“Humildade, modos próprios e capacidade para acolher!”

Isabela and Professor Mário Sérgio Cortella discuss burnout syndrome, its effects across different professions, and why mental health matters. They explore how modern pressures demand patience and discipline to protect your wellbeing.
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Olá, boa tarde para todos vocês que já estão comigo em uma das lives mais esperadas dessa Semana Reacenda em que eu, vários profissionais que superaram a Síndrome de Burnout e especialistas de diversas áreas estamos desmistificando a Síndrome de Burnout. A nossa conversa com o professor e filósofo Mário Sérgio Cortella começa já já, mas eu preferi começar alguns minutos antes para que quando ele começar a compartilhar conosco do seu tempo e dos seus conhecimentos, a gente esteja aqui já em grande número. Eu descobri recentemente que o Instagram entende que a live pode ser interessante para mais pessoas quando enviamos coraçõezinhos aqui do lado. Olha que interessante. Então, para vocês que estão chegando agora, eu peço com muito carinho para que vocês enviem muitos corações E compartilhem também essa live com quem vocês sentirem que vai aproveitar, porque assim o Instagram vai entender que é um assunto relevante, e vai deixar a nossa live ali na página principal, não é nem página, mas vai deixar ali na sequência de lives que estão acontecendo neste momento, para que mais pessoas comecem a assistir. Olha quanto coração, gente. Fico emocionada ao perceber o carinho de vocês. desde domingo, segunda-feira oficialmente, mas domingo eu fiz um esquenta falando da minha história, desde segunda-feira eu tenho conversado com profissionais que têm vivido a experiência de burnout ou na pele ou em pesquisas, sabe? Conversei com a pioneira dos estudos da síndrome de burnout aqui no Brasil, a doutora Thelma Trigo, depois eu conversei com a doutora Camila Magalhães, psiquiatra, estudiosa, pesquisadora, Ontem eu conversei com o professor Marcelo Valio, advogado, autor do livro Burnout, a responsabilidade do empregador. Hoje eu conversarei com o professor e filósofo Mário Sérgio Cortella e na sequência eu vou lá para o YouTube e Facebook para falar com o desembargador Geraldo de Oliveira, autor de vários livros. Ele é desembargador do trabalho de Minas Gerais e vai compartilhar conosco tudo o que tem vivido em suas conversas, em suas pesquisas e também em seus julgamentos. Amanhã eu terei um médico do trabalho e vai nos mostrar, enfim, outro ponto de vista para que aí cada um tire as suas conclusões. Números já temos muitos, pesquisas saem todos os dias e recentemente A ISMA-BR, que é o braço nacional que nós temos da maior instituição que mensura estresse no mundo, fez um congresso. E ali, um dos palestrantes colocou a síndrome de burnout fazendo parte da quarta onda do Covid-19. Então, eu quando vi a síndrome de burnout junto com outras questões relacionadas à saúde mental, ao mesmo tempo em que eu fico muito triste, ao conversar com ele, eu fico muito feliz, mas muito ansiosa. Já pensou? Isso é respeito. Então, nós teremos o privilégio de ter, por alguns minutos, esse sorriso lindo.
Ainda bem, ainda bem.
Tudo bem, mestre?
Horário, horário. Não é? Marco, cá estou, como sempre.
Que graça.
Você fazia uma fala, termina a tua fala, que eu estava ouvindo também.
Eu estava apenas fazendo aqui um esquenta, para que quando você entrasse nós já estivéssemos aqui em sintonia com o assunto. Eu sempre gosto de fazer essa introdução e peço para todo mundo respirar para chegar. Sabe como dizem no interior, mestre, vamos chegar?
Vamos chegar no sul, você que é caipira como eu do Paraná, do Norte do Paraná, sabe muito bem que no sul às vezes assim, venha, se há banque, se há banque, senta aqui no banquinho, normalmente né Isabela, o banquinho, você é muito jovem de idade, mas você lembra de contarem que o banquinho era na cozinha. E ali na cozinha se falava, se conversava, se contava, tudo aquilo que era sufoco podia vir à toa, de um jeito ou de outro. Havia uma calma, um pouco maior, nas relações. Por isso, o ciabanque venha chegando ou vá chegando. É uma coisa que a gente tem de recuperar. Quando você falava da paciência, de te respirar direito, viver direito, de vez em quando acelera. Você já me ouviu dizer, vida é maratona, não é 100 metros rasos com barreiras. Quem se mete a tomar a vida como sendo 100 metros rasos acaba perdendo o fôlego para aquilo que precisa. Às vezes ele é obrigado, alguns empurram. para que ela faça como se em metros raros, mas é maratona.
