O tempo dos quadrinhos! Com Mauricio de Sousa #daumtempo

Nesta entrevista ao vivo, Isabela conversa com Maurício de Sousa, criador da Turma da Mônica, sobre a relação entre tempo e criatividade, sua trajetória profissional e pessoal, e o impacto cultural de seus quadrinhos. Maurício descreve o tempo como uma entidade valiosa que pode ser amiga ou inimiga, relata sua passagem de repórter investigativo a desenhista, e explica como observou pessoas ao seu redor – filhos, familiares, vizinhos – para criar personagens icônicos como Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão, Chico Bento, Horácio e Penadinho. Ele enfatiza que a mensagem e os valores das histórias são mais importantes que o desenho, citando sua colaboração com pensadores como Cortella e Paulo Vieira, e a expansão internacional da marca (Japão, Alemanha, TV Fuji, Monica Toy). Maurício compartilha conselhos para jovens criadores, destacando a importância da persistência diante de "nãos", a gestão do tempo criativo (pausas, tarefas cotidianas) e o papel da família na produção (filhas como diretora de conteúdo, esposa como diretora comercial). A entrevista encerra com perguntas sobre futuros projetos, a importância da educação através de quadrinhos, e a visão de Maurício sobre ensinar crianças a aproveitar o tempo.
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Olá, olá, muito boa noite! Seja bem-vindo, bem-vinda a mais uma entrevista. Hoje é dia 14 de outubro, 7 horas 1 minuto. Estamos a poucos dias do aniversário de Maurício de Souza, que está aqui comigo. Boa noite, Maurício!
Muito boa noite, Isabela! Prazer em vê-la por aqui na minha casa hoje.
Não é? E você na minha. Estamos na casa de um monte de gente.
Como é que faz essa magia tecnológica?
Maravilha, não é, Maurício? Muito obrigada pelo seu tempo. É um privilégio poder compartilhar dele com todas as pessoas que querem viver um tempo de qualidade.
E viva o tempo!
E você aproveita muito bem o tempo, dá para ver pelo seu sorriso. Pela sua pele.
Ah, tempo tá para ser usado, bem usado, acho que na vida toda da gente. Algumas pessoas se descuidam e não entendem o valor do tempo. Tempo é a moeda mais valiosa que nós temos, devia ser a moeda universal, e é, só que as pessoas usam de formas diferenciadas. Eu realmente adoro o tempo, porque os melhores momentos da minha vida foram propiciados, fornecidos pelo tempo que eu tive para viver esses momentos. Adoro falar no tempo como se fosse uma entidade, e acho que devíamos tratar o tempo como uma entidade mesmo. Uma bela entidade poderosíssima que nos leva ou nos traz, depende de onde você esteja ou como é que você quer ir, né?
Maurício, há muitos anos você participou, eu fiz uma entrevista contigo para o meu livro Dá um Tempo: Como Encontrar Limite em um Mundo Sem Limites, e eu tenho recebido muitos retornos de leitores sobre a sua história. Que começa com o menino que desenhava. E esse menino que desenhava ainda desenha. Você me disse tempos atrás que tem época em que dá tempo, tem época que não dá tempo, mas o tempo está nas nossas mãos e ele não é um inimigo, ele é um amigo. E eu percebo, Maurício, muitas pessoas reclamando do tempo como se não tivessem controle sobre ele. O que que você tem para nos dizer?
Imagina, o tempo nasce com você, é o seu tempo, seu tempo de estar aqui no planetinha azul. E nós temos que agradecer a Deus por termos tempo e podemos usar o tempo, podemos de alguma maneira até usufruir de diversas maneiras. O tempo, para mim, como eu te falei, é uma entidade que deve ser respeitada. É forte, é uma coisa poderosa, mas também é o nosso maior amigo, que ele está conosco nos melhores, nos momentos mais felizes, tá correndo ao nosso lado. Delícia de sentir isso.
Não é, Maurício? Nós tínhamos conversado também um pouco sobre os personagens que estão atrás de você, o Sansão, o Horácio, o Bidu. São personagens atemporais.
São atemporais. Olha o tempo aí.
