O que estará escrito nos livros de história?

This content was created by GHION.AI . This content was uploaded by GHION.AI . This is a YouTube video titled "O que estará escrito nos livros de história?" created on July 18, 2020. It features a conversation in Portuguese between Isabela and historian Marcelo Lambert. They discuss the historical significance of the COVID-19 pandemic, the role of vaccines, and the broader implications for humanity's future, touching on themes of historical memory, societal change, and the importance of addressing basic needs like sanitation.
Chapters
Olá, olá. Tudo bem, Bel, Oliveira? Boa noite. Oi, Evandro. Sejam bem-vindos. Que bom que vocês escolheram compartilhar o tempo de vocês comigo e com o nosso entrevistado de hoje, o historiador Marcelo Lambert. Eu sei que todos nós estamos vivendo um presente extremamente intenso, mas eu quero propor hoje um olhar para frente, falando do passado. É assim, eu sempre me lembro das aulas de história com muito saudosismo. Era uma das matérias que eu mais gostava. E aí, início de noite de sexta-feira, então, eu sei que o seu tempo é bem concorrido. Espero que ele seja muito agradável aqui na nossa companhia. Tudo bem?
Tudo jóia. Como é que você está, Isabela? Tudo tranquilo?
Muito animada para essa nossa conversa. Marcelo, obrigada por ter aceitado o meu convite.
Vai ser muito legal, certeza.
Não é? Marcelo, a gente se conheceu há alguns anos, quando eu estava fazendo uma pesquisa para o meu livro. Já vou te antecipar que ele, já já, já já eu digo assim, já já mesmo, vai entrar aí nas páginas das lojas digitais, mas aí eu falo com mais detalhes daqui para frente.
Tá ótimo.
Marcelo, você como historiador, como é que, antes da gente falar sobre o nosso tema principal, como é que você tem entendido tudo o que está acontecendo?
Bom, primeiro eu tenho convicção de que nós estamos vivendo um grande momento histórico da nossa humanidade Óbvio que não é um momento legal no sentido das pessoas que nós estamos perdendo em função do Covid, mas não há nenhuma dúvida de que nós estamos sendo testemunha ocular de um grande evento da história da humanidade. E como a história tem um papel fundamental em nossas vidas de memória, um alerta, inclusive, para as gerações que virão, Eu acredito que existem, sim, muitos pontos negativos diante de tudo que nós estamos aqui vivendo hoje, enquanto civilização, enquanto humanidade, mas eu também vejo que a gente vai ter a capacidade, pelo menos o ser humano, ele vem provando isso ao longo da sua história neste planeta, que ele consegue das adversidades, ele consegue construir grandes transformações também positivas. Portanto, eu acho que a primeira coisa que tem que ficar registrado aqui é que nós estamos vivendo, sem nenhuma dúvida, um grande momento histórico da nossa civilização, do nosso mundo E a gente tem que estar muito atento a tudo que está acontecendo, porque nós somos agentes desse processo Nós somos agentes e sujeitos desse processo Portanto, a gente tem que viver esse momento porque é o nosso, a gente não pode esquecer disso Esse é o nosso tempo, então temos que vivê-lo mesmo dentro de todas essas limitações que nós já estamos há alguns meses Nós estamos vivos, portanto, este é o nosso tempo E dessa forma a gente tem que continuar acreditando Eu tenho muita esperança, eu acho que a gente vai sair logo disso A ciência está correndo muito, como nunca Essa doença outrora teria um impacto muito maior, eu acredito absolutamente na ciência E eu sei que virá uma vacina, inclusive eu acho que os capítulos dos livros de história Eles vão se iniciar com o nome da vacina e a gente vai poder pensar dessa forma Pelo menos é como eu acredito Pronto.
