AAP Ep.036: Clientes engajados… até a 2ª página… Um cliente, múltiplos desafios. O que fazer primeiro? Mudança de hábitos.
17 Oct 2023 · 63 min
Transcrição do episódio 36 do podcast da Academia de Planejadores (apresentador: André Novaes) com Frederico Gonçalves, Tiago Botelhos e Ronaldo Askar. Os participantes discutem casos reais de planejamento financeiro — um casal com finanças separadas e demissão recente, um cliente com dificuldades de diálogo conjugal, e uma cliente com endividamento crônico — focando em como priorizar ações, conduzir diálogos entre cônjuges e promover mudança de hábitos financeiros.
Chapters
Ajudando os verdadeiros planejadores e planejadoras a ter maior clareza, mais clientes e a se tornar a melhor versão de si mesmo. Este é o podcast da Academia de Planejadores.
Olá, seja muito bem-vindo ao 36º episódio Aqui do nosso podcast, é muito bom ter a sua companhia. A gente realmente busca dedicar um tempo aqui, um tempo a partir do qual você pode ter um olhar, um olhar de dentro, um olhar mais de perto de como é o dia a dia, os encontros, as reuniões de verdadeiros planejadores. E eu tenho aqui a boa, boa companhia de sempre do meu querido amigo e irmão Frederico Gonçalves. Como é que você está?
Tudo bom, pessoal? Tudo ótimo. Mais um podcast aqui do 36º, certo?
Boa, é isso aí. A gente também está aqui na companhia do Tiago Botelhos. Tiagão, como é que você está?
Muito bom dia. Prazer estar por aqui. Tudo ótimo.
Muito bem, muito bom. E também, porque as cartinhas não param de chegar, né, Fred? O Fred, ele visa as cartinhas que não param de chegar do nosso querido Ronaldo Askar. Conexão, por enquanto, Campinas BH. Muito em breve, a gente vai estar mais perto, hein, meu irmão? Seja muito bem-vindo.
O pessoal pede por causa das bochechas rosadas.
É verdade, é verdade. Ronaldo, é um privilégio poder contar com o teu expertise também. Muito bem-vindo.
Bom dia, pessoal. Vocês me matam de rir, mas é um prazer estar aqui com todos vocês.
Muito bem, muito bom. Turma, só para lembrar, a ideia aqui é uma boa conversa, uma conversa descontraída, a gente trata de casos reais, situações que aconteceram na semana passada, coisa que está quente aqui na nossa mente e coração, a gente faz disso uma grande troca de experiências e também Um ambiente sem script, potencialmente vulnerável, mas nunca desprovido da coragem para poder mostrar para cada um de vocês o que é ser um verdadeiro planejador financeiro. Tiago, Fred, Ronaldo, vocês não fazem ideia. de o quanto as pessoas ainda confundem planejamento financeiro com gestão de investimento, ou então planejamento financeiro com tenho que tirar as pessoas apenas das dívidas e não conseguem compreender a abrangência e a profundidade que podem ser a marca característica de um verdadeiro planejador, marca essa que depois acaba sendo traduzida num valor entregue e percebido para os clientes, e então o resultado disso Permite a gente, permite a quem escuta a gente, a construção de uma carreira mais consolidada. Vamos já mergulhar no caso aqui, para eu parar aqui de enrolar na minha apresentação. Eu convido, diferente do que a gente habitualmente faz, Fred, você, por favor, para compartilhar acerca de um encontro relevante, de uma reunião impactante que você teve na semana passada.
Fred, tem que abrir o microfone, por favor.
Tadinho, ele não tem muita experiência em fazer esse negócio, então ele tá meio confuso aí. É só abrir o microfone. Vai lá, meu irmão!
Isso aqui é um cuidado, né? Porque hoje quem tá assistindo o vídeo tá vendo que eu tô num cenário diferente aqui. Estou fazendo aqui do... Vamos brincar aqui, o estúdio aqui em casa, mas aí temos um cachorro muito... Que late muito, então estou tentando ver se... Uma brincadeira da parte aqui. Vocês sabem que brinquei aqui com o pessoal um pouco antes, que fica muitas vezes difícil, né? Para mim, eu que estou aqui desde sempre em todos os podcasts, trazer... Novidades, mas o que eu pensei hoje cedo foi o seguinte, nem sempre precisa ser novidade, pode ser um caso repetido com família diferente, porque tem contextos e contornos diferentes, etc. Esse aqui nem é o caso, mas acredito eu que vai falar um pouco sobre bastante coisa aqui. Esse aqui é um casal que me contratou recentemente. Na semana que eles definiram a contratação e estavam conversando comigo, ela foi demitida. Retornando da licença maternidade, aquelas empresas cheias de ESG, diversidade e tal, etc. Mas quando voltou, Quando ela voltou da licença maternidade, não existia mais muito o ESG, o direito humano, essas coisas todas, e ela, com um cargo muito legal, muito bacana lá, dentro da empresa, uma grande empresa farmacêutica multinacional, do nada mudou tudo e foi demitida. Ela estava até com treinamentos para coisas diferentes, ela estava assumindo realmente algumas outras áreas lá dentro. Mas enfim, aí o marido falou, Fred, enxergo que aqui ainda mais vamos precisar de você. Eu falei, perfeito, bora lá. Ajustamos tudo e começamos. Eles têm uma configuração um pouco diferente de família. As finanças são praticamente 100% separadas. Cada um tem as suas coisas, os seus investimentos, as suas questões todas, só para vocês terem uma ideia. A casa foi comprada somente no nome dela e só ela estava como... Está como pagadora do financiamento e etc. Mas enfim, tem um casamento ali que rola dessa forma, acredito eu que foi tudo configurado dessa forma. Por que eu tô falando acredito eu? Porque estamos no começo, né? Acredito eu, foi tudo configurado também por um histórico anterior dele com as empresas, né? pelo fato dele ter uma filha de um outro casamento e assim vai. Então, enfim, estão configurando dessa forma. Não estamos julgando, só estou interpretando. Os recursos estão separados e ele é um cara com muita visão empreendedora, só que está faltando para ele um pouco do empresariado. Ele não tem conseguido tocar esses negócios. Ele tem se frustrado muito com essa ausência dos negócios darem certo. E aí, agora com ela demitida, ele buscou uma recolocação profissional. Não foi aquilo que ele queria, mas ele se recolocou. CLT, salário bonitinho, caindo todo dia na conta lá. Ele falou, Fred, deu agora, preciso ter alguma entrada aqui para não sangrar de vez tudo. Só que aí começa a ponta. Muito engajados em tudo até uma segunda página. Tem um potencial ótimo de trabalho, mas ainda fora de um pouco de sintonia. Ele está com medo de olhar para as coisas todas dele, para aquilo que não está dando certo.
