“Não deixe a rotina tirar sua humanidade!”

Eloá Regina, who created the Vencendo o Burnout page, talks about developing severe burnout at 21. She experienced daily headaches, chest pain, and blackouts from work pressure and perfectionism. Her recovery came through psychotherapy and lifestyle changes, and she shares advice for workers and leaders on recognizing burnout before it takes hold.
Chapters
Olá, olá! Sejam todos muito bem-vindos. Sexta-feira, 10 de julho, 17 horas e 31 minutos. Eu estou muito feliz por estar encerrando essa semana do Reacenda com tantas informações, histórias que nos emocionaram, nos comoveram. Amanhã ainda tem muita coisa. Mas é só o que já aconteceu nesses últimos dias já me deixa muito feliz. Eu sei que também tem levado muita informação importante para todos que estão nos acompanhando. Todos os dias eu tenho uma história de alguém que superou ou está superando a síndrome de burnout. Então são com essas histórias de quem viveu na pele, né, um assunto que a gente tem ouvido com mais frequência, só assim eu entendo que a gente vai poder desmistificar o assunto. Então, muito obrigada a todos vocês que estão me acompanhando desde o início dessa semana Reacenda. Quero mandar um beijo especial para a Cíntia Alves com Alma, que está aqui. Cíntia, muito obrigada, preciso responder sua mensagem, mas que bom que você gostou do documentário. Aliás, se vocês quiserem assistir algo que vai dar uma chacoalhada e deixar vocês mais despertos, é um documentário chamado "Insight: O Poder da Intuição". O Poder da Intuição, se colocar no Google já vão encontrar. Cíntia, obrigada, tá aqui cheia de palminhas. Felícia, muito obrigada. João Fernando, todos vocês que estão aqui, muito, muito obrigada. As palavras são sementes, né, e se fazem sentido para vocês, por uma página que eu também sei que tem ajudado muita gente, que é Vencendo o Burnout. E ela tem uma história incrível. Olha ela aí! Tudo bem, querida?
Tudo bem, graças a Deus. Com você, tudo certo?
Tudo ótimo! Gente, eu adorei esse cabelo!
Gostou?
Muito!
Preparei, né? Porque é importante isso aqui.
Ô, querida, muito obrigada, tá, por ter aceitado o meu convite.
Eu que agradeço a oportunidade.
Eu tava contando, né, Eloá Regina, responsável pela página Vencendo o Burnout, que tem um conteúdo fantástico, sabe. Eloá, você tá de parabéns. E eu sei que também, com a sua história, com a sua experiência, você também procura, né, como eu, semearmos a informação correta por aí. Antes de tudo, me diga uma coisa: com quantos anos você viveu a experiência com a síndrome de burnout?
Eu tinha 21 anos, ia fazer 22 no mês seguinte.
Eu achei essa informação muito curiosa, gente, porque geralmente você costuma ouvir as pessoas que desenvolveram burnout com 30, 40, 50 anos, mas ela tá aqui, inclusive com a história dela vocês vão entender que não existe idade, sexo, profissão Se você ultrapassar seus limites, não importa o que você estiver fazendo, o corpo vai te mandar uma fatura que você vai ter que pagar sozinha, né, Eloá?
Muito alta.
O que que você fazia aos 21 anos que te fez ter o diagnóstico? Porque você também é uma das poucas pessoas que eu conheço que teve o diagnóstico. Fiquei muito feliz por você. Não por ter o burnout, veja, não por ter o burnout, mas por ter tido, por ter encontrado uma médica ou médico que conseguiu te dar um diagnóstico, né?
Exato. É, realmente eu fico muito feliz porque eu sei que teria sido muito mais difícil se eu não tivesse descoberto cedo. Foi muito bom. Eu estava em que contexto? Eu tinha 21 anos, ia fazer 22, tava perto dali. E eu trabalhava como servidora pública concursada, eu trabalhava com muito, muita pressão. Eu lembro que eu tinha muitas metas diárias e eu trabalhava as comuns 8 horas, né, de trabalho. Então eu não tenho, ao contrário de outras pessoas que passaram aqui, eu não ficava 12, 14 horas no trabalho. Só que eu não só trabalhava, eu estudava também. Eu estava no último ano da minha graduação de administração pública. Pra você ver como eu gosto, eu gosto dessa área, né? Eu estudava nessa área e trabalhava nessa área, era algo que eu realmente amava fazer. E além disso, eu ainda fazia estudo de idiomas, né, de inglês, ainda fazia trabalho voluntário. Então eu sempre fui uma pessoa muito ativa, sempre gostei de trabalhar e de agir, de fazer as coisas. Esse já era o meu segundo cargo público, porque eu sempre fui concurseira.
Precoce, né?
Precoce, sim, muito nova, muito nova. Meu primeiro concurso eu fiz aos 16 anos, 16 anos. E aí eu fui fazendo, eu fiz muitos concursos. Para minha surpresa, eu passei no primeiro concurso que eu fiz. Eu fiquei assim, nossa! E aí eu vi aquilo como realmente, ah, é um caminho, é o caminho, é, eu quero isso para minha vida. Até porque a minha família também era de servidores públicos. A minha família desde cedo já me incentivou, então eu fui com tudo.
Curioso você falar isso porque você disse, né, eu trabalhava, eu estudava, fazia um curso de idiomas. Até aí coisas que todos são exigidos, né? Você está trabalhando, você está estudando para aperfeiçoar provavelmente o que você tá fazendo, e tem que saber mais uma língua. Ou duas. Então não me venham com aquele papo de: ah lá, tá vendo, tá fazendo muita coisa. Gente, né? E o trabalho voluntário, muita gente faz isso. E o trabalho voluntário, você tá usando o seu tempo e tá recebendo uma energia maravilhosa em troca, né? Então também não vamos colocar responsabilidade, culpa onde não existe. Rapidamente, tá? Você sabe que quando eu estava trabalhando num horário, né, em que meu corpo não se sentia bem e fazendo um monte de coisa ao mesmo tempo, eu tava no caminho de um livro. E muitas pessoas me perguntavam: "Uai, mas será que você não teve, que você teve, que você tava escrevendo um livro e trabalhando?" Eu falo: "Nossa, gente, então todo mundo que trabalha não pode fazer mais nada?" Não, nós temos sim outras atividades. E você comentou que a sua família já vinha É de uma, de uma, de uma, de a sua família trabalhava também como servidor?
