Síndrome de Burnout tem cura? - Entrevista com Dra. Mara Maranhão | Izabella Camargo

This content was created by GHION.AI . This content was uploaded by GHION.AI . This is a YouTube video titled "Síndrome de Burnout tem cura? - Entrevista com Dra. Mara Maranhão | Izabella Camargo" created on January 23, 2019. It features a conversation in Portuguese between Izabella Camargo and psychiatrist Dra. Mara Maranhão discussing the nature, symptoms, and treatment of Burnout Syndrome, including its differentiation from depression and its impact on personal and professional life.
Chapters
Hoje quem vai conversar conosco é a psiquiatra Mara Maranhão, que está me ajudando a desmistificar a Síndrome de Burnout. Doutora, muito obrigada pela sua ajuda.
Prazer.
É muito importante a gente explicar e entender melhor essa síndrome, que tem muita gente dizendo que ela é do momento. Ela é uma síndrome só agora, né, de 2000 pra cá ou não? Antes já existia?
Não, assim, o Burnout já existia há muito tempo, ele só foi nomeado mais recentemente. E o burnout é uma doença, uma doença ligada às funções profissionais e, classicamente, às funções que envolvem cuidado com pessoas ou interação com pessoas. Então, assim, foi descrito muito no contexto de profissionais de saúde, que envolve cuidados com a saúde, intensos e contatos prolongados com os indivíduos, com pessoas.
É bastante cobrança, né?
Sim.
Mas médicos, veterinários, quem mais você inclui nesse pacote que está super vulnerável ao burnout?
Pessoas que trabalham em organizações que envolvem metas muito... que envolvem atendimento a público, contato com pessoas prolongado, são funções em que a pessoa não trabalha isolada, em que ela interage em equipes, e que ela precisa fazer essa ponte entre o trabalho com a equipe e o trabalho com o indivíduo. E hoje, o que significa o burnout? Como que a gente pode definir essa síndrome? Ela tem três dimensões. Então, ela tem uma dimensão que é a dimensão da exaustão emocional, tem uma outra dimensão que é do distanciamento afetivo, que isso é muito importante para caracterizar a síndrome, E uma terceira dimensão que é uma baixa sensação de realização profissional, uma sensação de não realização na profissão.
Desvalorização?
De desvalorização.
Muita gente tem perguntado se o burnout é depressão. ou se eu estiver com uma estafa, isso também se caracteriza com o burnout. Como é que a gente pode dividir ou diferenciar?
É difícil mesmo caracterizar o burnout. E os sintomas, eles se superpõem, eles se confundem muitas vezes com sintomas de outros problemas psiquiátricos e às vezes até de algumas doenças físicas, de problemas clínicos. Na verdade, são coisas diferentes. Burnout é diferente de depressão. De fato, quem tem depressão ou tem histórico familiar ou pessoal de depressão tem mais suscetibilidade, tem mais vulnerabilidade no ambiente adverso de trabalho de ter um quadro de burnout.
Deixa eu repetir. Então, quem tem depressão ou tem alguém na família vai ser mais fácil adquirir a síndrome se o ambiente de trabalho não estiver de acordo com o que ele pensa que é adequado.
Exatamente. Então a pessoa tem uma vulnerabilidade biológica. Isso não significa que ela vai ter o quadro. Ela só vai ter o quadro se o ambiente tiver as características para desencadear um quadro como esse.
Sobre a depressão, que nós estávamos falando.
São coisas diferentes.
Burnout é diferente de depressão. Quem tem depressão tem mais possibilidade de desenvolver burnout.
E quem tem burnout tem mais chance de deflagrar um quadro depressivo.
Não necessariamente juntos.
Mas os estudos mostram que não são a mesma coisa. É uma entidade, uma categoria diagnóstica. Quando a gente define o burnout, a gente não diz que é uma depressão cujo fator desencadeante foi um ambiente de trabalho adverso. Então, é uma categoria separada. De fato, quem tem burnout pode desenvolver um quadro depressivo, inclusive com ideação e tentativas de suicídio. Tem até alguns fenômenos, principalmente em outras culturas, como, por exemplo, a japonesa, que existe até um nome específico.
Karoshi.
Karoshi.
Literalmente se mata de trabalhar. Ela trabalha até chegar ao seu limite.
É o desgaste.
A pessoa está se sentindo realmente desgastada. Isso é burnout.
