A Arte do Planejamento | 🎙️ Episódio #25

André Novaes, Frederico Gonçalves, Thiago Botelhos, and Carlos Amadi discuss real financial cases: a 31-year-old dermatologist earning R$17-18k monthly but spending R$20-30k with parental support, and a couple planning a 50% income cut. The hosts emphasize understanding clients' deeper motivations before solving budget problems.
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Olá, seja muito bem-vindo, muita bem-vinda ao vigésimo quinto episódio do nosso podcast aqui, 25, hein, turma? 25 já é um número. A gente olha o centésimo episódio. Será que um dia a gente chega lá? Eu espero que sim, espero que a gente consiga. Mas olha só, hoje eu tô aqui na companhia do Frederico Gonçalves, como sempre. Fredão, como é que tá? Tudo bem?
Tudo bom, pessoal? Bem-vindos. 25º, hein? Bora, bora. Tá perto do 100 já, né?
Já tá perto, já tá perto. Vamos chegar lá, vamos chegar lá rapidinho. Também aqui estamos na companhia do Thiago Botelhos. Thiago, como é que você tá? Tudo bem?
Bom dia. Tudo certo, tudo certo por aqui. Mais uma vez, um prazer estar por aqui.
Muito bem, obrigado por participar, Tiagão. Carlos Amadi, como é que você está? Bem-vindo de volta, tudo bem? Bom dia, bom dia, pessoal.
Tudo jóia, graças a Deus. Prazer em participar novamente. Obrigado pelo convite, André.
Muito bem, imagina, imagina. Seguinte, pessoal, só para lembrar, então, a gente está aqui nesse bate-papo de cerca de uma hora entre planejadores. A gente está aqui, ombro a ombro, numa conversa olho no olho, ou seja, a gente aqui está compartilhando questões que são reais vivência, histórias, reuniões, casos, causos, problemas, desafios que emergem naturalmente na carreira de um planejador, de um verdadeiro planejador, um planejador que atua no modelo direto, centrado na vida do cliente, mas que naturalmente conjuga com toda reverência todos os aspectos técnicos da gestão financeira pessoal. É uma grande troca de experiências. A gente deseja que isso também aqui sirva para você que contempla uma transição de carreira que pensa acerca de uma atividade centrada na vida dos seus clientes, já poder estar nos nossos, como se fossem os nossos bastidores da vida real assim, tentando entender um pouquinho, sentir um pouco dos desafios que a gente enfrenta e como a gente aborda cada um desses casos. A gente tem a pretensão aqui de te poder entregar conversas maduras que caminham em profundidade e que também que percorrem a abrangência do que a gente pode fazer para as famílias e muito, muito, muito mais do que apenas sobre dinheiro, rentabilidade, alocação de ativos. Essa parte é importante. A gente aqui também não quer se descuidar da parte técnica. Ela é preponderante. mas há muito mais no que a gente pode fazer para as famílias. A gente quer te dar um pouquinho, então, desse traço do que a gente chama de a arte do planejamento. Sem mais delongas. Carlão, vamos começar hoje com você. O que você conta pra gente acerca da semana passada? Qual encontro interessante que você teve aí pra gente te escutar e bater um bom papo? Legal.
Eu vou trazer um caso específico que eu acho que é representativo, na verdade, do que tem acontecido em boa parte das minhas reuniões mais recentes com clientes e que é muito diferente daquele caso que eu trouxe na minha primeira participação, ocasião na qual eu compartilhei o caso de um cliente muito jovem, na faixa dos 30 e poucos anos, que observou ao longo dos últimos pouco mais de... pouco menos de dois anos, um incremento de renda muito grande, chegando a uma renda anual que já passava de um milhão de reais. Já nas últimas semanas eu tenho tido mais conversas orientadas a esforços de redução de gastos, por consequência também de uma redução de renda. E o caso mais especificamente que eu trago para hoje é de um cliente que é médico, ele é especializado na área de dermatologia, ele também é jovem, tem 31 anos, mora em São Paulo, na capital. Ele mora sozinho, a família é do Mato Grosso. Está morando em São Paulo agora há pouco mais de um ano, então a gente também passou por toda uma questão envolvendo revisão de dinâmica orçamentária no contexto de uma mudança daqui de Campinas para São Paulo. Mas é um cliente que agora está contemplando uma decisão importante na carreira dele como médico, porque hoje toda a renda dele é advinda de plantões que ele faz num único hospital lá em São Paulo. uma renda que pela frequência atual de plantões chega a algo próximo de R$17 a R$18 mil mensais líquido e que tem se mostrado insuficiente para suprir as necessidades orçamentárias pelo padrão de vida que ele tem atualmente. E mesmo assim, agora ele está contemplando uma decisão, de fato, a decisão para ele já está tomada, de fazer uma nova residência. E para que ele possa se dedicar para isso, que é um processo que vai envolver uma dedicação para tempo de estudo, a prova acontece já no final desse ano, ele entende que ele vai ter que reduzir a frequência de plantões que ele faz, dos atuais 3 plantões de 12 horas semanais para 2 plantões semanais de 12 horas. Isso implicaria, pelas nossas contas, numa redução de renda dessa faixa próxima de R$17 mil para algo mais perto de R$12 mil, até um pouquinho menos do que isso. Ou seja, é uma redução bastante expressiva, ainda mais quando levado em conta o fato de que ele já tem um padrão de vida mais caro do que a renda que ele tem hoje fazendo três pantões. Eu até estou aqui na minha outra tela com a minha colinha, com alguns dados orçamentários, para eu não falar nada errado, Mas hoje, pela média que a gente observa ao longo dos últimos 12 meses no orçamento dele, ele tem gastos mensais que se aproximam de R$ 20 mil. A renda dele já foi mais alta do que isso, ela já chegou a R$ 25 mil em alguns momentos. durante alguns meses, isso já faz perto de uns dois anos. Depois ele reduziu a frequência dos plantões no contexto dessa mudança de Campinas para São Paulo, até poder se adaptar lá na outra estrutura, em outro hospital, etc. Mas é fato que a média mensal de gastos dele, de acordo com o que a gente tem da visão dos últimos 12 meses, aponta para algo perto de 20 mil reais mensais. Imagina agora, então, o desafio de tentar trazer isso para mais perto de 11 ou 12. Existe também, André, antes de abrir aqui a conversa para vocês participarem comigo, um fator que eu acho que adiciona um pouco de complexidade ao contexto especificamente desse cliente, que é o fato de que boa parte dos gastos que ele tem hoje, que são gastos frequentes, recorrentes, são supridos por uma ajuda financeira, um auxílio financeiro que ele tem do pai dele. É uma família que tem uma situação patrimonial bastante confortável, com muitas fazendas lá na região do Mato Grosso.
