Obstinado para não fracassar. Bruno Corano - EP 57 - Ïnterioriza

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Chapters
Oi, muito bem-vindo, bem-vinda ao Interioriza. Que bom saber que você tá afim de interiorizar, assimilar ideias que já passaram do tempo da gente compreender. Assim, a gente pode tomar melhores decisões, não é? Meu convidado de hoje é o Bruno Corano. Bruno, seja bem-vindo. Que bom.
Eu que agradeço o convite.
Que bom saber que nossas agendas se cruzaram, porque o Bruno não mora no Brasil. O Bruno mora nos Estados Unidos, mas Bruno é brasileiro. E para quem não te conhece, quem é Bruno Corano?
Um esforçado economista, investidor, ex-atleta profissional. Eu acho que eu resumiria dessa forma.
Esforçado. Gostei quando você começou. Você sabe que quando os entrevistados chegam aqui e muitas vezes eu começo por essa pergunta, muitas pessoas não sabem a resposta.
É porque, no fundo, eu tenho uma ideia, né? Que eu defendo muito, isso daria um papo de duas horas. Mas eu acho que muitas pessoas, e eu me enquadro nelas, você corre pra não ser um perdedor, você tem medo do fracasso, não é que você quer vencer. E tem toda uma explicação psicológica pra isso, né? Tese e tudo mais. Não sou eu que inventei essas teses, mas quando eu estudei e aprendi isso, eu falei, nossa, eu me enquadro nisso aí, esse aí sou eu.
Mas vamos falar disso, rapaz.
Bora.
Pera lá, as pessoas correm de si?
Não, não. Elas correm... Vamos traçar aqui um perfil. Eu gosto muito, eu sou empresário. Eu contrato pessoas diariamente. Se você contrata uma pessoa que não tem necessidade, primeiro momento de tensão, a pessoa espana. Fala, ah, dane-se, vou embora. Agora, a pessoa que tem necessidade, vai lá e tem tolerância, engole um monte de sapo e segue o barco. Por quê? Porque ela tem um medo, ela precisa se manter, ela não pode ficar dura, tem que pagar o aluguel, etc, etc, etc. Em algum grau, essa analogia se aplica para uma série de outras coisas. Então, no esporte, ou no sentimento de autoafirmação, ou porque você quer um sentimento de aprovação dos seus pais. Mas se a gente analisar, Psicologicamente, se a gente pegar aqui 100 das pessoas que estão assistindo e a gente for analisar elas, e eu não sou psicólogo, embora eu tenha estudado psicologia através da economia, a gente vai ver que muitas vezes, a gente vai traçar perfis. Não é bem isso, mas é quase que um terço. Um terço dessas pessoas, elas correm do medo. É instinto de sobrevivência. É um papo complexo.
Não, eu captei, total. É essa linha que a gente segue bastante, que não interioriza, sabe, Bruno? Quando você fala, a pessoa, ela tem uma necessidade, ela é mais comprometida. É isso que você quer dizer, né? Sobre necessidade. É responsabilidade, né? Quando nós temos uma responsabilidade familiar...
Ela é mais resiliente, ela é mais tolerante. Ela não tem escolha, não tem plano B. Ela tem que aguentar qualquer coisa. Lá na pré-história, eu preciso comer. Não interessa se está frio, se está calor, se tem leão. Eu preciso enfrentar tudo isso. Não dá para falar, ah, não estou a fim.
Boa. E você sabe que nós temos vivido aqui no Brasil e acredito que você lá nos Estados Unidos também, um conflito de ideias, que a turma diz conflito de gerações. Não é conflito de gerações, gente. É encontro de gerações. Mas tem uma turma, especialmente a que nasceu depois dos anos 2000, que não está encarando a vida assim. Você sabe do que eu estou falando?
