O que precisamos fazer para a energia não acabar? Live com Ruth Manus

Isabela Camargo talks with Ruth Manus about why women are exhausted. They discuss the societal pressures and expectations that drain women's energy, and what self-care and feminism have to do with it.
Chapters
Olá, olá! Tudo bem, Bia? Oi, Bruno! Fefê! Boa tarde a todos vocês que estão entrando nesta sexta-feira, meio-dia. O relógio tá virando, né, pra meio-dia. E que bom que vocês vão poder almoçar comigo e com a convidada de hoje, com a Ruth Manos. Ela que é escritora, advogada, doutoranda e tem ideias fabulosas pra dar uma chacoalhada aí na nossa vida. Na página da Ruth Manos, inclusive Ruth Manoscritos, está dito lá, né? Ser contraponto neste mundo. E aí eu quero começar, inclusive, a minha conversa com ela para entender como é que a gente pode ser contraponto neste mundo que a gente está vivendo. Mas mais do que isso, a Ruth é autora de um livro que eu amei desde que eu tive acesso pela primeira vez, que é Mulheres Não São Chatas, Mulheres Estão Exaustas. E esse livro, toda vez que eu comento dele, assim, é impressionante. Como todo mundo se identifica, porque estamos sim muito cansados, cansadas, exaustos, exaustas, mas muitas vezes tudo isso é muito mal interpretado, então é muito bacana quando vem alguém de fora da nossa realidade e pode apontar onde a gente tá errando a mão. Sabe? Saramago já dizia, a gente só vê a ilha quando sai da ilha. E nesse caso, nessa rotina que todos nós estamos, com muitos acessos, o excesso de muitos acessos, tem dado aí uma desequilibrada. E eu costumo dizer que aquilo que já estava desequilibrado ficou ainda mais. E quem já estava se cuidando está passando realmente por esse momento de uma maneira um pouco menos dolorosa. Posso dizer assim? Eu tenho ouvido, sabe, muitas histórias de pessoas que já estavam se cuidando, estão seguindo bem e outras que estão aí nesse nesse processo. Assim que a Ruth entrar, a gente já vai dividir tela. Vou aproveitando aqui, fazendo um pedido pra vocês. Eu quase não peço, tá? Mas mandem coraçõezinhos, convidem as pessoas, né? Nessa setinha que tá aí do lado. Porque nessa hora do almoço, o papo vai ser muito bacana. Ele tende a ser muito leve, muito divertido. Pra gente, então, entender por que que as mulheres Estão exaustas. Nós não somos chatas. É isso mesmo. Tá lá em Portugal. Vai já dividir tela comigo pra gente começar.
Oi! E aí, querida?
Tudo bem, Ruth?
Tudo e você? Deixa eu arrumar as coisas aqui que.
Eu acho que tá... Vamos arrumar. Enquanto isso, pessoal que tá nos ouvindo, confirmem se o áudio tá bom, se tá tudo bem. Ruth, obrigada por ter aceitado o meu convite. Você tá aí em Portugal, vai dedicar uma hora sua pra conversar com a gente. Então, nessa hora do almoço, todo mundo vai poder almoçar com a gente. Espero que seja uma conversa muito bacana pra todas nós.
Com muito prazer! Nossa, eu acho que, além de toda a admiração por você e pela, né, a experiência que a gente já dividiu juntas na...
Unha Talks! Demais, né?
Ó, hoje eu nem posso falar muito mal, ó! Hoje eu... semana passada eu fiz!
Você fez! Eu também consegui!
Tá clarinha, mas tá...
Perfeito. Ruth, a gente brinca falando da unha. Quem não tem a unha como código de autocuidado, eu acho uma bobagem. Os homens não entendem, mas a unha faz parte do autocuidado, assim como outros cuidados.
Dá pra gente transferir pra muitos campos. Eu almocei hoje com uma amiga portuguesa aqui e a gente tava falando sobre isso. Pra algumas pessoas é a corrida de manhã, pra outras pessoas é a meditação, pra outras é, sei lá, uma massagem. Pra outra pessoa, é, dormir até tarde. Pra outras pessoas, é, ter um tempo pra ver séries sem... Seja o que for, né? Mas a gente tá começando a falar sobre cansaço, sobre sobrecarga, sobre exaustão, a gente tem que começar falando sobre autocuidado.
Isso.
Sobre não esquecer que o tempo que a gente dedica ao trabalho não é um tempo dedicado a gente, é um tempo dedicado ao trabalho. O tempo dedicado aos filhos é maravilhoso, mas é aos filhos. O tempo dedicado ao casamento é maravilhoso, mas é ao casamento. E a gente? Cadê a gente na fila?
Perfeito. Eu vou deixar os comentários aqui por enquanto, já já eu tiro pra que as pessoas possam te ver e recomendo que quem quiser fazer alguma pergunta pra Ruth, manda aqui no inbox que aí já já eu abro a pergunta, senão elas podem passar aqui durante a nossa conversa. Ruth, o seu livro, eu já queria começar por ele, ele é fabuloso, né? Mulheres não são chatas, mulheres estão exaustas. Me fala, o que que você descobriu, o que que você sentiu, com quem você conviveu para colocar esse título no livro e pro conteúdo que você traz nele? Gente, podem acessar, comprem, porque é um livro que muda a sua crença, vai mudar bastante o seu ponto de vista.
Luiz, eu acho que tem muitas coisas, sabe? No começo do livro eu falo sobre o fato de que, né, não sei quem tá assistindo a gente e de onde são as pessoas, mas eu que sou de São Paulo, você tá em São Paulo também, eu não queria fazer um feminismo de tá em bibi, não é? Aquele feminismo que só se preocupa com as questões que são importantes pra mulheres, brancas, privilegiadas, heterossexuais e não sei o quê. Não, não era o que eu queria fazer. Eu queria fazer um livro, por mais desafiador que isso fosse, que tocasse em muitas pessoas, no máximo possível. É claro que o meu lugar de fala não é o feminismo negro, não é a mãe solo, eu tenho uma história muito diferente de todas essas, mas eu quis ouvir muita gente. Eu quis ouvir muitas mulheres. Mulheres de 18, mulheres de 78 anos. Eu quis ouvir mulheres que têm muita grana e que não quer dizer que por terem muita grana não tem problemas, tem problemas. Mulheres com um baita problema de grana, com muito mais problemas. né? Então eu acho que abrir esse universo, que pra mim foi fenomenal, abrir minha... minha mãe sempre falava isso, vamos abrir janela pro mundo, né? Não vamos abrir janela pro pátio interno e olhar o seu vizinho, seu amigo, seu colega. Vamos abrir a janela da frente e olhar as pessoas que são diferentes da gente. Então eu acho que esse livro tem aí um processo muito legal de aprendizado com outras mulheres e de olhar pra realidades que não são a minha, mas que são tão importantes quanto ou mais.
