Generosidade Alterista: entenda o conceito e a importância de se impor limites - Ïnterior iza EP 25

Isabela and Cris Anata discuss a new Brazilian law on gender pay equality and the concept of altruistic generosity with limits. Cris explains why setting boundaries in generosity prevents burnout and improves productivity in corporate settings.
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Eu não sei se você sabe, mas desde 1943, a diferença salarial entre homens e mulheres sempre foi proibida. Mas aí, como dificilmente foi cumprida, o presidente Lula assinou recentemente uma lei em que determina que homens e mulheres tenham o mesmo salário. Será que isso vai funcionar depois de tantas décadas já estando na CLT? Agora tem que ser lei, então é o óbvio em cima do óbvio. Quem vai explicar pra gente esse assunto é a especialista Cris Anata. Cris, obrigada por estar aqui.
Obrigada pelo convite, Isa.
Primeiro, eu quero entender contigo sobre essa lei, pra depois a gente falar sobre as suas especialidades. Por que o Lula precisou assinar uma lei que define que os homens e mulheres precisam ter o mesmo salário?
É importante a gente frisar aqui que realmente já existia o artigo 461, lá da Consolidação das Leis Trabalhistas, falando sobre a equidade de salários entre homens e mulheres. Só que existia um grande problema. Por quê? Porque não estava instrumentalizado a penalização. Então, a ministra agora, Cida Gonçalves, ela ficou muito em cima para assinar o projeto de lei, que foi o 1085, e o Senado aprovou. Passou pelo Congresso, passou pelo Senado, e no dia 3 de julho, finalmente, o Lula aprovou a lei 14.611, que traz essa igualdade salarial entre gêneros. Por quê? Na verdade, isso, o que acontece? A gente vê que existe uma questão, quando a gente analisa homens e mulheres dentro das organizações, onde existe uma discriminação. Agora mesmo foi assinada também a lei de violência, assédio moral e sexual. Então, tudo isso vem para corroborar e também para instrumentalizar uma penalização que não era tão clara. E, além disso, além dessas multas, eles vêm trazendo algumas categorias específicas de promoção de igualdade dentro das organizações. Isso é muito importante. porque traz esse aspecto da diversidade dentro de uma lei. Então, vamos fazer capacitações para lideranças, vamos fazer outras, promover a diversidade, equidade e inclusão, não somente dentro do aspecto do ESG, por exemplo, do Environmental, Social and Governance, mas também dentro de um aspecto que seja jurídico, que seja realmente instrumentalizado. Então, vamos trazer tudo isso pra dentro dessa lei e que as empresas com mais de 100 colaboradores e colaboradoras, elas serão penalizadas se elas não cumprirem com essa lei. E além disso, essas empresas, elas terão que ter canais de denúncia, isso é importante porque a mulher, ela se torna uma pessoa mais empoderada ali dentro pra poder contribuir aí com o trabalho dela.
Perfeito. Uau, crise do céu. Então, vamos ver se a turma está entendendo. Desde 1943, a CLT já colocava desigualdade salarial como... Impossível, por exemplo, não deveria, mas não tinha multa. Mas não tinha multa para quem fizesse essa diferença salarial.
Exato.
Aí, agora, nós temos, então, uma lei que pode multar a empresa que não paga o mesmo salário para homens e mulheres que estão na mesma função.
Exato. um trabalho de igual valor, que é uma subjetividade da lei. A lei tem várias subjetividades, por exemplo, trabalho de igual valor. O que significa um trabalho de igual valor? Como que os relatórios de transparência? Porque uma das multas é referente ao relatório de transparência. Claro, tem que ser anônimo, porque a gente tem que cumprir também com a LGPD. Só que esses relatórios, para empresas que tenham mais de 100 colaboradores e colaboradoras, elas vão ter que entregar semestralmente esse relatório. Só que como que esse relatório deve ser entregue? Então, ainda não sabemos, não existe um protocolo para isso. Não existe um protocolo de fiscalização, que no artigo 6º traz que será implementado esse protocolo. Na Espanha, eu atualmente moro na Espanha, estudo essa lei na Espanha, e lá já faz muito tempo que essa lei existe, desde 2007. Mas passaram vários anos para instrumentalizar tudo isso, para protocolizar tudo isso, e para que a gente pudesse compreender quais são os gaps que existiam nessa lei e poder melhorar cada vez mais, né?