Então, é fato que o pai tem condições de auxiliá-lo nesse sentido. Então, ele já não precisa se preocupar com alguns gastos, como, por exemplo, o aluguel do apartamento onde ele reside.
E só para entender então, aqueles 20k que você citou, ele é o gasto do cliente, sem contar essa ajuda que vem dos pais. Contando essa ajuda que vem dos pais, como por exemplo o exemplo que você citou, o aluguel, esse orçamento mensal iria para torno de quanto?
Ele se aproxima de 30.
Se aproxima de 30. Isso envolve o próprio aluguel, envolve a parcela de um carro que está financiado, que é pago também por uma pessoa da família. Então é fato que, se a gente observa a estrutura orçamentária a nível de padrão de vida que ele tem hoje, É um padrão de vida que tem um custo mensal que se aproxima de R$30 mil, frente a uma renda de R$17 mil que, de acordo com o planejamento de carreira dele, deveria ser reduzida para próximo de R$12 mil. Então ele teria condições por conta própria de suprir com cerca de um terço. dos custos que ele tem atualmente. Ou seja, tudo aponta para uma necessidade de uma revisão muito estrutural no orçamento dele. Vai além de uma revisão que envolve apenas mudanças de comportamento, de padrão de consumo e até de hábito. Precisa haver uma revisão mais estrutural mesmo. Isso se agrava também pelo fato de que, pelo que ele me contou, o pai dele começa a sinalizar o fato de que ele já não está tão mais disposto, como vinha se mostrando, para continuar com esse auxílio financeiro, pelo menos nessa magnitude.
Esse é o tom da conversa que a gente começou a desenvolver mais recentemente.
Esse cliente tem quantos anos, Carlos?
31.
Muito bem, muito bom. Para quem aqui está ouvindo a gente e acha que a coisa é fácil, meu cliente está ganhando cada vez mais, meu cliente está ficando cada vez com mais tempo, meu cliente tem coisa complexa também que a gente tem que se deparar. E aí, Fredão, Thiago, o que vocês têm para compartilhar um pouco nesse caso, que parece um caso aqui de uma necessária redução, como o Carlos bem citou, estrutural do orçamento. E se aqui, se não bastasse a necessidade de reduzir, a receita também vai passar Olha os traços do caso, né? Redução estrutural do orçamento, mais redução de receita, um adulto de 31 anos ainda precisando da ajuda financeira dos pais, né? Nessa direção, o que vocês têm pra dizer se estivessem aconselhando, acompanhando um caso como esse?
Time, permite?
Vai lá, vai lá.
O primeiro ponto, acho que se tivesse melhor combinado, Carlão, com os pais ou com a fonte de renda, o auxílio financeiro, até onde poderia ir, etc., acho que... seria o mais correto, mas pelo visto, além de não estar combinado, a combinação está necessitando de uma revisão por parte do pai ou das demais fontes.
Só para trazer um pouquinho mais de contexto em relação a isso, essa dinâmica de auxílio financeiro, vinda principalmente do pai dele, Ela já existia desde quando a gente começou a trabalhar juntos, há praticamente três anos, mas isso se ampliou, sobretudo a partir do momento em que ele fez essa mudança de Campinas para São Paulo, porque aí houve uma conjugação de fatores. Quando ele residia em Campinas, ele tinha uma frequência de plantões ainda maior, então ele tinha uma renda que já estava se aproximando de 25, entre 25 e 30. líquido. Então, ele tinha condições de arcar com quase a totalidade dos custos que ele tinha aqui em Campinas, inclusive o próprio aluguel. Aí ele mudou para São Paulo e, como vocês sabem, o custo de vida em São Paulo é mais elevado. Ele também não se mostrou muito disposto a mudar o padrão de moradia e etc. Então, para que ele more lá em São Paulo, num apartamento próximo daquele que ele morava aqui em Campinas, ele paga quase o dobro de aluguel hoje. Na verdade, não é ele quem paga, é o pai. Então foi a partir daí que a coisa...
Não é, eu ia até te perguntar isso porque me parece uma combinação que existe aí uma necessidade da fonte de renda, vamos falar assim, de revisão e até uma intenção de eliminação daquilo que a gente brinca aqui com os clientes e fala que tem que cortar o cordão umbilical, Ele deveria ter sido cortado na fase de nascimento, mas, pelo visto, ainda continua.
Carlão, nada melhor do que a clareza... orçamentário de tudo aquilo que está acontecendo, para mostrar para ele que ele sozinho, com as próprias pernas, ele não consegue isso. E está muito claro aqui naquilo tudo que você tem feito, falado, conversado com ele. Me parece outra ponta de a necessidade de um incentivo aí das conversas, de revisão sobre o processo de decisão dele, porque Quando se tem uma fonte é muito fácil você falar assim, vou agora cair a quantidade de plantão porque quero me dedicar a tal ponto.
Talvez poderíamos envolver aí a terceira parte, Carlos, não sei se existe essa possibilidade.
Na ponta de se discutir, por exemplo, um prazo para esse auxílio e até, de repente, uma antecipação de um limite para que ele trabalhe, porque talvez esteja faltando um pouco esse limite de até onde ele pode ir, porque ele está sempre esticando um pouco, a minha impressão que dá é que ele está esticando um pouco mais a corda e a corda está sendo dada, mas isso pode significar um enforcamento dele lá na frente, Ele pode muito bem inverter essa lógica de receita e facilmente ganhar 40, plantões com outras coisas. Mas eu entendo também a dedicação necessária para um início de carreira e tudo mais. Mas me parece que ele não está muito afim dessa opção agora, porque está fácil a fonte. Então, acredito eu que... Como é que nós fazemos para uma pessoa do tipo... começar a caminhar para um lado que ele deveria. Guiando ele para essa ponta de vamos trabalhar com quais são esses limites. E aí talvez você vai precisar do auxílio do terceiro, que é a fonte, para falar assim, olha, até onde podemos ir? Qual é o prazo que nós temos para isso? Porque senão vai ficar sempre nessa fonte que não seca e que a gente sabe que pode secar, né? E que eu não preciso fazer nenhum esforço porque tudo é... Sabe aquela questão de parece que em Campinas a coisa estava indo E aí, quando foi para São Paulo, a comodidade acabou se tornando uma relevância maior do que qualquer outro tipo de discussão dentro daquilo que acontece. Por quê? Porque está fácil, né? Aquele negócio vem fácil, vai fácil. Então, o meu ponto aqui, eu acho que é essa sinceridade ao extremo junto com ele para entender, assim, Vamos discutir, então. Perfeito. Esse é o alvo. Isso que você... Como é que você se enxerga lá na frente? Essa é a dedicação que você precisa ter para chegar onde você se enxergaria lá na frente? Legal. Então vamos revisitar qual é o prazo para isso se inverter e até onde nós temos essa corda. Eu concordo, Fred.
Vai lá, André, por favor.