Oi, gente. Olha, que coisa maravilhosa. Isso que você está falando, mestre, tem tudo a ver com a síndrome de burnout. Esse banquinho em que nós sentávamos para conversar, se ele existe, ele tem se tornado cada vez mais raro. Nós estamos vivendo num mundo muito express. com muita informação. Mas esses últimos dias eu tenho ouvido uma frase, mestre, que eu quero compartilhar contigo e passar a palavra pra você. O nosso cérebro ainda é analógico. Então por mais que a gente queira muito fazer tudo mais rápido, você já escreveu isso em vários livros, nós temos certas limitações que precisamos respeitar.
É verdade. Quer ver um exemplo concreto? Uma parte hoje das crianças e jovens, aqueles que têm menos idade do que eu, inclusive de você, elas no dia a dia são submetidas de modo contínuo a um estímulo fotoelétrico muito intenso. Você sabe que a iluminação, a luz, especialmente, ela ativa em nós o nosso cortisol e, portanto, o eleva. né? E ao elevá-lo coloca às vezes um nível, né? De tensão, de pressa, né? Naquilo que cê tem até em relação aos movimentos internos no campo cardiorespiratório como também, né? Na atividade cerebral. Eu quero dar um exemplo, vou até pegar algo para mostrar, por exemplo, eu me habituei desde pequeno a ler, a ler em lugares não Mas o objeto meu de visualização, durante boa parte da minha vida, era, por exemplo, um livro. Ainda é. Mas esse é um objeto que raramente emite luz mais forte. Ele o faz até como reflexo daquilo que está no ambiente, mas ele não fica me estimulando de uma maneira que me faça estar ligado o tempo todo. E eu estou usando a expressão ligado no mau sentido. Porque existe a coisa do tá ligado, né? A gente tá prestando atenção, tá atento àquilo, e tem o ficar ligado, que é ficar de uma tal maneira acelerado naquilo que se tem de fazer. Daí a necessidade de nós tirarmos, por exemplo, do burnout, que você bem conhece, uma lição extremamente necessária, que é a capacidade de reinventar em nós a paciência. a paciência, não a lerdeza, mas a paciência, seja em relação àquilo que de nós requisita, seja em relação, por exemplo, àquilo que eu ou você vivemos no nosso cotidiano. Eu dou um exemplo que o mundo masculino entende melhor, mas não exclusivamente. Quando você faz coisas com pressa, até se você se queima numa panela, até você acaba prendendo o dedo numa gaveta, Até você acaba mandando uma mensagem, um e-mail, que não deveria, porque teclou com uma pressa muito forte. Mas eu lembrei, no caso masculino, uma coisa que a gente tem que tomar muito cuidado é subir o zíper, por exemplo, da calça. para subir o zíper, é necessário algum cuidado. Essa é uma coisa meio recente na história, porque eu, menino em Londrina, saí de lá com 13 anos de idade, enquanto eu vivia em Londrina, a sociedade mais machista que era, ainda é, mas mais machista que era, homens, no caso meninos, pessoas do sexo masculino, não usavam calça com zíper. Calça com zíper era uma exclusividade feminina, tínhamos que ter calça com botão. E quando se começou a usar as calças, que era objeto de desejo, que se vendia em São Paulo, em algumas galerias meio escondidas, que eram calças feitas com jeans norte-americanos. A grande marca dessa calça era ter, aliás, zíper para vários lados, mas um deles era no fechamento. E uma das coisas que se teve de aprender foi exatamente o fechamento do zíper para que não houvesse nenhum tipo de intercorrência em relação à pressa. Essa mesma necessidade de aprendizado em relação ao zíper que serve para fechar, para funcionar, vale, sem dúvida, também para a nossa cabeça, para as nossas atitudes, para as nossas convivências. Por isso, quando alguém fala em burnout, eu lembro, ou a própria pessoa, ou alguém puxou o zíper dela com muita pressa e aí não deu certo, acabou machucando.
Perfeito. Mestre, na década de 1980, a Cristina Maslach lançou esse livro, The Cost of Caring, que é o custo de cuidar. E ela coloca aqui os profissionais de saúde e os teachers, os professores, fazendo parte do grupo mais sensível para o burnout. E aí, eu gostaria de lhe perguntar, você passou muitos anos dando aula Você conviveu com alguém nesse período que tinha características do burnout ou que chegou a ter o diagnóstico?