Então, quando você observar na internet, na televisão, ouvir no rádio, onde quer que seja, você ouvir falar lei da igualdade salarial de gêneros, significa que você do gênero feminino, se estiver recebendo um salário inferior a alguém com a mesma função do gênero masculino, multa. para empresas com mais de 100 funcionários?
Não. Na verdade, significa que se houver esse colaborador ou colaboradora, eles determinarem ou elas verificarem que existe essa diferença, porque é outra subjetividade da lei. Porque, imagina, a empresa que tem mais de 100 pessoas, ela vai precisar fazer esse relatório de transparência. Maravilhoso! Só que para quem ela vai entregar esse relatório?
Para quem?
Para quem? Na Espanha é para os sindicatos, mas no Brasil, para quem? Então, ainda tem muita coisa para ser feita, tem um longo caminho pela frente, mas a gente já ganhou nesse primeiro momento, porque existe uma lei. Agora, as empresas terão que fazer planos de ações, os planos de ações de igualdades e oportunidades, e aquela pessoa que olhar ali, imagina, entregou o relatório que seja para o sindicato, a pessoa olhou ali, naquela posição, um homem ganha dois mil e eu ganho mil. Eu posso ir lá e falar, olha, esse salário não é igual ao meu, então essa empresa vai ser multada porque não existe uma equiparação salarial ali.
Existe já um teto de multas ou não?
Existe um teto de multas. Para quem não entregar, para as empresas que não entregarem o relatório, está determinado lá esse teto. Ele, eu acredito que é até 100 salários e tem um mínimo de salários ali e para outra também está determinado na lei. Essas multas.
Ok. Cris, quem está te vendo agora no Interioriza, em que nós trazemos pessoas super especiais para a gente interiorizar ideias que já passaram do tempo da gente assimilar? Devem estar te vendo e falando assim, nossa, mas essa mocinha, falando de coisas tão fortes, né? E aí eu perguntei aqui nos bastidores, essa é uma pergunta que a gente sempre tem que fazer nos bastidores, porque tem mulheres que não gostam de falar idade. Você me falou sua idade e eu fiquei muito surpresa. Porque fisicamente você parece que tem bem menos.
Obrigada, mas não.
Pode falar?
Pode.
A Cris tem 45 anos, gente. Pensa. Papai do Céu foi muito, muito generoso com a sua genética. Estou falando isso porque você transmite muita segurança na sua fala e você sabe do que você está falando, porque você vem estudando isso há muito tempo. Então, estou fazendo uma brincadeira para quem está nos acompanhando. Se você está achando que a Cris é, aparentemente, uma pessoa muito jovem para falar dessas coisas de leis, não. Inclusive, na sua página, Lá no Instagram, eu achei curioso quando você fala sobre a cultura da generosidade alterista, com limites. O que é isso, Cris?
Nossa, Isa, tem todo um processo, né? Uma jornada que eu preciso explicar. E também que tem muita sinergia com o que você fala. Então, acho interessante explicar pra audiência isso, pra que as pessoas entendam. Porque não é do nada que eu cheguei e falei assim... Ai, vamos falar sobre generosidade, não é assim. Inclusive, queria deixar claro aqui que eu não sou advogada, tá gente? Eu não sou advogada. Eu sou administradora de empresas e o que eu falo, desde o aspecto do ponto de vista de leis e tudo isso, é dentro do aspecto da diversidade, equidade e inclusão. Então, é importante deixar isso claro porque assim, eu entendo das diferenças, entendo um pouco da lei, mas para aprofundar na lei, a gente deixa para as advogadas e advogados trabalhistas.
Entendi. Então, estudando o gênero, as diferenças de gênero, você chegou na generosidade.
Foi, exato.
E o que é alterismo?