Sei, mas o que eu sinto é que eu, de uma certa forma eu ainda não tô afiado nas gerações mais recentes. Eu sinto assim, tenho uma grande expertise em gerações passadas. E na minha, talvez uma muito próxima. Mas tem mudado tanto, que eu preciso… Estudar melhor. Me permitir pra entender melhor. Mas eu ainda acho, na minha falta de humildade que essas essências, elas não devem se alterar. Não é porque hoje um jovem… Acontece isso muito comigo. Hoje, na minha infância, o meu sonho era ter um carro. Hoje, um jovem não quer ter um carro. Na minha infância, quando eu falo infância, início de carreira profissional. Tipo, eu quero vencer, topo tudo. Hoje, eu pego um monte de caras que estão se formando na GV, etc. O cara trabalha um, dois meses pra mim e fala assim, não, as coisas não estão acontecendo. Eu quero ser feliz, então eu vou embora. E eu me surpreendo com esse tipo de resposta, não tô dizendo aqui que é certo e errado. Eu só tô dizendo o seguinte, na minha geração não era um modelo de comportamento que eu tava acostumado a presenciar.
Os tempos mudam. Os desejos mudam, os sonhos mudam. O que nós estamos falando aqui é de essência humana, na sua essência. Como foi a sua jornada para você estar aqui sentadinho nesse sofá? Porque a hora que eu coloco no Google Bruno Curano, você aparece de... Macacão de couro e capacete, né? Senhoras e senhores, nós estamos aqui com um dos maiores corredores de motocicleta do Brasil, sabia?
Isso. Acho que é isso, né? Eu tô aposentado.
Mas você é um dos maiores, né? Quantos anos correndo?
Eu corri 17 anos profissionalmente, mas eu ando de moto desde muito pequeno. Meu brinquedo preferido era o velotrol, depois bicicleta, depois roubava um bilhete da irmã, depois aprendi a andar numa moto de um vigia de uma indústria que meu avô tinha, o cara me ensinou a cambiar, e assim foi. Então, andar de moto eu nasci em cima, mas correr profissionalmente eu comecei tarde. Não comecei cedo, não foi uma coisa planejada, não foi assim, vou correr profissionalmente. Aconteceu.
Sim. E aí você, quando começou a correr profissionalmente, você começou a ganhar, a ter êxito?
Não, de cara eu fui péssimo. O que me motivou é que a minha primeira corrida eu cheguei em último. E eu falei, não é possível, eu não sou tão merda assim. Aí é o quê? Correr do fracasso. Eu não sou tão ruim assim. Esse é um jeito educado, né? Eu não sou esse merda, não é possível. Então era esse sentimento.
Você naquele momento não curtiu ter ficado em último?
Nem um pouco.
Aí o que você fez para alcançar lugares melhores? Quais habilidades você teve que desenvolver?
Aí entram as competências que eu já trazia por ter jogado tênis profissionalmente, por já ser um empreendedor, que basicamente é uma agenda pra qualquer atividade que a gente pense. Se eu quero ser jornalista, eu preciso desenvolver essas competências. Se eu quero ser um pianista, são essas competências. Então, era muito fácil enxergar isso. Eu fui atrás e me dediquei. Disciplina, organização. E você tem que ser um obstinado, né? Você tem que... Eu praticamente parei minha vida. 17 anos, negligenciei uma série de outros aspectos. Porque eu falei, eu vou virar um bom piloto de moto. Quão bom, até onde eu vou chegar, não sei. Eu já comecei relativamente velho, eu sou grande, sou alto. Eu pesava 16 quilos a menos, mas ainda assim a minha estatura não mudou. E aí eu mergulhei de cabeça e fui embora. Então foi assim, muito treino, muita dedicação, muita resiliência, muita tolerância às lesões, porque é um esporte que machuca. Geralmente isso é um aspecto que faz... Porque isso entra no que não é natural, né? É antinatural você se expor ao risco de vida. E aí foi indo.
Olha que curioso. Você fala, eu parei a minha vida para correr. Parei a minha vida para correr. E neste correr, qual foi o maior pódio que você chegou?
Eu ganhei corridas, eu ganhei inúmeras, centenas de polis e vários títulos. Corri vários anos fora do país, assim, dando um resumo muito grande, mas é que pode soar de uma forma prepotente e não é essa a ideia. Eu fui a referência nacional por muitos anos e, na história do motociclismo, certamente eu estou entre os três pilotos que tiveram maior expressão internacional.
Viu, senhoras e senhores, quem está aqui no nosso sofá hoje, Bruno Corona. Eu acho ótimo quando você tem clareza do lugar em que você chegou. Isso não é prepotência, isso é resultado.
