Quais são os tipos e fases do luto?

Isabela and therapist Cíntia Bedim discuss types and phases of grief, including losses beyond death like pets, jobs, and identity changes. They cover cultural rituals, Freud and Jung's perspectives, and how therapy helps process guilt and somatization.
Chapters
Oi, boa noite! Bem-vindo, bem-vinda neste 1º de novembro de 2023, véspera de feriado de finados. Então eu, a terapeuta Cíntia Bedim, neste Caindo a Ficha vamos falar sobre luto, todas as fases do luto. Por que será que dói tanto? Por que será que para algumas pessoas dói mais do que para outras pessoas? Por que algumas ficam tristes e outras entram em depressão? O que que será que falta a gente entender sobre os ciclos? Que nós já sabemos que tem começo, meio e fim. Mesmo assim a gente resiste, mesmo assim a gente não aceita. Então eu já vou dividir aqui tela com a— nós estamos aqui fazendo Caindo a Ficha. O programa tem esse nome, para quem tá chegando agora, porque durante a fala da Cíntia tantos assuntos vão acontecendo, né, minha querida? Boa noite, bem-vinda!
Obrigada! Olha que linda de franja!
Então, eu na verdade eu cortei essa franja já propositalmente para falar sobre luto, porque luto não está relacionado só à perda de alguém. Luto é quando a gente perde vínculo com algo. É alguém. E todas as vezes, Suaromas, que nós perdemos o vínculo, é normal ficarmos tristes. Eu tava com aquela imagem, né, com aquela franjona há tanto tempo. Então pode ser que eu ainda viva um lutozinho agora, por mais que eu esteja feliz com essa franja, percebe, né? Eu fiz para mudar um pouco e tal, mas Mesmo gostando do novo, a gente tende a sentir luto pelo que foi, Cíntia?
Sempre, sempre. Até porque o luto, ele é— pra gente falar dele, a gente precisa olhar pra algo que é tabu na nossa sociedade, né, Bela? Que é a morte. Então, não só a morte física, mas a morte de algo que representou uma boa parte da nossa vida. Então, a falência de uma empresa, a morte de um ente querido, um bichinho de estimação que acompanha a gente por tantos anos, né. Inclusive algumas pessoas têm até vergonha, escuto isso em consultório, de dizer que estão enlutadas do seu animalzinho de estimação. Mas ele foi parte integrante da família, né. E sim, o luto é a nossa elaboração da perda. Porque quando a gente olha pro luto, na verdade a gente é obrigado a olhar pra morte, a gente não tem essa tranquilidade em falar sobre os processos de morte ou sobre falar sobre os processos de elaborar as perdas. Mas sabe por que a gente não elabora as perdas? Porque a gente vive no automatismo e evita olhar pra vida. Então, Bela, existe até, antigamente falava-se bastante da teoria do impacto, Onde a gente entende que o contraste traz a consciência. Meu mestre Jung diz que os opostos se tocam e se tocam mesmo o tempo inteiro, assim como a vida toca a morte, o final do dia toca a noite e para a noite nascer o dia morre e para o dia nascer a noite morre. E a doença, a extensão da doença é a cura, seja ela para um lado ou para o outro.
Do outro.
Então a gente precisa entender que os processos são continuados, mas que se a gente não olhar para eles com a amorosidade que eles merecem, né, por exemplo, a morte deveria ser tão natural quanto a vida, diz Jung, porque o processo do nascimento na morte é um renascimento, é uma transformação. Então a gente precisa aprender a elaborar os processos com os desfechos.
Pronto. Para quem tá chegando agora, bem-vindo. Não sei se você sabe, mas amanhã, dia 2 de novembro, é dia de finados, dia da gente lembrar. E aí, isso não significa que a gente não lembra nos outros dias, mas de refletir mais sobre aqueles que já partiram. E aí, o que acontece? Eu sempre gosto de lembrar que luto, aprendi isso já há alguns anos, não é só perda Não é o momento de elaboração após a perda de alguém, mas também a perda de coisas que você teve vínculo. A Renatinha Evangelista, ela traz aqui um comentário muito interessante: e o luto por nós mesmos, Cintia, pela versão antiga?