Qual a idade deles, Fred?
Eu acho que é 40 e 40 abaixo que eu posso eu posso dar uma olhada aqui rapidinho é ele 40 abaixo ela 30 a 30 alto tá.
Então deixa eu entender, ambos parece que eles estão tocando a vida financeira muito de independentes. Ela tem a reserva dela, ele tem a reserva dele. Eles também se conheceram numa idade mais madura, já com algum patrimônio formado, o que motivou talvez essa ainda independência ou separação. Você já teve oportunidade de conhecer um pouquinho mais do porquê tocam a vida do jeito que tocam ou ainda começam a tirar as pétalas.
Como a situação foi apresentada? Confesso que entraria muito nesse ponto no início do trabalho, mas como a situação da demissão? pegou bastante para eles. Inclusive, Fred, a gente não tem carro, o carro que eu tenho é da empresa. Aí óbvio, a empresa fez uma oferta ali para ela comprar o carro dela, que aliás foi super bacana. Então, eu já entrei meio que atacando algumas coisas em relação ao uso de FGTS liberado para esse financiamento, para a decisão dessa compra desse carro, etc. Mas, aos poucos, eu estou entrando nisso. Eu já fiz duas reuniões separadas, uma com cada. para entender um pouco. E ela fala um pouco sobre, Fred, dá um toque lá para ele. Ele precisa entender que algumas coisas não estão fazendo sentido. E ele fala, pô, Fred, realmente eu preciso entender tudo isso contigo, quero essa clareza, mas estou com medo de olhar para tudo isso. Confesso que realmente aquele cenário que você falou de tô parecendo aqueles emojizinhos do WhatsApp, não vejo, não falo e não ouço sobre isso, é um pouco do que eu tenho feito e não pode, né? Mas ele fala que não pode, mas não sai, né? Então, por exemplo, dela praticamente 100% tudo lançado, dele... Putz, Fred. Estou trazendo o dinheiro lá de fora, porque uma das empresas deles tem atividade lá fora. Estou trazendo dinheiro lá de fora para pagar as contas. Vamos ver que contas precisa ser paga. Preciso levantar, não sei. Só para a demografia deles aqui, eles têm 39, os dois.
Mas olha só, eu consigo enxergar três coisas interessantes nesse caso. De um lado, estão engajados, mas, eventualmente, até a segunda página aparece quando a coisa aperta. Existe uma certa resistência, existe uma certa, talvez um certo receio, realmente, de olhar as coisas como estão. Um outro traço é, manifesto, por exemplo, quando um dos cônjuges diz, planejador, você pode ir lá e falar com ele ou você pode ir lá e falar com ela? Como é que a gente pode conduzir isso? Mas também uma outra coisa interessante que agora, te escutando, me notou é, existiu uma circunstância urgente que eu tive que atuar. Resolver questões de FGTS, resolver questões de vai ter carro ou não vai ter carro, E, portanto, porque é um cliente novo, eu ainda não pude me aprofundar tanto no que eu pude, no que eu gostaria e no que eu sei que eu devo me aprofundar. E aqui eu vou fazer uma coisa diferente, tá? Tiago e Ronaldo, dentre essas três, Situações que, Fred, me corrija, elas são presentes no teu caso. O empolgação até a segunda página, o planejador dá um recado para o meu cônjuge e o terceiro que é, primeiro, eu preciso fazer algumas coisas mais pragmáticas para depois entrar realmente em coisas mais profundas. Como é que, Ronaldo e Tiago, vocês lidam com cada uma? Pode escolher uma dessas situações e dizer, quando me deparo comigo, a minha experiência aponta para esse tipo de condução. Engajamento, falta dele. Planejador, fale com o meu cônjuge, segunda situação. Terceira é... tem alguma coisa circunstancial rápida que eu preciso resolver, é sobre o que fazer e sobre o como fazer, e depois a gente conversa sobre o porquê deve ser feito. Como é que vocês lidam, Ronaldo e Tiago, numa situação como essa? Começar com o Ronaldo.
Boa. Bom, Fradão, caso desafiador. E o que me chamou bastante atenção em respeito ao engajamento foi o seguinte, ele sabe que tem um problema em mãos, ou seja, os empreendimentos que hoje ele não consegue administrar, mas ainda assim ele tomou a decisão de voltar para o mercado de trabalho como um CLT. Então eu entendo que provavelmente o que eu faria aí nesse momento é tentar realmente direcionar esse marido para aquilo que realmente é importante neste momento. A questão, porque o que eu enxergo aí, de fato, ele está com muitas coisas na frente e pode ser que ele não esteja atuando, vamos falar de forma dedicada, porque um empreendimento de esporte, tem uma operação no exterior, provavelmente vai pedir uma dedicação exclusiva. E será que nesse momento ele realmente não está deixando de lado para ele esquecer isso depois e isso não incomodá-lo mais? aí eu já faço um gancho da forma como provavelmente ele vem administrando as finanças até hoje. Eu sei que as coisas estão acontecendo, eu tenho uma ótima iniciativa, eu quero realmente resolver, mas na hora de pôr a mão na massa... Ele descansa e provavelmente, tá, Fred? Provavelmente eu acredito que ele esteja delegando isso à esposa, uma vez que ela também é uma pessoa de extrema iniciativa. Entendo que todo esse arranjo financeiro, familiar, se eles concordarem em fazer dessa forma, pode ter sido também pela história passada, do relacionamento anterior, eles quererem de fato desenvolver essa divisão patrimonial para dar garantias a ambos. mas, de certa forma, eu acredito que ela seja uma mulher com bastante autonomia, sabe? Aquelas mulheres que têm aquela visão, eu sou autônoma, eu consigo fazer isso. Então, eu entendo que, de alguma forma, ele deve estar se sentindo confortável com isso. E aí que eu acho que é um ponto, a gente precisaria, na verdade, mostrar pra ele um pouco de desconforto nesse sentido. Ou seja, meu caro, o que você vai fazer a respeito disso aqui que de fato te incomoda? E o terceiro item, eu confesso que ainda ouvimos pouco, fica difícil determinar de uma forma tão especial tudo isso, mas eu procuro sempre trazer o casal para a conversa. Já lidei com inúmeras situações onde um cônjuge me pediu pra mandar um recado ao outro, e em algumas situações eu acho que isso é necessário, mas eu entendo que o nosso trabalho é de fato fazê-los conversar a respeito. É lógico que a gente vai respeitar o estilo de vida de cada um, o estilo de comunicação de cada um, mas eu entendo que pra que a gente consiga de fato consolidar o nosso trabalho, é importante. que a gente faça os cônjuges conversarem a respeito do que importa para eles. Eu acredito, Fred, que você vai ter mais alguns desafios nesse sentido, e eu sei que com a sua experiência, com a sua sensibilidade, você conseguir trazer boas histórias para a gente em breve, inclusive.