Sim, deu uma travadinha, mas vê se eu entendi certo. Você me perguntou se a minha família trabalhava com administração pública?
Isso, exatamente, exatamente.
Sim, meus pais, tios, irmão, então eu cresci vendo Esse cenário eu enxerguei, para mim, como um bom caminho por causa da famosa estabilidade, né? A estabilidade que é a armadilha perigosa.
Não é? A estabilidade.
Para mim foi uma armadilha muito grande. Então assim, e não era o meu primeiro emprego, né? Eu já tinha assumido um outro cargo antes. Trabalhei essa rotina de estudar, trabalhar, eu já tinha há um bom tempo e eu lembro que eu gostava daquela vida, né? Eu amava o que eu fazia, então Tava bom. A coisa mudou quando eu troquei de cargo. Um outro concurso me chamou e eu fui para outro lugar, outro órgão. Nesse outro órgão, a rotina era outra. Aí, para mim, que eu acho que foi a coisa acontecer, entendeu?
Entendi. Você, quando mudou, né, para você, quando você foi para outro órgão, você trabalhava a mesma quantidade de horas ou mais? E você fazia mais coisas dentro dessas horas? Como é que foi essa mudança, já que você fala que Foi quando deu o treco.
Eu trabalhava a mesma quantidade de horas, né, porque é padrão, né, era meio padrão, 8 horas diárias, né, o que a gente tá acostumado a ver. Só que nesse novo cargo eu fazia muito mais coisas, eu assumi muito rápido muitas responsabilidades, tanto que eu fiquei lá 5 meses só. Eu fiquei 5 meses e eu no cargo anterior eu tinha tido férias, não fazia muito tempo. Então hoje eu sei que tem muito desse, o clique realmente virou quando eu troquei de cargo e antes eu fazia muito atendimento ao público, era uma rotina que eu gostava de ver o público assim sendo ajudado e tal, mas eu gostava. E aí eu troquei para um cenário completamente diferente em que não tinha janela, eu ficava de frente para um computador o dia inteiro mexendo com números e responsabilidade, contas. Então era um trabalho que me exigia tanta atenção, tanta atenção, que um errinho podia causar problemas gigantescos, né? Então a pressão era muito grande para não errar de jeito nenhum. Eram metas muito claras, você tem que acabar hoje. Na verdade, esse que é o ponto, eu não ouvia que era para acabar hoje, eu ouvia que era para acabar ontem.
Ontem, sim.
Sempre.
Ô Heloá, você sabe que quando a Maslach, a Cristina Maslach, que escreveu o livro Burnout: The Cost of Caring, que é o custo de cuidar, lá na década de 80, ela coloca algumas profissões mais num grupo de mais sensíveis para desenvolver o burnout. Então tem profissionais da área de saúde, jornalistas, administradores. E aí quando perguntam, né, mas quem é que pode ter burnout? Quem não pode errar? Tem muito mais chance. Aí entra os bombeiros, os policiais, enfim, quem não pode errar tem muito mais chance. Mas como é que foi o seu caminho até você procurar um especialista? O que você estava sentindo?
Então, eu divido a minha história em antes, durante o burnout em si, que teve o diagnóstico, e após. Antes eu tinha toda essa rotina, mas que eu meio que já estava habituada, só não estava habituada a essa rotina dentro do escritório de trabalho. E aos pouquinhos o corpo foi avisando que tava errado. Eu passei, eu lembro que o primeiro sinal assim me avisou era dor de cabeça. Eu sentia dor de cabeça todos os dias, mas gente, não é aquela dor de cabeça que as pessoas têm de vez em quando, às vezes, então um remedinho. Era todos os dias sem falta e chegou um ponto que eu já não conseguia não tomar remédio. Se eu não tomasse remédio, a dor começava a ficar incapacitante.
Latejar.
Exato, demais. Muitas vezes, muitas, incontáveis vezes eu trabalhei sob muita dor, muita. E aí eu tinha que me concentrar em fazer certinho sentindo dor. E às vezes eu tomava um remédio, o remédio até fazia efeito, eu tava ali sofrendo, mas eu não podia errar. Então eu tava ali. E aos poucos os sintomas foram aparecendo outros. Eu lembro de sentir dor nas costas assim, que eu achei que eu tinha algum problema de coluna, sim, travava assim como se eu tivesse carregado um mundo nas costas, mas eu fiquei parada o dia inteiro, né, só ali no computador. Lembro também que eu comecei a ter azia, as coisas que eu comia me causavam uma azia assim, eu nunca tinha tido aquilo. Aí eu comecei a necessitar, como você fala, né, Foi aumentando. Dor de cabeça, azia e tal. E eu lembro que teve uma vez específica que me marcou muito. Que eu tava a caminho, era no segundo andar, e eu geralmente subia pela rampa, era mais rápido do que pelo elevador. Eu lembro que eu subi aquela rampa e meu coração apertou tão forte. Eu senti um, sabe, um aperto no peito tão forte que eu pensei: eu estava infartando. Uau!
Eu tinha certeza que eu tava travando.
Desculpa, eu tenho certeza que eu estava infartando.
Estava travando, né?
