Como reconhecer e prevenir o assédio no trabalho? EP 05 - Ïnterioriza 2ºTemporada

Isabela Camargo talks with Ana Paula Pena, Priscila Reis, and Luciana Barucchi about recognizing and preventing workplace harassment. They share personal experiences and professional insights on harassment, burnout, and mental health at work.
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Olá, meu nome é Isabela Camargo, essas são as principais manchetes da hora. Ah, não, isso era o que eu falava lá há uns 20 anos, né? Agora não, agora eu tô no Interioriza, um programa em que eu trago assuntos que já passaram do tempo da gente interiorizar. Então, meu nome é Isabela Camargo e eu tenho aqui três convidadas exuberantes. Eu gosto de separar sílaba quando a coisa é muito importante. Quem é você, doutora?
Nossa, com essa apresentação, não sei nem se eu tenho roupa pra falar.
Ah, tem sim, tá linda.
Tá maravilhosa. Então, acordei assim, gata.
Que roupa, gostei muito dessa roupa. Acordamos assim hoje.
Então, vamos lá. Eu sou Ana Paula Pena, sou médica neurologista pela USP. Sou host de um podcast também, que se chama Neurotox, gravado neste estúdio.
Maravilhoso.
Que já teve Isa Camargo, já teve Lu, já teve Pri. eu sou mestre em saúde pública pelo Sírio-Libanês, atualmente faço pós-graduação em psiquiatria lá pelo Einstein, sou autora de um livro que fala sobre a saúde mental pós-pandemia, que se chama E agora? Como ficam nossas emoções após a pandemia? E tô aqui. para esse debate e para essa conversa que tenho certeza que vai ser de muito impacto para quem está nos ouvindo.
Exato. E você, doutora Priscila, quem é você?
Eu sou a Priscila Reis. Eu sou advogada, especialista em doença ocupacional, especialmente síndrome de burnout. Sou pós-graduada em Direito do Trabalho e Direito Previdenciário para atender o todo. E eu tenho um escritório de advocacia que atende o país inteiro, mas melhor do que o escritório de advocacia, eu tenho um canal do YouTube, que eu falo dos direitos trabalhistas e previdenciários de maneira clara, sem juridiquês, gratuitamente, para todo o Brasil.
Perfeito. E você, doutora Luciana Barucchi?
Bom, eu sou Luciana Barucchi, conhecida como Luciana Barucchi, Auditora Fiscal do Ministério do Trabalho há 16 anos. Fiz as primeiras fiscalizações de assédio lá. Sou graduada em Administração pela FGV, em Direito pelo Mackenzie. Me especializei no Direito fazendo pós-graduação, depois fiz mestrado, doutorado. Sou médica também. e sou autora do livro Riscos Psicossociais, Saúde Mental do Trabalhador e idealizadora e criadora do perfil Assédio Net no Instagram, onde eu faço um trabalho de conscientização e, de certa forma, também de acolhimento de vítimas no que diz respeito aos riscos psicossociais e saúde mental de trabalhadores, mas o assédio em suas diversas formas de uma maneira especial.
Eu sou Isabela Camargo, jornalista, especialista em comunicação, em gerenciamento do estresse e segurança psicológica. E tenho uma habilidade que eu nos últimos anos só que tenho reconhecido, que é conectar pessoas extraordinárias que estão olhando para a mesma direção. Este grupo aqui foi formado há algum tempo junto com a Carol Milters, que está na Holanda nesse momento, junto com a Mariolanda, que está no Rio de Janeiro, a Carino Showa, que também é especialista em assédio, que está no Rio de Janeiro, a Diana, que está aqui atrás das câmeras, e também a Ana Tomazelli. Então, por enquanto, este é o grupo que nós chamamos de Liga pela Justiça do Burnout, mas que, em breve, nós formaremos o primeiro grupo de prevenção ao adoecimento no trabalho. Vamos repetir? Grupo de Prevenção ao Adoecimento no Trabalho, mais conhecido como GEPAT. E por que será que a gente se juntou? Porque a gente não tem o que fazer?
Engraçado que foi pela internet, né? A internet tem muita coisa boa, né? Sempre.
A diferença entre o remédio e o veneno é a?
Dosagem.
E o que a gente tá buscando?
O remédio e o veneno é a dose.
E o que a gente tá buscando, né? Exato.
Por que que é muito interessante essa nossa troca? É a primeira vez que o Interioriza recebe três convidados ao mesmo tempo. Porque nós temos uma responsabilidade muito grande com aquilo que a gente sabe. Essa questão. Tem muita gente que sabe muito. Mas eu faço o que com o que eu sei? Quando eu comecei a ter conhecimento das coisas que estavam acontecendo comigo, eu não podia guardar aquilo só pra mim. Então, qual é a nossa responsabilidade, sabendo tudo o que a gente sabe?
Sim.
Né, Lu? Eu queria começar, ouvindo a Lu, sobre uma situação muito específica que você viveu, em que um assédio te chamou a atenção. E aí, desta situação, o que veio depois? Conta pra nós.
De fiscalização. Bom, eu vi uma pessoa aguentar todo tipo de assédio e sucumbi diante de um tipo específico de assédio, que foi ameaça à sua família. Ele era um bancário, E ele estava protegendo as pessoas porque ele estava se negando a cometer crimes para bater metas. Sob uma gerente que pedia isso.
Ele estava se negando a cometer crimes para bater metas.
Exato. E ele ainda estava avisando os clientes que tinham sido vítimas desses crimes tipo faxineira do Ministério do Trabalho, porque era um posto de atendimento bancário dentro do Ministério do Trabalho, dentro da agência Previdência, que é uma agência dentro da Previdência Social e dentro da Polícia Federal. Então, muitos servidores públicos, mas também muitos terceirizados que trabalhavam ali. E ele dizia assim, eu faço isso porque 18 reais pode fazer diferença para ela, na feira, em algum lugar.
E ele era obrigado a vender serviços bancários para essas pessoas.
Exato. Ele era obrigado a embutir o seguro de empréstimo, que encarecia o empréstimo, sem dizer. E o que a gerente orientava, ela falava assim, Você não precisa de enrolação, né? Isso tá público, tá nos autos. Ela fala assim, sem ejaculação mental, fala que a operação tá segurada, faz igual a fulana, fala que a operação tá igual segurada. E essa fulana teve um surto na agência, né? Ela tava lá dizendo sim, dizendo amém, mas ela também tava adoecida. E o que tava sustentando a saúde mental dele era esse... Esse processo de dizer não, de fazer frente a algo que ele achava absolutamente injusto, criminoso e de ainda alertar as pessoas. A partir do momento que ele continua fazendo isso, mas ela ameaça a família dele, aí ele adoece.
Como é que foi essa ameaça? Pra quem tá nos ouvindo entender, você pode contar?