Ronaldo, só para te posicionar, eu entendo essa interpretação de vocês, e ela não está 100% equivocada, de recado de um cônjuge para o outro, mas, vai... na verdade, como as finanças sempre estiveram separadas, e existe um cartão comum e tal, etc., o que eu quis entender é como estava a configuração patrimonial de cada um, porque pasmem, mas um não sabe do que o outro tem ou o que não tem. E eu tive que fazer essa conversa individual para mostrar para eles o seguinte, todos nós saberemos tudo o que cada um tem, positivo e negativo. Nós vamos ter que fazer isso porque vocês dois juntos, vocês conquistam e conquistarão muito mais coisas do que fazendo separado, cada um para o seu lado. Então, eu entendi o que eles queriam com as reuniões separadas, mas não deixei que a condução fugisse da minha mão. Ou seja, não deixei que a agenda deles fosse a agenda da reunião, e sim o entendimento meu junto a eles do que precisaria ser feito.
E ele sim, viu, Ronaldo? Ele se frustrou muito com os negócios todos dele, inclusive esse lá fora, que ainda tem um volume razoável de dólares lá para trazer, por exemplo. Mas são coisas que não vão pra frente. Ele já deu com os burros na água, como ele mesmo falou algumas vezes, mas ele tá insistindo ainda e falou, Fred, eu tenho que insistir nisso de forma mais estruturada. Então, talvez, eu preciso entender junto contigo o que eu preciso fazer. Eu falei, então, talvez a gente precisa dar dois passos atrás pra dar um na frente. Dois, três, quatro passos atrás pra dar um na frente. De repente, deixa essa empresa paradinha por um tempo. Daqui a pouco a gente volta. Onde você tiver a melhor estrutura para olhar para tudo isso. Porque do jeito que você está, você não está focado nas coisas. Você está disperso. É isso aí.
Muito bom.
Tiagão, até para te trazer para a conversa, o Fred colocou aí também um outro elemento interessante. Agenda do cliente, agenda do planejador. E temos uma reunião ali para entregar. e para que o cliente tenha a sensação de que a gente está apontando para alguma direção. Como é que você tem equilibrado a agenda do planejador, a agenda do cliente, na direção de um progresso? Como é que você tem lidado com isso?
Sim.
Se existe uma parceria entre planejador e cliente, existe, de alguma forma, o início de um combinado, onde existe uma motivação para a contratação e essa motivação necessariamente precisa ser atendida. Se a agenda, de alguma forma.
É única e exclusivamente estabelecida por nós, existe um problema. Mas, ao mesmo tempo, se a agenda é única e exclusivamente estabelecida pelo cliente, a gente sabe que não necessariamente ele vai chegar onde ele quer chegar, onde ele precisa chegar. Então, acho que a gente vai ter que conviver com essa tensão contínua de sempre poder atender aquilo que o cliente no primeiro momento deseja, sem deixar de pontuar e encaminhar aquilo que ele não necessariamente está aberto para no primeiro momento. E acho que tem duas coisas que eu considero fundamentais para que isso aconteça de maneira natural. Primeiro, uma metodologia clara. Se a gente tem uma metodologia clara, primeira etapa, segunda etapa, terceira etapa, quarta etapa, onde o cliente já tem ali uma trilha que ele consegue imaginar e visualizar. E essa trilha vai, dentre outras coisas, resolver aquilo que ele quer resolver, mas sem deixar de cobrir coisas que, num primeiro momento, ele não estava considerando. E aí entra um pouco daquilo que você também trouxe, que é essa coisa de falar das coisas mais profundas, falar das coisas mais simples. De novo, também entendo que é uma tensão, porque no primeiro momento a gente também não pode cair de cabeça forçando a barra em situações e conversas difíceis muitas vezes, mas se a gente não caminhar pouco a pouco nessa direção, a gente vai ser só aquele bombeiro apagador de incêndio. Coloca o dinheiro ali, tira dali, corta aqui, faz ali e no fim das contas o cliente não amadurece. Então, acho que é um pouco nesse ponto que eu que eu enxergo.
Você tem total razão. Eu me recordo, Thiago, de cerca de uns 10 dias atrás, em um outro grupo em que a gente participa, ouvindo o Mitch Anthony falar sobre defining conversations. Acho que a tradução mais adequada seria conversas que definem, definem na direção de determinar, de dar uma imagem mais clara de como as coisas são. E eu me recordo também de um livro do mesmo autor, onde ele diz que a gente tem que dar ao cliente o direito de estar com as ideias erradas. Por isso, a gente precisa falar sobre coisas que são profundas. A gente tem que dar ao cliente o direito de reconhecer que tem ideias erradas. E não nos ausentarmos nesse tipo de conversa para poder, eventualmente, apontar para uma direção melhor. seja na condução de alguns negócios que não se mostram frutíferos, seja também, e eu acho que é interessante o Fred acolher num primeiro momento, cuidando da part money, vamos dar uma olhada no patrimônio, para construir uma confiança. Confiança essa depois que ele vai usar como um elemento para, ok, a gente conversou sobre patrimônio, a gente conversou sobre fluxo de caixa, a gente agora vai ter que conversar sobre o casamento, agora a gente vai ter que conversar sobre o diálogo, sobre como é que vocês estão lidando com tudo isso. Mas eu acho, Fred, que você tomou uma rota que me parece muito adequada. Muitas vezes, a gente também, providos na direção de querer falar sobre o que realmente importa, esquece de servir o cliente naquilo que ele precisa mais imediatamente. Porque envolve fazer mais conta, envolve fazer mais cálculo, envolve a gente talvez ter que ter mais trabalho de back-office realmente para isso, enquanto uma conversa mais profunda eu faço ali na hora. Acho que a questão aqui é, eu tenho buscado também, de alguma maneira, me afastar um pouco do meu natural. O meu natural é ter conversas mais difíceis.
