Maite Scheneider no Programa Unha Talks com Izabella Camargo 25/01

Maite Schneider, a trans woman and co-founder of Transempregos, talks with Izabella Camargo about her transition starting at 16, 14 genital surgeries, and building a platform that has placed over 1,300 trans people in jobs at a multinational company with 80,000 employees.
Chapters
Oi, tudo bem? No Unha Talks de hoje eu vou conversar com este mulherão chamada Maite Schneider, consultora de empresas e fundadora da Transempregos. Tudo bem, Maite?
Tudo bem, prazer estar aqui. Oi, gente!
Obrigada por ter aceitado meu convite. Quem vai estar conosco nesse Unha Talks é a Carol fazendo as unhas da Maitê e as minhas unhas serão feitas pela Aninha. Como eu sempre digo para todas as manicures do Brasil, um beijo grande e muito obrigada por sempre transformarem o nosso astral, levantarem a nossa autoestima com uma hora de unha. Maitê, você vai passar que cor?
Eu escolhi um vermelhão.
Vai tirar o quê da mão?
Vou tirar um nude, né, que já tava feio pra burro, né. Então é difícil um vermelhão, mas hoje acho que pede um vermelhão, momento especial, vermelhão acho que cai bem.
Total. Eu vou então, na sua inspiração, vou tirar um rosinha pálido e vou para um vermelhão também. Sim, sim. Meninas, vamos lá. Maite, me diga uma coisa, já ficou quanto tempo sem fazer a unha?
Ixi, já fiquei muito tempo. Já fiquei, acho que bati recorde de passar já uns 2, 3 meses sem.
Por falta de tempo?
Falta de tempo, preguiça. Eu trabalho também, como eu trabalhei durante muito tempo em Curitiba como depiladora, né? Então eu criei a primeira empresa de depilação masculina em Curitiba, isso há 15 anos atrás. Trás, que ninguém nem falava em depilação, que era um monte de tabus, de estigmas. Eu criei o Casa da Maite lá. E daí eu comecei a ter um monte de micose na unha, porque tinha que usar luva, ficava com a mão inteira abafada, ficava muito mais tempo dentro das luvas para depilação do que fora. Então daí eu fiquei muito tempo sem coisa. Então, mas agora assim, nos últimos tempos, uns 3 meses foi meu recorde assim. Mas é difícil achar esse tempo para ter esse carinho, né, de estar aqui. Mas eu até falei para ela, falei: ai, tô até com vergonha porque as garras estão gigantescas nela. Agora eu vou sair com unha, então agradeço.
Você tava me contando nos bastidores, que quando a sua mãe te vê com a unha por fazer, ela fica brava?
Então, minha mãe, ao contrário de mim, minha mãe eu nunca vi isso aí, né? E ela é super modernona, então ela gosta de testar a cor nova de esmalte. Sai um esmalte novo, né? Dona Marilena, um beijo até, mãe, tô aqui com a Isa, né? E ela super adora testar cores diferentes. Ela fala: nossa, você só bota francesinha, você só faz... Eu falei: é porque serve com todos os lugares, não sei o quê. Ela falou: "Não, você tem que usar mais." E quando ela vê eu com a unha feia, eu fico até com vergonha com ela, né, mãe? Eu vou ter que contar. A gente sai pra jantar, eu fico assim toda hora escondendo a mão dela pra ela não ver. E ela fala, dela já vem esticando, pedindo a mão pra mim. Quando ela olha minha mão assim, ela falou: "Ai, mãe, você ia ser uma mulher tão mais bonita se você se cuidasse." Já pensou, gente?
Agora, isso é um autocuidado, né?
É um autocuidado. E é um tempo que a gente tira pra gente, né? Agora a gente tá conversando, mas é um tempo que a gente consegue perceber várias coisas, consegue respirar numa outra velocidade, né? Acho que é um carinho, né? Como ter massagem, como fazer uma terapia, como a gente olhar pra gente e falar: "Gente, prazer, eu tô aqui de novo, né?" Fazer uma esfoliação, uma depilação. Acho que são cuidados pra gente ter momento com a gente mesmo, né? É isso.
Maite, quando eu te conheci, eu fiquei assim, passada. Eu falei: "Gente, que mulher é essa?" E eu não sabia que você tinha nascido Alexandre. Você foi Alexandre até os 16 anos?