Eu já vou querer saber mais detalhes sobre o que estará nos livros de história Antes, o melo.vinho que me acompanha aqui diariamente nas lives Ele está lembrando de uma coisa que eu peço em todas as lives e eu tinha me esquecido Descobri recentemente que quanto mais coraçõezinhos sobem aqui na lateral Mais o Instagram entende que esse assunto é relevante E aí a olhinha da live vai chegando aqui no início da tela Então, se você acha, você que está nos acompanhando, se você entende que esse assunto é relevante E que pode contribuir para a compreensão de outras pessoas Então, coraçõezinhos aqui para nós e envie sua pergunta também para o Marcelo Ou aqui na caixinha de Pandora, eu acho mais seguro, porque senão pode passar e a gente não vai ver Marcelo, vamos lá. Agentes e sujeitos desse processo Na nossa história, e eu digo histórias individuais e coletivas Ou seja, na biografia de cada um e nos livros de história coletiva, tem fatos que podem ter significado para um diferente do significado para outros Então como é que você vê este momento em que o mesmo fato gera milhares de outros fatos? Você disse agora, eu acredito que os capítulos ou o capítulo começará pelo nome da vacina, eu achei muito interessante isso. Assim como outras histórias individuais terão perdas irreparáveis, perdas humanas, outras pessoas que tiveram seus negócios interrompidos, ou seja, é uma mudança realmente drástica. E como é que então você vê a chegada da vacina assim como você, como historiador, já acompanhou a chegada de outras vacinas? A gente não pode esquecer que no século XVI, numa época que não tinha antibiótico, as pessoas morriam Também por aquilo que elas não viam, que era a bactéria.
Exatamente.
Como é que você traz essa história das vacinas na história e o que pode acontecer agora?
O homem, na verdade, se você pensar, Isabela, a nossa história enquanto espécie é uma história de superação. E essa superação está muito agregada à questão da necessidade Portanto, veja, nós já passamos por outros momentos epidêmicos na história da humanidade E aquele momento, aquela adversidade, aquele desafio gerou no indivíduo, gerou nas pessoas uma necessidade muito grande de buscar soluções Nós temos que entender que, independente da diversidade, é claro que a gente está passando agora por uma mundial sem precedentes para nós todos que estamos vivos agora E nós já estamos correndo, todo mundo que é envolvido nesse processo está ocorrendo. As grandes instituições acadêmicas, os grandes centros de desenvolvimento farmacológico, enfim, todos que estão ligados a essa luta no front. Então isso motiva e isso leva as pessoas a buscar soluções. a gente percebe que nós já tivemos um tempo onde não havia fogo, e de repente o homem encontrou fogo e aquilo ali foi uma das maiores revoluções da história da humanidade. E essa revolução ela vai mudar os nossos paradigmas, vai mudar a nossa forma de lidar com as coisas, de lidar com com a questão do tempo, a sociedade, de lidar com a questão lidar com o mundo, dos afetos, dos amores, valorizar coisas do cotidiano Eu estava fazendo uma reflexão outrora, a gente, eu e você já conversamos sobre a questão do tempo por conta do seu projeto E é muito interessante porque a maior reclamação que todos nós tínhamos antes de entrar na quarentena e no isolamento era a falta de tempo E, de repente, eu acho que a gente começou a se perder porque a gente passou, num primeiro momento, a ter muito tempo Porque hoje eu trabalho em casa, então eu não preciso mais acordar duas horas antes para sair de casa Isso é só um exemplo Então, o ser humano, na verdade, ele tem, de todos os animais desse planeta Nós somos aquela espécie que mais se adapta ao meio E as vacinas na história da humanidade, elas sempre foram revolucionárias Porque elas simplesmente conseguiram eliminar um dano maior, um problema maior com a prevenção Então a vacina, além de pensar o ato da cura, eu sempre vejo a vacina como um ato de prevenção Como tudo na vida, a gente precisa ter sempre a prevenção como meta.
Não.
Adianta chorar lá o leite derramado, quer dizer, a gente precisa ter isso como perspectiva Mas se você lembrar a chegada do europeu na América, quantas doenças atravessaram o Atlântico e os povos que aqui viviam não tinham anticorpos, não tinham condições de lidar com aquela doença E a reciprocidade foi igual, quer dizer, o europeu também recebeu doenças aqui tropicais que também não soube lidar mas essas novas biotas, essas novas cepas de doença, elas sempre produziram um processo muito interessante de desenvolvimento da ciência. E pensa, nós vivemos num mundo com mais de 7 bilhões e meio milhão, 500 milhões de habitantes, é muita gente vivendo junto. Então a ciência tenta acompanhar tudo isso E a história farmacológica, a história das vacinas tem muito a ver com a questão das guerras A gente não pode esquecer que as guerras tiveram um papel nesse processo do desenvolvimento da medicina Não estou dizendo que a guerra é boa, pelo contrário, nada justifica a guerra hipótese alguma, mas a gente também reconhece pelos estudos, documentos históricos o quanto a ciência se desenvolveu. Então o que é certo é que eu acho que a grande diferença nossa hoje vai ser a velocidade que essa vacina vai ser desenvolvida, que tem muito a ver com o nosso tempo. Se você parar para fazer uma reflexão, tem absolutamente a ver com o nosso tempo, com o século 21, porque como eu disse, essa doença há anos atrás Meu Deus, nós teríamos muito mais problemas, mas hoje a velocidade do mundo e das conexões fazem com que a gente chegue numa resposta muito mais rápida do que outrora Perfeito.