É ameaça de demissão, ameaça de perder o emprego e dizer textualmente, como que a sua família vai ficar? Eu posso te ferrar. Posso te demitir.
Mas essa investigação, ela culminou na condenação do banco em 8 milhões de reais no ano passado. E a gente precisa dizer que ainda assim, embora a Luciana tenha sido a primeira Ainda assim, ainda hoje, Luciana, a gente vê diariamente bancários na mesma situação. Não é verdade?
Com certeza.
Tendo que fazer a mesma coisa para bater meta. Ou seja, a gente precisa continuar. Precisa continuar tendo esse tipo de investigação. Você foi a primeira. Espero que muitos outros tenham aprendido isso e a gente tenha outras investigações nesse sentido.
Agora, eu queria... Quer complementar, Ana?
Não, porque eles são contra, né? A Pri atende muitos bancários e eu também, né? Porque o burnout hoje em dia tem acontecido muito entre bancários e essa coisa de ir contra princípios éticos, valores, de ter que enganar pessoas, né? Isso adoece muito, né?
Eu me lembro quando eu trabalhava na TV e eu tive que cobrir uma... uma situação numa comunidade e me deram um colete à prova de balas. E aí eu peguei e fui. Quando eu voltei, eu tirei o colete e coloquei na mesa do chefe de jornalismo da época e falei assim, olha, isso não é pra mim. Pode ser que tem gente que gosta.
De colocar colete e ficar no meio do vucu-vucu.
Não!
Aí eu falei, isso não é pra mim. Então, de fato, tem gente que adora cobrir esse tipo de reportagem. Eu já não gostava e não gosto. Tem gente que tolera certos tipos de abusos. Tem gente que compactua e tem gente que sofre.
Mas todo mundo tem um calcanhar de Aquiles. Então, todo profissional que está, aparentemente, levando muito bem aquela situação ali de assédio, aquela pressão, aquelas coisas que acontecem, ele tem um ponto de fragilidade, que nem a ampola. Você não quebra, mas tem um ponto ali que quebra. E, muitas vezes, isso é atingido. E isso tem a ver com aquilo que a gente conversou no outro dia sobre, muitas vezes, o que faz a pessoa... A gota que faz um copo transbordar. É, porque essa pessoa aguentou tanto a sede, mas isso fez ela sucumbir.
Perfeito. Nós já vamos falar sobre isso.
Com certeza.
Eu quero perguntar pra Ana. Ana, por que é tão difícil uma pessoa receber o diagnóstico de burnout?
Eu acho que existem duas questões e é uma coisa que a gente vem discutindo muito no nosso grupo. Eu acho que é uma pergunta excelente para quem está assistindo, ouvindo, enfim. Tem dois pontos aqui. Primeiro é o desconhecimento técnico de profissionais de saúde. Psicólogos, psicanalistas, médicos-psiquiatras, médicos-neurologistas, médicos do trabalho que não se aprofundaram no tema, que é um tema tão urgente, que é um problema da saúde pública tão grave, no mundo e no nosso país, que é o segundo país do mundo em números de burnout, quer dizer, deveria ser obrigatório hoje em dia, deveria ser uma disciplina obrigatória pra formação de todo profissional. E faz parte também, já dando aqui um spoiler, de uma das nossas atuações, fazer o tratamento dessas pessoas que estão na ponta pra diagnosticar. Então acho que essa é a primeira questão. E aí existe uma segunda questão, que é o medo do profissional se comprometer com aquela empresa que teoricamente é um CNPJ muito forte, muito potente e que vai vir. Existe uma fantasia ali que, meu Deus, como que eu vou dar um diagnóstico de burnout? Então vou falar que aquele trabalhador adoeceu naquele ambiente, sendo que essa empresa deve ter uma gama de advogados tão maravilhosos que vão tirar o meu rim, vão tirar minha casa, vão tirar minha saúde financeira, física e tudo. Então, muitas vezes o médico prefere não se comprometer, infelizmente é uma verdade, de colocar esse diagnóstico num atestado por medo, por receio e eles falam isso. É verdade, Pri?
É verdade.
Eles falam isso. Olha, você tem burnout, mas eu não posso escrever isso no seu atestado.
Mas uma empresa pode processar um profissional da área da saúde porque ele diagnosticou o sujeito com burnout, Pri?
O Código de Ética Médico diz que... prevê que o médico tem liberdade no seu diagnóstico. E também diz que o médico do trabalho deve fazer essa avaliação do nexo entre a doença e o trabalho. Há uma discussão, e aí é um grande problema, que será que outro médico pode fazer o diagnóstico? E sim, é possível fazer o diagnóstico, porque o diagnóstico é construído diariamente. E isso eu aprendi também aqui com as colegas, com a Luciana e com a Ana, porque são médicas. O diagnóstico não está pronto, ele não é aquilo e acabou no estanque. Então, a avaliação parte da avaliação clínica, da conversa com o paciente. Naturalmente, se esse médico fosse médico do trabalho, fosse lá no local de trabalho para descobrir o assédio, ele não ia encontrar o assédio. Ele não ia encontrar o assediador assediando ninguém. Porque o argumento é, o médico assistente não foi ao local de trabalho, ele não pode diagnosticar.
Desculpa, só para quem está ouvindo e não está entendendo, nós estamos falando de uma normativa do Conselho Federal de Medicina que disse que o médico assistente, no caso eu, psiquiatras, que estamos no consultório atendendo os pacientes, nós não poderíamos diagnosticar o burnout, porque não conhecemos o ambiente de trabalho. Então, só poderia diagnosticar burnout ou outras doenças ocupacionais médicos do trabalho, que conhecem o ambiente de trabalho.
Mas a resolução fala em considerar o local de trabalho, não fala em visitar o local de trabalho. E essa palavra não foi colocada à toa. Ela foi colocada justamente para permitir que, sim, seja feito o diagnóstico pela Luciana, que é clínica, pela Ana Paula, que é neurologista, pela psiquiatra e por qualquer outro médico, e não só o médico do trabalho. Mas o médico do trabalho tem, sim, um conflito de interesse. E o conflito de interesse é quem paga o médico do trabalho, não é A empresa? Então, como é que ele vai falar que aquela doença que o trabalhador tem é uma doença ocupacional e botar uma flecha, uma responsabilidade na empresa?
Que está pagando o salário dele.
É isso?
Eu passei por uma experiência parecida nessa fiscalização. Porque uma das bancárias me relatava. Ela falou assim, olha, eu procurei a psiquiatra do nosso plano de saúde, que é mantido pelo banco. É uma caixa de assistência mantida pelo banco. E o que ela me disse foi, você precisa de pelo menos três meses, porque ela tinha tido um surto na agência. Quinze dias? Não tem como. Você não pode voltar pra lá em quinze dias. Porém, eu não posso te dar mais do que quinze dias, senão eles virão atrás de mim. Entende? Senão eu vou sofrer assédio. Então, assim, é uma regra oculta, né? Aquela coisa do velado. Alguma coisa vai fazer ela sair dali, ninguém vai dizer que foi isso, mas ela vai saber o porquê que ela saiu. Então, assim, hoje em dia, eu posso afirmar, não tem nenhum médico do trabalho diagnosticando burnout em empresa Porque, se não, ele vai ser considerado a se retirar.
