O que a música me ensinou com o tempo?

This content was created by GHION.AI . This content was uploaded by GHION.AI . This is a Portuguese-language YouTube interview titled "O que a música me ensinou com o tempo?" (created 2020-09-17) in which host Isabela Camargo interviews Maestro João Carlos Martins. The conversation covers the maestro's life and career, his relationship with time, his long medical history (24 surgeries and focal dystonia), use of special/extensor gloves to enable him to touch all ten fingers on the keyboard, outreach via social media, the cultural importance of classical music, plans for the next 20 years (an international campaign on dystonia, a Carnegie Hall event, and the Orquestrando Brasil / inclusion-through-music initiative), reflections on coping with pain, and his desire to leave a legacy. Metadata: YouTube content, Portuguese language, created on 2020-09-17T13:55:15Z (last edited 2025-12-31).
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Olá, muito bom dia! Seja bem-vindo, seja bem-vinda a mais uma entrevista que eu tenho certeza que pode mudar as suas perspectivas em relação ao tempo e consequentemente em relação à vida. Hoje eu tenho o privilégio de conversar com o Maestro João Carlos Martins. Maestro, bom dia!
Bom dia! Em matéria de Tempo, sem ser uma meteorologista, mas você é uma meteorologista também, mas você entende do que diz respeito ao tempo no aspecto espiritual. É isto que faz a diferença de vocês, Isabela.
Maestro, fico Muito lisonjeada, muito feliz com suas palavras. Obrigada pelo seu tempo, por compartilhar, né, desta manhã de quinta-feira conosco. Eu fico muito agradecida pela sua amizade, pela sua confiança e por ter contribuído aqui para o livro Dá um Tempo: Como Encontrar Limite em um Mundo Sem Limites. A sua história, Maestro, já foi tema de escola de samba vencedora, filme maravilhoso e vários livros. Então, quando eu complemento aqui no livro Dá um Tempo com histórias de pessoas que admiramos e que marcam o nosso tempo, realmente eu precisava incluir o milagre das mãos, o seu legado na nossa história. E aí, Maestro, nesses próximos 20 minutos, eu gostaria de lhe perguntar primeiramente: o que você aprendeu com o tempo?
O que eu aprendi com o tempo é que você é Por exemplo, tem a infância e adolescência, depois você tem a sua vida profissional e depois não adianta negar, vem a velhice. Acabei de completar 80 anos, mas o importante é durante a infância e adolescência você, talvez por atitudes dos seus pais, dos professores, Você tem um objetivo. Esse objetivo na tua vida profissional vai ganhando formas e mais formas. E esse objetivo continua quando aquelas pessoas falam, é, a velhice. Então, no dia que eu completei 80 anos, eu anunciei os meus planos para os próximos 20 anos.
Uau!
Então, como eu não sei meus planos para os próximos 20 anos, você é jovem, eu tenho certeza que você vai estar lá. Eu garanto a minha presença.
Até porque, Maestro, a sua genética, se nós só olharmos para o seu pai, isso, ela já é muito positiva, não?