Esse também é um outro muito importante, muito importante, porque na verdade o que que acontece? A gente é muito resistente. Nós passamos duas semanas atrás falando sobre mudanças, sobre como vencer as resistências, até porque a gente tem muita dificuldade, mesmo sabendo que a gente está indo para algo novo, a gente tem dificuldade de deixar o velho. O velho é uma estrutura que gera uma segurança interna. Mas em relação ao luto de nós mesmos, é necessário compreender a impermanência da vida e a necessidade das mudanças, porque a vida não é uma linha reta, a vida oscila e oscila o tempo inteiro. E as mortes nos dão a possibilidade de entender os desfechos, às vezes abruptos, né? Mas esses desfechos, eles servem para que a gente possa renascer, porque aqui é terceira dimensão, é começo, meio e fim, né? Da mesma forma que algo inicia, quando a gente nasce, a única certeza que a gente tem é que um dia a gente vai embora. Só que aqui a gente se mistura, tudo que acontece, eu não entendo o que sou eu e o meio. O meio é meu, tudo que passa por mim é meu. É assim que a gente aprende na nossa sociedade, acidental. E se eu estou vinculada àquilo que eu me identifico, entendo que é meu, a perda é muito maior. Agora, se eu entendo que os processos são, sim, mesclados, mas que cada um tem um processo, que a natureza nos ensina o tempo inteiro que tudo nasce, floresce e volta, né, à terra, então conosco é da mesma forma. Então, o luto de nós mesmos, ele deve ser elaborado A partir do momento que a gente decide ter consciência da finitude das coisas, e aí a gente decide olhar para a vida. Quando a gente compara vida e morte, a gente decide olhar o propósito. E se a gente tem um propósito, se a gente tem um objetivo maior, você não tem medo de abandonar uma versão anterior. Você não tem medo de refazer as suas conexões quando você acabou de entregar, porque a verdade é essa, ninguém quer entregar uma aversão, a gente entende que a gente tem que romper com o que foi, mas a gente não tem que romper com o que foi, a gente tem que integrar. E o luto é isso também, é integrar toda aquela vivência, aquela experiência, tudo aquilo te trouxe até aqui. Aquele ente que um dia você devolveu, mesmo sem querer, porque a gente nunca está preparado para entregar alguém de volta ao plano espiritual, a gente gostaria de manter ali para sempre. E isso é a nossa parcela de egoísmo que não quer compreender que aqui os processos se reciclam, se renovam, mas que eles continuam muito vivos dentro de nós.
Eu já tô vendo aqui algumas pessoas que eu, só eu sei, que viveram lutos doloridos. Essa é uma redundância, luto é dor, é perda. Eu estava agora conversando com a Ana Costa, que é a minha visagista, né, cabeleireira aqui, e ela falou assim: Isa, o luto é uma fase que não dá pra gente queimar ou terceirizar. Por mais que a gente já saiba que vai doer, você tem que passar. E eu tenho pensado muito, Cíntia, em como nós adultos precisamos encerrar ciclos da mesma maneira que a gente tem entusiasmo pra começar. Ah, todo mundo quer começar novas amizades, mas e encerrar aquelas amizades que não fazem mais sentido para você? Será que isso também não está te deixando com liberdade para viver um tempo, uma condição, espaço livre para coisas diferentes entrarem? Não vou nem dizer melhor ou pior.
Sim, pensando, né, elaborando aqui a nossa conversa sobre o luto, tem um livro de Freud, chama Luto e Melancolia. E é um livro pouco pesquisado, mas é um livro maravilhoso que ele traz a compreensão do que que é normal, né, até onde vai a normalidade do luto, barra o luto patologia. Porque muitas vezes a dificuldade, a rejeição naquela entrega daquela perda, ou em aceitar aquela perda, faz com que aquilo somatize como uma doença. Pra além da dor, né? Então Freud fala que a gente passa por algumas fases, né? Cada um vive o luto à sua forma, não tem receita de bolo, cada um tem um tempo, né? Pra, por exemplo, tirar as coisas da pessoa de dentro de casa. Eu já atendi mães que perderam filhos ainda muito jovens, então pra gente não é natural enterrar os mais novos, essa é uma dor profundíssima. Então, tem mães que demoram 10 anos para desfazer o quarto da filha, do filho, e tá tudo bem. O que a gente tem que entender é que o processo de luto, ele não pode te jogar numa depressão profunda, aí é uma patologia. Mas então, eu quero manter e depois eu quero transformar. Então, para cada um, um tempo. Para mim pode ser 1 ano, para você 2 anos, para outro 10 anos. E sim, eu citei um exemplo exagerado porque a gente não tem essa facilidade de olhar para uma possibilidade da perda de um filho, apesar de saber que é uma possibilidade. Então, quando Freud fala sobre o luto, ele chama o luto de realizar a perda. Ele diz que a gente precisa entender e integrar essa perda em nós, porque a vida vai se renovar e nós carregaremos aquele que passou dentro de nós. E o outro sempre vai deixar muita coisa, vai deixar a lembrança de algo não terminado que você vai concluir, vai deixar uma música, vai deixar os gostos, algumas frases que eram da pessoa que você pega para você, algumas manias, e aquela lembrança gostosa da renovação da vida. Quando a gente elabora e chega na saudade, essa é a realização do luto. E a gente não tá dizendo aqui que é fácil, né, Bela? Não é fácil. Mas é um processo que a gente precisa entender e caminhar para uma aceitação.