16 anos. 16 anos eu comecei a tomar hormônio, 16 para 17 anos.
Mas até tomar hormônio você viveu momentos assim fáceis de compreender que você estava num corpo errado? Tá certo esse termo?
Tava, tá. Pra mim era como eu me sentia mesmo na época, era bem isso, né? De querer me virar do avesso e não ser possível, né? E eu tinha um exemplo, porque eu tenho um irmão mais velho que é o Guilherme, uma irmã mais nova. Eu sou a do meio, então eu sempre tive muito claro que ser menino é ser como meu irmão era e que meu pai desde cedo falava: "Ó, se você não quiser sofrer essas piadinhas de chamarem você de mariquinha, de coisa desse tipo, imite o teu irmão, né?" Meu pai aos 6 anos me colocou no judô, no escotismo. Eu fiquei 10 anos fazendo judô e escotismo tentando imitar meu irmão, mas me identificando com as coisas do universo da minha irmã. Por conta disso eu falava assim: "Gente..." Mas eu acreditava ainda que era realmente Eu senti uma menina tendo essas identificações com o universo da minha irmã. Mas daí, lógico, quando começou a puberdade, minha irmã menstruou, ela era mais nova do que eu. Falei: "Como é que ela menstruou e eu não?" Sabe? Começou o corpo a mudar, o dela vir 6, o meu não. Aí eu falei: "Ah, então meu pai tava certo." Então foi um período bem turbulento esse de descoberta, de realmente querer virar do avesso, porque era uma outra pessoa que eu percebia ser e era outra imagem que eu via repetida, por exemplo, quando eu passava na frente de um espelho, né?
Ou seja, você quer me dizer que Até você se ver no espelho, até você reconhecer numa menina que aquilo que você achava você não tinha, era isso. Você se olhava no espelho e não tinha.
É tipo um vampiro mesmo, né, que passa na frente do espelho e não fica imagem nenhuma no espelho, né, que fica aquele vazio. Era como eu me sentia. Então eu saía do banho, não passava creme, não gostava de me tocar, de me ver. Todo mundo elogiava: "Nossa, mas que menino bonito", tudo tal. E eu falei: "Não, não é", sabe? Então não era uma coisa que eu gostava de me ver, de me perceber, de me tocar, sabe? Não tinha essa relação. Lá então, com o órgão masculino, menos ainda, né? Que geralmente o homem bota até nome, né? "Oi, Joãozão!" Outros chamam de "Qubi", outros de não sei o quê. O meu não tinha relação nenhuma. Eu falava: "Nossa, que eu odeio isso, não tinha que estar aí." Então era uma relação muito de ódio. Então não tinha nem essa relação mesmo com o corpo e principalmente com as partes masculinas, né? Tanto que eu fui depois fazer essas loucuras, né? De fazer automutilação, de eu mesma tirar. A parte masculina, né, de comprar, porque na minha época não tinha, né. Imagina, eu tô com 47 anos de idade, na minha época não tinha cirurgia, não é como é hoje, né, que tem o aporte do SUS, que tem toda essa estrutura. Então eu já fazia desde os 17, eu comecei a fazer terapias em equipes multidisciplinares, que falaram a primeira vez de transexual, porque eu não sabia nem que tinha um nome. Era uma época sem internet, sem nada disso, a gente não tinha acesso à informação. Eu só sabia que me sentia diferente e não sabia que diferença era essa, né. Então me sentia Como se fosse um ET mesmo. E daí eu fui fazendo esse tratamento, esse acompanhamento. Quando descobri que era transexual, por isso que eu comecei a tomar hormônios. Meu pai contratou o primeiro plano de saúde pra tomar de modo certo. Achamos uma médica que acabava fazendo isso. E daí quando eu tava com 30 anos de idade, sem chance nenhuma, as cirurgias eram só feitas fora do Brasil. Eu falei: "Não, eu não aguento mais ficar tomando hormônio, não aguento mais o testículo." E falei: "Eu vou dar um jeito." Aí eu já tinha internet, né, porque entrei em 97 na internet. E falei: "Vou comprar todos os bisturí, fio de sutura." Estudei durante 6 meses na internet pra retirar os testículos sozinha em casa, né?
