Relatos de uma trajetória marcada pelo vício no trabalho com Daniela Bertoldo - EP 30 Ïnterioriza

Daniela Bertoldo talks about her struggle with work addiction and burnout while climbing the corporate ladder as a woman. She shares how societal pressure and the need to prove herself drove her to exhaustion, and why female solidarity in the workplace matters.
Chapters
Uma vez lá em cima, levamos outras mulheres junto. Isso é o que se espera. Uma mulher sobe e puxa a outra num círculo vicioso positivo que favorece todo o ecossistema. Essa frase é do livro Mulheres que Lideram, Jogam Juntas, da autora Daniela Bertoldo, que eu tenho o privilégio de trazer aqui no Interioriza hoje. Dani, bem-vinda.
Muito obrigada.
Vocês não sabem a minha surpresa de receber um livro e saber que eu estou nele? A camisa da empresa ou o pijama? O que vestir? Já vamos falar sobre isso aqui. Antes eu quero falar sobre você, Dani. Que privilégio te receber aqui. Saber que nós temos muitas coisas em comum. E tenho certeza que as coisas que nós temos em comum, outras mulheres também vão se reconhecer. Então, começa contando aqui pra essa câmera o que você acha que nós temos em comum.
Primeiro, eu quero dizer que é uma honra e um privilégio estar aqui com você. Quando eu escrevi Mulheres que Lideram, Jogam Juntas, eu pesquisei tudo sobre mulheres, desafios, burnout, vulnerabilidade, o que você imaginar. E quando eu conheci a tua história, Isa, foi a história que mais me impactou. Por quê? Porque eu vejo que nós temos em comum uma história de duas mulheres que são orcarólicas, que se dedicaram demais ao trabalho, que vestiram a camisa, que trocaram a saúde pelo tempo no trabalho. negligenciando a sua própria saúde, sua própria vida. E que passou pela síndrome do burnout, enfrentou, superou e transformou isso numa missão de vida.
Muito bem. Além disso, tem um fato de sermos do interior, você de São Paulo e eu do Paraná. Você acha que o fato da gente sair do interior das nossas cidades e buscarmos um lugar de trabalho, por exemplo, numa capital como São Paulo, isso faz a gente se negligenciar, faz a gente trabalhar muito mais do que outras pessoas ou não?
Sim, eu acredito fortemente nisso. Mas nós temos um adicional a isso também. Dependendo do lugar que você escolhe trabalhar, numa capital, se não é um ambiente propício você sente muito mais essa pressão. Eu, sendo de Ribeirão Preto, que é uma cidade que nem tem mais cara de interior.
Total, isso quer falar, nem é interior, né, gente?
Nem é interior, se for ver. Mas quando eu vim pra capital, eu ouvia piadas como, olha a pé de barro chegando, olha, Daniela, essa sua roupa aí é só pra quem tá no interior. Aqui no capital, as mulheres executivas não se vestem assim. Então, eram piadas, que assim, poxa, é um ambiente descontraído, Mas não, são microagressões. e que isso vai impactando. Então, você é uma mulher do interior, que você abre mão da sua vida, você deixa filho para trás, você deixa casa, você deixa amigos para poder fazer uma carreira. Chega aqui o ambiente que precisa te acolher, é um ambiente que tem preconceitos e que fica todos os dias tentando te lembrar que você é diferente porque você é do interior. E o que você faz? Você se negligencia E falo o seguinte, poxa, eu preciso ser aceita, porque hoje o maior desejo de ser humano é o senso de pertencimento. Queremos pertencer. O que eu faço? Eu perco a minha essência para parecer que eu sou igual, para pertencer, para estar naquele meio.
Eu me encolho para caber.
Exatamente.
Eu me encolho para caber e encolhendo para caber, você abriu mão, você me contou aqui nos bastidores, o seu filho nasceu, você depois se separou do seu marido, ou seja, você ficava longe dele a semana toda. Como é que você olha isso agora?
