Centro de Inovação Natura | Por Dentro do Projeto | Arquiteto Roberto Loeb

On-location Constrycast episode at Natura’s Centro de Inovação (Cajamar). Host Paulo interviews architect Roberto Loeb about the project's origin, the intent to integrate people and nature, design choices (distributed buildings linked by passarelas, jabuticabeira garden, lake), material and structural solutions (textured concrete using helicoidal cardboard column forms, metal articulations, extensive glazing), a 90 m network-like passarela, construction collaborators (Construcap, structural engineers), peak site workforce (~5,000), and sustainability framed as durability, low waste and human-centered comfort.
Questions this video answers
About 20 years ago ('quando foi projetado, cerca de 20 anos atrás').
More than 50,000 ('foram mais de 50 mil').
90 meters ('ela tem 90 metros de comprimento').
About 12 meters high ('panos de vidro de cerca de 12 metros de altura').
Nearly 500 meters of passageways ('as grandes passarelas, que são quase 500 metros de percurso, ou até mais').
Chapters
O episódio de hoje é diretamente do Centro de Inovação Natura, aqui em Cajamar. Este episódio é um oferecimento Sumetais. Sejam todos muito bem-vindos a mais um episódio do Constrycast. Hoje estamos iniciando a série por dentro do projeto e quem abre este episódio é nada mais nada menos que Roberto Loeb. Seja bem-vindo, Loeb, a mais um episódio aqui no Constrycast pela segunda vez.
É um prazer estar com você aqui na Natura.
Visitar a Natura para mim sempre é um prazer.
Ver como é que ela funciona, como ela continua funcionando.
A sua fala no episódio anterior teve muita repercussão. Quando você falou aqui do Projeto Nature, para a gente é muito gratificante fazer esse tour aqui, conhecer as histórias das pessoas, falando que tudo bem que já tem um tempo que o projeto foi inaugurado, mas parece que ele foi inaugurado ontem, de tão atual que é o projeto.
A gente procurou fazer um projeto que tivesse uma característica de campos.
Você sabe que as pessoas passam suas vidas acordadas muito mais no trabalho, sua vida ativa.
E eu queria sempre que esse espaço.
E a diretoria também queria, a presidência também, que esse espaço fosse um espaço muito acolhedor e inspirador, para que as pessoas estivessem aqui com o sentimento de alegria, de participação, de descobertas. Então o espaço é muito generoso, ele é aberto, ele proporciona para quem trabalha aqui a escolha de diversos lugares para trabalhar, para conversar, para conviver.
E a gente até está num desses espaços agora.
Sim, e eu queria agora iniciar o nosso bate-papo perguntando para você como que surgiu o desejo de construir esse espaço por parte dos investidores, como que o investidor chegou até você?
Bom, a natura tem uma característica muito específica, eles estão muito ligados com as pessoas, com o conforto dos indivíduos. O produto da natura, pelo menos eu aprendi isso no meu convívio, ele nasce fundamentalmente dessa abordagem humanística, em que os cuidados com a pessoa, a importância do indivíduo, é fundamental. Então, o produto vem para preencher essa missão, essa visão específica da natura, que faz seu produto muito dirigido às pessoas, a qualquer idade, a qualquer gênero, a qualquer situação. E trabalhar com a natura foi especialmente interessante, porque o diálogo sempre muito aberto e ficava claro que eles queriam alguma coisa inovadora. Não só do ponto de vista técnico, mas do ponto de vista inspirador, poético, natural, ligado à natureza. Quando foi projetado, cerca de 20 anos atrás, até os conceitos de sustentabilidade eram recentes.
A gente teve, então, a oportunidade de.
Desenvolver um projeto com essa visão. Aliás, os arquitetos sempre tiveram essa visão. Depois é que a denominação de sustentabilidade, toda uma ideia e um desenvolvimento desse conceito passou a ser mapeado e solicitado. Mas é claro que, como arquiteto, e os arquitetos fazem isso, a leitura do espaço, a leitura do local, do tempo, dos ventos, da insolação, e principalmente da forma como as pessoas convivem nas suas funções, nos seus trabalhos, num espaço como esse.
