Alta Performance na Construção Civil: O Fim da Gestão por Pressão com Cecília Marcon

Neste episódio do ConstruCast, Paulo entrevista a psicóloga e pedagoga Cecília Marcon, especialista em alta performance e gestão emocional. Eles discutem como o modelo tradicional de alta performance na construção civil – baseado em pressão, estresse e trabalho no limite – tem gerado atrasos, retrabalho, custos adicionais e riscos de segurança. Cecília aponta que o maior erro das empresas é confundir alta performance com sobrecarga, ignorando a necessidade de treinar lideranças, melhorar a comunicação e cuidar da saúde mental dos profissionais. Ela destaca a importância do autoconhecimento, da inteligência emocional e de práticas como SWOT pessoal, linguagem adaptada ao nível de escolaridade dos operários e o uso de técnicas de parafrasear para garantir entendimento. A conversa aborda ainda como lideranças despreparadas impactam custos e prazos, a relevância da Norma Regulamentadora NR‑1 e do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) como instrumentos para promover ambientes de trabalho saudáveis, e como a vulnerabilidade e a escuta ativa são essenciais para criar senso de pertencimento. Cecília apresenta seu método “Aprendendo a Ser”, consultoria, mentorias e treinamentos, e recomenda terapia para todos. O episódio encerra com um convite ao HubPro, comunidade que reúne profissionais da construção, e uma reflexão sobre a necessidade de questionar comportamentos de liderança ao invés de aceitar achismos.
Chapters
Durante muitos anos, alta performance foi sinônimo de pressão, estresse e trabalhar no limite. Mas será que esse modelo ainda funciona dentro da construção civil? Ou será que ele é justamente o que está gerando atraso, retrabalho e prejuízo nas obras? Está no ar mais um episódio do ConstruiCast.
ConstruiCast, arquitetura, engenharia e construção.
Este episódio é um oferecimento Hub e Construção. Cecília Marcon, seja bem-vinda a este episódio especial que vai falar sobre liderança, alta performance, gestão, NR1. Então fiquem até o final que eu tenho certeza esse episódio será transformador. Cecília, seja bem-vinda.
Muito obrigada, muito obrigada, é um prazer e agradeço desde já o convite de estar aqui com você compartilhando esse momento.
Agora, antes da gente entrar propriamente no nosso cinema, quem é a Cecília?
E a Cecília, tanto tempo, é tanta coisa, né? Mas na verdade se resume nesse momento, né? Sou psicóloga, pedagoga, tenho um método de trabalho hoje, trabalho com gestão de alta performance, acredito muito nesse método onde busco fortalecer o autoconhecimento, trazer clareza nas estratégias para tomada de decisão E não menos importante, a importância de planejar a sua saúde mental de maneira que você possa tomar decisões mais sustentadas dentro desse universo de trabalho, independente do segmento que a gente atua. E é uma coisa que eu faço com muito carinho, e por conta disso, mês passado, esse meu método saiu na Forbes do Reino Unido, e eu tenho um livro que eu escrevi que eu também amo escrever, que é coautoria com 25 mulheres, chamado Sabedorias Femininas, onde eu coloco ali um pouco dessa minha história, de onde comecei até onde cheguei, mostrando a importância da resiliência, da superação, e que você pode ser o que você quiser, desde que você acredite em você.
Que legal! Agora, quem chegar até o final vai concorrer a um livro seu?
Por que não? Com certeza!
Fiquem até o final, agora vamos para a primeira Pergunta: Cecília, por que existe aquela máxima que trabalhar em alta performance é viver no limite?
Então, durante muitos anos essa foi a máxima mesmo, né, em vários setores. A construção civil é que ficou muito mais forte nessa linha. O que eu percebo hoje, trabalhando com líderes e organizações, é que na verdade isso mudou. Isso vem mudando ao longo do tempo, porque quanto mais você trabalha na pressão e no limite, mais possibilidade de ocorrência de erros, de retrabalho, de tomadas de decisões erradas você vai ter. Então, muitos segmentos já estão buscando trabalhar aliado a toda essa necessidade de clareza de estratégias, aliar também a gestão emocional. E hoje a construção civil vem repensando o seu espaço e a sua forma de lidar também com as pessoas, principalmente com as obras, porque falando diretamente para a construção civil, quando nós falamos em obras e se eu tenho uma pressão muito grande e um limite, fico no excesso do meu limite, eu acabo levando isso para o canteiro de obra, para o mestre de obra, e eu acabo atrasando a obra, aumentando o custo, tendo retrabalho, tendo acidente e tendo às vezes até acidentes fatais. Então hoje já se repensa sobre isso. Interessante.
