A revolução na arquitetura de varejo e o uso da tecnologia BIM | Jovita Torrano | Expo Offsite #5

Entrevista com a arquiteta Jovita Torrano gravada na Expo Construção Offsite; a conversa percorre sua trajetória pessoal e profissional, experiências em canteiro de obras, projetos de varejo (ex.: Italy), uso de industrialização e painéis em obras rápidas, e impactos do BIM na prática projetual. O episódio mistura histórias de cases, reflexões sobre comunicação na era das imagens e desafios econômicos para adoção de soluções industrializadas.
Chapters
Hoje vamos falar de experiência, vamos falar de vida, vamos falar sobretudo de arquitetura que está diretamente conectada, ou seja, não existe vida sem arquitetura e nem arquitetura sem vida.
Construir, castar, arquitetura, engenharia e construção.
Este episódio é um oferecimento produtora de vídeos Infinity Plus, Hub e construção. E o episódio de hoje é diretamente do Sambódromo do A&B. A gente está aqui na Expo Construção Offsite e a minha convidada, eu tenho um carinho especial, Jovita Torrano. Olha a câmera nela, gente. Jo, seja bem-vinda a mais um episódio aqui no ConstruCast. Você é tão especial que é a segunda vez que você está aqui.
Ah, super obrigada. Estou muito feliz de estar aqui e sou uma fã do ConstruCast. Então é uma alegria enorme ser convidada pela segunda vez.
Não, eu falo que assim, gente, quando você vem, você chega, você traz uma energia que você causa por onde você passa. Então, agora a gente vai falar. Você é reconhecida internacionalmente pela arquitetura de varejo. Agora, eu sempre falo que você é muito mais que isso e a gente tem cases aí que prova que você é muito além do varejo. Agora, eu queria iniciar o nosso bate-papo. O que é arquitetura pra você? Ó, eu inverti tudo, tá?
Tô vendo, tô vendo. Vamos lá. Bem, para mim, pessoalmente, a arquitetura é vida, porque eu vivi a minha arquitetura desde que eu nasci, porque meu pai era arquiteto. Então assim, é uma coisa que eu já nasci dentro de uma obra. No sábado de manhã, quando eu era pequena, meu pai me levava para a obra.
Eu não queria que você contasse agora, porque eu vou fazer umas perguntas direcionadas para isso.
Ah, é? Tá bom.
Só de o que é arquitetura para você, Ju.
Tá. Então, é que daí já começa a massa.
Não, mas eu vou te perguntar, você...
Olha, arquitetura para mim é uma coisa, assim, muito visceral, né? Porque é criação. Então, assim, não sei pensar em outra coisa que eu faria na vida. Porque para mim é uma coisa tão prazerosa, a criação de espaços, você entender pessoas que vão usar aquele espaço. Então eu sempre fui para um segmento onde mais pessoas usarem os espaços que eu criaria, porque eu tenho essa coisa muito deliciosa de ver como é que as pessoas usam aquele espaço, como é que elas se sentem naqueles espaços que eu criei. Então é uma coisa deliciosa, super prazerosa.
Só vivendo, né? Só quem vive sabe.
Só vivendo. É, isso tô falando de arquitetura pra mim. Agora, arquitetura como uma arte, né? Eu acho que é, sei lá, são os espaços que a gente mora, que a gente passa uma vida em diferentes espaços, né? Então, acho que a arquitetura tem uma uma questão muito séria, né? E uma responsabilidade muito grande com a cidade. Na verdade, são os espaços onde a gente vai viver, né?
E por que eu comecei esse episódio dessa forma? Porque eu penso que tudo que a gente vai fazer, toda profissão que a gente queira fazer na vida, ela precisa ser leve, né? E olha essa leveza, a forma como você, como a gente tá fazendo essa troca, né? Então vai ser leve, seus projetos são incríveis, agora eu quero, eu não vou falar de arquitetura aqui. A gente vai contar histórias de projetos que você já realizou e como foi esse processo, ou seja, como esse cliente chegou e como está a sua relação hoje com esses clientes. Porque imagina, não dá para você criar um projeto e de repente, quebrei. essa relação assim, sabe? Então eu acho que eu vou conduzir por esse lado.