Veja, eu tenho quatrocentos... quatrocentos não, imagina, que exagero. Eu tenho quarenta e seis anos como docente. Há quarenta e seis anos que eu sou professor. E sou professor de vários modos. Eu comecei a minha carreira como docente aos vinte anos de idade. Aí eu tenho sessenta e seis, e eu sempre ensinei no ensino superior na universidade. E a minha área, que é a área docente, junto com profissionais da área de saúde e da área de comunicação, ela é uma das que mais tem o diagnóstico de síndrome de burnout. Eu, quando secretário de educação na capital paulista, em 1991, 1992, lá se vão 30 anos, foi as primeiras vezes que eu ouvi falar o termo burnout aplicado à atividade ocupacional. Quase sempre havia, numa rede de ensino, no caso a Municipal da capital paulista, que é a cidade onde moro, sempre havia pelo menos 10% do total de docentes em licença. Essas licenças se davam por várias razões. Claro que a principal delas, sendo a docência no Brasil no ensino fundamental ainda majoritariamente feminina, uma grande parte das licenças se dava por conta da gravidez ou depois da maternidade. Mas uma parcela dessas formas de afastamento, ela se devia a um esgotamento. Isto é, aquilo que se chamava, né, tá com problema nos A pessoa estava com problema nos nervos, ela estava esgotada, estava próxima àquilo que na época a área de saúde chamava de colapso nervoso Pouco a pouco, foi as primeiras vezes que eu tive contato com o termo ligado à área de saúde ocupacional e à área de saúde integral. Eu conheci o termo utilizado de outras formas, mas não especialmente nesse campo. Por isso, sim, eu conheci muitas pessoas com esse tipo de diagnóstico. A ciência médica ainda não o fazia de modo muito preciso, ainda não faz Há uma certa suspeita de que, de vez ou outra, a pessoa que apresenta indícios, possíveis, que talvez ela esteja fraquejando em relação à forma de atuação, de presença no mundo do trabalho, da família, como outra pessoa até pode ser. Nós somos seres capazes de enganar e de serem enganados. Mas na minha área, a área de educação, eu nunca vivenciei, pelo menos como um diagnóstico preciso eu, nunca vivenciei a situação de burnout. Em vários momentos fiquei extremamente cansado, mas em nenhum momento perdi a capacidade de integridade e de integração das coisas que poderia fazer. Nesse sentido, A atividade docente, ela tem um efeito muito forte, benéfico. Ela lida muito com a nossa endorfina, claro que ela lida também com o inverso, porque você tem um efeito imediato daquilo que faz. Quando você está numa sala de aula, você tem efeito imediato daquilo que está fazendo. Está ensinando. É alegria. é a capacidade de aproveitamento. Então, você tem, digamos, um retorno. Você que fez TV ao vivo há muito tempo sabe que a TV ao vivo dá outra forma de aproximação com o público em relação a algo que já estava gravado. Embora na TV haja um distanciamento, ainda assim, você tem um retorno que vai chegando, inclusive, pelo telefone em relação ao central de atendimento. Nesta fase que nós estamos agora, hoje é o dia 114 que eu estou em isolamento e distanciamento. Uma das coisas que me faz falta, eu não tenho falta de nada material, não tenho nenhum tipo de intercorrente social alternativa, mas uma coisa que mais faz falta é que esta virtualidade que nós estamos tendo agora e que eu agora tenho para as minhas palestras, entrevistas, para as minhas atividades de rádio e televisão, ela não me dá o retorno imediato. Por isso, ela me deixa mais próximo de uma certa perda de energia. Porque quando você está junto ao público, no auditório, numa sala, aquilo vai te tomando e te retornando como uma expressão. Claro que o inverso também. Também pode vir a recusa e aí se reorienta a rota. E aí termino essa reflexão a partir da tua questão. Eu encontrei muita gente, e por muitas vezes como secretário, ou antes secretário adjunto que fui, eu autorizei aquilo que se chamava de afastamento de colegas da área de docência pública, para tratamento em relação ao esgotamento. Eu em nenhum momento assinei nenhum documento que tivesse a expressão burnout, né, porque ela não aparecia ainda como categorização e como você mesma, né, ensina, é, tem sido difícil que ela apareça até em laudos como categorização mais imediata. Ainda não tem assim uma aceitação, né, tão expressiva.