Com 30 anos?
Com 30 anos de idade.
Pera lá, dos 16 aos 30 anos você tomou hormônios...
Hormônios e fazendo toda essa tentativa de ficar bem, mesmo mudando só seios, esses caracteres secundários. E tava tudo bem a princípio, né? Mas eu queria mais internamente, eu queria cirurgia. Pra mim ainda tinha esse desconforto desse órgão masculino que tava presente. E que eu não me identificava. Então, quando eu tinha relações, por exemplo, afetivas, sexuais com alguém, tudo tal, eu queria todas as luzes do quarto apagadas, não queria luz do quarto acesa nenhuma, entende? Eu não queria que me tocassem, porque pra muitas pessoas, muitos homens que eu me relacionava, era como se fosse uma mulher com pênis, e não era como eu me sentia, entende? Então eu escondia, sabe? Apagava as luzes dos quartos, ia pro quarto com uma toalhinha pra ficar escondida. Então, quer dizer, era um negócio que além de ser desagradável para a pessoa, me colocava numa situação que em vez de ser prazerosa, era extremamente É uma prisão, né? Sofrido.
E aí você falou que aos 30 anos você comprou o bisturi e tentou tirar os testículos?
Não, tentei, fiz uma incisão, né? Fiz uma incisão e fui acordar na Santa Casa. Todo mundo achou que era uma outra tentativa de suicídio. Ainda nem falei o que era que eu tava tentando fazer. Eu falei: "Gente, vão me internar se eu falar que tentei retirar testículos sozinha", né? E daí foi um alarde, né? Porque lógico, não deu certo. Daí eu fiz uma viagem pro Paraguai. Um ano depois, porque uma amiga minha que já tinha feito essa cirurgia de retirar o testículo no Paraguai falou que levando o laudo você podia fazer, lá eles faziam gratuitamente. Então eu saí de Curitiba, que eu morava ainda na época, fui até Foz do Iguaçu, e de Foz do Iguaçu que ela morava, então eram 12 horas quase de ônibus, daí ela foi pra essa clínica, e era uma clínica, eu falo do Paraguai, todo mundo fala: "Ah, você foi numa clínica clandestina do Paraguai achando que era um erro." Era uma clínica bem boa assim, sabe? E o tal médico me explicando de como ia fazer o procedimento. E ele começou a iniciar, só que daí uma cirurgia que era pra demorar 2 horas pra retirar o testículo, 1 hora e meia, fiquei quase 8 horas aberta porque eu tive 2 dias mais. Ele não queria fazer a cirurgia, mas eu sou escorpião, com ascendente escorpião e lua em escorpião, né? Então quando eu quero uma coisa, mesmo que as outras pessoas não queiram, eu decidi, eu vou colocar, independente, assumindo riscos pra isso. Eu falei, olha, se você não fizer, "Eu trouxe o bisturi, eu vou fazer e vai dar problema pra sua clínica." Então, contrariando, o tal cirurgião fez a cirurgia. Ele falou: "Olha, você não tem preparo físico pra isso, você não trouxe os exames que precisava." Eu falei: "Mas eu não vou voltar desse jeito." Ele fez, por isso que eu fiquei 8 horas em posição de Papa Nicolau, assim, inteira aberta. E daí ele falou: "Olha, agora você tem que se recuperar, pelo menos fique 3 dias aqui pra não viajar, não fazer uma viagem muito longa." Eu não tinha dinheiro para ficar lá. Eu já tinha comprado a viagem pro mesmo dia. E daí eu falei: "Não, não posso ficar aqui, então eu vou voltar assim mesmo." Então ele me ensinou como tirar os pontos depois dessa incisão. E eu voltei depois de uma cirurgia dessa, inteira aberta. Um testículo eu deixei no Paraguai, né? Outro testículo eu vim durante a viagem, 12 horas amassando com ódio aquele testículo assim, né? A senhora do lado ficava olhando pra mim, tipo: "Que que essa louca fica aí, né?" E eu com prazer amassando e tipo: "Morreu, desgraçado, morreu!" E eu com ódio maldito, mas ao mesmo tempo super feliz e tipo: "agora acabou, né?" Porque eu perguntei pra esse cara no Paraguai, eu perguntei antes pra ele, eu falei assim: "Eles