Então, na verdade, assim, eu tenho uma jornada toda num ambiente corporativo. A minha vida profissional foi no ambiente corporativo. Em 2020, eu assumi uma diretoria global, era uma empresa de energia renovável na Espanha. Só que, em 2018, eu já comecei a pensar sobre a minha generosidade dentro das organizações, porque, naquele momento, eu já cuidava de mais de duas mil pessoas em obras espalhadas no Brasil todo. E obra já é um ambiente super masculinizado. E, além disso, a empresa que eu trabalhava é uma empresa espanhola. Então, eu era uma das únicas mulheres em posição de diretoria. Então, o meu desafio era ainda maior. E não só por ser mulher, mas por ser mulher e brasileira na Espanha. Então, eram grandes desafios. E a generosidade começou a fazer parte da minha vida, porque, na verdade, eu sempre fui uma pessoa generosa. Eu sempre quis fazer tudo pras outras pessoas, mas por quê? Porque acredito hoje, estudando, que era uma construção também, sabe? Porque minha mãe foi passada pra mim, minha avó era assim. E parece que quando você é mulher e não é generosa, parece que alguma coisa tá errada, né? Então, eu comecei a estudar sobre isso dentro das empresas, porque é muito fácil a gente falar de generosidade desde o ponto de vista da doação do ambiente cristão ou do ambiente monetário. Tipo, você doa o seu tempo, você doa o seu dinheiro, você doa o seu trabalho, você doa o seu conhecimento. Mas e dentro da empresa? Como funciona a doação? Quem ganha? doando, e será que existem mesmo pessoas generosas nas organizações? Quem são essas pessoas? E eu li o livro Dar e Receber, do Adam Grant, que é o professor e psicólogo... Ele estava em Harvard quando escreveu esse livro, depois ele foi para a Universidade de Wharton. E lá, nesse livro, ele traz os perfis das pessoas dentro do aspecto da generosidade nas empresas. E ele define quatro perfis, que são os tomadores, os compensadores, os doadores altruístas e os doadores alteristas, que não é inglês, gente, é success givers que ele chama, mas para o português traduziu alterista e eu uso essa palavra.
Alterista.
Alterista.
Que é uma pessoa generosa. Com limites.
Com limites, só que assim, a pessoa generosa com limites dentro da empresa, o que acontece? Imagina que nas pesquisas que ele fez lá no Google, no Facebook, nessas empresas, ele verificou que 19% das pessoas dentro das empresas são tomadoras.
Eu posso substituir tomadoras por cobradoras?
Egoístas.
Tomadoras.
Egoístas, tá. São pessoas que elas agem intencionalmente pelos seus próprios interesses.
Tá.
Então, elas são estratégicas, sabe? E aí, elas... E outra coisa interessante dessas pessoas é que elas não se... Elas, assim, elas não perdem tempo em te pedir o que elas querem e ainda te fazer culpada se você não fizer aquilo que ela quer.
Pausa.
Conhece?
Breaking News. Nesse momento, entraria aqui uma tarja. Breaking News. Eu não sabia que tinha um estudo disso não, gente. Tá escrito no livro do Adam Grant, então. Quatro perfis de generosidade dentro das empresas.
Isso.
Então, aquela pessoa que não sabe pedir, que te exige... Tomadora. Tomadora. Conhece alguém? Coloca aqui nos comentários. Qual o outro perfil?
56% das pessoas dentro das empresas são compensadoras, ou seja, a pessoa faz para a outra se a outra fizer para ela.
Tá. Toma lá da cá.
Toma lá da cá.
Isso. Conhece alguém assim? Escreve aqui também.
Altruístas, e aí entra o teu ponto também, que é a pessoa faz muito para os outros e para as outras, só que ela acaba se esgotando. A saúde dela, ó, vai lá para baixo. Por quê? E, além disso, essa pessoa ainda pode ser mandada embora, porque ela não faz o dela, ela faz de todo mundo. E ela não é reconhecida.
Mulher, essa pessoa vai ter burnout.
Pois é.
Meu Deus! Nunca tinha ouvido falar sobre cultura alterista.
Sim, e as alteristas, porque os doadores e doadoras, o Adam Grant, ele não separou o percentual entre altruístas e alteristas. Então, são 25%. E essas pessoas, elas são divididas. As alteristas, sim. Porque, gente, o que acontece? Nós nascemos com uma ética natural para a generosidade. O ambiente vai transformando a gente. Quem nunca trabalhou em empresa, Aziza? Por exemplo, eu já trabalhei em empresas assim. Muitas pessoas que o ambiente vai fazendo com que a gente se torne uma pessoa tomadora. Então, ali no alterista, a pessoa é generosa, o que é essa generosidade? É você ter consciência sobre o seu ato de generosidade e saber que aquele ato, os benefícios da sua doação, eles vão superar os seus esforços. Então, tipo, você vai entender que esse benefício não vai ser bom só pra você, vai ser bom pra você e pra outra pessoa. E aí você sabe equalizar isso, você sabe equilibrar. Então, você vai fazer aquilo pra quando? O Adam Grant traz também essas informações, ele fala. A pessoa doadora, a autorista, ela sabe quem ajudar, quando ajudar, por que ajudar e como ajudar.