Legal.
Fechado?
Vamos nessa.
Então assim, eu queria primeiro iniciar agora o nosso bate-papo falando o seguinte, de forma bem resumida, Jô, como que você entrou na arquitetura? até se tornar essa grande referência que você é hoje. Por que eu tô te perguntando isso? Porque pra gente chegar em alguma etapa da vida que a gente... Ah, o que é sucesso? Sucesso é muito relativo. Agora eu queria que você contasse um pouquinho da sua trajetória, de forma resumida, os perrengues que você passou, Como que você teve coragem para suportar e o que você está vivendo hoje na arquitetura para a gente começar a contar algumas histórias aí.
Então vamos começar bem do comecinho. Eu já nasci numa casa de arquiteto. Então eu já vivi isso.
Mas os dois arquitetos ou um só?
Não, um só. Meu pai era arquiteto, um arquiteto da velha guarda onde fazia tudo, sabia fazer tudo. Ele foi a primeira turma que não era engenheiro arquiteto. Então, assim, eu tive uma infância totalmente ligada. Eu, no sábado de manhã, eu ia pra obra com meu pai desde pequenininha. E eu gostava, né? Então ele me levava porque eu gostava. Eram quatro filhos, mas ele me levava.
Então, mas o que eu falei lá no início, você precisa gostar.
Gostar, eu saía da escola, eu ia para o escritório dele e ficava, porque todo arquiteto gosta de trabalhar até tarde, então eu ficava no escritório com ele, brincando, eu já era adolescente, mas mexendo no material de desenho, desenhando, e depois ia para casa com ele. Então assim, era uma coisa que para mim foi uma descoberta familiar vamos dizer assim né e eu daí quando chegou com 15 anos eu falei eu quero ser arquiteta e estava meio assim nunca pensei vou ser outra coisa aqui que será que eu vou ser não era uma coisa que para mim estava muito.
Já estava no DNA já estava assim.
Eu curtia isso eu já fui escolhida pode-se dizer que sim então assim foi uma escolha muito tranquila também E meu pai era um apaixonado pela arquitetura, e também um otimista. Então também acho que vem muito nesse gostar, quando você vê que a pessoa é envolvida na profissão, você cria esse vínculo maior. E daí eu comecei a minha... Eu fiz a faculdade de Mackenzie, e quando eu saí da faculdade, eu comecei a trabalhar numa empresa que fazia construções de supermercados, que era o Carrefour, que estava entrando no Brasil. E daí eu já comecei no canteiro de obra.
Ah, então essa sua parte de varejo já começa no início também.
No início da minha profissão. É muito engraçado, né? Que foi o primeiro trabalho... Na verdade, o primeiro trabalho que eu tive também era num escritório que faziam as lojas da Fototica. e era um arquiteto que a gente só fazia fotótica, daí eu fiquei um tempo lá, daí achei que já... não eram franquias na época, não existia isso, eram lojas próprias, que eu tinha esgotado, e só que naquela época a fotótica fazia... todos os Carrefour tinha uma galeria de lojas, e a fotótica tinha loja lá, tinha uma parceria. Daí o pessoal da obra me conheceu, e quando eu saí de lá eles me ligaram e falaram... você não quer vir aqui trabalhar com a gente? Fui trabalhar dentro da obra, então eu gosto muito de obra. É uma coisa que eu adoro e hoje eu vou muito menos.
Posso te contar um segredo?
Conta!
Falo que todo profissional, todo arquiteto que não gosta de ir no canteiro são chatos. É sério, eu não tenho paciência com essa gente, sabe?
Mas não tem como você não ir no canteiro, né?
Não, mas tem muitos que não vão e não vivem aquele perrengue da obra. Ou seja, imagina, projetei, toma, se vira.
É, e a obra é onde tudo tá acontecendo, porque papel é papel. A gente vende papel, mas... a obra, e assim, hoje eu vou muito menos porque a gente não toca a obra, o nosso escritório é só voltado em projeto.