O americano recebe isso bem. Você tem que falar, eu sou, eu fiz. Mas em geral o brasileiro se incomoda quando ele escuta. A não ser que seja alguém que já tem notoriedade, é famoso. Então chegou aqui a Xuxa, ela pode falar, eu sou a rainha dos baixinhos. Agora chega uma outra pessoa que não tem notoriedade e fala, eu sou, as pessoas em geral Entendem que isso não é uma postura legal. O brasileiro, em razão do cristianismo e tudo mais, você tem que ser humilde. Se eu chegar aqui falando...
Humildade...
Eu sou um merdinha da moda... Pera lá.
Então, já sei. Então, a gente recomeça aqui, em que eu vou apresentar pra vocês Bruno Corana, um dos três principais motociclistas do Brasil. Entendeu? É disso que eu tô falando. O reconhecimento, ele é muito importante pra gente validar os nossos êxitos e inspirar outras pessoas. Humildade não tem nada a ver com falta de resultado. Humildade tem a ver você dizer, cheguei lá, o que eu fiz pra chegar lá foi isso aqui, e se você tem esse desejo, você pode fazer assim. Entende? Humildade não é, ah, eu sou um coitadinho. Não!
Não, concordo 100%.
Pronto.
Mas isso não elimina a dificuldade de ser mal interpretado.
Ok. Aqui você não vai ser mal interpretado, sabe por quê? Porque quem assiste interioriza sabe que a gente trata de assuntos que precisam ser assimilados. É justamente isso.
Eu acho que a ideia aqui é desenvolvimento pessoal, né?
Sim.
Em diferentes áreas e competências. Exato. Então, eu acho que o que eu puder contribuir e passar minhas ideias e experiências, não sou o dono da verdade, mas eu sinto que as pessoas que dão certo, elas mais acertam do que erram. Então, o que eu sinto é, acho que eu tô chutando pro gol e tá entrando mais dentro da rede do que fora.
Perfeito. Você viveu uma experiência de muita dor. Eu queria que você falasse um pouquinho sobre isso e o que essa experiência mudou na sua vida?
Eu tive algumas experiências marcantes, né? Isso é um outro negócio que eu adoro debater, que a vida é feita de momentos decisivos, que você vai chaveando e aí é aquilo que define onde você vai parar. Então assim, eu sou uma combinação que tinha tudo pra dar certo e tudo pra dar errado. Família bagunçada, pais que se separaram, mãe que não tinha condições de criar os filhos, parar na casa dos avós. Aquela bagunça generalizada. Eu era mimado, ou seja, potencial de virar um filho de pai rico, inútil, vagabundo. Ou de surtar e virar um drogado. Então, eu sempre fui assim, no extremo. Ou é 10 ou é 0, 8 ou 80.
Você tava nesse contexto?
Eu claramente me encontrava nesse contexto. E aí, eu tive várias rupturas, várias coisas que me marcaram. Mas resumindo aqui muito rápido, a primeira é que com 15 anos, meu avô cortou minha grana e falou, acabou, vai se virar, moleque. Você tá um vagabundo, tá terrível. Então, aquilo foi um momento bem pesado, que eu diria que foi o mais importante. Anos depois, jogando tênis e estudando, eu comecei a ter dor no braço e descobri que eu tava com um tumor ósseo e tive que operar e me tratar.
Qual braço?
No braço direito. É que eu tô de camisa, senão.
Daria pra... Era o braço que você mais jogava. Aí você sentiu uma dor... Começa como.
Uma... parece que é uma lesão muscular. Ah, acho que tá incomodando. Hoje tá dolorido, amanhã vai tá bom. e aí vai seguindo, seguindo, seguindo, e aí chegou num ponto que pra eu levantar um copo já doía, porque o tumor crescendo, ele começou a comprimir o nervo e aí começa a causar um incômodo enorme. Enfim, mas tudo bem, biópsia, tem que operar, tem que tratar e tal, então ali foi uma outra ruptura, porque nessa fase eu só trabalhava, eu era obstinado, Eu corria do que? Eu só não quero ser um fudido. Era só isso que eu pensava.
Quantos anos você tinha?
Eu tava com 24.
Você trabalhava muito?