Não, até antes do... Queremos ouvir o Tiago também. Eu acho que é... praticamente inevitável, numa troca entre planejadores, a gente não aconselhar diretamente um colega e também nos beneficiarmos do conselho de colegas em casos específicos. Mas, Thiago, para a tua participação, eu queria trazer um contexto mais geral. Redução estrutural de orçamento. Quando? Porque existem reduções estruturais que são necessárias e que, se a pessoa não fizer, ela não tem para onde recorrer. Mas, nesse caso, trata-se de um cliente, e aqui é o que eu quero trazer um pouco mais do generalismo, que tem a quem recorrer, no caso, os pais. Mas, em casos assim, Tiago, como é que você tem percebido uma atuação relevante de um planejador, alguns exercícios, algumas ponderações, algumas reflexões que você tem conduzido com seus clientes quando, então, há a necessidade de uma redução estrutural Mas sabendo que ali no satélite tem, se nada for feito, há uma ajuda externa. Como é que você tem lidado com isso, em termos mais gerais?
Esse ponto da ajuda externa é uma questão que torna a coisa mais desafiadora, principalmente no quesito motivação para.
Realizar essa mudança estrutural. Eu tenho percebido que isso na verdade vira muito mais uma barreira, vira de fato uma amuleta, e por mais que a pessoa verbalize alguma coisa no inconsciente, ela está extremamente acomodada com aquilo. E como planejador a gente talvez tenha algumas ferramentas que ajudem a pessoa a ir no tempo dela, fortalecendo aquilo que realmente ela quer. Acho que o nosso papel tem mais a ver com isso. de uma maneira externa até possa falar, ó, nessa direção você precisa ir aqui, mas isso talvez seja muito longe para ela ali. Então, assim, num ponto de vista geral, eu gosto muito de poder colocar no papel uma projeção enxergando que hoje o seu custo de vida é x, dxx, existe uma renda que vem da sua contribuição, a fonte externa contribui com tanto, E vamos colocar isso ao longo do tempo, ao longo dos meses, ao longo dos anos para frente e enxergar. E aí quando a pessoa enxergar que talvez, continuando do jeito que está, vai ficar ali anos, anos e anos dependente de alguém para poder viver, isso eu tenho percebido que é uma ferramenta simples, mas ao mesmo tempo eficaz para poder sensibilizar, ou pelo menos dar o próximo passo da sensibilização do cliente. Então, eu gosto um pouco desse ponto, né? E enxergar esse número nessa projeção costuma também ser algo que fomenta a conversa, fomenta, poxa, mas por que que... ou então o próprio cliente perceber, não, de fato, eu tô tranquilo aqui, eu não me vejo necessariamente tendo que cortar esse cordão umbilical, não quero agora, Ou então eu quero.
Sei lá, às vezes a pessoa tem alguma coisa com alguma idade mágica, como se alguma coisa fosse mudar, mas às vezes é uma transição de vida que ela enxerga, que de repente pode ajudar. Então eu gosto muito também de cruzar essas projeções com as transições de vida que a gente tem, para poder tentar traçar alguma linha de caminho aí. Agora assim, definitivamente, o que não funciona? é eu pegar o orçamento e olhar. O que você mais gasta é com comida fora de casa. Acho que você deveria cortar 50% porque é isso que vai resolver. Esse é exatamente o caminho que não funciona.
Já bati a cara nesse tipo de tentativa também.
Carlão, eu vou voltar para você. De um lado, o Fred propõe uma boa conversa na direção de limites. O Tiago traz um tempero interessante, que é entender o tempo do cliente e o tempo do contexto que o cliente está também. Alguém de 31 anos tem a ajuda dos pais, os pais estão distantes, existe todo um contexto aí também. E você, Carlos, como é que você tem encarado esse caso? Talvez a pergunta que eu gostaria de te fazer é Se a gente pudesse enxergar algumas camadas na direção de conversas mais difíceis, conversas mais impactantes, você acha que está numa camada ainda mais superficial, numa camada média? Ou já está, Carlão, naquela camada que a gente tem até medo de entrar nela, porque a gente acha que está flertando com o limite? O que você me colocaria nessa direção acerca de como conduzir um caso como esse?
Eu acho que especificamente com esse cliente, eu estou numa camada intermediária entre a superfície mais externa e a primeira superfície interna, porque a gente precisaria ultrapassar algumas camadas até chegar naquilo que é mais relevante mesmo. Talvez a camada mais externa seja esse tipo de conversa que, como o Tiago pontuou e eu concordo plenamente, não passa muito de uma pura visão quantitativa, e numérica a respeito de onde se encontram os principais gastos e qual é o espaço que a gente tem para reduzi-los. Eu já passei por esse tipo de conversa com esse cliente em inúmeras ocasiões ao longo desses cerca de três anos. E a minha única conclusão disso é que não tem funcionado. E agora eu me vejo numa situação em que, mais uma vez, eu percebo a necessidade de falar esse tipo de coisa, mas ainda também receoso a respeito da efetividade desse tipo de conversa. Porque é fato. Se eu olho hoje para a estrutura orçamentária dele, levando em conta a classificação que a gente utiliza internamente aqui no contexto da Life, quase a metade dos gastos que ele tem são gastos que a gente entende como eletivos e que, portanto, são teoricamente mais sujeitos, fáceis de você gerenciar quando há uma necessidade. São os gastos que ele tem, por exemplo, com alimentação fora de casa, com viagens, com compra de roupas, com compra de produtos cosméticos, entre outras coisas, que na minha visão, sem muita dificuldade, poderiam ser no mínimo revisadas, se não até algumas delas eliminadas do orçamento. Mas, novamente, esse tipo de conversa eu me lembro de já ter tido com esse cliente em algumas ocasiões, ocasiões nas quais ele sempre concordou comigo, enfaticamente, mas não houve muita mudança na direção da adoção de um comportamento novo a respeito de tudo isso. Eu também já passei por algumas conversas em que eu tentei esticar um pouco mais a visão dele a respeito de tudo isso. também levando em conta o que o Tiago pontuou muito bem. Inclusive conversas mais orientadas a qual é a visão que você tem para o seu contexto de aposentadoria, por exemplo, qual é a visão que você tem para toda a dinâmica do seu crescimento de carreira, a projeção para a sua carreira e etc. O que eu consigo perceber é que justamente pelo fato de que hoje existe uma rede de segurança com a qual esse cliente pode contar e sempre foi assim, Esse tipo de decisão e de ponderação sempre ficou em prorrogada, sempre ficou em segundo plano. Eu me lembro, inclusive, de uma conversa que foi muito emblemática quando eu tentei provocar um pouco mais para perceber também qual era a visão que ele tinha para a progressão da carreira dele como dermatologista, E ele me disse que até então o único plano que ele tinha a respeito disso era que depois de fazer todas as especializações que ele queria fazer, ele poderia contar com o pai dele pra um investimento que ele imaginava naquela época, uns dois anos atrás, de cerca de 5 milhões de reais pra abrir uma clínica de dermatologia pra ele. Então, você entende? O processo decisório fica delegado.