Não é? E que fizeram parte da história de milhares de pessoas, inclusive que estão aqui no Facebook, no YouTube também acompanhando essa nossa entrevista. Ficará gravada, tá, gente? Muitas pessoas então vêm comentando que gostaram muito do que você explicou sobre a história. Tem uma frase aqui muito bonita, que o tempo que as crianças dedicam a uma história em quadrinhos é o tempo do amor, porque se te agrada, você vai ficar ali aprendendo. Então, como você se sente, talvez você já tenha respondido isso várias vezes, mas como você se sente fazendo parte da vida de tantas pessoas?
Adoro compartilhar, adoro sentir que realmente talvez milhares e milhões de pessoas passaram pela Turma da Mônica, muitos aprenderam a ler nas revistas nossas, então provavelmente nós somos dos maiores formadores de leitores do país. Então vamos fazer isso em outros países também, já que estamos internacionalizando cada vez mais os nossos personagens. E as mensagens que a turminha manda, vivencia e repassa são muito gostosas, bacanas. Eu queria dividir realmente com toda criançada do mundo essa, vamos dizer, possibilidade de comunicação que os nossos personagens têm, e principalmente as mensagens que eles jogam, que eles espalham, que eles oferecem principalmente para as crianças. Só que hoje os leitores não são mais crianças, os adultos também, e alguns já passando da idade do adulto. Por quê? Porque eles aprenderam a ler com a Turma da Mônica. Faz 60 anos que eu comecei a fazer esse trabalho. E desde então nós estivemos perto de todos os leitores, com o mesmo carinho, cuidado, mesma possibilidade de passar mensagens também, de divertir, entreter, educar, orientar, passar informações, alfabetizar principalmente. Então eu estou feliz porque eu consegui muitos dos objetivos que eu tinha na vida, eu consegui no meu tempo de vida.
Mas pelo que você já me contou, ainda tem muitos projetos pela frente. Aliás, Maurício de Souza, gente, está agora com dois livros lançados, fazendo a ilustração do livro do Cortella. E de quem mais, Maurício? Mostra para gente.
Do Paulo Vieira. Paulo Vieira, grande vendedor de livros também, tem mensagens muito bacanas, tem uma orientação de vida muito interessante. E o Cortella, o filósofo, meu amigo também. Esse é o terceiro livro que nós fazemos juntos.
Que graça!
Eu gosto tanto, gostei tanto desse material, dessa filosofia tão humana e tão acessível no Cortella, que eu estou preparando esse material para sair no Japão. Já falei para ele, ele levou susto, falou que tava meio em dúvida ainda, mas depois que eu comecei, nós vamos terminar. Já inclusive mandei traduzir o livro dele.
Olha que maravilha! O Cortella quem faz o prefácio do livro Dá um Tempo, em que você compartilha a sua história do menino que desenhava. E eu queria então, Maurício, se você me permite compartilhar com quem está aqui nos acompanhando, que quando eu te conheci pessoalmente eu fiquei maravilhada, e agora, 2 anos depois, eu continuo maravilhada, porque você continua o menino que desenha, o menino que não cansa de desenhar.
Adoro esticar minha infância.
Não é? E eu me lembro quando eu lhe perguntei Tempo de criação de uma história. E você disse que o mais importante ali era a mensagem da história, porque desenho todo mundo desenha. Você até fala isso no livro, mal ou bem, mas a mensagem. E tem tudo a ver com os valores, provavelmente, que você ilustrou do livro do Cortella. Vamos falar um pouquinho sobre isso, a sua responsabilidade também com essas historinhas. Não são inofensivas, elas são muito valiosas.
Obrigado.
Bem, pergunte: como você coloca um pouco do Maurício, e hoje com toda a sua equipe, nessas histórias? A importância de vocês, o tempo que vocês dedicam para compartilhar também valores nas historinhas, não só nesse livro especificamente, mas nos gibis como um todo.
Bem, no livro do Cortella existe a filosofia dele, o texto dele, e as ilustrações que mais ou menos são sobre o que ele está escrevendo. Mas vem uma série de personagens com os desenhos muito gostosinhos também, bem divididos, né? Turma da Mônica inteirinha e mais outras turmas também por aqui. Quer ver? Só aqui tem Chico Bento, Chico Bento por aqui, ou daqui a pouco assim.
Não deu para ver? Deu para ver, tá lindo, tá lindo.
E mais, deixa eu ver que mais tem aqui. Gastando tempo aqui porque eu não acho a página.