E assim, com a sua experiência, o que você nota que é o maior erro das empresas, principalmente no setor da construção, indústria como um todo, quando o assunto é alta performance?
Olha, eu acho que o maior erro é eles não entenderem a alta performance como algo que você tem que estar no limite, como nós terminamos de falar, mas principalmente o fato de não olhar para suas lideranças com o olhar da importância de treinar essas pessoas, de levar para o ambiente de trabalho um ambiente mais confortável, onde eles possam trabalhar com seus liderados e possam entender melhor de comunicação, de relacionamento com as pessoas. Então quando se fala em alta performance, as pessoas acham que, nossa, eu tenho que estar no alto do melhor e tem que ter melhor entrega. A melhor entrega é quando você entrega no prazo, com qualidade, sem retrabalho e sem um custo adicional. Isso é alta performance.
E quando você fala de comunicação, tem um episódio especial sobre comunicação e oratória que a gente acaba tratando do poder da comunicação Nos relacionamentos, é muito legal. Agora, dá para dizer que muita gente está performando errado e nem percebe?
Dá.
Como isso? Como eu identifico isso?
Na verdade, você identifica quando a pessoa não trabalha as suas reais competências, quando ela não tem o autoconhecimento de perceber assim: quais são os meus pontos— a gente fala da SWOT, né? Quais são os meus pontos fortes? Aonde eu posso estar melhorando ainda mais? Quais são que soft skills eu posso estar desenvolvendo dentro das habilidades que eu preciso ter, seja como um engenheiro de obra, seja como um CEO de uma empresa, né? Ela não consegue perceber isso. Muitas vezes o que eu percebo é que quando te dão o poder, as pessoas trabalham muito mais, ficam muito mais no seu ego e não conseguem olhar para dentro de si. É hoje que o mercado está trabalhando muito forte dessa mentalidade de estar olhando para você para que você possa ter essa percepção e aí poder olhar para o outro com um olhar mais fortalecido e poder inclusive perceber quem são os profissionais que você precisa melhorar, enfim, que você pode conduzir para que eles produzam o melhor dentro daquilo que eles trazem.
É, você trouxe um ponto importante que é essa parte da vaidade, enfim, do ego, e realmente às vezes tem aquela máxima, né, você quer conhecer o outro de poder a quê?
De poder a ele, né?
Nessa medida, quais são os custos invisíveis nesse modelo de gestão de pressão?
Eu diria que a saúde mental seria o custo maior, aonde as pessoas acabam tendo síndrome de pânico, onde as pessoas acabam tendo nível de ansiedade muito alto. Os preços são consideráveis. Por isso que hoje eu trabalho muito forte a importância de você de verdade saber onde você está hoje, em que ponto você se encontra, e o que que de verdade se busca para sua vida. Que que você tá almejando dentro daquilo que você trabalha? E o que você tá fazendo para ser diferente daquilo que você traz? Então, que mudança de mentalidade você precisa ter para que você caminhe?
Isso está muito ligado ao eu, ao autoconhecimento?
Sim.
Porque a partir do momento que eu me percebo, eu consigo ter consciência do mal que eu estou causando no outro? Seria isso?