Fazer o que o cliente precisa que seja feito no primeiro momento para construir a confiança e com essa confiança depois eu entro no meu natural. E eu busco fazer isso até porque e também como um mecanismo para que eu não faça apenas o que eu quero que seja feito e para que eu me desafie. Ao mesmo tempo, e aqui eu concluo, existem profissionais cujo natural é falar sobre números. que deveria, talvez, também, na direção de se aprimorarem, de evoluírem nas suas carreiras, buscar também fazer um pouquinho do que é antinatural. E dessa combinação a gente cresce. Eu creio que se a gente só fizer o que a gente está mais confortável em fazer, a gente não está entregando tudo que o cliente precisa e nem aquilo que ele merece. e muito ainda a gente não está evoluindo do jeito que a gente deveria.
Então, muito bom, cara, muito bom. É interessante como a gente pega um caso, é um casal que tem patrimônio, que tem fluxo de caixa, ela foi desempregada, ele está empregado e vão falar sobre coisas completamente diferentes disso. Eu, pelo menos, acho isso uma expressão, extensão do que a gente diz como arte do planejamento. Fernando, que Deus te abençoe, cara, com essa família.
E você foi preciso. É importante falar de algumas coisas no início, porque agora, mais do que em outros momentos, o fluxo de gasto é muito importante. E você parar e olhar e, de repente, solucionar uma equação ali.
Onde nitidamente, por exemplo, Ronaldo, a equação quitar tempo de um financiamento, logicamente, monetariamente, financeiramente falando, é melhor, o momento que eles estão não é esse, é de... Como não daria para liquidar tudo, você tem que dar mais fluxo mensal. Então você tem que diminuir ali o que deu para diminuir, R$2.500 por mês de parcelo. Isso é ótimo. É quase 10% do orçamento deles nessa redução. Entendeu? Então tem que tomar as decisões difíceis às vezes, que não necessariamente o número vai te mostrar que é a mais vantajosa.
É isso aí.
É isso aí.
Vamos lá, por housekeeping aqui, manter a nossa agenda dentro da uma hora. Ronaldo, você é o próximo na nossa fileira aqui, cara, que a gente quer escutar um pouquinho de você. Conta aí um encontro interessante da semana passada.
Muito bom. Bom, esse cliente eu já tenho indo para quarto mês de trabalho. Ele é um funcionário público, jornalista e psicanalista. A mãe também é psicóloga, a esposa também é psicóloga. A mãe e a esposa dão aula numa universidade de psicologia e eles têm três filhos. Um de 12, um de 9 e uma de 5. E o grande desejo desse cliente no início era ter um maior controle das finanças. Ele percebia que eles tinham uma boa renda, um considerável patrimônio. pessoal em termos de imóveis, mas ele trouxe também o desafio das poucas conversas com a esposa a respeito do dinheiro. Ou seja, ele foi vendo a qualidade de vida familiar caindo em função da alta carga de trabalho de ambos, uma vez que ela dá aula na universidade e ele trabalha na Assembleia Legislativa, mas ele também tem um consultório, onde ele iniciou há um ano e pouco os seus atendimentos particulares. Então, toda essa rotina com os filhos, a agenda da esposa que muda a cada semestre e o próprio estilo de vida que eles adotaram, ele vem percebendo, sim, que constantemente ele vem consumindo. no seu patrimônio financeiro para pagar despesas de gastos frequentes mesmo. Então eles têm uma história interessante que os pais são separados, o pai e a mãe deles são separados, a esposa não concordou em fazer nenhuma reunião desde o início, ela foi convidada em duas oportunidades e ela não teve nenhum interesse em aderir e mesmo assim topou. Ele é um profissional extremamente agradável e ele falou, cara, eu preciso resolver isso, eu preciso de fato compreender efetivamente qual é o destino do dinheiro que a gente gasta mensalmente.
Eu percebo que os grandes desafios são, de fato, a gente poder cuidar do projeto de aposentadoria dele, que uma parte é patrocinada pela Assembleia Legislativa, outra parte ele realmente vai ter que construir fora, de forma intencional, digamos. A formação universitária dos três filhos, principalmente porque um deles já tem 12 anos, a gente está muito próximo. E o outro ponto que ele trouxe também é, de fato, a gente conseguir fazer o casal conversar. Casal, de fato, compreender o que eles desejam a respeito dos recursos que eles têm. Uma vez que o imóvel que eles moram foi a mãe dele que deu, A família dela tem uma situação financeira desafiadora, porque a empresa da família passou por uma falência. Então, parece que todo esse contexto faz com que a esposa não queira efetivamente conversar a respeito. E confesso que é um profissional, um cliente que a gente tem uma troca de informações muito boa, são reuniões extremamente produtivas. Então, eu tive que também improvisar num determinado momento ali que foi um dos maiores presentes que eu já recebi até hoje na minha carreira. E aos pouquinhos a gente vai contando para vocês aqui.
Legal, quero. Vamos deixar esse spoiler aí. Tiago, imagina que você é um agente de turismo e você recebe um cônjuge dizendo, a gente quer fazer uma viagem, a gente tem 15 dias e a gente quer ir para a praia, porque a gente adora a praia, mas a gente também adora ficar no topo da montanha, então a gente também quer ir para o topo da montanha. E, Tiago, a gente também gostaria de estar em um ambiente urbano para poder ir em bons restaurantes, conhecer bons teatros e bons museus. Cuida dessa viagem pra gente. Ou seja, o cliente quer um monte de coisa numa mesma viagem. O cliente quer um monte de coisa num mesmo relacionamento. Tudo bem que o nosso é mais longevo. Não são só 15 dias. Mas e aí? Como é que você tem lidado quando, então... Ah, e tem mais, hein? O cliente que vai ali na agência de turismo diz, ó, mas o meu cônjuge não tá topando muito essa viagem, não.
Como é que você tem lidado, cara, numa situação como essa, onde eu preciso me relacionar melhor com o meu cônjuge, eu quero cuidar da formação dos meus filhos e eu também quero cuidar da minha aposentadoria? Dá pra fazer tudo ao mesmo tempo? Vamos ter que escolher alguma prioridade? Como é que você conduz isso e alinha bem essa expectativa?
Muito bom, é um desafio recorrente de fato, querer fazer muitas coisas, então num primeiro momento a conversa já caminha para que a família e o cliente possam perceber que obviamente não dá para fazer tudo, E a gente começando a enxergar isso, começa a conversar sobre as motivações de cada uma das coisas, começa a perceber que tem coisas que são mais importantes do que outras, começa a perceber que uma coisa tornará mais fácil todas as outras coisas. Então...