Então, só que você tem parceiro, você tem experiência, porque você viveu muito aquilo.
Eu vivi, então esse primeiro, vamos dizer, emprego maior, era dentro do canteiro, o escritório de arquitetura estava dentro do canteiro, porque a gente fazia projetos junto com a obra. Então era uma coisa assim você estava fazendo desenhando um coisa que você já estava descendo lá e falando com o.
Engenheiro que resolve a gente está falando.
Com o engenheiro o engenheiro subia falava olha esse detalhe que você está fazendo aqui papá. Então foi participava das todas as. Isso eu era recém formada então era uma coisa uma experiência incrível participava das reuniões. Aquelas reuniões enormes de obra com todos os complementares e todas as discussões de prazos e de...
Aquela pressão toda.
Interferências de uma disciplina na outra. Então isso daí me deu uma tarimba muito boa e uma paixão por essas obras grandes e rápidas. É muito engraçado, como isso faz parte do seu jeito de ser. Então, assim, eu... Tanto é que uma vez eu me lembro que eu estava trabalhando e veio uma dessas empresas que fazem reestruturação, e eu falei, e a gente naquela coisa, não sei quantos projetos num mês, e aquela correria, daí o cara falou assim, nossa, e ele me contando como é que era na indústria. ou projetos na indústria que eram mais demorados, eu falei, nossa, que sonho! Ele olhou para mim e falou assim, você nunca ia ficar lá. Porque é essa coisa mais dinâmica, assim, é que faz um pouco a minha... Alegria de viver.
E eu vou te fazer uma pergunta, depois eu vou, tô guardando ela. Você que tá acompanhando nas plataformas de áudio, de vídeo, dá pra comentar e você pode também contar sua história através de comentários. Quando você conta um pouco dessa sua trajetória, a gente tá vivendo agora a era dos, eu falo né, a gente falou lá atrás, mas eu vou repetir aqui, que é o era dos, a gente tem muito influencers, e poucos profissionais. Eu não sei o que está acontecendo, eu queria entender, só que qual que é a dificuldade que eu, enquanto, não como apresentador do ConstriCast, mas enquanto usuário, sabe, de qualquer setor da construção civil. Eu tenho pessoas que não sabem, não entendem nada de técnica, mas conseguem se comunicar porque de repente, ah, eu vi um título de alguma coisa que a construção industrializada é sensacional. a pessoa começa a gerar conteúdo. Nossa, porque last frame é a melhor solução para construir uma obra rápida e etc. Só que a pessoa não tem a menor noção da dificuldade técnica daquela solução construtiva, o que está por trás, para passar um conteúdo de valor, ou seja, quais são as etapas para que aquela construção seja de fato boa. Como que você está vendo agora esse momento do que a gente está vivendo nesse boom de conteúdo, mas que poucos profissionais como você, Juvita Torrano, não está expondo o seu conhecimento.
É, eu acho que a gente está vivendo uma era da comunicação rápida, né? Então isso, o conteúdo, às vezes, ele vem muito superficial. E eu acredito, por exemplo, eu tenho muitos arquitetos jovens no meu escritório. E daí você... Onde é que você tem pesquisado? Onde é que você tem buscado referências? E eu vejo que é uma coisa que fica numa... Fomos assim, eu falo, gente, mas nós vamos começar a fazer tudo igual, de repente. Porque você está vendo um monte de imagens, imagens, imagens, mas você não está indo no profundo da obra. Então, não, gente, busquem, por exemplo, o arquiteto, a entrevista do arquiteto, para vocês entenderem exatamente como aquele arquiteto chegou naquela solução. Porque a gente tem uma era da imagem. Então é a imagem, é a imagem. Mas como é que aquele arquiteto chegou naquela solução? Porque só daí você vai crescer profissionalmente ou você vai poder propor uma coisa melhor que aquela?
É entender a história por trás.