E esse projeto é de fato uma experiência, quem visita passa por uma experiência e experiência essa, já adianto, quem está assistindo ou ouvindo esse episódio o comentário mais criativo sobre o que aprendeu desse bate-papo entre nós dois aqui vai ter a oportunidade de fazer um voo panorâmico na cidade de São Paulo ou se a pessoa preferir a gente traz a pessoa para fazer um voo panorâmico de helicóptero aqui na fábrica da Natura em Cajamar E hoje chegamos aqui, vivenciamos uma história de uma pessoa que trabalha aqui há mais de cinco anos, e ele fala que é sempre uma surpresa visitar, mesmo trabalhando aqui no dia a dia. E qual que é o grande desafio para você, enquanto arquiteto, você pegar um papel em branco e desenvolver um projeto que gere esse nível de experiência?
Bom, você sabe que para mim, a partir da experiência de vários anos, Primeiro, o papel em branco é apenas o começo, e o processo de criação não é feito isoladamente, solitariamente. É uma equipe que participa, é conversa com a presidência, com os diretores, com os funcionários, é observação do local antes da construção, é o conhecimento da fábrica, como é que ela funciona, Então, você vai captando uma essência, que é uma essência fundamental para você construir um espaço como esse. E tem a visão e a missão dos fundadores, que é uma missão muito ligada à técnica e, eu diria, à poética, porque eles são muito sensíveis às questões da humanidade. O projeto foi evoluindo através de várias conversas, várias reuniões. Eu tenho até guardado um álbum com.
Centenas de páginas, porque esse projeto não nasce feito.
Ele é um trabalho de gestação, de reflexão, de revisitação de conceitos. até que o projeto se transforme em alguma coisa madura e que possa iniciar a sua construção, a sua implantação.
Loeb, e para você, qual que é, depois a gente vai detalhar um pouco mais de cada elemento das soluções construtivas implementadas aqui nesse projeto, e para você, qual que é o grande desafio na implantação de um projeto como esse?
Bom, são tantos, Paulo, são vários desafios.
Eles são desafios do local, da estrutura do terreno, da fundação, do movimento de terra, dos desíveis.
E para isso a gente sempre contou.
Com uma equipe de consultores e colaboradores muito eficientes, desde os calculistas, o pessoal especialista em fundações, iluminação, vidro, estrutura metálica. É um conserto de elementos que você vai coletando e não é uma aproximação muito fácil, muito direta. É um trabalho de reflexão em que o desenho vai surgindo, vai sendo revisto e vai se consolidando a partir desse processo.
E o interessante nesse projeto, assim, é um projeto que eu, como apaixonado por arquitetura, o legal daqui é que eu tenho muitas soluções construtivas. Eu tenho um uso grande de concreto, mas tudo muito pensado no detalhe. Tenho também muito uso de metálica, muito uso de vidro. E falando desse tipo de arquitetura mista, Qual que é o grande desafio de você construir dessa forma, mas onde tudo se complementa, onde cada elemento tem um papel? Você vê aqui o uso dessa passarela que, tudo bem, ela tem uma função, mas ao mesmo tempo, se você olha as ligações de um prédio, de um elemento de concreto, você também tem o uso da metálica fazendo as ligações de forma muito leve. Como que isso é pensado na arquitetura?
Você sabe que a minha tradição como arquiteto vem da arquitetura brasileira e, principalmente, da arquitetura de São Paulo.
Em que o uso do concreto, tão celebrado por arquitetos como Villanova Artigas, como Fábio Pentechado, como Paulo Mendes da Rocha, Pedro Paulo Saraiva, Milan, São arquitetos que deixaram uma quantidade de elementos muito significativos para a construção desse pensamento. É claro que existe uma evolução e o mundo muda constantemente, mas, na época em que eu projetei esse Natura, para mim, o uso do concreto era o caminho mais evidente. concreto, metal e vidro, porque ele permitia uma articulação dos espaços com grandes vãos, grandes vistas, aberturas. Vocês vão ter a oportunidade de visitar todas as passarelas, as passagens que ligam os vários momentos da natura e perceber que a gente procurou não só uma ligação técnica e eficiente, mas uma ligação que iluminasse as pessoas, a alma, porque a vida faz as suas exigências. Você tem que produzir, você tem que trabalhar, você tem que ganhar o seu sustento.