Eu estava travando também, eu tinha certeza. Então eu comecei a procurar médicos. Vamos no médico, vou no cardiologista, porque eu tive um infarto. É claro que eu tive um infarto. E junto com essa busca de médicos foram vindo sintomas emocionais, mentais, que eu achava que era besteira. "Não, que isso! Coração parando tudo bem, mas o fato de eu me sentir extremamente triste é frescura." Assim que eu pensava um pouco, sabe? Que eu tava, como eu vou dizer, eu não tava dando conta. Aí eu falava: "Não posso, não posso parar." E nessa busca de médicos eu lembro de dizer exatamente essa frase. Eu não tenho tempo para ficar doente. Eu falava essa frase: eu não tenho tempo, não dá. Eu era aquela pessoa que cronometrava tudo assim, ó, eu vou sair do trabalho, aí já emenda 10 minutos, dá para fazer isso, e nos 20 minutos seguintes aquilo, daí eu passo em outro lugar e tal, acho que termino em casa 10 horas, tô assim, vai estudar. Então assim, não dava tempo de ter dor de cabeça, não dava tempo de ir ao médico. Eu fiquei indignada que eu tive que marcar uma consulta ia mudar toda a minha agenda. Errei a vontade. Então assim, eu só realmente me toquei de que era algo muito sério quando começou a incapacitar de verdade, o dia que eu tive um apagão mental. Eu de repente esqueci o que que eu ia fazer, onde eu tava, por que que eu tava ali. Eu esqueci completamente. Aquele dia eu fiquei: tem alguma coisa errada de verdade, eu preciso, preciso buscar ajuda. Mas ainda assim eu achava que eu dava conta de ir ao médico e continuar naquele ritmo para tentar ajudar. Como eu estudei, né, administração, estudei muito sobre feedback, né, a comunicação entre liderança e liderado tem que ser assim muito boa. Então eu lembro que eu pensei assim: se eu falar com a minha chefe que eu não tô bem, pra ver se ela consegue distribuir melhor as atividades pra diminuir um pouquinho a minha carga, quem sabe eu aguento. E quando eu falei, né: olha, eu tô tendo alguma dificuldade e tal, será que a gente não consegue dividir isso de outra maneira? Eu, sinceramente, eu ouvi o seguinte: nossa, eu tô chocada que você é mais fraca do que eu pensei que fosse. Ele falou assim: eu tô te pressionando até para ver até o seu limite, onde que é. E eu queria mesmo te pressionar, queria. Eu botei muita coisa sobre você exatamente para ver o seu limite. Para minha surpresa, seu limite chegou mais cedo do que eu esperava. Eu ouvi isso, sim. Foi aí que eu fiquei assim, é Não dá para contar com a empatia da liderança. E por que que eu falo isso? Por que que eu conto essa parte da história? Porque isso foi um pontapé importante para eu começar a divulgar para as pessoas. Porque se a liderança tivesse tido empatia comigo, eu não teria chegado no último estágio do burnout.
É, eu também concordo.
Os estágios foram avançando, né? Pois é, então eu tava fazendo administração e E eu pensei assim: gente, administradores, líderes têm que saber o que é síndrome de burnout. Lembrando que até ali eu não sabia, eu não tinha tido diagnóstico exato. Mas eu pensava assim: líderes não podem falar assim com seus liderados, têm que ter um pouco mais de empatia. As pessoas estão muito frias, muito secas, né? Levando a vida como se fosse um robozinho. E aí é o que eu falo, né? Eu levava a minha vida como se eu fosse máquina. Chegou uma hora que deu prepaque.
Sim.
E aí sim, dia 14 de maio de 2015, eu não esqueço essa data, 14 de maio de 2015, meu celular tocou para despertar para eu trabalhar como eu fazia todos os dias, mas naquele dia eu não conseguia levantar de jeito nenhum. Era uma sensação de paralisia mesmo.
Isso.
Misturado com um pânico absurdo. Era quase uma sensação de morte. Parecia que se eu me levantasse para trabalhar, eu ia morrer. Eu não sei definir assim, eu nunca tinha tido nada parecido, entende? E eu fiquei me sentindo muito culpada por estar me sentindo daquele jeito e não consegui levantar para trabalhar. Foi aquele dia que foi o burnout mesmo, aquele dia Dividiu a minha vida, por isso que eu não esqueço a data.
14 de maio de 2015.
Sim. A partir daí é que a coisa mudou completamente. Eu contei pra minha mãe, nessa época eu morava sozinha, então eu falava muito com a minha mãe e com meu pai por telefone. Eu contei pra minha mãe o que tinha acontecido, aos prantos, desesperada, sem saber o que tava acontecendo. E aí ela me falou: minha filha, não vai trabalhar hoje porque eu já estava notando que você não estava bem. Eu tava vendo que você tava com humor diferente, que você estava exausta. Eu já tava vendo. Então eu já conversei com uma psicóloga amiga minha e ela sugeriu que a gente te levasse no psiquiatra, que você fosse ao psiquiatra. Olha, aquilo foi um cheio. Talvez eu mesmo, por iniciativa própria, não teria força para Claro. A Carol falou disso, né, da empatia do namorado dela. Família, quem tá me assistindo que não tem, mas tem família, pode acontecer com qualquer pessoa. Então enxerguem isso, né, vejam, observem quem tá ao seu redor. Porque se minha mãe não tivesse tido essa visão, talvez, eu não sei o que teria acontecido comigo, de verdade.
Oi, Luan. Rapidamente, antes de passar de novo a palavra para você, isso é muito importante a gente dizer, porque de certo modo alguns comportamentos são retroalimentados por todos. Então você estar cansado, ok. Você está exausto, ok. Você trabalhar 15 horas, 16 horas, ok, né? Então você vai colocando, você vai ampliando os limites e você vai alimentando a ilusão da performance ilimitada. E aí trabalhar passa a ser o seu modus operandi, final de semana. Então, que bom que você teve esse acolhimento da sua família. E dessa semana, o que você falou da Carol foi uma das partes que mais assim emocionaram, né? Como então que você pode ajudar quem está vivendo isso? E aí ela encontrou, né, o companheiro dela que só soube lidar com ela porque a mãe tinha vivido E o que que ele fez? Não julgou e não pediu prece. E não pediu prece. Bom, Eluan, deixa eu dizer uma coisa. Eu vou tirar aqui os comentários, tá, para que a gente possa te ver, e vou fazer um convite. Se alguém tiver alguma pergunta para Eluan, é só mandar aqui na caixinha, no pontinho de interrogação. E aí, aliás, tem vários comentários aqui interessantes, mas assim, para a gente pode ver. E quero compartilhar com vocês uma coisa que eu descobri esses dias. Quanto mais coraçõezinhos vocês mandarem, mais o Instagram, né, o algoritmo do Instagram vai entender que esse assunto é relevante, que mais pessoas podem se interessar por ele. Aí a nossa live vai aparecer ali naquelas primeiras bolinhas, tá, do feed. Então se vocês entendem que esse assunto é importante, enviem coraçõezinhos. Nunca pedi nada, né, então agora só tô pedindo os coraçõezinhos. Tô aprendendo a pedir agora, tá, gente. Eloá, você falou uma coisa assim, levava a vida como se fosse uma máquina. Aí você teve tudo que você teve, sua mãe percebeu que você não estava como você era, e aí você foi ao psiquiatra. Como é que foi esse momento?