Foram decisões equivocadas. Hoje, eu faria todo o investimento que eu fiz na minha carreira, mas, obviamente, priorizando outras áreas da minha vida. Só que naquela ocasião, eu não tinha consciência disso. O meu desejo de construir uma carreira, de ser bem-sucedida, era tão grande, tão grande, que isso me cegou. Então, eu não fazia atividade física, porque eu não queria perder tempo, porque eu tinha que trabalhar. Eu não fazia relações sociais, porque eu precisava só me conectar com as pessoas do trabalho. Eu dormia quatro horas por noite, porque eu tinha que responder todos os e-mails antes das sete horas da manhã, antes de começar todas as atividades. Então, foram 25 anos negligenciando a minha saúde, a minha vida pessoal, em prol do trabalho. Hoje, mais madura, com quase 50 anos, eu olho para trás e eu falo, poxa, quantos equívocos eu precisei adoecer para poder entender que a vida vai para além de um crachá. E o meu CPF virou um CNPJ. E quando eu perdi esse crachá, restou pouca coisa da Daniela. e reconstruir ou construir uma nova vida para além do crachá. Não é fácil.
Você veio para São Paulo acreditando que se você se dedicasse a uma empresa, o reconhecimento aconteceria, ou seja, a meritocracia, que sempre a gente acredita nela, que ela vai acontecer, aquilo tudo era natural. Mas não foi esse o desfecho. O que aconteceu com você?
É, eu vim pra São Paulo porque assim, eu trabalhava já numa empresa há muitos anos, que era líder de mercado, então eu sempre trabalhei em empresas líderes de mercado, e eu tinha um sonho de me tornar uma executiva.
O que que você via assim de executiva? Era uma vestimenta, era um salário, era um carro, era um cargo? O que que era?
Era todo o pacote, né? Eu olhava aquelas mulheres, assim, poderosas aqui de São Paulo, lindas, bem vestidas, com a caneta, sabe aquela? Aquelas fotos lindas, né? Que eu também faço pra colocar no Instagram. Mas a gente olhava aquilo, eu falava, gente, isso é o auge pra mulher. Então a minha realização, ela está neste lugar.
Eu preciso estar usando essa roupa, usando essa bolsa, essa caneta.
Exatamente. E aí, acreditando muito nisso, muitos anos, eu já estava nessa empresa há mais de 12 anos, há 12 anos, e eles falavam assim pra mim, Daniela, o próximo passo pra você é só em São Paulo. Eu não tenho o próximo passo pra você. Você quer ser executiva? Tem que vir pra São Paulo. E quando eles me fizeram o convite, Eu estava divorciada há um mês, vivendo um divórcio muito duro, muito crítico, com um filho pequeno de oito anos. E a empresa falou assim, é tudo ou nada. Ou você aceita ser transferida agora e se torna uma executiva em São Paulo, ou você vai ficar nesse lugar que você está aí mesmo atendendo o Brasil todo, mas em Ribeirão Preto. Eu não pensei duas vezes. Mesmo com a minha vida pessoal caótica, eu falei sim.
Para esse desafio?
Para esse desafio. E vim para São Paulo e passei até duas vidas, uma em Ribeirão Preto, eu voltava todo final de semana para cuidar do meu filho e a semana toda aqui em São Paulo.
E você se arrepende?
Eu não me arrependo de ter feito um movimento, porque depois que eu vim pra cá eu trabalhei em outras grandes empresas, eu amadureci muito como profissional. Eu me arrependo da forma como eu fiz, de ter negligenciado a minha vida. e de ter colocado o trabalho como prioridade. Eu poderia ter feito tudo isso, dormindo melhor, me alimentando melhor, me cuidando melhor, mas eu não fiz isso. Eu trabalhava 15 horas por dia, eu fazia tudo pela empresa, eu falava sim, então eu perdi todos os meus limites. Então, o movimento eu teria feito diferente.
Hoje o seu filho te cobra?
Não, ele já me cobrou. Mas quando ele viu a minha transição e a minha dor de sair do corporativo e ir para o empreendedorismo, depois de 25 anos, ele me acolheu. Ele foi a pessoa que mais me acolheu.
Que lindo.
Ele já estava com 17 anos. Eu lembro que eu cheguei em casa e eu falei, filho, eu não sou mais uma executiva do mundo corporativo. Eu perdi o crachá em cinco minutos, depois de 25 anos. Você perdeu em oito, né? Eu perdi em cinco. Aí, e eu muito triste, chorando. E ele virou pra mim e falou assim, mãe, não tem problema. Nós vamos começar juntos.
