Construção Industrializada | Podcast de Engenharia

Podcast interview (Portuguese) with Iria Doniak — civil engineer and ABICIC leader — tracing her career from PUC-PR and early work in concrete technology to industry roles (Votorantim) and institutional leadership (ABICIC, involvement with FIB). The episode explains the history and drivers of industrialized construction in Brazil (precast concrete adoption since the 1950s), technical distinctions (pré-moldado vs pré-fabricado, NBR 9062), barriers (taxation, workforce, financing), current enablers (programs like Construa Brasil, digitalization, new factories) and social topics (women in engineering, training, prizes and events).
Chapters
Construir, crescer, arquitetura, engenharia e construção. Sejam bem-vindos, está no ar mais um episódio do ConstriCast. E hoje eu tenho uma honra de receber uma mulher que tem uma história, uma trajetória de sucesso na construção civil. Ela é engenheira civil, atualmente ela está como presidente da ABICIC e vai conversar um pouquinho aqui sobre a trajetória dela na construção civil e, sobretudo, falar da industrialização na construção. Iria Doniak, seja bem-vinda ao nosso podcast.
Muito obrigada, é uma honra estar aqui com vocês, ter recebido esse convite. Eu estou à disposição de vocês para que a gente possa interagir em um tema que é tão relevante para a construção nacional, que é a industrialização.
Oi Iria, para iniciar nosso bate-papo eu queria que você falasse um pouquinho da sua trajetória na construção, como que você se enveredou aí para o mercado de engenharia. Eu sei que eu li um pouquinho sobre você, te conheço há bastante tempo e tem muita gente que acredita que não te conheça, então é bem importante para a gente para que a galera entenda o que a gente vai ouvir por aí.
Com certeza. Bem, eu decidi fazer engenharia civil, não por uma influência familiar, porque eu não tinha na minha família, nos meus ancestrais, a engenharia, mas eu Tinha muita dificuldade. Eu cresci em um colégio de freiras. Fui educada em um colégio de freiras. Aonde a educação era voltada, claro, para o ensino que precisava ser dado nas disciplinas como matemática, português, ciências, tudo isso. Mas se dava uma ênfase muito grande também há atividades que formassem a mulher como uma dona de casa. Fiz também, nesse processo, corte e costura, bordado e outras coisas que eram mais relevantes para essa área, onde se entendia que a mulher tinha que ter uma formação importante. Quando fui para o ensino médio, Eu fui para uma escola que tinha uma ênfase técnica muito grande. Ela tinha uma ênfase técnica em matemática, física, química, e a média era 8. Eu disse, e agora? O que eu vou fazer? Eu não vou conseguir uma média 8 nesse nível de exigência de questões que são tão técnicas. O meu irmão me ajudou muito com a parte de matemática. Comecei a gostar muito desta área, que era uma área mais técnica e não era uma área mais relacionada a humanas ou outras profissões. Isso me levou a fazer engenharia civil. Quando eu estava nos últimos anos da faculdade, nos últimos não, na metade da faculdade, no terceiro ano, eu já fui procurar, no início do terceiro, na metade do segundo ano do curso de engenharia, naquela época era anual, não era semestral, na PUC do Paraná era assim que funcionava. Eu busquei alguns escritórios, e consegui um estágio, acho que no final do segundo ano da faculdade, seria como se fosse o quarto período hoje, em uma empresa de projeto de saneamento hidráulico. E comecei a trabalhar ali, mas realmente não gostei. Não era aquilo que eu queria. E eu também dava aulas particulares, sabe? Eu tinha vários alunos de aulas particulares e aquilo que tinha acontecido comigo, eu queria de alguma maneira poder ser útil para outras pessoas que tinham algumas dificuldades de entender algumas coisas. Eu conheci uma família que tinha uma moça que estava tendo muita dificuldade em matemática e física. Eu fui ajudá-la nesse processo. Ela estava em uma situação bastante crítica para conseguir vencer os desafios que ela tinha naquele ano, e ela conseguiu vencer. O pai dela veio conversar comigo para agradecer e me perguntou o que ele poderia fazer por mim. Eu disse, olha, nada, vocês já me contrataram, eu já dei aula para a filha de vocês, já está tudo certo, eu tenho a felicidade de que ela foi bem. Ele me falou, olha, eu tenho um irmão que tem uma empresa de engenharia. E eu sei que você é engenheira civil. Você quer conhecer essa empresa?" Eu disse que seria ótimo, até porque faço estágio em uma área de projeto e sinto que não é a área que quero ficar na engenharia. E essa empresa era uma empresa de controle tecnológico de concreto. A principal empresa do Paraná, Bianco Tecnologia do Concreto. Funciona hoje ainda. Hoje tem a liderança do Mauro Bianco. Mas quem, na época, me contratou foi o pai dele, que não está vivo, doutor Dante Bianco. Eu tive uma conversa com o Dr. Dante Bianco, que era uma pessoa apaixonada pelo universo do concreto. Uma pessoa que tinha, à época, uma bagagem internacional enorme. Nesse primeiro contato com ele, tivemos uma sinergia muito grande. Fiquei maravilhada com tudo que ele me explicou sobre o material concreto, sobre a tecnologia, sobre todas essas questões. Ele me convidou para ir trabalhar como estagiária na Bianca. Então, ali começa o meu trabalho na área de concreto. Estamos falando de 1985, 1986, eu acho. O segundo ano da universidade é 1984, 1985, 1986. E ele também tinha muito relacionamento com a comunidade técnica internacional, com a CEI, que é o American Concrete Institute, com a própria FIB. Hoje eu sou vice-presidente da FIB.