Estão todos se admirando. Etiqueta inversa, Maurício. É, você, você contribui para os valores de milhares de pessoas, não é de hoje. Como você disse, seus livros vão para outros países, você faz parte da alfabetização. E como você se sente sabendo desses valores compartilhados? Ou seja, a responsabilidade do desenhista por trás das histórias, como é que você foi adquirindo esta responsabilidade?
Você sabe que no início, quando eu comecei a carreira mesmo, Fiz as primeiras historinhas. Eu não sabia que eu estava falando com crianças, só que eu fazia as tirinhas de jornal, principalmente, e eu tinha que começar a desenhar com coisas que eu conhecia, com alguma coisa da minha vivência. Eu era jovem, a infância, minha infância, tava próxima. Eu tava com tudo na cabeça ainda, memória fervendo, tinha passado, fazia pouco tempo, né? Então resolvi escrever historinhas da minha vivência, do que eu tinha passado, do que eu lembrava. Em seguida, eu casei, tive filhos, e daí vieram as crianças brincando. Eu trabalhava em casa, na sala de casa, as meninas, 3 meninas primeiro, vieram e brincando do meu lado. Então, misturava a minha vivência pessoal com a vivência que eu tava lá assistindo lá em casa, da Mariângela, da Mônica, da Magali, as minhas primeiras filhas, né? Bem, logicamente, tinha que dar o que deu. Cada uma delas virou personagem. A Mariângela, a primeira, virou Maria Cebolinha. A Mônica virou a Mônica, que vocês conhecem. A Magali virou a Magali Comilona, que vocês conhecem também. Então, naquele caso, eu pulei a minha infância, pulei a minha vivência pessoal e copiei o que estava em volta de mim. Eu via a Magali comendo uma melancia inteirinha mesmo, com 2 anos. Mônica arrastando um coelho pela casa.
Era azul?
Não, era amarelo. Amarelo, empalhado com palha mesmo. E comprei numa feira de Mogi das Cruzes. Não era um coelho sofisticado, mas era, para ela, era o coelho. E que marcou a época, marcou a presença e marcou a vida dela. E a Mariângela já ficava no jeitinho muito especial, carinhoso com as irmãzinhas, que ela era mais velha, né? Então copiei isso. Depois disso, mais tarde, pouquinho, eu copiei outra coisa. Copiei a molecada que jogava bola perto da casa da minha avó. Lá estava o Cebolinha. Porque Cebolinha, apelido, porque ele tem uns cabelinhos assim parecidos com aquele alto da cebola.
É verdade.
E falando, trocando o R pelo L. Ele trocava, tinha dislalia, trocava o R pelo L mesmo. Então, mais uma vez, eu copiei, eu não criei, eu não inventei, tava ali do meu lado, então eu desenhei. Do lado dele, jogando bola com ele, estava o Cascão, menino que depois do futebol lá no terreiro do Baldio, que chovia um pouquinho, ficava iluminado, ele ia para casa e não tinha água encanada no bairro que ele morava. E às vezes voltava para o segundo jogo do mesmo jeito que ele tinha ido. Então tinha o apelido de Cascão. Mais uma vez, eu não inventei. E assim foi indo. Meu filho do contra, do contra era do contra, né, que é o Maurício. Ele fazia tudo ao contrário do que o pessoal fazia. Faziam qualquer coisa que faziam de uma maneira, ele queria experimentar fazer ao contrário. Então ele não era exatamente um destruidor, do contra mesmo. Ele queria experimentar, ele era curioso. Em casa, meu Deus do céu! E na escola, então, meu Deus do céu! De vez em quando era chamado pela diretoria para eu me explicar o que queria dizer o comportamento do Maurício do Contra. Depois veio o Mauro, meu filho, que trabalha hoje, dirige a parte de teatro, shows, espetáculos na minha empresa. O Mauro, ele, na minha chácara, uma vez, vinha vindo uma tempestade. Aquele tempo estava grande, cheio de raios, trovões e tudo mais. E eu comecei a falar para o pessoal: Fecha a janela, fecha a porta!" Gritando para o pessoal. Ele ficou assustado com a minha emoção naquele momento. E, pelo resto da vida, até hoje, ele fica assustado com as chuvas que vai chegando. Ele, logicamente, por causa disso, ganhou um apelido como personagem de Nimbus. Que é aquela nuvem mais ameaçadora que tem. Aí tem a Marina, mas a Marina ganhou o nome que ela tem mesmo. Marina, minha filha, ela também, mais uma vez, ficava em volta de mim enquanto eu tava