Ai, que fofo.
Ele foi a pessoa que mais me acolheu. Então, não. Não, ele não me cobra. Não explicitamente, né? Mas quando ele era mais novo, tinha... de 12 até 15 anos, ele me cobrava muito, principalmente pelo divórcio, que foi uma decisão minha, porque eu não tinha tempo para o casamento. Eu tinha tempo só para o trabalho.
Não tem como você ter dois casamentos saudáveis, né? Porque se você tá casada com o trabalho, você não consegue estar casada com outra pessoa. É.
E aí, na ocasião, o pai acho que falava pra ele, né? A sua mãe acabou com o casamento porque ela só pensa em trabalho. Então, ele repetia muito isso, né? Ele falava assim, mas você acabou com a nossa família por causa do trabalho, porque você só quer trabalhar, porque você só trabalha. Então, eu ouvi isso muitas vezes. Nem isso fez com que eu parasse. Nem isso e nenhum acidente que eu tive em 2011, que eu quase morri, meu carro explodiu, pegou fogo, né?
Conta mais desse acidente.
Foi em 2011, dia 11 do 11 de 2011.
Sério?
Meu pai comemora essa data como nascimento.
Perfeito.
Todo dia 11 do 11, ele me manda uma mensagem e fala, filha, eu já fiz a sua oração. Parabéns pelo seu renascimento.
Mas mesmo assim, esse acidente, que você vai contar, não foi suficiente pra você dar uma reduzida na velocidade.
Então, eu em Ribeirão Preto, fui pra Bauru, trabalhei o dia todo, saí de Ribeirão cinco horas da manhã, cheguei em Bauru sete e pouco, já fui pra minha agenda de trabalho, Aí tinha um jantar também com clientes, fiquei nesse jantar até meia-noite, quer dizer, das sete e meia da manhã nativa até meia-noite. Cheguei no motel, tomei um banho e falei, poxa, preciso ir para Campinas cinco e meia da manhã novamente e eu tenho 300 e-mails na minha caixa. Não posso pegar a estrada amanhã, começar o dia com todos esses e-mails. E eu fiquei da meia-noite até às três da manhã respondendo todos os e-mails. A caixa de entrada ficou maravilhosa, não tinha um e-mail pendente. Eu dormi duas horas, saí, peguei o carro, abasteci. Sete e pouco da manhã, eu exausta, porque assim, não foi um dia, né? Eu estava nessa batida há 15 anos. Eu estava altamente exausta. Quando passou um reflexo, estrada simples, passou um vulto, eu pisquei assim para ver o que era, no que eu pisquei, eu perdi o controle da direção. O meu carro capotou, rodou a estrada, capotou. Na hora que ele capotou, tinha o carro que estava atrás, que era o vereador de Analandia, ele viu eu capotando, ele parou o carro no acostamento, ele desceu no barranco. Ele me tirou de dentro do carro e falou assim, o carro vai explodir, porque tava com muita fumaça. Abriu o negócio do combustível e foi vazando combustível pelo carro. Aí ele me catou, me tirou de dentro do carro. Na hora que ele me tirou de dentro do carro, eu com a cabeça lá, toda rasgada.
Cena de filme.
Cena de filme. O carro simplesmente explodiu. Ficou em chamas, questão de segundos.
Aí?
Aí ele me socorreu, isso aconteceu às sete e meia da manhã. No outro dia, tinha uma reunião importante, que não tinha ninguém pra me representar nessa reunião. Eu tomei banho.
Pera lá, pera lá, pera lá. Volta, volta, volta. Volta quando eu tô parada lá na estrada, o carro explodiu. É. Sete, meia da manhã, ele te socorreu.
Te socorreu e me levou pro hospital de Iperaçununga.
E aí?
Aí eu fiquei o dia todo lá, fazendo várias baterias. Deve tanto que eu tenho uma cicatriz aqui, porque eu bati, né, a cabeça. Tá. Eles ficaram o dia todo lá fazendo vários exames. Não quebrou nada, foi só os pontos na cabeça. Aí eu fui liberada 6 horas da tarde. Tive que ir até o posto policial para fazer a identificação do veículo já todo em chamas. Voltei para Ribeirão, cheguei umas 20 horas em Ribeirão Preto. No outro dia, eu acordei, aí a família toda desesperada, eu estava casada na época, o meu ex-marido estava desesperado, aí eu acordei e eu vi que tinha essa reunião no banco e não tinha ninguém para me representar. Eu recebi uma mensagem e aí, na ocasião, meu gestor falou, Daniela, não tem ninguém para representar. Você disse que está bem, que foi só os pontos na cabeça. Você tem condições de participar da reunião?