Mestre, eu até quero lhe perguntar sobre o que falta para termos mais diálogo, para ter, aliás, diálogos até mais transparentes sobre o assunto. Mas antes, você falou agora uma coisa muito bonita. O professor, por mais que ele se desgaste, ele está tendo o retorno porque você está ensinando. Me lembro até daquela frase da minha bisavó, o mestre é como a vela, consome-se iluminando. Então, por mais que canse, existe ali um retorno. Ontem, o psiquiatra forense Guido Palomba, ele comentou, dos profissionais de saúde, aqueles que trabalham com a maternidade, talvez sejam os únicos que não lidam com esse desgaste, esse cansaço, na maior parte do tempo com notícias ruins. Eles estão lidando com vida. Mas os professores, de uma maneira geral, realmente lidam com a curiosidade, com o despertar de muitas almas, não é? Agora, eu lhe pergunto o seguinte. O último número que a USP levantou, junto com o laboratório, no início do ano, chega a quase 20 milhões de brasileiros com diagnóstico de burnout. E anteontem, a Associação Paulista de Medicina divulgou uma pesquisa com 1.900 médicos de todo o Brasil e mais da metade sinalizou características da síndrome de burnout, como o estresse, a exaustão física e emocional, além da sensação de sobrecarga. Dito isso, mais do que você viveu com os professores, nós não estamos falando de uma frescura.
Para uma boa parte das pessoas, não. Eu, de maneira alguma, imagino que nós estejamos diante do crime perfeito em que só haja vítima. Eu não acho. Existe autoria e existe também, em algumas circunstâncias, simulação. Eu vi muitas vezes na minha atividade, em educação escolar e como gestor, pessoas que simularam. Por isso, na hora da perícia, o perito tinha que ter uma capacidade de fazer uma distinção entre aquilo que era muito mais uma expressão teatral para que houvesse um escape da atividade de trabalho em relação, por exemplo, àquilo que de fato era uma patologia funcional e com efeitos orgânicos muito fortes também. Nesse sentido, claro que não pode ser qualificado no conjunto da obra como sendo fraqueza, frescura, uma coisa assim de tentar sair fora, também pode ser. A burnout não é uma coisa obrigatória, é uma possibilidade. Se 20 milhões, como você levanta, tem esse diagnóstico no nosso país, há 200 milhões que não tem. O que não significa que a síndrome ela seja secundária, que ela seja desprezível. Ao contrário, ela tem que fosse uma pessoa, ela já seria uma questão para todas as pessoas. Terêncio, um grande pensador latino, antes de Cristo, ele dizia, tudo que é humano não me é estranho. tudo que é humano não me é estranho. E nesse sentido, claro que se uma só pessoa tivesse, há síndromes que são raríssimas, pouca gente tem, mas elas são uma questão para a humanidade. No entanto, burnout é uma síndrome expressiva. 20 milhões de pessoas, que fossem 2 milhões de pessoas, fossem 200 mil pessoas, mais ou menos como a pandemia que vivemos. 67, 68, 70 mil pessoas que falecem, é algo absolutamente impactante, uma bordoada literal em relação à nossa capacidade, inclusive, de cuidado. Por isso, volto ao teu tema. Será que há pessoas que enfrescuram a capacidade de presença? Sim. Há pessoas que podem simular? Sem dúvida. Mas isso é uma história antiquíssima em relação a pedidos de licença, de afastamento, em que a pessoa até Quando eu era menino em Londrina, eu quando não queria, por exemplo, ir à escola, naquele dia o grupo escolar Hugo Simas em Londrina, eu quando não queria ir e minha mãe ou meu pai não ia deixar, eu podia simular uma Uma dor de cabeça. Podia simular que eu não estava bem. Havia uma técnica que na época funcionava, hoje ela não funciona mais. Porque toda mãe, quando o filho dizia que não estava bem, a primeira coisa que ela fazia, como era o caso da minha, era colocar a mão na testa para ver se estava febril. E eu descobri um dia que havia um tipo específico, né, de cal, a cal que vez ou outra se usava, né, pra fazer doce de abóbora ou doce de mamão verde, pra ele ficar mais resistente, né, pra ter uma crocância maior, uma cal específica que não tem mais, ao ser ingerido um pouquinho. Isso a gente aprende na escola, ao ser ingerido um pouco com água, ela fazia uma elevação da temperatura. E aí, claro, você já imaginou, tecnologia... E eu ia lá, tomava um pouquinho, dava um tempo, a mãe chegava, tava a temperatura elevada, não, não vai pra escola. Na sequência vinha o pedido. Não, mas eu quero ir. Não me deixa ir. Não, você não vai hoje. Mas mãe, por favor. Claro que não. Havia toda uma encenação. Por isso... Eu não tenho a menor dúvida de que seria absurdo que algo que atinge milhões de pessoas, que uma associação médica é capaz de indicar em um quantitativo, que uma área de pesquisa ela tenha esse tipo de orientação, que se diga, não, isso aí é fragilidade, gente que gosta de capinar sentada, não quero saber. das coisas, pera aí, né? Alguns diriam, não sei se você se lembra, você fez várias matérias como jornalista no cotidiano, continua, mas naquele cotidiano você fez várias que tratavam do tema depressão.