Ele não tem autonomia.
Nenhuma empresa quer contratar um médico do trabalho que vai fazer vários diagnósticos de burnout.
Traduzindo, é a mesma coisa que você contratar uma pessoa pra consertar o telhado toda vez que chove. Mas dependendo do contexto, não conserta. Então vai chover em cima de todo mundo? É isso que vai acabar acontecendo. Pra quem não está pegando aqui essa informação, foi ótimo, Ana, você ter também explicado. A gente vai fazer isso, tá? Cada uma por uma.
Quando você tem um diagnóstico comum pra nós...
Quando você tem um diagnóstico de uma doença ocupacional, 15 dias é responsabilidade da empresa. A partir do décimo sexto dia é o INSS. Aí começa uma outra jornada.
Sim.
Que provavelmente vai, inclusive, intensificar o adoecimento, porque é aquilo, como é que eu vou provar uma coisa que ninguém tá vendo? Eu mesma, eu lembro quando você tem o burnout, você perde funcionalidade. Essa é a grande diferença, né? Quem tem burnout ou não. Perdeu a funcionalidade. Eu não conseguia dirigir. Pessoas da minha família me perguntavam, mas você tá tão bem, como é que você não consegue dirigir? Mas você foi no mercado, como é que você não pode trabalhar? Ah, super! É igualzinho, né? Você levantar e é o mercado do que você levantar e fazer uma outra coisa profissional que exige uma série...
É a invisibilidade.
Invisibilidade. Então, por que que ainda se complica tanto, Lu, uma coisa que é tão evidente? Lá na década de 90, eu sempre gosto de citar esse exemplo, que foi um dos que me ancoraram a não desistir quando eu vivi a minha situação. Existiu um grande movimento de bancários por conta da Lerdort. Gente, o que chamaram de frescura os bancários que estavam totalmente adoecidos, então demorou muito para a Lerdort entrar como um problema ocupacional. O que está faltando para o burnout ter o mesmo respeito que a Lerdort hoje tem, Lu?
Bom, o que acontecia com a Lerdort? A gente tinha, na época, movimentos repetitivos e posições não ergonômicas de trabalho como responsáveis pelo adoecimento, que é uma visão biomecânica da Lerdort. Então, bom, se é a cadeira, então vou consertar a cadeira. Se é o apoio para os pés, então vou consertar o apoio para os pés. E tocamos a vida. Então, o fato de a gente conseguir falar assim, ah, é aquilo ali que causa, e isso é porque a gente não sabia, então a gente vai mudar. permitiu que a Lerdot não tivesse o carimbo, o tabu que doenças relacionadas aos riscos psicossociais têm. Hoje em dia já se sabe que a Lerdot acontece com muito mais frequência nos ambientes em que tem pressão, pressão para os resultados, e uma dificuldade de se apropriar daquele resultado, de olhar pra ele e falar assim, esse resultado é meu, eu contribuí pra isso. Seja porque aquele resultado, ele não combina comigo, ou seja porque eu tô muito alienada no meu processo de trabalho e eu não consigo ver que aquilo lá eu fiz parte, entende? Aquela coisa do reconhecimento. Isso aí também é meu? Ou é só de quem tá lá na frente mostrando? Então, a Lerdot, hoje, ela é estudada sob o ponto de vista biopsicossocial. E é isso que explica a epidemia de Lerdot, que ela ainda existe, em frigorífico, em trabalho bancário, em telemarketing e não necessariamente, por exemplo, não estou dizendo que não tem, sabe? Tem, mas é muito mais devido aos riscos psicossociais do que as posições não ergonômicas, por exemplo, em uma orquestra sinfônica. Não é pelo violino, é pela pressão por performance, entende?
Nós falamos sobre isso com a advogada Priscila Reis em um episódio anterior a esse aqui do Interioriza e ela falou justamente sobre isso. Não é só a repetição, mas a pressão que você está sofrendo. Eu só não falei... Nesta repetição.
Mas a Lu ainda foi adiante e é isso realmente, não basta a... a Lea Herdort. Não é só o exercício, o objetivo. Agora a gente estuda sob o ponto de vista biopsico-social. Agora a burnout, a burnout, a diferença entre um e outro Lu, que a Isa tinha perguntado, é que a burnout.
Ela é multifatorial também.
Multifatorial, mas o sofrimento é invisível e também tem a discussão de que eu quero que vocês falem, eu gostaria que vocês falassem, se é ou não é doença, se é ou não é, sabe? Por causa do sintoma.
Por que que a Ananda se coloca tantos empecilhos pra se reconhecer o problema ocupacional?
O fato da burnout, da síndrome, ela ter esse carimbo de ser causada pelo trabalho, assim como a Lerdosch, mas a Lerdosch era algo mais, quando houve aquela epidemia no início, era algo corrigível, simples, vou mexer no imobiliário. A burnout, quando ela se liga ao trabalho na questão ocupacional, não tem imobiliário. Aí a questão é outra. Ela é séria, ela é organizacional. Ela vai passar por meta, ela vai passar por jornada, ela vai passar por carga horária, ela vai passar por reconhecimento, ela vai passar por estruturas muito engessadas, como no serviço público, até em estruturas que são assim muito fluídas, imóveis, mas assim que não percebem os momentos das pessoas, entende? Pô, ela teve um filho, ela foi ótima, entende? Vamos dar um tempo, vamos esperar. Não, mas a empresa é digital, a empresa é não sei o que, a empresa é... Sabe? Mas pera aí, ela teve um filataque há 10 anos, não vai, entendeu? Então tem empresa que também é muito fluida e não percebe o momento das pessoas. Então cada setor tem as suas especificidades no que diz respeito ao burnout. Mas aquilo que eu dizia, por que o médico do trabalho de uma empresa, ele não tem essa liberdade? Ele não tem porque esse paradigma ainda existe no mundo corporativo e é por isso que Começou a ter tanta polêmica em torno do burnout, porque é como se dissesse assim, a gente avançou, mas isso não tá bom, a gente quer regredir, porque isso aí eu preciso mudar, eu vou ter que trabalhar com produtividade sustentável, eu vou ter que desenvolver segurança psicológica, e eu tenho medo disso. O mundo cooperativo tem medo disso. Acha que isso é quebrar a empresa. Sabe assim? Que nem aquela pessoa que acha que vasectomia é fazer um negócio assim que vai virar outra coisa. É um preconceito. É um preconceito. Porque no fundo esse trabalho vai tornar a empresa mais produtiva, vai tornar as pessoas mais fiéis, as pessoas vão ter vínculo. No fim, seria bom pra empresa, mas é aquele medo do desconhecido. Entende? Então existe sim hoje uma falta de liberdade dos médicos que está relacionada a essa questão de precisa passar pela alta hierarquia. Não é uma questão do médico do trabalho. Então assim, como que eu vou diagnosticar algo que aponta lá para o diretor de sei lá o quê? Eu não posso fazer isso. E ele não pode mesmo. Ele está ali numa situação, numa saia justa. Ele está numa saia justa.