Exato. É bem isso mesmo. Porque assim, o que acontece hoje de verdade é que as pessoas ficam muito no automático. O próprio uso da tecnologia, do celular, uma série de coisas, as pessoas ficam muito no automático. Você percebe muitas vezes em reuniões, primeiro que algumas reuniões são exaustivas e desnecessárias, mas quando as reuniões são mais objetivas, melhor. Mesmo assim, as pessoas estão falando com você, estão olhando para o celular, não tem um foco olho no olho mais. Isso vale no trabalho também. O engenheiro de obra, quando ele está na obra, que ele vai conversar, no máximo às vezes ele passa informação para o mestre de obra, vamos pegar a construção civil, por exemplo. Aí o mestre de obra vai passar informação para o outro, mas nem sempre ele está com Aquele olho no olho, ele tá com aquela conversa e ele parafraseia, que é um termo que eu acho muito importante, usa o parafrasear para saber se efetivamente o mestre de obras entendeu o que ele falou. Porque uma coisa que eu digo para você, outra maneira como você me entende, e a outra é: o que que você entendeu do que eu te disse? Me conta. E aí, quando eu te conto isso, eu percebo: então foi mais ou menos isso que eu quis falar, né? Então vamos lá, eu vou repetir e a gente vai entrar nessa sintonia. Para que ele possa repassar essa informação com todos os dados necessários para os profissionais da obra.
Para evitar erro, né?
Para evitar erro e retrabalho, enfim, não é? Apesar que eu acho que o engenheiro poderia conversar mais diretamente, porque existe muito uma coisa de sabe com quem está falando.
Nessa medida que você trouxe agora, como que você entende que uma liderança despreparada impacta diretamente no custo e no prazo de obra?
Impacta totalmente, não é? Porque se eu não tenho, eu costumo dizer assim: quer conhecer o seu líder? Conheça a sua equipe, e a equipe vai dizer quem é o líder, né? Aí você não precisa nem conhecer o líder para saber como ele trabalha. Impacta de uma maneira extremamente negativa, principalmente para as construtoras, porque voltamos Custo adicional, atraso na obra, retrabalho, material comprado errado muitas vezes, não é? Por quê? Porque não é só comunicação dentro da obra, eu digo é comunicação da construtora, da diretoria, com engenheiro, é todo um escalonamento de profissionais que muitas vezes acho que da maneira que eu falei tá claro ou deixo de falar ou omito alguma coisa e acaba impactando diretamente na na dificuldade das lideranças e, por sua vez, não performar da maneira correta e levar prejuízo. Prejuízo quando pode ser até vítimas fatais.
Sim, e quando você traz essa parte de ruídos, né, de comunicação, que geralmente assim, se eu tenho uma comunicação ruim lá em cima, na alta gestão, na obra não vai ser diferente. Não. Porque quando eu enquanto operário estou ali no dia a dia, um mestre de obra precisa tomar algumas decisões ali operacionais, se ele não está bem alinhado com a alta gestão, vai ter problema.
Sim.
Você consegue trazer alguns exemplos? Porque você tem ali uma diferença principalmente cultural, né? O executor, ele tem uma baixa escolaridade, um pedreiro muitas vezes, um pintor, um eletricista. O mestre de obra, ele é uma pessoa geralmente preparada para gerir. Tem muitos que nem não tem um preparo intelectual, mas ele é muito bom tecnicamente. Você consegue trazer algum exemplo de uma boa comunicação que ajuda nesse processo de não atrasar a obra, de entregar no prazo e no custo?
Olha, eu não sei se é um bom exemplo, mas eu penso o seguinte: você trouxe muito bem quando você disse que existe uma cultura diferenciada na obra, né, de profissionais que são excelentes técnicos, excelentes profissionais naquilo que fazem, seja pintor, eletricista, mas talvez ele não tenha a cultura, o vocabulário, o entendimento diferenciado, né, para poder entender aquela linguagem que está sendo passada para ele. Então eu vejo a importância da linguagem, é, para eu, eu tenho que falar com executivo de uma maneira, eu tenho que falar com esses profissionais de uma outra maneira, é E eu acho muito importante que possa estar as pessoas muito alinhadas no objetivo maior de onde queremos chegar. E muitas vezes o que eu vejo é que existe omissão de informações. Então tem que ficar claro para o profissional, vamos chamar de chão de fábrica, né, que tá na obra. Olha, eu tenho essa obra que tem um custo X, que eu preciso entregar em tal tempo, né, em 2 anos, em 3 anos. Nós estamos iniciando para os próximos 3 3 meses nós precisamos estar aqui para que a gente possa atingir efetivamente a data esperada, sem retrabalho, sem um custo adicional, todos em segurança, para que a gente possa ter o sucesso na obra. Muitas vezes assim: faça isso porque tem que ser feito. E a outra parte da informação eu não transmito. Então eu não deixo claro para equipe a importância do trabalho que ela está realizando. E quando as pessoas estão na obra construindo um prédio, ela tá construindo um prédio para uma família que vai vir morar com seus filhos, que futuramente pode ser até a família dela, por que não, né? E quando ela entende essa referência e ela é colocada como igual, ela trabalha com muito mais prazer e com muito mais amor naquilo que ela tá fazendo. A entrega é diferenciada.