Pausa então nesse caminhar para aceitação, porque aí eu me lembro de ter aprendido muito com a Mariana Clark, que é uma psicóloga especialista em luto. Mari Clark, se você estiver por aí, um beijo para você. A Mari uma vez ela me disse assim: Isa, a gente vive todos os tipos de luto. Perda de emprego é luto, perda de vaga na garagem é luto, perda de uma coisa que você tem vínculo. Nossa, fiquei sentada 10 anos nessa cadeira, você vai trocar a cadeira, você vai lembrar da antiga. É perda de um membro, perda da capacidade de ter filhos. E aí eu vejo aqui a Paulinha Carvalho, muito querida, é que tá aqui dizendo: muito difícil uma mãe que perde um filho. Dentro da gente. Paulinho, eu não sei de que perda você tá falando aqui especificamente, mas eu, Isabela, já tive dois abortos. Se eu paro para pensar na tristeza que isso pode me gerar, eu travo. Eu prefiro que na natureza— a natureza sabe o que faz. Por mais tristeza que ela gere, mas faz parte do nosso processo de evolução. Porque se nós só ganhássemos pessoas e coisas, seria insustentável. Por isso que eu tenho refletido muito sobre isso, Cíntia, o quanto é nossa responsabilidade encerrar ciclos, não importa qual for, com alívio. Nossa, Isabela, mas como é que eu posso ficar aliviada por uma coisa que tá me deixando triste? Aceitando que faz parte da evolução.
Sim, faz parte da natureza, é tão natural quanto o nascimento.
Mas para quem tá aqui sentindo no nosso encontro, véspera de feriado, amanhã um dia muito sensível para muitas pessoas e que podem se pegar numa tristeza que vai deixá-las melancólica. Qual é o ponto da tristeza de memórias e a tristeza que te deixa disfuncional?
O ponto da tristeza, saudade, uma saudade que te levou para um passado, uma lembrança. Falar, né, a gente tem tanto medo da morte que muitas vezes a gente exclui o falecido. Então, por isso acabamos institucionalizando um dia para lembrar dos nossos mortos, mas nós precisamos entender que eles são as nossas raízes. Que a vida passou por eles e que chegou até nós, né? Já ao contrário, se você interroga alguém mais jovem, a vida que veio por você passou e chegou até lá. E quando você começa a compreender que ainda faz parte, que não é porque não está de corpo físico deixou de existir, deixou de fazer parte dentro de você, entende que isso foi uma transformação. Então nós podemos relembrar bons momentos, né, no momento que essa dor acalmou, volte lá, converse, faça um novo contato, uma nova forma de conexão com essa pessoa. Porque quando a gente aprende a olhar para a vida de uma forma simbólica, Bela, a gente percebe quantas coisas a vida nos diz o tempo inteiro e que confirma que nada acontece ao acaso. Pra quem não sabe, a minha caminhada na terapia e na espiritualidade se dá a partir de uma grande perda, aos meus 17 anos, quando eu perco uma pessoa assassinada, que era um jovem, um amigo. Então, o que acontece naquela situação? Eu começo a questionar, eu começo a tentar entender o motivo de certos acontecimentos e durante essa busca eu encontro pessoas incríveis, curas profundas, eu encontro o meu caminho de propósito, porque se hoje eu estou aqui é devido vivido essa experiência, que foi uma experiência extremamente dolorosa, e a vida se renova a ponto de eu contar para vocês que o meu segundo filho nasceu no dia do aniversário desse melhor amigo, no mesmo dia. Não foi programado. Então quando a gente percebe que a vida ela segue em renovação, que a gente precisa sim elaborar cada luto dela, do luto de um cabelo comprido que você cortou e assustou, até um luto de A perda de um bichinho, a perda de um emprego, um dinheiro importante que eu perdi na bolsa, a falência de uma empresa, tudo isso é luto e tudo isso tem que ser elaborado porque senão o luto se acumula.
Como é que elabora?