Eu fui meio contrariada, porque o corpo obrigou, né? Eu fui pensando, eu não acredito que eu tô indo ao psiquiatra, eu não sou maluca. É de verdade, a gente pensa isso porque as pessoas, e eu tinha aquela imagem de psiquiatra, aquela coisa da pessoa na camisa de força, louco, sabe? Passa aquela imagem de que é uma coisa de outro mundo. E graças a Deus, um médico que me acolheu maravilhosamente bem, eu contei para ele tudo que tava acontecendo. Só contei, ó, isso, isso e isso. E esses dias eu não consegui consulta para o mesmo dia, foi um tempinho depois, mas poucos dias, né? E aí ele falou: olha, você teve, foi um burnout, você desenvolveu a síndrome de burnout, você chegou no último estágio, que é quando o seu corpo paralisa completamente. Então vou te dar um afastamento. Aí foi aí que começou o tratamento, entendeu? Fez toda a diferença. Eu lembro, sabe uma coisa que me marcou muito? Quando eu saí do consultório, que eu tava ali com o documento do afastamento, de começar o tratamento, o brilho do sol me chamou muita atenção, muita, porque eu dizia assim: eu tenho uma vida tão corrida que não dá tempo de olhar o brilho do sol, não dá tempo de perceber o brilho do sol. E o Rio aqui é muito bonito, né? Tem a água, Natureza. Eu não conseguia desfrutar do cenário que eu via todos os dias. Então o brilho do sol me chamou tanta atenção. Quando eu precisei, eu precisei voltar no local que eu trabalhava para entregar a documentação. Quando eu entreguei, meus colegas estavam meio assim perdidos, que eles não entenderam porque que a funcionária toda certinha, organizada, faltou. Quando eles viram que eu entrei lá para entregar, eles me perguntaram: "Eloá, o que houve? O que houve? Você foi atropelada? Aconteceu alguma coisa?" E aí eu falei: "Olha, eu não tô bem, mas eu vi que o sol brilha lá fora. Eu preciso mudar essa minha visão, eu preciso continuar vendo o sol brilhar." E aí, a partir daí sim, eu digo que Foi um começo de uma jornada que mudou totalmente a minha vida, porque o sol passou a brilhar. É o que eu falo.
Que bom que você percebeu o sol assim que você saiu do consultório. É um detalhe, muda tudo, tá, gente? Um detalhe muda tudo. Depois disso, você aí foi buscar que tipo de tratamento? Com remédio? Com terapia? Remédio, terapia, mudança do estilo de vida?
A gente começou tentando só a terapia, a psicoterapia, né, para ver se o meu corpo só com a terapia responderia, porque ele tava muito desequilibrado. Então no começo eu tive que trabalhar muito a culpa, porque eu me culpava por ter ficado daquele jeito. Eu achava que eu tava fracassando, né. E aí esse que é o ponto do fato de ser muito jovem, né. Eu pensava assim: meu Deus, eu fracassei aos 21 anos. Meu Deus, eu fracassei, que horror, sabe? O que vai ser de mim? Logo eu, que eu era tão esforçada, eu sou esforçada, o que que tá acontecendo? Então eu tive que trabalhar a culpa, foi fundamental isso. Quando eu entendi que a culpa não era minha, aí a gente foi trabalhando mais. Por questões de eu precisar resolver aquele monte de sintomas, achamos melhor, digo achamos porque foi uma conversa muito com o médico, Então não foi aquela coisa de toma isso porque você tá louco, que eu achava que seria, né? Não, foi uma conversa mesmo. É, não, foi uma conversa. Ele me ouviu, eu falei das minhas necessidades, e aí ele passou aos pouquinhos uma medicação que eu precisei tomar por um bom tempo, mas graças a Deus eu não tomo mais. Perfeito.
Aí então você começou com a a medicação e o que que mudou na sua vida de lá para cá?
Tudo, mas vamos listar mais ou menos algumas coisas. Eu digo que o tratamento da síndrome de burnout, ele equivale ao processo de uma lagarta entrando no casulo.
Perfeito.
Até quando eu dou alguma palestra, eu gosto de usar essa ilustração. A lagarta sempre foi lagarta, ela nasceu assim. Ela sempre se acostumou assim, pra ela a vida é aquilo. Ela tem aquela rotina, aquele jeito e ela vai. Só que a natureza dela exige que ela vá para um casulo. E esse período de casulo ele é muito complicado. E ela tinha que nos sentir. Porque no casulo, em primeiro lugar, a lagarta se torna a coisa mais frágil do mundo. Que tem lagartas que conseguem se defender enquanto são lagartas, né? Elas conseguem espinhos, têm substâncias, eu não entendo muito disso, mas geralmente eu digo assim: a lagarta consegue se defender. Quando ela tá no casulo, ela se torna tão frágil, qualquer pessoa, qualquer bicho pode ir lá arrancar. Pronto, então eu lembro que eu me senti muito frágil e também eu me senti sem identidade, assim como a lagarta nesse período, ela não é nem lagarta nem borboleta. Eu me sentia assim, eu me sentia, eu não sei se eu sou uma profissional profissional incompetente que tava dando sorte antes, ou se eu sou competente, mas fraquejei, se eu me enganei. O que que eu sou? Eu quero ser mesmo administradora? Eu quero continuar na administração pública? Sabe, eu comecei a me questionar o que que eu era, o que que eu tava fazendo ali. E eu passei muito tempo lamentando.
Lamentando.
O que que isso tá acontecendo comigo? Eu sou uma pessoa de fé, eu sou uma pessoa que fala com Deus, por que que isso tá acontecendo comigo? Eu achava que eu teria imunidade da fé, né? E não é assim que funciona. Quando eu parei de falar por que que isso tá acontecendo comigo e comecei a falar o que que eu tenho que fazer com isso, o que que eu posso aprender com isso, a chave virou. É a hora que eu digo que eu percebi que a lagarta sai do casulo, entrou pro casulo e sai e vai virar borboleta. É a hora que eu tive que aprender a me conhecer. Então, em primeiro lugar, eu tive que conhecer ela, porque eu não conhecia mais. Eu conhecia o robô que trabalhava enquanto os outros dormem. Pois é, não tem aquela, trabalha enquanto os outros dormem.
Não, e que é colocado como uma coisa maravilhosa, e você tem que fazer isso mesmo, especialmente quando você tem 20 e poucos anos, né?
Eu achava assim, se eu quero chegar em algum lugar, menos que isso não dá. Menos que isso você não chega em lugar nenhum. Essa mensagem que eu tinha muito clara e eu sempre fui muito focada. Foco, foco, vamos, vamos. Acabou. Eu tive que conhecer a nova Eloá. A Eloá que trabalha sim, mas que ela descansa, que dorme, que tem seu momento de lazer. Que quando fica doente, respeita o corpo porque tá doente. E é muito engraçado que quando você começa a respeitar seu corpo, você fica menos doente.