Entender a história por trás. Então é isso que você está falando, assim, a gente vive esse momento, é um momento da humanidade, né? Porque a gente está com essa coisa, dessa facilidade de todo mundo gerar conteúdo. E você tem uma coisa assim, que eu sinto, que a pessoa consome imagem, consome imagem, consome imagem. Mas como é que está o conteúdo daquela imagem? Como é que a pessoa chegou naquilo? Nem sempre as pessoas vão atrás desse conteúdo. Então, como você está falando, como é que é o processo construtivo, Sim e daí você fica o que eu sinto assim é que você fica muito o arquiteto muito à mercê de que os profissionais definam o seu processo porque você apresenta uma imagem mas você não tem como é que você vai construir aquilo.
E por que eu entrei nesse tema quando você começa a falar da sua história com seu pai que você vai no canteiro de obra que os perrengues estão acontecendo ali e eu Ou seja, a obra tá executando, mas o arquiteto tá ali no canteiro. Então, você tá participando, tá vivendo aquilo. Então, o que que acontece? Quando você começa a gerar aquele tipo de conteúdo hoje, né? Que a pessoa tá gerando, ou seja, eu tô mostrando o projeto. É só projeto, projeto, projeto. E não o resultado.
Imagem, né? Não é nem projeto.
Sim, é melhor. Imagem. Isso vira um problema.
E um problema até para as novas gerações projetarem.
Sim, porque hoje você tem essa facilidade com o seu time de arquitetura, porque você é a grande referência deles. Entende então você tem bagagem sim e.
Eles te respeitam sim agora eles escutam as histórias e eles gostam de ouvir as histórias da gente contar do tempo de canteiro e até do tempo porque assim também os tempos de projeto mudaram.
Hoje né Paulo é outra realidade é.
Outra realidade né a gente estava no canteiro de obra mas era era rápida a obra mas o processo de trabalho era outro hoje você tem um processo muito rápido por exemplo o bem é uma coisa incrível né Você vê a tua obra em 3D antes de acontecer. E você daí, eu acho que o BIM é uma ferramenta que veio acrescentar muito, porque você tem que construir. De repente, o 2D já não tem isso. Mas eu vejo a dificuldade. Eu tenho muito mais visão do espaço do que a pessoa que só trabalha no cardio.
E quando você fala do BIM, por outro lado também, a gente está vivendo um grande desafio dessa tecnologia, porque você precisa de uma qualificação, você precisa de um esforço.
Você precisa entender como se constrói, senão você não constrói. um projeto em Nubim, né?
Sim.
Isso eu acho que tem ajudado muito, mas a gente ainda tem uma dificuldade de ir atrás de processos construtivos novos, né? Mas a... Porque você fica muito... Ah, porque, por exemplo, você vai apresentar um projeto para o cliente, você apresenta uma imagem 3D, né? Mas aquela imagem 3D precisa depois ser construída, né?
Sim, ela precisa de materiais, ela precisa de...
Ela precisa... Você aprovou e você tem que levantar aquilo, né?
O Jô, e nesse processo, quando você tá... Tô viajando aqui por vários assuntos, mas tá tudo diretamente conectado. Nesse processo de criação, quando esse projeto 3D, ele é pensado, você já tá pensando nos materiais? De repente num fornecedor ali?
Sim, com certeza.
Tudo já é pensado no projeto?
Tudo, inclusive a estrutura, né? Tem uma história muito engraçada, né? Porque eu ainda, quando eu vou lançar uma ideia, eu ainda trabalho na mão, porque eu aprendi a pensar na mão.
Eu ia falar e eu te perguntei isso.
Eu não sei pensar não, a máquina vem depois pra mim, né? Então eu lanço e eu já lanço uma estrutura. Não tem jeito. E daí foi muito engraçado, uma vez uma arquiteta que tava trabalhando. Então eu pego, faço aquele croquinho. E é numa escala pequenininha. E você joga o croqui e tá tudo resolvido, né? Daí a arquiteta chegou lá no escritório, pegou meu croqui, eu falei, olha, então ela ia passar por outra ferramenta. Daí quando ela acabou de passar, ela olhou pra mim e falou assim, nossa, deu tudo certo. Claro, tava tudo bem, sabe o fato de que como tava... Será que ela.
Não acreditou no secreto?