Fica em segundo plano absolutamente. E eu acho que é esse tipo de ponderação que eu preciso ter capacidade de me aprofundar mais com ele. Eu não tenho percebido ele tão disposto a isso, mas eu não vejo outro caminho.
Eu falei aquela ponta do limite, Carlão, porque eu acredito que ele esteja precisando conversar com a fonte. E a fonte precisa ser sincera e talvez a participação do terceiro, que é você.
Para encontrar essa ponta toda, porque se ele não tiver limites, ele vai ficar nessa tocada de qualquer coisa e eu recorro. E uma ponta muito interessante é isso que o Tiago falou, você formata uma revisão de orçamento, você conversa sobre decisões e etc., mas se tem, a fonte de solução, a tendência de todo mundo é descansar embaixo da sombra. É se refrescar e dar um tempo para falar assim, daqui a pouco eu penso.
E eu acho que é isso que está acontecendo. Você vê que até é muito significante você falar isso, que eu monto um negócio e estou contando com isso. E se não tiver? Exatamente. Então, não é só esse contexto. Acho que vale para todos os clientes que possam ter, de alguma forma, essa fonte de recurso. E o que eu tenho notado, viu, André? Tem muita gente que enxerga a fonte de recurso, não a mais correta, que é o que a gente está falando aqui do Carlos, é a mais fácil, que é a família. Eu tenho enfrentado alguns problemas aqui com pessoas que acreditam que tomar crédito que está à disposição, seja ele consignado via banco direto, tem sido a solução para resolver pontualmente os problemas e depois eu me viro, depois de um bom jeito. Então isso pode ser um comportamento recorrente e complexo, não só quando você tem ajuda familiar, mas quando você tem a disponibilidade de recurso fora. Então esses limites precisam ser muito bem conversados, porque senão as pessoas vão pegar sempre a fonte. Qualquer coisa eu puxo um pouquinho ali.
Essa questão de tomar empréstimo me fez lembrar aqui agora uma narrativa comercial recente que está rodando, um grande banco brasileiro percebeu que na palavra dívida há a palavra vida. Então existe uma certa licenciosidade. Mas eu me recordo, Carlos, para a gente embrulhar esse caso.
Também de um... Nesse caso eles já eram um casal, Ambos na área da psicologia, marido e mulher. Mas eles queriam se desenvolver na área do desenvolvimento humano, com treinamentos e essa coisa toda. E também contavam com uma situação financeira absurdamente favorável. porém que emergia do avô de um deles, com ainda alguma presença no pai de um deles. E ali, então, me lembro de ter tido uma conversa sobre gerações. E começo uma conversa sobre geração 1, geração 2 e geração 3. Se pararmos para pensar, talvez aqui... Vou fazer uma rápida pergunta para o Fred, o Tiago e o Carlos. Vocês conheceram os bisavós de vocês? mas conhecer... Eu me lembro de ter convivido com meu bisavó quando eu tinha dois anos de idade. Eu também não, eles já não estavam mais.
Eu convivi com duas, tive o privilégio.
O privilégio é legal, que fantástico.
Fiz o privilégio, mas eu convivi com as minhas avós, imagino que Fred também, Tiago também, Carlos também, e com os nossos pais. Querendo ou não, a gente sempre está no contexto de três gerações. E se a gente tem os nossos avós, nesse contexto, a gente é a geração 3. Os avós, nossos pais e a gente. Se os nossos avós já se foram, a gente está só no contexto da geração 2. E, eventualmente, a gente tem os nossos filhos da geração 3. E, caso a gente não tenha mais os nossos pais, a gente está numa geração 1. Isso no que esteja família. Mas a gente também pode, por exemplo, ser a geração 1 de uma pessoa financeiramente sadia. Eu, por exemplo, tive nos meus avós uma certa saúde financeira, nos meus pais nem tanto. E é curioso, porque se eu olho apenas o meu pai, minha mãe, eles são geração 3, onde meu bisavô tinha uma situação financeira muito boa, o meu avô conseguiu ainda prevalecer e manter essa situação, o meu pai, num dado contexto, geração 3, degringolou. Mas isso tudo, então, e aqui eu tento começar a concluir, A geração 1 geralmente é caracterizada por aqueles que começam realmente alguma coisa, são até um pouco ousados, mas também são muito cuidadosos com custos. Então a gente deve ter gente que diz, mas meus pais têm milhões ou meus avós têm milhões e não gastam com nada. Pessoal, isso é uma característica geralmente de uma geração 1 que começa alguma coisa. Isso vem para uma família no que tange a riqueza, isso vem também para um empresário que começa alguma coisa ou então para alguém que decide por uma inovação relevante na sua carreira. A gente tem, de um lado, o ímpeto de quem começa, mas também a gente é muito cuidadoso com os custos, porque a gente sabe o quanto é difícil, ainda mais quando você começa alguma coisa literalmente do zero. A geração 2, que ela talvez tenha como principal característica, ela é respeitosa e protetora. Por quê? Porque ela conviveu com a geração 1. Ela conviveu com a geração que criou as coisas, que começou as coisas, que lutou para ter uma situação. Então ela tem a tendência de respeitar o que ela presenciou e proteger, porque ela respeita aquilo que aconteceu, ela testemunhou o quão difícil foi. Já a geração 3, ela tem uma característica muitas vezes de usar, e destragar. E aqui eu sei que coloco isso com um ar de julgamento, mas não tem como colocar isso sem flertar com o ser desrespeitoso. Não tem como. Mas acho que o interessante é que toda geração três merece uma conversa com alguém, e esse alguém pode ser a gente, que reposicione essas pessoas como geração um.
E talvez a maneira disso não é uma dicotomia ou um combate entre quem está certo e quem está errado, é conjugar características. Porque tem coisas boas numa geração 3. A geração 3 tem mais margem, ela pode viver um pouco menos sobrepressão, ela tem um pouco mais, eventualmente, até de leveza. As coisas vão se ajeitar. Eu pego o empréstimo, eu pego o dinheiro, as coisas vão... Eu vou montar uma clínica de cinco milhões. Existem alguns traços positivos, mas então o nosso papel como guias e conselheiros confiáveis é talvez trazer para uma geração 3 uma certa maturidade. E o caminho da maturidade para a geração 3 é aproximando eles de características da geração 1, que é o cuidado com o custo. que é a reavaliação de algumas coisas. E é nessa direção que eu tenho encontrado boas conversas para ter com pessoas. Olha, você hoje está numa geração onde talvez exista menos um zelo protetor e um zelo de respeito, até porque talvez os teus pais tenham herdado uma parte disso. E geralmente no campo isso é muito comum, viu, Carlos? Eu não sei se você já entrou nessa questão, mas não é incomum. Para quem hoje está com 30 anos, os seus pais estão muito bem, mas isso vem porque os avós iniciaram tudo isso e geralmente iniciaram com a mão lanchada. Geralmente iniciaram com a mão lanchada, que é a característica da geração. Talvez aqui, vou fazer a minha parte, como planejador, muitas vezes tem planejador começando e fala assim, André, você não faz ideia do quanto é difícil começar. Aí eu falo, ei, calma.