Sim. A Gabi Marques, ela já pergunta, né? Olha, é normal chegar próximo dos 40 e perceber essa confusão interna de como será o futuro? E aí ela pergunta, a cobrança é da sociedade ou nossa mesmo?
É tudo muito misturado, né Isa? Eu acho que aquilo que a gente chama de inconsciente coletivo vai abranger tanto a nossa cabeça, quanto a cabeça do nosso chefe, do nosso amigo, do nosso vizinho, da nossa mãe, da nossa avó, do nosso pai Então, por exemplo, eu sempre brinco, né? Tem alguma coisa muito esquisita no fato de que todas nós mulheres, em tese, a gente sonhou com uma vida muito parecida Ah, quando eu tiver 20, eu vou estar na faculdade. Quando eu tiver 24, eu vou ter um bom emprego. 25, eu vou conhecer um cara legal. 28, a gente vai casar. 30, eu vou ter o primeiro filho. 32, eu tô assim... É o que eu falo. Mano, a gente podia estar sonhando em trabalhar na NASA, Isabela. A gente podia estar sonhando em ser surfista e estar surfando. Por que a gente sonhou com tudo isso?
Com as mesmas coisas.
A resposta é simples, o sonho não é nosso, o sonho é introjetado, né? Então, quando a gente assiste 1, 2, 3, 5, 10 contos de fadas, quando a gente assiste 1, 2, 3, 4, 5, 10 filmes de princesa da Disney, a gente se convence que o grande personagem da vida é aquele. E o que eu acho interessante é, se você parar pra pensar e falar, não, o meu sonho de vida é realmente esse, casar, ter filho, construir família, ter uma casa com jardim, legal, ótimo, né? E eu como feminista e quem estuda o feminismo, digo feminismo, fala legal, ótimo, porque foi decisão sua. Agora, se você parar pra pensar pra tudo e falar, não, não, o que eu quero é uma carreira meteórica, ganhar um dinheirão, viajar o mundo sozinha, conhecer 50 homens ou 50 mulheres diferentes Legal também O que é importante é você parar pra pensar na sua vida e decidir o que você quer dela Você quer Não é?
É, porque muitas mulheres, por exemplo, né, eu sou mulher Então, muitas mulheres, muitas de nós, eu tô com 39 Mesmo eu tendo ou não a opinião formada sobre ter ou não filhos, existe uma cobrança que eu não sei de onde vem. Ela, como você falou, ela está introjetada nas células. Porque imagina, o Ruth são muitos milênios, muitas gerações com um tipo de realidade. Aí, de 150, 200 anos pra cá, tudo muda. Aí a mulher começa a trabalhar, ou seja, ela pode trabalhar, ela pode dirigir, ela pode votar. Coisas que são muito cobradas hoje de nós. Tipo, você tem que saber lidar com o dinheiro. Tudo bem, gente, mas eu não precisava lidar com o dinheiro até 50 anos atrás, inclusive até as roupas não tinham bolso, né? As roupas femininas nem tinham bolso porque as mulheres não precisavam carregar o dinheiro, enfim. Tô trazendo aí uns elementos pra dizer que se isso está na nossa genética, sim. E mudar isso agora de uma geração pra outra é muito cruel. Então vem, né? Vem um monte de cobrança. Até pra você peitar e falar assim, não, eu não vou querer. Acabou. Tipo, ok célula, você tá me cobrando um negócio, mas não vai rolar.
Oi, Ita, eu acho legal a gente falar sobre um ponto que eu adoro. Sabe a Brené Brown?
Sim, adoro.
Que tem os mega famosos e tem documentário no Netflix e tal. Que ela fala sobre o poder da vulnerabilidade e tal. Tem um trecho de um dos livros dela, que eu adoro, que ela fala sobre o que ela chama de teia da vergonha. A teia da vergonha existe pra homem e pras mulheres, né? Que são aqueles momentos, aqueles assuntos da vida em que todo mundo fica constrangido, fechado, se sente julgado por mil razões. Aí o que que rola? Na mulher, ela fala que a vergonha da maternidade, ela nasce junto com a mulher. Porque a mulher que tem...
Vergonha?
Ela fala, a mulher que tem filho tem a constante vergonha do julgamento sobre a maternidade dela. Então, será que eu tô sendo boa mãe? Será que eu tô trabalhando demais? Será que eu tô cuidando de menos? Será que eu tô sendo muito exigente? Será que eu tô sendo muito complacente? Pipipipi, mil vergonhas, mil medos. Por outro lado, a mulher que não tem filhos ou que ainda não tem filhos, né, que é o caso meu e seu, por exemplo, eu tenho mãe tiada, mas ainda não tenho filhos meus, essas mulheres, elas passam pela vergonha do julgamento de não serem mães.
Sim.
Então, a vergonha relativa à maternidade, ela permeia a vida de todas as mulheres, as mães e as não-mães. Porque, ah, não é mãe? Egoísta, só quis focar na carreira. para empregada, egoísta, quis ser mãe, mas não tem tempo para os filhos. Mãe que só é mãe, ai, derrotada, século, né, vive na década de 20, que é a independência dela. Então, esse julgamento é constante, esse julgamento é super sério e ele é um sofrimento gigantesco para todas as mulheres. Eu falo isso para as amigas que são mães. Eu acho maravilhoso, mas eu tento prometer para mim mesma que se um dia eu tiver filho, eu não vou ser essas pessoas que põem na rede social que a única razão da vida é a maternidade. Porque quantas mulheres a gente conhece que queriam ser mães e não podem, queriam ser mães e não conheceram um parceiro, queriam ser mães e tiveram medo dessa decisão, quiseram ser mães e a carreira não deixou, quiseram ser mães e o corpo não deixou. Então, assim, Vamos julgar as mulheres pelo que elas são, não pelo que elas trazem ao mundo.
E pelo que elas estão fazendo ou deixando de fazer. O Ruth, e justamente sobre isso, sobre esse sofrimento gigantesco dos julgamentos, será que é isso? Quando eu te propus no tema dessa nossa conversa, o que podemos fazer para a energia não acabar? Olha, eu vivo altos e baixos como todo mundo. Tem semanas até mais com baixos, outras com mais altos, mas na média altos e baixos. E eu, sim, eu perco muita energia quando eu percebo que eu tô me importando demais com algum comentário, algum julgamento e tal. Você acha que esses julgamentos drenam a nossa energia? A gente pode começar por eles aí pra energia não acabar?
Eu acho que é... Eu arrisco dizer que é uma parcela até maior do que o cansaço físico em si.
Como assim?