E uma das coisas que eu gosto de apontar, em especial quando o casal de fato quer esse alinhamento conjugal e colocar a família acima da individualidade, é poder enxergar junto com a família o que de fato é prioridade para o contexto familiar, então aquilo que vai beneficiar a todos. Então, se a gente consegue enxergar uma, duas coisas que vão beneficiar a todos, a gente começa a colocar isso como sendo o grande guarda-chuva para abarcar as individualidades. Mas isso a gente consegue fazer, seja através de uma simples conversa daquilo que foi surgindo. E é interessante perceber também que tem coisas que ficam evidentes, que não se resolvem necessariamente com o dinheiro.
E aí a gente consegue conjugar, porque tem coisas que se resolvem sim abrindo espaço no orçamento, mas tem coisas que se resolvem abrindo espaço na agenda. E aí o convite também para que algumas coisas sejam melhoradas num primeiro momento, não necessariamente com aporte de dinheiro, mas com aporte de tempo intencional. Então, também poder fazer perceber que algumas coisas podem melhorar a partir de algumas coisas, alguns ajustes de tempo, acho que faz muito sentido. Principalmente quando você tem uma questão de conjugar, uma das coisas que eu gosto de poder incentivar é, poxa, você, fulano, um casal, vocês têm hoje algum ritual que vocês façam toda semana? Alguma coisa que vocês façam juntos? de uma maneira recorrente e incentivar eles nessa direção. Eu vejo que isso é uma das coisas que mais contribui para que o... Eu sempre dou o exemplo meu, que é um momento no passado, quando eu estava com a primeira filha, a segunda filha pequena em casa, a agenda super atribulada, a correria para lá e para cá, é difícil mesmo arrumar tempo. Mas a gente decidiu que toda terça-feira a gente ia deixar as crianças na escola e ia ficar 30 minutos dentro de uma padaria, a desculpa era o café da manhã, mas no fim das contas a gente conversava sobre muita coisa. E isso durante um ano inteiro fez uma diferença, foram 50 conversas, você pegava todas as semanas do ano. E, assim, isso faz uma diferença brutal, para a gente fez muito. E eu cito um pouco desse exemplo porque eu acho que isso ajuda as pessoas a perceberem que, no fim das contas, às vezes tem coisas que se resolvem de uma maneira muito mais simples do que grandes soluções milabolantes.
Muito legal, muito bacana. Fredão, vou te fazer uma pergunta difícil, mas eu sei que você consegue segurar essa bola, cara. Múltiplas demandas, todas elas confluentes, elas se comunicam. A gente está falando sobre a aposentadoria, a gente está falando sobre cuidar dos filhos, a gente está falando sobre cuidar do casamento. Mas, cara, e o Thiago trouxe uma boa leitura na direção de ver as motivações e já sugeriu também algumas práticas para que tudo isso seja melhor alinhado. Mas, Fred, na tua experiência, e a parte difícil agora vem agora, se você tivesse que escolher uma prioridade, e eu e você somos defensores de que não existe a palavra prioridade no plural, Qual você, num contexto como esse, e eu sei que estou te colocando contra a parede aqui porque a gente está desprovido de um contexto mais amplo, mas sabendo o que a gente sabe, até essa altura do campeonato, teria uma coisa que você escolheria como essa é a minha digital? É aqui que eu vou fazer primeiro? É aqui que eu vou atuar primeiro? Como é que você lida? Se há uma prioridade, não há, o que você tem para compartilhar?
Neste caso específico, eu iria direto para um ponto que é a necessidade do diálogo entre esse casal. Necessidade.
Óbvio que o cliente nos contratou com alguns objetivos, com algumas metas, com alguns planos, com algumas perspectivas e algumas expectativas. Mas assim como esse casal clientes que eu conversei ainda agora, e que o diálogo está necessariamente precisando acontecer e sendo incentivado, aqui no caso do Ronaldo é muito similar, guardando as proporções e dificuldades. O diálogo entre eles precisa acontecer. Então, de repente, ele precisa sugerir para os clientes um pouco daquela, vamos falar assim, daquela analogia que nós fazemos com as decisões 3D. Eles precisam entender que não ele está certo e ela está errada, ou ela está certa e ele está errado, e sim o que é certo e o que é errado para eles. Então, por isso que eu falei para vocês no meu caso anterior aqui, que eu ainda não aprofundei tanto as coisas como eu gostaria dentro do trabalho com aqueles clientes. E o Ronaldo talvez ainda também não tenha tido esse tempo, mas precisa, precisa incentivar. Precisa incentivar esse diálogo entre esse casal para entender que qual é a prioridade deles, qual que é o plano e projeto de vida da vida deles e o que vai acontecer em paralelo a tudo isso. Ou seja, a unidade familiar deles vai permitir entrar que tipo de decisão financeira combinada aos planos e projetos de vida deles.
Legal, legal. Sabia que você ia apontar realmente a gente para uma direção. Aqui a direção está muito clara, a relevância do diálogo como instrumento até para cuidar das demais. Ronaldo, vamos voltar a conversa até você. Como é que você tem levado o caso, já dentro do contexto, sabendo de mais detalhes? E não deixa a gente com água na boca, não. Diz aí qual é essa surpresa que aconteceu para a gente poder celebrar com você.
Fredão, a minha condução foi exatamente nesse sentido, a necessidade de chamarmos a esposa para conversa, e ela não tocou. Ali já na segunda reunião, eu falei, vamos convidá-la somente para uma conversa, somente para a gente aprender a dialogar a respeito de, nós não vamos falar de dinheiro. Esse é o convite, efetivamente. Nós não vamos falar de dinheiro, nós só vamos falar de diálogo. Como que, efetivamente, a gente pode iniciar um diálogo? E ela não topou a resposta dela. Você sabe que eu não gosto dessa abordagem, então não me traga mais. Mas aí...
Desculpa te interromper, mas pode ser uma interpretação que ela tem das intenções dele também. Então a gente tem que tomar muito cuidado com tudo isso.
Eu não tive a oportunidade nem de compreender no contexto conjugal, como ela percebe as intenções dele, Fred. É aí que está o grande desafio. Porque as intenções dele, ao meu ver, são as melhores possíveis. A partir do momento que eu só estive com ele para falar a verdade. E sempre vem, ela não gosta muito, ela fica irritada, Então, parece que, às vezes, aquela passividade com que ele sempre atuou, parece que ele está querendo deixar isso de lado.