Meu Deus, eu acabei de me descobrir. Acabei de saber o que eu me tornei.
Você se tornou. Eu te admiro por isso também, porque você, pra gente, a gente que estuda, que eu falo, as pessoas que trabalham comigo no Ensabe, a gente conheceu você porque a gente falou, a Isabela é uma pessoa.
Me tornei depois do burnout. Vou tentar traduzir, ver se eu entendi direitinho, tá? Isso significa que quando você diz sim para todos, tentando ser o máximo generosa, porque existe uma pseudo meritocracia, ou você está fazendo o seu melhor, porque naturalmente você vai ter as suas trocas financeiras e emocionais, isso não acontece, com o tempo você vai deixando de ser generoso consigo, pra ser generoso com todo mundo, e aí dá ruim. Mas o burnout é uma das coisas que eu tô vendo aqui. Uma pessoa que não sabe colocar limites na generosidade pode viver o quê, Cris?
Então, até eu assisti uma entrevista esses dias sua, que você falava exatamente dos nãos. E aí te perguntaram, ah, mas então quer dizer que a gente... Se a pessoa fala não pra outra pessoa, o que acontece? Ela não vai ser mandada embora? Não, gente, por incrível que pareça. Sabe o que acontece? Principalmente, porque o Adam Grant, ele não estudou viés de gênero, tá? Eu fui estudar, estou fazendo mestrado, uma tese de inovação social, que traz essa questão. Ok, a generosidade dentro dos ambientes corporativos, eles são tanto para mulheres quanto para homens, só que a gente vê um monte de pesquisa em diversidade, equidade e inclusão, o que acontece? As mulheres, elas vão e fazem as ações, principalmente em gay, só que elas não são reconhecidas por isso. E quando você falou sobre esses nãos, Tem uma pesquisa que traz também que quando a mulher, principalmente no ambiente corporativo, ela começa a aprender a falar esses nãos, e a gente não tá falando que você tem que ser agressiva, a gente não tá falando que você tem que ser assertiva e entender o seu próprio limite. Quando você faz isso, você é mais reconhecida.
Breaking News, de novo, para cá. Para a mulher que diz não, responde aqui para essa pessoa que está nos assistindo aqui nessa sua câmera. Quando a pessoa sabe colocar limites na oferta dela de trabalho, ela é mais respeitada?
Mais respeitada. Por quê? Porque as pessoas começam a ver aquela pessoa com argumentos, com assertividade, começam a ver que ela também tem as razões dela para as coisas, e isso faz com que empodera. Isso faz com que aquela mulher, ela se torne uma mulher profissional no que ela está fazendo. E, às vezes, é muito melhor você fazer isso do que você falar que vai entregar e não entrega.
Ou que vai entregar e depois adoecer.
Exato.
É o famoso funcionário do mês e afastado do mês. Ô Cris, pera lá. Isso me faz lembrar uma frase que é assim, quando você diz sim pra todo mundo, pode até ser que gostem de você, mas isso não significa que te respeitem.
Não.
Como é que foi a sua jornada antes dessa transição? Porque pelo que eu tô entendendo aqui, você era uma mulher de exatas e agora tá indo pra humanas. Essa fase de transição começou quando você percebeu que você estava se doando demais, é isso?
Foi, exatamente. Porque eu percebi que eu estava muito cansada. O que acontecia? Na verdade, gente, aconteciam várias coisas, né? Tipo, você chega em casa, eu sou casada, aí você chega em casa e teu marido fala pra você, nossa, você tá batendo muito forte o salto no chão.
Ah, já gostei do seu marido. Qual é o nome dele?
Marcelo.
Marcelo, me conta mais.
Aí ele falava, por que isso tá acontecendo? Não tem alguma coisa?
E sensibilidade.
É, por causa do salto. E eu tava muito nervosa, muito ansiosa.
Irritada.