A gente sabe que nós mulheres estamos cansadas por trabalho, por correria e aí vamos falar sobre um problema sério que a gente pode entrar mais pra frente que é sobrecarga com tarefa doméstica. Então a gente abrange tudo aí, quem tem criança em casa, cuidado com criança, geralmente recai mais sobre a mulher do que sobre o homem, né? Tarefas domésticas em geral, roupa, louça, cama, não sei o quê Aí entram os conflitos, tipo, ah, mas você é neurótica, você quer demais, você exige demais, mil problemas, né? Mas vamos deixar esse problema ali em banho, Maria, pra gente conversar mais pra frente O que eu acho é que a gente precisa conversar sobre quanto do nosso cansaço vem de um cansaço mental que está muito mais relacionado com as cobranças que fazem da gente do que com o cansaço que a gente efetivamente tem. O que não torna esse cansaço menos exaustivo do que qualquer outro. Então a gente pode ir por muitos ângulos, a gente pode ir pelo ângulo da cobrança social, né? Então assim, a família que cobra que você tenha um relacionamento estável, que você se case, que você tenha filho, que o seu filho não seja filho único, que você tenha onde... Eu brinco que é o efeito tia Neide. Você tem uma tia Neide? Eu não tenho, mas todo mundo tem pelo menos uma figura.
Como é a tia Neide?
Tia Neide é aquela tia que você chega no churrasco da família, e aí você chega com uns sete anos e ela fala, e os namoradinhos? E aí você vira pra Tia Neide e fala, não, Tia Neide, atualmente eu tô focando mais em Química e Física, que é bem difícil, tem que estudar bastante. Tia Neide não quer nem saber se você tá estudando, só quer saber de você cumprir os deadlines.
Os protocolos.
Aí você vai, depois de dois anos aparece com o namorado. Aí você acha que o Tia Neide fica feliz?
Não. Quando vão casar.
Quando é que sai esse casamento? Aí cê casa. Aí que que tchanei de pergunta no ano seguinte? Quando é que vem o bebê? Aí dali a dois anos cê chega com o bebê. Aí que que tchanei de pergunta?
O próximo.
Quando é que vem o outro? E sabe o que que é melhor, Isa? Quando você é uma mulher de 60 anos, com filhos criados e tal, sabe o que que te perguntam? Quando é que vem os O útero nem é seu. O útero já é da Nora, é da filha. Mas como você é mulher, parece que você continua com a responsabilidade pelo desenvolvimento familiar da coisa. Então, eu brinco o efeito Tia Neide, mas pode ser tio Walter, pode ser tio Geraldo, pode ser quem for.
E nós amigas também, né? Às vezes a gente cobra muito isso também. Fala sobre isso como se fosse a coisa mais importante pra sua vida, na verdade.
Quando eu dou esse exemplo da história da Tia Neide, eu sempre falo isso, né? Se você tiver um irmão, mais ou menos da sua idade, eu tenho um irmão oito anos mais velho. Mas quem tem irmão aí, dois anos mais velho, irmão homem, você descobre que enquanto estavam te perguntando sobre namorado, casamento, filho, outro filho, nananã, sabe o que que estão perguntando? E aí, como é que tá o Verdão? E aí, hein, aquele jogo contra o Cruzeiro? Ninguém quer saber da vida pessoal do homem, né? Com raras exceções, né? Pode ter um homem que comente, ah, mas me perguntam quando eu vou casar. Tudo bem, você tem 42 anos, talvez te perguntem quando você vai casar. Não te perguntem quando você tiver 7.
Ou seja, esses cronogramas, perdão, Ruth, esses cronogramas, esses protocolos, esses prazos são muito mais colocados pra mulher do que pros homens.
Sem dúvida nenhuma, sem dúvida nenhuma. E aí a gente precisa entender, primeiro, o peso que isso representa na nossa vida, porque não adianta você escolher qual que é a sua prioridade. Né, Isa? Nesse momento da minha vida, a minha prioridade é o meu doutorado e a minha carreira. Eu te diria que das pessoas com quem mais paz eu encontro na vida, 30% me pergunta como é que vai a doutorada e a carreira e 70% me pergunta quando é que você vai ter um filho. Mas eu não coloquei esse assunto em pauta pra fucking ninguém, Isabela.
Ninguém! E você tem que achar artifício e artimanhas pra responder sem ser indelicada.
E aí entra um problema que eu indico um livro que eu acho maravilhoso da Rebecca Solnit, que é uma historiadora norte-americana. Ela tem dois livros maravilhosos, um que chama Os Homens Explicam Tudo Pra Mim e um outro chamado A Mãe de Todas as Perguntas. Uau! Nesse livro chamado A Mãe de Todas as Perguntas, ela conta isso, porque ela é uma baita mulher bem-sucedida, divorciada, nunca teve filhos, tem namorado, tem não sei o quê, mas ela fala. A pergunta que sempre recai é, ai, mas por que você nunca teve filhos? Como se tudo que ela produziu, como intelectual, como professora, como feminista, tivesse menos valor, porque ela não foi mãe. Então fica tudo condicionado. E aí ela fala uma coisa que eu acho maravilhosa, que é uma perguntinha, que ela fala assim, sempre que uma pessoa te faz uma pergunta invasiva, qual que é a nossa tendência enquanto mulher? A nossa tendência enquanto mulher é responder da forma mais delicada possível, pra não fazer ser grosseira. Porque não basta ser mulher, tem que ser simpática, agradável, educada. Uma verdadeira princesa, não é mesmo? É o efeito Kate Middleton. Tem que ser magra, tem que ter três filhos, tem que estar sempre sorrindo, com uma roupa combinando. Puta que pariu!
Cabelo, cabelo, tudo, né?
Eu não lavei o cabelo. Eu treinei hoje de manhã. Quem quiser ver, eu tava com o meu personal. Não deu tempo de lavar o cabelo. Prende o cabelo...
Isso é linda! E se tiver que usar o cabelo preso ou não? Sabe? O que isso tem a ver? Quando eu trabalhava todos os dias na TV, eu usava, muitas vezes, o cabelo preso. As pessoas perguntavam, por que você tá usando o cabelo preso? Eu falei, ué, mas por que eu tenho que usar o cabelo solto?
