Ter a Pia: Como a história do outro pode nos transformar? - Alexandre Simone e Lucas Galdino - EP09

Isabela talks with Alexandre Simone and Lucas Galdino about their book A História do Outro Muda a Gente and the origins of their washing dishes interview format. They discuss how listening to others' stories, including one about HIV and stigma, can transform people and communities through vulnerability and personal narrative.
Chapters
Oi, bem-vindo ao Interioriza! A partir de agora você já sabe, 30 minutinhos ou perto disso, com ideias que podem te inspirar, podem contribuir para você tomar melhores decisões. Mas para que, Isabela? Para viver melhor, não é para isso que nós estamos aqui? E hoje eu tenho dois convidados que Quando me convidaram para uma entrevista lavando louça, eu não tive dúvidas que seria um episódio que levaria muita informação para quem precisa. Eu espero então que hoje, aqui com os meninos do Terapia, você também receba informações tão importantes como as que vocês me deixaram compartilhar. Ale, muito obrigada. Lucas, muito obrigada por estarem aqui.
A gente que agradece. É ótimo esse reencontro nosso.
Não é? Coisa chique. Uma hora eles me Me entrevistam lavando louça, outra hora eu os entrevisto. Meninos, e eu estou muito feliz que vocês lançaram um livro há pouco tempo, esse aqui, "A História do Outro Muda a Gente". E vou mostrar aqui nessa câmera, ó. "A História do Outro Muda a Gente". E é interessante que toda a plástica do livro está em ponto cruz. E aqui está dizendo: "Por que precisamos ouvir as pessoas?" Por que precisamos ouvir as pessoas? Alexandre.
Acho que com essa pergunta que a gente começa tudo, assim. É. A gente sempre acreditou, acho que eu e o Lucas somos apaixonados por pessoas. E por conhecer a história das pessoas. Eu tinha uma brincadeira de, sei lá, de 15 anos, eu falava assim: "Como que é a sua rotina?" Aí a pessoa falava: "Ah, acordo tal hora, depois tal hora..." Aí você falava: "Ah, que interessante, ele se organiza diferente que eu." Legal. E aí você já começa a perceber que você vai descobrindo coisas do outro, né. E aí coisas talvez que encaixam pra gente. Mas acho que a gente acredita muito que quando a gente escuta o outro, até o que você falou da gente se organizar, da gente se... Como que a gente faz pra ser feliz? Talvez seja ouvindo o outro também, percebendo, descobrindo coisas em nós. E quebrando paradigmas que a gente tem, né? Porque às vezes a gente tá cheio de preconceito, a gente só consegue quebrar eles ouvindo a outra pessoa. E entendendo que atrás de toda bandeira, toda pauta, tem sempre gente. E quando a gente entende a pessoa, talvez fique mais claro, né?
Maravilhoso! O Ale, você é radialista e o Lucas é jornalista. Vocês se conheceram na profissão? Se conheceram na vida? Como é que foi?
Na vida e na profissão, né, Ale? Porque assim, eu trabalhava numa redação, fazia agenda cultural, então sempre tava envolvido procurando artistas, shows e tudo mais. E o Ale era social media de alguns artistas. E trabalhava com assessora de imprensa, que eu tava sempre em contato. E aí a gente acabou se conhecendo nesse meio tempo aí. E aí, ali a gente começou a namorar. E juntos, os dois, né, namorando ali, criam terapia, né. Hoje a gente não é mais um casal.
Gente, só esse assunto daria outro programa. Mas eu juro que eu preciso me concentrar no livro. Como é que duas pessoas que já se relacionaram continuam trabalhando juntos sem se relacionar?
E dá certo, eu acho que dá mais certo do que namorando.
É mesmo? Não é? Não, nós não podemos perder o tempo com isso aqui, gente.
Mas eu acho que é justamente porque a gente ouve tanta gente, ouve tantas histórias, que a gente aprendeu que existe um caminho possível pra nossa relação. A gente até escreve no livro, né? Tem um capítulo chamado Relações, onde a gente coloca essa história nossa de por que que nosso relacionamento acabou. E não é uma tristeza que acabou. Não é porque acabou que foi um fracasso. Na verdade, foi só uma potência. A gente tem um projeto incrível, a gente somos muito próximos, né, Ale? A gente viaja, a gente tá combinando, viemos pra cá combinando nossa próxima viagem juntos, assim. A gente é muito amigo, muito próximo. E é através das pessoas, dessas outras vivências que a gente entendeu que existem muitos caminhos pra gente seguir.
E sabe uma coisa louca que aconteceu? Na semana que a gente tava terminando, a gente foi gravar uma história. Por acaso, sei lá, coisas do universo, a mulher contando que ela tinha terminado com o marido e eles têm um filho juntos e se dão super bem e sai ela namorada do marido. E aí no dia eu falei: a gente tá gravando essa história bem hoje, perto da gente terminar, talvez significa alguma coisa, tá aí uma história pra gente aprender alguma coisa.
Claro, isso pra mim significa maturidade. Quando eu fico brincando com vocês: ah, eu não acredito. Na verdade, eu parabenizo vocês dois pela maturidade em conduzir uma relação super estável, profissional, mesmo não estando mais juntos. Sempre me incomoda assim, ao ponto de entristecer, quando eu percebo casais que viveram tantos anos juntos e param de falar ou começam a brigar. Gente, não faz sentido. Mas isso é outra conversa. Vamos voltar aqui para a história do Outro Muda a Gente. Aí, Lucas e Alexandre, vocês se conheceram lá atrás, aí rolou, vamos gravar um programa. Ouvindo histórias de pessoas, lavando louça. Como é que vocês chegaram no Terapia?