Um dia eu comecei.
E não tinha tecnologia, e não tinha contratos, e não tinha... Então, todo dia, um dia, alguém começou. Então, a gente tem que aprender a colocar as coisas em perspectiva. E agora que eu realmente concluo, o caso que deu pano para a manga em Carnaval, Eu acho interessante você reconhecer que está nessa camada e faz parte. Acho que está em uma boa camada para o tempo que vocês estão juntos. Mas, se me permite, eu te convidaria a tentar uma camada mais profunda na direção da maturidade. Ah, eu quero fazer uma segunda especialização. A maturidade, para mim, é a melhor definição. A maturidade é quando você entende que você não pode fazer só o que você quer. que você tem que fazer o que você precisa, mesmo quando você tem dinheiro para fazer só o que você quer. Isso é maturidade.
Eu acho que cabe aqui, eu sei que o Carlão é o cara das palavras corretas e escritas fantásticas aqui, acho que cabe muito a questão das palavras aqui, Carlão, da reverência e irreverência. Ele tem que ser mais reverente a toda a história, ele tem que ser mais respeitoso a toda a história. A irreverência em excesso ali está prejudicando um pouco isso tudo, ele está faltando um pouco com respeito a todo o processo criado lá atrás. Sem dúvida.
Exatamente. Eu acho que, em grande medida, esse caso é só para, de fato, concluir, para a gente partir para o próximo caso, mas eu tenho a percepção, e eu já, assim, É claro que já passei por casos análogos, com alguma similaridade, mas eu acho que no que diz respeito a essa necessidade de repensar as coisas, talvez esse seja o caso que me parece mais desafiador hoje na minha carteira. E ele é muito emblemático daquilo que a gente costuma falar, de que não há outra forma em garantir a perenidade, a sustentabilidade da nossa relação com clientes se a gente não extrapolar isso que o André chamou de camadas. Eu poderia passar, e vejam, por tudo que eu contei, acho que não seria difícil a gente extrapolar isso e entender que mesmo que se eu passasse os próximos meses, se não os próximos anos, Periodicamente, voltando a conversar com esse cliente sobre o orçamento dele, ele continuaria me pagando, ele continuaria sendo meu cliente. Mas acho que a gente tem que pensar que tipo de mudança que eu estou, de fato, promovendo aqui. A gente tem que ir um pouco além. Não é muito confortável, nem muito fácil.
Mas ninguém disse que ia ser com fácil.
Sem dúvida.
Muito bom, muito bem. Fredão, vamos escutar o teu caso agora, cara. O que você teve aí da semana passada para compartilhar?
Prometo ser bastante sucinto e direto.
André, um caso muito legal, porque, assim, o primeiro ponto foi um reconhecimento que eu fiz aqui, num dos primeiros podcasts aqui, daquele processo todo de maturidade em relação a tudo aquilo que a gente tem feito, etc., e a diversão que eu crio, no bom sentido aqui, na leitura do livro dos sonhos e do quanto ela é importante para todo o nosso processo. Então, mesmo aquelas pessoas mais céticas em relação a isso, e eu um dia Eu já fui um pouco pragmático demais em relação a esse reconheço. A importância desse processo, dessa reverência a todo um processo, todo um caminhar com o cliente. Então, eu trago aqui um caso de uma cliente que citou algumas coisas muito legais num momento de reunião. onde ela começou só eu e ela, e ela falou, Fred, estou passando por um momento difícil no relacionamento, mas quero entender que o meu marido virá conosco mais à frente, e veio. Mas semana passada ela pediu para ter uma reunião só comigo de novo, ele estava meio atrasado, ela falou, não, deixa que eu vou conversar só com o Fred, por quê? Porque ela queria trazer para mim um ponto discutido lá atrás na leitura do livro dos sonhos dela, que é quase um ano atrás, que é uma transição de carreira, uma necessidade legítima dela de ter algo dela, ter algo que ela vai dedicar, que ela vai conseguir gerenciar melhor o tempo, talvez até um negócio que possa envolver a mãe para ter mais presença da família e etc.
Então, a retomada de um plano, de um projeto que... Cada projetinho de vida do cliente tem tempo mesmo. É legal. Não é na hora que você vai sair fazendo tudo e entregando mapas, e mais mapas, e mais mapas. Não, você vai criar um processo de guia, realmente, de condução. Então, o legal é isso. É o momento ou momentos de vida onde a maturidade no próprio processo, a reverência a tudo, cria um chamado do cliente o seguinte, Fred, chegou o momento de a gente discutir de forma mais profunda aquilo que eu citei lá atrás. Eu falei para ela, vai estar estacionada aqui na parte de ideias para a gente conversar um pouco mais sobre isso mais à frente quando for o seu momento. E ela falou, o meu momento chegou.
Legal, legal. Olha só, reverência ao processo, porque sem ele não teria matéria-prima para um ano depois tocar nesse assunto. E esse é um caso de cliente em transição de carreira. Nesse caso, Tiago, que tipo de reflexão genérico também, que tipo de conselho você tem dado, que tipo de guia você tem sido para um cliente que contempla uma transição de carreira?
E a matemática... forte assim, né? E é bacana porque, enfim, não só eu já vivenciei mais de uma transição de carreira, como também parece até que esses incômodos, acho que seria hoje, esses dias mesmo, né? Saiu uma matéria falando que acho que um milhão de jovens pediram demissão nos últimos tempos, acho que é um pouco desse cenário que a gente vive, né? Desse incômodo, inconstante com a nossa como que a gente tá construindo, né? Em algum momento parece que a gente se depara o tempo todo, será que tá fazendo sentido? Será que não tá? E aí a caminhada tem que ser justamente nessas conexões dos porquês. Eu realmente não vejo outro caminho, sabe?
Bate nessa tecla, conecta muito essa coisa do beleza, a gente pode falar sobre o como, mas se a gente não falar sobre o porquê necessariamente a coisa vai desandar, então eu acho que a transição de carreira tem que necessariamente passar por isso. E é legal poder enxergar a transição de carreira dentro desse contexto mais amplo de vida, né? Qual que é a fase de vida familiar que a pessoa tá passando, como é que isso se conecta, como é que nessa pessoa é casada, como é que isso se conecta com o cônjuge, como é que isso se conecta filhos, pais, enfim. as pessoas envolvidas. E é uma grande oportunidade da gente abarcar e enxergar que uma transição de carreira afeta necessariamente todas as linhas do orçamento. E isso é muito legal de perceber. E poder se antecipar nesse movimento, poder enxergar se é uma coisa que vai exigir muito financeiramente, abrir mão de coisas temporariamente. Então acho que é um pouco nesse caminho que eu tenho feito.