Porque que você tem cabelo curto e não cabelo comprido? É a caixinha na qual a mulher tem que caber, né? É, mas aí tem gente que fala horas sobre as questões estéticas, mas o que eu acho interessante é que a Rebeca Sornit, ela falava assim, a gente é treinada a vida inteira pra ser educada, uma princesa maravilhosa, bem comportada, que responde às perguntas perguntas invasivas e indevidas de forma educada. E a Rebeca Sornit, ela ensina uma coisa nesse livro, que ela fala assim, quando te fizerem uma pergunta que não deviam te fazer, vira pra pessoa e devolve uma pergunta que é a seguinte, mas por que você tá me perguntando isso? Porque você devolve pra pessoa a invasão que ela fez. Então, quando a pessoa que mal te conhece vira pra você e pergunta sobre o envelhecimento dos seus óvulos... Oi! Oi! Como é que alguém acha que tem o direito de perguntar isso pra uma mulher? Como é que alguém acha que tem o direito de ir tão longe e de forma que não invade só a extera, né? No direito a gente fala a diferença entre intimidade e privacidade. Privacidade é aquilo que você deixa só no âmbito privado, só dentro da sua casa, né? Eu dou um exemplo pouco elegante, mas um exemplo típico de privacidade é diarreia. Já ré, você pode não contar na live e no trabalho, mas você comenta com a sua mãe, com o seu marido, com a sua irmã, com o seu filho. Nossa, tô desarranjada aqui. Agora, tem outros assuntos que eles não são só privados, eles são íntimos. Então, aqueles assuntos que a gente não divide, às vezes, nem mesmo com a mãe, com o pai, com o filho, com o marido. Uma pessoa que tem um vício em drogas, uma pessoa que teve um aborto, né? São assuntos que, às vezes, as pessoas não querem nem tirar daqui de dentro. Quando eu quero te falar sobre envelhecimento de óvulo...
É, perfeito, Ruth.
Por que que você tá me perguntando isso? Por que que você acha que tem o direito de ir tão longe? Então, quando a gente tá falando de cansaço e que isso pode ter a ver com quarentena, não quarentena, a gente precisa entender que o nosso cansaço não tem só a ver com trabalho, tarefa doméstica, tem a ver com tudo isso. Trabalho, tarefa doméstica, questões estéticas e tal, mas tem muito a ver com aquilo que a gente acha que é nossa obrigação, mas na verdade não é. E que a gente tem que pôr limites.
Ui, se a nossa live fosse acabar agora, eu tenho a certeza que muitos, muitas já agradeceriam. Ruth, pra mim ficou muito claro, então, que muito desse nosso cansaço, ele é tanto de dentro pra fora, quanto de fora pra dentro. Então, se eu não mudo fora, eu preciso mudar dentro. Lá no Unha Talks, Alexandra Lohas, a entrevista dela foi a última. Maravilhosa, pensa. Ela tinha dito lá no Unha Talks, recomendo pra quem quiser se aproximar até mais da Ruth e da Alexandra Lohas, tá lá no meu canal no YouTube, Isabela Camargo Real, que é pra onde depois vai essa live. Alexandra fala que, na Europa, a relação dos pais cuidarem dos filhos é totalmente diferente daqui. Tanto que lá não tem essa do tipo, se você vai tirar férias pra cuidar do seu filho, que é muito natural os pais cuidarem dos filhos. Olha que absurdo que nós estamos falando. E ela disse o seguinte, nós mulheres precisamos parar de nos cobrar, que estamos também com muitos serviços domésticos, porque não é que o cara vai te ajudar Não! Ele participa daquele ambiente. E aí ela fala, só que nós também somos exigentes e não deixamos que eles façam. Ou a gente critica quando eles fazem. Então ela fala, ou a gente também abre mão do nosso jeito e delega mais, porque senão realmente a gente não vai dar conta. Ou vai dar conta a um custo muito alto, né Ruti?
Oi Isa, eu falo exatamente sobre esses dois assuntos no livro, né? Eu falo sobre a questão da gente mudar o verbo, então uma coisa é... eu escrevi sobre isso até no Observador, no jornal português onde eu escrevo, na semana passada. Enquanto a gente usa o verbo ajudar, eu tipo, ai não, mas meu marido é ótimo, ele me ajuda muito em casa. Erro. Porque quando a gente fala ajudar, a gente toma a tarefa como nossa e considera a contribuição do marido, do filho, de quem for, como uma espécie de favor Tá errado? A partir do momento em que a gente tem mulheres que também trabalham pra fora, homens que trabalham pra fora, vivem na mesma casa, tem as mesmas crianças, a gente tem uma partilha de tarefas. Então, não é me ajudar, é fazer a parte dele. Não, o Fulano é ótimo, ele sempre faz a parte dele, beleza, né?
Legal.
Não precisa ser muito elogiado, mas então, legal. O Fulano, beleza, ele não me traz problemas na esfera doméstica, porque ele faz.
A parte dele. Aí gente, faz a parte dele.
É muito simples, não é? Ajuda. Agora, um outro assunto que é interessante é essa questão de delegar. Eu no livro conto uma passagem, sabe a Super Nanny?
Sim.
A britânica é a Jo Frost. E eu nunca esqueci de um episódio que ela fala, que ela tinha uma mãe super sobrecarregada e tal, e ela falava, não, ó, então a partir de agora o seu filho de 15 anos faz isso, o seu filho de 12 faz isso, o seu marido faz isso, pra você ficar menos sobrecarregada. Aí quando ela ficava vendo vídeo na semana seguinte de como tinha sido a semana, ela via que a cada vez que um filho ia e dobrava a roupa, e colocava na gaveta, ela ia lá, mãe, abria a gaveta, dobrava melhor e colocava de novo. Então... Aí o outro filho varria a porta de casa, ela ia de novo, varria melhor pela segunda vez. Aí entra um lance de auto-sabotagem. Então... Enquanto a gente considerar que a nossa forma de fazer é a única correta, não vai existir partilha possível. Porque se os 50% que era do outro você define que tem que ser com o seu critério Eu entendo, por exemplo, que uma pessoa não queira comer num prato que foi lavado porcamente Beleza? Só que aí não é refazer, é conversar com o plano O prato aqui ficou legal, né? Não deu certo Outra coisa é porque você gosta de dobrar a camiseta de um jeito que ela não fica com a marca embaixo do tovaco Entendeu? E fazer de novo. Não deixa. Se a pessoa quiser usar a blusa amassada, pode usar.
Ai, adoro. Esse papo... Ele tá sendo na hora do almoço, mas ele podia também ser um happy hour, né? Na próxima a gente vai conversar tipo umas seis, e aí cada um com seu vinho.
A gente devia estar com cerveja, né?
O vinho... O Ruth... Esse papo, ele é tão abrangente, tão infinito, e aí a gente pode entrar em milhares de caixas, né? Abrir várias caixas. Você quando foi escrever o livro, você ouvia que você era chata? Ou que as pessoas ao redor chamavam as mulheres de chata? Porque já me chamaram muito de chata por N razões.
É muito interessante, né Isa? Eu tenho um marido que eu não vou porque, eu não sei se você sabe a Jout Jout, a youtuber?
Não, ah sim, sim, sim, sim!
A Jout Jout tem um vídeo que eu acho que todo mundo deve assistir Que ela fala em que o mercado às vezes de homem tá tão ruim que a gente transformou pré-requisito em diferencial É genial. Então assim, eu não acho que a gente tem que ficar vangloriando de pai, meu marido é incrível porque ele faz a parte dele da casa. Não, cara. Meu marido é um homem super decente.
