Nova rotina: o que mudou?

Lucas, a color correction specialist, talks about the emotional toll of his work in beauty, absorbing clients' trauma and his team's problems. He describes a breaking point where stress triggered him to throw a trash can, and reflects on how the beauty industry masks mental health struggles behind aesthetics.
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É um fruto de muito tempo, assim. Eu vim de uma família que não tinha ajuda de nada. Ninguém falava, faz ou vai ali. Eu achava que ser cabeleireiro era um sobreemprego. Você pensava isso lá atrás? A minha família fazia com que eu pensasse isso. Ser um cabeleireiro era um sobreemprego. E quem trouxe muito isso pra gente, até como uma coisa mais digna de cabeleireiro, foi o Marco Antônio.
Exato.
Que é quem eu trabalho hoje, tem oito anos.
Ótimo.
Ele trouxe muito isso pra gente. da nossa profissão ser uma coisa digna de tão conhecimento e importância quanto um médico, um advogado... Uma profissão valiosa. Uma profissão valiosa, que a gente estuda muito. O que a gente faz com as pessoas, em nível de transformá-las, você mexe por fora, mas você mexe por dentro dela também. Tipo, diariamente eu passo por isso. Ainda mais no meu caso, que eu faço correção de cor. Vou contextualizar pra vocês. São pessoas que passaram por outros profissionais, que estão com o cabelo já no limite de não fazer nada, às vezes até a água quebra. E passaram por vários perrengues, e elas chegam até mim. Então, eu fiquei muito conhecido nos últimos cinco anos através disso. De ser realmente aquela pessoa que conserta a caca dos outros. Então, essa pessoa já chega comigo muito fragilizada por o que aconteceu com ela. Então, ela espera demais de mim, que eu consiga entregar pelo resultado muito satisfatório, como se eu fosse Jesus Cristo da colorimetria. E depende muito mais da matéria prima que eu tenho do que de mim. Depende do cabelo, como que o cabelo está, o que é. Então, é todo o meu trabalho de conscientização dessa pessoa. pra conseguir entregar o melhor resultado pra ela, de acordo com as possibilidades que eu tenho.
Tá.
E aí... São 20 anos já.
20 anos.
20 anos, 5 meses e alguns dias. Mas você não para pra pensar que você tá num ciclo de estresse, num ambiente de estresse, porque você trabalha com beleza, então beleza... não tem estresse na beleza, né? Sendo que você tá ali com pessoas... com problemas todo dia, não só meus pessoais mas da minha equipe, da minha família, das clientes em si. Aí você acaba tendo que lidar com tudo isso. E eu fui quase que uma esponja, né, disso tudo. Recebia todas essas pessoas, esses problemas. E aí, alguns gatilhos que me deixavam piores, assim. Por exemplo, eu perdi minha mãe tem quase 10 anos, com câncer. Se alguém chega com esse gatilho pra mim, meu dia acaba ali, na hora. Então, eu tive que trabalhar com isso, pra entender melhor sobre isso. Como que eu ia aceitar falar sobre isso com pessoas e clientes muito próximas minhas também, que passaram por uma coisa parecida. A ponto que eu falo assim, então, vamos conversar sobre isso, vamos trabalhar isso aí também em mim. Porque é um gatilho pra mim, né? Foi um gatilho. Hoje em dia, eu tô... de boa. Eu cheguei a jogar uma lixeira. Tá achando mal isso?
Em uma pessoa?
Não, não foi uma pessoa. A minha vontade era, mas não foi uma pessoa. Eu catei uma lixeira assim... Aí voltei, meu telefone aqui, e tirei a foto que eu precisava já. Não é normal pra pessoa fazer isso, né?
Tá. Como é que você tava antes disso?
Ai, era um dia de sábado, eu acho, muita cliente, e era uma última cliente que tava atendendo, já que é uma cliente bem próxima minha, a Luciana, inclusive. E aí eu fiz um cabelo muito incrível, assim. Aí, eu ia tirar uma foto dela. Então, a hora que eu fui tirar a foto, assim, no espelho, eu tava atrás dela, e atrás aqui tinha uma lixeira.
Uma lixeira, você se incomodou com a lixeira.
Aí, eu falei, gente, tira aqui a lixeira pra mim, que eu segurei o cabelo numa posição que eu não podia soltar nunca mais na minha vida.
Aham, sei.
A foto era muito incrível. Gente, tira aqui, todo mundo. Ninguém prestando atenção da equipe inteira. Eu tenho oito assistentes da minha equipe. E ninguém. Eu falei, tá bom. Catei a lixeira e... Vrá! Taquei no parapeito assim. E vrá! Fez um monte de barulho. Aí pegou o ring light, pegou o carrinho, pegou tudo. Aí, daqui a pouco, subiu a gerente. O que que foi? Eu falei, não, foi só um grampo que caiu aqui. Tá tranquilo. Aí, cheguei em casa e contei pro Renato. O meu marido, ele falou, não é normal isso não, menino. Ele falou, não é normal não.
Uhum. Renato, é ele?
Uhum.
Renato. Bora buscar ajuda. Você sabe que antes do meu apagão ao vivo, antes de eu chutar a lata de lixo, tacar uma lixeira, eu vivi uma situação também que meu marido me disse, Isabela, você tá muito agressiva.
Aí que você fica mais agressiva, ele fala, você tá maluco?
E aí foi quando ele disse, ele falou assim, você não é assim. Você não é esta pessoa que eu estou vivendo agora. E claro que eu não levei aquilo em conta. Continuei fazendo porque eu também sou do interior, eu também nasci no sítio, eu também sou neta de agricultores. E trabalhar de segunda a segunda era a coisa mais normal do mundo. Mas isso nos ensinaram. O que não nos ensinaram, Lucas, é que determinados tipos de situações com características de assédio são a guta que transborda o copo.
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Depois de tantas histórias, aprendizados e pausas necessárias, o @interior_iza está de volta