Trabalhava muito. Não tinha amigos, vivia pro trabalho. E eu só pensava isso. Eu só não quero ser um fudido. Porque o meu avô tinha... Eu diria que, positivamente, provocado esse trauma. Menino rico que ficou pobre. Que a galera na escola não queria mais falar comigo, porque eu virei um merda. Então, eu corria do quê? A gente volta ao início. Fracasso. Eu só queria isso. Eu não quero ser um merda. E aí, tudo bem. Fiquei doente e tal. E aquilo mudou. Puxa, mas... Eu já não sou um merda. Faz tempo. Eu tenho independência. Com 19 anos, fui morar com uma mulher de 31. Eu já estava... Fazia tempo que eu já tinha independência e estava longe de ser um merda. E aí, passado aquilo, eu falei, bom, então não é só isso. Eu quero continuar correndo do fracasso, mas não é só grana, não é só negócio, não é só empreendimento. Eu vou correr de moto, que é a coisa que eu mais gostava desde pequenininho, quando eu roubava uma bilhete da irmã. Vou como lazer. Eu continuava, vou seguir me empreendendo, fazendo meus negócios, mas vou dar uma voltinha de moto.
Sim, vou pegar no fim de semana a moto.
E aí, o que aconteceu? Fui pro autódromo e, de novo, nossa, eu sou muito ruim nisso, não é possível, quero melhorar. Aí vem o lado competitivo, o lado de se desafiar, o lado de, dentre esses mil ingredientes, uma das características, tem muitas e não é uma regra, não tem uma cartilha pronta. Mas a pessoa, o competidor, o vencedor, ele gosta de se superar, né? Ele quer vencer ele mesmo.
Exato.
Então, foi assim que eu comecei na moto, mas sem pretensão. Não falava assim, vou correr de moto profissionalmente. Sim. Começou tudo muito sem querer.
Legal. Quando o seu avô cortou a entrada financeira, você poderia ter visto aquilo como uma coisa ruim, provavelmente, na hora você ficou bem chateado.
Foi muito ruim. Coisa de moleque, né? Fiquei odiando ele, né?
Ah, odiou por quanto tempo?
Ah, uns três dias.
Três dias, que bom! Três dias é bom, né gente? Você vai aos três anos, opa!
É porque no fundo também digerir as coisas rápido é importante, né?
Pronto.
E Cerny, e outra coisa, ele também foi muito habilidoso. É claro que não dava pra ele dar duas mensagens. Tô cortando a grana e ainda tentar ali explicar todas as razões. Então, primeiro, eu tô cortando a grana, você que se dane. Você fica puto. Aí vai, passa dois, três dias, ele senta com você e fala, eu vou te explicar o porquê. E aí você fala, piora que eu acho que esse cara tem razão. Que foda.
E aí, ao invés de despertar a revolta, você foi estudar. Você foi buscar as habilidades.
Eu fui trabalhar... No fundo, a primeira coisa que eu fiz, que isso é uma história muito longa, mas eu, como eu passei a ser zoado, apavorado pelos meus colegas de sala...
Sofreu bullying? Por quê?
Porque eu era o cara que todo final de aula queria levar todo mundo pra almoçar, ia todo dia pra balada, bagunçava e depois eu não tinha mais grana pra nada. Então eles me chamavam, vamos fazer tal coisa? Não tenho como ir, não tenho dinheiro nem pra um McDonald's, pra nada. Sem dinheiro você não faz nada. Então eu passei a ser excluído dos programas e tudo mais.
E aí?
Então aí a minha primeira motivação foi, vou trabalhar.
Perfeito. É isso que eu quero trazer aqui. É como você lida com uma situação que te incomoda. Ou você sai brigando e reclamando com o mundo. O mundo tá contra mim. Ou não, cara. O que eu posso aprender com isso?
O que eu posso fazer? Atitude.
Essa experiência que você tá me contando, ela é fantástica. Eu gosto muito de explicar para a turma que me segue, na vida só tem duas cadeiras, vítima ou aprendiz. E mesmo se você é colocado numa cadeira de vítima, eu não estou falando o contexto qual for. Se você tiver 10% de chance de levantar dessa cadeira aí para de aprendiz, vá. Porque aí você olha para a situação e fala, o que eu vou aprender com isso aqui?