Não. Então, o desgaste emocional e o desgaste físico, a sensação de fadiga, de exaustão, embora o nome, o burnout, a gente fala que o burnout é a exaustão emocional, não se reduz só a esse sintoma. Então, esse é só um dos sintomas. Essa dimensão que eu falo de exaustão emocional, ela inclui também outros sintomas. Então, pra você ter a síndrome, não só você tem que ter a fadiga e o cansaço constante, essa sensação de estafa, como a gente fala, Mas também você tem que ter as outras características, como eu falei, né? O distanciamento afetivo e a sensação de não estar realizada com o que tá fazendo, com o trabalho que tá desenvolvendo. Mas essa dimensão da exação emocional inclui outros sintomas, inclusive sintomas físicos. Então, o cansaço, a fadiga, o desânimo, a falta de concentração. a suscetibilidade a problemas de saúde, por exemplo, gripes frequentes, resfriados frequentes, insônia, crise de choro, uma sensibilidade exagerada ao que está acontecendo.
Isso por muito tempo, não é só uma vez por mês.
Então, o burnout é uma resposta do organismo a uma situação que não é pontual. Ela é uma situação prolongada de estresse. O indivíduo começa mobilizando. Todos nós temos, em maior ou menor grau, capacidade de nos adaptar a condições adversas. Então, quando a gente está numa situação adversa, a gente mobiliza essa capacidade de se adaptar. Então, quando o nosso organismo já usou, já exauniu todas essas possibilidades, aí é que se desenvolvem os sintomas.
Agora, tirando a depressão, tirando esse cansaço, como a doutora está colocando, ela não é pontual, não é uma vez por mês, uma vez ou outra, ela é frequente. E tem também uma questão de adaptação ao ambiente profissional, ou seja, a pessoa também já tentou fazer de tudo que ela poderia, certo?
Sim. No geral, a gente fala dos fatores de risco, falando do ambiente profissional. Então, são várias as situações no ambiente profissional que podem desencadear, se prolongados e intensos, desencadear um quadro de burnout. Então, entre eles, a falta de autonomia do profissional, Ambientes de trabalho que são desfavoráveis em termos de ruído, barulho, horários, carga de trabalho, acúmulo de função, uma coisa muito descrita, dificuldade de relação com os pares e com os superiores. a questão do assédio no trabalho e também a dificuldade de progredir, a falta de perspectiva de crescimento profissional também é uma das outras coisas que frustra o indivíduo e se isso é algo que não tem modificação ao longo do tempo e ele se sente sem saída.
Agora o burnout é só desenvolvido no ambiente profissional ou ele pode também acometer pessoas fora do ambiente profissional? Eu tenho recebido muitas perguntas de pessoas que estão cuidando de seus idosos ou de pessoas doentes na família e com isso acabam perdendo a própria agenda. O burnout pode acontecer fora do ambiente profissional?
É que a gente coloca o nome burnout, a gente dá pra uma síndrome que está classicamente relacionada a vivências do ambiente de trabalho. No entanto, um quadro semelhante, idêntico, pode acontecer em qualquer situação em que o indivíduo se desgasta no cuidado com o outro. E é muito comum entre cuidadores Entre pessoas que têm parentes adoecidos há muito tempo, com doenças graves, idosos e que precisam de terceiros para fazer qualquer coisa, que são totalmente dependentes, essas pessoas estão muito vulneráveis aos sintomas do que a gente chama de burnout.
Ou seja, também está trabalhando, mas não no ambiente corporativo como a gente está acostumado a ver.
Exatamente.
E remédio, doutora? Que horas que a pessoa que desenvolve a síndrome de burnout vai precisar tomar um remédio?
A pessoa sozinha não vai conseguir avaliar isso. Então, a partir do momento em que existe um comprometimento do funcionamento global, mas em qualquer ambiente, não só profissional. Então, quando existe um comprometimento do funcionamento global do indivíduo, tanto na área profissional quanto na área pessoal, a gente passa a considerar isso um problema ou uma doença. Então é por isso que a gente não reduz o cansaço. A gente fala comumente, estou com estafa, estou muito cansada, estou com fadiga. Isso não é burnout. Isso é um sintoma do burnout. Mas a síndrome, isso é considerado uma doença justamente porque compromete o funcionamento do indivíduo. E a partir desse momento é que precisa de tratamento.
E aí o tratamento vai ser com remédios, além de terapias alternativas.
Além de terapias. E aí mudanças de estilo de vida que venham a calhar, né? Então, por exemplo, mudança na alimentação, atividade física, sono, horários pra ter as refeições, isso tudo é muito importante pro bem-estar de uma maneira geral e pra recuperação, inclusive pra pessoa conseguir responder à medicação.