Antes de falar contigo sobre a sede organizacional, querem complementar? Porque você encontra pessoas extremamente adoecidas precisando judicializar uma coisa que é óbvia.
Sim.
Você encontra pessoas no seu consultório de neurologia.
Doentes, cheias de sintoma.
Doutora Ana, eu gosto muito de dizer neurologista, porque parece que o neurologista tem mais abertura do que psiquiatra, mas aí a doutora Ana também agora tá fazendo uma especialização em psiquiatria. Eu também amo isso. E deixa, vamos falar uma coisa, se o cérebro fosse um órgão tão fácil assim da gente compreender, a gente não teria psiquiatria, neurologia, psicologia, etc.
Freud, Freud era neurologista, né?
Então pronto.
A coisa começou.
Ô Ana, você quando recebe os seus pacientes, você já se aproximou desse assédio organizacional que a Lu explica? Depois eu quero que ela explique mais, mas assédio organizacional, eu nunca tinha ouvido essa expressão. Lu, olha ali pra aquela câmera. Gente, fotografa bem esse rosto lindo.
Maravilhosa.
Tá linda, tá linda. Isso. A Lu foi a primeira pessoa que me falou sobre a sede organizacional. você descobre uma nova língua, cê fala nossa senhora, como é que ela sabia disso ainda?
Não, total.
Né? Você você reconhece nos relatos das pessoas que chegam adoecidas no seu custódia.
Total e e e é tão é tão interessante Isa, eu tô eu tô trabalhando com burnout, estudando e eu falo que burnout ele me tirou muito da caixinha da medicina apenas, né? Porque desde que eu passei a trabalhar com burnout eu precisei mergulhar no direito, eu precisei mergulhar no serviço social, eu precisei mergulhar na psicologia, na É, no direito, né? Então assim, são tantas vertentes na medicina do trabalho, medicina ocupacional, enfim. E quanto mais a gente vai trabalhando nesse sentido e vai estudando, você vai vendo que muitas coisas se repetem. Então, eu tenho trabalhado com assédio há uns três anos, mais ou menos, dois anos mais a fundo. Com assédio não, desculpa, com burnout. E eu vejo muito claramente, claro que cada quadro clínico, cada indivíduo, cada adoecimento é único. Mas os fatores do ambiente organizacional, do trabalho, a forma de assédio, de acordo com cada área de atuação da empresa, com o contexto, é muito interessante como isso se repete e como a gente precisa atuar, como o trabalho incrível que você faz dentro das empresas, levando a coisa da produtividade sustentável, do letramento da liderança e de outros aspectos que as pessoas precisam perceber para não adoecer. E sim, o assédio organizacional é uma coisa que a gente vê de uma forma absurda se repetindo e repetindo e repetindo. É absurdo.
Então, o burnout continuará sendo um tabu enquanto a gente não entender o que é assédio organizacional, Lu?
Com certeza.
O que é?
Assédio organizacional é aquele assédio que ele também tem nome de institucional, straining. Straining é você, vem da doutrina italiana esse nome, é você esticar uma corda até ela... Estourar! Estourar! Então, assédio institucional, assédio organizacional, gestão por estresse, gestão pelo terror, psicoterror, terror psicológico, tem uma série de nomes. E o que é o assédio organizacional? É quando ele é política da empresa. A gestão acontece daquele jeito. Cabeças vão rolar. Eu não tenho problema de demitir ninguém aqui. Eu não quero saber se o pato é macho, eu quero é ovo. Vocês não tem vergonha?
Como é que é a volta? Que frase é essa?
Eu não quero saber se o pato é macho, eu quero é ovo. Vocês pensam o que? Que vocês estão na Disney? Vocês acham que vocês estão de férias aqui? Vocês estão querendo passear? A escala é essa quem tiver férias aqui? Se vire. Eu não vou mudar a escala para o estado de férias. Se vire, isso não é problema meu. Entende? Então, assim, o assédio organizacional, muitas vezes ele é só pressão, mas muitas vezes ele é, assim, um desrespeito a direitos trabalhistas, como, por exemplo, as férias, e que tem que aceitar, porque faz parte. Então, é um método de gestão opressor, truculento, violento, mas que está institucionalizado e atinge todo mundo da empresa, entende? Não é assim, eu estou assediando a ela e tem uma questão ali. Não, todo mundo. E aí, cria-se aquele clima de salve-se quem puder, manda quem pode, obedece quem precisa. Não é nem quem tem juízo, é quem precisa. Vamos mudar a frase, obedece quem precisa. É isso.
E aí, desculpa só te cortar um segundinho, mas acho interessante falar que a pessoa que chega no consultório no quadro de colapso é aquela pessoa que tem uma predisposição, tem uma epigenética ali, e ela já vem acumulando um estresse crônico, um esgotamento que vem vindo, que vem vindo, que vem vindo. Esse esgotamento está se formando ali e aí ele ouve e eles chegam contando isso. E aí o momento X, doutora, ele sabe quando foi o momento em que o copo transbordou. E aí o chefe que já falava, sempre falou do ovo da Disney. Eu ouço isso direto, Lu, infelizmente de várias empresas de ramos diferentes. E aí quando eu ouvi isso, aí nesse momento eu caí, me deu um branco, eu não sabia nem pra onde eu devia ir, que direção que era a minha casa, e é isso.
Eu tenho um... Nós já vamos falar sobre a gota que transborda o copo, tá, Mundo?
Essa gota que transborda o copo, é. Por exemplo, eu tenho uma cliente bancária que aguentou por muitos e muitos anos um assédio de um gestor. É um assédio organizacional, mas também tem um assédio do gestor pra ela em específico. E no caso dela, A gota d'água dela, o assédio mais absurdo, que pra ela não dava pra suportar, foi quando o gestor falou, você vai ter que mudar de cidade pra trabalhar em outro lugar, em outra cidade. Só que ela tem um filho autista, que depende dela pra fazer vários tratamentos, e que ela trabalhando em outra cidade não teria. Imagina você mudar o tratamento do seu filho, toda aquela relação de confiança que seu filho tem com a físio, com o T.O., com o psicólogo. Então, assim, é todo tipo de assédio, é todo tipo de... Maldade. É maldade. Isso é mais do que sério.