Sim.
Quanto que a depressão foi, e ainda é, colocada por muita gente como sendo uma incapacidade eletiva. Isto é, uma incapacitação eletiva. A pessoa deseja ser, se diria que ela deseja, porque aí ela tem uma justificativa. Tem gente que se agarra na tristeza, na melancolia, na forma profunda de desespero para poder dar um sentido à vida? Tem. Mas pessoas com mais sanidade, de maneira geral, quando são vitimadas por algo, buscam livrar-se daquilo e não abraçar-se naquilo. Daí, frescura. É relativa a percepção. Vale para alguns, mas não vale para muitos e nem para todos.
Exatamente. Recentemente eu ouvi de uma profissional de altíssimo rendimento e ela disse, Isabela, a culpa não é de ninguém, mas a responsabilidade é de todos. Porque nós alimentamos um comportamento que tem se mostrado insustentável. Como você diz, o nosso cérebro ele é maravilhoso, mas a gente também não pode tratar, tratá-lo mal porque ele também não vai responder como o celular que a gente carrega em quatro horas e voltou.
E na escola, você teve atividade várias vezes de escola, mas nunca teve atividade docente contínua. Há uma questão que é séria. Por exemplo, alguns pais e mães agora, durante o momento pandêmico, alguns adultos que cuidam de crianças, vêem o quanto é difícil lidar com crianças de modo contínuo. Uma criança, duas, três numa casa, em alguns momentos, alguns assim, é infernal. Agora, você imagina uma sala de aula com 30, com 40, com 50. Ou, em algumas áreas das nossas periferias sociais, onde há brutalidade, há violência, e você tem ali uma professora ou um professor que precisa lidar com aquilo. E que muitas vezes, ao sair, é ameaçado fisicamente. Se ele tem um carro ou ela, ele pode encontrar o veículo com algum dano proposital. Há toda uma série de circunstâncias no dia a dia que levam, sim, a uma exaustão nessa atividade. Como que se recusa que ela possua, de fato, a pessoa? Quando ela tem, como a gente falava, algum retorno, algum tipo, para usar o inglês, o feedback positivo, e, portanto, enxerga o propósito. Mas, Há circunstâncias em que ela não resistirá, ela não conseguirá. E quando você retoma a frase da responsabilidade, uma das ideias mais fortes para mim, do Saint-Exupéry, que é um autor que eu aprecio bastante nas suas coisas, ele dizia que cada um é responsável por todos. Quando começou a pandemia, nós colocamos na porta do meu escritório em São Paulo, que você já esteve lá a gente conversando sobre várias coisas, nós colocamos um álcool em gel num dispenser ali, isso ainda no mês de fevereiro. Ainda no mês de fevereiro, porque já havia as ainda em fevereiro, pra que quem fosse entrar, né? Fizesse a sepsia, pelo menos das mãos. E ao fazê-la, né? A frase para estimular essa ideia é ela, essa do cê tem que superir. Cada um ou cada uma é responsável por todas. Nesta hora, não basta que eu, deixa, puxa aqui, bom, hein, Isabela? Eu não tenho barnault, então eu tô sossegada, Tô tranquilo. Você tem, e aí o que eu posso fazer? Eu vou rezar por você. Pode até ajudar, que eu tenho um bom espírito nisso, mas não basta.