A natureza é a mesma coisa, ela.
Tem que produzir, vender seus produtos.
Mas é fundamental que a diferença se.
Faça no respeito às pessoas, de como esse trabalho foi feito. Então, quem trabalha aqui, você vai ter oportunidade de conversar com várias pessoas.
Inclusive, eu queria até já falar um pouco dessa integração com a natureza, dessa questão desse lago. A sensação que dá é que você está numa casa inserida na natureza, mas está tudo muito ligado, tudo muito conversando com o meio ambiente.
É, você captou, é exatamente isso que a gente procurou, né? Há uma integração, então, por exemplo, a natura é feita de diversos edifícios interligados por passarelas. Porque a gente não gostaria de fazer um grande bloco, que é o tradicional, uma grande construção industrial, onde as pessoas entram, convivem o dia inteiro com as máquinas, não têm contato com a luz natural, com a chuva, com o sol, com o calor. Então nós procuramos fazer um ritmo em que você entra e percorre espaços sucessivos. Cada espaço é uma surpresa, porque quando você chega, você tem a impressão que chegou a um espaço definitivo. Mas, de repente, existe uma porta, uma passagem, que te leva para uma outra passarela, para um outro momento. Por exemplo, a gente criou esse Jardim das Japuticabeiras, que é um lugar fechado e muito protegido, onde você tem quase 20, 25 jabuticabeiras produzindo. E é um lugar em que as pessoas trabalham e usufruem da jabuticaba, do fruto. Mas não é só esse o espaço. Você atravessa, de repente, uma passarela, uma pequena entrada, e vai descobrindo outros momentos, outros espaços.
Olhebe, quando a gente fala dessa sensação de conexão com a natureza, eu percebo que a gente entra ali naquelas plataformas, estações de trabalho e todo mundo tem a visão dessa parte externa. Como isso é pensado na arquitetura? De repente, se isso não atrapalha, imagina, eu estou lá dentro, trabalhando, aí está acontecendo aqui, as pessoas nessa parte da Jabuticabeira, fazendo algum evento. Como isso é pensado na arquitetura?
Bom, você sabe que uma vantagem grande para mim, como arquiteto, foi que a gente conseguiu um espaço muito amplo, ligado à natureza, e a gente tirou o máximo proveito desse espaço. Então, cada local, cada ambiente, mesmo o Fabril, ele tem uma ligação com o espaço externo. Então você pode ver o céu, você pode ver a natureza. É muito diferente de um espaço urbano que é confinado, que te obriga a outras soluções que podem ser igualmente criativas. Mas aqui eu tive esse privilégio de contar com essa expansão e, volto a dizer, com um diálogo muito aberto com os fundadores. Porque isso é possível quando você tem um diálogo e quando existe essa integração de objetivos, de sentimentos. Isso foi muito maravilhoso.
E nesse sentido de você conseguir um projeto de sucesso como foi de fato. Esse terreno foi um privilégio com esse desnível que ele tem. Então você tem essa entrada num ponto alto e você vai descendo. É sempre uma surpresa muito agradável. O terreno proporcionou isso.
O terreno proporcionou, e aí a sua pergunta até é muito interessante, porque a Natura teve o cuidado de me chamar como arquiteto para olhar terrenos, e esse foi um dos terrenos que a gente visitou. Então eu participei desde o início da observação, da avaliação da paisagem. Isso fez uma diferença muito grande, porque na medida que eu visitava o espaço, Eu já sentia quais seriam as inter-relações, as ligações, e eles ouviram isso de forma muito eficiente, muito cuidadosa.
É bem interessante, eu fico imaginando sua visita. Imagina visitar um terreno e já ir pensando como tudo vai acontecendo. Até uma pergunta curiosa, Loeb. Quando você está visitando um projeto como esse, você já começa a visualizar o projeto? Pronto? Com a sua experiência do dia a dia, como funciona isso?