A estrutura, a malha estrutural toda lançada. E quando a gente manda um projeto para um engenheiro, eu já tenho a estrutura que eu quero. Eu falo isso muito para as minhas arquitetas. O engenheiro, a gente é muito parceiro. Adoro a gente trabalhar em parceria com os engenheiros, mas eu lanço a estrutura. Ele vai me dizer os problemas depois, mas a gente vai fazer as adequações, os cálculos. que a gente não faz, mas essa vivência de você ter do todo é muito importante, né? E eu tenho trabalhado muito com o pessoal jovem lá no meu escritório pra que a gente não perca essa coisa do arquiteto, né?
Ô Jo, e nesse processo de quando você tá ali apresentando um projeto na mão, porque assim, inclusive isso é muito diferente pra essa geração.
Sim, eles ficam encantados, acho a coisa mais maravilhosa, fotografam.
Não, eu confesso que assim, como eu acompanho, eu visito alguns escritórios e conheço muitos profissionais ali da velha guarda que trabalhavam daquela forma e tal, só que eles começavam a bater de frente com a nova geração, porque eles não sabem fazer e tal. Você tem algum caso engraçado que aconteceu de repente de alguém ter alguma resistência em algum projeto e olhar para um projeto que você fez à mão e falar, não, isso não vai dar certo?
Não, assim... Não, assim, olha, inclusive, eu não tô lembrando de onde que não dá certo, mas tem clientes muito antigos que eles querem que eu apresente o primeiro desenho à mão, porque eles acham lindo. Então, assim, não, não. Eles querem, ele quer, não. Primeiro você manda os seus croquis. Daí eu vou primeiro entender, olhar. Uma empresa que a gente fez, que eu trabalho há muitos anos, ele quer os meus croquis e é que eu... Às vezes eu jogo fora. Ele quer enquadrar os croquis e pôr na sede dele.
Mas é uma arte isso.
Imagina isso, vir no quadro mesmo. O que eu vivi foi muito mais de admiração do que de alguém achar que isso não funciona. Eu vivi uma situação muito mais da coisa de nossa que legal e essa coisa de nossa tá tudo resolvido né.
Você tá pensando no traço, tá pensando numa solução.
No acabamento, no material, como vai ser o painel. Está pensado, não está desenhado o detalhamento para ir para a obra, mas está pensado.
O nosso tempo aqui já é um pouco curto, mas eu queria que você trouxesse alguma história, algum case, de uma forma que você consiga contar a história, de uma forma resumida, desse case. Lembra daquela história que conecta.
Calma, você.
Já sabe que tem muitas.
Tem muitas que eu conto aqui. Você diz uma coisa assim que começa...
De repente uma obra que tem algum fato... Todas obras são importantes, mas um projeto que te marcou por alguma história, sabe? Um detalhe que muitas vezes não é percebido. Mas que marca a gente?
Eu tenho uma história assim de... Não sei se é exatamente o que você tá pensando, mas por exemplo, a gente fez o projeto do Italy, né?
Sim.
E foi muito engraçado esse projeto, porque assim... Quando o Italy veio para o Brasil, na época, era um cliente que já era meu, que trouxe, e eu já conhecia...
O Italy, então, ele já era seu fora do Brasil?
Não, não, ele ainda não. Eu fui conhecer numa viagem, por conhecer, e daí esse cliente falou assim, sabe que o Italy vem para o Brasil? Eu falei, ah, que legal, sabe quem vai trazer? A gente. E eu vou te pôr como arquiteta, mas eu não sei o que vai acontecer, porque tem uma equipe de arquitetos na Itália. Mas você vai acompanhar como a arquiteta aqui no Brasil, que é nossa. Tá bom. Aí acontece que o negócio começou assim, a gente fazia reunião com os italianos, fazia reunião, e não acontecia nada de desenho. E a gente, arquitetos, gente, cadê alguma coisa para a gente ver concreto? E daí eu peguei um dia e falei para o meu cliente, pergunte para eles se eles estão precisando, porque já tinha o terreno, já tinha tudo, se eles estão precisando de alguma coisa para trazer o material para a gente analisar aqui. Daí eu... O italiano virou e falou assim, não, como assim? A gente lá não sabe fazer, porque era prédio. A gente lá não sabe fazer prédio. Porque a gente só... Eles só fazem em tombamentos, em prédios existentes. São vocês que vão fazer. Daí assim, na reunião eu não acreditei, né?