Elaborar o luto é trabalhar dentro dessa realização que Freud traz. Então o que que ele vai falar, que ele chama de realização da perda, é assimilar e integrar Como aquela pessoa que se foi, aquela situação, o que que ficou em mim? O que que eu aprendi com isso? Como que eu posso transformar o que eu tenho que não é palpável, que agora eu não pego mais, mas que passou por mim e fez uma marca e que me deixa em contraste, com vontade de olhar de volta para vida? Porque depois que a gente passa pelo luto, a tendência é que a gente se volte novamente para vida e a vida recomeça, novos amores, novos empregos, novas oportunidades, novas experiências. Então a elaboração do luto, a gente passa por aquela fase: primeiro não quero aceitar, né, tem a fase da negação, depois tem uma fase que é muito curiosa, que eu percebo que acontece com os tóricos, que é assim: e se eu tivesse feito mais?
Eu vi aqui um comentário assim: meu pai morreu no início do ano, eu fico me culpando, o que eu poderia ter feito de diferente?
Isso. Então é assim, na verdade a gente não poderia ter feito nada de diferente, porque independente do que a gente fez, é lembrar daquilo que você realmente trocou com a pessoa. Lembre-se do que você fez. A gente tem um mau hábito de ficar buscando buracos, de olhar o que faltou, de olhar o que eu deixei de fazer, o que ficou para trás. Gente, num relacionamento não tem perfeição. Nós não somos perfeitos, haverão oscilações, haverá tensão, haverão altos e baixos, mas o que ficou? Porque se o seu paizinho foi embora, 50% dele mora dentro de você e hoje você precisa honrar a vida que ele deixou dentro de você vivendo.
Honrar vivendo. E aí eu vou ver se aqui alguém pode compartilhar se já sentiu culpa por estar vivendo. Porque eu tenho pessoas muito próximas que se sentiram culpadas por estar vivendo se a pessoa muito próxima se foi. E na minha humilde opinião, todos nós já sabemos que nós temos um intervalo muito curto de vida aqui. Quanto mais eu alimentar uma dor, mais eu estou me prejudicando. Não significa que eu não esteja triste, mas se eu me tornar disfuncional, eu não estou honrando nem a minha vida, nem a da pessoa, nem nada. É muito confuso, mas por isso que eu propus essa conversa pra gente na véspera de finados, porque eu sei que amanhã vai ser um dia em que as pessoas vão sentir culpa. Quantas esposas, pelos maridos que se foram, se sentem culpadas por recomeçarem a vida? Ou, por exemplo, não, eu não posso me relacionar com mais ninguém. Tudo bem, não existe certo e errado, bom senso É muito flexível, mas vejo muita gente que deixa de viver por culpa daqueles que foram. Dá para resolver isso na terapia, Cíntia?
Com certeza, e é fundamental levar essa questão para terapia, porque o luto ele traz a culpa por ter ficado, porque na verdade a gente não compreende que o processo do outro entrou em finitude, não o nosso. Nós permanecemos e, portanto, Se a gente pensar: a pessoa que foi embora, ela gostaria que eu sentisse isso? Como será que ela ficaria se ela soubesse que eu estou carregando culpa por estar na vida quando ela não está? Mas quem disse que ela não está? Até no momento que a gente dorme, não são pequenas mortes? A gente passa metade da vida dormindo. Só que a nossa psique continua. Jung dizia isso: a nossa psique continua. Entendam como quiser, para cada um uma crença diferente, mas quando você entende que você vive pequenas mortes em vários níveis, em todos os momentos da vida, né, quando você finaliza o primário, quando você finaliza o ensino médio, quando você finaliza a faculdade, você morre por uma forma para renascer como outra. E se a gente nasce e vai embora, nós não somos deste lugar. Aqui é passagem, não é casa.
Quero aproveitar que a Tu Per Mira escreveu aqui: me sinto culpada por ter adoecido, burnout e depressão, parece que estou vivendo um luto. Aí teve uma outra moça que concordou com ela, a Luciane. Então deixa eu explicar rapidamente aqui o que acontece na perda que o burnout provoca, porque na verdade você não está perdendo. Você está ganhando um freio do Deus que você acredita para continuar vivendo. Eu vou repetir: a culpa que a gente sente por adoecer, especialmente no burnout, tem a ver com aceitar a ideia de que aquilo que você considerou importante, de que aquela entrega que você estava fazendo, você tinha expectativa de um reconhecimento, não aconteceu. Isso é um luto. Então é o luto por você ter se entregado de uma maneira integral e não ter tido recompensa. A recompensa que você achou que teria, financeira ou emocional, no caso do burnout. E aí quando você ganha este freio chamado burnout ou qualquer outro problema de saúde, a Cintia fala uma coisa que eu acho linda: a cura está embutida na dor. Basta você olhar para aquilo dessa maneira. Você vai viver um tempo de luto para elaborar. Poxa, eu então criei expectativa equivocada. É, eu esperei reconhecimento de pai e mãe no trabalho. É, eu esperei o reconhecimento que não teve. Isso é um luto. Você vai ter que aceitar que aquelas ideias que você teve não se concretizaram. Então você também vai perder o vínculo com aquelas ideias que por muito tempo você acreditou. Isso também é luto. E se não viver o luto, gente, na hora que tem que viver, depois vai ficando pior, tá?