Inclusive, como a gente vive nesse mundo express, express digital, o vírus chegou mais rápido Porque com feiras, imagina esse vírus chegando aqui na época em que as informações chegavam de navio Exato. É muito pra chegar. Então, tudo, né, Marcelo, tem o lado positivo e negativo, vantagens e vantagens. Ou seja, chegou rápido, disseminou rápido. E o que nós esperamos, então, é que a ciência acompanhe essa velocidade. Eu vejo... Aí, é isso que eu quero te perguntar. Porque cada vez mais eu percebo que quando a gente olha para a história e vê as métricas da história do passado, elas estão muito mais distantes de nós do que num passado recente. Porque até o século passado, quando eu olhava para os livros de história, era algo muito mais próximo, porque eu ainda vivia naquele tempo. E agora não. Agora a gente olha para as métricas do passado, como a da própria ciência, quando fala, ah, mas não existe uma vacina contra a AIDS. Sim. Será que existe ainda o mesmo foco para esse desenvolvimento?
Exato.
E aí não tinha essa agilidade, né? Como é que você percebe, então, já que você tocou no assunto tempo, que nós estamos falando de história, como é que tudo que nós estamos vivendo estará nos livros de história? Como é que você vê, então, essa evolução da comunicação, dos transportes, que acaba encurtando tudo?
Bom, primeiro eu acho que a gente tem que começar pela questão do consumo. O consumo ele mudou por absoluto. Então hoje você tem uma outra velocidade em relação ao consumo de todas as coisas. Uma questão, ao contrário de olhar para trás, eu vou olhar para frente. Então vamos fazer um exercício. Antigamente você tinha como fazer uma projeção. Então nós tínhamos uma condição de fazer uma projeção, vai para 50 anos Isso dentro de uma série de análises Dentro do ponto de vista econômico, político, social Porque a impressão que se tinha, e eu volto a dizer, a impressão que se tinha é que o tempo era mais lento E que os eventos e os processos históricos, que nada mais é do que Ações humanas, os processos históricos são desencadeados pelas ações desencadeadas pelo ser humano Hoje a gente não consegue prever daqui a um ano Percebe? Por quê? Exatamente por conta dessa velocidade que a questão toda hoje está inserida no nosso dia a dia Então essa velocidade, de fato, ela faz com que a gente perca um pouco esses referenciais E tenha a sensação de que o tempo está passando mais rápido Mas na verdade não é que a gente está passando mais rápido, é porque as nossas relações, a forma de viver, a forma de consumir, a forma de trocar informações é muito diferente Hoje você tem observatórios no mundo Inclusive eu acho que é uma questão importante até para ser citado Que hoje vem fazendo um trabalho sensacional de guardar todas as informações a respeito deste tempo que nós estamos vivendo E agora especificamente sobre a questão do Covid Portanto, as futuras gerações vão ter uma base documental sensacional sobre as experiências do nosso tempo. Então nós já temos centros, instituições, observatórios, enfim, na Europa, na América, no Brasil, nós temos já institutos que estão fazendo isso. Então eu acho que essa nossa percepção de velocidade, ela se altera de acordo com o tempo que nós estamos também. E o mundo hoje, Isabela, é assim, é um mundo que... A gente sempre falava assim, é o bonde da história, se você não tomar cuidado, ele te atropela. Hoje não é mais o bonde, é a Ferrari Então nós temos que estar muito atentos porque senão a gente perde o tempo e perder isso tudo na história E assim, trocando em miúdos, história é vida Então se você de fato não a vivencia, você está deixando de viver, esse é o ponto E não.
Adianta negar ou recusar, praticamente a mesma coisa, o que está acontecendo Isso não.