trabalhando, desenhando, vendo eu desenhar, pegando o material de desenho dela e me copiando, copiando, copiando, copiando. Resultado: a Marina, minha filha, que não é desenhista da empresa, ela é diretora de conteúdo, porque conhece tudo da filosofia da minha história. Mas ela eu preferi colocar como diretora de conteúdo e não desenhista. Desenhista, se quiser, vai ser mais adiante um pouquinho, que ela desenha como eu, como eu. Então eu sou privilegiado, sou Bem-aventurado, porque meus filhos vêm vindo e outros mais. É a Mônica então que foi para o lado comercial, é minha diretora comercial da empresa. E a Mônica, com aquele gêniozinho meio forte, ela teria que ser diretora comercial. Ela vai discutir contratos com advogados durões e discute muito bem e ganha muito bem também. Então, com isso, eu fui aprendendo a olhar em volta, criar personagens a partir de amigos, conhecidos, parentes, parentes distantes e tudo mais. Chico Bento, por exemplo. Chico Bento não foi baseado em nenhuma pessoa que eu conhecesse pessoalmente, mas é baseado nas histórias que a minha avó me contou de um primo dela, meu tio-avô, que era igual o Chico Bento, andava descalço, queria só pescar no rio, pegar a fruta no pé e assim por diante, aquela coisa de caipira feliz. Eu aproveitei o meu tempo para observar o que estava em volta de mim e transformar em personagens, histórias e propostas.
Perfeito. Mas Maurício, como você disse, você usou seu tempo observando. Hoje muitas pessoas estão distraídas e perdem grandes chances de encontrar personagens ou histórias como você soube reconhecer ao seu lado. Esse tempo eu coloco aqui no livro, como algumas pessoas me disseram, como o "Kairós", que é o tempo divino, que é o tempo da oportunidade. Tem o "Cronos", que é o tempo do relógio, o tempo da quantidade, E "karós", que é um outro termo usado pelos gregos, né, que hoje a gente quase não usa mais, que é esse tempo da oportunidade, da observação, que não é o da quantidade, é o da qualidade. Então, que bom que você observou. E que bom, agora vou trazer uma outra história aqui, que quem está nos acompanhando vai se deliciar, que quando você foi buscar o seu primeiro emprego, numa redação de jornal, você teve ali uma situação totalmente diferente da que você esperava, né? Você foi lá todo cheio de energia e vontade para trabalhar. Você conta aqui para mim no livro que recebeu ali um balde de água fria, mas uma pessoa da redação te observou, observou que você estava triste, e aí de novo A história mudou.
Virou, virou, virou.
E aí, o que acho que poucas pessoas sabem é que antes de desenhista, Maurício de Souza foi um investigador, um repórter investigativo. Sim, fantástico.
Foi um tempo diferente, um tempo diferente que me ensinou muita coisa também. Era um tempo também perigoso para mim, porque eu tinha 18, 19 anos. Eu tinha aquela idade em que você acha que nada de mal te acontece, que num tiroteio a bala não vai te pegar, que numa perseguição policial você não vai virar o carro, vai capotar com perua, qualquer coisa assim. Mas Eu vivi muito intensamente esse tempo de repórter e tive, vamos dizer, tive sorte. Não houve nada de grave, nada de perigoso. E também, felizmente, nesse tempo, nos 5 anos que eu fiquei de repórter, não assisti a nenhuma tragédia muito grave, acidentes com mortes e tudo mais. Por que que eu falo que eu tenho muita sorte? Porque quando eu entrei na reportagem policial, eu tinha um pequeno problema que talvez me segurasse e não me transformasse em repórter policial. Eu não podia ver sangue, que eu desmaiava. Então, quando eu entrei na reportagem, falei: meu Deus, tomara que nunca aconteça de eu ficar no meio algum trabalho, algum acidente, com pessoas mortas, com sangue sujando a roupa, com coisas muito violentas. Fiquei 5 anos sem ver sangue. Tempo suficiente, porque fiquei na reportagem, eu acho que uns 5 anos. Nesse tempo Fiquei livre. Eu tinha plantão, plantões. No meu plantão não acontecia nada. Eu saía do meu plantão, caía um avião, um ônibus derrapava não sei da onde, e outras coisas que você nem imagina que aconteciam fora do meu plantão. Então, tenho a impressão que a reza da minha avó tem alguma coisa que ver com isso.