podem reimplantar o testículo?" Ele falou: "Ah, se acharem até tantas horas depois e colocarem no gelo, não sei o quê, pode." Eu falei: "Gente, vai que dá azar e acham esses negocinhos de novo." Daí eu falei: "Olha, um você pode jogar aqui, o outro eu vou amassando." E daí quando eu joguei aqui na rodoviária de Curitiba, e daí eu joguei e falei: "12 horas separadas, ninguém reimplanta mais mesmo isso, né?" E feliz da vida. Um ano depois eu fiz o primeiro crowdfunding na internet, né, que hoje em dia chamam de crowdfunding, na minha época chamava de formigueira, vaquinha, né? Eu já tinha um site bem conhecido, que é o caso da Maite, que existe até hoje, que tá completando 21 anos, que é um site pra divulgar as questões de identidade, de orientação, esclarecer as pessoas, um site totalmente gratuito, que tem 40 pessoas, né, Isa? E daí, como tinha muita gente nesse site, eu falei: "Vamos fazer uma campanha, porque eu preciso fazer a cirurgia final", porque eu só tinha tirado a testícula. Depois de um ano desse tal "formigueiro", que eu chamava o nome na época, eu consegui, através dessa doação, fazer minha primeira cirurgia oficial. Que foi em São José do Rio Preto, que minha mãe foi junto, ficou lá uma semana comigo, e daí eu me reencontrei finalmente, que eu olhei no espelho, mesmo toda inchada, e falei: "Prazer, Maite Schneider." Essa sou eu. E minha mãe falou assim: "Nossa, que legal estar com você no teu segundo nascimento, né?" E eu falei: "Não, mãe, o nascimento é agora, porque a Maite nasceu agora, o outro foi só a parto." Uau, muito emocionante. Então foi muito legal assim de ter minha mãe nesse momento e de ter minha família, que só sou a pessoa que sou hoje por ter esse aporte da família, que é uma coisa muito rara infelizmente entre pessoas trans.
Isso que eu ia te perguntar, muitas pessoas sofrem discriminação não só da sociedade, amigos, trabalho, mas principalmente dentro da família, que vem de uma crença, de uma cultura muito machista. Como é que foi no seu caso?
Teve uma série de dificuldades porque lógico, qualquer coisa que saia de algo que é estigma, estipulado dentro de uma normativa do que é correto, dos sonhos que pais e mães têm para os seus filhos. Ah, eu quero que você siga minha carreira, eu quero que seja aquilo que talvez eu não fui, né? Uma mãe que queria ser modelo, que daí projeta na filha os sonhos de modelo. Todo pai e mãe tem seus sonhos e sempre imaginando o melhor para o seu filho e para sua filha, né? Mas muitas vezes esses sonhos às vezes podem não bater com os dos seus filhos e filhas, e aí que começam esses problemas, né? E quando você fala que tipo, olha, eu não sou essa pessoa, fica parecendo que você vai perder um filho, perder uma filha, né? Porque você muda visualmente, inclusive, dentro daquela construção, né? E daí os pais, mesmo não querendo sofrer, eles acabam sofrendo, porque eles sabem o mundo violento que tem aí fora.
Maitê, do Alexandre até a Maitê como hoje, quantas cirurgias foram?
Ah, genitalmente foram 14. Mas já fiz outras, né? A primeira que eu fiz, por incrível que pareça, foi miopia.
É mesmo?
Não foi lá? Foi miopia a primeira cirurgia que eu fiz. Então eu já operei miopia, já operei joelho, coloquei prótese antes e depois que eu fiz catósis lá embaixo. Então já tô aí competindo com a Bismarck quase, né? Ângela, me aguarde! Hoje eu me arrependo muito dos caminhos que eu fiz, né? Fui muito felizada de não ter acontecido nada, mas Não é o que acontece muitas vezes. Tem muitas meninas que conseguem tirar suas vidas e conseguem, infelizmente, terminar esses problemas temporários com solução definitiva, que seria o suicídio, né?
Agora, por tudo que você tá me falando, você fez tudo isso mesmo tendo apoio dos pais. Imagina, né, os trans, os ou as trans.