Você não vê o projeto, você se entusiasma, você se encanta e começa realmente a imaginar situações que no meu caso eram muitas situações ligadas ao sentimento das pessoas, do prazer que eu tinha visitando no meio do mato. Eu lembro que tinha cercas de arame farpado, que a gente tinha que atravessar, porteiras para abrir, porque esse espaço é um pouco rural naquele tempo. E o prazer de você descortinar uma natureza que faria parte desse espaço. E ainda lá no fundo do vale, passa a estrada de menor bitola ferroviária do Brasil, 60 centímetros, que é a estrada Perus-Pirapora.
Tudo aqui?
Tudo aqui. Ela vem de Perus e vai para Pirapora, que era uma fábrica que produzia cimento. E os trenzinhos são trens mínimos que faziam esse percurso. E nós estamos perto do parque importante, a montante da estrada. Então tudo isso, claro, começa a ser um elemento técnico, poético, para que você comece a pensar no processo de criação.
Lebi, agora eu queria falar um pouquinho das soluções construtivas. A gente tem um destaque muito forte aqui. Vamos falar primeiro do concreto, depois da metálica e depois do vidro. O que me chama muito a atenção no uso do concreto, já falando, é a forma como as formas foram criadas. Você tem ali os espaços, os furos que prendem as formas. e eles não foram tampados, eles têm uma função arquitetônica, inclusive de passagem de luz. Como que isso foi pensado na arquitetura e quais foram os grandes desafios para trazer fornecedores não só de concreto, imagino que seja um concreto especial, mas também no desenvolvimento de formas especiais, eu acredito, para chegar nesse nível de arquitetura?
Então, a primeira coisa que começamos a trabalhar com texturas, com elementos de concreto, e texturas vistas do ponto de vista técnico e eficiência. Por exemplo, as colunas que você vê nesse espaço são colunas feitas com formas de papelão helicoidal. Então, depois de desformadas, elas deixam a marca do papelão. E isso já foi uma revolução na época, porque as colunas eram feitas com formas de madeira muito caras. Então essas colunas representam uma transição da técnica de construção. Mas a gente foi usando o elemento do concreto com texturas diferentes, como você tem paredes que são de concreto feitas de tábuas de pinho, que a gente propositalmente deixou rústicas, como se a mão do homem tivesse terminado de construir e elas aparecessem como peças que saíram da natureza e também superfícies lisas com formas de madeirite, lisas especiais. E aí você sabe que para conter o concreto que desce nas formas, no meio da ferragem, ele tem uma pressão enorme e se você não prender a forma, ela estoura. Então existem parafusos passantes que interligam as duas faces da forma De forma que depois que a cura é feita, você retira e sobram furos. Furos que foram feitos justamente para passagem desses elementos metálicos de parafuso. Normalmente o que se fazia era fechado com concreto. Então você tinha a superfície pronta do concreto acabado e a cada furinho desse fechado com massa. Nós dissemos que não, que a gente gostaria de desenvolver uma tampa de vidro. Aí produzimos pequenos copinhos que têm o diâmetro do furo, na verdade foram mais de 50 mil.
Mais de 50 mil nesse projeto.
Nesse projeto. Então eles fecham os seus orifícios e produzem uma sensação muito interessante, porque durante o dia Você sente a passagem da luz através desses furos que iluminam a parte interna. E durante a noite é o reverso, porque a luz interna é projetada para fora. Então essas superfícies brilham. Poderiam ter sido fechados com concreto? Seria mais simples, mais rápido. Mas isso fez enorme diferença.
Um ponto que me chamou muito a atenção visitando os banheiros aqui, são aqueles furos para passagem de ar. Então, é notório que o ambiente nos banheiros, eles são muito agradáveis, além desses furos que você citou agora, do furo do concreto ali, onde tem os pinos, as folhas de vidro, você também tem esses elementos, você fez aqueles furos para passagem de ar e não tem ar-condicionado, é isso?
Não, a gente queria que os banheiros tivessem ventilação natural, o que é possível porque, por exemplo, o bloco dos banheiros é um bloco independente totalmente livre no espaço. E eu procurei sempre articular formas com passarelas de forma que partes do edifício fossem soltas, independentes. Então nós fizemos furos com máquinas especiais que furam concreto, colocando grelhas para filtro, de forma que você tem ar natural o tempo todo entrando. Essa experiência eu já tinha feito na Unibis, que era o centro de cultura judaica, na Oscar Freire, que é um centro cultural que eu projetei em homenagem aos meus avós de origem judaica da Ucrânia e dos meus pais. Lá já usamos esse sistema, porque existem máquinas especiais que furam concreto.