Acumula, acumula. O luto é cumulativo. De repente, quando explode, ele vem logo numa somatização, numa doença. Então é perfeito a forma que você colocou, porque quando acontece a transferência para um líder, um chefe, a um diretor de algo que você não recebeu dentro da sua casa, sabe que luto não vivido é esse? O luto de ter em algum momento percebido que seus pais não eram heróis. E aí a capa do super-herói caiu e aí você descobriu que eles não tinham aquilo que você precisava, mas continuou exigindo que você precisava receber aquilo. Então naquele momento da transformação do seu olhar perante os seus pais, você não aceitou esse luto. E quando você leva uma questão de burnout a fundo na terapia, você vai começar a entender que realmente essa transferência acontece porque é como cobrar lá dentro da empresa algo que a tua criança interna não sentiu que recebeu na infância e você continua fazendo mais. Então, o melhor luto que você pode passar hoje é dessa versão anterior né, para quem escreveu aqui, a versão anterior, que já é uma estrutura antiga, ela não serve mais para o teu processo atual. O teu processo atual exige renovação, e o luto é essa ponte entre o desfecho de um ciclo e o renascimento. Repete: o luto é uma ponte entre a finalização, o desfecho de um ciclo e o renascimento. E aí nós precisamos aprender que a gente precisa autorizar a partida do que está indo embora. A gente precisa soltar, permitir. E também precisamos deixar-nos perder, aprender que a perda faz parte, porque quando eu entendo que existe uma perda, na verdade existe uma troca, um renascimento, um recomeço. Só que dois corpos não ocupam o mesmo lugar. Então, se eu preciso entrar em uma fase nova, eu não posso carregar algo do meu passado. Eu preciso me renovar, me reciclar. Então, dentro de nós, nós vivemos muitos lutos. Lutos de fases, lutos de amizades. As amizades que você teve na escola, são todos seus amigos hoje? A gente muda, a gente recicla, a gente descobre situações novas, mas a gente só olha para a vida com o contraste das finalizações.
Uma vez eu fiz um comentário com um colega daqui de jornalismo. A Elaine tá dizendo: fichas caindo. Por isso que chama caindo a ficha, né, Elaine, querida? Elaine, personal trainer maravilhosa, obrigada pelo seu tempo aqui conosco. Elaine é uma empreendedora de mão cheia, viu, gente? baita empreendedora, inspira muitas mulheres. Uma vez eu fiz um comentário em relação a uma árvore. As estações do ano. Você imagina se a árvore cruzasse o bracinho e batesse pé quando ela tivesse que renovar as folhas? "Não, vocês não vão embora, vou ficar com todas vocês!" Não, a natureza sabe que precisa deixar ir para poder receber novas. Precisa deixar ir para receber novas. Eu demorei para compreender e viver o luto do meu burnout, para deixar ir, para poder abrir a porta para o novo. E muita gente pede por prosperidade e não consegue encerrar o ciclo do antigo. E vou falar um negócio aqui para vocês: é muito difícil que a prosperidade chegue para você se você não abre mão daquilo que já acabou. Já acabou, não existe mais. Mas você ainda mantém a ideia de que aquilo era o correto, era o melhor. É a prosperidade, tá ali a oportunidade, tá ali a situação nova, Então por isso que para mim, quando eu consegui realizar que o burnout é um freio, não é o fim, era só um freiozinho. Gente, o carro mudou de mecânico para automático e mesmo assim continuamos com pedal de freio, acelerador, freio, acelerador, freio, acelerador. Aí você não quer parar nunca, você não quer aceitar as perdas nunca. Aí fica mais difícil.
É assim como eu costumo dizer, né, Bela, que as doenças trazem um convite uma cura, as perdas trazem um convite ao renascimento, à renovação.