Só uns pontos na cabeça.
Aí eu falei assim, não, eu estou bem. E eu tomei banho, me arrumei, coloquei meu tênis, meu terno, meu escarpão.
Tênis não, né? Você já era executiva.
Meu terno, meu escarpão e fui conduzir uma reunião. Como se nada estivesse acontecendo. Só que eu não olhei pra isso e depois nunca mais falei sobre isso. E você acredita que eu fui falar sobre isso agora no meu Instagram? Porque quando eu era executiva não tinha Instagram. Não pode ter exposição, porque a tua exposição conecta com o CNPJ da empresa, que é até uma outra mudança que eu fiz. Eu fui contar essa história, fui reviver essa história agora, há três meses atrás.
Vamos lá.
E nem isso me fez parar.
Então, você acredita em Deus?
Muito.
Eu também acredito, então eu vou falar para aqueles que acreditam em Deus ou numa força criativa. O mundo não está contra nós. Nós não estamos aqui para brigar com ninguém. À medida que você vai tendo presença e reconhecendo os sinais, você entende que está tudo, mesmo que pareça uma desordem, mas está tudo se movendo para a evolução. Nestes sinais, que podem ser no nosso corpo ou fora, esses sinais, eu acredito, que fazem parte da maneira com que o universo se comunique com você. Antes de eu ter o meu burnout, eu escorreguei dentro de casa Ninguém sabe disso. Eu escorreguei dentro de casa. Sabe quando você toma banho e sai com o corpo meio molhado e você anda rápido porque tá com pressa? Eu escorreguei. Cai pra trás. No que eu caio pra trás, nessa batida, nessa escorregada, eu quebrei o dedinho do pé. Mas até então, tá só doendo, né? Um dedinho. O que é quebrar um dedinho? E no dia seguinte, eu apresentei o jornal, inclusive. Fiz o plantão com cinco jornais. Eu trabalhei 12 horas. E me lembro, aí quando acabou o dia, que aí o pé não cabia no sapato, era um negócio bizarro. Ah, então eu vou no médico. E aí, dedinho quebrado. O que acontece com um dedinho quebrado? Você perde o equilíbrio de todo o corpo. Parece que é só um dedinho quebrado. Isso não me parou. Eu continuei trabalhando, com a botinha e tudo mais. Imagina o que era trabalhar com o dedo quebrado. Então, na hora que entrava no ar, você bota o sapato, sai do ar, aí vai lá capengando. Na hora que você tá no ar, você tá lá, todo mundo te vê, impecável. Mas só pega o raciocínio. Meses depois, o apresentador de um dos jornais que eu fazia quebrou a costela. Ele quebrou uma costela, sei lá, numa circunstância, e ele foi trabalhar com a costela quebrada. Assim como eu, com o dedinho quebrado. Por quê? Porque nós somos muito fortes. Ou seja, o universo tá te mandando sinais dizendo, olha só, esse ritmo que você tá não vai dar.
É isso.
E aí a gente ignora. Assim como ignora gripes recorrentes, alergia. e todas as manifestações do corpo. Bruxismo, enfim. Poderíamos trazer aqui uma lista enorme. Então, eu só quero pegar este exemplo, que é muito importante o que você está trazendo. E é curioso porque é por isso que nós precisamos conversar. Por isso que a comunicação é fundamental para a educação do tema. Porque se você olhar para a sua vida, provavelmente você está ignorando muitos sinais. E aí você fez a reunião depois do acidente, Como é que foi depois o pós disso? Você ficou no piloto automático, na adrenalina?
No piloto automático. A empresa nunca mais perguntou como estava. Eu também nunca mais falei a respeito. Tinha um incômodo, porque durante três dias eu ficava com aquele curativo branco estampado aqui.