Curioso porque tudo isso que você tá dizendo são coisas básicas da nossa vida, né gente? Horário pra dormir, horário pra comer, horário pra descansar. Ou seja, é você voltar a pensar em você.
Exatamente.
Agora, quando você faz o tratamento, aparentemente você tem uma melhora. Eu costumo ver aquele exemplo da ponta do iceberg, né? Então, ali tá tudo bem, mas embaixo tem um volume muito maior. Então, quem tem a síndrome de burnout, tomou remédio por um tempo, ou seja, saiu por uma licença, volta a trabalhar, ela está de alguma maneira impossibilitada de trabalhar ou não, enquanto ela está se medicando?
A gente tem que pensar em cada caso. Então, na verdade, esse exemplo que você disse, da ponta do iceberg, é muito verdadeiro. Os sintomas, eles só são aquilo que a gente enxerga. Antes disso acontecer, várias coisas aconteceram do ponto de vista biológico, bioquímico. Então, para os sintomas acontecerem, outras mudanças aconteceram antes e elas não são vistas. Então, por exemplo, alterações de neurotransmissores, alterações do eixo hipotálamo e pós-adrenal, que é o chamado eixo do estresse. Então, tudo isso acontece antes dos sintomas se desenvolverem e junto com os sintomas. Então, quando você faz o tratamento, os sintomas melhoram. Mas isso não significa que você ainda não está vulnerável. Então, isso não significa que você pode voltar normalmente ao trabalho. Isso depende de caso, de cada caso. Existem casos em que as pessoas têm quadros mais leves, que fazendo ajustes, esses ajustes no estilo de vida e com a medicação, a pessoa consegue retomar sua atividade. Existem outros casos, principalmente nos casos crônicos. A cronicidade é um fator de mal prognóstico. Então, as pessoas se relacionam sintomáticas há muito tempo e se os sintomas são mais intensos, se existe ideação suicida associada, se existe alterações mais graves de humor, a pessoa pode demorar muito mais tempo para voltar e ter capacidade para retomar suas atividades profissionais. Isso não se reduz ao período só dos sintomas. A pessoa pode melhorar os sintomas e precisar continuar em tratamento. Então, ela tem um período em que ela está vulnerável depois que ela tem uma melhora do quadro.
Ou seja, então quando a pessoa descobre a síndrome de burnout e volta a trabalhar, não necessariamente ela já está 100%. Ela está se recuperando.
Exatamente. Até porque, a gente fala, né, diferente de outras áreas da medicina em que você viu o problema, você agiu sobre ele e você está curado, O que a gente fala na psiquiatria, a gente usa muito mais um conceito de cura funcional. Então, você está sem sintomas, você está em remissão de sintomas, mas isso não significa cura.
Eu percebi isso comigo mesmo. Quando eu voltei a trabalhar, eu me sentia muito apta a trabalhar, continuem em tratamento, né? E quando a síndrome realmente apareceu, eu não conseguia compreender uma frase. Então o burnout, ele incapacita momentaneamente.
Temporariamente. mas... Mas temporariamente. E o objetivo do tratamento é a remissão completa. Então é que a pessoa... Isso varia muito de uma pessoa para outra, mas pode demorar desde dois ou três meses até mais de um ano, em alguns casos. Principalmente nos casos em que a pessoa já tem um antecedente de problemas psiquiátricos. E se ela tem outros quadros psiquiátricos associados, como por exemplo, dependência de substâncias, depressões graves com ideação suicida, aí o tempo de tratamento pode se prolongar bastante.
Você como psiquiatra, Mara, qual recado você gostaria de transmitir para quem está nos assistindo sobre a síndrome de burnout? Já que agora esse é o assunto do momento em que muitas pessoas estão se reconhecendo nos sintomas, estão se reconhecendo nas falas de várias pessoas que agora estão realmente assumindo que tem.
Qual é o seu recado? Eu acho que é muito importante a pessoa trabalhar a questão do estigma que existe com relação a isso e não ter medo de procurar ajuda. Então, o sofrimento psíquico, ele merece atenção como qualquer outro tipo de sofrimento. E ainda mais, porque o cérebro é o órgão do qual tudo depende. Então, se você tem um sofrimento, que não se considere isso fraqueza e que se busque soluções. Muitas vezes, a pessoa se considera que isso é uma fraqueza. Existe muito, até a pessoa buscar ajuda, buscar apoio ou abrir que ela tem um sintoma. ou que ela tem um quadro que está atrapalhando o desenvolvimento dela no trabalho, ela sofre sozinha. Então, isolamento é uma coisa muito complicada. Então, uma vez que você está sentindo, você tem dificuldade, seu desempenho está comprometido, busque ajuda, compartilhe isso com as pessoas, inclusive com os superiores dentro do ambiente de trabalho, e também com as pessoas de casa, familiares, e se possível busque uma avaliação. Que um outro profissional, um profissional da área da saúde mental, ele pode ajudar a esclarecer os sintomas.