Não sei se eu respondi.
Esse ponto que você trouxe para mim faz total sentido.
Que é a gente simplesmente enquanto líderes de construtora ou de, enfim, da indústria que seja, precisa fazer com que esses profissionais se sintam parte do processo, enxergue aquilo como parte e não como simples "ah, eu estou recebendo ordens aqui para executar".
Eu recebo para fazer e tudo mais.
É, eu tenho uma demanda para fazer, legal, eu vou executar, agora eu preciso enquanto executor entender o impacto do meu trabalho no todo. Seria isso?
Exatamente isso. Porque hoje o que eu percebo muito nas obras e no trabalho das pessoas é que elas não se sentem parte importante daquele trabalho. E eles são, porque eles que estão construindo. Quando ele está lá no prédio fazendo um revestimento, ele é muito importante naquele trabalho. Mas na maioria das vezes o que fica na cabeça das lideranças, quando não tem uma gestão emocional tão trabalhada, e hoje nós vamos perceber que as faculdades também na formação de engenharia, eu dei aula na engenharia na época que a engenharia tinha psicologia, eu dei aula na faculdade em Santos, então assim, hoje não tem tanto esse preparo, hoje o que exigem muito é o processo técnico, não é? Nos Estados Unidos já é diferente, o pessoal ainda tem 2 anos lá que eles trabalham muito esse lado, mas aqui no Brasil no Brasil nós não temos. Então ele não fica claro para o engenheiro, para quem tá na liderança, que ele precisa trazer aquela equipe junto a ele para que eles se entendam parte daquele trabalho, e que sim, somos todos uma grande equipe, e que juntos vamos fazer crescer. Porque ele não faz sozinho e nunca vai fazer. Enquanto ele agir assim, ele com certeza vai ter resultados negativos, vai impactar em custo, vai impactar em conflitos, vai impactar em profissionais que vão se afastar do trabalho porque não estão aguentando a pressão, porque acham que não estão sendo entendidos, que estão errando, e aí então se afastam. Então ele perde profissionais. Por quê? Porque eu efetivamente não trago aquela equipe junto comigo e digo assim: estamos juntos, essa obra é nossa, nós vamos fazer acontecer.
Então, em resumo, o problema da obra não é técnico, é humano.
É humano. E por mais tecnologia que a gente, que tenhamos, que nós temos tecnologia, não vai substituir esse homem, essa forma de lidar com as pessoas, porque isso é fundamental hoje e que hoje carece muito em todos os segmentos. A gente percebe uma carência muito grande.
E por que que nesse sentido bons engenheiros não são necessariamente bons líderes?
Olha, Liderança, ela é aprendida.
Ela é aprendida?
Ela pode ser aprendida, sim. Alguns profissionais já vêm com algumas competências mais desenvolvidas, já trazem um perfil de líder bem à flor da pele. Mas os profissionais que não possuem, eles podem ser treinados, desde que eles se permitam a aprender, não é? E desenvolver competências que vão levá-los a ter uma liderança com inteligência emocional. Porque hoje o que eu percebo é a necessidade de trabalhar muito mais a inteligência emocional das pessoas, para que elas saibam inclusive do que elas são capazes de realizar. Senão fica tudo muito frio, uma relação muito sem sentido. E o que muitas vezes causa em altos executivos uma frustração muito grande. Embora muitos não verbalizem, é onde eles vão buscar outros métodos para que eles possam estar mais felizes. E de verdade não é, é porque falta a inteligência emocional até para ter clareza na tomada de decisão. Qual é a melhor decisão que eu tenho que tomar, estratégica, nesse momento que a obra tá precisando? O que que eu posso fazer? E eu digo mais, eu digo assim, muitas vezes não se ouve Falta saber escutar o outro. Eu não ouço a minha equipe. Isso vale para todos, para todos os segmentos, né? Não existe o saber ouvir, porque eu sei tudo. Não, não sei lá, mas eu me informei, eu sou psicólogo, mas eu não sei tudo, eu tô aprendendo. O que que eu posso aprender melhor com você? Vamos lá, gente, vem todo mundo aqui. Aconteceu esse problema na obra, aconteceu esse problema na empresa, a nossa equipe tá envolvida nisso, como é que a gente pode sair disso? E faz um brainstorm. Não quer dizer que o que as pessoas trouxeram eu, líder, vou utilizar, mas nesse momento eu tô dando referência a eles e trazendo o quanto eles são importantes. E muitas vezes deles saem ideias excelentes que eu não consigo enxergar, mas para isso eu preciso estar aberto.