Muito bom, muito bem. Enxergar o porquê e contemplar, junto a isso, fases da vida. Interessante.
Um tempero bom aqui para o Carlão responder, daqui a pouquinho, a pergunta sua, André. O marido está passando por um processo de transição de carreira? E ela, naquele momento, estava questionando muito a dedicação que ela precisava estar no trabalho para compensar essa transição do marido, que saiu de uma atividade para fazer uma faculdade para dedicar para outra atividade que ele quer, que é o sonho dele. E ela falou assim para mim, Fred, superimportante a gente ter conversado sobre dar oportunidade e olhar para frente para a nossa vida em conjunto, porque eu entendi que era um momento em que eu estava egoísta, não confiando no processo dele, e agora vou precisar do apoio dele para fazer o meu processo.
Muito bom. Mas, Carlão, o que eu queria te colocar é que o Tiago trouxe dois elementos que são importantes, a questão do porquê das motivações, e também a fase da vida, mas creio que no começo ele trouxe algo que é preponderante, talvez até com uma superioridade aos dois itens anteriores, que é que parece que estamos em um movimento, não sei se geracional ou cultural, em que todo mundo queria mudar.
Uma mudança... A gente talvez tenha tido, no contexto da pandemia, o que foi então chamado de The Great Resignation. Ei, eu não aguento mais, eu demito. Eu li recentemente um artigo no New York Times, não é tão recente, a gente está em maio de 1923, esse artigo foi em fevereiro, foi ali na época do Carnaval, onde o Great Resignation virou o Great Regret, o grande arrependimento. Muita gente querendo voltar para o que fazia antes, voltar para as suas rotinas, voltar até para os seus escritórios.
E isso, de alguma maneira, culturalmente falando, é um movimento quase que tectônico. Como é que você tem visto isso? Se tem se deparado com isso? Tem dialogado com os seus clientes? no contexto da transição de carreira, talvez agora numa perspectiva mais de um movimento cultural?
Eu, sim, já tive conversas com clientes envolvendo o processo de transição de carreira e, de alguma forma, até as conversas que eu preciso ter com esse cliente que eu compartilhei no começo da nossa conversa de hoje também passa, de alguma forma, por isso. Apesar de todas as... particularidades desse caso, mas isso envolve também algum tipo de decisão de carreira. Mas eu acho que eu consigo enxergar e entender o que o Tiago trouxe, o que você disse também, porque me parece que existe alguma diferença mais a nível geracional, E que, de alguma forma, acho que eu consegui até perceber conversando com isso com clientes que são de diferentes gerações. Por exemplo, a maior parte hoje da minha carteira é composta por famílias ou por clientes que estão na faixa dos 30 aos 40 e poucos anos. Uma minoria da minha carteira hoje é composta por clientes a partir dos 50, 55 anos. Mas, curiosamente, eu passei algum tempo conversando bastante com um cliente que é um engenheiro químico, que ele já está com 58, se não me engano, e que quase aos 60 anos de idade começou a colocar na mesa algumas intenções envolvendo a carreira dele. Hoje ele tem uma atuação que permite que ele tenha uma relativa consistência naquilo que ele faz, hoje ele é basicamente um engenheiro químico que trabalha na Unicamp aqui em Campinas, então ele não precisa se preocupar muito em relação à carreira dele como engenheiro químico, Mas de uns dois anos pra cá, ele começou a colocar na mesa algumas ideias envolvendo se começar a se dedicar a projetos paralelos na área de construção civil. Além de outras coisas que até então eram mais hobbies, por exemplo, produção de cerveja artesanal, que é uma coisa que ele tem feito agora um pouco mais. E aí foi interessante o tipo de conversa que eu tive com ele, eu acho que nesse caso, talvez corroborando o que a gente está dizendo sobre uma diferença geracional, porque apesar de ele sempre ter demonstrado essa vontade, essa intenção de fazer algum movimento, ele sempre foi muito cuidadoso, cauteloso, pé no chão, para entender qual seria o momento mais adequado para fazer isso. E aí acho que boa parte da conversa acabou se direcionando para a gente tentar entender juntos, inclusive do ponto de vista numérico, como que essa decisão por uma eventual transição, se desligar da carreira como engenheiro para começar a fazer uma coisa diferente começando do zero, Qual que seria a implicação disso frente àquilo que a gente havia entendido no começo do trabalho, que eram as prioridades da família, que envolviam inclusive o objetivo de moradia, sem contar o próprio contexto de aposentadoria, né? Porque esse cliente especificamente é o único que traz renda pra casa, a esposa, no trabalho. Eles têm uma filha, ele tem uma outra filha já formada na faculdade de um casamento anterior. Então foram conversas nessa direção, né? Como que essa decisão agora vai se encaixar em relação a tudo isso? Em uma das conversas mais recentes, isso aconteceu acho que começo desse ano.
A.
Gente começou a redesenhar algumas coisas envolvendo o próprio plano de aposentadoria, e nesse momento ficou claro que eles entendiam como prioritário tentar antecipar uma decisão de moradia, que basicamente vai envolver a venda de um imóvel onde eles residem hoje, um apartamento que está pequeno, porque eles têm uma filha que acabou de fazer 15 anos, e eles estão num apartamento somente com dois cômodos, então ficou apertado para a família ali. E aí a ideia foi tentar antecipar esse projeto de moradia para poder se mudar, mesmo que isso prorrogasse os objetivos que eles tinham para a aposentadoria e também essas decisões pela dedicação a outros planos. E ele levou tudo isso muito bem, sempre foi muito lúcido em relação a isso. Ele demonstra uma postura que me parece muito realista, mas também não é fatalista.
E eu acho que essa é uma diferença bem marcante dessa questão geracional. Eu não quero extrapolar e criar aqui nenhuma generalização excessiva, mas eu também tenho essa percepção de que a geração, também colocando isso em conexão com o que você trouxe a respeito da primeira, segunda e terceira geração, esse cliente faria parte da primeira. É uma geração que tende a lidar de uma forma mais funcional com todas essas questões que podem eventualmente envolver grandes mudanças, inclusive mudanças de eixo de carreira. Uma geração talvez um pouco mais jovem, na qual inclusive eu acho que eu me insiro, demonstra já alguns desafios maiores nessa articulação de toda essa questão.
Muito bom. Agora, Fred, não me parece ali uma mudança... Eu vou fazer um recorte aqui, tá? De brincadeira. Não me parece uma mudança muito grande engenheiro químico começar a produzir cerveja artesanal, né? Me parece só uma extensão de carreira. Eu estou bem enganado. Não, é.