Exato. E assim, se eu puder complementar um ponto que você disse, o deju, ele tem um conceito que eu falo no meu livro, porque ele divide as patologias relacionadas ao trabalho, as mentais, em alguns grupos. O primeiro grupo é... Os transtornos relacionados à sobrecarga. E aí ele coloca caroche, que é a morte por excesso de trabalho.
Morte súbita.
Burnout. Os transtornos músculo-esqueléticos, né, que o LERDOS na França tem esse nome, TMS. Depois ele coloca os transtornos depressivos e ansiosos. Depois ele coloca as patologias de ajustamento ao trauma, que é entre o estresse pós-traumático. e o estresse por ajustamento, é o CIDF 43.1.2, que tem, enfim, algumas CIDs ali dentro, divisões, subdivisões. E, por fim, depois ele põe os suicídios e as tentativas de suicídio como uma manifestação extrema de adoçmento mental, porque nem toda pessoa depressiva comete suicídio, mas você tem aquele grupo de gente que vai para um ato extrema. E, por fim, ele coloca as patologias do assédio. E por que ele chama de patologias do assédio? Porque cada pessoa vai ter uma reação particular, individualizada, pessoal, singular, em relação a um assédio. Então vai ter gente que vai se divorciar e não vai adoecer. Vai ter gente que vai desenvolver dependência química ou algum tipo de vício. Enfim, o céu é o limite. Outros vão ter burnout, outros vão deprimir. Mas, assim, é uma miríade de possibilidades. E ele fala de patologias do assédio.
O que é esse Dejú que eu quero conhecer?
Ah, eu posso falar. O professor Christophe Dejú.
Conta pra turma que não sabe.
Eu sou uma grande fã dele, porque assim, tudo que eu estudei e pesquisei sobre isso, e tem muita gente que fala sobre esse tema de uma forma muito boa, mas eu sempre sempre recusei andar na linha que fala que tudo que diz respeito ao sofrimento no trabalho tem que ser olhado sob o ponto de vista da capacidade do indivíduo de lidar com aquilo, de ser resiliente, de ser forte, entende?
Porque aí você joga a culpa no trabalhador se você faz isso. É você que não tem capacidade.
Isso. E a gente tem que olhar para onde está o problema. E o problema está na organização do trabalho. Então é claro que alguém que tem uma predisposição vai ter uma coisa antes de outra. Mas isso não quer dizer que a responsabilidade seja dessa pessoa.
O local é que tá errado, ali que a gente tem que mudar.
Porque também se a gente não sabe...
A gente vai falando, a gente vai falando e a gente se confunde todinho. E o Dejou, quem é o Dejou?
Ele tem essa...
Essa mulherada adora falar.
Ele joga pra organização do trabalho. E ele fundou uma disciplina, ele é um médico, psiquiatra, psicanalista francês. Ele é pesquisador no Quinan, que é o Conservatoire Nationale des Arts et Métiers de Paris.
Ai, acho tão chique você falando francês.
Gente, eu voltei lá em abril.
Ela morou lá, amor. Você estudou lá, morou lá, não foi uma coisa dessa?
Eu estudei muito.
A mulher é chique de verdade.
A França Bélgica e o Canadá, o Quebec, são as regiões em que a gente mais tem avanços nesse tema. Não vou falar dos nórdicos, porque eu não estudei os nórdicos, então eu sei que eles também são avançados. De outras formas, não tão... Mas assim, eles são parecidos com a gente, mas eles são o que a gente ainda não é, no que diz respeito a esses temas. Porque eles são civilistas, no sentido de direito codificado. Os Estados Unidos é common law. Então assim, chega um caso aqui, eu faço a lei pra esse caso. Lá não, eu faço a lei, porque tem muitos casos, né, Exato.
Conforme a sociedade avança, as leis avançam.
Esse é o Dejour. E ele fundou a disciplina que é a psicodinâmica do trabalho, que é baseada na psicanálise.
Entendeu agora?
E ele estuda prazer e condições do trabalho e fala como ninguém. Eu conheci ele quando ele veio no Brasil. Tive a cara de pau de dar um livro meu pra ele.
Ele aceitou?
Aceitou. Ele tava fumando um cigarro.
Ele usa o LinkedIn?
Enfim, como uma franquia.
Deixa eu já procurar ele agora, que é o LinkedIn.
Convido ele. Tô com fumaça na minha cara e eu achei lindo, adorei. Tudo, tudo. Meu Deus, eu tô com dejú.
Ele vai vir pro interioriza quando?
Deixa eu te explicar. Não, nós vamos pra lá, nós vamos pra lá.
Ele tem que estar com a gente, viu?
Nossa, ele estará.
Ele já está, porque ele tá aqui, ele tá no meu coração.
E eu tô lendo agora pra também tá no meu coração. Porque ele é maravilhoso.
Seu Dejú transita só no mundo acadêmico. Eu vi ele várias vezes.
Transitava. Ele não me conhece.
Em circunstâncias de conferência.
Tá, entendi. Vamos então, Dejú. Tô contigo. Quando você fala sobre o assédio organizacional e as doenças psico... laborais, psicossociais e somáticos também. Nós vamos falar sobre isso também depois, num outro episódio, com a nossa querida Diana. Ô Ana, o excesso de estresse crônico, vamos lá, eu não posso usar palavras separadas, por isso que produtividade é sustentável, eu só juntei duas palavras. Não foi nenhuma teoria revolucionária, eu só juntei duas palavras que estavam separadas. Então quando eu estou falando de burnout, eu não posso falar de estresse. Não, eu tenho que falar de estresse crônico por longos períodos em um ambiente profissional em que o estresse não foi gerenciado com sucesso. Porque se eu jogo só estresse, dá a impressão que qualquer pessoa está em burnout. E deixa eu falar uma coisa pra você. Eu não desejo a ninguém um apagão em que você não sabe quem você é, onde você está, em que você perde o chão. Eu tive dois episódios, Luciana teve quantos?
Ai, vários.
Mas o diagnosticado?
De burnout?
É.
Eu tive esgotamento materno.
Tá, esgotamento materno.
Porque assim, o nosso corpo, ele não sabe de onde o estresse vem. Então, se a gente pode viver algo semelhante ao burnout, relacionado a outros ambientes. Então, meu, não foi do trabalho.
Mas foi exatamente isso.
E eu tive um episódio de cinismo absurdo de expulsar da minha casa uma pessoa muito próxima. E eu tenho vergonha disso até hoje. Eu falo, quem era aquela pessoa?
Mas depois disso, você perdeu alguma funcionalidade?
Eu não posso mais esticar a corda da mesma forma.
Essa é outra coisa. Agora a conversa vai ficar boa.
Eu perdi a... o drive de competir da forma como eu gostava.
Você não perdeu nada, você ganhou coerência. Olha só que interessante agora esse ponto que nós chegamos.