Com certeza.
Minha avó, eu chegava na casa dela de vez em quando para visitar, ela tava lá puxando o terço dela. O que você tá fazendo, vó? Tô rezando para você, meu filho. Sotaque caipirinha, né?
Bonito.
Por que, vó? Porque você tá com um negócio perigoso. Além disso, você é muito esquecido. É para você não perder nada, não esquecer nada que valha. Qualquer lugar. Bem, enquanto a minha avó rezou, eu não conseguia perder nada. Eu sou esquecido, eu esquecia, recuperava, esquecia, recuperava. Incrível tudo. Foi máquina fotográfica, foi laptop, foi dinheiro mesmo, foi joias no hotel do Japão. Eu ia lá, pedia: vocês acharam? Achei, tá aqui. Realmente acho que o meu anjinho da guarda tá aqui, cansado, com as asas cansadas, mas andou atrás de mim, ou tem andado até agora atrás de mim nesse meu tempo de vida.
Com certeza. Inclusive, eu tô só colocando aqui um comentário do Jal, José Alberto Louredo, né? Parabéns para essa live linda. Obrigada, viu, já, por sempre me conectar com Maurício. E aí, Maurício, o Olavo, ele pergunta, Olavo Melo, ele deve ser do Corpo de Bombeiros, pelo que eu tô vendo aqui. Ele tá querendo saber como é que surgiu o personagem Penadinho.
Minha avó, quando eu era criança, ela contava muita história para mim, para mim e para os meus amiguinhos. Se juntava no fim da tarde, depois brincar na rua Mogi das Cruzes, rua de terra, delícia. Eu jogava bolinha no meio da rua, naquele tempo dava, não tinha movimento quase, tudo mais. Bem, terminava a brincadeira, a noite começava a anoitecer, a gente ia para casa da minha avó, uma casa colonial que tinha na Rua Ipiranga, e sentávamos na cozinha dela, uma cozinha grande, fogão de lenha, E ela sentava numa cadeira, tipo cadeira de balanço, e contava histórias para nós. A minha avó, durante a minha infância, contava uma história por noite. Eu não sei da onde que ela tirava tudo aquilo. Era uma contadora de história inérita.
Eu já conheci alguém que também já contou muita história, sabia? Chama Maurício de Souza. Olha só!
Eu não chego aos pés da minha avó. Mas então, com aquilo, tinha a noite, tinha algumas noites em que ela contava história de assombração. Naquela noite eu até às vezes dormia na casa dela porque eu tinha medo de ir até outro quarteirão onde eu morava. Com certeza. Era a época do medo, é o tempo do medo, tempo da criança começar a abrir os olhos, começar a receber informações, outras informações. E você fica esperando, estranhando o ruído, não entendendo, uma coisa está acontecendo, um ruído, um papel que faz barulho, um pano balançando no varal. Tudo é fantasma.
Entendi.
E naquelas histórias que a minha avó contava, às vezes eu estava começando a desenhar também, eu desenhava as histórias que ela contava, pintava, desenhava num papel, uma folha de papel, grudava os papéis, como se fosse uma história em quadrinhos, colava, fazia um rolo. Eu peguei um caixote, fiz uma tela, abri com serrinha tico-tico, fiz a tela, passava o rolo passando pela tela e botava uma vela atrás e chamava meus amiguinhos para assistir esse cinema. E eu contava as histórias, imitava minha avó contando as histórias. E geralmente punha também as minhas histórias de fantasminha lá, ameaçava dar susto nos meus amiguinhos, né? Treinei desenho com isso, treinei oratória e Fiquei meio encantado, mas ao mesmo tempo meio— não gostava muito de mexer nisso, com as histórias de fantasma que a minha avó contava, e eu também. Então, quando comecei a fazer história em quadrinhos, eu precisava fazer um— fiz uma pizza, uma roda, e pus na—
nos Nas fatias?
Hã?
Nas fatias?