Ele sabe. Ele aprendeu todos os processos para fazer isso. Então, na verdade, ele está se divertindo com aquilo que ele aprendeu na faculdade.
É engraçado que esse... Ele tem 60 anos, né, Carlos?
Eu não tenho certeza se ele está com 58 ou 59, mas, enfim... Está.
Na fase dos 60. Mas ele, então, talvez com essa habilidade de cerveja, e eventualmente eu imagino que ele possa ser até um apreciador, me fez lembrar agora, já que estamos aqui debatendo gerações, da minha caçula, que não está nem perto dos 58, ela está com 50 anos a menos, com 8. Mas também como ela aprecia, ela deseja exercer na sua profissão a arte da sorveteada, da sorveteria. Ela quer ser uma sorveteira quando crescer. Vamos ver o que a história vai reservar para ela. Mas acho uma coisa muito importante de tudo o que a gente colocou. Quando me deparo com alguma questão de mudança de carreira, primeiro, acho que não tenho nenhum problema. Acho que a gente tem que abraçar, tem que acolher esses desejos. Mas o acolher não significa, depois do acolher, também dizer que vamos fazer o que é preciso fazer para que isso aconteça. Acho que a gente pode estacionar um pouco antes no que, ao meu ver, é uma agenda saudável, que é esse movimento. Ele tem uma característica que é mais amparada em ir na direção de algo ou ele tem mais uma característica ancorada em estou querendo fugir de algo. E depois disso, uma boa reflexão na motivação do porquê a gente está fazendo o que a gente está fazendo.
E só depois eu acho que a gente entra com suporte técnico numérico do como a gente vai realizar isso. O cliente traz o quê, a gente estaciona no porquê. Juntos a gente cocria o como. O problema é quando planejadores recebem o quê e rapidamente vão para o como, sem antes estacionar no porquê. Pautado em questões geracionais e também motivacionais, e talvez no que tange à questão da motivação, essa dualidade. Isso é um movimento para algo ou é um movimento fugindo de algo?
Acho que dessa maneira a gente consegue trazer as características de um conselheiro confiável para um processo de transição de carreira. Tiagão, agora é você que a gente quer escutar. Obrigado, Fredão, por esse caso aí. Caso de transição de carreira sempre é legal. Tiago, o que você conta aí da semana passada?
Bom, um cliente que está comigo já há um casal, há dois anos, uma família na verdade, tiveram um segundo filho no começo do ano. Filhos sempre trazem um momento de reflexão, de amadurecimento, uma oportunidade de amadurecer, de pensar nas coisas que realmente valem. Não foi diferente nesse caso. E já era um movimento que vinha acontecendo, nesses dois anos e meio eles passaram por várias transições, vários picos e vales aí na jornada, tanto profissional, quanto familiar, quanto conjugal, e foi interessante perceber que agora estão naquela fase de poder não mais ficar reagindo a coisas que estavam acontecendo, eles conseguindo olhar pra frente e enxergar coisas que virão e coisas que eles querem que aconteça, movimentos e a gente tá tendo a oportunidade de poder planejar essa transição, no caso deles é uma transição onde temporariamente eles vão ganhar metade do que eles ganham hoje. E ganhar metade é um desafio. Só que poder construir isso, olhar para o orçamento e poder enxergar Poxa, porque a gente vai ganhar metade? A gente quer reestruturar aqui, no caso, a esposa quer sair de cena temporariamente com relação ao trabalho, incorporar uma tarefa que ela já tem de expertise para ajudar o esposo no negócio que ele está alavancando. É uma união de algumas forças para justamente poder abarcar isso, só que temporariamente existe esse contexto desafiador. Se já era difícil com 100% da renda, com metade, por onde a gente começa, e a reunião passada foi muito sobre isso, sobre enxergar um pouco de como as decisões que eles precisam tomar no orçamento, como eles podem fazer isso. E esse é o cenário.
Legal, legal. Fredão, vamos simular aqui uma reunião. Você é o planejador, eu sou o cliente, tá bom? Eu chego para você e falo. Oi, Fred, tudo bem?
Tudo bom? Tudo bem.
Tudo ótimo.
Eu tenho uma novidade para a nossa reunião de hoje.
Diga, qual que é? Estou ansioso.
Minha renda caiu 50%.
Uau, deixa eu entender com você o que aconteceu.
Coisa agradável, coisa tranquila, fácil de lidar. E aí, o cliente chega para você e você preparou aquela reunião, olha, legal, o cliente não tem isso, eu dei uma olhada ali nos últimos três meses, dois meses, lembro do que a gente conversou há um ano, dois anos, tudo beleza, que legal, tem um filho novo chegando, Que bacana, a gente agora, poxa, aumentou a complexidade também orçamentária, financeira da família, mais uma pessoa em casa. E você então lá estava preparando para dar algumas sugestões e tal, e ele vira para você e fala assim, olha, sabe essa folha de papel aí com todo esse plano? Não precisa nem amassar e jogar no lixo, põe na trituradora, porque não vai precisar para mais nada. Minha renda caiu 50%. O que você faz?
Bom, isso nós passamos, passaremos por isso com diversos clientes em diversos momentos. A vida não é redondinha, ela é bem quadrada e ela traz esses quadradinhos para pararmos minimamente a areça para poder rolar um pouco, porque senão não anda.
André, é aquela questão das camadas de relação com o cliente, que nós falamos lá no início, da complexidade das relações e tudo aquilo que o cliente vai trazer para nós, e de montar junto ao cliente um novo contexto, de entender o que estava sendo feito e começar a entender um novo contexto para tudo isso que está acontecendo. Então, vamos entender, é uma transição, no caso do Thiago, envolvendo uma necessidade de reajustes orçamentários, como o Carlos trouxe. Então é meio que mistura o meu com o do Carlos e vem tudo no mesmo bolo. Eu acho que isso é interessante.
Tem que construir de novo a clareza do como caminhar. Então, legal, a renda vai cair 50%? Beleza.
Criamos um orçamento novo para essa questão, o que pode ser revisitado, o que pode ser realinhado, onde podemos ajustar as coisas, ou temos uma fonte de ajuda. Não digo a externa, mas temos alguma fonte de um patrimônio, de alguma coisa. Temos um segundo carro que, por exemplo, não vai ser usado nessa conjugação que eu estou entendendo ali com o Tiago de atividade, por exemplo, e de repente pode vir dele uma renda temporária até a coisa se ajustar. Então a gente tem que olhar o estoque para ajudar o fluxo, talvez. E qual o estoque? Todo aquele estoque que não for essencialmente necessário. O segundo carro pode ser algo do tipo.