Caiu assim no colo.
Ele falou, não, pode lançar o projeto, vocês que vão fazer. o projeto do edifício, né? Daí a gente fez, foi muito legal, a gente visitou no mundo inteiro, a gente foi na Itália, foi nos Estados Unidos conhecer, vamos dizer, a retaguarda toda para poder trazer o projeto.
Conhecer a história.
Conhecer a história de uma, eles queriam João Vitor, eu quero ter clarabóias, porque quero muita luz". Daí eu assim, a gente mora num país tropical e clarabóia pra você comer embaixo vai ser meio dramático. Não, não se preocupa, a gente vai ter muita luz natural, mas não serão clarabóias. E a gente montou umas treliças metálicas, como chedes, pra face sul, foram várias assim, intercaladas, que deu uma luz natural incrível e não tinha sol. porque nós estamos numa outra situação. E depois foi também, daí o processo foi todo acontecendo, a gente fez um projeto, eram 9 mil metros quadrados de construção, um projeto grande, e o bacana foi que no final, no dia da, e teve, a gente trabalhava depois em parceria com um arquiteto italiano, mas teve um monte de perrengue, porque eles eram mais emocionais. Sim.
Mas é muito.
Muito emocionante. Mas o mais legal é que o arquiteto, que era o coordenador lá, que era uma pessoa até difícil de trabalhar, ele, quando inaugurou, a gente estava na festa de inauguração, então a gente estava lá no balcão, no nível mais alto, ele olhou para mim e falou assim, olha, isso é um Italy. Como dizendo assim, você pegou a essência do projeto. A gente aqui está se sentindo em casa. Então isso é muito legal, uma história de que você fala, nossa, que essa coisa, o espaço, ele representa uma coisa, e o que ele sentiu, que ele era um arquiteto, que aquele espaço era exatamente eles.
Você sabe que agora eu acabei de pensar no tema para esse podcast, tema central, a essência de um projeto arquitetônico.
Sim, isso é... E é isso que é prazeroso, Paulo. É você ouvir isso de alguém e falar, nossa, isso é um item.
E muita gente não conhece essas histórias, então isso é uma coisa que me motiva, sabe? Quando eu estou falando com você, e eu estou te ouvindo, não sei se isso acontece com a maioria das pessoas, mas eu estou sentindo que você está falando e estou vivendo, sabe? Eu estou viajando.
Sim, acompanhando como se eu estivesse junto ali.
É, sabe aquela coisa do autista, que assim, que ele é muito literal, aí você fala assim, você está viajando e ele se sente num avião, assim, sabe? Um avião, assim, viajando, voando.
Sim, mas, e é isso, bem, é o que a gente gosta dos amigos, né?
É sensacional.
E tem outro projeto também que eu gosto muito, não são projetos tão recentes, apesar de ter projetos muito bacanas, foi quando a gente fez um projeto de um retrofit. E era assim, era uma família que vinha de uma família de industriais e eles tinham... teve uma indústria muito famosa lá na Moca, que era uma indústria inclusive de meias, luvas, imagina no tempo das luvas. E estavam lá os galpões e ele queria fazer alguma coisa. Daí o meu cliente chegou e falou assim, ó, tem esse projeto, dá uma estudada, viabiliza isso, mas a gente não quer ficar lá no fundo, porque o galpão melhor pra gente aproveitar era o do fundo. Daí eu falei, não, não vamos de jeito nenhum destruir esse galpão, tem uma história, é o bairro da Moca aqui em São Paulo, pra quem não sabe, é um bairro que teve uma origem italiana e industrial. Então a gente bolou um projeto, porque ele tinha que, onde ficou o cliente no galpão principal com visibilidade, a gente fez um trabalho de restauro, de retrofit, também acrescentou áreas novas em estrutura metálica, que é essa coisa da industrialização que a gente gosta demais. E foi um projeto até que também foi premiado como retrofit, mas era aquela história, o cliente tinha um medo tão grande de que ele ia ficar no fundo e não ia aparecer, e a gente criou uma situação de curvas e de aberturas de visuais onde a fábrica cresceu e apareceu, apesar dela estar no fundo do terreno, e acontece uma coisa naquele terreno, que é uma coisa que não tem muito no Brasil, que é meio de quadra, uma quadra.