Né?
Eu acho que é dizer isso. Eu sou uma mulher decente, ele é um homem decente. Então, eu tenho relativamente pouco problema em relação a isso. Mas é claro que vai ter aquelas coisas em que a gente exige diferente. Então, por exemplo, eu sou uma pessoa que não suporta cama desarrumada. Não suporto, meu dia não começa enquanto a comida não estiver arrumada. Por outro lado, eu sou uma pessoa que consegue veloz acumular na pia durante algum tempo, né?
Até acabar tudo, né? Você não tem mais gás pra usar.
Até, tipo, a hora que eu tiver suficiente pra lotar a máquina, eu faço. Agora, se tá ali, mais ou menos, vai ficar. E eu acho que aí entra em diferenças de relacionamento Porque, por exemplo, o meu marido é super capaz de deixar a cama desarrumada três dias Mas não é capaz de deixar a louça acumular 48 horas E aí, o que eu acho que é interessante é a gente, primeiro, entender que as diferenças de conforto das pessoas não são necessariamente defeitos Entender que eu não posso tomar a minha verdade como a verdade universal. Tipo, é óbvio que a gente pode deixar a louça acumular e não pode deixar que eu não arrumo, desarrumar. Não faz sentido. assim como ele também não pode tomar a verdade dele como universal, né? Agora, eu, mais uma vez, digo, estou numa situação super privilegiada, até porque eu acho que a minha formação como mulher feminista independente só me fez conseguir casar com a raiz de um homem que fosse assim. Talvez, se eu tivesse me casado cinco anos antes, eu tivesse me casado com um cara que não tivesse nada a ver com o Felipe, fosse um cara que saiu da casa da mãe.
Se fosse muito dependente.
Que é a situação de 90% das mulheres, né Isa? Então acho que é importante pontuar isso. E aí quando as mulheres colocam na casa uma questão da decência, né? E aí estamos falando de decência, ninguém tá falando da... Copo brilhando, as pessoas estão falando de higiene As pessoas estão falando de ordem mínima As pessoas estão falando de roupa suja estar dentro da cesta de roupa suja e não no chão Coisas que você fala, como é possível uma pessoa que sabe usar o Excel não sabe usar a cesta de roupa suja? Sensacional Não consigo entender Então, muitas vezes, as mulheres que estão pedindo decência são taxadas de chatas, exigentes e, na verdade, elas estão de saco cheio de ter que educar homens de 25, 35, 45, 75 anos a coisas que deveriam ser de ser humanos independentes.
Diverso. Ô Ruth, quando eu ouço as pessoas falarem sobre machismo e atitudes que nós mulheres não aprovamos, eu sempre falo, o machismo ainda é alimentado por mulheres. O machismo não vem dos homens apenas, eles são também das mulheres. E se não vier alguém de fora pra dar uma chacoalhada, foi o que eu falei aqui na abertura da nossa conversa. Você nos ajuda a dar essa chacoalhada. Tanto que naquela sua página do Ruth Manuscritos, seja o contraponto neste mundo. Então se não vem alguém de fora e falar, para amiga, para, e amigo perceba que o que você tá deixando de fazer ou fazendo, talvez não seja o que precisa, ou o que deve, sei lá.
Oi Iesa, eu volto sempre no raio do inconsciente coletivo, né? A gente, isso não é uma opinião minha, a gente vive numa sociedade machista e patriarcal, né? Então o que quer dizer? Que valoriza mais o homem e que tá centrada na figura do patriarca do homem, e esse patriarca pode ser o pai da família, pode ser o chefe da empresa Tá sempre girando em torno das demandas de um homem. Essa é a sociedade que a gente vive. Ponto. Não tem espaço pra discussão sobre isso. Quem é o nosso presidente? Quem é o nosso governador? Quem é o nosso prefeito? Não precisa ir muito além disso, né, de um modo geral. Então, a gente precisa olhar pra isso com uma crítica. Então, não dá pra dizer, ah, os homens são machistas e a culpa é deles. Não. A sociedade é machista e a gente é criado assim. Então, as mulheres que são machistas, não é que elas são as péssimas e as malvadas. Elas são também vítimas de uma sociedade que criou a gente com uma ideia errada. Eu sempre falo que trabalhar com as questões de gênero é uma espécie de musculação. Quando você faz abdominal uma vez por mês, você sempre vai ficar dolorida e isso é um horror. Se você faz uma vez por semana, já é melhor. Se você faz duas vezes por semana, você já nem sente dor. E trabalhar com as questões de gênero, e aí eu acho super importante, trabalhar com o nosso aprendizado de não julgar outras mulheres, de apoiar outras mulheres, tudo isso é uma espécie de musculação que a gente faz para aprender, e cada vez vai ficando mais automático. Então, se a nossa tendência é andar na rua e ver uma mulher que tá de calça branca, de decotão e tá lá, ui, olha ela, calça branca, cheia de celulite, de decotão, que vulgar. A gente tá num caminho de julgamento, a gente tá num caminho errado. Vamos exercitar a cabeça pra falar assim, nossa, olha que legal essa mulher, apesar de ela ter celulite, ela é livre o suficiente pra usar a calça que ela quer.
Perfeito.
Vamos mudar a forma de pensamento. Eu lembro uma vez uma coisa super marcante pra mim, Eu estive num programa de TV em que tinha uma cantora, uma menina, Oi Isa, eu tô vendo a sua mesa, não tô vendo você.
Desculpa, desculpa, eu tava anotando aqui ó, virou, desculpa.
Eu tava adorando a sua mesa, mas é mais pra mim cara, não é só pra te avisar.
Show. Você tava no programa de TV.
Eu fui no programa de TV e tinha uma cantora que eu confesso que eu não conhecia, coisa de quem mora fora há muito tempo, né? E que aquela menina, ela era super fora do padrão do estereótipo de beleza Ela não era alta, loida, magra, de olho azul, siliconada Ela era o oposto disso tudo E eu lembro que a primeira coisa que eu pensei quando eu olhei pra ela foi Cara, que legal! Que legal que as meninas novas do Brasil estão tendo como uma referência de cantora de sucesso uma menina que foge a tudo aquilo que foi... A gente recebeu Guell abaixo, né? Com Barbie, com Cinderella, com Princesa, com Kate Middleton. Não para, né, Isa? É sempre esse modelo. Se você tiver menos de 1,75, você tá lascada. Então, quando eu olhei pra essa moça, eu pensei, falei, cara, que legal, a minha musculação feminista já me fez olhar pra diferença como algo positivo em vez de algo negativo.