Eu assim, eu lembro que eu tive psoríase rosa, sabe? Por causa do estresse. Eu tive várias... O meu corpo, né? O corpo vai te dando essas... Vai te mostrando o que tá acontecendo com você. E também pela questão de chegar uma hora... Porque assim, eu acho que quando você começa a sentir tudo isso, ou você vai pra um extremo, que é o esgotamento mesmo, o burnout, ou você vai pra apatia. E eu cheguei a começar a ficar apática. Então, eu já não queria mais fazer as coisas, eu não tava mais naquele ambiente. Eu tava muito me sentindo uma pessoa que não tinha mais vontade ali. E, ao mesmo tempo, todo mundo pedindo as coisas para mim. E eu não participando das coisas que eu deveria participar na empresa. Então, não sendo reconhecida, sendo generosa demais. Então, esse ciclo, ele vai se alimentando cada vez mais. Quando eu percebi isso, eu falei, nossa, eu não quero mais isso. E fui estudar. Nesse momento, eu... Nossa, gente, vocês não têm ideia. eu li, acho que em um ano, eu li, assim, uns 30 livros. Porque eu queria saber o que tava acontecendo comigo. Então, eu li... Nossa, eu li Branny Brown. Tanto que a Branny Brown, sabe? A Coragem de Ser Imperfeita.
Meu sonho é falar com ela.
Ela fala, sabe o quê? Sobre limites. Ela é muita amiga do Adam Grant. Eles têm um podcast, tudo que eu escuto direto.
É mesmo?
E ela fala assim, não existe generosidade sem limites.
Repete, por favor.
Não existe generosidade sem limites. Então, a gente tem que desconstruir essa ideia da generosidade. E o que a gente faz? A gente leva isso para o ambiente corporativo. Por quê, Isa? Porque quando você conhece o seu próprio limite, você respeita o limite da outra pessoa.
Uma salva de palmas. Pode repetir, por favor, para esta câmera.
Quando você conhece o seu próprio limite, você respeita o limite das outras pessoas.
Vai dizer assim, então, vou te perguntar a mesma coisa que me perguntam, tá? Cris, mas como é que eu faço quando me pedem alguma coisa no emprego e eu tenho medo de dizer não? Os boletos chegam, né Cris?
Sim, os boletos chegam. Só que acontece que você tem que pensar estrategicamente. Eu sempre falo uma coisa, a autenticidade não existe no vácuo. Então, o que as pessoas falam? Ah, eu tenho que ser autêntica, eu tenho que falar qualquer coisa, eu tenho que ser o meu jeito. Não é assim. Eu acredito que a autenticidade, ela tem que ser estratégica. E dentro de uma empresa, você tem que conquistar relacionamentos de confiança. E nesse momento, você tem que usar a sua estratégia de autenticidade Para você conseguir mostrar para as outras pessoas qual é a sua vida, qual é a sua história, quais são os seus valores e qual é o seu propósito dentro daquela empresa. Quando você consegue mostrar isso para uma liderança, aquela liderança vai respeitar os seus limites. ela vai entender que você precisa falar não para algumas coisas. Por quê? Não porque você não queira fazer, mas sim porque não vai atingir o resultado que ela espera. E com certeza aquela pessoa espera um resultado. E aí você falando não, e você falando eu não posso fazer agora, mas eu posso fazer amanhã.
Gente, uma salva de palmas de novo. Iza, como é que eu não tinha conhecido você antes?
É que eu tô assim agora, porque eu tô terminando a minha tese de mestrado.
Que tese?
Eu simplesmente larguei tudo, gente, em 2020. Eu larguei tudo, Iza, tudo. Sabe o que é você ter... Bom, você sabe.
Não, me conta você.
Mas você sabe, porque assim, o que acontece, quando você tem um... Gente, muitas pessoas... Não tô falando pra todo mundo fazer isso, porque foi todo... um planejamento, tá? Eu tive um planejamento financeiro, eu tive o apoio da minha família, eu conquistei esse apoio. Também não é fácil, a gente conquista. Mas o que acontece? Eu tinha uma posição de liderança que, querendo ou não, né? Vamos falar muito sinceramente, o dinheiro cai.
Opa, todo mês, né?
Todo mês está lá. E eu percebi que eu poderia muito mais contribuir com o mundo saindo da empresa do que estando nela. E então eu falei, eu vou deixar tudo isso. Eu falei pro meu marido, ele falou... Porque a gente não tem filhos, tá? Também tem isso, que foi uma decisão minha e dele.
Pera lá, pera lá, que tá chegando aqui um insight meu. Outro dia eu ouvi o João Branco aqui no programa, ele saiu do McDonald's e muito bem do McDonald's, ele só percebeu que ele poderia ser muito mais útil pro mundo fora dali e podendo inspirar outros líderes. Você teve consciência, então, na empresa que você trabalhava, em que você pede para sair, que o lance é individual, porque o sistema é o sistema.