Estou anotando aqui para depois fazer um resumo da live. As perdas trazem um convite para a renovação.
Porque na verdade quando a gente aceita a perda e ela vai ficando mais leve conforme a gente vai elaborando, esse processo de elaborar Ele oscila, vai ter dias que num luto de um ente querido você vai acordar e vai parecer que não aconteceu nada, e no outro dia você vai acordar e vai parecer que acabou de acontecer. E essas oscilações, elas fazem parte. Então se acolher é muito importante e entender que assim, você não precisa lutar com o que a sociedade espera de você. Tem pessoas enlutadas que não choram, tem pessoas enlutadas que choram muito por muito tempo. E tá tudo certo, cada um sabe como sentir a sua dor. A nossa cultura, ela realmente não permite que a gente possa elaborar isso de uma forma mais tranquila, mas aí quando você começa a entender sobre consciência, sobre o seu potencial humano, você começa a perceber que sim, faz parte inclusive da nossa cultura, a nossa forma melancólica. Por exemplo, na Colômbia Acho que é na Colômbia, se eu não me engano. Quando morre uma criança, eles festejam. Eles festejam porque eles entendem que um anjo retornou ao céu. Já na Jamaica tem uma cultura de festejar por 9 noites. Então eles fazem festa para o falecido por 9 noites, porque eles entendem que na nona noite é o desfecho final da desconexão do corpo.
A cultura, ela é fundamental para essa permanência ou não do luto. O Noar Voredo, 2018, tá dizendo: quando deixei o Brasil para morar fora, me permiti— veja só, tenho certeza que quando você decide mudar de país, por mais que você seja cheio de expectativas, você vai sentir saudade, né, de onde você morava, em alguma medida, alguma coisa. Mas isso não significa que você não possa conhecer o novo.
Exatamente. A No Arvoredo é a Regina, ela me convidou para um podcast, a gente gravou sobre depressão. Então, No Arvoredo é o nome do podcast dela, tá, gente? Vão lá ouvir que tá incrível. A gente falou sobre depressão nos dias atuais, né? Depressão chamado para vida. Mas é exatamente esse lugar, uma mudança de país, uma mudança de casa, Gente, às vezes a gente melhora de condição financeira e se culpa. Isso é um luto do passado.
Vamos falar isso. E já pediram também pra gente falar das fases, tá? As fases, vamos repetir. Fala sobre isso. A pessoa mudou de— o Thiago Godói, Papai Financeiro, que tá aqui na Baia do lado, deve estar me ouvindo, vai gostar disso, né? Mudou de situação e continua ainda preso.
Muda de situação financeira, né, por exemplo, pessoas que vêm de famílias muito simples, eu senti isso, tá, então tô compartilhando um pedacinho da minha experiência. E conforme eu ia mudando, tô no meu quarto consultório, o primeiro foi uma salinha bem pequenininha, bem miudinha ali, e conforme eu ia mudando teve um momento que eu fui para um lugar que tinham dois ambientes e eu queria aquele ambiente para fazer exatamente tanto a parte analítica quanto à parte corporal, porque eu sou acupunturista, né, tem as minhas técnicas corporais. Então quando eu cheguei num lugar, um prédio comercial, um lugar mais bonito, mais próspero, visivelmente mais próspero, eu tive esse sentimento de me sentir culpada por estar deixando uma forma antiga. Isso tá muito relacionado, gente, a eu vou "Vou caminhar para um lugar diferente de onde os meus pais chegaram." Eu estou traindo o meu clã. Então, quando isso acontecer com vocês, olhem para trás, mas se sintam muito felizes. E se for difícil fazer esse movimento, se sentir feliz porque você está indo além, e a ideia dos filhos é que eles possam caminhar para além de onde foram os pais, esse é o desejo dos seus pais para você, Se for muito difícil essa compreensão, leve esse assunto pra terapia. Porque a gente pensa que não acontece o luto quando você sai de um degrau e passa pro outro. Mas é a sua construção, você construiu, nada caiu do céu. Foi o seu empenho, o seu trabalho, a sua realização.
Gente, o quanto de culpa tem no luto?
