pressa, né?
É mesmo?
Então, babado, é verdade.
Então pode!
A Isa vai dar todo o receituário ali, pronto, e eu vou assinar aí embaixo. Olha! Aqui pode, tá? Aqui pode.
É verdade. Não, não aguento apertar o cabelo, gente. Meu cabelo tá ficando branco, sabe? De ficar tendo que, gente… É complicadíssimo.
Eu queria só comentar uma coisinha, só antes da gente encerrar, Isa, falando ainda sobre a questão do sono, tá? Pra aquelas pessoas que ainda estão negligenciando o sono e curtindo esses posts absurdos aí na internet, como você acabou de dizer. Foi descoberto há cerca de 10 anos atrás por uma neurocientista americana que a gente tem o sistema glinfático. Sistema glinfático, Isa, é um sistema que faz uma faxina no cérebro e que só funciona no sono profundo. No sono profundo, eu tenho um sistema, presta atenção, que faz uma faxina no cérebro. Se esse sistema não funciona, eu acumulo toxinas cerebrais e estudos mostram que essas pessoas têm mais Alzheimer, Parkinson e AVC. Convencia, turma?
Ana, você acredita que antes do AVC a pessoa pode ter vivido a síndrome de burnout e passou por cima?
Não tenho dúvida. Não tenho dúvida, Isa. Claro que não 100%. Não posso afirmar isso sem um estudo científico populacional.
Pelo você vê que no seu consultório.
Mas a vivência, com toda certeza. Com toda certeza.
Eu digo isso porque muitas pessoas me procuram que, ao terem passado por um AVC, e aí quando vão percebendo, voltando a fita, elas falam pra mim, e isso eu já ouvi de pessoas bem relacionadas na vida, ou seja, não é por falta de informação, não, foi por falta de tempo mesmo consigo.
E de autocuidado.
E me falam, Isa, eu vivi um burnout antes do meu AVC. Eu já ouvi tantos relatos desses, sabe, Ana? Então, por isso que quando eu vejo você dando esse passo anterior ao AVC, eu sei que você vai salvar muitas vidas.
Com certeza, porque antes não se tinha tanto conhecimento sobre o esgotamento e sobre o burnout. E como eu disse, o teu papel na comunicação, você trouxe esse assunto à tona, expondo o teu caso de forma corajosa. Foi tão legal o que você fez. Eu sei, foi incrível, foi brilhante. Você sabe o quanto eu te admiro por isso? porque tanta gente parou pra refletir e falou, meu Deus, eu já tive, eu já tive um, já tive dois, já tive três. Em relação ao AVC, Isa, o tanto de gente que tá tendo AVC cada vez mais jovem. Quanto que a gente ouve falar isso, os estudos já mostram, estudos populacionais mundiais já mostram que as pessoas têm AVC cada vez mais cedo. O próprio caroche, né, Isa, que é a morte súbita por excesso de trabalho, as pessoas morrem de qual causa? Duas causas, infarto agudo do miocardio e AVC. né, depois de trabalhar lá 80 horas semanais.
Aí a turma vai falar assim, nossa, mas vocês não tem pesquisa sobre isso. Então a gente vai perguntar assim, para as famílias, né, vítimas de caroche. Eu me aproximei desse tema quando eu assisti um documentário chamado Happy, E aí foi quando eu descobri que o Ministério do Trabalho japonês já contabiliza famílias vítimas de karoshi desde a década de 80. Pessoas que têm morte súbita pelo excesso de trabalho. E aí, quando você ouve as famílias dessas vítimas, você pergunta, como estava a vida dessa pessoa antes da morte súbita? Tranquila, ela estava tendo tempo de se alimentar, ela estava tomando banho, ela estava se cuidando, ela estava anos sem tirar férias, ela estava se negligenciando, ela estava vendo uma vida estressada.
Sem olhar para os filhos, como naquele documentário do rap.
O que você acha? Qual é a resposta? Então, não precisa, mas se precisar a gente vai fazer essa pesquisa pra trazer quais são os sinais que antecedem o AVC, o infarto e a morte súbita. Quantas horas mesmo você descobriu na pesquisa do Karoshi?
A pessoa tem que trabalhar mais de 80 horas semanais ou que, por exemplo, essa galera que tá falando que trabalhar 14 horas por dia não faz mal e aí não tem pobreza que aguente trabalhar mais de 14 horas por dia. Então, você já está ali no limite para o caroche, que é... Na China, caroche é o nome que eles dão no Japão. Na China, é o gualose, a China tem 600 mil mortes desse tipo ao ano. Ou seja, é um número bastante considerável. Se você acha que não tem problema, que a tua saúde não vale nada, que a tua família não vale nada, vai fundo. Pronto, falei.
Então, Ana, pra gente encerrar, eu vou te convidar agora para uma cerimônia das areias.
Uau!
Adoro. Olha só. Todo convidado que vem aqui escolhe uma cor e completa esse garrafão que está formando uma bela arte. Olha só, como é que já tá ficando bonito. Cada pessoa coloca uma areia. E com essa areia, coloca também aqui dentro intenções, tá? Pra nossa audiência, qual cor você escolhe.
É justamente amarela, não é porque você tá segurando, tá? Eu adoro amarela, é minha cor favorita. E não é porque eu tô de amarelinho, não. É porque amarelo significa esperança. E principalmente nesse momento que eu tô vivendo com tantas pessoas precisando de esperança, que estão no limite das suas vidas, pensando em suicídio. A maioria das pessoas que eu atendo tão com ideação suicida, né, ou já tiveram em algum momento. Essa desesperança tremenda, então a gente precisa de esperança, né? E também porque a minha filhinha Gabi, quando era pequenininha, falava que era o Amaieio. Então eu amo amarelo.
Esperança, né? Pode colocar a quantidade que você quiser. Excelente. Excelente. Ó, como tá ficando bonito.
Tá lindo.
Pra mim, o estado da arte é o que nos salva.
Perfeito. Adorei. Obrigada.
Ana, amei. A turma que está apaixonada por você e quer continuar entendendo o quanto a neurologia pode ajudar a nossa saúde. Quais são os seus canais?
Então, vamos lá. Eu tenho um podcast que chama Neurotalks, onde a gente tem um episódio meu e da Isa, que fez um baita sucesso também. O Thiago Godoy, papai financeiro, também já foi lá. Uma turma muito grande, tá bem legal, o Neurotalks, já tem um ano. O meu Instagram, é arroba.dra.doutora.anapaulapena. E lá no meu Instagram você tem todos os meus canais, consultório, atendo consultas online no país todo, e lá você encontra livro e tudo mais.
Oana, pra gente encerrar, quando que eu devo procurar um neurologista?
Se você estiver dormindo mal. Dores de cabeça frequentes, que muita gente tem. Memória fraca, tá esquecendo coisas que antes você não esquecia. Busca um neurologista o quanto antes, tá? De repente na tua cidade não tem neurologista, busca um médico. Busca um médico de família, busca um clínico geral, busca ajuda, tá? Não fica achando que tá tudo bem e que você tem que empurrar a sujeira pra debaixo do tapete porque você não tem tempo pra se olhar, tá? Não faça isso.
Se você curtiu esse episódio, deixe seu comentário, compartilhe com quem você quer bem, assim você nos ajuda a democratizar a informação que pode nos salvar. Até o próximo interioriza.
Tchau, tchau.
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