Concordo 100%.
Tá. Aí, Bruno Curano, você me disse que estava sentindo uma dor, É, isso foi anos depois, né? Isso, aí teve o diagnóstico.
Isso que a gente tá falando, eu tinha 15 anos quando deu todo esse biólogo.
Aí 20 e poucos anos...
Praticamente 10 anos depois, com 24, é que... Nesse momento, eu fui trabalhar na cantina do colégio que eu estudava, entregando salgadinho e tal. E 10 anos depois, vamos dizer... Porque soa um pouco quase irreal, mas eu já tava super realizado, bem sucedido, estabilizado. E aí, eu tive esse... tive esse tumor ósseo.
E aí?
E aí, de novo, hoje eu acho que eu sentiria mais o impacto. Pra mim foi assim, pega nada, ou eu vou morrer, ou vai curar e bola pra frente. Eu sempre fui muito desprendido nesse sentido. Acho que até uma pessoa pra correr de moto, se ela tem um senso de autopreservação muito grande, eu acho que ela nem conseguiria. Ela tem que ter alguns traços psicológicos, que é aquele tipo, foda-se. Foda-se no sentido, em relação a mim, não aos outros. Então, eu lembro que foi muito tranquilo. Foi chato só porque você fica incapacitado, limitado. Você fica lá todo estragado por um tempo.
Isso durou quanto tempo?
Aí entre eu começar a sentir dor, diagnosticar, operar e me recuperar, quase um ano. Mas a fase trash ali mesmo, seis meses.
Seis meses. Qual é o seu maior medo nesses seis meses?
De verdade. Que eu queria voltar a jogar tênis.
Você queria voltar a jogar, você queria fazer o que você fazia.
O pensamento é muito pequeno, assim. Nossa, eu não quero ficar aqui, eu quero ir lá pra quadra, quero jogar tênis, quero seguir com a minha agenda, seguir vivendo.
Tá.
Era só isso. Não que eu já não fosse um cara muito reflexivo e profundo, mas é que, na essência, era isso.
Aí depois você começou a ter êxitos nas corridas de moto. E por que você parou?
Aí foi uma vida, né, 17 anos correndo, onde você começa de baixo e vai se dedicando, melhora. Você nunca sabe se aquilo é o auge ou não é. Isso é uma coisa...
Relativa demais.
Mas enfim, chega uma hora que você tá ganhando, você tornou o campeão brasileiro, você tem relevância, mas você não sabe bem até onde você vai chegar. E aí, naturalmente, aquilo vai te cansando. Você se cansa de machucar, você se cansa de se expor ao risco, você se cansa de ser questionado, de ser pressionado. Várias coisas...
Pressionado por resultado?
De você mesmo e dos outros. Então, assim, eu comecei a ficar... Tem uma coisa muito profunda, que eu acho que, pelo que eu vi, você gosta de onde é a chave mesmo do negócio. Se eu chegar pra alguém que não tem... uma pessoa no início da vida dela falou, ó, se você ralar e fizer isso durante dois anos, você vai ganhar um milhão de reais. Ela falou, é pra já.
Vou fazer.
É nóis, vambora. Agora você pega alguém que já tem 10 milhões de reais, fala, você vai ter que fazer tudo isso, você tem que ficar 10 noites acordado, não sei o quê, não sei o quê, durante todo esse tempo que você vai ganhar um milhão. Legal, mas eu já tenho 10, não vou me sujeitar a isso. Então, chega uma hora que até por um momento de vida, as coisas vão mudando. Então, chegou uma hora que Por eu também ter uma vida muito solitária, porque essa vida de correr aqui na Itália, não sei o que, é bonita pra quem olhar de fora, mas o esporte profissionalmente destrói a vida das pessoas.
É muita solidão.
Então, sozinho... ganhar mais, mesmo campeonato, o que vai mudar na minha vida?
Que interessante.
Ganhar mais X reais, vou fazer o que com ele?
Tá.
Pra mostrar pra quem?
Isso.