Ele está, de fato, querendo tomar as rédeas. Isso é nítido, ou seja, eu quero tomar as rédeas dessa situação e ela não quer participar disso comigo nesse momento. Mas nem por isso eu vou deixar de fazer. E aí que vem a grande surpresa, que na reunião 3, ele trouxe o filho mais velho para a reunião. Ele pediu, posso levar o meu filho? Eu falei, claro, mas na hora que nós chegamos na reunião, eu falei, qual foi o motivo de você ter trazido o seu filho? Ele falou assim, eu quero que ele comece a ouvir a mensagem que você me traz nas reuniões, porque isso tem me feito aprender bastante. Então foi aí, Fred, que eu enxerguei uma grande oportunidade de conduzir também. Foi aí que ele deu o sinal de que ele está querendo assumir as rédeas. E foi uma excelente reunião, eu percebi o filho, mas ele totalmente interessado, ele já meio que compreendendo algumas coisas, vocês conhecem o que é a nossa reunião 3, e ele participativo, ele podendo compreender aquilo, e ali eu arrisquei muito e trouxe o seguinte, olha, eu entendo que o seu pai te trouxe aqui para que no momento em que ele for chamar a família para conversar a respeito dos projetos que ele está desenvolvendo, você poder contribuir com o seu pai nesse sentido. Vamos lá ouvir, porque isso aqui é importante pra gente". E o pai me olhou assim na reunião e me fez aquele sinal de, cara, você entendeu exatamente o que eu vim fazer. Então, esse, na verdade, foi um dos grandes presentes que esse cliente me trouxe. Eu me senti muito confiante, muito à vontade de levar a mensagem pra ele dessa forma. mas, de certa forma, a gente não desistiu de convidar. E aí, o foco mudou nesse momento. O foco agora é, de fato, a gente cuidar de orçamento. A gente precisa trazer um orçamento mais saudável porque ele ficou muito ansioso depois que ele compreendeu, de fato, os números. Então, o direcionamento agora, de fato, é para o orçamento até que a gente tenha uma nova oportunidade de convidar a esposa para conversar.
Ti, só para a gente ter mais um tempero nesse caso aí, Convida-se o cônjuge, pode ser marido, pode ser esposa, mas a pessoa não topa. E aí?
Persiste-se, dá um tempinho, cria-se alguma nova oportunidade para um renovado convite? Como é que você tem conduzido a ausência de um dos cônjuges depois de um convite formal para que esse ausente participe?
Eu parto do princípio que... para a família vai ser melhor realmente os dois estarem presentes, né? Então, eu nunca vou necessariamente desistir por completo de que o outro participe. Porém, é claro que a gente precisa ter a sensibilidade, né? E é uma coisa que eu tenho aprendido, né? De como ter a sensibilidade de perceber que, ainda que o cônjuge não esteja participando, ele tem a oportunidade de poder beneficiar toda a família a partir de um atendimento individual. Então, eu entendo que tem e muito valor quando a gente consegue ainda assim seguir individualmente. E aí a gente pega oportunidades. Então já teve situações onde, por exemplo, estou atendendo só o marido e aí o marido coloca uma posição de, por exemplo, compra de um imóvel. E aí coloca que isso é o grande sonho da esposa, por exemplo. E só que existe ainda confusão ou dúvidas com relação ao caminho. Então, por exemplo, eu uso essa temática. Não vamos falar de planejamento financeiro para imóvel, mas será que não toparia conversar sobre o que de fato é prioridade nesse imóvel, o que faz sentido para vocês. Então é uma conversa às vezes rápida, de 10 minutos, para tentar pontuar. Você acha que ajudaria? Então eu vou usando gatilhos nesse sentido para poder convidar. E às vezes a pessoa tem o interesse de participar e depois ela some de novo nas reuniões seguintes. Mas já foi um avanço, já foi algo relevante que aconteceu. Então eu vou dançando assim.
Boa, boa. Uma condução legal. Eu me recordo de alguns casos que eu também tive dificuldade de trazer um dos cônjuges, e notadamente, e esse notadamente realmente é com uma alta frequência, o cônjuge que participava se mostrava um bom ouvinte, se mostrava alguém intencionalmente disposto à participação do outro. Mas na medida que, e eu também nunca desistindo de trazer o time completo, eu sempre bem que a gente tem que estar com o time completo, a gente ganhou com o time completo. Mas eu também pude perceber no cônjuge uma real disposição de ouvir. Mas na medida que o nosso relacionamento foi caminhando, mesmo comigo como planejador, a disposição dele em ouvir ia na direção de resolver.
Ou seja, eu imaginava que ao conversar com o cônjuge, ele era um bom ouvinte, mas sempre aguardando o momento correto para resolver as coisas, ao invés de ser um bom ouvinte e amar o cônjuge.
E eu reconheço que eu também tenho essa natureza. Em inglês tem um termo para isso. Eu sou um fixer. Eu gosto de consertar as coisas. Eu gosto de colocar as coisas para um rumo adequado. O problema é que, muitas vezes, a agenda do outro não é essa. A agenda do outro é apenas e tão somente ter um espaço para ser ouvida. Ter um espaço para se manifestar. E eu tenho convidado alguns, principalmente homens, clientes, na direção de tentar ser menos fixa e amar mais. E compreender mais. Menos querer resolver. Isso muitas vezes é difícil. Para mim, a natureza é muito difícil. Mas eu também tenho buscado praticar isso, exercer isso. Mais amar e menos resolver. E parece que na medida que eu faço isso, a minha esposa e a esposa desses clientes vão se aproximando mais de uma agenda. Mas é só aqui um convite à reflexão. Pode ser uma situação minha e somente minha, mas eu me sinto à vontade aqui junto aos colegas de expor isso. Ti, fica com o gogó aquecido aí, a gente está começando aqui no terço final da nossa conversa, no quarto final da nossa conversa, aliás, E a gente quer te ouvir acerca, então, do seu encontro da semana passada. O que você traz para a gente?
Bom, uma cliente que começamos juntos oficialmente aí esse mês passado, e isso motivado por um contexto de endividamento crônico já, desde quase que o primeiro salário. Ela vem de um contexto familiar bastante desafiador, onde perdeu o pai muito cedo, conviveu com a mãe, com doença, perdeu a mãe depois, perdeu a avó que a criou, perdeu o tio que a criou, e isso a colocou numa situação de extrema vulnerabilidade e ela teve que lidar com isso muito sozinha, tomando decisões muitas vezes atropeladas, e o contexto financeiro foi um dos pilares que foi grandemente afetado. Ela tomava decisões basicamente por impulso para poder tapar os buracos emocionais que foram sendo acumulados ao longo da vida, buracos reais. Então ela, em algum momento, ganhou uma família novamente ao participar de uma comunidade cristã e, nesse sentido, ela teve um renovo nos olhares de esperança para o contexto de vida dela. Ela conseguiu um trabalho que é bastante bem remunerado e ela viu a esperança de poder ajustar a vida dela financeira também. E assim, com esse olhar, começamos a caminhar. Isso.
Joana.