É o fato A negação é o pior exercício que você pode ter Porque a negação... Vamos fazer uma analogia ao processo histórico Quando você não dá voz Então, por exemplo, eu havia citado a chegada do europeu em 1492 Durante muito tempo, os povos que aqui viviam não tinham voz Então eles não existiam nos livros de história, eles não existiam nas escolas E eu costumo dizer, e eles continuam e continuaram teimando lá com seus templos, com as suas construções, brotando lá no meio da floresta para dizer, olha, nós existimos, entendeu? E hoje nós temos uma gama enorme de profissionais especialistas em algumas civilizações que traz a luz e, na verdade, traz voz a essas pessoas. Pense comigo um outro exemplo. Uma guerra, seja ela qual for, quantas vítimas... Você até começou uma parte da sua fala falando das histórias individuais e histórias coletivas Pegue a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, quantas histórias individuais, quantos dramas individuais Então o momento como hoje que nós estamos vivendo da questão do Covid Repare que nós temos, sim, os dramas coletivos, mas nós temos milhões de dramas, micro-dramas E o historiador, hoje, tem essa missão de trazer à tona essas vozes O futuro que está aí na nossa porta tem o direito de saber e escutar essas vozes Acho que é uma questão até de direito Muito mais do que dever, né?
Nosso como profissional Perfeito Marcelo, você mencionou agora a questão das perdas individuais Dessas histórias individuais Eu no jornalismo, eu sempre vivi assim Vamos falar de um problema, ah, o problema é esse Não, vamos falar da pessoa que vive o problema Porque é assim que todo mundo consegue identificar mais Onde eu quero chegar hoje? Bom, eu voltei a trabalhar na Rádio Bandeirantes Eu tô fazendo primeira hora lá das sete às oito da manhã E hoje o Zé Paulo de Andrade, que é dos locutores, ele é o professor dos professores Sabe as referências das referências?
É o pulo do gato, né? Pulo do gato É o pulo do.
Gato ele tem de carreira o que muitos aqui tem de vida, e ele continuou até dez dias atrás trabalhando que se você não soubesse as limitações físicas, você nunca imaginar que aquela voz saía de um corpo que teve limitações pulmonares, cardíacas, ou seja, o cérebro estava se intimindo. Bom, estou dizendo isso em respeito a Zé Paulo, solidariedade a todos que conviveram com ele diretamente, mas onde eu quero chegar? Ele morreu de Covid. Ele foi a pessoa que eu conheço, admiro, que morreu de Covid. Então, quando o povo fala assim, ah, tantas mil pessoas contraíram, tantos óbitos e tal, é uma coisa totalmente distante. Mas quando tem alguém do seu lado, a história muda.
Exato. É porque você é tocado, né?
Então eu recomendo aqui para todos que quando lerem algum livro de história, algum documento histórico, tentar imaginar as pessoas naquela situação. Se não for uma coisa muito fria, muito distante, como você falou, a gente está escrevendo a história juntos.
Isso.
Marcelo, você falou agora há pouco uma coisa que me tocou bastante. A história da humanidade é uma história de superações.
Sim.
O que você vê nos livros de história sobre a história da ansiedade, por exemplo? Eu vejo os seus vídeos no seu canal do YouTube, aliás, fantásticos.
Obrigado.
Você tem muitas coisas sobre pensamento positivo.
Sim.
Esse estado mental saudável, que é total, minha praia há dois anos E você chegou a se aproximar da história da ansiedade porque tem a ver com a história da alimentação, do guardar o alimento, guardar o dinheiro Isso.