Tem os trans e as trans, né? No meu caso são as trans, né? Quando a pessoa tem essa questão de ser XY, XY, né, que daí é tido como macho, XY da nossa espécie, que não se identifica, né. E essa questão transgênera, ela acaba tendo várias nuances. Tem pessoas que é só a questão da vestimenta, tem pessoas que são só características secundárias, tem outras como eu que é mais extrema, que é com relação às genitais, que tem essa disfunção de não ter, logicamente, identidade nenhuma com a parte genital, entende? Mas todas essas pessoas são transgêneras. Pessoas transgêneras são pessoas que não são cisgêneras, que não estão adequadas e percebidas dentro daquele contexto de construção de ser mulher é isso e ser homem é essa tipificação. E normalmente o pessoal pergunta assim: "Ah, então como é que eu vou saber se eu sou cisgênero ou transgênero? Ou o que é cisgênero?" Então quem não sabe normalmente é cisgênero, já vou informando você. Então se você não sabe nem o que é transgênero ou cisgênero, eu te informo: você é cisgênero.
Ô Maite, deixa eu te falar uma coisa. Esse papo tá ótimo. Na década de 80, A Roberta Close foi pioneira, maravilhosa e levantou bandeira, foi lá. E eu, fazendo as pesquisas, não me lembro de ter visto tanto preconceito naquela época como agora. O caso da Maite, o caso da Roberta Close na década de 80 serviu de inspiração, instrução para você?
Ah, sim, né? Eu até conheci ela pela internet, a gente trocou várias informações, tudo, não cheguei a conhecer pessoalmente ainda. Mas pra mim sempre foi um super exemplo, né? Eu sabia que era, né? Porque era ela, a gente via a Rogéria nas novelas também. Mas a Rogéria como tinha essa coisa do Astolfo, de falar "sou Astolfo Pinto", daí já não tinha uma identificação identitária tão grande. A Roberta quando apareceu e toda essa visibilidade dela, eu falava: "Olha, é isso, entende? Não estamos sozinhas." Então é tão legal quando você faz parte de um grupo que você se sente parte de alguma coisa. Lógico que todas as pessoas são diferentes, lógico que ela pensa coisas muito diferentes. Não é porque é trans que é todo mundo igual, né?
Eu já vou falar na história dos empregos, né? Você foi modelo quando você era Alexandre?
Fui, fui, fui, foi uma época de modelo. Eu tive que decidir, foi bem nessa época quase que eu decidi realmente que não tinha como continuar uma mentira, né? Eu fazia várias fotos, eu tinha sido convidada pra fazer uma campanha no Japão, eu teria que morar um tempo fora. E eu falei assim: "Não, não, eu tenho que decidir se eu quero viver uma mentira, mesmo que pareça ser incrível, porque era isso, todos os modelos queriam ir pro Japão, etc." E daí na época eu falei: "Não, eu não quero mais mentir pra mim mesma." E não sabia o que viria depois disso. Então, foi uma das decisões mais acertadas, né? Porque eu falo que quando você é você mesma, até o caminho errado você faz dar certo. Agora, quando você não é você, os caminhos certos continuam dando errado, entende? Mesmo os caminhos certos. Então, não dá pra gente fugir da nossa essência, de quem a gente é. E é um dos melhores aprendizados que eu passo pras pessoas. Eu falo: olha, seja você, que é a coisa linda e mais original que tem. A única coisa que você pode ser na vida é ser você. Não fuja disso. Então hoje em dia ser mulher pra mim é ser uma potência da minha essência, é ser livre, poder qualquer coisa, poder ser eu mesma, olhar e tipo: "Ah, você tá linda mesmo!" Ou: "Você tá fraca e tudo bem, você não tem que estar perfeita sempre, você não tem que ser a super-heroína." Ter direito sim aos meus chicos mesmo sem menstruar, ter direito às minhas TPMs mesmo sem ter regras, poder extravasar e ser da maneira que eu sou. A masculinidade hoje em dia eu percebo como uma coisa muito tóxica. Tóxica, né? Eu que já vim do lugar do Alexandre, dessa construção do que era ser menina, né, percebo que isso acabou fazendo muito mal inclusive para os próprios homens, né? Muitos homens hoje em dia do tipo: ah, você não pode mostrar que você é frágil, você não pode ser um menino que chore porque isso não é coisa de menino, você não pode gostar de tal cor, você não pode ser gentil com uma mulher, você não pode ajudar nas tarefas de casa, enfim, né? Que a gente tem esse machismo, acabou estragando inclusive vários homens através dessa masculinidade Então hoje eu combato e luto pela liberdade das pessoas serem o que são, independente de serem homens, mulheres ou pessoas não binárias que não se identificam com um e com o outro. Vá ser feliz, entende? Que a gente pode tudo. Tem um cara no teatro que se chama Peter Brook e ele tem uma frase que eu amo assim, que ele fala: "Olha, nessa vida tudo pode, só não pode qualquer coisa." E o qualquer coisa é não ser a gente. Então a gente pode tudo, você só não pode não ser você.