Sim, com certeza você fica menos doente.
Então você acaba precisando menos, né? Aquela que sabe investir nela mesma muito mais. Então tive que mudar desde a visão, né, autoconhecimento, até rotina mesmo, né? Eu passei a Por exemplo, uma coisa boba, muita gente ri quando eu falo que há mais de 2 anos eu não tomo café.
Entendo perfeitamente.
Nenhum. Tem gente que fala: eu não acredito. Até porque nessa época do burnout eu tomava mais ou menos 900ml de café por dia.
Que isso!
Era muito café, porque eu tinha que tomar café para ficar acordada, claro, porque senão não dava conta. E de noite eu ficava acelerada.
Eu entendo perfeitamente.
Aí eu não dormia.
Inclusive muitas pessoas colocam a culpa no café quando estão no trabalho muito estressante ou de muitas horas, porque falam: nossa, tomando muito café, tô com gastrite. Isso é comum, como se fizesse parte do trabalho. E aí eu sempre brinco, eu falo assim: olha, não é o café que tá te dando isso, né? É o excesso de trabalho. Você toma café para dar conta do excesso de trabalho. Então é muito importante chegar na origem do problema, senão você só vai ficar remediando.
Exatamente isso. É que nem eu falo, é que nem descascar cebola, né? Você vai tirando as casquinhas.
É.
No começo, um exemplo, eu lembro que eu sentia muito ataque cardíaco.
Eu também.
No caminho do trabalho, muito, muito. No trabalho também, mas principalmente no caminho, muito ataque cardíaco. Aí eu tirei a primeira casca e descobri que aquele ataque cardíaco era medo de me atrasar ou de falhar. Aí tirei mais uma camadinha e descobri que taquicardia na verdade era vontade de agradar todo mundo, entendeu? Então você vai tirando as camadas e aí você vê que o problema não é a taquicardia, o problema é querer agradar todo mundo o tempo todo. Sem dúvida. Então assim, o processo de autoconhecimento é tão grande que você tem uma pessoa na sua frente, um espelho para você conhecer e você vai nesse processo. Então não dá para ter pressa, a gente tem falado muito sobre isso, né? Você tem falado muito no nosso canal.
É, não dá para ter pressa até porque se o problema é multifatorial e você não desenvolve de um dia para o outro, a cura ou tratamento também não será suficiente só por um dia. O Eloá tem tanta pergunta aqui, nossa senhora, adorei! Deixa eu só ver se não tenho mais alguma pergunta até agora para fazer. Ah, você acha que o perfil da sua família, muito estudiosos, trabalhadores, né, que é o que a gente admira e tal, influenciou no seu comportamento de trabalhar bastante, estudar bastante?
Influenciou, porque eu tinha referência, né, eu tinha aquele norte. Na minha família ninguém teve burnout, mas me influenciou. Se eu não tivesse, talvez eu não fosse trabalhar.
Olha, inclusive ontem você assistiu a live do Cortella? Ai, que que foi aquilo? Você lembra o que que ele falou sobre modos próprios? Cada um tem seu modo próprio. Então não é porque minha família trabalhava, estudava, que eu trabalhei, estudei, que eles tiveram ou eu vou ter como— não, não, né? É, senão dois irmãos gêmeos seriam idênticos por dentro, como às vezes são por fora. Bom, tô filosofando demais aqui. Olha só o que que perguntaram. O Sérgio, deixa eu colocar aqui: a partir, né, do dia 15 de maio, como você comentou, na verdade 14 de maio, até a data da consulta do médico, você foi ao trabalho ou continuou em casa? Ou seja, aqui a pergunta é: você foi trabalhar já? Aliás, você continuou trabalhando naquele estado ruim? Como é que foi?
Então, eu não trabalhei porque Se eu não me engano, dia 15 de maio, não, dia 14 de maio, uma quinta-feira, desse dia foi uma quinta-feira, e a minha consulta era logo no sábado. Então eu lembro que eu queria trabalhar muito na sexta-feira, era entre quinta e sábado, e eu fiquei muito receosa, só que eu não conseguia, eu não conseguia ir. Eu lembro da minha mãe dizer: talvez você precise faltar, mas é melhor você faltar do que você ir assim e ter um treco lá. Claro.
Então no dia 14 você teve esse mau súbito, né, que você não conseguiu levantar da cama. Dia 15 você faltou. No sábado você foi ao médico e na segunda você já tava de atestado. A Marli pergunta se você acha que psiquiatras e psicólogos mais antigos são mais resistentes em diagnosticar o burnout. O médico que te atendeu, ele tem um perfil mais moderno ou mais conservador? Vamos ver.
Então, ele pareceu moderno e tal, no sentido de que eu não conversei com ele assim, com a visão dele da medicina e tal, não cheguei a isso, mas ele era bem atualizado, né? Não necessariamente jovenzinho, né? Ele não era tão novo de idade, mas ele era bem atualizado e no caso dele, ele se especializou especificamente na medicina do trabalho. Então ele tava por dentro do que tava acontecendo. Ela fez muita diferença.
A live das 7:30 é com Marcos Batista, médico do trabalho, né? Vai ser ótimo também ter a visão de como o médico do trabalho atua em prol do trabalhador, né? E não o médico do trabalho que está dentro da empresa, que a gente sabe que às vezes ignora, né, certas informações dos liderados. Oi, Eloá! Bom, a Karen faz uma pergunta muito interessante: o que fizeram quando não tinha energia para trabalhar, mas amava o trabalho? Que é como aquilo que a gente fala, a maior parte das pessoas têm burnout e amam o que fazem. O que que você fazia?
Eu fiquei naquela dúvida, né, porque eu amava o que eu fazia, eu queria fazer um bom trabalho. Mas era tão claro que eu não conseguia. É como alguém que, sei lá, se acidentou, precisou imobilizar o pé, mas essa pessoa ama sair pra correr. Ela continua amando, ela continua tendo a capacidade, mas naquele momento ela não pode. Então eu não podia. Eu tinha isso muito claro de que eu não estava conseguindo naquele momento. Só não sabia se eu ia recuperar, falta de informação, né? Eu não sabia se eu ia recuperar, mas Eu sabia que era temporário, daquele jeito eu não podia continuar. Aí eu parei por imposição do corpo.