Sim.
Eu vejo muitas pessoas perdendo muita energia e tempo. Ai, porque o sistema... Gente, as coisas são como são. A questão é como você vai se colocar diante das coisas como são. Então, você saiu de boa da empresa.
Tanto que o presidente da empresa, meu amigo até hoje, o diretor daqui, o presidente da empresa, pra você ter uma noção, quando eu falei que eu ia sair, ele não queria que eu saísse, ele falou pra mim, trabalha meio período.
É, você era generosa, qual generosa?
Altruísta na época. E sabe o que ele falou pra mim? Ele falou assim, como você sabe se o seu projeto vai dar certo? Fica aqui meio período. Eu falei, e como você sabia quando você começou o seu? Entende? Então, a gente... E outra coisa, antes de eu sair da empresa, eu coloquei o meu projeto dentro do meu departamento.
E aí?
Porque eu queria ver se esse negócio que o Adam Grant falava funcionava mesmo. Então, a gente estava com questões de deadlines não cumpridos, prazos não cumpridos, questões também relacionadas à produtividade e conflitos, mais conflitos. Será que toda empresa tem? E quando eu implementei o projeto, foi muito bacana. Porque eu saí da empresa com um projeto implementado, uma pessoa já pra me substituir dentro ali. As pessoas super engajadas nos projetos. E eu saí tranquila da empresa, tranquila. Por mais que eu sofria algumas questões de discriminação, assim, mas não... Sabe o que eles falam que são pequenas discriminações? Microviolências. Isso, mas são, né?
É micro porque não sofre, né? Porque quem sofre é macro mesmo.
É macro. É macro. E eu percebi, sim, Iza, que aquilo lá já não fazia parte.
Entendi.
Da minha vida.
Entendi. Poxa, Cris. Você acredita que o tempo já acabou? Não. Passou muito rápido. E é curioso porque você começa o programa falando sobre a lei, ou seja, é um tema que você está se aprofundando, e aí a hora que você começa a falar da sua jornada, você foi se transformando e os seus olhos estão brilhando, sabe? Eu estou vendo agora que o seu olho é verde.
É verde.
Coisa mais linda. Cris, então vamos lá. Para quem costuma dizer assim, o fulano é altruísta, olha que coisa boa. Para o mundo é, mas para o sujeito que não está se cuidando pode ser bem perigoso, é isso?
Muito perigoso, principalmente no final da vida, né? Porque, claro, a gente chega em um momento da nossa vida que nós... A gente vai conquistando as interações sociais, a gente vai conquistando aquilo que a gente quer na vida, mas nem todo mundo consegue chegar lá. Muitas pessoas, elas chegam no final da vida e pensam, por que eu me doei tanto para os outros e não fiz nada para mim? Então, acho que essa é a grande pergunta que a gente tem que fazer hoje, não quando a gente chega lá no final da vida. A gente tem que pensar porque a gente não tem problema, tá? Você não vai ser julgada se você falar não pra alguém ou se você colocar limites na sua generosidade ou julgado, vocês não vão... não tem problema isso. A gente tem que desconstruir essa ideia da generosidade. Generosidade é uma palavra, somente isso. Também é uma construção de linguagem. A gente pode transformar isso para generosidade autorista. Eu sou generosa? Sou. Mas eu tenho limites.
É isso que o mundo precisa, gente. Não é ofetamina, não é droga, não é ilusão. Truísmo alterista, generosidade alterista.
Estou chocada.
Então, para você que está achando que estão abusando de você, de repente sim, porque você está deixando de ser abusado.
Exato. E também, Isa, só para finalizar, as empresas, elas têm interesse e elas deveriam ter muito mais, porque nos Estados Unidos, gente, o Adam Grant já fez isso, mas aqui no Brasil ainda não pegou esse termo, por mais que o Pedro Shiozawa da GPTW tenha falado lá quando você deu a palestra com ele no SESI, ele falou que uma das coisas que apareceu mais nas empresas no relatório deles de tendências foi a palavra generosidade. E as empresas, o que acontece? Quando elas perceberem isso, elas vão mudar o pensamento delas, o mindset delas. Por quê? Porque elas têm interesse que existam pessoas doadoras, alteristas dentro das empresas delas. Por quê? Isso aumenta a produtividade. aumenta a taxa de engajamento com ações de diversidade, equidade e inclusão, porque, claro, você não precisa aceitar, engolir algo que você não acredita, mas você precisa respeitar. E esse projeto dentro das empresas, ele faz com que as pessoas respeitem as histórias, os valores e o propósito das outras pessoas. E isso faz com que fique muito, mas muito mais fácil implementar as ações de diversidade, equidade e inclusão. Porque se você não faz isso antes, as ações não trazem resultados.