E esse ponto que você traz, para mim eu acho muito importante, que quando eu visito algum canteiro de obra ou alguma indústria, chão de fábrica, eu percebo, eu não sei se é um certo medo, ou se era um, sei lá, sabe quando um artista chega no lugar, nossa, Deus chegou aqui, aquela coisa? Eu percebo que quando chega essa alta gestão assim, o famoso capacete branco, existe aquela coisa. Se a gente trabalhar isso dentro dos canteiros de obras, no sentido de, ó, esteja aberto a ouvir seu pedreiro, seu mestre, seu encanador, e o contrário também, esses profissionais da obra estejam abertos a ouvir o engenheiro, é isso que vai ajudar nesse processo de melhorar não só a qualidade da construção civil, mas como também a agilidade nesses processos de construção?
Exatamente isso. E esse medo existe. É muito interessante porque, por exemplo, vamos voltar à obra.
Aquela coisa do "o chefe chegou".
Chefe chegou, é. Vamos voltar à obra, né? E o engenheiro chegou lá, e dou uma ordem. E nenhum momento os profissionais, sem ser o mestre de obra, vai questioná-lo. Se ele falar assim, tá claro, eles vão falar assim, aham, não entendeu nada. Mas o medo dele de falar para o engenheiro que ele não entendeu, porque ele pode ser levado como, ah, então ele não é bom para trabalhar aqui, então ele tem que ir embora. Só que ele depende daquele salário, então muitas vezes ele se cala Não fala, erra no trabalho, entende totalmente errado pelo medo que o outro impõe de: olha com quem você está falando, não é? Isso você vê muito. Eu trabalhei muitos anos em montadoras, foram 20 e poucos anos de montadoras, e você percebe muito bem quando chega a diretoria, que é assim, que não é muito diferente não, que é bem assim mesmo. Quando chega na linha de montagem: olha, o doutor fulano de tal está aqui. Meu Deus do céu, e agora? O que que a gente o que que faz, né? Fica aquele receio, aquele medo que não deveria existir, porque somos todos iguais. Ora você está na direção e parabéns, ora eu estou aqui, mas caminhamos no mesmo chão. Eu dependo da linha de montagem para que o carro seja o melhor carro, eu dependo da obra, do chão de fábrica da obra, dos operários da obra para que a minha obra seja melhor e eu possa vender mais e terminar essa obra e construir outras, né? Que nem às vezes a gente tem algumas obras que são impedidas, que ficam tantos anos paradas. Temos obras, por exemplo, tão construindo um prédio, tinha piscina uma por andar, e aí de repente o negócio não deu certo, tiveram que parar recentemente. Então assim, porque muitas vezes é falta de comunicação mesmo, essa, essa, e eu não me permito ouvir o outro, não me permito chegar aqui e falar assim, olha, eu vou tomar um café, vim tomar um café com vocês, me conta como é que tá a obra aí, a obra tá acontecendo, tá tudo bem, teve algum "Ah, faltou material, já sei, faltou material, mas agora tem material, tá tudo bem, eu quero saber, preciso que vocês me contem." Então essa leveza que é necessária nas relações, sejam elas quais forem, até na relação do casamento, que a gente precisa chegar e sentar para conversar e muitas vezes a gente não conversa. "Conta como é que está a nossa relação." Não é DR, não é fazer DR, mas é realmente no momento gostoso, vamos tomar um vinho. A gente está indo bem, até que a gente está indo bem na nossa relação, mas de vez em quando a gente tem umas coisas e outras. Essa coisa não é uma coisa, mas isso é tão importante nos dias de hoje, e tanto se perdeu já.