Pra quê? Então, chega uma hora que você fala, legal, mas eu quero outras coisas, deu? E aí, você vai lá, e ainda assim, você se força, aquilo te incomoda, aí você não tá tão motivado, aí você faz um terceiro lugar, que é uma... E as pessoas chegam e falam, nossa, você fez só terceiro? Você fala, puta, mas... E fazer terceiro não é qualquer coisa. E aí você vai ficando velho e você vai encontrando outras coisas e chega uma hora que você fala, deu. Aí você se machuca mais uma ou duas vezes. Você fala, quebrei meu pé de novo pela terceira vez em dez anos.
Ou seja, você não tomou a decisão que você sabe que precisa tomar, o corpo vai te parando de pouquinho em pouquinho até você falar, bom, agora deu.
E ainda assim, se perguntar, você tem vontade de correr? Tenho. Tem vontade de subir na moto? Tenho. Pra acelerar. Mas eu acabo pensando o seguinte, eu tenho que ter um fim. E se eu voltar, tem que ser numa outra atmosfera, numa outra dinâmica, que é absolutamente lazer. Eu não sei se eu conseguiria. Eu não tenho essa resposta. Talvez, daqui uns anos eu volte aqui e fale, nossa, eu voltei a correr e consegui numa outra dinâmica. Hoje eu não tenho essa resposta. Hoje, se eu voltar, eu vou querer perder 16 quilos de novo, todo ossudo, leve, e vou querer ir pra morte, assim, que é uma frase pesada que... dá um debate também enorme, mas que assim, você se expor a tamanho risco, que você não tem limites. E o competidor, em vários esportes, ele não tem limite, ele vai até, senão você não supera certos limiares.
Então, doutor Bruno Corona, Hoje, você não corre mais profissionalmente e você trocou o Brasil pelos Estados Unidos.
Exato.
Nós, inclusive, gravamos um podcast juntos lá na Times Square, né? E foi uma experiência muito interessante, porque quando você vê um lugar, muitas vezes pelos filmes, você parece que quando você chega no lugar, você fala, nossa, voltei, né? E você nunca esteve lá, na verdade. Mas, no meu caso, eu já tinha vivido uma experiência lá, mas foi muito bom voltar. ali na Times Square, sendo entrevistada por você para levar um tema que você sentiu necessidade de falar para os brasileiros que estão lá nos Estados Unidos. O que que você sente na sua vida hoje que mais te realiza? É quando você tá fechando um negócio, é quando você tá entrevistando alguém lá na Times Square. O que que hoje, então, mais te realiza? Assim como no passado, você já se realizou bastante atingindo os pódios.
Acho que tem duas respostas. Cuidar de mim e fazer coisas muito simples.
Por exemplo?
Comer o pastel na feira, sair com o cachorro. Coisas comuns que eu, em razão de ter começado a trabalhar muito cedo, etc. Essa vida louca, eu fiz pouco. Mas isso, vamos dizer, isso vai acontecer de qualquer jeito. E isso não iria me alimentar por completo. E a outra, contribuir pra vida das pessoas. Porque isso é uma coisa que eu tenho certeza. Eu só consegui as coisas que eu consegui porque eu fui auxiliado. Porque muita gente me ajudou. Porque, claro, eu fui aberto, fui atento, eu era uma esponja. Eu ouvia, eu processava, eu realizava. Mas ainda assim, eu tive muita contribuição. Então, eu acho que hoje, sejam amigos, conhecidos, funcionários. Se eu percebo que eu pude contribuir concretamente, pra que aquelas pessoas tenham progredido. E muitas vezes, elas nem gostam. Elas não gostam do que elas ouvem. E elas não gostam da dinâmica que eu vou impor. Mas hoje, eu tenho... Mas sim, são inúmeros pessoas que trabalharam pra mim. Dois anos, cinco anos, dez anos. E que eu reencontro. E eles falam, cara, foi foda, você me ajudou. Eu sou grato, você foi importante. Puta, que levou pra casa, assim, falando, eu sou cara. Aí acabou aquela humildade lá que no início eu falei de campeão da moto e tal. Aí você fala, foi mais um, só foi mais um, tem um monte de cara bom, mas quando eu ouço isso eu falo, nossa, legal. Eu tenho uma explicação psicológica, nada te dá mais satisfação no fundo quando você se doa e contribui pra alguém. Então isso é muito legal. Então, é daí que vem uma história super longa de porque montar um videocast, trazer pessoas interessantes, que é semelhante com o seu trabalho, né? Talvez uma vertente mais business, mais direcionada a esse propósito, porque bem ou mal todo mundo, ou quase todo mundo, precisa trabalhar, né?