E já dá, Tiago, para formalizar um primeiro desafio, uma primeira montanha que vocês vão subir juntos aí Notadamente, uma história de muito sofrimento, perdas, mas parece que você chegou num momento interessante da vida dela, onde ela está em renovo, onde ela está em reforma. Vocês já conseguiram estabelecer, formalizar um primeiro desafio?
Sim. O primeiro grande desafio, que uma das grandes implicações desse contexto de endividamento crônico era justamente poder obviamente mapear o contexto. qual que é o tamanho do buraco, digamos assim, mas, ao mesmo tempo, entendendo também que os hábitos que foram, de alguma forma, incrustados aí no estilo de vida, também fossem mapeados. Então, o grande desafio inicial é esse, é poder encarar de frente, pela primeira vez, aquilo que são os hábitos financeiros. E uma das coisas que surgiu bem rapidamente na conversa foi o fato de ela ter o hábito de poder usar cartão de crédito alheio, por exemplo, para poder viabilizar a situação de pagamentos mensais e coisas que foram meio que a bola de neve que vai se acumulando.
Ronaldão, Fred, convido vocês para a conversa com um rápido.
Talvez, nos últimos 20, 30 anos, um dos temas mais estudados no que se refere ao comportamento humano é o tal do hábito. Isso expresso em vários livros, livros que muitos de nós já lemos, como Hábitos Atômicos e tantos outros. A gente aqui, planejador financeiro, as pessoas têm seus hábitos, as pessoas têm seus hábitos financeiros, têm os seus comportamentos, têm os seus temperamentos manifestos em hábitos. Como é que vocês têm atuado nessa vertical aí do hábito?
Basta cortar o cartão de crédito, que está resolvido a questão do gasto com cartão, tem alguma coisa diferente para a gente fazer. E eu sei, pessoal, que a gente tem aqui o, pô, não adianta cortar cartão, porque cartão é meio de pagamento, cartão na gaveta, mas eventualmente é necessário também alguma intervenção mais radical, ou não. Como é que vocês têm conduzido a reforma de hábitos junto aos clientes de vocês que apresentam uma necessidade como essa?
Bom, Tiago, esse caso o senhor me lembrou, um cliente que eu atendi, era um profissional solteiro, homossexual, e que ele veio com uma história de perder dois irmãos em seis meses. dois irmãos suicidaram, e ali ele trouxe esse grande desafio, que era o quê? Como é que eu cuido da minha vida em relação aos gastos que eu faço hoje? E eu não via um problema de hábitos, porque ele tinha bons hábitos. Acordava muito cedo, malhava, se cuidava, apesar de gastar uma grande parte do seu salário com suplementos e procedimentos estéticos. E a gente foi construindo todo o contexto dele, Em um determinado momento, eu o conduzi para que ele construísse um propósito.
Aí, sim, baseado na visão de Viktor Frankl, ele deveria exclusivamente ter alguém para ele amar. Ele não tinha um relacionamento onde ele conseguia amar uma pessoa. Ele não conseguia desenvolver isso. E foi aí que a condução foi para que ele se aproximasse mais dos pais. e ainda numa situação de tremenda dor pela perda dos dois filhos, ele ainda morava numa cidade distante dos pais, foi aí que ele foi efetivamente se aproximando novamente, e aí ele foi conseguindo se enxergar em todo esse contexto. Ele não é cliente mais.
Eu tive um contato com ele uns três, quatro meses atrás, e o semblante dele era de uma pessoa realmente um pouco mais tranquila, sem aquela ansiedade que era perceptível dentro das reuniões. Então, eu entendo que a construção de hábitos é muito importante, mas a gente sempre tem que trazer o propósito para a mesa. A gente tem que, de fato, compreender que existe algo além disso. Essa foi a condução que eu consegui desenvolver na época que mais se aproximou desse seu caso.
Entendeu?
E na tua prática, cara, essa questão de hábitos financeiros, o Ronaldo trouxe uma perspectiva interessante, mais transcendente na direção de estabelecer um propósito. No campo mais prático, e ambos são importantes, o que você tem feito, como é que você tem atuado junto aos seus clientes que requerem uma renovação nos seus hábitos financeiros?
O primeiro ponto, André, acho que a gente não tem que ter pressa para diagnosticar e classificar ninguém como A, B ou C. Eu tenho muita... Vocês sabem que eu tenho muita restrição em relação a essas questões todas. A hora que as pessoas falam para mim que no momento da primeira conversa a pessoa se mostrou tal e ela é Y, ela é Z e ela é H. E, na verdade, ela pode muito bem, tá? trazendo um comportamento dela nesse tipo de situação que não reflete ela na vida pessoal, tá? Então, a ideia aqui sempre minha é aprofundar, como acredito que o Tiago tem feito e fará, a relação com essa cliente para entender todo o cenário, tudo isso, enfim, entender... Vamos resumir, né? Entender aquilo que realmente importa, aquilo que realmente importa, que é a história do cliente. Fred, mas será que não tem alguns caminhos que têm que ser trilhados de forma mais rápida, breve?
Vai depender muito de um julgamento profissional do planejador ali naquele momento. Mas eu sou avesso a essa definição de que o cara tem que cortar o cartão de crédito já na primeira reunião porque você viu que ele gasta demais naquilo. De novo, acho que o diálogo constrói muito essas perspectivas. Os lançamentos feitos pelos clientes constroem muito um hábito de visualizar aquilo que está acontecendo e naturalmente as pessoas se questionam sobre aquilo que estão fazendo. E a partir do momento também que eu sinto, a partir do momento que eles têm que reportar, vamos falar assim, por mais que não tenha que ser entendido dessa forma, mas que ele tem que reportar algo a um profissional como nós, ele começa a pensar duas vezes antes de fazer as coisas. E aí você começa a poder entender junto com ele o porquê que ele mudou. E se ele mudou, é que nem o personal trainer que fala assim, meu, por que você está fazendo o exercício melhor? Por que você vem aqui à academia x vezes por semana? É porque você me colocou esse desafio. Então é interessante que nós, maneiradores, coloquemos, vamos falar assim, desafios saudáveis para o cliente. Vamos entender o que está acontecendo, vamos fazer o lançamento de tudo aquilo que está vindo por aí. Vamos querer lapidar de verdade um orçamento e entender o porquê que você foi buscando essas ajudas. Qual que é esse escapismo para cada uma das questões que você tem feito? Porque, pô, por mais que tenha sido difícil, então, a vida dela, talvez ela por ter bons relacionamentos, tenha tido facilidade. Eu acho que o Thiago até citou, né? Que ela tem cartão alheio aí, né? Sendo utilizado. Então tem que entender o seguinte, como é que a gente seque essa fonte? Não pode pedir. Então o que você tem que fazer? Vamos usar o seu. Ah, mas o meu não tem limite. Então não tem como usar. Ah, vamos liberar esse limite. Tá bom, vamos liberando, pagando, etc. É um exercício, gente. Ninguém emagrece 20 quilos em um mês. Mas se você fizer um plano para fazer isso em seis meses, legal. Só que eu te digo de forma muito clara e objetiva, manter é o mais difícil. Então um hábito não se cria estalando o dedo e resolvendo. Se cria com a constância. Então você faz, por exemplo, dá uma solução ali pontual. É que nem eu falo das dívidas. O cara sai da dívida, ele sai com uma tonelada das costas dele e sai correndo para a direção errada. Se ele liquida sem estudo, sem definição, sem entender para onde ele quer caminhar. A mesma coisa vai ser o cliente que quer criar um hábito. Ele não cria um hábito de uma hora para outra. Você vai criar junto com o cliente. Então não adianta chegar jogando uma tonelada de coisas para cima do cliente e querendo fazer tudo. Tem que construir. Não é porque a gente quer enrolar o cliente, não. É que nós queremos construir coisas em rocha, não em areia.