Então, a gente tinha essa dinâmica de, sei lá, o Ale chegava do trabalho, eu tava em casa. E na minha antiga casa tinha um balcão na cozinha. E enfim, o Ale chegava, por exemplo, encostava no balcão, tava lavando louça e a gente conversava sobre o dia.
Que legal!
E aí, numa brincadeira, a gente indo pro aniversário, né, Ale? A gente olha, a gente já tava querendo conhecer histórias novas. Só que a gente não queria fazer um formato de entrevista convencional, porque a gente queria fazer alguma coisa diferente. E aí, um olha pro outro assim, no carro de aplicativo, e fala: "Ah, vamos pôr o pessoal pra lavar louça?" Eu acho que a gente tinha acabado de deixar uma louça suja, né, em casa. E aí, um olha pro outro, fala: "Ah, acho que não, mas de repente pode ser muito sério." Aí você ainda falou: "Ah, podia chamar a pia." E eu falei: "Ah, que idiota!" Tá ligado?
Aí a gente falou: "Ah, talvez. Não seja idiota, não. Vamos testar." Daí a gente começou, tipo: "Ah, pia, louça, tem água?" "Você vai contando a história ao mesmo tempo que a pia fica organizada, também tá limpando as coisas." Contar história é um processo de limpeza também. A gente acha que isso... E as pessoas compraram essa ideia.
Compraram. E a gente também queria transformar essa entrevista que a gente fazia com as pessoas em algo muito íntimo. Tanto pra ela, que estava dividindo algo muito importante, que é a história dela pra gente, quanto pra quem estivesse assistindo. Que a pessoa se sentisse íntima daquela pessoa que ela nunca nem viu na vida. E a gente acha que cozinha... Casa é algo muito íntimo mesmo, né? Sei lá, quantas pessoas já entraram na sua casa? Você pode fazer essa reflexão. Pouquíssimas. Cozinha é algo muito íntimo nosso. Então a gente falou: "É aí." Acho que inicia de uma piada, uma brincadeirinha ali. "Ah, uma terapia, não sei o quê." Mas depois a gente vai colocando significados muito propositivos dentro do projeto.
E a gente sempre fez questão de gravar na casa das pessoas, desde o começo. Tipo... Às vezes até: "Ah, não dá." "Não, vamos aí, vamos ver como é que é." Porque a gente que entra no espaço dela. Então ela vai contar a coisa mais, talvez, importante da vida dela. Um momento forte, às vezes envolvidor. E vai ser na casa dela, o espaço é dela. A gente que chega lá. E também ela que dita até onde a gente vai. Já percebi muito isso, assim. "Mas eu queria saber mais." Mas eu percebi que a pessoa já tá, tipo: "Chega." "Conta aí." E aí pensei: "Isso é a história dela? A gente está na casa dela, no espaço dela e a gente só..." Então tá bom, obrigado. E aí é legal ter essas conversas do dia a dia, de respeitar o espaço do outro, né?
Perfeito. Porque quando... Outro dia aconteceu uma história curiosa, eu fui pegar um táxi, era um trajeto pequeno, mas eu sentei no banco, o motorista estava gravando um áudio para alguém, E aí ele estava falando da separação dele. E ele desligou o telefone, que ele começou a fazer a corrida comigo, e ele começou a falar comigo como se não existisse um amanhã. E começou a falar, falar, falar, falar, falar, falar, até que ele começou a chorar. E eu, ouvindo toda aquela história, eu sempre olho assim, né, para cima, né, para nossa força maior. Eu falo: "Obrigada por ter me colocado aqui, porque eu estou ouvindo." Não preciso falar nada, eu só estou ouvindo. E aí, quando ela acabou, e eu senti a dor desse pai que é órfão e se separa dos filhos porque a mulher não quer mais saber dele, enfim, eu só pude falar para ele duas coisas. Eu falei: "Olha, você é um homem bom. Vocês se casaram há 20 anos. Ela mudou de um jeito, você mudou de outro jeito. Como é que você quer os próximos 20 anos da sua vida?" Aí ele me olhou e eu falei: "Porque se você não está feliz, por que você vai insistir em mudar alguém que já decidiu que não é mais esse modelo de vida que ela quer levar?" Bom, moral da história, eu estou contando isso porque nesse momento eu ouvi, não era hora de eu perguntar nada, não era hora de eu, enfim, era só dizer assim: "Olha, você é uma pessoa boa, viva a sua vida, faça valer a pena", sabe? Sendo o que você pode ser, não tentar mudar ninguém. Então quando você fala, a gente ouve dentro do que a pessoa quer falar. E muitas vezes nós, quando vamos ouvir alguém, a gente quer falar tanto achando que vai ajudar, e na verdade só ouvir basta. E é o terapia.
Às vezes as pessoas também só querem ser ouvidas, né? Porque ela mesma, quando vai contando, também vai descobrindo coisas. Ah, nossa, agora que eu falei isso, me liguei. "Conecto com isso, agora descobri outra..." Então a gente meio que deixa as pessoas livres pra... A gente até fala, a gente não chega com um roteiro para as perguntas. Porque vamos ver o que que essa conversa, pra onde ela vai nos levar.
E é engraçado, porque a gente começou a gravar primeiro com parentes e amigos. E a gente sabia já das histórias previamente. Porque, enfim, eram pessoas que estavam próximas da gente. Mas a gente via que tinha sempre algo a mais quando a gente ia contar essas histórias. A pessoa contava, a gente falava: "Meu Deus, tem algo a mais aí". E depois, quando foram vindo a própria comunidade, porque as histórias que a gente conta são da nossa própria comunidade, né. A nossa própria comunidade que retroalimenta ali o canal. Que é muito bacana. Elas foram entendendo que ali era um espaço que elas estavam... Elas poderiam estar confortáveis de abrir algo muito íntimo delas. Confiam em mim, no Alexandre, pra contar suas histórias. E tem muita gente que manda história pra gente e fala: "Eu não queria contar no canal, só queria contar pra alguém".