Exatamente. Meu pai teve um câncer com 37 anos de idade. Eles deram 6 meses de vida e ele falou: é porque vocês não me conhecem. E morreu aos 32 anos de acidente, depois de terem tirado aos 37 anos 3/4 do estômago dele. Então, por exemplo, atualmente, no tempo, quem diria, eu com 80 anos e com esse celular meu do tempo dos dinossauros, Comecei a entender o que significa rede social e a minha luta, claro, sempre será pela cultura, pelas artes e especificamente pela música clássica. Então eu pude perceber, pela pandemia, a situação real da música clássica em relação aos outros gêneros. Musicais. E foi o Alexandre Nero que acabou me convencendo a ter o Instagram Maestro João Carlos Martins. Quando eu comecei a ver músicos bons com 5, 10 mil seguidores, eu falei: não, eu vou partir com o Maestro João Carlos Martins para mostrar a importância da música clássica E o que a música clássica pode significar não só para o deleite, mas para a inclusão social. Então, eu fui fazendo de tal forma que até a presidência latino-americana do Facebook depois me chamou para fazer uma palestra para mostrar como eu diversificava, como biruta de aeroporto, Eu ia para o Leste-Oeste, mas sempre em função de mostrar a importância da música clássica. São 170 mil seguidores, não se compara à música popular, mas 170 mil seguidores fiéis, que pegam, põem 3, 4 mil comentários às vezes. E aí eu comecei a ver que realmente você pode, se todos os artistas clássicos iniciam um trabalho de inclusão agora via redes sociais, certamente a música clássica alcança um outro patamar. Mas não é pensar em termos da música clássica, é pensar em termos das artes e da cultura, porque a cultura é a alma de uma nação. Se a cultura é a alma de uma nação, não adianta cuidar do físico. A cultura tem que ser— a alma também tem que ser cuidada numa pessoa. E tem médicos que dizem que já viram até a alma sair do corpo durante uma operação. Quantas vezes já ouvi isso? Então, acho que é uma hora, é na pandemia, que você Pode analisar, e o seu livro é espetacular nesse sentido, porque a coisa mais importante na vida é você dar valor ao tempo, porque o tempo pode lhe dar as seguintes vantagens: inspiração, disciplina, o tempo dá disciplina para uma pessoa, O tempo dá objetivos. Então, o seu livro, eu acho que é um exemplo, uma leitura para qualquer brasileiro que queira ter uma noção do que a gente possa esperar do futuro.
Perfeito. Maestro, antes de lhe perguntar sobre os seus planos para os próximos 20 anos, antes de perguntar sobre essa luva que eu estou vendo na sua mão direita, Eu quero lhe perguntar o seguinte. Isso, eu já quero saber sobre isso. Maestro, quando na sua carreira como o maior intérprete de Bach, um dos maiores pianistas do mundo, o tempo foi seu amigo? E quando você desrespeitou, por exemplo, o tempo da recuperação de uma cirurgia? Por mais que isso já esteja retratado em filmes e no seu livro, Gostaria de lhe ouvir mais uma vez, porque essa história ela é muito inspiradora.
Exatamente a importância do seu livro. Eu não respeitei, após eu fiz 24 cirurgias, eu não respeitei o tempo porque eu fui com muita sede ao pote. Moral da história: eu conseguia resultados fantásticos após uma cirurgia, e eu sofro de distonia focal desde os 18 anos de idade, e eu conseguia resultados fantásticos, depois de alguns anos voltava o problema, e o problema foi voltando, voltando, até que eu fiquei só tocando com dois polegares, e finalmente com essas luvas biônicas Pelo menos posso encostar os 10 dedos no teclado. Mas tá aqui um exemplo que você acabou de citar: não respeitei o tempo. Só agora, na velhice, estou tentando respeitar, mas a vontade de encostar a mão no piano faz com que eu tenha que dizer o mea culpa, mea culpa, mea culpa. Mas na regência estou realizando todos os meus sonhos.
Perfeito, e deixando um legado lindo. Maestro, após os 70 anos, normalmente eu ouço as pessoas dizendo que querem se aposentar, que querem parar ou que querem descansar. Como se não tivesse sentido a oportunidade de descansar antes, vamos dizer. E você não, né? Eu trago a sua história, do Maurício de Souza e da Fernanda Montenegro, que estão cheios de planos. E depois de 24 cirurgias, eu posso dizer que muitas pessoas teriam parado por muito menos. Então, de onde vem todo o seu entusiasmo?
O entusiasmo vem da seguinte forma: Como pianista, eu tenho um resultado muito gratificante. Afinal de contas, eu não sou uma Warren Buffett de bar, mas se você falar se eu estou nos top 5, eu falo que estou nos top 5. Agora, como maestro, já foram mais de 1.600 concertos, já alcancei mais de 16 milhões de pessoas ao vivo. E já trouxe milhares e milhares de crianças para o universo da música clássica. Mas agora vem a parte mais importante. Teve essas duas fases, mantendo as duas fases, mas é tentar nesses próximos 20 anos deixar um legado. Para tentar deixar um legado, você tem que acordar de manhã E tem um objetivo daquele dia. Eu, às 5:30 da manhã, tô acordado, primeiro vou, primeira coisa que eu faço, eu vejo se meu nome tá nos obituários. Se não tá, eu peço dois ovos fritos e vou para luta, e vou para luta, um passo meu planejamento daquele dia. Mas esse planejamento tem um único objetivo, É fechar o Brasil em forma de coração através da música, que era o sonho de Villa-Lobos. Só que Villa-Lobos não tinha nem internet nem TV. Quem sou eu perto de Villa-Lobos? Mas é este o legado que eu quero tentar deixar antes dos 100 anos.