Olha, existe uma área da história que trabalha essa questão da micro, o microfoco ali da história. Então a história da alegria, a história da tristeza, a história da ansiedade, já tem profissionais que estão indo para essa linha de estudo, porque a gente fala que a questão das síndromes é uma doença do século XXI, a transição do XX para o XXI, Mas isso também faz parte da natureza humana E o que produz isso no ser humano? É algo muito ligado às incertezas Eu vejo que a ansiedade tem uma relação direta com as incertezas E dessa forma, se você fizer uma análise histórica, principalmente da era cristã pra cá, porque a gente vai voltar muito lá no tempo, mas a gente observa, vamos pegar a Europa Ocidental como foco, que foi aquela que mais nos influenciou aqui por conta do processo de colonização, nós vimos que A humanidade passou por epidemias, ela passou por crises de abastecimento, nós passamos por crise de fé A gente passou por crises profundas de dúvidas em relação às instituições E isso causa nas pessoas, gera nas pessoas uma ansiedade muito grande em relação a essas mudanças e o que virá Então esse é um ponto Outro ponto que eu vejo que é, talvez, se é que a gente pode falar que é diferente É a velocidade pela qual as coisas chegam para nós hoje Então as questões políticas, sociais, econômicas, elas sempre abateram a humanidade O que é diferente é que até como o tempo era o tempo da natureza. Então o tempo e o movimento dessas coisas eram diferentes. Agora, se você pegar após segunda metade do século XVIII, 1750 para cá, que é a Revolução Industrial inglesa, o tempo relógio e essa visão de sensação deste mundo urbano, este mundo tenso, esse mundo dialético, todas essas questões que a gente está vivendo, Ela produz uma ansiedade maior em relação a tudo Porque como eu disse, tem uma relação com essa questão da insegurança Veja, esse momento pandêmico que nós estamos vivendo agora parece, e eu acho isso perigoso, parece que houve um assentamento do medo e as pessoas começam a abusar E começam a querer fazer coisas sem muita prudência Por quê? Por exemplo, lá no começo da nossa quarentena, vamos fazer uma análise Lá no final de março, entrando em abril, estava todo mundo com muito medo, muito preocupado Uma crise de ansiedade em relação a trabalho, em relação a futuro, filhos, escola, tudo E eu sinto que houve um assentamento ao longo do tempo onde as pessoas começaram gradativamente a voltar a trabalhar, a se adaptar com uma rotina, se adaptar, porque a gente já está se adaptando com essa rotina E é a nossa rotina, é aquilo que eu estou dizendo, esse é o mundo, é o nosso mundo hoje Não adianta negar Não, não. Então, eu entendo que todo esse processo que o ser humano vai passando, como eu disse lá no início da minha fala, a nossa capacidade profunda de adaptação é tamanha que eu percebo que a gente vai, você vai meio que se conformando com a situação e muitas vezes esse se conformar é negar a realidade E esse é o meu medo. Então é mais ou menos assim, eu não posso achar, eu fiz até uma discussão hoje em uma das aulas que eu ministrei sobre isso. Nós temos várias doenças que eu e você convivemos diariamente. Então você sabe que existe o câncer, você citou a AIDS, nós sabemos disso tudo. Então tá lá, só que a gente não deixa de viver por isso O Covid nos levou ao isolamento, mas o meu medo é as pessoas começarem a achar que é uma coisa crônica Então vamos viver normal, vamos fazer a festa do Covid, né? Você entende? Então eu faço um alerta, né? Pessoal, ainda está acontecendo Nós ainda estamos no meio do mar revolto, nós não podemos ainda baixar a guarda Historicamente, juntando um monte de perguntas que você me fez, a questão da história da vacina, a história da ansiedade A grande superação humana está na compreensão da realidade do momento histórico que ele está vivendo Porque se você não tiver essa noção clara, objetivamente você não consegue transformá-la Você só transforma de fato aquilo que você conhece, aquilo que você de fato reconhece em vida Então são questões que... que eu entendo ser fundamental pro momento É mais ou menos assim, cara, você tá vencendo, não baixa a guarda Agora é a hora da manutenção, percebe? Então eu acho que a história mostra muito isso pra nós, sabe? Mostra muito pra nós E nós temos na história da humanidade grandes homens e grandes mulheres que, por não baixar a guarda, construíram esse mundo que hoje nós temos Então essa zona de conformidade é sempre muito perigosa.
Sim. Eu devo estar com aquela cara de quem está assistindo uma aula e fala, nossa, é verdade. Professor, acho que essa deve ser a cara de quem está aqui. Sempre gostei das aulas de história e nos últimos tempos, não só pelo que eu vivi com o diagnóstico da síndrome de burnout, mas também por conta do livro, o burnout nada mais é consequência dos novos tempos. Não é um problema novo, não. É um nome novo para um problema antigo, mas agora com este tempo que nós estamos vivendo, os casos aumentaram. E aí eu sempre, nessas buscas e pesquisas, eu sempre vejo e se a gente não olhar para a história, se olhar um pouquinho para trás, a gente não consegue também projetar para frente, como você disse, mas agora o tempo de projeção mudou Mas eu ainda volto à história da ansiedade, como você falou das crises de abastecimento e eu tive um acesso muito superficial Porque essas grandes transformações vieram em momentos de grandes necessidades de sobrevivência E agora nós estamos vivendo mais, ou seja, quando a expectativa de vida aumenta Nós estamos correndo mais, adoecendo mais, por falta de viver esse tempo. Faz sentido?
