This content was created by GHION.AI . This content was uploaded by GHION.AI . This is a YouTube interview titled "Nunca imaginei ser demitida - Cecília Flesch" (content created 2024-10-11). Interviewer Isabela Camargo speaks with journalist Cecília Flesch about her dismissal after nearly 20 years at the broadcaster, describing newsroom exhaustion, coping strategies (mentions of Rivotril and playing a mobile game to stay focused during long interview days), and her view that a gossip-site story was used as a pretext to fire her. The conversation also references colleagues/editors (Gabriel and Pedro) and details of the journalist's heavy workload. Language: Portuguese.
Eu tomei um lindo pé na bunda que, na verdade, eu acho que a liberdade ela veio vindo de forma que eu fui me sentindo à vontade para ser quem eu era. E como eu nunca era chamada atenção de nada, ninguém nunca falava nada, ninguém nunca implicava com nada, eu jamais imaginei que uma fala muito simples sobre a rotina do jornalismo, do jornalismo e do jornalista, não era da emissora que eu trabalhava, ia fazer eu ser mandada embora. Nunca, isso nunca passou pela minha cabeça. Papo vai, papo vem ali na entrevista, E saiu, eu contei duas coisas. Uma, que a rotina de jornalista é tão desgastante que todo mundo tem uma espécie de Rivotril. Às vezes é o próprio remédio, às vezes a pessoa fuma, fuma, fuma, às vezes a pessoa come, come, come. Eu falei, mencionei, eu falei, inclusive a gente se apelida lá dentro, uma coisa muito das antigas, de RivoNews, que pelo menos na redação do Rio Você chega pra alguém na redação e fala: "Alguém tem um Rivotril?" Um saca de comprimido, outro saca de gota. Todo mundo tem um Rivotril na bolsa. E aí eu mencionei isso, eu falei: "Ó, a gente inclusive, amigos, eu vou contar aqui, hein, a gente se chama de Rivanews, ponto." E contei que por conta do cansaço, da exaustão da madrugada, quando chegava na quinta entrevista do dia, quarta, quinta, às 8 da manhã, Jornal estava sendo apresentado desde 6, eu jogava um joguinho de celular de ficar juntando bolinhas para manter minha concentração e conseguir ouvir o que a pessoa estava dizendo ali no ar. Porque se eu ficasse olhando, dava sono.
Ou seja, essa foi uma estratégia que você criou a partir das suas habilidades, das suas capacidades, em que nunca deixou uma vírgula fora do lugar.
Pelo contrário, eu Contra-argumentava, eu queria fazer outras perguntas em cima da resposta. Eu só contei que era um método para ter hiperfoco.
A gente fala isso, método para focar. Muito pronto, tá?
Esses foram as duas partes sensíveis. Pintou uma notícia num site de fofoca dizendo que eu acabava com a Globo News. Um cara fofoqueiro da vida aí no site bem fez essa reportagem. Então eles também Pelo que eu entendi, tinham a vontade de me mandar embora e não sabiam como fazer isso. Então foi criada uma desculpa. Entende?
Sério que você pensa isso?
Ué, que outra explicação tem? Porque eu tenho 18, quase 20 anos de empresa. É quase uma obrigação da empresa falar assim: não, eu conheço a minha funcionária. Imagina se eles quisessem me manter, eles não dariam nem bola para aquela reportagem.
Então eu pensei isso só com 7 anos. Imagino você então com quase 20, né?
Eu fazia todos os jornais, todos, todos. Especial Jornal da Guerra, Cecília faz. Especial eleições, Cecília faz. Especial— eu tinha acabado de apresentar a coroação do rei. Por que me dispensar assim? Eu não falei nada muito grave, não falei. Era só empresa falar: constatamos, ela falou, não falou nada demais, obrigada, tchau. Não. E assim, 5 entrevistados por dia.
De assuntos aleatórios.
Um senador, um economista, um... Então assim, não é necessariamente assuntos que se comunicam. Relações internacionais, todos os dias.
E aí?
Então eu sei que eu tava trabalhando muito.
Aí as pessoas te perguntam assim...
Ah, e não acha que o salário era milionário também, porque não era.
Não, não, não, nem vou entrar nos detalhes. Cecília, e aí as pessoas não falam assim pra você? "Ah, mas tem uma equipe que faz isso pra você?" Essa é uma das perguntas que eu mais...
Tem uma galera que escreve a cabeça, que é o que a gente vai ler olhando pra câmera. Só que eu tenho que ficar ligada na cabeça. Porque se a cabeça tiver com uma informação errada, se cai uma coisa, entra outra no lugar, se... Quem tem que dar a volta sou eu. Quem tem que estar ligado no que a gente chama de espelho sou eu. Então assim, eu tinha, e assim, eu fechei o barraco mesmo ali antes da reportagem vir à tona, 10 dias antes, porque o meu editor de política, que é o Gabriel, que trabalha hoje comigo, foi demitido 10 dias antes. E se tinha uma pessoa Duas pessoas que eu contava muito eram o Gabriel e o Pedro, os editores de política e economia. Por quê? Porque eram os dois assuntos sensíveis, boa parte das entrevistas estava ali, eu precisava deles para trocar ideia, eu precisava, dependia deles.