Não trazem. Ô, Cris, você sabe que você está me lembrando um dos pontos-chave da segurança psicológica. A segurança psicológica da professora Amy Edmondson, ela está amparada em sete pilares, e um deles é o apoio mútuo. E apoio mútuo, que para mim é a generosidade alterista, é você ser compreensivo com aquele que está contigo para um bem maior e está precisando de ajuda, mas você não pode ajudar alguém se você se coloca em risco. Então, apoio mútuo é apoiar naquilo que você também é capaz e não assumir pesos maiores do que você vai carregar.
E comunicar isso?
Segurança psicológica.
Porque se você não falar, ninguém vai saber.
Mas olha, Cris, nosso tempo acabou. Nós temos muito mais pra falar, mas a turma que continua, que tá muito interessada ainda nesse assunto, como eu estou, nós vamos te seguir por onde?
No Instagram é Crisanata, Insabi, LinkedIn, é uma plataforma que eu uso muito.
Crisanata.
Insabi.
Insabi.
Instituto de Alterismo do Brasil.
Tem um instituto.
Sim. Acabei... Eu criei o ano passado pra levar essa... Deixa eu já entrar aqui.
Cadê?
Esse conceito. Insabe.com.br.
Insabe.com.br. Tem página no Instagram? Ainda não. É.
É Crisanata Insabe.
Aqui. Tô aqui.
Ah... Instituto Nacional... Instituto de Alterismo do Brasil.
Instituto... Instituto de Alterismo do Brasil. Então, alterismo é altruísmo com limites.
Isso. Exato.
O que você gostaria, então, de encerrar aqui a nossa conversa? Essa é uma cerimônia das areias que eu quero te convidar. Você pode escolher uma cor. Pode colocar a quantidade que você quiser, desejando aqui, pra turma que está nos escolhendo, o que você quiser. Tá.
Vou escolher o amarelo.
Amarelo. O amarelo é a cor número um aqui das escolhas, sabia? É?
E eu falo, né?
Pode falar.
Bom, eu desejo que as pessoas, então, que estão nos vendo, que elas comecem a pensar mais sobre a generosidade delas próprias e também sobre os seus limites. Porque você não precisa aceitar tudo, você não precisa fazer tudo, você não tem nem capacidade de fazer tudo que você quer, mas você precisa entender que você tem esses limites e que esses limites são importantes para a sua saúde. e para a sua vida e para a sua socialização. Porque as pessoas, quando você fala esse não, quando você coloca esse limite, as pessoas irão compreender o que você é, o que você pensa e o que você necessita.
Maravilhosa. Eu podia encerrar, mas antes eu vou fazer mais uma brincadeira de uma pergunta que a gente não respondeu inteira. Mas e os boletos, Cris?
Os boletos, eles têm que pensar... Se você não tiver saúde, como que você vai pagar os boletos? Então, é melhor que é você mesma que dize isso. E eu trago isso pra mim, porque se você não tiver saúde pra você poder fazer as suas coisas, como que você vai continuar naquele lugar? E outra coisa, Isa, além disso, as pessoas precisam entender que o mercado, gente, tá aí. Não fique preso a um lugar. Não fico preso a um lugar. Você pode, sim, sair para outros lugares, mas você precisa agir, né? Sem ação, não tem movimento, não é?
Que conversa boa. Tenho certeza que quem nos acompanhou aprendeu bastante, assim como eu. Muito obrigada por ter vindo, por ter aceitado o meu convite. Boa sorte no Insabe.
Obrigada.
Conte comigo, seguimos juntas para a gente levar mais informações coerentes, que as pessoas encontrem os seus limites de forma gentil. Não precisa ser com doença, não precisa ser com briga, não precisa ser com demissão. Pode ser numa transição coerente, saudável, que é o que a gente quer.
Exatamente, obrigada.
Obrigada, Cris. Até breve, até o próximo Interioriza.
Tchau.
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