Eu trago essa frase porque nós não podemos banalizar o burnout, como você disse. Tem pessoas que se aproveitam de certas situações, como acontece em todas as esferas. E com todos os problemas de saúde, vou colocar assim. As reportagens, as histórias mostram isso. Mas nós não podemos banalizar o problema, não podemos ignorar o problema, não existe vítima e nem vilão. Existem responsabilidades. Quando eu lhe disse, a gente está alimentando comportamentos insustentáveis, por quê? Temos uma venda de disponibilidade integral, 24 horas por 7 dias por semana, 365 dias por ano, ou seja, nós vamos ouvindo frases que vão nos deixando com essa ilusão da performance infinita. Então, eu gostaria, nesses últimos 16 minutos que nós temos, É, lhe perguntar, eu sei que pode doer, tá, gente? Pra quem vai ouvir a resposta, mas eu preciso fazer essa pergunta porque eu ouço pessoas de várias idades, profissões, falando sobre a síndrome de burnout. O que na sua opinião está faltando, né, pra esta população que já está vivendo ou que ainda vai viver? Porque os médicos têm colocado o burnout dentro da quarta onda pós-COVID. Então, o que você acha que está faltando pra gente? Pausa, fé, filosofia? Porque nesta ilusão da performance estamos nos perdendo e adoecendo.
Uma das coisas mais fortes que a gente precisa lembrar é exatamente a elaboração do conceito do tempo que só terá proveito se ele tiver pelo menos dois requisitos. De um lado, disciplina, isto é, ordenamento daquilo que precisa ser feito e compreensão do que é que pode ser feito naquele tempo que se tem. Em outras palavras, se eu sou disciplinado, como é o meu caso e que é o seu, eu tenho sempre dito, você já me ouviu falar, a disciplina é a organização da liberdade. Quanto mais eu sou disciplinado, mais eu repouso, mais eu resguardo energia para muitas coisas. Então, a disciplina, o método, a estruturação sequencial, ela é decisiva para que eu não fique afobado. porque o afogamento ele leva a um desgaste muito mais forte de capacidade. Mas não basta eu ser disciplinado. É preciso que no meu disciplinamento eu consiga inserir no tempo que tenho para algo fazer aquilo que ali cabe. O mesmo é exigível de quem, por exemplo, é minha chefia ou liderança em algum local. Eu posso, como chefe de um grupo, ter a lógica do resultado a qualquer custo, isto é, colocar pressão, como se diz, botar pressão, fazer com que as pessoas rendam o máximo, mas eu vou conseguir exauri-las. Quem faz com que haja isso, isto é, esgota as pessoas para que elas sejam meramente rentáveis, obterá sucesso por um tempo, mas esse tempo será restrito. Por quê? Porque o esgotamento por conta do exagero naquela atividade ou dedicação retirará possibilidade de persistência. Por outro lado, a consumolatria, esse exagero em relação ao consumo, nós nesse momento pandêmico estamos notando em vários momentos o quanto que alguma economia de recurso é possível. E onde vem isso? Até de coisas comezinhas. Nós, nesse momento, por conta da sensação de algumas atividades em aberto, nós temos que fazer mais com menos. Pessoas que estão em casa, que precisam fazer, como é o caso, Cláudio e eu há 114 dias recolhidos, cozinhando, lavando, passando, fazendo a faxina, cuidando das coisas.
Estão tomando vinho?
Só no final de semana, só no final de semana. Eu primeiro que eu jamais, eu gosto de vinho, mas eu jamais bebo durante a semana, mas isso sempre. Inclusive porque eu tenho um princípio, meus três filhos cresceram sabendo disso. Eu só bebo quando eu estou feliz. Eu jamais bebo, porque bebida não é remédio. Medicamento não pode ser confundido com isso. Segundo, eu só bebo se eu estiver feliz. Se eu estiver bebendo é porque eu estou feliz. Se eu estiver triste, eu evito qualquer coisa que atrapalhe. Dentro disso ainda. E só no final de semana, porque minha atividade como docente, como bem que é comentarista. Hoje, por exemplo, eu tenho TV Cultura das 21h15 até 22h, ao vivo de casa. no Jornal da Cultura.
Vamos assistir.