Gente, olha que cabeça boa, né? Fazendo aqui uma analogia, que cabeça boa, Eloá! Tô encantada com a sua história, porque como você falou, a gente fica muito tempo se perguntando por quê, se culpando, se comparando, e é óbvio que vem o vitimismo, gente. E também quem tá fora não tem como criticar. Porque você nunca sabe como medir a dor do outro, né? Amanhã até a gente vai falar com a Mariana Clark, que é uma psicóloga especialista em luto, para falar justamente sobre isso, né? Porque o luto são perdas de vínculos, não é só o luto, não é só em relação à perda humana, são perdas de vínculos. E na hora que você perde, você já tem uma tendência ao vitimismo, né? Mas para algumas pessoas Umas demoram mais, outras menos.
Você concorda, Eloá? Sim, e é fundamental passar por esse processo, sabe? Porque eu também tive o meu momento de vitimismo pesado, porque a gente é, as pessoas são naturalmente assim. Só que uma hora ele atrapalha. Enquanto ele tava atrapalhando, não andava, não andava, não andava. Foi assim, realmente virou o jogo quando eu comecei a olhar: não, não é Nem de "eu sou coitadinha, a culpa é dos outros", mas também nem de "eu sou incompetente, eu estraguei tudo". Como a Roberta falou, se eu não me engano, né? "A culpa não é de ninguém, mas é responsabilidade de todo mundo." Quando você aprende o papelzinho de cada um nessa história, olha, a coisa anda bem mais rápido.
É, o "eu estraguei tudo", gente, olha, nunca ouvi alguém que não me falou isso, né? "Eu estraguei tudo." É incrível como a gente se culpa. Eloá, antes da gente passar para os nossos últimos 20 minutos, aí eu quero entender o que que você tem compartilhado, o que que você tem feito, como é que você virou o jogo. A Cris pergunta como é que foi seu tratamento, se foi com remédios, foi ortomolecular?
No meu caso foi alopata mesmo, a medicina tradicional, que muita gente conhece.
A mais conhecida, né?
É a mais conhecida, a famosa, né? Mas principalmente a maior terapia foi a psicoterapia. Pelo menos no meu caso foi assim. Porque a medicação a gente teve muito claro de que era pra sanar os sintomas, principalmente os físicos. Assim, eu lembro que me atrapalhou muito de dormir. Eu virava à noite e dizia assim: direto! E eu não conseguia Eu tinha essa taquicardia de ansiedade que demorou eu saber que aquilo era ansiedade. Eu achava que era meu coração, fazia exame, meu coração tava bem. Então a medicação, no meu caso, me ajudou a lidar com esses sintomas. Mas a psicoterapia fez a grande mágica do negócio, né? Porque quando mudou a minha visão, sabe? É a mesma analogia, por isso que eu gosto dela, a analogia do casulo. Não é ninguém que abre o casulo pra lagarta, ela tem que abrir.
Ela tem que sair.
Então não adianta ficar esperando que alguém vai te dar a receita do bolo para você melhorar. É você mesmo que vai descobrir o seu momento, seus limites, o seu tratamento que vai funcionar para você. Não é, não é uma receita mágica.
Nossa, que lindo isso que você falou da lagarta, né? Porque se alguém tentar forçar a abertura do casulo, ela não está pronta. Nossa, que lindo isso, gente! É simples.
Sempre não dá certo voltar para o trabalho na hora errada, não dá certo. Que você vai voltar, mas você não tava pronto. Então não adianta forçar o tratamento do outro em mim, porque não é o seu tratamento, você não tá pronto, entendeu? E quando você se vê pronto, gente, ninguém te segura, ninguém te segura.
É um negócio que você vai longe. É isso aí. E quando você falou, né, não adianta querer voltar logo para o trabalho, e também não adianta Porque as pessoas que estão do seu lado, familiares, amigos, eles querem o seu bem. Só que não adianta apressar também, né? Não adianta apressar o tempo das coisas, porque você vai tirar a lagarta do tempo correto. Você já viu, Eloá, é um vídeo de um rabino que fala sobre a lagosta? Você já viu esse vídeo? É um vídeo que fala assim que a lagosta, de tempos em tempos, ela precisa entrar num casulo porque ela precisa tirar a casca, que ela vai crescendo, a casca fica pequena, então ela tem que tirar aquela casca para depois caber na casca nova. E ele faz uma brincadeira: imagina se a lagosta fosse buscar remédios para... Não, porque aí outros animais marinhos falariam assim: mas por que você está indo para um casulo? Você está com algum problema? E não, faz parte do processo. É, né, faz parte do processo. O que que mudou na sua vida? O que que você tem feito hoje? Qual foi o maior ganho depois dessa pausa brusca do burnout?
Eu fiquei de licença por mais de um ano, um ano e quatro meses. Foi muito difícil, né, que as pessoas faziam comparação logo: ué, fulana "Teve problema de estômago? Fulano operou não sei o quê?" Falavam assim, né? "Olha, e voltou rápido, o que que você tem?" Achavam que eu tava inventando alguma coisa, né? Esse tempo, né, 1 ano e 4 meses, passei várias coisas, né? Processos da perícia, até para quem serviu do público, a perícia é um pouquinho diferente do que do INSS, mas são médicos também, e que se eles não conhecem a síndrome de burnout Eles também julgam, eu ouvi muito julgamento, mas fui, tinha que fazer, a gente não pode ter medo. Nessa hora a gente não pode ter medo, a gente vai e faz. Mas de lá pra cá eu passei esse processo de me conhecer e eu acabei concluindo que eu não queria continuar na administração pública, pelo menos não naquele momento. A primeira coisa que eu fiz foi trocar. Nesse período Como eu falei, eu fiz vários concursos, vários. Então outro concurso que eu tinha feito me chamou, e aí eu fiquei, aí talvez seja a hora de recomeçar. Porque por mais que eu tivesse bem melhor do que eu tava naquela época, lembrando que aí já tinham se passado uns 2 anos, pode ser longo, mas eu falei, eu vou tentar em outro lugar, eu vou tentar recomeçar. Eu recomecei nesse outro lugar, eu me adaptei, deu deu certo. Mas nessa hora eu já me conhecia e eu vi que a Eloá não cabia naquele lugar. Não era aquilo que eu queria, não era aquilo, eu não tava feliz. Depois você vê o brilho do sol, gente, você não quer voltar para tempestade, você não quer. O sol brilhava e eu falei: eu quero, eu quero um lugar em que eu me encontre. E fui tentando mesmo, gente, sem medo, arrisquei. Sair, abrir mão do cargo concursado. E aí aquela fala, né? Todo mundo quer estar no seu lugar.
Total, total.