Perfeito. O Ruth, eu já quero entrar na questão do feminismo, tá? Mas, isso que você falou agora, né, como a gente não pôde circular muito, e em muitos lugares a gente ainda não pode, em relação ao cabelo branco. Muitas pessoas assumiram o cabelo branco, eu tô aqui com alguns, meu cabelo é preto, então grita, pode ser que agora os franceses não estão vendo, por isso que eu fico mexendo pra lá e pra cá, mas o cabelo branco muitas pessoas assumiram. Nossa, você viu aquela cantora, a raiz dela. Não posso falar palavrão. Você pode, Ruth, eu não posso. Que injustiça! Eu fico muito abalada, sabe? Com injustiças de todos os tipos. Outro dia até chorei muito num filme, aquele chamado da floresta, tá? Com a história de um cachorro que sofre uma injustiça. Eu chorei muito. É maravilhoso. Menino, o filme é lindo, mas eu chorei no dia seguinte lembrando da injustiça lá. Bom, então a injustiça pra mim sempre me deixa furiosa. E eu acho uma sacanagem uma mulher falar da raiz da outra. É isso, né? Então a gente fala de tudo. Da celulite ao cabelo. Queria só expor aqui a minha indignação. E quando você fala sobre a vida de princesa, eu comento sempre o viveram felizes para sempre, Foi um grande prejuízo pra todas nós, porque vivermos felizes para sempre é mesmo? Mas quem lavou a roupa do príncipe? Quem cuidou da casa? Quem cuidou dos filhos? Tipo, quem? Porque vivermos felizes para sempre parece que eles nunca tiveram problemas e felicidade não é ausência de problema O que que você vem dessa história da Disney? Tem até um meme que já deve ter visto que estão todas as princesas assim, né? Tipo, bêbadas e cansadas. É fantástico, gente. Quem faz esses memes tá de parabéns.
Oi Isa, eu acho que essa fase de quarentena fez com que muita, muita gente achasse que elas eram as únicas que estavam com problema, né? E aí eu vou juntar com o que você falou sobre as questões de imagem e as questões estéticas, por quê? Houve um tempo que o que era introjetado na gente eram contos de fadas e princesas Disney Hoje o que é introjetado na gente são as grandes figuras de redes sociais Eu fiz um TEDx que tá indo pro YouTube agora, um TEDx da quarentena Que se chama A Estranha Vida das Pessoas Perfeitas Que, de repente, você abre seu Instagram numa terça de manhã E parece que você é a única pessoa que tem um casamento com conflitos, né Ou então a ausência de um relacionamento que te frustra igualmente Você é a única pessoa que tem crianças em casa que tem um alzberro sujando camiseta, uniforme com mescal, aquela loucura. Você é a única pessoa que ganhou peso na quarentena. Você é a única pessoa que não tem casa com piscina. Você é a única pessoa que prende o cabelo porque tá sujo. Então, assim, você vai recebendo tantas informações que te convencem de que a vida normal é uma vida falhada. E aí, eu acho que a gente precisa tomar mega cuidado com isso, né. Porque eu acho que especialmente a gente que é mulher, porque talvez com os homens role isso. Tipo, ó, o Neymar tá agora em Barcelona fazendo mapa da festa. Mas ele não tá ligando se o Neymar ganhou ou perdeu peso na quarentena. A gente tá do tipo, como que ela ainda tá? Como que ela pariu o bebê há sete meses? E ela tá com uma barriga que eu nunca tive, sem filho! Por que a gente faz isso com a gente? Por que a gente tá se sujeitando a isso? Então eu acho que tem aí uma falta de... A gente tem muita autocrítica em relação à estética, relacionamento, sucesso, dinheiro A gente tem pouca autocrítica em relação às decisões que a gente faz de comparação de quem a gente segue E aí a gente começa a tentar reproduzir nas nossas vidas, vidas que não são as nossas Longe de mim julgar, as mulheres são magras, maravilhosas e tal, porque esse é o trabalho delas. Elas são modelos, cantoras e não sei o que que elas têm.
Vivem da imagem.
Não é?
Da voz, vivem da imagem.
Você não vive disso, eu não vivo disso, Iza. E eu acho que as pessoas que estão assistindo a gente também não vivem disso. Não tem academia em casa. Não vão no dermatologista colocar botox a cada vez que parece uma preguinha na testa Não, a gente não faz isso e a gente nem tem que fazer isso, né?
Deixa eu ver mesmo, faz tempo que eu não olho Faz parte, né?
A gente precisa começar a ser menos crítica com a gente e mais crítica com as nossas escolhas Ruth, eu adorei.
O que você falou. Pra mim, as redes sociais são atalhos pra nossa infelicidade. É impressionante, sabe? E aí, existe um conflito, né? Por exemplo, mais que a gente não viva da nossa imagem, a gente vive do nosso conteúdo. Esse conteúdo tá embalado pela nossa imagem também. Então, é contraditório, né? Como achar esse equilíbrio. E antes de participar do feminismo, eu tô deixando o feminismo por último, né? Aprendi isso em algum lugar no passado, deixar o melhor por sempre. Embora tudo que você falou aqui, Flor, se a gente encerrasse agora, acabasse a internet do mundo, tenho certeza que já fez muita diferença pra muita gente. A vida normal tem falhas. E como é que, então, a gente rompe esse padrão? Qual seria, se você pudesse mandar uma mensagem de texto pra todas as mulheres do mundo, qual seria pra gente romper esse padrão?
Eu acho que primeiro entender que o padrão é uma farsa.
Adorei. Padrão pra quem, né?
Quando a gente pensa, eu acho que as redes sociais são uma escolha nossa. Eu adoro estar nas redes sociais, eu acho que é um lugar onde eu posso fazer, eu posso me divertir, eu posso estar em conexão com muitas pessoas, mas eu tô na conexão no lugar da vulnerabilidade, sabe, Isa? Que eu acho que é muito o que você faz. Quando você fala da sua história, do seu burnout, você tá falando de um lugar, de uma pessoa que expõe as próprias vulnerabilidades, do tipo, eu nunca fui perfeita, eu nunca me propus a ser perfeita. Enquanto as pessoas também podem fazer a escolha de, nas redes sociais, estarem se intoxicando de pessoas que se vangloriam da própria perfeição.
Nossa, gente. Alguém anota essa frase, por favor? Se intoxicando.