Com certeza, maestro. Antes de falarmos então sobre os seus próximos 20 anos, os seus planos, você ainda sente Ah, só uma observação: eu estou lhe chamando de você, tudo bem, pela nossa amizade, ou prefere?
Eu sou como concessionário de carros. Se você me chama de senhor, eu me sinto como um velho. Se você me chama de você, eu sou como uma concessionária, eu me sinto seminovo.
Não, mas veja só, Maestro, você e a Carmen formam um casal que me inspiram muito. Eu tenho certeza que essas histórias e esse espírito de aprendiz é que mantém toda a sua juventude, toda a sua energia. Antes de falarmos sobre os próximos 20 anos, que luva é essa?
Essa é uma luva— eu ia fazer o encerramento do Festival de Campos do Jordão Um dia antes eu fiz um concerto em Sumaré e um designer de produtos, o Biratan Bizarro, ele me levou duas luvas que não iam servir para mim. Mas o interesse que esse homem demonstrou por mim, eu falei: infelizmente não vai servir. Uma semana depois eu chamei-o para almoçar E expliquei o meu problema. E pelo menos essa luva dá o conforto e eu posso encostar os 10 dedos no teclado. Não vou ser um pianista como antigamente, mas certamente no meu concerto dia 17 de outubro, que ia ser 18 de outubro desse ano, mas o Carnegie Hall está fechado, dia 17 de outubro do ano que vem eu comemoro 60 anos da minha estreia. No Carioca e vou reger. E no final do concerto, com essas luvas extensoras, que as luvas extensoras foi o seguinte: eu coloquei no Instagram, no Maestro Carlos Martins, eu tocando uma música com as luvas. 3 dias depois, 187 jornais do mundo inteiro publicaram: o legendário pianista voltando a tocar com os 10 dedos. Então eu falei: meu Deus do céu, isso é uma responsabilidade, um desafio. E na vida, é o que você aliás fez na sua vida profissional, a gente tem que ter coragem. E além de coragem, a gente tem que procurar dar exemplos. Então eu procuro dar um exemplo através da Luma, que você pode continuar o seu sonho. Eu sempre digo: você corre atrás dos seus sonhos, quando você menos espera, o sonho corre atrás de você.
Fantástico, fantástico, Maestro. E agora então, só mais uma antes do grande final.
Tá bom.
Antes do grande final, como você lidou com a dor Nesses 60 anos, mais de 20 cirurgias, eu sei que tiveram muitos momentos de dores dilacerantes.
É verdade.
Como você lidou com a dor nestes últimos anos? Porque, como eu disse, por muito menos muitos já teriam desistido.
Eu sempre digo, aqui vai uma historinha, que não é tão ortodoxa, pode ser um pouquinho picante, mas que é como eu considero a dor. Eu sempre digo: poderia ter sido pior. Eu conto a história de dois amigos que se encontraram, mas esse amigo sempre falava: podia ter sido pior, podia ter sido pior. Aí ele chegou e falou para o amigo: você viu o que aconteceu com o nosso outro amigo? Ele falou que ele chegou em casa, encontrou a esposa com uma pessoa, deu um tiro na esposa, deu um tiro no amigo, deu um tiro nos filhos e depois se matou. Aí o que sempre dizia podia ter sido pior falou: podia ter sido pior. Eu falo: como podia ter sido pior numa história dessas? Ele falou: se fosse antes de ontem, quem tava morto era eu. Então, o que eu penso é o seguinte, que a dor, quando eu tive dores incríveis no braço, mas quando eu vejo, por exemplo, você veja Médicos Sem Fronteiras, você vê Horas da Vida, você vê problemas de pessoas tão com dores tão superiores à sua que você sempre fala: podia ter sido pior. Então eu sou uma pessoa que convivi com a dor praticamente, principalmente nos anos 80, 90, até 2000, mas com muita dor. Eu sei o que significa a dor. E eu sei o que significa, antes de tudo, você fazer de uma dor algo que dentro da sua alma te inspire a dar exemplo para outras pessoas.