É, põe nas fatias o nome de personagens que havia nas histórias em quadrinhos, comuns, normais, ali. Então tinha um cowboy, tinha um fantasma, tinha um troglodita, tinha um dinossauro, tinha um cachorrinho e tudo mais. Eu precisava preencher aquilo com personagens meus para fazer concorrência com o material estrangeiro. Aí naquele tempo tinha Gasparzinho, então tem que criar um personagem fantasma também, meio na base do que a minha avó fala e tudo mais, mas daí eu vou criar o fantasma. Então o Penadinho meu veio dessa necessidade de mercado, necessidade de ter também um fantasma para enfrentar a concorrência do material estrangeiro.
Pronto, então nunca contei essa história. Olha só, viu, Olavo? Então obrigada pela pergunta, Maurício. Eu sei que tem muita gente aqui acompanhando, eu tô vendo pelos comentários, e tem ainda um ponto que vai ser assim transformador, porque para mim foi transformador. Eu gosto de compartilhar aquilo que sempre me ajuda. Você já era desenhista, aí você foi para o jornal para se oferecer como desenhista, não aconteceu naquele momento, mas você aceitou uma outra oportunidade para ficar ali por perto e depois você se tornou um desenhista. E hoje muitas pessoas quando recebem um não Desistem muito fácil. Então, até que ponto saber se é um dom, se é uma insistência, ou saber respeitar o tempo de cada situação? Porque se você não tivesse aceitado aquele serviço de copyright, né, na época, e depois como repórter, a história poderia ter sido outra.
Totalmente.
Então, eu gostaria de uma palavra sua para aqueles pais, mães que estão aqui, para os jovens que de repente ouviram algum não e por alguma razão desistiram.
O meu não não foi um simples não. O diretor de arte da Folha falou: "Desista, menino, desenho não dá futuro para ninguém, não dá dinheiro, vai fazer outra coisa na vida".
Foi só exatamente aqui no livro.
Exatamente, foi uma pancada. Só que desde criança eu queria desenhar, eu queria fazer história com a linha desde criança. Aprender a ler no gibi, eu queria fazer aquilo. Então tava tão forte, tava tão motivo, foco tava tão delineado e tão pétreo que Não era uma simples frase, duas ou três frases negativas que iam me desviar do que eu queria. Eu queria, eu queria e achava que ia fazer. Eu nunca desisti. Não era feitio. Eu sou meio turrão, teimoso e vou em frente. Por que não? Se a gente acredita no que a gente faz ou vai fazer, Por exemplo, quando eu já tinha conseguido atravessar as barreiras e já fazia historinha em tiras para jornal e desenhava rapidamente, dominei rapidamente a técnica e tava fazendo, sabia que conseguia fazer 3, 4 tiras por dia sozinho. Quando chegava nos jornais para vender o peixe, jornais de interior, eu estava visitando primeiro, geralmente o diretor perguntava: mas você aguenta manter o ritmo, o fornecimento do material, a qualidade do material vai se manter? Mas é lógico. Mas como? Como você vai aguentar? Muitos tentaram e não conseguiram. Não, mas agora eu tenho uma equipe que me ajuda. Eu mentia, eu não tinha equipe nenhuma, mas eu confiava em mim. Eu sabia que eu podia fazer, que eu conseguiria fazer meia dúzia de tiras. Podia ficar sem dormir e tudo mais, mas conseguiria, eu sabia. Então eu não estava mentindo, eu estava me antecipando.
Perfeito, estava se protegendo de alguma maneira, abrindo caminho. Claro. Maurício, e de onde vinha e de onde ainda vem suas inspirações?
No que eu vejo, no que eu sinto, no que eu ouço, no que eu adivinho, no que eu lembro de outros tempos. Houve um tempo bem no comecinho da minha carreira que eu fazia tirinhas e chegou uma noite em que eu não consegui fazer a tira, não vinha a ideia, não vinha ideia. Daí eu falei: "Meu Deus do céu, eu acho que eu gastei tudo que eu podia fazer, criar, nas primeiras 18 tiras que eu fiz aqui." Acabou o repertório. Eu falei: "Meu Deus, e agora? Eu queria tanto fazer isso na vida, não tá vindo nada." E daí eu resolvi dar uma volta. Eu trabalhava geralmente na Folha de São Paulo, na redação, trabalhava até tarde lá. Descei, peguei a Avenida São João, andei para lá e para cá, entrei no cinema, assisti um filme, passei na Praça da República, andei, andei, voltei para a Folha e sentei e saiu tudo de novo, voltou toda a inspiração, com aquela oxigenação, na saída me desviou do momento de desânimo, poucos que houve na minha vida, me salvou. E daí, depois daquilo, milhares e milhares de tiras que eu criei, desenhei sozinho, tudo mais. Depois a equipe veio, me ajudou a aumentar a nossa produção.