E aí, olha que interessante, né? Todo mundo quer ser publicitário que nem a Jaque, que nem a Roberta e a Carol. Todo mundo quer ser líder igual o Damião.
Todo mundo quer ser concursado. Todo mundo também quer ser jornalista e estar numa grande emissora.
Todo mundo quer. Então, para você ver como esse argumento, ele acha mais autossabotador do que ajuda, né?
Sim.
Então eu falei assim, olha, todo mundo pode querer. Eu podia ser presidente dos Estados Unidos, sei lá, presidente do Brasil, presidente do mundo, mas se não é para mim, não é para mim, não é para mim. Pode ser o melhor cargo, pode ser o melhor sonho, mas se não é para mim, ele não é, ele não cabe, não é para mim.
Perfeito.
Então eu abri mão, engatei na iniciativa privada, e hoje eu sou autônoma. Eu troquei totalmente a estabilidade do serviço público por essa instabilidade, mas ao mesmo tempo eu ganhei uma estabilidade emocional incomparável. Então eu troquei sem medo.
Vamos repetir isso? Vamos repetir.
A instabilidade, ou melhor, eu troquei a estabilidade financeira do serviço público pela estabilidade emocional, que é incomparável. É assim, eu só me pergunto por que eu não fiz isso antes.
Não é?
Eu engatei, além disso, né, por fora, né, tem tudo isso no meu tratamento, mas eu engatei na pesquisa sobre a síndrome de burnout, porque gente, Se hoje muita gente não conhece, estamos em 2020, em 2015 ninguém conhecia. Achavam que era um negócio inventado, as pessoas não conheciam mesmo. Então eu lembro que eu fiquei tão admirada por eu pesquisar, pesquisar, pesquisar e não achar nada, que eu comecei a criar conteúdo. Eu falei assim: se não tem quem faça, eu vou fazer. E outra coisa que acontecia, que me chamou atenção, é que as pessoas— eu lembro que na época eu só encontrei duas páginas sobre isso. Uma delas até hoje eu sou administradora também, junto com uma amiga minha. Eu lembro que eu via que as pessoas não colocavam o rosto, elas não diziam quem eram elas. Elas tinham muito medo. Tanto que a primeira reportagem, eu participei de uma reportagem lá em 2016 e tal, E o jornalista que fez a reportagem sobre o síndrome de burnout, ele nem perguntou se eu queria ocultar meu nome ou não. Ele já deduziu que eu não queria e já botou o meu nome em siglas. Então eu era HR. Ele entrevistou outras pessoas também, né, e todo mundo era a sua inicial. E aí é muito interessante que aquilo me acendeu assim de Meu Deus, as pessoas têm vergonha. Ninguém tem vergonha de dizer que tá com gripe, mas as pessoas têm vergonha de dizer que tem síndrome de burnout. Se as pessoas estão— se ninguém põe a cara, eu vou botar. Eu lembro que eu falava assim: eu quero ver o dia em que as pessoas vão falar de burnout sem medo e tão natural. Ou melhor ainda, que elas digam: eu não tive burnout. E sem medo, sabe? Essa sempre foi a minha meta. E aí surgiu a página Vencendo o Burnout, que aí esse ano veio para o Instagram, por isso que ela ainda tá pequenininha. Mas esse é o objetivo, sabe? Era primeiro ajudar alguém a não ter. Esse sempre foi a minha meta. Se eu tivesse tido uma semana de reacenda lá em 2015, eu não teria tido burnout, de verdade, assim. Pendera, eu falo: se uma pessoa, uma pessoa no mundo não tiver burnout porque viu essa live, porque viu as postagens, eu cumpri o propósito. E todo aquele tempo naquele casulo terrível valeu, sabe? Então, a partir daí nasceu tudo. E eu amo fazer isso, eu amo, gente, eu amo falar de burnout todos os dias, mas falar como quem passou, claro.
Outro dia, né, eu ouvi alguém falando assim: ai, você não para de falar desse assunto, você fica procurando problema. Não, eu como jornalista também tenho a responsabilidade de prevenir o problema. Eu faria isso por qualquer pauta que me dessem. Então, quando a gente fala do que sente, é totalmente diferente. Até rimou: quando a gente fala do que sente, é totalmente diferente. A sua página é espetacular, recomendo que todos que estejam aqui nos acompanhando. Sigam Vencendo o Burnout. Essa live também vai ficar no meu YouTube. Então, como eu digo, as palavras são sementes. Se elas estão florescendo, se faz sentido, né, para vocês, vamos semear, vamos compartilhar com mais pessoas. Porque se temos quase 20 milhões de brasileiros com a síndrome de burnout, e a síndrome de burnout já está incluída na quarta onda pós-COVID, Bom, então nós precisamos pelo menos aceitar que existe um movimento, o diálogo está maior, né, Lua? A gente sempre vai encontrar os resistentes, a gente não adianta brigar com eles, eles sempre vão estar aí, mas os números agora nos ajudam, né, querida? Eles ajudam a gente a falar da situação, mensurar, porque aí ganha respeito. Queria que você contasse para mim sobre o grupo de apoio que você tem no Facebook também.
Esse grupo foi muito interessante porque eu entrei no grupo, ele não foi criado por mim, foi criado pela mesma amiga daquela página que eu te falei, amiga querida. Eu fiz muitos amigos ao longo da história de burnout.
É, a gente faz.
Mas eu lembro que eu entrei no grupo porque eu precisava de ajuda, eu precisava de informação, só que as pessoas não sabiam nada, elas sabiam menos ou o mesmo que eu. Então eu comecei a compartilhar o que eu aprendia. Acontecia muito de eu ler algum material em outra língua e aí traduzia e aí trazia para o grupo, né? Para ter uma ideia, eu participei de um grupo de apoio alemão. Uau! Porque eu fiquei tão sedenta pela informação, porque não tinha nada, não tinha livro, assim, tinha livros, mas Não tinha livro como o da Roberta, por exemplo, que é de alguém que viveu, entendeu? Não tinha. Então eu fiquei desesperada para procurar alguém que dissesse: eu tive, venci e vai acabar. Esse mesmo, maravilhoso, um dos melhores que eu li assim sobre síndrome de burnout. Me tocou muito. Eu falo: Roberta, parece que você estava dentro da minha cabeça.
Total! Não, e você não sabe quando eu dei o Google no assunto e procurando algum livro eu achei esse livro. Eu falei: Não é possível, né? Eu também fiquei muito, me senti acolhida, aliviada, sabe, quando eu vi esse livro.