Porque eu sei que pode acontecer, porque já aconteceu.
Mas é diferente. Olha só, vem comigo. Lu, capta aqui a mensagem. Esgotamento materno. É uma coisa, burnout materno não existe, porque o burnout está associado ao ambiente profissional e uma vez que o burnout acontece, você perde funcionalidade. Quando você me diz, eu não consigo mais fazer o que eu fazia, mas não era de uma coisa ordinária, como dirigir carro, conversar com as pessoas, capacidade cognitiva. Não, você simplesmente não faz mais as loucuras que você fazia antes. No burnout diagnosticado clássico que eu tenho informação, a gente perde funcionalidade, momentânea ou não. Eu conheço pessoas que trabalharam comigo no passado, que estão há mais de cinco anos afastadas. E por que ela não volta? Porque ela sabe que se ela volta ela vai ser demitida. Então o sistema todo é feito de um jeito para que a pessoa que até pode ficar boa, ela já tenha até medo de ficar boa.
Total. Sim.
Então você entende a diferença?
Eu posso te dar um exemplo.
Diga.
Eu perdi a minha capacidade. Eu fazia fiscalizações de assédio. E aí eu tive um aborto espontâneo no curso de uma fiscalização em que eu estava sendo processada por um banco. E, assim, tendo que me defender do banco, tendo que bancar minha fiscalização internamente, porque pessoas falaram, ah, mas a Luciana vai se meter com essas coisas também, ah, bem feito pra ela, entende? Fica caçando, achou. Então, era muito estresse envolvido.
Você foi processada pra não fazer a investigação.
Exato.
E eu tive um aborto espontâneo. E desde que eu tive esse aborto espontâneo, eu não consegui mais trabalhar com fiscalizações. E eu não faço mais isso, entendeu? Eu não faço e não quero voltar a fazer. E não dou conta de fazer. Algo dentro de mim se modificou. Então, eu perdi. Você fala assim, nossa, a Luciana, a deusa das fiscalizações, não consegue mais fazer. Eu não consigo mais.
Não consigo.
Não consigo mais.
Por isso que nós estamos juntas.
É.
Eu queria, para finalizar, sobre esta gota que transborda o copo. Porque de tanto ouvir pessoas falando sobre esses processos de adoecimento por longo prazo, eu comecei a me aproximar de uma tese. E quando eu dividi essa tese com algumas pessoas, elas me disseram, mas não temos pesquisa. Ah, que bom, então nós vamos fazer a pesquisa. Eu sou dessas. Ah, não tem? Então nós vamos fazer a pesquisa. Confere a minha tese, Lu. Baseada no que eu vivi e em mais de 4 mil pessoas. Que quando eu faço uma pergunta, ela pode chegar na resposta imediatamente ou ela dá até uma titubeada assim. Ela lembra. Qual foi, na linha do tempo, olhando pelo retrovisor, o episódio com características de assédio que fez a gota transbordar o copo, que o desembargador Sebastião Oliveira chama de dano existencial, que ele diz assim de uma forma muito simples, ruptura ao projeto de vida. Eu tinha um projeto de vida. Não quer dizer que agora eu não estou num projeto melhor, mas eu estou dizendo que naquele momento o meu projeto de vida foi rompido por uma questão involuntária minha. É como se eu tivesse pego uma gripe e eu não pudesse voltar depois da gripe. Então qual foi o problema de eu ter pego uma gripe naquele momento? Ah, minha gripe naquele momento que me impossibilitou de trabalhar chama-se hoje burnout. No passado era neurastenia. Nós não estamos falando de problema novo. Nós estamos falando de... Neurastenia. Nome novo para problema antigo. Eu queria ouvir vocês, meninas, qual é a opinião de vocês sobre isso? É possível que um assédio, um assédio não significa que foi único. Não, mas um assédio específico Em um corpo adoecido, pode ter provocado o burnout?
O que eu vejo, a gente precisa fazer pesquisa de burnout. Eu acho que é uma das grandes, sei lá, um dos grandes objetivos aí da nossa união. Eu acho que a gente precisa pesquisar. Tem muito pouca pesquisa de burnout no país. A Isma faz alguma coisa que já é bastante interessante, mas a gente precisa avançar nisso. Eu acho que eu tenho uma casuística bastante grande no consultório aí nesses dois anos. Eu não vi até hoje ninguém, absolutamente ninguém, que chega e fala assim, olha, eu tive burnout e não sei de onde veio. Não tive. Todo mundo que teve burnout sabe exatamente o momento em que isso em que foi virada a liga-chave. Então, quando você me contou isso, minha amiga, lá em Porto Alegre, eu falei, eu estou com você, porque a minha tese é a mesma. Temos pesquisa? Não, não temos.
Ainda não.
Temos estudo duplo-cego, pesquisa qualitativa, sei lá o que nós vamos fazer em relação a isso, que nós estamos ainda planejando? Não, não temos. Mas a gente precisa ter dados a respeito disso, então... A minha impressão é que sim.
E a minha impressão também é que com esses dados nós vamos conseguir a falar em amenizar ou até subtrair ou eliminar uma sede organizacional.
Perfeito.
Não sei se eu ainda vou estar viva pra ver isso, espero que sim. Pri, o que você acha?
Então, quando você falou pra mim, eu também tive dúvidas. Eu comentei com você que eu tinha dúvidas. E eu passei a perguntar isso pra todas as pessoas que vão pra minha consulta. O que acontece? Eu percebo que a minha consulta dura três horas. Por quê? Porque eu quero conhecer... Não é estresse crônico?
É longo período.
É longo período. Então eu preciso entender todo esse período. Quais foram os assédios, quais foram os problemas que essa pessoa passou durante todo esse tempo. E normalmente, sim, tem a gota d'água. A gota d'água é no momento em que você chega a um ponto que a pessoa não consegue mais estirar a corda. não consegue mais, ele não dá conta. Então, ali ele normalmente tem um apagão ou então tem um AVC isquêmico, como teve aquela nossa cliente. Enfim, porque ela chega, tem a gota d'água e ela não consegue mais ultrapassar, ela não consegue mais suportar aquele estresse que é crônico.
Por que que eu cheguei nisso, Thalú? De tantas pessoas me questionarem, mas o que precisou acontecer Para você que, mesmo adoecida, lá, maquiada, pifasse. Porque o que aconteceu então? Você poderia ter ficado mais um ano sem combustível, trabalhando? Você consegue rodar um carro sem abastecer? Não consegue? Essa pergunta era feita para a minha história e outras pessoas começaram a perguntar, mas o que precisa acontecer? Em um processo de adoecimento, o sujeito ter burnout. Aí, somando informações, eu falei, dano existencial. Quando eu conheci o desembargador Sebastião Oliveira, quando ele me falou dano existencial que vem de um assédio, é isso, é um fato que marca nitidamente quando o sujeito que estava tentando, tentando, tentando, adoecido, adoecido, adoecido, ali não dá mais. O que você acha, Lu?