"Adorei, vamos gravar." A pessoa fala: "Não, não era só isso, eu só queria mandar." Vocês já leram?
Sim.
Ela só queria desabafar, é incrível isso.
Detalhe que fui eu que pedi pra gravar com eles, viu, gente? Sabe que sou oferecida? Eu sou mesmo, uai. Falei: "Não, não, não, se você..." Primeiro que eu adoro lavar louça. Sério.
Você sabe que eu amo lavar louça.
E você é organizada. A gente tá de prova.
Não foi dois pratinhos.
Deixa eu contar uma coisa. Antes de eu casar, Os namoradinhos que eu tinha, quando a gente almoçava aqueles almoços de domingo, eu sempre ia lavar louça, porque é uma maneira que eu encontro de— comi, saio da mesa, senão dá vontade de comer mais, e me ocupo, e também é uma forma de eu digerir, é uma forma de terapia. E aí as mães desses namorados sempre achavam: "Nossa, olha, ela tá fazendo isso pra agradar." Não, era realmente uma atividade normal da minha personalidade, né? Gosto, sempre gostei de lavar louça. Não sei cozinhar, mas sei lavar uma louça, gente, espetacular. Aí quando eu entrevistei vocês pro Zen Club, né, olha, é um outro podcast que eu trabalho já há muito tempo, eu falei: gente, me entrevista aqui. Por quê? Porque eu preciso levar informação pra pessoas que estão sofrendo em silêncio, estão angustiadas e estão sofrendo em dobro. Porque quando você tem uma dor visível, você conta com a empatia do outro. Quando você tem uma dor invisível, você sente ela na pele, mas o preconceito. "Mas será que tá doendo mesmo? Será que não tá conseguindo trabalhar mesmo? Não é possível." É frescura. É frescura. Ah, frescura. E aí, por falar em frescura, não tem nada a ver. O livro tem personagens aqui, inclusive a foto, tá, das personagens, dos personagens. Como é que vocês escolheram essas histórias?
Quer falar, Leandro?
Você.
A gente primeiro decidiu, a gente contemplou assim: a gente tem que criar um livro do Terapia, porque tem muita história e a gente precisa reverberar mais ainda essas histórias. Eu sempre acho que a gente tem esse dever, assim, né? Alguém confia na gente pra contar e a gente tem a obrigação de espalhar elas. E a gente pensou: "Tá, o que a gente quer falar nesse livro?" E aí, a gente sempre viajando no carro, indo gravar, começou a... Às vezes as histórias parecem que elas não têm conexão por serem muito diferentes, mas tem sempre algum ponto que liga. E a gente falou: "Talvez seja fases da vida que essas pessoas estão passando, que é descobrir o seu propósito." descobrir sua identidade, ter coragem pra enfrentar alguma mudança, entender as suas relações. A gente começou a refletir sobre essas fases, o que cada um achava. E depois a gente voltou pro canal e começou a rever as histórias. Falou: "Ah, essa daqui se encaixa aqui". E aí é muito legal, porque realmente vai ser histórias muito diferentes. Assim, no capítulo, sabe, de compreensão, tem a história da Lu, que é uma moça de Salvador, num amor de pessoa. Perdeu a mãe ao mesmo tempo que ela tava grávida. Então ela se tornou mãe quando ela perdeu a mãe dela. E ela teve que ter compreensão pra entender a finitude da vida e como as coisas seguem. E aí no mesmo capítulo tem a história da Adriana, que viveu um relacionamento abusivo, terrível, e teve que se afastar do filho. Mas depois, hoje, eles estão super bem, se reencontraram. E também tiveram que ter uma compreensão com o outro pra seguir essa relação. E aí parece que são histórias muito diferentes. Mas o sentimento ali pra tentar resolver a dor foi compreensão. A gente falou: "É bonito isso, quantas histórias podem ser diferentes e podem estar conectadas, né?" Isso nos aproxima uns dos outros, acho.
E aí é algo legal, porque todo mundo pergunta pra gente, né? Porque são 23 histórias que estão no livro. A gente já contou mais de 300 entre canal e podcast. E aí todo mundo fala: "Ah, mas são as 23 melhores?" A gente fala: "Não." Até porque o título do livro não é "As 23 histórias que podem mudar você" ou algo do tipo. A história do outro muda a gente. A gente exemplificou através dessas 23 como elas mudaram a gente de alguma forma. E aí a gente convida quem tá lendo, assim como a gente também já convida no podcast, no canal, as pessoas a ouvirem o outro, a se aproximarem das pessoas pra poderem serem, né, ser mudadas de alguma forma. Então é engraçado, a gente sempre gosta de falar isso porque não são as 23 melhores, né, Ale?
E é isso, é a história do outro. O outro às vezes é alguém que tá aí do seu lado. Não é só o outro que tá no nosso canal, é o outro, o outro que tá na vida. A gente faz até uma... Só pra você ouvir, né?
Uma... A gente instiga ali no livro um pouquinho as pessoas de... Se você mora em São Paulo, por exemplo, muito provavelmente você mora num condomínio de prédios com muitas pessoas. Quantas pessoas você realmente conhece? Não é aquele "oi" de elevador. É quantas pessoas você tem intimidade, sabe? De você, sei lá, saber o nome, saber se você pode ligar pra ela se acontecer alguma coisa com você. Ela também ter esse sentimento recíproco. A gente tá se afastando, né? Só que a gente tem até uma coisa que a gente fala, que é: não somos uma ilha, né? A gente é um continente todo, né? Então a gente tem que estar conectado com todo mundo, de todas as formas possíveis.