Oloeb, e nesse processo de desenvolvimento de concreto, dessa arquitetura em concreto, você tem apoio da indústria para chegar numa textura, para chegar, eu não diria só da indústria do concreto, mas também das empresas que forneceram as formas aqui de concreto? Como que foi esse processo?
Primeiro, porque a gente trabalha muito estreitamente com os nossos consultores. Os calculistas, eles não são fornecedores de formas de concreto e metal, eles são pensadores. Então, nós trabalhamos muito em conjunto. É uma equipe pluridisciplinar que participa junto das escolhas. Então, cada solução estrutural foi pensada com essas pessoas que são especializadas e que.
Tem uma visão muito flexível e que.
Contribui muito para que a gente inove. Nesse caso eu trabalhei com a Luís Amaringoni e com outros arquitetos e calculistas importantes na área de fundações, na área de estrutura metálica. Isso foi fundamental.
E aí eles se ajudam nesse desenvolvimento dessa parte da tecnologia do concreto que vai ser aplicada?
Ajudam. Os fornecedores também. e a construtora. Aqui, a construtora que fez esse trabalho foi a Construcap.
Construcap.
A Construcap fez um trabalho de diálogo, de integração muito importante, porque eu pude, com eles, conversar e examinar cada um dos detalhes que a gente produziu. E a contribuição deles, que são construtores tradicionais, Foi muito importante para a gente modelar soluções. Então, o trabalho do arquiteto não é um trabalho isolado, é um trabalho de equipe, de equipes que se integram como se fosse uma orquestra. Então, você tem o maestro e você tem os participantes, cada um com o seu instrumento, com o seu saber. trabalhando muito intensamente, com muito entusiasmo, porque nós chegamos a ter, em certos momentos, 5 mil pessoas trabalhando aqui dentro. E como o projeto é feito de várias partes, eu tinha várias frentes de obra.
Depois eu queria até falar um pouco de tecnologia, mas primeiro vamos fechar essa parte das estruturas. E como que foi o uso da estrutura metálica para fazer essa ligação entre os prédios de concreto?
A estrutura metálica é um complemento, como se fosse uma articulação. A grande parte que funciona como fundação, como estruturação dos volumes, foi feita em concreto. E o metal entrou como elemento articulador das partes. Pontes, grandes superfícies de cachilhos e vidros. Porque o metal permite que você faça um projeto muito detalhado, e muito preciso, e que se encaixe perfeitamente na estrutura de concreto se ela for feita com cuidado. Então, nós tínhamos, assim, vários elementos funcionando juntos.
E ainda falando de estrutura metálica, qual foi o desafio de construir essa passarela flutuante no meio, ligando os prédios? É um ponto que me chama muito a atenção, não só em olhar para a passarela em si, mas também como você tem o uso do vidro, ela fica refletindo de vários ângulos que você olha, ela está refletindo o tempo todo, ela está te olhando o tempo todo.
Bom, a história da passarela é muito interessante porque ela é uma rede. A rede é uma invenção brasileira, dos povos originários. A rede nunca apareceu no mundo, a não ser no Brasil. Então, quando eu vi esse vão de 90 metros, o primeiro desenho que eu fiz foi uma linha pendurada no espaço, como se fosse uma linha de rede. E aí, conversando com a calculista, que era a Heloísa, Nós decidimos desenvolver o projeto estrutural como se fosse realmente uma rede. Então ele tem uma forma de rede, porque é a forma mais eficiente, e ela tem 90 metros de comprimento. Então essa passarela veio pronta. Ela veio e foi colocada no espaço.
Nos pontos de apoio.
Nossa, que legal. Isso mostra, na verdade, a agilidade da industrialização. Uma passarela que foi toda construída na fábrica e veio só montada e encaixada no local.