Exato.
Então, é nessa pegada, eu acho que, se você até me corrigir, a sua pegada é Se cuide também, não esqueça de você.
Até porque quando a gente está falando de resultados, como você já mesmo disse, depois que eu atingi um certo patamar, não é aquilo mais que me traz satisfação. Nós estamos falando de satisfação pessoal. O que você está fazendo? Está te deixando feliz de fato ou você está se enganando? Ou você está se anestesiando por uma decisão que você já tomou lá atrás? Mudou. E se você não se atualizar, você vai viver uma ilusão, perder tempo, perder saúde e tudo mais. Então, Bruno Corano, pra gente encerrar. Qual é a competência que você gostaria de compartilhar pra turma que tá nos acompanhando que mais pode contribuir no desenvolvimento profissional de alguém? Não importa as origens. Não importa a origem, porque uma origem com muito dinheiro não é sinônimo de progresso, nem de sucesso. Então, não importa a origem, qual é a competência que quem está nos acompanhando precisa desenvolver para se desenvolver profissionalmente.
Eu adoraria ter frases de efeito marcantes, igual vários caras aí, famosos influenciadores têm, mas eu não tenho. E eu acho que não é um item ou dois ou três competências, é um conjunto, né? Então, falando aqui de bate-pronto, não estava preparado para essa pergunta. Mas eu acho que, primeiro, a pessoa tem que querer. A pessoa tem que querer muito. Ela tem que ter foco, ela tem que ter disciplina, ela tem que ter organização, ela tem que pôr inteligência naquele processo. E a inteligência até no sentido de saber quando ela vai se exigir, ficar extenuada, e quando ela precisa se preservar e equilibrar umas coisas. Porque a vida não é uma maratona, né? A vida são sprints, né? Você fica correndo sem parar. Você vai dar um gás, e aí o fôlego vai faltar, e aí você vai dar uma respirada, e você corre de novo, e você vai lidando. Então, eu responderia isso quase como uma crítica, para provocar mesmo quem está assistindo. Em geral, as pessoas têm... Elas se preocupam um pouco em observar quais competências elas precisam. Em geral, as pessoas não têm as competências básicas. Elas não têm saúde emocional, elas não procuram conhecimento técnico, intelectual, prático e funcional. E aí, ou seja, não tem nem como começar o jogo ali, a brincadeira, né? Então, isso aí, a gente tem que fazer um videocast de horas só pra gente falar disso.
Vamos falar disso em breve, então. Mas eu quero aqui registrar publicamente que eu gostei demais do início da sua resposta. Você tem que querer.
Muito.
E ao querer, você tem que se perguntar, por que eu quero isso? Eu tô querendo agradar quem? Tô querendo fazer isso por quê? Que satisfação que eu quero gerar? Pra mim, pra minha família, pras pessoas.
Se você quiser muito, pelo menos uma parte aí da história, que é o combustível, a motivação, a atitude, pressupõe que isso você já resolva. Isso é boa parte da caminhada, né?
Ajuda bastante, tem que querer. Bruno, adorei. Adorei, adorei, adorei. Aqui não é a Times Square, né? Aqui não é o Wall Streetcast, né?
Exato.
Mas eu te recebi com muito carinho e a nossa audiência também aqui no interioriza, volte sempre, tá?
Eu que agradeço e acho que o que vale são as pessoas, né? Independente dos locais.
Exato.
É o conteúdo delas e a real intenção que elas têm.
Real intenção. E a nossa real intenção aqui foi compartilhar com você uma história verídica de superações, não importa a sua origem, tá? É sempre possível sair da cadeira de vítima, ir para a de aprendiz e crescer, se desenvolver para aumentarmos a saúde e o bem-estar de quem está conosco no ambiente em que vivemos. Se você tiver alguma sugestão, alguma dúvida sobre esse assunto, deixe aqui nos comentários que, na primeira oportunidade, a gente tenta responder para você. Eu desejo que você tenha ótimos dias pela frente e te agradeço pelo seu tempo e confiança por ter ficado aqui conosco. Até o próximo Interiorism.
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