E isso muda a nossa relação enquanto sociedade, a nossa relação com a cidade. Quando você conhece o vizinho... Esses dias, minha vizinha me chamou pra tomar café na casa dela. Eu achei tão legal! Eu entrei e vi, tipo, o jeito que ela organiza a sala. A gente sentou, conversou, eu pensei: "Não, mas ela mora a 3 passos da minha casa." Exato. "A gente nunca tinha feito isso." E aí já mudou, já achei mais legal morar naquele prédio. Agora tá fazendo mais sentido, tem aqui uma relação. É bom isso, né? Isso nos conecta, acho.
Então, no fundo— Eu separei aqui um trecho que eu já vou trazer. No fundo, estamos falando de pessoas.
É.
E que estão em cadeiras, estão em empregos, estão em empresas. Você sabe que meses atrás, em uma palestra, quando eu vou falar sobre a faxina dos preconceitos, eu vou dando exemplos. Chico Anísio foi uma pessoa que ninguém questionou o caráter, e ele brigava pela defesa do respeito à saúde mental. Foi ele que pediu para a Associação Brasileira de Psiquiatria o termo psicofobia. Então tá, depressão não é falta de ter o que fazer, não é falha de caráter, então é falta de Deus. Aí eu trago duas fotos, do Padre Marcelo e do Padre Fábio. O Padre Marcelo lida com a depressão, o Padre Fábio de Mello, que está no meu livro, fala sobre as crises de pânico, ou seja, o excesso de ansiedade. E ele mesmo me conta os caminhos que você vai se colocando, a cobrança por fazer mais, produzir mais e ter mais sucesso e tal. Aí eu falo: "O que eles são, fraudes?" Não, eles são seres humanos. E aí, quando a gente ouve a história do outro e se reconhece, você se dá conta do que é vulnerabilidade. Essa é uma palavra que tem se falado muito, mas que se a gente não se aprofundar, também perde o sentido. Porque quando você fala da moça que perde a mãe e ganha um filho, a nossa vida é feita de perdas e ganhos o tempo inteiro. Não sei se eu contei essa história para vocês, mas o dia em que eu estava participando do Miss Brasil e que eu fico em segundo lugar, o meu pai morre. No mesmo dia. E foi esta perda que me faz voltar logo de São Paulo para o Paraná, E depois eu sou chamada de volta. Então, já que eu fui embora rápido depois do concurso, eu sou chamada no SBT para dar uma entrevista, porque eu não pude ficar. Então você vê, a vida é feita de perdas e ganhos o tempo inteiro.
E aí, se vocês ao mesmo tempo, eles têm que lidar, como é que eu fico feliz e triste ao mesmo tempo? Às vezes é isso a vida.
Então gosto muito quando você me fala, o ponto em comum de todos são as fases que nós vamos tendo clareza que elas vão acontecer. Teve alguma história nesses últimos 5 anos que quando você fecha o olho assim, até hoje te inspira?
Tem, e ela inclusive também está no livro, que é da Thaís Renovato. E eu acho que ela me inspira no sentido porque tem um... As escolhas das histórias que a gente leva para o canal, ela tem uma linha editorial, né? A gente, como é comunicação, a gente já se baseia ali nos termos técnicos. Então a gente escolhe através de 3 pilares, que é inspiração, emoção e pautas sociais importantes. Então tem que ter alguma coisa que leve uma reflexão importante pra sociedade. E a da Thaís Renovato, acho que ela reforça muito essa questão da pauta social, que é algo muito caro pra mim, assim, né? Algo muito importante. Todo trabalho que eu tô, eu sempre tô tentando fazer com que isso seja algo que esteja presente. E a Thaís Renovato, ela descobriu que era HIV positiva. Quando o ex-namorado dela tava morrendo em decorrência da AIDS. Ele tava morrendo, ele foi internado, ninguém sabia o que era. Quando descobriram que era AIDS, ela descobriu que ela também provavelmente estaria com HIV. E aí ela descobriu nesse momento, é um choque muito grande. Ela é uma mulher hétero, então tem aquele um pouco... Ela até fala, tem um pouquinho do preconceito ali de: "Nossa, comigo aconteceu?" Porque todo mundo associa HIV e AIDS com o público LGBTQIA+. Mas ela vai estudar, ela vai atrás de informação. E hoje ela fala sobre isso nas redes sociais dela, na vida dela. Mas ela também leva um pouquinho de esperança pra quem tem um diagnóstico agora. Porque ela é casada, o marido dela não é HIV positivo. É um casal sorodiscordante, que chama. Ela tem dois filhos. Vamos colocar aí, feitos de maneira tradicional.
Muito bom, ela fala virgem. Transei, gente. Transei.
Ok, feito sexo normal.
É isso. E os dois filhos filhos também não têm HIV, porque enfim, a gente, a saúde é avançada a ponto disso, né, pra gente ter essas consequências positivas. E ela leva essa informação e ela inspirou muita gente, levou muita informação pro nosso público. Nosso público até hoje também fala bastante dessa história, né, Ale, de quanto aprenderam com essa história, porque é um tabu ainda HIV. E essa história, ela é isso, quando eu fecho o olho eu falo: putz, Essa história é a história que eu acho que tem, ela mostra, não é que ela é mais importante nem nada, mas ela mostra o potencial de se ouvir o outro, de você conhecer e de você entender que a vida do outro pode te transformar. Você pode não ter HIV, mas você pode levar ensinamentos através dessa história.