Uma... Nossa, fugiu agora o nome, perdão. Uma reserva de emergência pode ser algo do tipo. Mas criando o limite, o novo limite, Ti, de qual é esse orçamento de guerra, vamos falar assim, para esse segundo momento aqui agora do nosso trabalho, que é uma queda de 50% da renda. O orçamento não pode mais ser o mesmo. E se for, a gente vai ter que conversar sobre até onde a coisa pode caminhar.
Tiagão, dá mais um tempero aí para a gente. A partir dessa queda da renda para metade do que então era, como é que fica a questão do orçamento? Ou seja, os pagamentos, que é o dinheiro que sai, supera essa renda que agora é a metade ou a metade da renda Ainda está bem equilibrada. Como é que está essa parte?
A metade está estável e, na verdade, está crescente, tanto pela atividade dele quanto pelo negócio que está nascendo. Então existe uma perspectiva de transição, digamos assim, para que essa renda metade que foi perdida seja recuperada num horizonte, vamos supor, de otimista 12 meses, pessimista uns três anos. Então é uma coisa Então, desculpa Ti.
E durante essa trajetória, hoje como é que eles estão? Ou seja, essa renda que hoje é metade. Vamos imaginar, era de 10, agora é de 5. O total de pagamentos superam esses cinco, ou seja, eles vão ter que fazer uso de alguma reserva ou não.
O Fred previu bem aí, na verdade, o mapeamento do estoque é esse. E como eu falei, a gente está num momento favorável no sentido que a gente está prevendo, a gente não está reagindo, a gente está agindo. A metade da renda vai cair mês que vem, daqui dois meses. Então a gente já está se antecipando nesse movimento, entendendo o estoque e o estoque vai ser uma parte fundamental para isso. Nada como uma boa reserva de emergência, uma base de plena liquidez bem consolidada, nada como algumas outras fontes também de manobra que pode acontecer. Veio um patrimônio, uma venda de um imóvel no caso, que também parte disso pode ser utilizado temporariamente.
Carlão, me parece um caso de uma queda temporária, circunstancial, planejada, portanto deliberada, mas mesmo assim traz um certo desafio, traz um certo friozinho na barriga. Como você conduz casos que parecem circunstanciais e não contextuais? O que você conta para a gente?
Acho que tem que ligar o microfone.
Perdão. Puxando aqui pela memória, eu não me lembro de nenhuma situação envolvendo uma queda tão abrupta, de 50%. E também convenhamos, na ausência de um estoque que permita fazer essa transição de uma forma um pouco mais tranquila, a não ser que se tratasse de um orçamento com muitos excessos ou com muita... Não necessariamente com excessos do ponto de vista daquilo que a gente poderia ou não considerar como gastos supérfluos ou qualquer coisa assim, mas um orçamento que já era muito superavitário, se não for o caso, dificilmente de uma hora pra outra você consegue reduzir 50% dos seus gastos. É uma conta dificílima de equacionar. e acho que invariavelmente passa por algum tipo de, como eu também trouxe no começo da conversa de hoje, algum tipo de decisão mais estrutural que extrapola o limite daquilo que seria só uma mudança de um hábito aqui, uma mudança de um perfil de consumo, uma coisa mais de caráter comportamental, é muito mais mudança de arquitetura de orçamento mesmo. mas eu tenho a percepção que, nesse caso que o Tiago traz, a decisão me parece ser uma decisão tomada de maneira bastante consciente. Diferente de outras situações, essas sim certamente muito mais complexas, mais desafiadoras, que são... Eu não sei nem se a gente conseguiria chamar isso de uma decisão, é muito mais o que me parece um ímpeto, uma intenção, e não necessariamente uma decisão pautada em um projeto de vida que está bem desenhado, envolvendo também a disponibilidade de um estoque, traçando os devidos cenários, acho que o Tiago tem feito exatamente isso, pelo que ele contou. e conseguindo enxergar minimamente o que é um cenário otimista, o que é um cenário base, por assim dizer, e o que deve acontecer em uma situação mais pessimista. E em se tratando de uma situação mais pessimista, como a gente está preparado ou não para isso. Eu realmente só não consigo compartilhar uma situação específica envolvendo algo dessa magnitude, porque realmente Nesse nível, eu acho que seria inédito para mim.
Muito bom, muito bom. Tia, me parece realmente um caso onde as coisas foram orquestradas. Onde... Talvez eu tenha até criado um teatro dramático com o Fred ali, mas me parece que, se é que foi uma surpresa, existia todo o ambiente para que essa decisão fosse tomada, algo mais deliberado e pensado. É isso mesmo ou não? Te pegou um pouquinho de surpresa?
É, assim, pega um pouco de surpresa porque eu não imaginava que isso tava sendo pensado. Eu confesso que a notícia de elas intencionalmente se desligar não era uma notícia que me esperava. Então sim, certamente. E não é que eles estão nossos, estou 100% confortável. A decisão é assim, estou tremendo na base, a gente não sabe se o dinheiro vai dar, mas a gente tem um desejo no coração de seguir esse caminho. É assim que eles compartilharam.
Criuzinho na barriga sempre tem, né?
Criuzinho na barriga é muito grande, porque a pergunta é essa, será que vai dar? Será que não vai dar? Então, acho que é um pouco desse ponto, entendeu? Será que todo mundo é decisão certa? É aquela coisa, não bati o martelo ainda, mas é aquela coisa da angústia. Então, assim, é muito interessante poder, de alguma forma, ajudar a construir um pouco desses caminhos. E se der errado, o que pode acontecer? E se der mais ou menos certo, o que pode acontecer? Então, poder ajudá-las nessa construção é um pouco do que eu entendo ser um papel relevante aqui.
Tá bom. Muito bem. Muito bom. Isso aí. Olha só. Você citou que um cliente de dois anos, eu acho que mesmo apesar do frio da barriga, E mais interessante ainda é, quando o cliente traz esse desejo para o planejador, eu não vou dizer sequer ajudar a decidir, mas co-participar do processo de reflexão, porque vai decidir o cliente. Mas quando a gente é convidado a isso, é uma das características prevalentes de um conselheiro confiável. Para mim, esse é um caso de celebração. E friozinho da barriga faz parte, né? Também a gente não vai lembrar muito daquelas coisas que não deram um certo friozinho na barriga. Então, muito bom você ter compartilhado isso. Pessoal, uma hora e cinco minutos aqui a gente já está extrapolando o nosso tempo. Então, por favor, coloquem aí uma vez e meia, duas vezes, na despedida de cada um de vocês, pra gente poder encerrar rapidamente o episódio.
Prazerzaço estar aqui, com essas boas companhias novamente.
Um abraço.
Valeu, pessoal. Obrigado aí pelo convite. Até a próxima.
Obrigado, gente. Um abraço.
Ninguém vai tentar falar rápido como eu, assim. Não, tá bom. Então é só ir pra comigo aqui sozinho. Beleza. Turma, valeu. Obrigado. Beijo pra todo mundo. Boa semana. Tchau, tchau.
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