Você vê, hoje eu estou aqui com uma das pessoas mais importantes quando o assunto é psicologia e alta performance, e em momento algum eu te chamei de doutora, você percebeu?
Graças a Deus que eu não sou.
Cecília, eu estou me sentindo aqui igual.
Somos iguais, somos iguais.
Eu percebo que a gente precisa, me corrija se eu estiver errado, é importante que você traga essa dica, Mas quando você falou agora pouco da, de cada um entender a importância que tem desenvolvendo o seu papel, é importante que a gente conscientize também esses profissionais dentro do canteiro de obra, que ele mesmo sendo um encanador, um eletricista, um pedreiro, ele tem a mesma importância que um diretor de engenharia, que um engenheiro responsável pela obra.
Muito.
E aí, como que eu trago essa consciência no dia a dia, Cecília? Porque uma coisa, ah, tudo bem, ele precisa ter essa consciência. Agora, como que eu coloco nele o senso de pertencimento pro todo.
Então eu volto a falar da importância de termos líderes treinados com foco em gestão emocional, em gestão de pessoas, para que eles possam entender o papel real deles e o quanto eles poderão agregar na vida dessas pessoas. E aí sim, trata-se de atitude. Atitude do profissional de chegar junto à equipe e estabelecer esse vínculo, porque ele que vai criar esse vínculo. Mas depende muito da atitude que ele vai ter diante daquela equipe, porque atitude é tudo. E às vezes as pessoas acham assim: ah, mas se eu mostrar o quanto ele pertence, o quanto ela é importante, se ele é tão importante quanto eu, quanto a diretoria, a pessoa vai se sentir isso, vai sentir aquilo. Podemos até, pode até acontecer, porque tudo acontece, né? Mas é muito, muito menor o risco, inclusive no trabalho, assim, na linha das relações. Por quê? Porque quando eu me permito a isso, né, quando eu levo essa gestão emocional para o chão de fábrica, para as pessoas, enfim, independente de onde eu esteja na empresa, eu consigo me vincular muito mais fácil. E aí sim, independente do momento onde ela se enquadra na função, ela te respeita enquanto líder, né? Não vai haver um bypass, não vai haver um 'não, mas agora eu sou igual a você'. Não, ele entende o papel dele, desde que muito bem colocado, aonde ele tem que atuar e em que momento ele pode tá chegando no líder para conversar com o líder e levar efetivamente a opinião dele sobre tudo que tá acontecendo. Então muitas das coisas que eu acho que acontece nas empresas é porque não é permitido pelas lideranças. E tem aquela coisa da vulnerabilidade, né? A Benny Brown traz muito isso, a coragem de ser imperfeito.
É muito legal.
Os líderes acham que eles não podem ser vulneráveis, e é na vulnerabilidade que você faz acontecer, é se permitir ser vulnerável. Mas nós crescemos, na verdade, dependendo das gerações— a minha foi uma geração dessa— que você aprende: não, você não pode ser vulnerável, você não tem que se mostrar tal. E é na vulnerabilidade que você cresce, que você faz acontecer. Tem o apoio do outro, né? É, exato, né? Mostrar que tá tudo bem, né? Tá tudo bem errar, tá tudo bem. Não podemos errar muito, né? Mas vamos fazer.
Cecília, agora a gente vai entrar num tema bem assim, a gente vai dar uma pincelada aqui de forma bem objetiva. Queria já agradecer o apoio da Hub Construção, que viabiliza, que tá patrocinando este episódio com a Cecília. Cecília, e você fala da NR1 de forma muito simples. Quando falo com você sobre a NR1, eu não fico com aquele pavor, sabe, que ultimamente a gente tá falando que é um grande caos para o empresário essa nova norma aí da NR1. Eu queria que você falasse o que que é a NR1 de forma resumida e qual o papel da NR1 no trabalho de alta performance?