Eu tenho uma casa maravilhosa, eu recebi, nossa, esse creme maravilhoso. Eu recebi essa caneta, eu recebi essa caneca. O que você fala, gente? Só saiu, ficou na merda pra ter esse perrengue pra pagar boleto? Então, eu até brinquei outro dia, eu fiz um recebidos mostrando os boletos que eu recebi, gente. Recebis da autoridade tributária. Nossa, que maravilhoso, um envelope personalizado com meu nome. Com um tutorial de como faz pra pagar no banco. Porque já tenho recebido, às vezes, tenho ida. Tenho exposição, faz com que a gente tenha. Fiz parceria com marca de caneta, legal. Mas em nenhum momento eu me apresento como a pessoa que tem uma vida perfeita. No meio da quarentena, quando tava tudo, né, vamos falar a verdade, quando tava tudo super complicado, teve um dia que eu tirei uma foto com o meu marido, que tá no meu feed, e que a primeira coisa que eu disse foi, eu não vim passar recibo de casal feliz. Tá difícil pra caramba! Mas tocou uma música no rádio que lembrou o momento em que a gente se conheceu e por três minutos a gente lembrou de porque que a gente tá aqui Então assim, o que eu queria dividir com as pessoas ali era o fato de que tá difícil, mas talvez se a gente se apegar às razões que trouxeram a gente até aqui, as coisas façam sentido Em vez de se apegar ao álcool gel, e a toalha na cama, e o chinelo no meio do caminho E a calça que pôs com a perna pra fora na textura de roupa suja Então, eu acho que quando a gente se coloca num lugar de Eu estou nas redes sociais pra criar conexão Porque eu sou uma pessoa normal, com vulnerabilidade, com falha Legal Se eu tô na rede social pra falar Nossa, estou maravilhosa, estou foda pra caramba, ganho produtos, minha vida é perfeita Tchau.
Não rola. O Ruth, pra gente então aproveitar esses últimos 15 minutos, aliás, 15 não, porque a gente começou dois antes. Feminismo. Porque, dependendo do que você fala, você ouve assim, ai, fulano é feminista, fulano... Tá, e? Eu percebo que as pessoas, as pessoas, eu faço parte das pessoas, tá? Às vezes a gente tem recorte de coisas e nem sabe direito o que é feminismo. Então, por favor, nos explique o que é feminismo. Atualiza pra gente.
Oi, muita gente acha que feminismo é o contrário de machismo, né? O que é o primeiro erro. O que o machismo prega enquanto corrente filosófica? Que os homens têm uma superioridade moral e que por isso eles merecem mais espaço, mais oportunidades, maiores salários, mais dinheiro, mais regalias O feminismo, ele não vem dizer que as mulheres são melhores que os homens, o feminismo vem dizer que nós somos iguais e que nós merecemos as mesmas oportunidades e, por exemplo, salários iguais para cargos iguais, com as mesmas experiências, os mesmos currículos. Então, o feminismo vem trazer duas palavras que eu acho que são fundamentais. Igualdade, em situações em que realmente há igualdade. Eu vou te dizer assim, eu trabalhei no Estadão e eu queria ganhar a mesma coisa que o Veríssimo e o Carnal. Não, né, Isa? Por quê? Porque são homens muito mais velhos que eu, com experiências diferentes da minha, e a coisa faz sentido. Ao mesmo tempo, se eu fosse fazer alguma coisa e tivesse uma Fernanda Montenegro da vida do meu lado, eu também não quereria a mesma coisa que ela. É entender quando a igualdade faz sentido. Se tem um cara da minha idade com a mesma formação que eu, legal. Então, a igualdade, quando ela deve existir, Mas acima de tudo, eu acho que a palavra de ordem do feminismo é liberdade Muita gente acha, ai, o feminismo vai me obrigar a não casar, vai me obrigar a não ser feminina, vai me obrigar a queimar tutela e andar peluda Vocês estão malucas, não é nada disso, né? Essa é uma feminista, pessoa com brinco de pedrinha, vestido de flor, né? Então, unhas feitas. O que que o feminismo quer? Que a gente seja livre pra gente ser quem a gente é. Então, se eu quisesse estar aqui e não usasse maquiagem nenhuma e não sei o que, o feminismo ia falar que bom, você decidiu isso porque quem é você. Eu dou um exemplo que eu acho muito interessante, que é a questão do meu sobrenome Quando eu fui casar, eu achei que eu não ia colocar sobrenome de marido porque isso nem era uma opção pra mim Ele nem ligava pra isso, ninguém ligava pra isso, eu já tinha um nome grande pra caramba E aí a minha enteada, que tem 10 anos, na altura tinha 6, 7, não sei Descobriu que eu podia ter o mesmo sobrenome que ela E ela ficou maravilhada do tipo, nossa, a gente pode ter o mesmo sobrenome, nós três, eu, você e o pai Que fofa E eu comecei a argumentar do tipo, tudo bem, pode, mas não é a minha ideia Não é isso que torna a gente uma família, o que torna a gente família é outra coisa E ela viu racionalmente, mas não se convenceu E depois de um tempo eu parei, pentei e falei, cara, eu quero fazer isso por ela Se é importante pra ela, se isso vai fazer ela ter uma sensação de estrutura, eu quero fazer. Então hoje eu tenho um nome que parece de realeza, né, de Orleans e Bragança, aqueles nomes gigantescos.
É mesmo, eu não sabia.
Não, eu não tenho Orleans e Bragança, mas tenho seis nomes.
Tudo bem. Seis nomes.
E o que que eu acho importante dizer? Colocar nome do marido. É uma decisão inovadora e louca, feminista? Não, é uma puta decisão dos anos, né, do século XIX.
Claro, claro.
Por que que eu decidi isso? Então vamos analisar essa questão. Foi o feminismo que conseguiu que fosse direito da mulher escolher se ela quer ou não. Eu decidi fazer isso num ato de amor por uma outra mulher, por uma outra menina. Eu não coloquei esse nome porque o meu marido mandou, porque o meu pai mandou ou porque a lei mandou.
Você quis.
Eu quis. Eu quis isso por ela. Então, eu acho que é um exemplo super interessante porque o feminismo me possibilitou essa decisão, que é uma decisão conservadora. Olha que louco. Então quando a gente fala de feminismo, a gente tá falando direito de decisão de cada mulher Você acha que eu ia ter o mesmo prazer de ter o nome do meu marido se isso fosse a lei que me obrigou? Ia ser uma coisa que eu ia estar contrariada com esse nome Eu adoro esse nome, porque foi uma decisão minha de afeto Isso vale pra muitos campos. Se uma mulher quer ser executiva, bem-sucedida, viajar, ter mil amantes, você mesmo achar ótimo. Se a mulher quer ficar em casa, ter quatro filhos e cuidar da casa e cozinhar e fazer, sei lá, um rolo de carne recheado com bacon, você mesmo achar ótimo. Desde que ela tenha decidido isso e não seja imposição de um homem ou de uma regra.
Perfeito. Perfeito. Perfeito. Se a gente estivesse agora aqui num estúdio de TV, ia falar uma salva de palmas agora. Gritos todo mundo pra Ruth. Nossa, adorei. Porque, na verdade, você lembra, né? Igualdade, liberdade, Ruth saiu.
Ah, meu Deus.
Ah, meu Deus. Não, Ruth, volta. Ruth, você tá aí?
Eu tô, Ida. Você tá me ouvindo?
Eu tô te ouvindo super bem.