Nossa, depende da situação, mas geralmente coisas muito abruptas São aqueles lutos mais profundos onde a pessoa realmente cai uma ficha, um orelhão às vezes na cabeça dela, ela diz: "Nossa, se eu tivesse feito diferente..." E aí ela começa a se responsabilizar, como se ela fosse a principal culpada por aquela perda. Essa culpa é uma culpa infantil. Quando a gente chega na nossa família, a gente tem uma demora para entender o que sou eu o que é a mãe, o que é o pai. Então, Eduardo, a gente passou 9 meses dentro da barriga dessa mãe, né? E aí, quando acontece alguma coisa no meio, até de 1 a 3 anos, a criança tem muita sensação de que a mãe e o pai são extensões dela. Vou dar um exemplo: Benício devia ter uns 2 aninhos de idade, um dia eu lavando a louça e quebrei um prato, e ele veio correndo e disse: "Mamãe, fui eu!" "Ele disse: 'Não, filho, a mamãe escorregou aqui, quebrou. Não aconteceu nada, tá tudo bem, mas fui eu'." Então essa noção do "eu", ela demora para chegar. Então é o mesmo sentimento, a culpa do luto é o mesmo sentimento. O que que eu deixei de fazer para promover esta perda, para promover esta morte? E na verdade a gente não tem responsabilidade sobre isso, a gente não tem controle algum sobre esse tipo de situação. Só que aí a gente entra num processo de culpa e depois de raiva. Tem gente que fica com raiva, se sentindo abandonado. "Como assim, né? Foi embora e me deixou aqui." Então tem esse processo: culpa, raiva porque a pessoa te deixou ou porque a situação finalizou. Então a elaboração do luto vai dessa compreensão de: "Não, vamos voltar ao eixo aqui e compreender como foi esse processo." As pessoas dão sinais. E às vezes os sinais são muito claros. Eu vou trazer uma curiosidade ainda sobre a minha experiência, que é a mais próxima que eu tenho. Quando eu perdi esse amigo, ele tinha 21 anos. Ele faleceu no dia 11 de agosto de 1999. A mãe dele gostava de astrologia e dizia que dia 11 de agosto de 1999 Nostradamus disse que acabaria o mundo. E ele passou o dia inteiro se despedindo das pessoas, dizendo que o mundo ia acabar. Ele escreveu uma carta para mim, Bela, dizendo que eu era a melhor amiga, que nós éramos irmãos, tínhamos uma conexão de irmandade. E ele fez esse movimento, se despediu de todo mundo, os professores na escola. E depois a gente compreendeu que realmente, por algum motivo inconsciente dele, fez o movimento de despedir-se. Porque naquele dia não acabou o mundo, mas o mundo para ele acabou. Então, se a gente começa a ampliar o significado da vida, eu tô compartilhando uma coisa bem pessoal, né, para que vocês compreendam que nós somos humanos, nós temos nossas dores, mas nós também precisamos olhar a vida e aprender a olhar a vida de uma forma mais simbólica, porque a vida nos diz muitas coisas o tempo inteiro. E se a gente souber ler a vida, a gente não passa mal por aqui. A gente começa a entender para onde ela está no contexto.
Cíntia, dá uma olhada quem tá aqui do lado.
Ah, meus seguidores queridíssimos, a Michelle e o Martin.
Overbooking, estão aqui do lado, né? O que que eu quero dizer, o Martin e a Michelle, eles vão completar 16 anos. Uau! E eu recebi uma mensagem aqui no meu direct perguntando: e o luto dos animais, né? Tem gente que não aceita ou se sente culpado por estar triste pela perda de um pet. O que que eu, Isabela, eu tô começando a observar? A Michelle tá mais quietinha. Antecipar luto não, né?
Antecipar luto não, mas o que acontece no luto pet, olha, a natureza ela é tão maravilhosa que ela traz A gente a possibilidade de— os animais são muito puros, eles ficam pouco tempo, né? Mas a gente vai reconhecendo que eles também passam por fases e que as fases desses queridos também vai— olha que olho lindo, gente, é demais, né? Eu tô com 3 aqui, 2 pititicos, depois eu apresento para vocês. E a fase dos animais vai se transformando também. Então, por exemplo, eu tive ano passado uma perda de de 13 anos e quando ele começou a adoecer, ali a gente já começa a prestar atenção, porque a gente também luta na fase anterior. Puxa, não tá chorinho tão ativo, parece que agora tem um probleminha de coluna, não consegue mais correr, corre e escorrega e cai as perninhas, tá falhando aí alguns comandos. Então a gente já vai se preparando pelas fases deles, mas isso não é antecipação de luto, é consciência. Então, às vezes esse par luto não, mas é a consciência de que o bichinho está caminhando dentro do ciclo dele e vivendo as fases, que é natural. E quando chega o momento de devolver esse bichinho, a primeira frase que todas nós que amamos os animais falamos: "Nunca mais eu vou pegar outro." E esse "nunca mais eu vou ter outro bichinho" significa: eu estou morrendo de medo de amar de novo de perder novamente.