Olha, a NR1, na verdade, ela veio atualizada agora. Ela é um guarda-chuva, né? Mas o papel fundamental dela, o foco, é trazer essa visão da importância do líder trazer para o ambiente dele de trabalho a saúde mental, né? Ele ter uma equipe coesa, uma equipe que não, que diminua os conflitos, que diminua os afastamentos. Ela vem de uma De forma muito tranquila eu vejo a NR1, porque ela traz isso do repensar das empresas quanto às suas lideranças e como essas lideranças estão atuando no seu ambiente de trabalho. É simples assim. Então, se eu tenho uma empresa hoje, independente do segmento dela, independente da quantidade de profissionais, mas eu tenho uma área de recursos humanos ativa que trabalha suas lideranças, que reúne as suas equipes, que tem um engajamento maior. E eu não tô falando departamento pessoal, porque às vezes as empresas confundem muito recursos humanos com departamento pessoal que faz folha de pagamento. Não, não, tô falando de algo maior, não é? Que eu consigo ver os profissionais como um capital humano e que eles me trazem de produtividade, de excelência, que faz construir minha empresa com resultados sustentáveis. É dessa área de recursos humanos que eu tô falando aqui. A NR1 vem para sustentar realmente essas empresas que hoje já fazem um trabalho de excelência e trabalham muito forte com as suas lideranças. Porque hoje, de verdade, os líderes são responsáveis pelo seu ambiente de trabalho. Não importa que ele tenha 3 liderados, 2 liderados, 10, 20, 50, ele é responsável por aquelas pessoas. Por isso ele se tornou líder, não é? Eu digo que nada é por acaso. Quando você é posto numa, numa função de líder é porque você tem muito a agregar para todas as pessoas, e você vem com uma missão maior nesse mundo, que é de ajudar o outro a crescer. Para mim, vejo liderança assim. E a NR1 traz isso com muita tranquilidade. Infelizmente, muitas pessoas estão fazendo da NR1 fantasmas enormes. Nossa, e que não faz sentido, né?
Eu trouxe esse ponto porque tá tendo muitos escritórios Principalmente de advocacia, é causando esse medo nos empresários. E é importante trazer você aqui para falar disso, porque para mim tá muito claro: se eu sou um líder humano, onde eu entendo meus liderados, onde eu incentivo eles a crescerem, trabalho neles essa questão também do autoconhecimento, porque a partir do momento que eu trabalho em mim Eu tenho consciência daquilo que eu estou fazendo, que eu estou sendo para o outro, e meu liderado tem consciência de quem ele é sobre ele, sobre seus liderados, eu acredito que eu já estou aí trabalhando com essa, dentro dessas novas regras da NR1.
Porque na verdade a NR1 traz o PGR, né, que é o Programa de Gerenciamento de Risco, e o Programa de Gerenciamento de Risco nada mais é do que você poder avaliar sua equipe, do que você é tirar do papel do papel e levar para atitude, né? É isso que ela tá cobrando hoje. Tem várias coisas no papel, ótimo. Agora leva para atitude, leva para o dia a dia. O PGR nada mais é do que isso: você ter realmente quais são os riscos que eu tenho hoje na minha obra. Por exemplo, ela pode atrasar? Se ela atrasar, por que que ela atrasou? Quantos profissionais eu tenho? Quantos profissionais estão treinados naquela função? O líder hoje está preparado para isso? Se eu consigo responder essas questões, "Ótimo!" E é com essa tranquilidade. Então nada mais é do que fazer alta performance, fazer a entrega correta dentro do que é certo, no prazo que é necessário, sem pressão e sem limites. É isso, tranquilo.
Agora, as pessoas que estão assistindo ou ouvindo este episódio completo, que chegaram até aqui, imagina que essa pessoa não tem uma empresa com departamento de RH, mas eles entendem que precisam conversar com você. Você faz consultoria?