E a parte mais interessante que é a inspiração. foi a partir dos povos originários. Que a rede é um desenho tão inteligente, tão específico, que ela tira você do solo, te protege em relação à natureza, te acolhe, te dá um balanço. E é poética, é bonita, é linda.
Não, é interessante, porque ela traz essa sensação de flutuar, de fato.
Você sentiu isso?
Sim, sim. Inclusive, quem está tendo a oportunidade de assistir pelas plataformas de vídeo, está vendo a plataforma de vários ângulos. Acredito que passe também a sensação para quem está assistindo. Agora, Luab, como que foi o uso do vidro aqui, né? Então, depois a gente vai falar um pouco de sustentabilidade e tudo mais, e o vidro ele é um elemento fundamental nessa parte sustentável?
Sim, o vidro é um elemento de vedação e transparência, né? Então, depois de todo esse trabalho de desenhar estrutura de concreto o mais leve possível e estrutura metálica como se fosse uma teia de arame, né? Era natural que a gente usasse o vidro como elemento da visibilidade, de dentro para fora e de fora para dentro. Se você tiver a oportunidade de visitar os laboratórios, que todos vão conhecer, esses laboratórios são muito abertos, eles estão ligados à natureza, como todos os espaços, a fábrica. panos de vidro de cerca de 12 metros de altura, claro, são peças articuladas presas nessa teia metálica. Então o vidro é como se fosse o elemento que faltava para criar o espaço fechado. Fechado, mas não isolado. Ele continua ligado à natureza.
Ele traz essa transparência aí nas relações dentro e fora.
É interessante que o vidro permanece como um elemento muito flexível. Por exemplo, as grandes passarelas, que são quase 500 metros de percurso, ou até mais, foram serigrafadas com linhas brancas, como se fosse um elemento de brisoleia, de forma que a luz é filtrada através desses elementos serigrafados no vidro. Então a gente tem vários elementos, você pode imprimir o vidro, você pode fazer tantos artifícios com vidro, desde o ponto de vista zenital, quando a luz vem de cima, vem paralela, vem dos lados. Você modela, é uma modelagem que você faz com o concreto, com o metal e com o vidro.
Loeb, e agora uma curiosidade, para você chegar nesse nível de projeto, eu estou falando de um projeto que foi construído há 13, 15 anos? 20 anos atrás. Como que foi aplicada a tecnologia para você conseguir ter uma visão? De repente, hoje a gente fala muito de BIM, né? Como que foi usada a tecnologia nesse projeto para chegar nesse nível de Você.
Disse para produzir os desenhos?
É, para pensar nos desenhos. Eu estou imaginando que você fez tudo à mão ali.
Foi feito à mão porque eu tinha, primeiro, uma tradição. Eu me formei na Faculdade de Arquitetura do MacKenzie, me formei em 1964. E já no início do curso, eu tive a oportunidade de trabalhar com alguns arquitetos importantes para a minha formação, que eram o Rino Levy, o Fábio Penteado, o Telesforo Cristófano. E no Rino Levy, tudo se fazia a lápis, a grafite. E sentado naquele escritório, que tinha pouca gente, mas com uma produção intensa, eu observei e aprendi a desenhar lápis copiando projetos. Eu lembro que copiei a primeira casa importante do Rino, que foi a Casa da Rua Rússia, que hoje é uma galeria de arte. Cada detalhe, cada passagem de lápis que eu fazia sobre o desenho original me iluminava, me dava uma visão clara de como eram os arremates, como eram as coisas. E também aprendi a desenhar observando o Rino, observando os arquitetos que lá, associados a ele, trabalhavam. E, principalmente, o projetista, o Nicola Pugliese, que veio a trabalhar comigo anos depois. O Nicola foi essencial na produção dos desenhos desse edifício. Ele, o Francisco Casimiro e vários outros colegas, desenhistas, projetistas, que tinham um saber muito profundo.
Isso é bem interessante. Eu acho que quem está assistindo ou ouvindo esse bate-papo e se depara com uma história como essa, eu imagino uma nova geração como está se sentindo, porque você partir, de fato, de um papel em branco e sem tecnologia na época, e chegar no nível de projeto desse.