O Maitê, como é a sua vida amorosa? Porque mulheres que nasceram mulheres já sofrem muito preconceito. E aí eu fico me perguntando assim, como é então a vida amorosa de uma mulher que nasceu homem?
Como é? Eu já tive dois casamentos felizes, né? Os meus dois primeiros relacionamentos foram através de violência, né? Então um deles inclusive foram violências, né? Foram agressões os dois primeiros casamentos que eu tive, os dois primeiros relacionamentos que eu tive. Que eu tive, né? E um deles entrou na minha família. Foi, foi, foi. E um deles, inclusive, minha família entrou porque eu tive descolamento de nariz, de olho, né? E tinha namorado com ele mais de um ano e pouco, né? Então minha família foi fazer junto, meu pai foi junto fazer boletim de ocorrência. Foi uma das piores situações da minha vida. Mas já tive dois casamentos. Eu demorei muito tempo para acreditar que existiam pessoas legais, né? Então, porque eu achei que todo mundo era que nem essas duas pessoas, por ter sido as duas primeiras experiências que eu tive. Mas também tive dois casamentos super bons e maravilhosos na minha vida que fizeram acreditar no amor. Então eu super acredito no amor.
Com homens?
Hoje em dia, em todas as formas. Então já tive dois relacionamentos com mulheres, né, mas que não evoluíram pra parte sexual. Então, relacionamentos, eu digo que homem é mais fácil de me conquistar e precisa menos coisa. Mulher, quando pra mim olhar a mulher com essa questão do desejo, primeiro já tem que gostar dela enquanto pessoa, né. Homem, normalmente, às vezes eu nem gosto como pessoa e já tem alguma coisa que às vezes me atrai, mas também não é qualquer homem porque eu sou meio enjoadinha. Muito chatinha, né, coisa de escorpiana que é meio enjoadinha. Então relacionamentos hoje, eu gosto muito de gente, né, então gosto muito assim, sabe aquelas pessoas que você vê falando e você admira já o dia a dia das atitudes que a pessoa tem, daí eu falo, putz, que pessoa incrível, vejo aquela boca mexendo e falo, ai, vamos trocar uma saliva, sabe, depois que a saliva bate eu falo, vamos trocar outros fluidos, né. Então eu sou muito de assim por degrauzinho assim, então normalmente eu gosto já da pessoa, da maneira que ela é com os outros, como que ela encara o mundo, a que ela tem perante a coletividade, que ações que ela faz, como que ela tem, o que dá tesão na vida dela, o que move ela. Daí eu falo: "Gente, eu quero viver a vida dessa pessoa um pouco." Então começa uma amizade, essa amizade já se transforma em querer trocar esses fluidos e essas energias, porque acho que é tudo muita energia, entende? Um dia eu tava numa balada e veio um cara, e daí normalmente eu não conto assim logo de começo porque eu não sei nem se eu vou ter interesse de ficar. E quando eu vou ficar, eu acabo contando a história, que eu falei: "Ai, sabe, eu não quero perder tempo, nem saliva, nem energia com gente que não vale a pena." E tava rolando uma super, uma ficada, uma paquera super legal. E aquelas bebidinhas, não sei o quê. Até que eu cheguei pra ele e falei assim: "Ai, vou contar pra ele, né?" Como é que eu vou contar agora a questão do "já fui Alexandre um dia"? E daí eu falei assim: "Ah, vamos fazer uma brincadeirinha? A gente pede uns shots, não sei o quê, tudo, e cada um conta a pior coisa da vida, não sei o quê. Quem tiver a coisa mais fraquinha bebe o shot." Ele falou assim: "Ai, tudo bem, não sei o quê." E daí eu falei assim: "Ai, começa você, né?" Deleguei o direito pra ele. Falei: "Ai, homem adora ser o primeiro, tudo, né?" Ele falou: "Ah, vai você, né?" Fiz toda mulherzinha. Normalmente eu já tomaria, né? As três, inclusive. Tava na frente. Mas fiz lá, né? Minha mãe falou: "Mas tem que ser bem mulherzinha, porque senão homem não gosta de coisa muito assim." E daí ele falou assim: "Ai, a pior coisa que eu já fiz foi ver minha prima nua quando era criança, através do buraco da fechadura." Eu falei: "Nossa, que radical, super!" E você? Eu falei assim: "Ai, eu dei um susto no meu irmão, tal." Mas você, né? Falei: "Gente, não