E provavelmente você devia ser desculpada. As pessoas, aí, desculpa, tá? Tô aqui com curativo, né? Eu sofri um acidente, né? Tô aqui com um corte na cabeça. Mas desculpa, tá? A gente normaliza isso, Dani.
Normaliza, normaliza. E assim, e a vida seguiu. Seguiu. E no piloto automático, não parava pra pensar sobre isso. Eu lembrava dessa situação, né? Quando meu pai me mandava mensagem, porque ele faz uma oração todo dia.
Como é o nome do seu pai?
José Carlos.
Seu José Carlos. Um beijo, tá?
E assim, e a vida foi passando. E a vida foi passando no piloto automático.
Mas nessa vida passando, você foi acumulando mais sinais e sintomas?
Claro, claro. Muitos, muitos.
Além do divórcio e do acidente, o que mais aconteceu?
Teve o divórcio, teve o acidente, alergia crônica, uma rinite que não sarava. e eu ia fazer os exames e o médico falava que ela não aparece nada no exame.
Ah, é a poeira, é a primavera, é o outono, é o inverno, é verão. É, e tira tapete, tira cortinas e tira tudo.
No ambiente o negócio não melhora. Muita insônia, claro, dormia três horas por noite, quatro horas, né? Então, alimentação muito ruim. Então, assim, tinha vários sinais. Só que a gente vai falando, moxa, é cansaço, eu tô trabalhando muito. E o mais engraçado, que é o que eu penso hoje, é como que a gente precisa ter cuidado com o que nos nutre. Nesta ocasião, o que me nutria era quando um gestor ou quando alguém falava assim pra mim, nossa, Daniela, você parece um trator pra trabalhar. Você é uma máquina de trabalhar. Você é aquelas orca rólica, assim, do mais alto nível.
Que orgulho!
Que orgulho! Eu falava, nossa, gente...
Tô no lugar certo.
Tô no lugar certo, que a pessoa certa não era certa.
Muito bom isso em Brasil, atenção.
E aí, você fala, poxa, se eu estou sendo reconhecida, eu trabalho 15 horas por dia porque eu sou uma máquina, porque eu sou... Eu vou querer ser cada vez mais. Vou querer produzir cada vez mais. E o corpo vai cansando.
Esgotando, né? Até que, neste corpo esgotado, vai acontecer alguma situação com características de assédio, e aí acontece o burnout. Dani, quando eu falo sobre isso, recentemente eu até comentei, cuidado líderes que estão adoecendo as pessoas, porque vocês também podem estar doentes. Atenção, você só promove saúde quando você experimenta saúde. Você era líder? Também. Então você adoeceu também. O que aconteceu? Mesmo sendo líder, quem é que estava, foi alguma situação acima de você ou os seus pares que te desrespeitaram? Você consegue ter essa clareza? Por exemplo, qual foi a gota que transbordou o copo?
Claro, consigo. Inclusive, é a história do meu livro, que eu falo muito de liderança feminina, que foi quando eu fui para uma organização, para uma empresa, que durante muitos anos nunca tinha sido liderado por uma mulher, uma diretoria de negócios, e quando eu cheguei lá, eu senti na pele a rejeição por ser uma mulher no comando.
É mesmo?
É. E aí foi quando eu tive a síndrome da impostora, que antes do burnout eu tive a síndrome da impostora. Porque eu tava no auge da minha carreira, no auge. Então, eu tinha todas as qualificações, todas as competências. Eu saía de um lugar pra outro melhor, ganhando mais. Aquela loucura, né? Aquela... A executiva realizando todos os sonhos, sendo admirada. Como que ela consegue ter uma carreira dessa? E aí, no auge da pandemia, Eu recebi uma super proposta pra trabalhar com turismo no auge da pandemia, no início da pandemia. Tudo fechado. Aquela coisa toda. Eu falei, nossa, que legal.
Que desafio.
Que desafio. Agora... Agora eu vou fazer um negócio que eu nunca fiz. E meu nome vai ficar pra história.
Total.