Tiagão, fechando a roda aí com você, como é que você tem percebido essa questão dos hábitos?
Eu sei que você, junto a um grupo de outros Planejadores da Life, leram recentemente até um dos livros mais seminais acerca do assunto, que é o Hábitos Atômicos. Como é que você se sente preparado e incentindo-se? O que você imagina que seja uma primeira linha de conduta junto com essa cliente?
Na teoria, estou 100% preparado.
Acho legal que o Ronaldo e o Fred se complementaram aqui em dois pilares, o Ronaldo falando com questão de propósito, E mesmo nesse livro Hábitos Atômicos, eu realmente recomendo, é um livro excelente, ele conecta a ideia do propósito, ele não faz essa conexão diretamente, mas ele trabalha a questão do hábito a partir da identidade. E a identidade e propósito caminham juntos, de alguma forma. E para essa cliente, acabou sendo um privilégio, porque no sentido de que ela já meio que trouxe um pouco, de uma maneira já amadurecida dentro dela, um pouco das motivações dela. Ela tem um coração muito generoso, é muito louco, porque a história dela se transformou de uma forma tão grande, que ela recebeu ajuda de tanta gente, que a única coisa que ela pensa, em termos de propósito, com o dinheiro dela, é poder ajudar outras pessoas. Então, ela fala assim, Tiago, eu preciso de margem, porque hoje eu estou me endividando mais para ajudar outras pessoas, no nome de Deus, e eu não quero fazer isso. eu quero fazer de uma maneira saudável e certa. Então, assim, essa motivação é tão forte que eu diria que não é tão comum a gente ter isso tão rapidamente dentro de um contexto de planejamento financeiro e acaba sendo muito legal. E aí o desafio maior acaba sendo então a parte do Fred, que é poder estar junto. que aí eu já estou percebendo que muitas vezes vai ter que sentar ali entre as reuniões para pegar na mão e poder ajudar nessa consolidação. Então, para que a gente engrenhe de uma maneira um pouco mais rápida essa conexão com os hábitos de gastos, com as formas como as decisões estão sendo tomadas. Então, tem sido assim.
Muito legal, muito legal. Pessoal, eu vou rapidamente dar um espaço para o Ronaldo falar um tchau para a gente. Ele tem um outro compromisso aqui agora. Queridão, só fala um tchau. Eu faço o wrap-up e a gente depois termina.
Pessoal, obrigado por hoje. Bom demais estar aqui com vocês. Grande abraço.
Valeu, meu irmão.
Boa reunião.
Tchau, tchau. Turma, a minha perspectiva, o que eu tenho aprendido também acerca dessa questão de hábito, é que... Acho que também, de novo, estou chovendo no molhado do que vocês já colocaram, mas dentro da minha... Eu sempre gosto de um depara, ou de criar visões potencialmente contrastantes para tentar trazer alguma clareza. E eu acho que a maioria das pessoas chegam até a gente querendo mudar o hábito, ou até mesmo resolver um problema de maneira rápida, que seja algo grande e que seja facilmente notável. Por isso que existem coisas do tipo corte o cartão, você nota, tem uma evidência física. Mas eu tenho percebido que bons hábitos, quando reformados, acontecem de maneira mais lenta, requerem passos pequenos, são quase que reconhecíveis. Mas aí eu concordo que a gente está em rocha e não em areia. Hoje o meu desafio como planejador tem sido como destilar uma demanda que vem com características de rápido, grande e notável para lento, pequeno e quase irreconhecível, mas duradouro. Mas duradouro. Como sair do instantâneo, notável, para o duradouro, irreconhecível. E isso é mais difícil ainda, numa cultura onde tudo tem que ser notável. Tudo tem que ser flash e não fire. Me lembro aqui do Jordan, num texto que ele escreveu para uma propaganda da Nike, onde ele diz, as pessoas acreditam que eu construí minha carreira em flash, mas eu construí minha carreira on fire. Não, então, frente aos holofotes, mas me queimando num ginásio, me queimando numa academia, me queimando em maturidade mental. Enfim. Tiago, também digo, como disse, que Deus te abençoe, ainda mais na direção de uma mulher que também se renova no conceito familiar, numa família estendida, através de uma caminhada junto a uma igreja, enfim, que você possa também servi-la, acima de tudo, servi-la também nessa direção, viu? Turma, uma hora e dois minutos aqui, encerrando esse episódio. A gente pode conversar então sobre bons casos aqui, se a gente para para pensar. A gente teve de um lado o Fred trazendo para a gente, inaugurando a conversa aqui sobre clientes engajados, mas até uma segunda página e fomos para diversos caminhos depois da Fred. O Ronaldo trazendo um cliente com múltiplos desafios, como é que a gente estabelece prioridades. E o Thiago, então, um caso de uma cliente que está aberta para reforma, buscando novos hábitos e o nosso papel nessa direção. Obrigado. Ronaldo já se despediu. Obrigado, Fred. Obrigado, Thiago, pelo tempo de vocês.
Valeu, valeu, gente. Um abração. Prazer.
Obrigado. Mais uma vez, privilégio estar aqui.
Muito bom. Rumo aos 40 episódios. Depois a gente vai dar uma pivotada e vamos ver o que a gente tem para os próximos 40, depois do quadragésimo. Pessoal, beijo. Fiquem com Deus. Até. Tchau, tchau.
Tchau.
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