vai chegar no Alexandre nunca." Eu falei: "Agora sou eu, então curta a primeira, não sei o quê." Daí já tava, quando chegou na segunda, tudo tal, ele ganhou as duas primeiras. Eu falei assim: "Agora eu já vou ter que dizer." Eu virei assim e falei assim: "Bom, eu nasci Alexandre." Daí ele começou a rir, tudo tal, tal, tal. Ele falou: "Ah, para, né, Maitê? Você não quer mais brincar, não sei o quê, tudo tal. Não pode ficar mentindo, tudo tal." E eu sério, olhando para ele. Daí ele começou a parar de rir. "É verdade?" Eu falei: "Uhum." "Alexandre? Você nasceu Alexandre?" Daí eu mostrei a identidade, porque na época ainda tinha identidade de Alexandre. Mostrei a identidade para ele, assim, tudo, não tinha trocado ainda o nome. Daí ele ficou assim durante aquele 1 minuto que parecia uma eternidade me olhando. Eu falei: "Não, ele vai mandar eu para aqueles lugares lindos e maravilhosos, vai acabar tudo." Bora, bora! Eu falei: "Você não tem nada pra falar?" Ele falou: "Eu não sabia que eu era gay." Eu falei: "Você é gay? Eu até agora te paquerando, tudo tal..." Ele falou: "Não, devo ser, porque se você falou que você é Alexandre, eu tô tendo desejo por você, você é o tipo de homem que eu gosto." Mas ele falou super pra elogiar, eu achei super bonitinho, a gente ficou e foi lindo assim durante uma semana, porque ele era chato em outras coisas, mas durante uma semana foi super lindo, eu achei, né? E foi isso. Então tem coisas que são legais assim que acontecem também, só acontecem comigo essas coisas.
Pronto, olha, a gente teria mais milhares de exemplos desses, com certeza, Maite é uma das mulheres mais incríveis e engraçadas que eu já conheci até hoje, de verdade. E não é porque a gente é paranaense que eu estou dizendo isso não, tá? Aliás, eu não minto, então tá tudo certo.
Que bom, a Débora deve estar adorando.
Ô Maite, você foi fundadora da Transempregos.
Isso, uma das fundadoras. Eu, Laerte Coutinho, a Márcia Rocha, Letícia Lange, o Almério, uma turma boa.
O que é a Transempregos?
Transempregos é um projeto que foi criado para colocar pessoas trans que já tinham competências e não conseguiam oportunidades no mercado de trabalho por conta da questão da sua identidade. Então pessoas que às vezes tinham graduações diversas, a gente tinha casos de pessoas trans que a gente conhecia no Brasil inteiro que tinha às vezes duas pós-graduações, dois pós-docs e não conseguiu emprego só por conta da identidade dela de serem trans, de serem pessoas não fluidas. Um absurdo isso acontecer. E a gente começou a fazer, pra primeiro mapear as pessoas, então é o primeiro banco de currículos do Brasil inteiro pra pessoas trans. Mas a gente viu que não adiantava só colocar as pessoas trans lá dentro, porque a gente tinha que preparar o ambiente. Porque naturalmente as empresas não sabiam: mas eu trato como? Que banheira essas pessoas? Sabe aquelas coisas bem programa de televisão, você que tá por dentro, aquelas coisas? O que são transexuais? O que comem? Como se reproduzem hoje? Tantantã! Sabe aqueles programinhas assim? Porque o povo, como não conviveu, seja porque renegou das suas famílias, seja porque logicamente por conta de bullying saíram dessas pessoas trans do colégio, acabam não sabendo como lidar. Muitas vezes o preconceito vem desse não conhecimento da situação. E daí a gente falou: temos que fazer alguma coisa para mudar essa realidade. Começamos a preparar essas empresas, colocarmos essas Muitas pessoas, já foram milhares. Hoje em dia a gente tem uma empresa aí que é multinacional, que tem 80 mil funcionários no Brasil. Nessa empresa, 1.300 pessoas são trans, que a gente conseguiu colocar nesses 5 anos. Então tá acontecendo uma revolução. E é um projeto totalmente gratuito. Se você quiser levar pra sua empresa, pode. Totalmente grátis, entende? Que a gente tem uma meta de mais 10 anos acabar com a transemprego. E que as pessoas de verdade estejam contratando pra além de credo, cor, orientação, identidade. Qualquer coisa, contratando realmente humano e verdadeiramente competências, né?