Agora vai ter conhecimento. E eu estava num lugar, numa outra organização, que eu era muito reconhecida. Ganhava prêmios, subia no palco, tudo isso me alimentava muito. Eu estava no auge da minha carreira. E quando eu cheguei nessa empresa, eu falei, vou fazer história. Porque vou ser a primeira mulher a assumir o comando dessa empresa. E eu vou abrir espaço para outras mulheres. E quando eu cheguei lá, me apresentei no dia da minha posse, na sequência, eu ouvia comentários, porque foi um anúncio pelo Zoom, pandemia, tudo fechado. Assim, uma mulher no comando? Nós não aceitamos ser liderados por uma mulher. mulher, nem gerente de banco.
Você tá falando daquela empresa de três letras?
É.
Sério?
É. E aí eu senti, assim, foi um impacto muito grande, porque eu falei, uau, mas foi a questão do gênero mesmo. Ali, eu falei assim, gente, peraí, acho que o negócio não vai ser tão fácil, porque já estamos numa pandemia. faturamento negativo, todo mundo a flor da pele, com medo de morrer e ainda o bloqueio por uma questão de gênero. Não. Agora que eu vou me dedicar e vou mostrar que uma mulher é capaz de sentar numa cadeira de comando.
Aí o bicho pegou.
E aí o que que aconteceu? Ali foi quando eu troquei. De fato, como eu não tinha clareza muito arcarólica, eu comecei a trabalhar cada vez mais. A querer agradar essas pessoas cada vez mais. A querer entregar resultados cada vez mais. Era tudo mais. Era tudo mais. E eram piadas. Ela é uma mulher. Tinha memes, eu na cozinha. Poxa, lugar de mulher em casa, não é aqui.
Foi.
Tinha muita coisa. Era muito duro isso. Eles não aceitavam. Foi um bullying coletivo?
Foi, foi, foi.
E as pessoas comentavam isso, né? E eu lembro que a minha equipe fazia um esforço grande e falava o seguinte, não, Daniela, mas o problema não é com você, porque você é mulher. Por isso que eu falo muito de liderança feminina. Só que aquilo, eu quis tanto entregar resultado, eu quis tanto agradar, eu quis tanto ser aceita, por ser uma mulher no comando, que eu perdi a minha clareza. a minha capacidade de analisar o ambiente. Eu adoeci e um burnout me tirou do jogo corporativo.
Além desse bullying coletivo, teve alguma outra situação de algum par ou líder seu ou acima seu que pode ter contribuído para isso?
Na verdade, nada explicitamente. O que eu falo muito para os RHs é que quando eu tive esse burnout e eu sentia muito essa pressão, eu acabei mostrando a minha vulnerabilidade até para o RH. Eu tô bem cansada, né? Eu tô bem exausta.
Você tá chamando o cansaço de vulnerabilidade?
É, na verdade, na época eu chamava de vulnerabilidade porque é isso que chegou. E aí eu falei assim, poxa, e tem essa questão, ah, mas Daniela, mas é porque você também, eles não aceitam uma mulher. Tanto que o meu sucessor foi um homem, tá? O meu sucessor foi um homem.
Ah, não.
É, porque assim, tinha uma pressão muito grande de não ter a mulher naquele comando. Inclusive pelos fornecedores, pelos parceiros. Era uma pressão diária, todos os dias, todos os dias, e meu sucessor foi um homem, tá tudo bem. Tá tudo bem pra eles, não pra gente, por isso que é uma bandeira. E na época, quando eu falei sobre isso, o que eu ouvi foi o seguinte, não foi do meu gestor, não. Ele até fez muito esforço, ele colocou mulheres, porque não tinha nenhuma mulher no board. Quando ele assumiu, ele colocou.
Estamos falando de uma empresa de lazer, tá, gente?
É.
Uma empresa de... que vende lazer. Porque, de repente, você vai falar, uma empresa de... trazendo aqui todo o machismo estrutural, uma empresa de construção civil, uma engenharia naval. Não, eu estou falando de uma empresa de lazer.