Não, faz, porque assim, vamos fazer uma reflexão Hoje, se você pegar uma perspectiva em forma de analogia com a expectativa de vida média da população mundial Claro que a gente tem embolsões de misérias, a gente reconhece isso, nós temos injustiças espalhadas pelo globo inteiro Mas a expectativa de vida, de modo geral, aumentou bastante. Eu costumo dizer, se o Thomas Maltz que fez lá as análises de abastecimento de alimentação na parte da teoria econômica, enfim, ele estaria hoje falando, ué, deu errado, porque o homem conseguiu hoje com uma agricultura extremamente desenvolvida, com técnicas avançadas, técnicas de irrigação, a gente conseguiu superar uma série de perspectivas que eram muito ruins, em relação ao abastecimento da humanidade Só que, por outro lado, eu acho que aí entra numa questão muito importante que é a qualidade de vida Hoje a gente fala muito em expectativa de vida e a gente luta por isso no sentido de construir uma qualidade de vida para o nosso cotidiano para que a gente possa ter uma vida longa e saudável Mas a pergunta é, o quanto eu venho construindo no meu dia a dia Porque eu sempre falo, eu estou vivo agora, então eu tenho que construir situações para o meu agora E isso tem que ser muito tranquilo, muito positivo, muito natural Não pode ser uma coisa... A gente não pode ver, eu não posso me enxergar como uma empresa Eu sou um ser humano, então eu tenho que colocar metas Hoje a gente fala tanto em construir metas, mas toma cuidado porque você é ser humano E você não é uma soma matemática, não, você não é uma regra E você não é igual ao outro, então o que cabe a mim não cabe a você Nós temos experiências, sensações, heranças culturais, DNA genética diferente Mas o mais importante, eu vejo que quando você fala nessa questão da expectativa de vida, mas de repente a falta de qualidade e como chegar até lá, eu vejo o momento É o hoje. Primeiro, eu acho que a primeira coisa que eu tenho que celebrar aqui nessa live Acima de tudo, a gente está bem, a gente está saudável, a gente está sem dor Então é uma dádiva acordar sem dor, é uma dádiva você ter saúde Agora, eu preciso manter isso e eu sempre digo, eu acredito profundamente na necessidade de uma vida espiritualizada e isso tem que ser o mais democrático possível porque cada um acho que tem que buscar isso dentro de si A gente tem que buscar uma vida ativa, tem que tentar fazer um esporte, organizar nosso tempo para isso Então eu acho que a vida do agora ler bons livros, enfim, tudo aquilo que te traz prazer. Só que para isso, Isabela, aí eu entro numa outra questão, que é autoconhecimento. O autoconhecimento, ele é a chave para você achar esse gostar de. Porque muitas vezes eu vejo nas minhas palestras e nas pessoas que eu converso, que por vezes elas não sabem o que elas gostam de fato. E eu acho que essa questão da longevidade com qualidade tem muito a ver com essa questão deste autoconhecimento Porque a partir do momento que eu o tenho, eu consigo... Às vezes são coisas muito simples, muito pequenas, mas ali eu consigo me realizar E essa sensação é química, ela vai liberar um monte de coisa legal muito positiva tal. E eu acho que hoje, por conta do nosso cotidiano e das cobranças que a gente sofre, esse mercado que muitas vezes é tão cruel, ele nos impulsiona a ter uma vida muito na superfície. E o Covid, pensando no nosso momento histórico, de certa forma, não que a gente precisasse disso Eu nunca acho que a gente precisa dar dor para aprender, sabe? Eu acredito muito em coisas boas, a gente pode aprender com coisas boas Foi o exemplo que eu dei da guerra, a gente precisa de guerra para desenvolver Mas eu acho que já que estamos nesse tempo, vamos aprender com ele Então parece que o Covid foi um muro, eu vejo ele como uma grande metáfora, sabe The Wall? Eu vejo ele como um grande muro que fez com que a civilização fizesse assim, parasse E agora? Pessoal, o que vocês estão fazendo com a vida de vocês? O que vocês estão fazendo com essa natureza que a gente tem, com os recursos hídricos? O que vocês estão fazendo com a sua vida? Então reavalia, eu desejo muito que as pessoas consigam fazer isso Eu não sei se vão conseguir, não sei se todos vão querer isso Mas a gente tem que acreditar, tem que falar, tem que conversar o que a gente está fazendo aqui Claro.