Ah, sim.
E daí o que é muito mais gostoso é que depois, quando eu fui visitar um dia num sábado, à tarde, e era um ponte do bairro.
Nossa, que legal.
E um bairro que a gente tinha muito medo, porque é um bairro muito tradicional e bairrista. de você entrar, e eles compraram como deles aquele lugar. Acho que o respeito pelo espaço que a gente teve fez com que a comunidade é nossa. Então era assim, no sábado à tarde, era um ponte do bairro.
É impressionante.
Então é essa coisa do uso pelas pessoas. Isso que dá o prazer no arquiteto, de você criar espaços que as pessoas usem e se tornam delas.
E o impacto que a boa arquitetura causa numa cidade. Imagina, você se esforça para preservar uma história e o impacto disso depois, a consequência disso. Na verdade, desse cliente ter acreditado em você e o resultado disso.
E as pessoas terem sentido que eram delas, né? É isso que é muito engraçado, né? Porque o arquiteto é meio vaidoso, então assim, a obra é minha. Nossa, mas o gostoso é não. A obra é de quem tá usando.
A obra do cliente.
Nem do cliente, do que tá usando, né? Porque eles acreditaram que é deles aquele espaço, por isso que eles vão lá e se sentem bem.
Sensacional, acho que essas histórias que a gente precisa contar mais. E quando você fala dessas partes de uso, que você usou a metálica, essa parte de... construção industrializada é você traz muita solução né no sentido de você respeita a história que construíram até aqui você não critica o passado né sim e a gente precisa é mostrar para essas pessoas que constroem de forma tradicional, ou seja, eles não são ultrapassados, é o que eles conhecem. Eu queria que você falasse um pouquinho, Jô, pra gente encerrar, o papo tá muito bom, mas eu queria que você falasse um pouquinho desse momento que a gente tá vivendo da industrialização. Você tá num mercado desafiador, principalmente quando o assunto é essa parte econômica. A gente quer inovar, a gente tem soluções construtivas inovadoras, mas tem a questão financeira que envolve. Qual que é o seu grande desafio hoje para inovar na arquitetura de varejo, trazendo esse olhar da industrialização da construção?
É, o grande desafio é assim, eu tenho um lado muito bom, onde o segmento que eu trabalho mais, que é rapidez. Então, a área de varejo exige obras muito rápidas, o que dá para a indústria um ponto, vamos dizer assim. Então, olha, se eu fizer uma construção que vem já pronta, eu tenho uma rapidez. O que ela pega? Evidentemente no custo, porque é uma obra onde você como a gente estava falando no começo do podcast, o empresário está vendo lá o número final.
Aquele número tem que fechar.
Aquele número, o espaço não vai ser ele. A gente está feliz que quem vai usar o espaço está feliz, mas não é um espaço que ele vai usar. Ele quer aquilo é um negócio. Então a gente tem muito a questão do custo. Então a Apesar de que eu uso muito a indústria no sentido de painéis, porque como eu preciso de rapidez, a minha obra acaba sendo um grande galpão onde eu vou rechear. E hoje eu quase não tenho alvenaria. É muito pouco que a gente coloca de alvenaria. Todos os fechamentos são com painéis, por conta de isolamento e por conta de rapidez. Então assim mas é assim uma coisa meia quando eu provo que aquilo é o melhor e o custo não é tão exagerado aí ele topa é que.
Você tem você de certa forma você acaba mostrando o retorno né.
Exatamente eu tenho que mostrar sempre o retorno daquilo. Então o prazo é o que eu mais consigo convencer.
Ele tem uma receita antecipada.