Exato, de turismo. Então eu sentia muito isso na pele. E aí o que eu ouvi na ocasião é falar o seguinte, poxa Daniela, uma executiva do tamanho da sua responsabilidade não pode ter vulnerabilidades, não pode ter essas questões emocionais, porque tem muita coisa em jogo, tem muita coisa em risco. E aí eu saí de lá dizendo o seguinte, poxa, eu não posso ter isso mesmo, isso deve ser mimimi, eu tô num alto escalão, eu não posso ter burnout, eu não posso ter exaustão, eu não posso ter isso. E aí foi quando eu comecei a ficar muito sozinha com isso e cada vez mais tentando estar num lugar onde, de fato, não me cabia. Primeiro, porque eu era mulher. Segundo que, Todo mundo, todo mundo não. Muitas pessoas de grandes corporações têm o seguinte discurso. Eu tenho mulher na liderança, eu coloco mulher na liderança. Desde que a pressão de baixo não ameace a entrega do seu resultado, porque você tem uma mulher no comando e a pressão é para ter um homem. Porque se isso acontecer, o discurso cai por terra.
Não adianta colocar mulheres no trabalho e não deixar que elas trabalhem.
E o que mais me chamou atenção na ocasião, quando tinha muito isso de ser uma mulher no comando, e que eu falo da falta de sororidade no meu livro, é porque mulheres também tentavam me tirar do cargo, a qualquer preço. E teve uma parceira de 20 anos que começou a fazer todo um esquema lá. pra me tirar do cargo e eu falei, gente, mas a gente nem... nunca tivemos um problema e eu, naquela paixão toda pela empresa, chamei pra conversar e falei o seguinte, olha nos meus olhos o que que tá acontecendo.
E aí?
Que você foi fazer uma reclamação pro meu CEO, sendo que a gente não tem problema nenhum. E ela olhou nos meus olhos, uma mulher bem mais velha do que eu, falou o seguinte, sabe qual que é o problema, Daniela? É que você é mulher. Eu sou machista e eu não quero ser liderada por uma mulher. Faz 50 anos que eu tô nessa empresa e que eu sempre fui liderada por um homem, eu gosto de ser liderada por um homem. Toda vez que eu abro a câmara e que eu vejo que você aparece sendo uma mulher, dizendo o que eu tenho que fazer como estratégia, eu me sinto mal. Eu sou machista. E aí tudo isso nasceu, Mulheres que lideram jogam juntas, que eu falo, da importância de não negligenciar a sua vida. A síndrome da impostora. Eu tive a síndrome da impostora.
Eu também.
A síndrome do burnout. A falta de sororidade. Entre as mulheres, num alto escalão, no mercado corporativo, que é a minha experiência, que a sororidade, ela constrói carreiras, mas a falta de sororidade destrói carreiras. Pra dizer o seguinte...
Destrói vidas, né? É.
Pra dizer o seguinte, gente, não dá mais para a gente ser tolerante com assuntos tão sérios, tão importantes, que é lindo no discurso, mas que na prática não acontece. E quando eu estava escrevendo esse livro, algumas pessoas sabiam que eu estava escrevendo esse livro, me ligaram e falaram, Daniela, eu gosto muito de você. Esquece essa bobeira. Você será cancelada no mundo corporativo se você continuar falando desses temas. Mas o meu desejo de transformação, de ressignificação, é muito maior do que o medo de ser cancelada no mundo corporativo.
É porque, na verdade, a nossa missão com o que nos aconteceu é muito maior do que qualquer mentalidade indisposta a evoluir. Essa é a questão. O Dani, eu tô chocada com tudo que você tá dizendo. Quero agradecer a Ana Paula Rodrigues, que nos conectou. Aninha, muito obrigada, minha querida. Você falou, a sororidade constrói, a falta de, destrói. Muito bem. Eu me lembro de ter ouvido de uma das minhas líderes, quando eu voltei da minha licença médica, assim, isso aí que você teve, eu fiquei um fim de semana no hospital e melhorei. E quando você fala dessa funcionária que verbalizou que se incomodava com a sua presença, uma mulher se incomodando com uma mulher no cargo, é o que eu quero só te chamar a atenção sobre machismo estrutural. E aí a gente poderia ficar aqui horas para explicar o que é machismo estrutural. Machismo estrutural é quando uma mulher não consegue Ficar confortável na presença de uma outra mulher. Esse é um exemplo. Porque de repente parece que machismo estrutural é uma coisa só dos homens. Não, é das mulheres. É de toda uma sociedade que atribui à gente milhares de tarefas que não precisam, não podem mais, inclusive. Mas quando você coloca no livro, construa uma cultura de sororidade no ambiente de trabalho e cresça como nunca, Nós temos um trabalho dobrado, porque não é só ter mulher junto, é ter uma mulher que te veja como uma aliada, uma conquistadora, uma aliada.