Professor, diálogos como esse me deixam muito animada, porque isso é interessante pra mim, pode ser interessante pra quem está aqui nos acompanhando, essa vai ficar lá depois no YouTube. Então, além dos coraçõezinhos aqui, que eu expliquei mais cedo, o algoritmo do Instagram entende que esse papo é relevante e é importante pra mais pessoas. Então quanto mais coraçõezinhos vocês enviarem, mais a nossa live entra ali nas prioridades. Marcelo, você falou sobre dor. Eu já tinha botado uma estrelinha pra falar da dor. Eu, se minha memória estiver do jeito que eu gostaria, é a dor, ou é a maior parte das histórias relacionadas à dor que pautam os livros de história. E a história da dor é a história da humanidade, como você falou, é sempre a superação. a história andam sempre juntas, porque a descoberta, vou dar um exemplo aqui, da lâmpada. Thomas Edison testou muito, ele era um cara que achava que dormir era perda de tempo, e foi lá e aprimorou o filamento da lâmpada como a gente conhece hoje, e aí a gente tem a lâmpada como a gente conhece hoje. Aquilo devia ser pra amenizar uma dor, por exemplo, a dor que ele sentia, que ele queria viver mais acordado à noite, mas não tinha luz artificial. Então, Como você vê na história, eu vou voltar para o tema da nossa live. O que estará escrito nos livros de história? Você falou agora, foi um freio. Tipo, agora, o que você está fazendo? Como que isso pode estar resumido? Porque às vezes na história já tem lá um parágrafo, pode ser que agora já tenha escrito um pedaço maior. Como é que tudo isso vai estar resumido? Com essa dor que todos estamos vivendo, baseado em outras dores.
Eu acredito assim, o grande desafio inicial vai ser a seleção de conteúdo e documento Até você que é jornalista de formação, em tempos de fake news o historiador tem que ter um olhar muito crítico porque tem muita coisa falsa Então eu acho que o primeiro grande desafio vai ser seleção de documento e fonte Você que é jornalista sabe, a fonte é prioridade A fonte que traz a você como jornalista a credibilidade do seu trabalho E o historiador também, nada do que eu escrevo, nem do que eu faço, que está nos livros de história Não tem uma fonte por trás, um documento, seja ele qual for E o grande diferencial hoje é que a nossa base documental é a mais diversa possível Por exemplo, essa live vai ficar registrada no YouTube, portanto, para a eternidade.
No infinito.
Então pode ser que o historiador pegue esse material daqui a 50 anos e, pautado no que eu estou falando e você, ele vai estudar o nosso tempo. Ele vai estudar 17 de setembro de 2020, partindo desta live. E ele vai procurar em documento para ver se o que eu estou falando de você tem alguma coerência, que as contrapartida aí Então eu vejo que, de forma resumida, vai ser, como eu disse, eu vejo que talvez seja um pouco do meu perfil Dessa ideia de ter que pensar positivo e é assim que eu acredito Eu acho que vai começar pela vacina, o nome da vacina e o impacto que ela teve em relação à cura e todas as mudanças que vieram depois Eu acho, sim, que vai ter narrativas de histórias individuais porque vai ter um grupo muito grande de historiadores que vão se ocupar de fazer levantamentos específicos, delicados, histórias, narrativas, como hoje eu tenho, por exemplo, histórias assim sobre o holocausto, histórias que narram dramas e mais dramas espalhados por guerras, por outras doenças etc. Eu acredito que essa história vai mostrar para nós, mais uma vez, uma grande história de superação da civilização, da nossa humanidade Mas também os livros de história devem cumprir um papel crítico Também vão ver as disputas políticas, a politização da morte e da vida os erros, os equívocos, porque o papel da história não é o partido, tomar partido O papel da história é memória, então eu tenho a obrigação de mostrar para o mundo o que de fato aconteceu E aí você tem uma questão que é muito interessante, por exemplo, que às vezes a gente que é testemunha ocular, que está vivendo ali o momento, a gente não consegue ter a percepção real e global e 100% dela Por quê? Porque você falou uma coisa que você foi hoje tocada Porque você teve, obviamente não só você, mas o Brasil, um dos maiores, talvez o professor do professor Ele infelizmente voltou para casa hoje Mas o que eu acho interessante é que essas histórias serão contadas Nós teremos biografias dessas pessoas, isso vai ser contado Mas o livro didático, aquele que vai chegar na escola, eu acho que ele vai contar para nós Exatamente como tudo isso começou, uma tentativa de explicar isso Como que o mundo mudou em meses, de dezembro pra cá Você deve lembrar na sua passagem de ano, se você voltar lá atrás a gente não tinha a perspectiva de 2020 como Essa, ninguém imaginava isso, e de uma hora para outra a gente parece que teve um... parecia assim, fazendo uma analogia, parecia que a gente estava na Guerra Fria e caiu uma bomba nuclear e o mundo deixou de existir e aí a gente teve que recomeçar e reaprender um monte de coisa Então eu acho que esse livro didático vai contar muito para nós como que nós tivemos que nos reestruturar E aí vem o impacto econômico, o impacto social, o impacto político Porque ela começa, vamos fazer uma reflexão, o coronavírus começa como um problema sanitário Começa como um fato médico Não um fato econômico, não um fato social, era um fato médico Porque já tinha médicos e cientistas pesquisando isso E de repente virou um processo histórico, econômico, social, político e mudou a vida de todo mundo.