Eu senti tanta necessidade de encontrar pessoas assim que eu entrei nesse grupo. Pouco tempo depois, semanas, me chamaram para administrar esse grupo. E hoje já tem mais de 4 mil seguidores. Hoje, sabe, vivo disso.
E o que que você, a gente tem aqui 10 minutos, antes de pedir suas considerações finais, eu queria que você então Desse aí uma brifada, quais são as situações que você mais encontra nesse grupo de apoio no Facebook com mais de 4 mil pessoas? Quais são as histórias que você ouve? Qual é o perfil dessas pessoas?
Esse grupo é muito misto, o que eu acho interessantíssimo para ver que não tem uma profissão, um gênero. Não tem, é muito misto. Tem pessoas mais jovens, não tão jovens, servidores públicos, outros não. Vejo muitos professores lá.
Muitos.
Infelizmente a síndrome de burnout alcança professores. E no caso dos servidores públicos, eles têm que lidar com a questão de não ter a estrutura tão boa e ainda ter que dar conta. Então eu vejo muito isso. Mas As coisas que eu mais ouço na leitura é dificuldade da família entender. As pessoas dizem: "A minha família não entende." E aí entra a Semana do Reação ajudando nisso. Porque é verdade, porque se as pessoas entenderem, simplesmente ouvirem sem julgar, já adianta muito. Então eu vejo as pessoas reclamarem de incompreensão da família, aquele medo de: "O que vai ser da minha carreira?" O grupo se ajuda muito, cada um contando assim: ah, eu também, sei lá, bancário, eu também era bancário e aí eu fiz isso, isso e isso, encontrei esse caminho, funcionou. Aí surgiu outro: ah, eu sou bancário, fiz tal coisa. Então essa troca de ideias entre as pessoas fortalece muito. É muito bom encontrar alguém que entende a gente, sabe? É muito bom ver isso assim. E tem gente do Brasil inteiro.
Como é que encontra lá no— bom, a sua página Vencendo o Burnout, recomendo a todos que estejam aqui. E lá no Facebook, Onde é que a gente encontra esse grupo?
O nome do grupo é Síndrome de Burnout Apoio. É para dar apoio. Um dá apoio para o outro, um ajuda o outro, a gente se conhece, faz amigos e sim, um entende o outro mesmo, um dá dica para o outro, dica prática também. Não é só filosofar, não, é dica prática. Muito bom.
É isso mesmo. Eu, Laura, tenho 17 perguntas aqui. E nós temos 7 minutos para encerrar. Você quer que eu abra uma pergunta ou você quer colocar suas considerações finais sobre recuperação?
Ai, não sei. É porque eu acho que só vai dar tempo de uma pergunta, né?
Tá, então deixa eu ver aqui, ó. Aí enquanto você vai perguntando, já pensando já nas suas considerações finais. Já foi no tratamento. Bom, pera lá. Encontrei. Ah, que lindo! Bom, aqui vai ser um comentário, né? Essa moça diz assim: Ana, eu procurei no Insta sobre burnout, encontrei a luz da Eloá. Que mulher abençoada! Vocês já tinham se falado?
Ela já falou comigo, ela falou: tem que assistir essa live, tô curiosa, quero ver como é que vai ser. Eu gostei muito de cada relato desse assim, é olhar para trás e falar: valeu, valeu!
É isso mesmo, minha linda. Então vamos lá, para você que teve o diagnóstico, é o que na minha opinião Não é que vai melhorar alguma coisa, tá, gente, mas ajuda a não deixar pior a situação, que já é muito delicada. Porque, como eu disse, os nossos pais, os nossos amigos nos amam, eles querem o nosso melhor, mas eles também não sabem como fazer. A gente também não sabe, os médicos não sabem, né, alguns apenas. E eu fico feliz em você ter tido esse acolhimento desse médico, ter tido diagnóstico certo, ter feito um tratamento certo. Adiantou muita coisa, ajudou muito. Cada dia, né, a Jaque, a Carol, Roberta, o Damião e você são histórias diferentes e iguais. É impressionante. Eu nunca imaginei que eu falaria isso. São histórias diferentes, mas iguais. Tem muitas características positivas parecidas, as consequências também são muito parecidas, mas vamos em frente, né? Com informação correta a gente consegue montar o quebra-cabeça. Isso é muito importante, né, Eloá? A gente tem que montar o nosso quebra-cabeça. Pode ser que a gente não consiga e a gente tem que levar então essas peças para alguém que vai montar. Vai ser a primeira pessoa? Às vezes não. Você vai ter que passar em mais médicos, não é?
Eu tentei. Felizmente, o médico que encontrei deu diagnóstico rápido, certeiro. Mas ao longo das terapias eu fiz diferentes abordagens, tentei terapia alternativa. Assim, a gente vai tentando e vai encontrando o nosso caminho. O nosso caminho é o único, é nosso.
Isso. Se você pudesse mandar uma mensagem de texto agora para esses 20 milhões de brasileiros que têm o diagnóstico, o que que você diria? Para a gente encerrar, porque o tempo tá acabando, tá? Senão eu ficaria aqui, ó, fazendo um tricô aqui com você.
Olha, tentando ser muito curta, eu acho que eu diria: não deixa a rotina tirar a sua humanidade. E aí inclui tudo, desde a sua humanidade no aceite que você falha, humanos falham, aceite que não há receita de bolo quando se fala de gente, tá bem? Aceita que às vezes você vai ter que parar. Então desconstrói essa cultura de trabalho excessivo, esse culto ao trabalho excessivo, e aceita a tua humanidade. Porque isso foi o primeiro caminho. Quando eu entendi: eu sou humana, eu sou gente, eu não sou máquina. Aí andou, aí a coisa andou. E hoje, ó, hoje eu tenho essa página, hoje eu sou muito mais feliz, hoje eu dou palestra. Aí lá de 2015 eu não ia acreditar nunca nisso. Que ia dar palestra. Eu acho que a gente ia rir se eu contasse para ela que estaria nessa live agora.
Ai, que linda!
Aceita essa humanidade para você um dia rir de como você cresceu, de como você venceu, porque o burnout dá para vencer sim, de como você venceu.
Que lindo, né? Que você, o que você falaria para aquela Eloá do
More from GHION.AI

O processo de reconhecer limites, mesmo quando a vida parece exigir sempre mais.

Depois de tantas histórias, aprendizados e pausas necessárias, o @interior_iza está de volta