Perfeito, perfeito, Maestro. Então, para encerrarmos como combinados, quais são os seus planos para os próximos 20 anos?
Bem, vamos para os próximos 20 anos. Primeiro lugar, é, sabe quantas pessoas sofrem de distonia no mundo?
Não.
33 milhões de pessoas confirmadas. Agora, na hora que iniciar uma campanha a nível internacional, porque o assunto da minha mão foi há 40 anos que se comenta sobre o problema das minhas mãos. Só nesse caso das luvas, 20 jornais nacionais publicaram na hora. Então eu vou começar uma campanha internacional, já começa agora com o Instituto de Neurologia do Brasil, já comecei mandar vídeos para fundações de distonia no mundo inteiro. E eu quero, depois do concerto de Nova York, iniciar essa campanha no Salão Nobre do Carnegie Hall, com cientistas Inclusive mostrando que um problema que vem há séculos até hoje não teve uma cura. Então você começa essa campanha. O Christoph Reeve, quando ele fez a campanha do fundraising para quando ele ficou tetraplégico, para espinha dorsal, ele me convidou para sentar do lado dele, o Christoph Reeve, mas coincidiu no dia do meu último concerto da minha vida. Em Londres. Então, um plano é esse. O segundo plano é realmente— já estamos com 500 e tantas orquestras parceiras no projeto Orquestrando São Paulo, Orquestrando Brasil, de inclusão social. Realmente, se você pensa, eu faço concerto na Fundação Casa, em presídios, em favelas, do mesmo jeito que faço num Carnegie Hall, Não lhe consente. Então, no plano, realmente é fechar o Brasil em forma de coração para realizar o sonho de Vila-Lobos, conforme eu disse. E antes de tudo, sempre procurar o perfeccionismo e a emoção cada vez que eu entrar em palco até o apagar das luzes.
Que assim seja e assim será. Maestro, muito obrigada pelo seu tempo. Eu estarei lhe aplaudindo de longe ou de perto, melhor ainda. Desejo muito sucesso, muita saúde. Você e a Carmen, como eu disse, são exemplos, me emocionam sempre. E conte comigo.
E se você voltar a aparecer nos meus concertos, eu quero dizer para você que Sempre que você vai, você dá muita sorte. Eu sou supersticioso, tá bom?
Vou guardar isso como um grande presente. Muito obrigada pelo seu tempo e confiança.
Um grande beijo, Isabela.
Tchau, tchau, tchau, Maestro. Muito obrigada a todos vocês que me acompanharam nessa linda e emocionante entrevista com o Maestro João Carlos Martins. Ele que inspira a nossa vida acabou de dizer que conviveu a vida inteira com a dor, mas sempre pensou que aquilo ainda poderia ser pior. Portanto, não desistiu, completou 80 anos há pouco tempo e tem planos para mais 20 anos. Que essa história então sirva de inspiração para todos nós. Para que os desafios se tornem apenas estímulos para inovarmos, para buscarmos novas ideias, novas habilidades. A história do maestro, alguns momentos muito importantes da vida dele, está aqui no livro "Dá um Tempo: Como Encontrar Limite em um Mundo Sem Limites". Foram quase 4 anos de pesquisa e 150 pessoas que admiramos, que marcam o nosso tempo, para que a gente possa viver um tempo de qualidade. E viver uma vida que vale a pena ser vivida. Mais tarde eu tenho mais uma entrevista com Thiago Godói para a gente falar sobre o valor das horas. Eu te espero então às 6:30, e aí será lá pelo Instagram, Isabela Camargo Real. Aproveitem o dia e até mais tarde.
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