Quando você fala de perdas e ganhos, e aí quando você fala, ah, ela descobriu que também era HIV positivo, tá certo. O que que eu faço com isso? Me jogo no chão, bato o pé, fico lá chorando? Ou, bom, então vamos lá, toca o barco, e eu tô junto com você total. O que que nós vamos fazer com o que nos aconteceu?
E às vezes eu penso, como essa pessoa tá de pé? Ela conta a história, fica assim, e pensa, por que que ela quer nos contar isso? E aí eu também entendo isso, é Porque ela sabe que é tão difícil e sabe que tem alguém que tá passando por isso, então também vou te dar a mão e te ajudar.
E isso é natural. Provavelmente se perguntar para ela como é que ela começou a militar a favor da informação, é natural, porque isso tá na nossa essência como ser humano de preservação de vida. Então se você é um ser humano espiritualizado, né, nós tivemos aqui um episódio sobre espiritualidade que foi avassalador, que a espiritualidade na verdade te coloca no papel de autorresponsabilidade, né, no entorno e fala: "Tá, o que eu tô fazendo aqui? O que eu vou fazer com o que acontece comigo?" Então eu ouço histórias assim, nossa, eu já quero conhecer essa moça.
Ela é ótima, realmente. E aí é isso, né? E ainda mais uma mulher falando sobre HIV, tira muito do estigma que a gente vê ainda, né? Então pra mim é uma das histórias que eu realmente, quando você falou lá de fechar o olho, quando eu fecho o olho Vem a Thaís na minha cabeça, porque eu acho... Desde quando ela mandou a história pra gente, a gente já sabia que era importante contar essa história, sabe?
E a gente precisa dessa esperança, né? Dar uma esperança de que há um caminho, há uma possibilidade. Tipo: "Tô péssimo, mas vou ter que levantar e fazer alguma coisa com isso". E aí, a outra pessoa nos mostra que há uma esperança. "Ah, então tá bom, vou acreditar também, vou... Talvez aqui, tô nesse dia mal, ouvi essa história e vou..." Também vou levantar junto, né?
Exato, exato. Tem alguma história dessas que você quer mencionar?
Eu posso contar uma história que envolve eu nesse livro. Tem aqui assim, inclusive essa tatuagem é da história.
Eu ia te perguntar que tatuagem é essa.
A Edenilde é uma amiga.
Mostra aqui pra essa câmera sua. Aqui, ó.
É uma amiga da família, cresci com ela. Edenilde, tipo, se você perguntar: "Ah, é sua mãe?" É tipo sua avó falando: "Não, é tipo minha amiga, só que ela é muito mais velha." Ok. Minha mãe conheceu a Edenilde. A Edenilde não podia ter filho por causa de um problema que ela tinha na bacia. E ela falou pra minha mãe, ah, ficaram muito amigas. E ela falou: "Ah, eu quero muito que você tenha filhos, eu quero acompanhar o seu processo". E aí teve um dia que era aniversário da Edenilde, a minha mãe não tinha comprado nenhum presente. E levou ela junto no ultrassom. Falou: "Ah, vem comigo ali no laboratório, depois a gente vai comprar alguma coisa pra você". E ela ficou na sala de espera. Aí veio uma moça e falou: "Ah, você que é a Denilde? Estão te chamando na salinha." Ela ficou: "Meu Deus, será que aconteceu alguma coisa?" E quando ela entrou, ela me falou: "Ah, queria te dar de presente ouvir as batidas de um coração dentro do ventre." Que no caso era o meu coração.
Ah, meu Deus! Que história!
E aí ela chorou, ficou muito feliz. E eu passei a vida toda dela me contando essa história, tipo: "Ouvir as batidas do seu coração, se eu fecho o olho, eu ainda escuto. Que presente! Quem sabe se a sua mãe tivesse me dado uma joia, já teria perdido, teria dado pra alguém." "Mas foi seu coração, meu..." E aí ficou isso a vida toda. E aí eu falei pra ela um dia: "Você precisa contar uma história, por favor, que a gente é assim, coladíssimos." E aí ela falou: "Só vou participar se for pra contar a história do seu coração." E eu fiquei... E aí é muito bonito que a Denise partiu faz 2 anos. E de uma forma, eu tenho hoje o registro dela contando essa história toda vez que eu quiser. Então às vezes eu fico com saudade, eu vou lá, assisto o vídeo e falo: "Ah, meu Deus, que coisa!" Então... Também foi um jeito de eternizar essa história. E essa aqui, inclusive, é a foto preferida dela. Eu e ela, um dia plantando num jardim, juntas. E aí tá no capítulo de relações, porque foi entender essa relação de amizade. A gente acho que morreu com 70 e poucos anos. Então, tipo, tem 50 anos que nos separa. Mas uma relação de amizade, eu entendia isso como— Então ficava: "É sua avó?" Ficava: "Não, gente, não é minha avó". É outra? E aí, por que é esquisito? Porque ela era mais velha do que eu. E aí, a gente tinha uma relação mega de amizade, inacreditável. E o livro é dedicado a ela, inclusive.
O livro é dedicado a ela, tem uma dedicatória.
O final da dedicatória é pra ela.
Porque é isso, ela, enfim, conheci a Edenilde em vida também, tive essa oportunidade. Ela é uma contadora de história nata. Ela contou essa história, me emociona até hoje também. A história é linda, linda, linda. E quando ela partiu, ela— a gente não tinha ainda decidido se ia fazer o livro ou não, né, Ale? Então, mas ela torcia muito pelo canal, ela amava, ela amava saber que as pessoas gostavam da história que ela contou também. Então o livro é dedicado a ela. E é uma coisa que ela sempre falou pro Ale e depois ela falou pra mim também, que terra ou além, ela sempre vai levar a gente no coração, né? E a gente sabe que terra ou além, dependente de onde ela estiver, a gente tá sendo acompanhado por ela, né?