Olha, falando agora do problema sanitário, Marcelo, enquanto você bebe uma água, na hora me veio aqui uma informação. Nós temos no Brasil metade da população sem saneamento básico. E agora eu vou colocar o exemplo. Metade da população brasileira não tem privada. Que grosseria. Grosseria é a gente viver. Tem mais celular do que privada. E acho que é normal. Então não é normal. E aí recentemente eu vi um documentário do Bill Gates Bill Gates da Microsoft é, né? Estudando uma forma de desenvolver uma privada autossuficiente por conta do número de mortes de crianças por falta de ensinamento. Então, vamos lá. É onde eu tô querendo chegar, como você falou. Então, problema sanitário. Aí eu te digo, o homem já foi pra lua e nós estamos aqui há quatro meses, pouco mais de quatro meses aqui no Brasil, falando de algo que Porque é básico. Então aí eu te pergunto, será que isso é porque a gente se perdeu no meio do caminho? Muita distração? Porque quanto mais difícil parece que a gente vai desenvolver um pensamento crítico, e pelo que nós estamos vendo, é o oposto?
É, exatamente. Eu tenho, vou tomar a liberdade de falar, eu tenho um programa de podcast chamado Café com Marcelo Lambert E um dos episódios que nós gravamos foi sobre as pandemias, as epidemias, as grandes epidemias E lá há uma discussão porque eu sempre levo pessoas lá para conversar, inclusive Vamos ver se a gente marca um dia, depois que acabar esse isolamento, para você gravar lá o podcast com a gente E aí a gente bateu muito nessa tecla do saneamento básico Quão fundamental é uma política séria de saneamento básico? E o nome já diz, é básico Eu não consigo entender, no século XXI, isso ainda ser uma demanda de cidades, países e assim por diante Sendo que se você pegar a peste bubônica, mais conhecida historicamente como a peste negra O grande problema, que até agora citaram que em alguns lugares reapareceu Nos Estados Unidos parece que no Esquilo Mas isso é uma coisa que de tempos em tempos acontece também É que a gente está nesse momento meio de medo, então tudo toma uma proporção muito grande Mas o princípio da mudança foi exatamente pautado numa política de discernimento básico, de compreensão da origem da pulga lá do rato, que transmitia por conta do lixo na rua, por conta do esgoto a céu aberto. E nós temos isso hoje do lado de casa. Se você sair por aí, você vai ver, não precisa ir longe. Cidade de São Paulo, você vai ter esse problema em todos os lugares. E a gente está falando da capital do estado mais rico da União, estamos falando de uma das maiores capitais do mundo. Então, veja, um absurdo. E crianças ainda morrem de diarreia. Isso é inaceitável. Você tem uma mortalidade infantil ainda alta em alguns lugares do Brasil, bolsões de miséria, e que é inaceitável e é um excedente básico. Então eu acredito que, como lá no livro de história, a gente está voltando nessa questão porque é a pauta hoje, é exatamente pensar isso. Hoje a gente estuda a peste bubônica, que dizimou lá 90% de algumas cidades da Europa, e o foco.
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