Doutora, se a gente pudesse fazer aqui uma bateria de perguntas, eu lhe perguntaria, então, burnout é uma doença que pode acometer homens e mulheres?
Homens e mulheres.
Tem tratamento?
Tem tratamento.
Mas varia de tempo?
Sim. O tratamento é individualizado.
Individualizado. Não é porque uma pessoa está com alguns sintomas que a outra vai ter os mesmos sintomas.
Exatamente.
Agora, o tratamento medicamentoso, ele é necessário para a recuperação dos neurotransmissores? Isso é fundamental, além da mudança do estilo de vida e, se puder, do emprego, não é?
Exatamente. Ou então, mudança nas situações, se for possível, se houver essa possibilidade que se converse dentro do ambiente profissional. Muitas vezes, essa própria... porque é um prejuízo não só para a pessoa, para o indivíduo, mas também para a empresa.
Com certeza.
As taxas de absenteísmo do trabalho das pessoas que têm burnout são muito altas.
É mesmo?
Sim.
Tem aumentado?
Tem aumentado. Por quê? Porque a questão do acúmulo de funções é uma coisa cada vez mais presente. Então, o indivíduo é aquilo que ele produz e as metas são cada vez mais altas. Então, é muito difícil a pessoa conseguir atingir as metas que são colocadas. Existe uma sensação de frustração constante com relação a isso. Então, se for possível estabelecer novos paradigmas para o trabalho e novos objetivos, muitas vezes a pessoa pode se reinserir no mesmo ambiente profissional, mas de uma outra forma.
Doutora, uma das características do burnout é o distanciamento afetivo.
Exatamente.
Explica isso melhor pra gente.
O distanciamento afetivo é uma das dimensões centrais do burnout. Como o próprio nome diz, a pessoa começa a se sentir anestesiada, com as emoções anestesiadas. Muitas vezes os pacientes referem isso. Então, eles não se sentem mais afetados por nada e muitas vezes até desenvolvem um jeito um pouco cínico de falar a respeito das próprias dificuldades, que acaba muitas vezes afastando os colegas, afastando os pares no trabalho e prejudicando o desempenho e o relacionamento profissional.
Qual a diferença do distanciamento afetivo do tá tudo bem? Porque a gente conhece muita gente, tá tudo bem? Você tá vendo que a pessoa precisa de ajuda e ela fala, não, tá tudo bem. Ou seja, ela não tem nem coragem de dizer que não está bem, não é?
Exatamente. O que diferencia muitas vezes é essa característica do cinismo. Então, é aquele distanciamento que tá sempre trazendo à tona as questões, as dificuldades, mas de uma forma, de uma outra forma. Então, assim, sempre aquele humor negro sobre o que acontece, e muitas vezes parecendo não se afetar com o que acontece ao seu redor, com o sofrimento alheio, e é uma coisa que traz sofrimento, inclusive, para o indivíduo que tá sofrendo disso, né, que tá passando por isso. Ele perceber que ele não se comove com as coisas difíceis, como ele se comovia antes, Não só ele se sente triste, muitas vezes ele se sente sem sentimentos. Ou seja, tá anestesiado emocionalmente.
E aí vem o burnout que eu costumo dizer, síndrome de burnout é um freio. É um freio que você tá recebendo do seu corpo pra você parar, reavaliar, repensar. Então, doutora, eu agradeço demais a sua participação e quero dizer pra você que Se há alguém na sua família ou no seu trabalho e você desconfia que alguém está passando pela síndrome de burnout, por favor, transmita um recado. Além dessa pausa voluntária, antes que aconteça uma pausa involuntária, escreva pra gente, tratandoburnout, arroba gmail.com, que já já nós vamos conectar todas essas pontas e vamos compartilhar então essas histórias pra que mais pessoas se cuidem e não precisem parar dessa maneira, tá certo? Obrigada, doutora.
More from GHION.AI

O processo de reconhecer limites, mesmo quando a vida parece exigir sempre mais.

Depois de tantas histórias, aprendizados e pausas necessárias, o @interior_iza está de volta