Eu tenho que me segurar pra não chorar. Eu tenho que me segurar pra não voltar a falar sobre espiritualidade, porque a sua mãe "Sim, fui quem te gerou dentro do ventre, mas você provavelmente teve duas mães, porque a Denilde também fez um papel de mãe." Não, e ela tava...
Eu fico pensando assim: "Deve ser difícil quando sai o bebê, tá dentro da barriga da mãe, deve dar medo." Fico pensando, ela tava lá já, né, falando assim: "Vem, pode vir, eu tô aqui. Quando você chegar, tô aqui já pra..." E eu fiquei pensando nisso depois, pensei: "Ah, talvez o presente também foi pra mim naquele dia, né?" Sim. Dela falar assim: "Chega mais, vamos viver junto quando você chegar." Essa história ali.
Então, história, gente. E história é muito interessante porque nós vamos contando nossas histórias de maneira diferente, assim como as pessoas nos contam histórias de maneiras diferentes. E aí, de quem é a responsabilidade das histórias que nos contam? E onde eu quero chegar com essa história? Não importa a sua realidade familiar, tudo aquilo que te contam do passado, te contam pelo viés de quem conta, que está baseado num corpo, numa mente cheio de medos, de angústias, de faltas, excessos e tal. Então, está na hora também da gente revisitar algumas histórias que nos colocam no lugar de vítima ou nos colocam no lugar de tristeza e buscar ferramentas de autoconhecimento, e aí terapias, não só lavando a louça, mas terapias de verdade para que você ressignifique essas histórias ou que você comece Contá-las de maneira diferente. Porque senão você fica preso a uma história que de repente está te fazendo mal, sem se dar conta que aquilo pode ter sido contado de uma maneira diferente da que de fato aconteceu. Faz sentido o que eu estou dizendo, gente? Outro dia eu ouvi uma história linda de uma consteladora que encontrou uma moça e falou assim: "Olha, eu não tenho pai porque meu pai transou com a minha mãe uma vez só e eles nunca mais se conheceram, etc. e tal, e aí minha vida é isso, minha vida é aquilo." Aí a consteladora falou: "Que sorte você tem! Você pode pensar o que você quiser do seu pai." "Ah, é verdade." "Você está construindo uma história com viés negativo. Então você pode construir uma história com viés positivo, porque se ela e sua mãe, se ele e sua mãe decidiram numa circunstância, tiveram um relacionamento e alguma coisa os separou, e você mesmo já sabe disso, Ué, por que então não dar a chance para esse pai, né, num lugar, por mais que não tenha nome, endereço, telefone, mas de amor, de gratidão, porque ele te deu a vida? A hora que ela falou isso, falou: nossa, obrigada, Pai do céu! É isso. Às vezes a gente culpa os nossos ancestrais, mas eles nos deram a vida, ponto. Sabe aquela coisa? Não precisa me dar mais nada, já me deu a vida, né? E a gente fica cobrando responsabilidades ou fica cobrando os nossos ancestrais.
E a mesma história pode ser contada de diversas maneiras, né? Depende do ponto de vista de quem tá contando.
Do viés.
É.
E aí esses vieses são muitas vezes cheios de preconceito, medo, angústia e tudo mais. Meninos, tem aqui um capítulo, uma parte que eu parei aqui e gostaria de investir alguns minutos. É tarde para descobrir quem sou? Ah, que coisa mais linda! De quem que é essa história?
Essa é do primeiro capítulo. Ele envolve várias histórias, né, na verdade. Mas se eu não me engano, essa parte mesmo é sobre a Silveira e a Carla. É, exato.
"Envelhecer não é sinônimo de estagnar".
É do primeiro capítulo, Descoberta. E como a gente falou, descoberta... Até a gente fala sobre descoberta de identidade, né. Quem é você? A gente começa o primeiro... Acho que a primeira parte desse capítulo é "Somos quem somos?" E a gente faz uma reflexão em cima disso. E muita gente pode associar isso, ainda mais dois homens gays escrevendo sobre identidade de gênero, sexualidade, enfim. E tem histórias que estão amarradas aí a essa questão da identidade. Mas tem, por exemplo, a Silvia e a Carla que não. Elas são mãe e filhas. Elas também são criadoras de conteúdo. A gente conheceu elas no mundo aí dos influencers, né. E as duas estão envelhecendo. A Silvia tem, se eu não me engano, 70 e alguma coisa, 70 e poucos anos. A Carla, 50 e poucos. E as duas estão envelhecendo juntas. E elas, e é muito legal porque elas trazem muito sobre essa questão de envelhecer não é estagnar. Envelhecer não é você, enfim, você ter aquele estereótipo de vovó que não sabe, que só faz a comida ali no domingo e acabou.
Não é isso.
Elas trazem tanta vida, né, ali para quando elas contaram a história para gente, a gente Saiu mais energizado do que gravar com uma pessoa de 20 anos, né?
E assim, é super engraçado. Ela, tipo: "Tô me cuidando, não vou morrer amanhã." Ela ainda fala: "A não ser que algum carro me atropelhe." Mas aí também se atropelar, paciência. Mas a gente não sabe quando vai ser. E aí, ninguém sabe, né? Tipo, não é idade. Acho que o legal desse capítulo é mostrar que a gente vai redescobrir quem a gente é ao longo do tempo. Eu acho que o Alexandre de 5 anos atrás é diferente desse. Aí você tem que estar aberto. A essas mudanças internas, que às vezes é difícil.