Entendi. Não é necessariamente o nexo, é o colapso da pessoa. Porque o nexo vai ser com toda aquela condição que ela viveu por anos. Essa discussão nossa, ela me remete muito à obra do Dejú sobre suicídio no trabalho. E ele fala o seguinte, o que acontece pra uma pessoa se suicidar no trabalho ou por conta do trabalho? Tipo, você se suicidou em casa e deixou uma carta. Ele fala, geralmente, essas pessoas são as que são mais comprometidas. São as pessoas que dão muito de si. São as pessoas que colocam todos os ovos numa cesta só chamada trabalho.
A Isa tá mandando um áudio pra ele.
E aí ele diz, geralmente, a pessoa tá ali, e ela tá cedendo.
Em presenteísmo?
Ela tá… Em presenteísmo? Ela tá… Às vezes não necessariamente, mas ela tá cedendo, ela tá… Ela já.
Deu tudo, ela tá dando o máximo.
Ela tá de alguma forma, por exemplo.
Achando que tá sendo resiliente.
Isso. E aí ele fala, acontece uma desgraça. O que que é uma desgraça? A empresa ser privatizada. É uma desgraça. Entrar um diretor novo que chama uma pessoa de fora do mercado e coloca aquela pessoa ganhando o que você queria, na posição que você queria, e você tá lá 30 anos esperando. E o diretor novo colocou, então isso é uma desgraça.
E te põe pra passar tudo pro diretor.
Exato.
Alguma coisa que faz essa pessoa tomar consciência do tipo, nossa, o que eu fiz com a minha vida?
Eu suportei, eu pus todas as minhas energias.
Vou contar um caso pra vocês. Tem um caso de um bancário. Nossa, vou acelerar. Um bancário do Banco do Brasil, que ele... Ele não adoeceu, mas ele se divorciou. E um belo dia ele se suicidou. Como? Atiando fogo no próprio corpo depois de jogar combustível.
Meu Deus.
Um cara de tecnologia, um cara bacana, um cara que dedicou uma vida ao banco. E sim, dedicou uma vida ao banco. E o que que fez romper o equilíbrio dele? O casamento acabar. Porque ele falou assim, peraí, o que que eu fiz com a minha vida?
O que que sobrou?
E aí é que tá, não basta se suicidar, eu tenho que me matar e errar. Minha culpa, minha tão grande culpa. Que merda que eu fiz com a minha vida, entendeu?
Então o relacionamento dele deu ruim?
Por conta do trabalho e ele se matou desta forma, porque a forma, isso é direito penal. A forma como uma pessoa, um crime acontece, diz sobre o crime. Ah, tampou o rosto, tampou o rosto, que tipo de arma que usou... E.
Que jeito que ele escolheu pra ser suicidado.
Então, isso diz. Então o Dejô fala que tem uma gota d'água que ele chama de desgraça. E aí, voltando agora pro burnout, né, porque traça esses paralelos, O adoecimento, isso é uma visão minha, né? O adoecimento, ele é uma tomada de consciência. Quando a pessoa adoece, é porque ela tomou consciência. Quando ela tá inconsciente, ela tá tocando. Ela tá lá, ó, vamos lá, 10 cafés e eu tô aqui. Estimadinho. Tá tudo bem, tá tudo bem. Energético. Isso, isso aí. A recuperação é a reconciliação com os conflitos que surgem a partir dessa consciência.
Deixa eu te dizer, é por isso.
Acabei de escrever isso aqui e achei bacana. A recuperação é a reconciliação com os conflitos que essa consciência me trouxe.
Maravilhoso, Lula.
Eu falo que essa mulher é o maior cérebro que eu conheço.
Você que tá acompanhando agora esse episódio, tá fazendo sentido essa conversa? Você está, com o coração, disponível para aprender alguma coisa diferente da que você sabe? Pra entender que a Terra não faz mais parte do centro do universo, porque se esteve em algum momento, chegou a ser Nicolau Copérnico, que, aliás, é o patrono, tá, do Gepatti. Só quero dizer isso.
Vem ele e depois vem o Deju.
Pronto, ok. Me coloco a perna com o Deju, porque... Pra reconhecer o que você tá dizendo, eu preciso ter disponibilidade no coração pra aprender que, poxa, faz sentido isso aqui.
É.
Tá fazendo sentido pra você? Escreve aqui nos comentários o que tá te incomodando, o que tá te estimulando, o que tá te inspirando, tá? Porque essa conversa só começa aqui.
Exatamente. Então, isso que você está falando de gota d'água é isso. O que me fez tomar consciência do que estava acontecendo com a minha vida? No caso dele, foi um divórcio. E, no caso, ele não conseguiu se reconciliar. Ele falou, não tem jeito pra mim, eu não consigo viver sem essa mulher e, tipo, já acabou, ela não vai voltar pra mim e eu não dou conta de conviver com essa culpa. Ela é muito pesada e escolhe essa forma pra se matar. E aí, o momento é o momento da tomada de consciência. E em muitos casos, e aí a sua pesquisa faz todo sentido do mundo, que sei lá, x% será um assédio. É bom a gente conhecer, a gente tem que conhecer, porque isso torna mais ainda relevante a gente prevenir assédio, a gente enfrentar assédio, a gente ter canais de... enfim, de encaminhamento, de resolução.
Seguros, porque senão acaba virando um segundo assédio.
Todo mundo fica sabendo cinco minutos depois. Em outros, será o resultado do assédio. E aí que tá. Em outros, será uma situação em que a pessoa também não se reconhece. Então, assim, o resultado do assédio, por exemplo, eu tô aqui sofrendo assédio organizacional e Tô tão bagunçado, tô tão cansado que perdi, sei lá, a apresentação da escola do meu filho. Então assim, não foi o assédio, mas é o que resultou desse assédio.
O que resultou?
Entende? Poxa, como assim? E já isso já nem aconteceu um dia. Exato. Um dia, sabe? E a minha filha falou, eu não vou, se a minha mãe não estiver aqui, eu não vou apresentar. Eu vou chorar daqui a pouco. Só pra eu concluir, em uma terceira situação, uma situação que a pessoa não se reconhece. E aí tem tudo a ver com burnout. O que é despersonalização? É tipo, eu não reconheço esse corpo, quem eu virei, quem eu me tornei, quem sou eu.
Que atitude eu tomei.
Ou cinismo. O cinismo é quando a pessoa, ela tá... Incorporando o abusador, ela tá... Lembra que você mandou uma reportagem de um cabeleireiro que ele fala que ele pegou uma lata de lixo e mandou numa pessoa?
Sim, sim.
Quando ele faz, você fala assim, eu não sou essa pessoa. Então, o cinismo, de certa forma, é uma despersonalização também. Só que ela é uma despersonalização que vai pro agressivo, passivo-agressivo. Porque ser cínico é ser passivo-agressivo.