Hoje eu tenho, eu tenho uma consultoria de desenvolvimento que é Aprendendo a Ser, treinamento e desenvolvimento. Eu também faço mentorias individuais, mentorias em grupos com líderes nas empresas, e também realizo treinamentos, muitas vezes palestras ou treinamentos, é com este foco E muitas empresas através da palestra ou de um treinamento de um dia, né, de meio dia, eles conseguem entender a importância desse papel. E aí nós partimos para uma mentoria em grupo de lideranças para aprofundar um pouco mais sobre esse assunto, para que os profissionais estejam preparados para decisões sustentáveis dentro desse mundo que nós vivemos.
E para você que é empresário, que tem suas empresas, quer resolver questões como saúde emocional, quer algum treinamento sobre engenharia, sobre qualquer sistema ou soluções construtivas, vocês podem fazer parte da comunidade HubPro. Lá você vai ter acesso não só a profissionais como a Cecília, mas também como grandes líderes de construtoras e indústria. Isso é importante trazer aqui. A gente tá indo pro final, Cecília, tem algum assunto que você gostaria de tratar aqui antes da gente deu passar pra para as últimas perguntas.
Não, fica à vontade. Eu acho que o foco maior aqui é falado sobre a importância da saúde mental mesmo no nosso dia a dia, dentro daquilo que a gente desenvolve. E cada vez mais eu digo que todas as pessoas deviam fazer terapia, porque a terapia nos enriquece tão tanto, né, e nos faz perceber em que ponto que nós estamos dessa vida e desse mundo. Enfim, nos faz pensar bastante.
E eu tenho uma pergunta, realmente eu acho fundamental fazer terapia, acho que é muito importante. Eu já fui muito resistente a isso, falo com propriedade. Faça terapia que é legal, mas cuidado com o terapeuta que você escolhe, porque você pode ficar pior do que o que já tá. Isso é importante.
É verdade.
Dá pra gente dizer que segurança tá ligado a comportamento e cultura?
Com certeza, com certeza. Quando eu falo em segurança, eu tô falando segurança em todos os sentidos, né? É não só na vida, mas principalmente uma segurança afetiva, segurança comportamental. Eu acho que faz todo sentido quando nós linkamos com esses três pontos. É que finaliza, eu diria que finaliza com alta performance do ser humano que você é nessa vida e nesta terra, quando você consegue fechar esses três pontos.
Sensacional! Agora eu queria passar para você suas palavras finais e te dizer de antemão que para mim foi uma honra te conhecer e ter você aqui fazendo parte do nosso ecossistema hub de soluções para cadeia e indústria da construção como um todo.
Paulo, eu já quero te agradecer mais uma vez, né? Eu acredito muito quando nós falamos na importância desse nosso bate-papo, dessa troca, desse compartilhar de conhecimento mesmo, né? De estarmos falando sobre alta performance, e o que nós estamos fazendo também é alta performance, né? É o fato de nos permitirmos a compartilhar conhecimento para as pessoas, para que elas possam evoluir e crescer cada vez mais. Isso é fundamental hoje na vida de todos nós. Então é isso que eu quero deixar de, de, para as pessoas, para elas entenderem que todos somos capazes de sermos os melhores naquilo que fazemos e termos as nossas melhores entregas, independente do segmento, independente da profissão, desde que a gente a gente possa estar preparado, ter clareza no que a gente está buscando e manter decisões sustentadas mesmo. Quanto a isso, não tenho dúvida. Então assim, gratidão e sucesso aí para você, para todos nós.
Para nós. Eu vou encerrar esse episódio de uma forma um pouco diferente, vou trazer aqui uma reflexão para você que chegou até aqui e me corrija. Como você tá aqui, seu papel também é me corrigir. Eu tenho uma máxima que nenhuma pergunta é boba. Sim, eu tenho uma máxima que a gente nunca deve trabalhar com achismo. Ah, eu acho que ele tá fazendo isso de propósito. Eu acho que isso é óbvio e ele não tá fazendo da forma correta. Então, se você é liderado, não pense que o seu líder tá agindo de má-fé com você. Pergunte se você está incomodado sobre aquele comportamento. E quando a gente traz isso para o dia a dia do trabalho, você que é líder, você que é engenheiro, você que é diretor de engenharia, muitas vezes o problema da sua obra, da sua indústria, não está no seu funcionário e sim na condução que você está trazendo para esse projeto. Show! Este foi mais um episódio do ConstruCast. Afinal, conhecimento também se constrói.
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