Com certeza. Eu vejo nessa sua fala, Maurício, mais uma, mais um grande conselho, porque existe tempo para tudo. E se a gente fica muito estressado, né, querendo que venha uma ideia, eu sempre sugiro: vamos lavar uma louça, vamos dar uma volta, né, vamos limpar o chão, vamos fazer alguma coisa, porque não adianta forçar o tempo da criação.
O tempo da criação é meio mágico, realmente, às vezes dá uma encostada na gente e exige uma variação, como você sugeriu.
Pronto. Então precisamos dar o tempo para a criação. Maurício, eu já tô aqui partindo já para um caminho, porque eu soube que hoje você já deu um monte de entrevista por conta do livro, e eu tenho aqui mais algumas, algumas ideias para colocar, sempre pensando em quem está aqui nos acompanhando, para que realmente aproveite, né, esse tempo do Maurício. Tem algum xodó, tem algum personagem que foi ganhando assim mais espaço no tempo? Ou depois de um tempo todos foram tendo o seu mesmo espaço?
Tem personagem que vem de outro tempo, é o Horácio, dinossauro pré-histórico, vem da pré-história. Tá por aí? O Horácio é um personagem que só eu escrevo e desenho, porque ele é muito filosófico, vê o mundo de outra maneira, não maneira diferente de mim, como eu vejo também. O pessoal chama Horácio de meu alter ego. Eu acho que é verdade, eu realmente falo muito pelo Horácio, tanto que Quando saía na Folhinha de São Paulo a história do Horácio, semanal, os meus amigos sabiam como é que estava a minha cabeça, minha disposição e tudo mais, lendo Horácio.
Que interessante.
Realmente, o Horácio me desnuda quando eu leio a história dele.
Pronto, então é o xodó do Maurício, o Horácio. E o Bidu é um cachorro tão fofinho Que quando eu tive a oportunidade, no momento da entrevista que eu fiz contigo, eu vi um dos filhos do Bidu, um pouquinho mais para dentro. É, é, dá para ver, tá aqui azulzinho. O Bidu teve muitos Bidus, não é?
É, estou com o terceiro.
E o Bidu que eu vi é bem pretinho, viu, gente, não é azul.
É, o Bilu é muito gozado também, cachorro. Cheio de manias também. Adoro cachorro.
Maurício, tem um latindo por aí. Tem aqui no meu prédio, tem um monte de criança brincando e um monte de cachorro latindo, o que é muito bom, que me lembra que Nós estamos vivos, né? Esses barulhos todos naturais, não de carro, viu, gente? Me ajuda a lembrar que eu tô viva e que eu tô aqui, é, no momento muito especial. Maurício, você me disse que daqui uns dias você vai fazer 85 anos. Então, olha, quem está aqui no Instagram, no Facebook, aplausos para o Maurício. Diferentemente de outras pessoas, Maurício, que ultrapassam 70 anos e já pensam em se aposentar, você não pensa em parar. Eu?
Mas eu quero continuar enquanto puder, logicamente, continuar fazendo o que eu faço hoje, olhando o material, acompanhando produção, criando junto com o pessoal também. E logicamente, na atual conjuntura, conversando com muita gente pelo, graças à tecnologia, né, pelo processo que agora que nos aproxima, como agora tá aproximando, né. Hoje mesmo eu falei com o pessoal da Alemanha sobre, com o pessoal que tá interessado em comprar gibis da Turma da Mônica em português para distribuição do monte de brasileiros que tem lá e querendo os livros. Fora isso, tive outra live com alunos de escolas. Eu tô fazendo lives, então estou fazendo, eu preparo uma hora para conversar com a professora, com os alunos, responder perguntas e tudo mais, grátis, não cobro nada nas escolas públicas. Nas escolas públicas eu não cobro nada. Eu quero chegar na criançada, e a criançada faz cada pergunta. Você nem acredita como dá para fazer historinha depois de uma discussão, com uma conversa de uma uma roda de conversa com a criançada dos seus 7, 8, 9 anos. É lindo, você se recicla com isso.