É aberto e também atento para você poder mudar o caminho, se você quiser mudar. Porque você pode seguir reto, tudo bem, não quer imposto ali para você, segue. Mas de repente você fala: "Puts, tem um caminho aqui, por que que eu não posso seguir por aqui?" E segue. De repente você vai descobrir coisas sobre você que você nunca imaginou. Acho isso incrível. E a gente fala sobre nós mesmos assim, né? Há 5 anos atrás, quando os dois começaram o canal, eram duas pessoas diferentes. Hoje eu nem me reconheço às vezes.
Eu nem chorava, eu nem chorava.
Hoje eu sou uma manteiga derretida. Eu era pessoa que falava: não, chorar é coisa de gente fraca. Então hoje eu passei nosso ano novo, a gente passou ano novo junto assim. Eu passei, a gente fez um amigo secreto com os amigos, eu comecei do começo ao fim chorando. Ninguém entendeu, todo mundo dando água, fala: calma, Lucas. E eu: não, gente, eu só tô emocionado, tô feliz.
É uma delícia chorar, eu acho. Eu já era chorão, fiquei mais chorão ainda.
Vocês são tão lindos. Eu tenho que me segurar aqui para não ir para alguns caminhos que vão fugir aqui da nossa pauta. Mas vamos lá. Em um mundo com tantos acessos, com tantas histórias, com tanto conteúdo, com tanta oportunidade, o que faz as pessoas pararem para ouvir o Terapia? Vocês têm mais de 3 milhões. É, né, somado de audiência, né, fixa, fixa.
Por mês dá 10 milhões, né, de acesso.
Tem mais de 10 milhões de acesso por mês.
Toda vez eu fico, meu Deus, o que tá acontecendo?
Parabéns, parabéns, parabéns. E aí, o que que, como vocês, o que vocês acreditam que as pessoas param para ouvir as histórias? Por quê?
Nossa, essa pergunta é profunda. A gente acha que tem várias, várias fazer suposições, porque acho que a gente nunca vai saber. Mas eu acho que o fato de a louça ajuda muito porque deixa a pessoa muito mais humana. Não fica a pessoa num pedestal, sabe? Maquiada toda, sabe? Assim, distancia um pouco de quem tá assistindo, que às vezes tá lavando louça mesmo, né? Dá uma sensação de gente real ali, que de repente a TV dá uma afastada, né? Porque tem um glamour aplicado ali à TV. A gente entende isso. Então acho que essa questão de ser uma pessoa na coisa mais cotidiana que uma pessoa pode fazer, que é lavar louça, isso já aproxima. E depois eu acho que isso é uma abertura e depois vem a história, né? E a gente sempre pega histórias que, como eu disse, são inspiradoras, emocionantes, às vezes tem uma pauta social importante. E isso eu acho que visga a pessoa, nada das pautas importantes, inclusive, é legal porque a gente desmistifica muito as bandeiras, né? Vou usar de novo a questão da comunidade LGBTQIA+, que é onde a gente pode falar com mais propriedade. Muita gente que às vezes é conservadora, meio contra, "Ah, sou contra LGBT, não sei o quê, bandeira", enxerga a bandeira, não enxerga a pessoa. Que tá por trás dessa bandeira. E o nosso papel é realmente um trabalho de base ali, de conscientizar através da história pessoal de alguém. Tem uma história que não tá no livro, mas eu gosto sempre de falar sobre ela, que é da Dória. Ela é uma mulher trans, ela passou por todo perrengue de uma mulher trans. Foi expulsa de casa, morou na rua, sofreu muito, muito, muito. Fez a transição hormonal depois dos 35 anos. Então demorou muito pra ela ser lida como uma mulher, né. Ser vista como uma mulher.
E se entender também, de certa forma.
E aí a gente publicou essa história. E o nosso público, enfim, é um público muito diverso. Quando a história foi pro ar, eu lembro dos comentários. As pessoas desejando: "Deus te abençoe." E não no sentido negativo, que poderia ser um: "Ah, isso é pecado." Usar a religião como algo negativo pra história dela. Mas por ser uma pessoa ali, real, contando a sua história, as pessoas só queriam o bem dela. Então acho que esse é o que chama mais atenção de quem para e assiste o Terapia. É de fato você se conectar, porque você se enxerga, ou você enxerga de fato um ser humano ali. Não uma bandeira, não alguém que tá desconectado de você.
A gente fisga na emoção, eu acho. Porque é isso, quando a Dória tá lá falando: "Ah, eu sofri isso, isso, isso." Não tem como você falar: "Não, você não sentiu." Ela tá dizendo. E aí, sei lá, um tio meu que eu... Considero um tio conservador. E compartilhou no Facebook, eu falei: "Opa!" Tá lá o nome dele, compartilhou o vídeo de uma mulher trans. Eu falei: "Gente, tem alguma coisa aqui." E aí eu acho que é esse lugar de fisgar na emoção. E no fim, todas as histórias têm pautas sociais importantes, né? Todas vão trazer alguma reflexão de como a gente tem que fazer pra se organizar em sociedade.