É a mesma coisa quando a gente vive um luto por um namoro, né? Fala: nossa, nunca mais vou namorar ninguém. Na verdade, você não quer viver aquela situação novamente.
Exato, abrir para entrega do amor e de repente se frustrar por uma perda, um luto, uma finalização, desfecho inesperado, ou um desfecho que, né, que você não queria viver, você queria ampliar, mas de repente o desfecho Foi o que a situação conseguiu comportar. Então compreender que as fases acontecem, que aqui tudo é impermanente, que a vida não é uma linha reta, é fundamental. Os bichinhos ensinam inclusive às crianças o movimento da transição, da partida. E a gente gera muita culpa, inclusive, principalmente nos bichinhos que assim chegam num estado que o que fazer, ele tá em sofrimento e de repente o veterinário fala assim: então para não ampliar esse sofrimento a gente pode eutanasiar. Nossa, você quer ver um coração quebrado por um luto? É a pessoa saber que aquilo é uma necessidade para não estender o sofrimento do bichinho, né? Então assim, gente, tá tudo bem da gente se sentir culpada, triste, isso pode sim e deve ser elaborado quando você entende que aquilo era tudo que foi possível E a vida se renova. Tudo que foi possível.
Cíntia, quero reconhecer duas pessoas aqui que entraram. Uma eu não conheço, mas é a que representa uma página chamada Quarentamos. Conheci essa página esses dias, Quarentamos, né? Ela tá dizendo: nossa, eu passei por isso criança e carrego essa dor até hoje pelo luto da minha cachorrinha. Essa página eu conheci esses dias, eu gostei muito, já comecei a seguir. Por quê? Ninguém nos orienta quando a gente tem 20 e poucos anos que você vai viver vários lutos num ciclo de 1 ano. Imagina 5 anos, 10 anos. E quando a gente 40, né, eu tô com 42, quando você passa o 30 para 40, você fala: caraca! E muito dos preconceitos, ok, alguns estão nas pessoas, mas muitos estão em nós. Eu não me sinto nem um pouco incapaz de certas coisas como antes, né? Então quero só reconhecer aqui o trabalho que você tem feito, minha querida, na Quarentamos, porque é muito importante. Assim como eu vejo outras mulheres com mais de 50 também falando sobre essa passagem, e falar por essa passagem do tempo também é luto. Lidar com esse luto de forma adulta, madura, inteligente, coerente, é muito legal. Eu não preciso olhar para os meus 30 anos e falar: "Ai, meus 30 anos..." Sim, foi legal demais, mas agora os 40 também tá ótimo. Senão a gente só olha como perda, gente, aí fica pesado mesmo.
A gente mora numa sociedade que não nos ensina a beleza de cada fase, o aprendizado que vem com cada período. A gente vai olhando como se a vida tivesse indo embora e nós tivéssemos sofrendo várias perdas. Eu não trocaria minha consciência de agora pela minha consciência dos 20 anos, de jeito nenhum. Ah, mas e o corpo? E a dificuldade disso e daquilo? Olha, se você tiver consciência de cuidar-se com equilíbrio, fazer escolhas, a gente vai ficando mais seletiva, isso é legal, a gente faz escolhas mais corretas para nós. E a mulher vai passar por um período, que o período da menopausa também é um grande luto. É o luto da fase reprodutora da mulher. Mas ao mesmo tempo a gente pode olhar isso como uma liberdade. Uma liberdade que a gente não tinha mais, não é? De não menstruar mais, de poder viajar tranquilamente, de poder, enfim, curtir uma outra fase da vida.
Olha, eu acho que, se não todos nós, mas boa parte dos que estão aqui estão vivendo o luto do colágeno. Colágeno é um trem que você nem tem tempo de se despedir. De um dia para o outro você fala: cadê o colágeno aqui? Eu vejo Angelina, que tem 2 anos e meio, eu olho para ela e falo: é puro colágeno, né? Mas enfim, eu tô fazendo aqui uma brincadeira só para trazer aqui a consciência de que amanhã, o dia de finados, é um dia que pode ser muito triste para algumas pessoas, ou apenas mais um dia para lembrarmos daqueles que partiram com honra, valorizando a nossa vida, valorizando como eles passaram por nós. Faz sentido?
Faz muito. Nós temos várias maneiras, né, de manter essa conexão. Então, por exemplo, amanhã
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Depois de tantas histórias, aprendizados e pausas necessárias, o @interior_iza está de volta