Eu não sei o que aconteceu. De repente minha tela ficou preta.
Aqui também. Você quer... Alguém sabe o que eu faço?
Ah, será que minha tela virou?
Pode ser.
Ah, já voltou.
Muito bom. Muito bom. Então, nesses últimos nove minutos, né, quero só trazer, assim, Um caminhão de abraços e obrigada por você ter lembrado, além de tudo que você falou aqui, sobre liberdade e igualdade. É respeito. É respeito. E a liberdade nada mais é do que o livre-arbítrio. E eu entendo que como a gente passa a infância, a adolescência, com as pessoas nos escrevendo, aliás, nos escrevendo, escolhendo por nós, realmente quando você caminha com suas próprias pernas, você já nem sabe o que escolher ou como escolher. Então, pra quem está agora despertando, tá? Pra encerrar, queria as suas conclusões finais. Seu livro é fantástico, recomendo super. Mulheres não são chatas, mulheres estão exaustas. E o conhecimento é tudo, né, gente? Conhecimento nos ajuda, assim, a conhecer pessoas, situações, culturas. Quanto mais a gente se fechar na caixa, pior vai ser. Então, palavra contigo.
Oi, Ida. Sabe que uma vez eu fiz um evento que tinha um monte de homem importante, não sei o que, se eu colocar os nomes aqui, todo mundo conhece, era no fechamento de um congresso, e tinha uma mulher além de mim, que era a Bruna Lombardi, que eu adoro, que eu conhecia aquele dia e a Bruna, ela disse uma coisa que eu adorei, que foi, ela falou, nada é mais libertador do que o autoconhecimento.
Perfeito.
E isso eu acho que é um ponto muito interessante. Por quê? Quando a gente se coloca como mulher feminista, a gente pode colocar o machismo como um problema de terceiros, do mundo. Ah, é porque o mundo é machista, a lei é machista, o presidente é machista. E travar uma guerra com o mundo, que é necessário. A gente tem que travar várias guerras, não vou mentir. Mas quando a gente tem autoconhecimento, a gente começa a entender quais são os nossos comportamentos que são um desfavor pras mulheres como um todo e pra nós mesmas. Né? Mais uma vez falando da Jout Jout, que eu adoro. Ela falou que tem um vídeo sobre a síndrome de impostor. Quantas vezes a gente, que é mulher, que a gente olha pras conquistas que a gente teve de trabalho, de um monte de coisa, e a gente fala, ai, mas será que eu mereci isso? Na verdade, um dia vão descobrir que eu não sei nada do que eu tô falando. Enquanto a gente se colocar nessas posições, né, enquanto a gente estiver olhando pra outras mulheres e falando da unha, do cabelo, da roupa, do não sei o quê, ai, a fulana foi promovida, ai, mas acho que ela tem um caso com o Beltran, enquanto a gente não tiver autocrítica e autoconhecimento pra mudar o nosso comportamento, que é super difícil. A culpa não é só nossa, Isa. O mundo coloca isso igual abaixo. Liga a TV na novela, nem sei mais que horas que é a novela, às oito, das nove. Vê como valorizam briga de mulher como picuinha e briga de homem como coisas que tem razão de ser. O fulano roubou o dinheiro da empresa e a outra falou mal da minha pulseira. Entendeu? O mundo diz que a gente vive de pequenezas, só que não é verdade A gente tem que mudar a forma de comportamento, a gente tem que ter autocrítica Porque depois que a gente muda a gente, a gente muda o mundo, né? Não o contrário, a gente não vai mudar o mundo pra mudar a gente.
Depois Com certeza, autoconhecimento é super libertador, como você falou. Olha, o Luiz diz, bom demais. Vários homens aqui, tá? Peguei o Luiz só pra representar a almarada que tá aqui. Gosto muito quando os homens também se interessam pelos assuntos femininos, porque nós convivemos, gente, é relacionamento o tempo inteiro.
Ô Luísa, e o mundo melhor pras mulheres é o mundo melhor pros homens.
Óbvio!
Porque o mundo machista é o que fala que homem tem que ganhar mais, que homem nunca pode falhar, que homem nunca pode chorar, que não sei o quê, né? O dia que tiver equilíbrio, também alivia pro lado dos homens.
Sim. Aí a Jane diz, não conhecia a Ruth, adorei, seguirei, gratidão. Várias pessoas aqui pelo que eu li. E aí eu vou encerrar assinando embaixo do que a Luísa disse, que queria que a Ruth fosse minha irmã. Não dá vontade, gente, de pegar? Ruth, vem cá. Senta aqui. Vamos conversar, não é?
Sempre que quiserem. É só mandar uma entradinha, me convida para os rolês que eu vou. É sempre ótimo. Eu adoro. Se eu pudesse estar conversando 24 horas com a galera, eu riria.
Então, quando você estiver em São Paulo, nós vamos tomar um drink, que eu não sei mais o que é bar, né? Todo mundo deve estar com vontade de ir para um boteco, de ir para um bar.
Live, só que é em horários, né? Quer dizer, não que a gente não devesse estar... É que aí meio dia, meio dia já pode, uma cerveja. Mas tô aqui com um chá de cidreira.
Temos, na verdade, pra escolher o que a gente quiser.
Mas tarde a gente muda a chave, né?
Pronto. Ruth, muito obrigada pelo seu tempo, pela sua confiança, por tudo que você dividiu conosco. Recomendo que quem ainda não conhece o trabalho da Ruth, Ruth Manos no Instagram, onde mais?
Ah, em todos os cantos, no Instagram, no Facebook, no Twitter, no LinkedIn, no podcast no UOL, na Glamour, no Observador, estamos aí loucamente em todos os cantos.
Muito bom. Uai, então seu aniversário foi agora?
Foi dia 3.
Uai, gente, parabéns, atrasada. Deu tempo, deu tempo.
Obrigada, querida.
Siga em paz. Estamos juntas. Até breve.
Beijo, beijo todo mundo, obrigada.
Eu vou liberar aqui a Ruth pra ela seguir com os compromissos dela, quero agradecer mais uma vez cada um de vocês. As palavras são sementes e se fez sentido pra cada um de vocês, elas vão germinar. Eu espero que vocês compartilhem também, então, essas sementes, essas informações com quem for importante pra você. Toda entrevista vai ficar lá no meu canal no YouTube, Isabela Camargo Real. Obrigada por todos vocês que têm me acompanhado nos últimos meses. Eu volto daqui uns dias com mais conteúdos que, se são bons pra mim, também podem ser bons pra vocês. Por mais conhecimento, é só com ele que a gente ameniza a ansiedade e faz melhores escolhas. Bom final de semana.
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O processo de reconhecer limites, mesmo quando a vida parece exigir sempre mais.

Depois de tantas histórias, aprendizados e pausas necessárias, o @interior_iza está de volta