Você sabe que aqui na capa do livro tá aqui, né? "Por que precisamos ouvir as pessoas?" Eu vou responder o que eu acho, tá? Vocês viram que eu sou bem oferecida, né? E aí eu queria ouvir vocês para a gente concluir a nossa ideia. Para mim, ouvir as pessoas e ouvir vocês, e ouvir aqui de novo partes tão importantes que vocês já me contaram, para poder compartilhar, tem a ver com reconhecer o quanto temos em comum, mesmo sendo totalmente diferentes. Onde eu quero chegar? Não importa a cadeira que você esteja sentado, ou aquela que você quer sentar. Não importa o carro que você anda, o transporte público que você se desloca. Somos seres humanos e a vida é pedagógica. Quando eu ouço uma história, eu cresço junto com essa pessoa. A única coisa que vai acontecer com você, se você tiver humildade em ouvir histórias, não importa de quem seja, é crescer. Eu adoro quando eu encontro a turma do meu prédio E aí eu pergunto o nome, onde mora, como é que faz para chegar ali, né? Os prestadores de serviço, eles me olham como se eu fosse um extraterrestre. Mas eu adoro ouvir as histórias das pessoas, porque eu vou aprender, eu vou aprender com todas elas. Então, quando eu me coloco no lugar de aprendiz, em qualquer contexto, a gente cresce. Então, para mim, porque ouvir as histórias das pessoas é porque vamos crescendo juntos. E pra vocês, por que é importante ouvir as pessoas?
Eu vou repetir o que eu falei do "Não somos uma ilha". Isso é um poema inglês, agora eu não vou lembrar, John Locke, se eu não me engano. Ou o sobrenome dele é diferente, mas o John eu tenho certeza que é. É um poeta que escreveu esse poema "Não somos uma ilha", e pra mim é justamente isso. Ninguém é uma ilha isolada. A gente é um continente completo. Se, sei lá, se a Isabela sai desse continente vai fazer falta, afeta, vai fazer falta. Então eu acredito muito que, porque que a gente, né, deve ouvir o outro, enfim, porque que precisamos ouvir as pessoas, é justamente por isso, porque a gente precisa cada vez mais voltar a ser continente e deixar de ser ilha. Eu acho que esse é o nosso grande propósito com terapia.
Que lindo!
É porque eu fiquei pensando que no fim todo mundo tá vivo buscando ser feliz. Todo mundo tá nessa mesma intenção, de alguma forma.
Satisfação.
É. Mas eu tenho uma sensação de que se... Não dá pra ser feliz sozinho, né?
Não.
Então, tipo, se eu me sentir feliz e ver que tem tanta gente passando por outras coisas que não deveria estar acontecendo, que felicidade é essa? Não vai fazer muito sentido. E eu acho que a gente só encontra um caminho de... Se organizar enquanto sociedade ouvindo o outro, entendendo a demanda dele, a sua demanda. E esse ponto tem que ter alguma coisa que conecta todo mundo, porque a gente está aqui, todo mundo junto, vivo. Eu fico pensando assim: tem que ter algum motivo. O que eu vou fazer com essa vida aqui que eu ganhei? Acho que está todo mundo com esse pensamento aí. Acho que tem que olhar para isso de forma coletiva e não individual, né?
Deixar de ser ilha para voltar a ser continente. Uma salva de palmas para o João Lucas. O Ale e Lucas, para quem quer continuar seguindo com vocês mesmo o programa acabando. Onde compra o livro? Como é que assiste? Como é que são os episódios?
Vamos lá, o livro está disponível em todas as principais livrarias do Brasil e também na internet, aí na Amazon, enfim, todos os sites que vendem livros. E para acompanhar os vídeos, toda terça tem podcast novo, uma história contada em podcast, que é o Histórias para Ouvir Lavando Louça, porque aí a coisa inverte, né? Porque é o ouvinte que vai lavar a louça, não o entrevistado. Toda quinta-feira tem história nova do Histórias de Terapia. Mas todo dia tem alguma coisinha nova. A gente já tem umas histórias, porque de repente você perdeu uma história ali que você não tinha assistido, a gente vai lá, opa, ó, um reprisezinho aqui. Mas pra assistir a gente, pra acompanhar a gente, é só procurar em todas as redes sociais, todas mesmo, a gente tá em tudo que é canto, @historiaderapia ou no nosso site historiaderapia.com.
No site, inclusive, dá para mandar a história. Tem um formulário, preenchem. Quem sabe a gente vai na sua casa semana que vem gravar uma história lá.
Não, é impressionante que para todas as pessoas que eu falo: "Não, eles foram lá em casa lá." Falam: "Eu também quero!" Vários: "Não, eu também quero! Como é que eu faço para eles irem lá em casa?" Vai ter que ter alguma história para contar, né? Meninos, foi um privilégio estar aqui com vocês.
Obrigado pelo espaço.
Vocês estão com um trabalho fantástico. Acredito que agora vocês só estão trabalhando com terapia.
Só terapia.
Totalmente.
Há 5 anos era um... Era um hobby.
Era de noite. Quando volta do trabalho, 10 da noite, editar vídeo assim, todo acabado.
Hoje em dia, a gente focado em transformar a vida das pessoas através de histórias.
Eu sinto esse amor de vocês. Eu sinto o amor genuíno com este trabalho de vocês. Que bom, que bom que vocês não deixaram louça suja para depois.
Às vezes em casa, mas a prática mesmo, não a simbólica.
Exato. E, ó, eu sou super a favor de todas as ferramentas para autoconhecimento. Terapia é uma delas, né? Assim como lavar a louça é uma forma de terapia, limpar a casa, organizar as gavetas. Que você então encontre a sua forma de terapia dentro de casa, fora, pedindo ajuda também, que isso é muito importante, para que você, de fato, tenha histórias boas para contar, histórias positivas para contar. Da sua evolução. E a gente vai estar aqui esperando então a sua história depois para contar na terapia.
Espera lá.
Obrigada, meninos. Até o próximo Interioriza.
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O processo de reconhecer limites, mesmo quando a vida parece exigir sempre mais.

Depois de tantas histórias, aprendizados e pausas necessárias, o @interior_iza está de volta