Você diz, olha, papel em branco é papel da angústia, né? Porque você... Pelo menos pra mim, como recém-formado, a ideia que eu tinha, a fantasia que eu tinha, é que, pegando papel, eu seria capaz de, em poucas horas, fazer um projeto. Aliás, o Mackenzie tinha uma sabedoria muito interessante. Eu tinha aulas com o Eduardo Corona, que, uma vez por semana, fazia projetos de três, quatro horas. Então você tinha que definir um tema e em quatro horas fazer um partido, definir. Isso era para você enfrentar a angústia e a dificuldade de projetar, porque você tinha que entregar, não era deixar você pensar dias e dias, era fazer a entrega. E o Corona dizia assim, olha, muitas vezes aquilo que você pensa em quatro horas será o projeto. Você pode elaborar depois, você pode trabalhar muito em cima, mas a primeira ideia, o primeiro movimento já está transformado em quase num projeto.
É o que vai dar o norte ali.
Vai dar o norte. E eu fico sempre muito preocupado como arquiteto, e tive a oportunidade de dar aulas no Mackenzie, de ver os jovens iniciando seus trabalhos com o computador na mesa. O computador é apenas um instrumento para você fazer as coisas, aliás, um excelente instrumento, cada vez melhor. Mas você trabalhar com a mão, com o croquis, com o desenvolvimento de detalhes, ele é a forma fundamental da reflexão e do pensamento. Nenhum equipamento substitui, nenhuma inteligência artificial substitui aquilo que você é capaz de criar na sua intimidade, com as suas mãos, com a sua cabeça, com o seu grafite.
Loeb, e como que foi, né? Todo, costumo dizer, até ouvindo grandes arquitetos, que o bom projeto já nasce sustentável. E o que você destacaria de sustentabilidade nesse projeto, falando de uma forma mais macro?
Bom, para começar, eu acho que o projeto serve gente, serve pessoas. Então, o conforto, o acesso, a proteção, a segurança e o prazer são elementos fundamentais da humanidade. Então, o projeto sustentável é um projeto que aborda essas questões. Agora, ele tem que ser sustentável do ponto de vista construtivo, para você ter o menos desperdício possível de materiais, menos restos, né? Que ele seja um projeto que pense na sua vida útil em relação à natureza, chuva, vento, ações corrosivas e, principalmente, para todo empresário, custo, né? Tempo e custo. Como é que você vai fazer um projeto que atenda as suas necessidades e o dinheiro que você tem disponível, no tempo e na qualidade e na manutenção que ele exige.
Para ser sustentável também precisa ser durável, né? E tem algum ponto que você gostaria de destacar nesse nosso bate-papo que eu esqueci, que eu deixei de perguntar para você?
Eu diria que é uma mensagem. Eu tenho, nesse mundo tão conturbado, de tantos conflitos, eu acho que a gente não deve deixar de investir na criatividade, na inovação, porque a base de tudo é o convívio. São as relações humanas, são as amizades, é o prazer, é o amor. Esses são os elementos que ficam. Os elementos que vêm depois, que são instrumentos muitas vezes mal utilizados, eles têm que ser pensados para que eles não criem um conflito e uma destruição de princípios e valores tão importantes, como é a poesia, como é a leitura, como é o amor, como é a natureza, como é a amizade. Acho fundamental que se preste atenção nisso, porque nenhuma eficiência trazida pela inteligência artificial, pelos elementos que hoje assolam nossa vida através da comunicação virtual, eles têm que ser cuidados, regulamentados para que não aconteça o que vem acontecendo no mundo e no nosso país nesse momento.
Diante dessa fala que você trouxe agora para a nossa audiência, eu gostaria até de chamar um pouco a atenção, principalmente, tudo bem não é o caso aqui da parte de engenharia, porque os arquitetos, no geral, eles se comunicam, eles mostram o que é feito, e aqui no nosso canal, no Construe o Queixo, eu gostaria muito de chamar a atenção dos engenheiros experientes que apareçam mais, que mostrem mais suas artes, suas obras, porque está vindo uma leva de profissionais um pouco inexperientes que não têm tanto a capacidade técnica, mas que tem capacidade de comunicação. E isso, de fato, tem me trazido aqui uma preocupação muito grande. Então, como que você vê isso, Loeb? Não sei se você entendeu a minha questão.