Pera lá, pausa total. É a primeira pessoa que eu ouço dizer que abriu uma empresa e que espera que ela feche em 10 anos.
Era 15, né, quando a gente fundou. Então já foi 5, agora são mais 10. Então a gente não fez festa de abertura, a gente vai fazer uma festa de encerramento, que é quando a gente, tipo, olha, não somos mais necessárias, as empresas já estão fazendo descritivos inclusivos pra todo mundo. E as empresas já entenderam que essa revolução tem que ser humana e que a diversidade é a nossa maior igualdade. Tem uma frase que ficou muito conhecida, que é de uma executiva de uma grande empresa, que ela diz: "Diversidade é quando a gente convida as pessoas para festa e inclusão é quando a gente tira essas pessoas para dançar." Então não basta convidar para festas, você tem que tirá-las para dançar. Mas eu li uma melhor que eu queria compartilhar com vocês aqui do Unha Talks, que diz que diversidade É quando a gente conta as pessoas, quando a gente conta: "Você é negro, você não sei o quê." Quando a gente conta as pessoas, isso é contar a diversidade que todos somos. Inclusão, de fato, é quando as pessoas contam, quando elas se importam na nossa vida. Isso é incluir. E, de fato, é o que eu acredito e tenho feito, entende? Fazer com que as pessoas importem, vá além realmente dos rótulos, entenda as pessoas como elas são na sua essência.
Pra gente encerrar, o que você diria com um megafone para meninos e meninas que estão primeiro na dúvida se são o que são, se são o que pensam que são, se são o que querem ser, enfim, todas essas confusões que você sabe, né, que meninos e meninas vivem. O que você diria no megafone?
Eu diria: olha, gente, a gente pode tudo de verdade, entende? Mas escute a voz do teu coração, escute a voz do teu sentimento, não vá atrás de modismo, não vá atrás de exemplos que você tenha do tipo: eu tenho esse ídolo, esse ídolo é desse jeito, eu também vou ser. Descubra de verdade quem é você, descubra de verdade a tua essência. Vá no cantinho lá, algum lugar que você tenha conforto, um lugar que você tenha paz, um lugar que você esteja de frente com você mesma. Feche os olhinhos e perceba assim: quem sou eu? O que eu gosto? Entende? O que que eu quero para minha vida? O que que eu projeto a curto, médio e longo prazo? Liberte-se, acredite em você, não se envergonhe, se orgulhe da pessoa que você é e do ser humano que você pode se tornar. Não vá achar que você não vai ter medo, os medos vão se sentir, sabe? Mas eles não podem engessar você dentro de alguma coisa, sabe? Se empodere de quem você é, que você vai ter a maior das descobertas, entende? Hoje eu descobri, durante muito tempo eu quis ter raiz em algum lugar e etc. Hoje eu descobri que o melhor lugar pra gente ter raiz é no coração da gente, nos nossos pés a gente tem que ter asas. Então é isso, coloque asas nos teus pés e coloca as raízes no coração, que ela vai estar te acompanhando pra sempre. Não tenha medo, a gente foi feito pra não ser fronteiras, a gente foi feito pra ser horizonte. Então acho que a gente tem que só expandir e não limitar, né? Adorei!
Ana, vem cá! Juntamos aqui?
Juntamos? Ei, tchau!
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