Eu não posso mesmo, que fosse gostoso como é, tomar uma taça de vinho, porque isso prejudica. Aí eu volto a esse ponto. Ora, eu não posso imaginar, de maneira alguma, que eu tenha todas as capacidades o tempo todo. Daí que eu preciso ter, como eu lembrava, disciplina e fazer com que ali dentro caiba. Você diz assim, mas tem momentos que a gente tem que dar gás. Sim. mas não pode ser o tempo todo. E eu quando mudei pra São Paulo, uma das coisas que eu fui ver pela primeira vez, né, foi a São Silvestre. A corrida de São Silvestre, que era feita à meia-noite. À meia-noite, a via de fronte, né, ao prédio da Gazeta Esportiva, na Via Paulista, né, saía, depois ela passou pra seis da tarde, por causa de segurança, depois ela foi passando pra outros horários, pra poder ser pra lá tarde. Mas eu tô lembrando isso. porque a São Silvestre, que era a nossa corrida de passagem de ano, uma das coisas boas era ver quem resistia. E a gente notava que os que venciam a São Silvestre, antes que aqui houvesse estrangeiros, que a partir do momento, especialmente que quenianos vieram disputar nossas provas, eles levavam com mais facilidade. Mas, ainda assim, uma coisa que a gente notava é que tinha a maior capacidade de chegar até a linha de cruzada, de êxito, quem sabia lidar com o movimento. Quem, em vez de sair de modo desabalado para ganhar dianteira num determinado momento, era capaz de, por exemplo, na descida da Consolação, para quem mora em São Paulo, em direção à área central, conseguir dar um gás maior, mas na subida da Brigadeira Luiz Antônio, em direção ao Paulista, ter economia de energia para resistir àquele momento. Daí eu ter usado no início a ideia de que vida é maratona. Ora, quando as pessoas imaginam que elas podem ir vivendo essa consumulatria desesperada, quando não se tem paciência de convivência, quando não há meditação e reflexão, quando a gente aceita, Isabela, uma frase perigosíssima que é fazemos qualquer negócio. Tudo isso desanda. Nós aprendemos com o maravilhoso professor de matemática britânico Charles Dodson, que escreveu vários livros de filosofia com o pseudônimo de Lewis Carroll. Ele fez quatro livros de filosofia. Alice, Alice Atrás do Espelho, são livros maravilhosos de filosofia voltados também para crianças. Mas se você se lembra, a personagem mais marcante ali é o coelho branco que passa o tempo todo dizendo, estou atrasado, estou atrasado. E essa forma de afobamento, essa ansiedade, ou própria, ou porque alguém te pressiona. Lembra, talvez, o título de um livro de um jovem filósofo que faleceu muito cedo e que escreveu um livro com menos de 20 anos de idade, que é muito marcante na filosofia, um homem chamado, um jovem chamado Etienne de La Boétie. Etienne de La Boétie escreveu um livro chamado Discurso sobre a Servidão Voluntária. Discurso sobre a servidão voluntária. Por quê? Porque há uma servidão voluntária. Servir a quê? Servir àquilo que nos esgota, servir àquilo que nos encanta, servir àquilo que nos sustenta, ou servir a qualquer coisa, independentemente do propósito. Daí, a necessidade de se pensar a serviço de quem está a nossa vida. A serviço de quem? Claro que essa pergunta tem de ser feita mais a miúde.
Perfeito. Quando você diz, fazemos qualquer negócio, a qualquer custo, não leve trabalho para casa. E agora?
Não tem como.
Então, deixe os seus problemas pessoais da porta da empresa pra fora.
Como?
Ou seja, temos que renovar muitas ideias, né mestre? Nesses últimos oito minutos, eu gostaria de lhe fazer a pergunta que está na nossa abertura. O que podemos aprender com o burnout? O que ainda está faltando a gente enxergar com tudo que está acontecendo?
Quando você fala, não leva o trabalho para casa, a minha profissão não permite isso, nunca permitiu.
A nossa.