E se orgulhe disso e fique feliz por você. Mas a competição desmedida entre as mulheres no ambiente corporativo é algo que realmente precisa ser revisto.
É mesmo? É.
No empreendedorismo agora, tem, mas é diferente do que nas grandes corporações. Porque a mulher, naturalmente, ela demora mais para chegar ao alto escalão, ao posto gerencial de liderança do que os homens. E quando ela chega, ela enxerga a outra mulher como concorrente, porque ela não quer perder aquele espaço que foi tão difícil ela conquistar. Então, ela se alia a um homem. Porque ela se sente muito mais protegida tendo um homem como aliado do que uma mulher que ela sente competindo. E isso é muito triste. Chega a ser cruel nas mesas de negociações. Chega a ser cruel.
Dani, você acredita que você pode ter buscado reconhecimento no lugar errado?
Com certeza, com certeza.
Você sabe que eu demorei alguns anos para uma terapeuta me dizer que quando a gente busca reconhecimento de pai e mãe no trabalho, vai dar ruim. É.
Exatamente.
A gente busca o reconhecimento, né, de que não é... nós não vamos conseguir um reconhecimento familiar, por exemplo, no ambiente de trabalho. Ele nunca vai vir. Faz sentido isso pra você?
Total. Total. Porque, assim, quando você é uma pessoa muito comprometida com o trabalho e você abre mão de uma vida pessoal em prol do trabalho, que foi o meu caso, o que acontece? Você romantiza o trabalho. E quando você romantiza o trabalho, você acha que o seu chefe é o seu pai, que os seus pares são os seus irmãos e que os seus funcionários são os seus filhos. Só que família não demite na primeira crise. Família divide as tarefas, E acolhe. E quando você percebe que você romantizou o teu trabalho, que você confundiu, buscou ser amada, ser aceita e ser preenchida neste lugar, que é um lugar de resultado, que é um lugar de dinheiro, de status, você só percebe quando você adoece. Então, não espere adoecer pra poder buscar uma nova vida. Perceba os sinais. Você falou uma coisa que eu adoro, que é o corpo dá sinais. E eu sempre falo, nosso corpo é fofoqueiro. Ele está contando pra gente que algo não está bacana. Só que a gente não escuta, sabe por quê? Nós estamos com uma surdez na alma. E essa surdez faz com que a gente perca todos os nossos limites.
Exato.
No lugar errado e com as pessoas erradas.
Sim. Concordo com você. Muito profundo isso que você disse. Então perceba, né, se você não está surdo, cego, mudo, diante de coisas que você não deve. Mas a gente vai normalizando. Até que... Vem um freio chamado burnout ou outro problema de saúde e vai fazer você tomar uma decisão, né? Se não foi pelo amor, vai ser pela dor. Quem quer adquirir o seu livro, editora? Gente, excelente, Rosília. Que bom que você aprovou esse livro aqui. Exercer a liderança ao lado de outras mulheres em curta caminhos e ampliar o olhar à frente da sua vida, da sua carreira e da sociedade. Estou bem feliz em te receber aqui no Interioriza. Muito honrada em me ver aqui no seu livro. Agora eu entendi por que você destacou a frase, eu aprendi que você pode vestir a camisa da empresa, mas também pode e deve vestir o pijama. Porque a gente abrindo mão do sono, o doutor Pablo Vinícius, ele fala, um psiquiatra, a mãe de todas as doenças é a privação de sono.
Hoje eu concordo. E eu luto com unhas e dentes para manter o meu sono em dia.
Duas, gente, aqui, separadas na maternidade. Muito obrigada, Dani. Então, o seu livro, Daniela Bertoldo, quem quiser continuar te acompanhando, linkadinho ao Instagram.
Os dois. Instagram, arroba Daniela Bertoldo, oficial, e LinkedIn, Daniela Bertoldo.
Muito obrigada, seguimos juntas e conte comigo pra gente ampliar essa mensagem de autocuidado e respeito. Respeito é uma palavra que não precisaríamos explicar muito, mas só estamos falando de respeito. Se respeite, que o mundo vai te respeitar. Até mais. Um brinde com a nossa super caneca.
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