Eu entendi. Eu acho o seguinte, que o convívio com pessoas criativas e generosas é muito importante. Então, eu tenho trabalhado muito próximo aos arquitetos da ICOM. Arquitetos, não. Digo arquitetos porque eles são.
São arquitetos.
São arquitetos e são calculistas, como o Iopanã Rebelo, a Gisele, que tem uma abordagem humanística muito sensível, em que o diálogo para a elaboração do projeto é muito estreito. É muito diferente de eu fazer um projeto no escritório, praticamente definido, e trazer para o calculista e dizer, olha, calcula isso para mim. Eu não faço isso. Eu acho que a contribuição do diálogo com essas pessoas tão criativas, tão abertas para a inovação, é fundamental. E daí aparecem soluções.
Isso é um ponto importante.
Então, a figura do arquiteto sozinho que fica projetando coisas maravilhosas, claro, existem casos, mas, na história da arquitetura brasileira, os grandes arquitetos como Oscar Neymar e outros, o convívio deles com calculistas foi exemplar. Então, calculistas que às vezes são poetas, né? Que conhecem história, que conhecem a vida e o mundo. Então, sentar com o calculista e com o pessoal de iluminação, o pessoal de temperatura, ar-condicionado, eletricidade, é como se você estivesse trabalhando com uma orquestra.
Sim. É muito importante essa sua fala porque, de fato, um projeto, ele é... Imagina, tudo bem, você projetou ali, você teve aquela ideia e tudo mais, mas você teve ali, de repente, algum insight que alguém de fora acabou trazendo pra você e, sobretudo, aquela ideia, ela é execuível, de fato.
Sim, sim, muito, porque cada um tem um patrimônio e um conhecimento muito amplo da vida, não é? E você tem que aproveitar esse conhecimento e agregar na sua produção contribuições tão ricas, tão importantes.
Isso é importante. Agora, Loeb, no nosso podcast a gente tem o quadro Convidado com Vida, só que hoje eu não vou chamar o convidado convido eu vou te perguntar qual que é o próximo projeto que vamos fazer nesse formato do web isso me.
Dá muita satisfação poder falar desses projetos porque cada um deles tem uma história e eu espero que eles possam contribuir muito para pessoas que se interessam pela vida né e que de alguma forma a gente possa contribuir com esse conhecimento Então tem projetos assim, a visitação no Centro de Cultura Judaica, hoje o Nibis, a visitação na Mali, que é um centro de pesquisa e desenvolvimento de motores, a visita na SICPA, Você vai escolher.
Um e vai falar, o próximo já vai...
Eu espero que sejam muitos.
Não, vai ser vários então. Então vamos pegar a lista, mas de qualquer forma já tá feito o convite aqui. Eu tenho certeza que essa série será um sucesso e já tá... certo, vamos dar continuidade, fazer de cara esses três projetos, mas eu sei que virão mais, Lébi. Obrigado pela participação de novo aqui no podcast e eu tenho certeza que dessa forma a gente vai de fato plantando ali a sementinha da criatividade, porque a gente fala muito em tecnologia, tecnologia, tecnologia, mas Para chegar no nível de projeto desse, precisa ter sensibilidade, precisa ter vivência, precisa ter, enfim, tantas coisas que a tecnologia nunca vai chegar nesse nível de sensação, eu diria, que é o que a gente vive aqui nesse projeto.
Eu só acrescentaria que a gente fazer esse podcast na natura, na obra, É uma diferença enorme do que você ficar no escritório falando de algum projeto. É viver no momento, no espaço e no acontecimento. Parabéns.
Obrigado, Leandro. Obrigado e, de fato, fico muito feliz que deu certo e você que ficou até o final, coloca nos comentários o que você achou e lembra o comentário mais criativo do que você entendeu sobre esse bate-papo está concorrendo a um voo panorâmico na cidade de São Paulo ou, se você preferir, você pode vir aqui comigo de helicóptero visitar a fábrica da Natura de cima um abraço e até o nosso próximo encontro aqui no Constricast sensacional! E aí, Karina? Nossa, que bate papo gostoso!
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