Com certeza, gente, é impressionante. Eu nunca vi um homem com 84 anos com uma pele viçosa dessa. Maurício, partindo então por uma conclusão, nas suas histórias, o que vinha antes? Um valor? "Ah, hoje eu vou falar sobre respeito aos mais velhos, hoje eu vou falar sobre..." Sabe? O que vinha primeiro? Uma situação ou um valor? Vinha o tema.
O tema. Vinha o tema. Tem que vir. Aliás, o mais importante na história em quadrinhos Não é o desenho, não é o desenho mais importante, é o roteiro, é o conteúdo. Tanto que por isso que eu falei para ela agora pouco que a minha filha Marina está como diretora de conteúdo. É o coração de tudo, porque senão não tem peso, não tem substância, não tem conteúdo. Não tem mensagem, alma, principalmente alma. Então temos isso, falo para minha equipe quase sempre que eu tenho oportunidade, falo para eles: que bom que vocês desenham, mas melhor ainda se vocês escrevessem com os cuidados que nós tivemos até hoje no estúdio. Então temos boas reuniões aí para falar sobre isso.
Perfeito. A Mila tá dizendo que você aceitou um convite para ver uma peça de teatro na escola do filho dela, uma escola bem simples. Então tá aqui um depoimento da Mila, que está pelo YouTube e agradecendo pelo seu carinho.
Maurício, não existe escola bem simples.
Provavelmente, Mila, se você puder então trazer aqui essa informação. Ah, foi em 2002. Provavelmente ela está falando de uma escola, provavelmente que não seja privada, enfim, vamos aguardar aqui. Ela tá agradecendo demais aqui a sua atenção. Maurício, então, olha, depois de tudo que você falou, né, aqui boa parte, tá, gente, dá um tempo, como encontrar limite em um sem limites, a última pergunta eu quero falar de futuro. Além da Alemanha, né, o que mais Maurício de Souza está inventando para os próximos anos?
Estou, com todo respeito, estou invadindo o Japão. Já tem a Maurício de Souza Produções Japan. Olha, já tem produtos nossos lá também, e agora também preparando para entrar na parte editorial. Entendendo, no Japão. E na semana que vem, acho que semana que vem, nós estaremos entrando na TV Fuji do Japão com os pequenos desenhos animados nossos, que chamamos de Monica Toy.
Uau!
Que é o nosso produto que tá circulando pelo mundo todo aos bilhões, números fabulosos. E os países onde ela tá entrando são os mais esquisitos que eu não imaginaria. Houve tempos em que a campeã mundial de views da Monica Toy era Rússia. Olha, e de vez em quando empatava com Estados Unidos, e às vezes o Japão também andava lá com nomes, números maravilhosos também. Então estamos entrando uma TV pela primeira vez, na TV com filmes nossos no Japão também. Mas estamos indo para merchandising, para produtos também. Mas isso é o começo. A Ásia é enorme, é linda, é bacana. Tem aquela mercado lá que tá assim me esperando.
Muita criança, muita criança e muito adulto te querendo, Maurício, com todo respeito, tá, gente? Eu faço muita piadinha. Falamos sobre tempo aqui de diversas maneiras. E aí, para finalizar, é possível a gente ensinar ou orientar as crianças sobre o aproveitar do tempo ou não? É possível.
Se você encontrar as palavras adequadas, tudo é possível você passar para a cabecinha de uma criança. Você precisa só usar o seu tempo para achar o caminho.
Palavras adequadas, adorei. Maurício, muito obrigada! Aplausos digitais aqui, olha, todo mundo.
Obrigado, Isabela, obrigado pela oportunidade.
É sempre um privilégio estar contigo. Conte comigo e que o tempo sempre esteja a seu favor, mestre.
O tempo é como um vento que sempre está nos empurrando para frente.
Vamos lá, é só ficar leve, é só você acreditar nele. Obrigada, meu querido, boa noite, até breve, se Deus quiser.
Tchau, tchau! Também que mandou o recado aí.
Ah, sim, tem vários aqui, já, o Mira, enfim. Muito obrigada por todos vocês que nos acompanharam. Boa noite a todos e que vocês tenham tempo para colocar vida no tempo de vocês.
Tchau, tchau, Maurício! Até a volta, até outro momento.
Até a próxima, tchau tchau!
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