O que o Palhaço Faz? - Corte InterioIza

Varley talks about what clowns do, using them as a metaphor for how education and workplaces handle human imperfection and vulnerability. The conversation explores workplace pressure and personal growth through this lens.
Chapters
O assédio ou todas essas questões de cobrança e pressão, ela vem dentro de um sistema que eu chamo no livro também de veladamente cruel. Que é, olha, nós estamos cuidando de você. Você é uma pessoa importante pra nós. Nosso maior ativo são as pessoas. Mas, na verdade, você tem que pegar voos de madrugada, e aí você ouve a justificativa. Mas a agenda, quem faz é você. Só que nessa agenda que você faz, não tá à conta da meta que você tem que bater. Então, a sua meta é alta. E aí, assim, organize-se em cima. Mas a quantidade de pratos para empilhar, e sempre é inventado um novo prato, vira algo insustentável, ou que foi insustentável pra mim. E aí, me vem uma sensação muito difícil de fraqueza. Daqui a pouco, o papo vai ficar fofo, tá?
Daqui a pouco, vai ficar bonito.
Mas me vem uma sensação de fraqueza, de vagabundice, de eu sou uma pessoa que não aguenta pressão. Eu sou sensível demais, eu cheguei a ouvir de uma gestora. Você precisa ter uma casca mais dura. Você precisa… Eu sou chamado pra todos esses movimentos. Porque eu sou artista, mas eu ouço. Você precisa sentar mais na caixa da sua função. Vi agora um post que você fez sobre os sapatos. É exatamente isso. Num determinado momento, eu tava me vendo pra encaixar.
Pra encaixar. Se encolhendo. Essa publicação que o Wally tá dizendo é uma provocação que eu faço com o sapatinho da minha filha. Né? Que em determinado momento, quando eu fui colocar o sapatinho nela, não servia mais, né? A Jelena tá crescendo, graças a Deus. E aí, a hora que eu vejo aquele sapatinho, eu pensei, ou eu reclamo que não serviu, ou eu agradeço. Porque se eu ficar insistindo em colocar o pezinho dela aqui, vai machucar. Então, quando a gente se encolhe para caber nos lugares, é sempre muito difícil. Você vai adoecer cedo ou tarde. E aí, falando nisso, eu pego aqui mais um poema do seu livro. Doente de relógio, inflamação crônica, muitas horas comprimidas em pequenas doses de vida. Que coisa mais linda. É triste no máximo, mas que coisa mais linda.
Essa leitura não é uma leitura alegre, não é uma leitura agradável. No prefácio, inclusive, eu falo sobre isso. Mas era algo que eu precisava. Foi muito bom, por exemplo, eu ouvir de uma aluna que está próximo do que nós chamamos de burnout. Já foi para a enfermaria da empresa, falando. Varley, eu precisei comprar seu livro quando eu tava indo pra enfermaria. E eu me senti acolhido, eu senti que eu não tô sozinha.
Senti acolhida, não estava sozinha. Janeiro, branco. Setembro, amarelo. O resto do tempo, alerta vermelho. Não precisa, né?
Que é exatamente isso que eu vivi.
E aí, qual é a lição que você tira? E o que você hoje leva como um palhaço mesmo? Você se veste? Como é que você faz agora esse trabalho na educação desse tema?
Legal. Esse trabalho, ele já existia antes de eu entrar pra essas empresas, né?
Oficialmente.
Oficialmente. Ele começa a surgir lá em 2007, quando eu tô naquele período e eu vejo a escola doente, vejo o trabalho que se faz em palhaços e hospital. Estou me formando ali no curso de formação de atores e eu me faço a seguinte pergunta. Se tem palhaço em hospital, por que não tem palhaço na escola? Se a escola, às vezes, é um lugar tão doente ou mais doente do que um quarto de UTI. Nesse caminho, eu começo a experimentar a linguagem do palhaço em sala de aula. Mas não o palhaço professor que se veste ali e usa o que o pessoal chama de fantasia. A linguagem do palhaço é a aceitação da sua falibilidade. Ele é a imperfeição. Por que a gente ri do palhaço? Você vai no circo, então vamos supor que você leva a Gelina do circo. Aí você tem lá as pessoas que estão andando na corda bamba. Você tem um mágico que faz coisas maravilhosas. Aí você tem a pessoa que dá salto mortal.
Aí vem o palhaço.
Aí vem o palhaço. Frequeça, cai. Ri. Toma tapa na cara. Toma tortada na cara. E aí ele olha pra gente e a gente se reconhece nele. Ele é a única pessoa falível no circo. E é por isso que a gente ri.
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Depois de tantas histórias, aprendizados e pausas necessárias, o @interior_iza está de volta