Ele tem uma receita antecipada e ele precisa inaugurar. Agora, outra questão é isso, de como a indústria oferece materiais muito mais interessantes do que a construção tradicional.
Sim, sim.
Então, o desafio maior ainda é o custo, que às vezes fica um pouco mais caro, então você tem um trabalho de convencimento melhor. Mas a pessoa entende. E eu uso muito a indústria da construção tradicional. Uso até mais coisas industrializadas do que tradicionais. Bacana.
E nesse cenário, até uma última pergunta antes da gente se encerrar, você veio aqui no Sambódromo do AMI para gravar esse episódio, visitou a ExpoSite, que é a maior feira de construção, não feira, exposição de construção modular, É, o que que você viu aqui, que você falou, isso aqui eu gostei, e o que que você sentiu falta pra gente trazer, que você entende que deveria ter aqui na próxima edição do ano que vem?
Olha, eu passeei bastante, andei a feira toda, a maioria dos produtos eu já tinha alguma certa afinidade, então foi legal porque você vê aquilo que você usa e às vezes você conversa, tem alguma inovação que eles trouxeram. Tem algumas coisas que é mais difícil para usar essa coisa modular que acaba tendo um primeiro apelo muito mais da residência mas que eu adoraria um dia poder fazer um módulo chegar e colocar o módulo prontinho. Eles até falaram para mim que fazem em situações menores no mercado. Essas coisas assim o que eu gostei lá que eu fiquei conversando muito tempo foi com o 3D na construção 3D Nossa, legal. Aquilo é... Você fica assim, uau, é uma criança olhando um sorvete, né? Vendo a máquina, o robôzinho lá fazendo, foi um instante que eu fiquei mais tempo conversando com o pessoal, foi nessa construção feita pela impressora, né? Eu não sei te dizer agora se não me vem nada que eu estou sentindo falta.
Você não acha que tem que vir mais indústria, mais empresas?
Mais empresas e talvez uma coisa que fechamentos, por exemplo, pra gente arquiteto, porque a estrutura a gente até tem mais contato. Agora, às vezes, novidades em fechamentos, eu também fiquei muito nos painéis, era uma coisa que eu acho que pode até crescer, porque a indústria tem bastante Não.
Bacana, eu confesso que a gente precisa trazer mais vidros, fechamentos, essa parte também hidráulica, elétrica. Sim, uma exposição que a gente consegue sentir de fato. Jo, eu gostaria muito de falar mais com você, mas a gente já está deixando aqui um pré-agendado para a gente conversar.
Sim, sim, vamos.
Inclusive para falar sobre sustentabilidade. Então a gente já vai deixar meio que pré-agendado. A convidada é sua. Então você vai participar desse bate-papo junto conosco. Eu queria que você falasse suas últimas palavras antes da gente encerrar esse bate-papo. Dica de passagem está incrível num cenário lindo as pessoas lá atrás conversando fechando o negócio.
Não, quero de novo agradecer, dizer que bater um papo com você é uma delícia, você tira o melhor da gente, deixa a gente descontraída aqui, muito bom, a feira foi muito legal, foi uma visita bem importante e assistam os podcasts da Construzcast que são muito legais e eu acho que essa questão de você ver o processo é muito fundamental, né? E é uma coisa que a gente não tem, Só tem que eu conheço vocês.
Olha que legal, gente. E eu quero mais canais, sabe? Pra gente começar a mostrar pra mais pessoas. Então, fica essa... Eu sempre gosto de deixar uma reflexão na minha última fala. A gente fala muito de legado, de história, e o que eu tive a oportunidade de ver e ouvir, sempre que eu estou com a Jo, é a reputação que você tem no mercado, assim, é sensacional. Eu queria te deixar esse pensamento. O que você está fazendo para construir uma reputação? Porque, no final, a gente só fecha projetos. A gente só constrói alguma coisa quando as pessoas confiam na gente. E, para confiar, a gente precisa ter uma boa reputação. E aí, qual que é a sua? Um abraço e até o nosso próximo encontro aqui no Constraincast, diretamente do Sambódromo do A&B.
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