E só pra deixar uma perguntinha no ar antes da Isa Maravilhosa fechar. E tem gente... que ouve tudo isso e ainda diz que burnout não existe, que burnout não é doença. Só para deixar aqui a pergunta para um próximo convite que a Isa vai fazer para a gente gravar em interioriza.
Eu quero o número dois com esse tema.
Com certeza.
Burnout é ou não é doença?
Com certeza.
Eu também.
Eu quero o número dois com esse tema. Fechado. Burnout é ou não é doença?
Fechado. A Mauri? Só lembrando que nós estamos gravando esse episódio no estúdio do Amaury Mauro. O melhor café da região. Já disse, sabe quem? Mário Sérgio Cortella. Um beijo pra você, concordo. Vamos lá. Eu tô muito feliz que vocês estão aqui. Luciana tá falando, ela tá se soltando, ela tá sorrindo. Porque eu posso imaginar o quanto você já não sofreu. por encontrar situações incapacitantes. Agora você é médica, agora você é advogada, agora você é o que você quiser.
Exatamente.
Olha o que eu ganhei da Lu. De médico e louco, todo mundo tem um pouco, mas eu tenho muito. Assino embaixo. Doutora Luciana Veloso Barucchi, médica, e Isabela Camargo. Você também?
Maravilhosa.
Você também?
Claro.
Claro.
Quem tem um pouco de loucura e coragem? Porque a loucura, ela é chamada até dar certo, aí é coragem. Uma ideia? Você é chamada de louca? É, nunca me esqueço. Quando eu tava lá no Joel J, começando a falar sobre produtividade sustentável, a turma me olhou... Aí o Joel pegou e me pintou. Ele falou assim, você acredita ou não no que você tá falando?
Ele é folgado.
Claro que sim. Entende? Então, algumas pessoas me chamaram de louca. Como que você tá falando de produtividade sustentável?
Para um pouco.
Separa a sílaba. Relê o que significa produtividade sustentável. Você ser produtivo de forma longeva. Só que no estilo de vida insustentável que muitas de nós vivemos, nós não vamos chegar em lugar nenhum. Então, eu tô muito feliz por você estar aqui, por você ter se disponibilizado. Esse seu insight foi maravilhoso.
E a gente tá presente, né, Izzy? Então é maravilhoso, que vai ficar pra história, né?
Afemaria. Deixa ali então pra aquela câmera.
E ele não teria sido possível se vocês não estivessem presentes. Você me prestou o bloco.
Viu porque a troca é fundamental? O grupo é fundamental?
O grupo é fundamental.
A gente também precisa se sentir autorizada a fazer as coisas, entende? Quanto mais eu estudo neurociência, mais eu fico fã das frases que minha bisavó falava.
Eu também.
É sobre isso. É sobre isso. Não precisa ir muito longe. Volta pra trás e fala.
Total.
Total. Diga com quem tu anda e direi quem tu és. Então é isso.
Obrigada, Sr. Nicolau. Deixa ali as suas redes para a turma que quer continuar aprendendo com você.
Eu tenho um perfil, acedionet, no Instagram. Tenho também um perfil no LinkedIn. No LinkedIn não posto muito, mas recebo perguntas lá, contatos mais profissionais. Tem canal no YouTube também, onde eu tenho palestras antigas. O canal Assédio.net está lá. Tem também um canal com meu nome, Luciana Barucki. E é isso, gente. Eu estou disponível. Atendo como mentora também, como médica, não muito. Poucos horários que eu abro pra isso, porque eu também aprendo e eu tenho essa necessidade de estar lidando com o tema também de uma forma mais prática, a partir agora da visão de paciente, da visão de pessoa que precisa se recuperar e se, enfim, tornar funcional de novo, né, Isa? Acho que é isso.
Sim.
Você, doutora Priscila. Agora nós vamos na ordem inversa. Vamos, tá.
Eu sou... Meu canal... Pri Arrais, underline advogada. E eu tenho também um canal no YouTube, Arrais e Centeno, com C, que a gente fala de direitos trabalhistas e previdenciário para as pessoas de forma descomplicada.
Bom, primeiro lugar, queria dizer que estar.
Nesse grupo é surreal, é maravilhoso. Vocês me estimulam a ser cada dia melhor e me acolhem. É maravilhoso demais estar aqui com vocês quatro, com a Diana, com a Ana, com a Mariolana, com a Carol Milters, que é maravilhosa, responsável pela semana. da conscientização do burnout internacional, né? E a Carol, acho que é a grande responsável, realmente, por essa união.
Sim.
E por essa conexão, né? Então, deixar um beijo bem carinhoso pra nossa fititica linda e dizer que, então, se você quiser me encontrar, eu tô lá no Instagram, arroba DRA doutora Ana Paula Pena e lá tem todos os meus links pra consultório, eu atendo consultório, faço consultar por telemedicina atendo pessoas do país todo. Tem ali o link para o meu podcast Neurotox gravado aqui nos estúdios Amauro e Mauro. E lá no Neurotalks, pessoal, você pode ver episódios com Isa Camargo, Luciana Barucci e Priscila Reis, que foram episódios, assim, muito marcantes, de bastante repercussão. E dizer que é um prazer enorme estar aqui. Obrigada, minha amiga.
Foi demais.
Foi incrível.
Foi demais. Dando um abraço, então, especial na Carol Milters, na Diana Soares, na Ana Tomazelli e na Mariolanda. Além da Alessandra Bruno, que é uma assessora de imprensa que está também fazendo um baita de um trabalho junto com a Pineapple pra tentar trazer todas essas vozes de uma maneira bem simples pra que todo mundo compreenda. Eu espero que você que ficou até aqui conosco, que você tenha reconhecido que dá pra pensar diferente. E se a gente pensa diferente, a gente também pode prevenir muitos problemas. É sobre isso que nós, então, continuamos juntas.
Continuamos juntas, sempre. No Gepatti.
No Gepatti. Agora eu quero, pra encerrar, que Luciana Barucchi fale em francês. Déjou, seja bem-vindo. Vai. Déjou, seja bem-vindo.
Déjou, vous êtes totalement bienvenue à l'interioriser.
Não, Gepatti.
Gepatti.
Gepatti.
Ah, o Gepatti.
Maravilhoso. De novo. Again.
Au groupe de prévention de... Adoecimento. De la maladie du travail.
Ah não, eu não aguento.
Saúde! Cheers!
Acho que a gente vai ter que fazer um evento na França. Acho que isso aqui foi uma questão de um registro quântico pra gente ir pra França.
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O processo de reconhecer limites, mesmo quando a vida parece exigir sempre mais.

Depois de tantas histórias, aprendizados e pausas necessárias, o @interior_iza está de volta