Porque a minha atividade como docente é inerente a ela, que você prepare a aula um ato. Segundo ato, dê aula. Terceiro, reveja e corrija o produto da aula. Portanto, a nossa atividade tem três atos. Ela é uma trilogia, ou para usar um termo mais clássico, uma sinfonia com três movimentos. Isso significa que eu não tenho noção do que significa não levar trabalho para casa dentro da minha atividade. No entanto, levar trabalho para casa é diferente de ser dominado pelo trabalho também em casa. Agora que nós vivemos o tempo do trabalho doméstico, do trabalho domiciliar, do home office, evidentemente que há um descompensamento para muita gente. Algumas pessoas estão se admitindo exploradas e outras estão explorando. Aqueles que estão nessa circunstância como se a pessoa estando em casa estivesse à disposição de modo completo. Daí o quê? Quando você pergunta que lições nós podemos tirar, pelo menos três dessas lições eu vejo em relação a síndrome de burnout. Primeiro, nós temos de ter humildade enquanto humanidade, não só para notar que neste momento há situações que são muito mais poderosas do que nós e que nos ameaçam a ponto de nos apavorar, como é o caso do vírus nessa circunstância, mas Nós não somos nem imbatíveis e nem invencíveis. Em outras palavras, nenhum e nenhuma de nós é inesgotável. Nenhum e nenhum de nós é inesgotável. Portanto, a consciência do nosso limite é um aprendizado sério, que precisa ser olhada não só pela pessoa que fica próxima ao esgotamento ou dentro dele, como quem dirige, orienta e cuida para que não se entenda que o esgotamento é parte da vida. Ao contrário, na primeira lei de Newton, e fizer nela uma invenção, vai ficar bom, dizendo que todo corpo em movimento tende ao repouso, a menos que haja uma força contrária que o tire daquela posição. Ora, a economia, no sentido de cuidado com a nossa capacidade para impedir a percepção de que somos inesgotáveis, é uma lição fortíssima. Segundo, As pessoas não são idênticas e são em relação aos seus limites. Por isso existe algo que precisa ser lidado e que a medicina chama de idiosincrasia. A psicologia, a psicanálise também chama. Idiosincrasia. Os modos próprios de nós sermos. Pode ser que aquilo que coloca Cortella numa possibilidade de burnout não seja o mesmo para outras pessoas. Portanto, a gente não pode ser avaliado por uma métrica idêntica. O Bernard Shaw, o grande escritor, dizia que a pessoa que ele conhecia, que mais entendia de ser humano na vida, era o alfaiate dele. Porque toda vez que ele ia lá, o alfaiate tirava a medida dele tudo de novo. Tirava de novo todas as minhas. Por isso, humildade para saber que nós não somos inesgotáveis. Segundo, que é importante, que não se pode usar a mesma métrica para medir seres, que tem a função idiosincrática como expressiva. E terceiro, a capacidade de generosidade para acolher pessoas que manifestam essa possibilidade como sendo não um defeito. pessoal, mas uma circunstância. Não é um defeito pessoal, é uma circunstância. Nesse sentido, não é algo que a pessoa não tenha, primeiro. Escolha, porque pode ser que ela tenha sido colocada naquilo, né, de modo involuntário, embora, como eu lembrei antes, a dissimulação seja possível, mas em segundo lugar, não é algo sem a alternativa. Como lembra você, né, é um freio. Não é uma determinação, nem uma sentença. Não é algo que impeça que você, ou eu, ou qualquer pessoa, seja capaz de retomar o fôlego para as coisas. É difícil? É complexo? É algo dolorido? Deixa cicatrizes? Exige dois combates. Um interno, que é você não esmorecer e não perder o ânimo. E o segundo é externo, com as pessoas que às vezes não compreendem, muitas vezes não tem como conviver, porque nós também somos muito ainda, e aí eu concluo, somos muito ignorantes em relação a várias das coisas que estão conosco. Se a síndrome do burnout pode, como você lembrou, ser uma quarta onda pós, O vírus, é claro que a gente precisa começar a estudar desde logo para que, usando a música aí, para que o inesperado não faça uma surpresa.
Mestre, eu sabia que seria bom. mas eu não tenho nem repertório para ter imaginado como foi espetacular. Eu tenho aqui numa caixinha de ponto de interrogação mais de 72 perguntas ou comentários que eu não vou conseguir abrir por conta do nosso tempo, mas eu tenho certeza que esses 40 minutos foram muito especiais para todos que estão conosco e que ainda vão acompanhar pelo YouTube. Eu lhe agradeço profundamente pelo seu tempo, pela sua confiança e pela sua disponibilidade de falar sobre esse tema que me toca muito e que eu tento cada dia juntar mais uma informação para prevenção.
Fico feliz, gostei também dessa reflexão, tenho acompanhado aquilo que você tem produzido e trabalhado nessa área e Te dei um dia um livro, um dos livros que escrevi, quando você me deu a caneca com a frase da tua avó, que eu queria que você repetisse ao final, quando você fosse se despedir de mim, quando eu fechasse, mas eu te dei um livro que toca um pouco nesse tema nosso, chamado Viver em Paz para Morrer em Paz. viver em paz para morrer em paz. E como eu lembro sempre, viver em paz não é viver sem dificuldade, sem encrenca, sem problema. Viver em paz é viver com a certeza que não tá desperdiçando uma vida que não pode e nem precisa ser desperdiçada. Por isso, a frase da avó pra eu me despedir.
O mestre é como a vela, consome-se iluminando e você iluminou todos os nossos corações. Gratidão, mestre. Até breve.
Tchau, tchau.
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Depois de tantas histórias, aprendizados e pausas necessárias, o @interior_iza está de volta