Isso eu não sabia.
A FIB é a Federação Internacional de Concrete. Ela congrega 42 países. Eu recém vim de Lausanne, na Suíça, onde é a sede da federação, e a gente teve ali a reunião do conselho. Também estive fora por uma outra questão, que é um doutorado que estou fazendo, que não é engenharia, é em administração. Eu fiz um máster em Business Administration com a FGV, com ênfase em economia, com ênfase em relações institucionais e governamentais. Desse máster surgiu a oportunidade desse doutorado, que é com a Universidade de Bordeaux, na França. Eu iniciei esse programa de doutorado na área de administração. O meu tema de desenvolvimento da tese está relacionado com governança de entidades de terceiro setor. que é uma área onde, pós a minha militância na engenharia, tenho me dedicado e tenho entendido que é uma área muito importante, porque é a área onde está a liderança dos setores. É a área onde você, com uma bagagem técnica, um conhecimento técnico, pode exercer influência. e traçar diretrizes importantes e, principalmente, unir setores, unir a cadeia toda, o ecossistema da construção civil, ele precisa estar unido, porque se uma determinada entidade fala de uma maneira, a outra fala de outra, há muito ruído na comunicação, E você não consegue transmitir aquilo que realmente o público precisa saber para tomar decisões assertivas.
Esse ponto é muito importante, essa questão da união.
Isso é bastante relevante. A gente pode explorar um pouquinho mais à frente. Mas aí, passado esse trabalho, essa etapa, que foi uma etapa determinante para que eu ficasse na área de concreto. Eu já estava me formando e teve uma usina de concreto, que tinha 16 usinas, principalmente no sul do Brasil. um diretor técnico, o Jorge Aok, um engenheiro também de grande calibre na área de concreto, uma pessoa também maravilhosa. Existe uma frase que acho muito importante, falando de grandes mentores que me ajudaram a chegar até aqui, que se até aqui cheguei foi porque tive uma visão e me apoiei sobre o ombro de gigantes. Essa frase é de Isaac Newton. Eu tive a felicidade de sempre ter gigantes me conduzindo ao longo desse processo, pessoas que eu lembro com muito carinho. Algumas não estão mais aqui, outras estão. Eu fui trabalhar com o Jorge em uma usina de concreto, mas fazendo a parte técnica de controle operacional e técnico de todo o concreto que era fornecido pelas 16 centrais. Nisto, eu era uma consumidora de cimento importante, e a Votorantim, que tinha no Paraná. Eu sou curitibana, isso tudo se processa em Curitiba.
Conheço a fábrica, inclusive.
No Paraná. A Companhia de Cimento Portland Rio Branco, a Votorantim, me convida para ir trabalhar na Votorantim, para desenvolver um trabalho que estava relacionado com o mercado e, principalmente, com as três áreas que a Votorantim percebia que teriam um grande desenvolvimento no futuro. E essas áreas eram a pavimentação em concreto. Trabalhei com pavimento em concreto, inclusive depois, quando tive minha empresa de consultoria, fazendo alguns trabalhos de consultoria de controle tecnológico de algumas obras de pavimento rígido. Seriam as áreas que cresceriam muito. Na época, era a parte de alvenaria estrutural, desenvolvimento das argamassas industrializadas, o pavimento de concreto, pavimento rígido, e a pré-fabricação em concreto, a parte de industrialização em concreto. Nesta época, eu disse que tinha muito conhecimento de laboratório, de controle tecnológico, de como produzir o concreto, mas eu não conheço como funcionam as empresas de estruturas pré-fabricadas de concreto. Para desenvolver um trabalho nessa área, preciso conhecê-las. As principais delas, à época, estamos falando da década de 1980, estavam aqui em São Paulo. Eu vim, através da Votorantim, já trabalhando para a Votorantim e para São Paulo, para passar um período aqui em São Paulo e passar um período dentro dessas indústrias. E, na época, a maior parte delas não existe mais. Mas, na época, a própria Concídia era uma das empresas. A Munte era outra empresa. Rodrigues Lima era outra empresa. Reágua era outra empresa. Enfim, eu fiz um tour, mas não um tour de simplesmente visitar, mas de passar um tempo nessas empresas. E aí eu entendi o processo da pré-fabricação em concreto e nós tínhamos um diretor na Votorantim, na verdade, um superintendente, que depois acabou sendo o CEO da Votorantim Cimentos, que era o engenheiro Luiz Villar de Carvalho. Ele disse que a industrialização da construção, lá na frente, vai ser o futuro. Essa parte de pré-fabricação e desenvolvimento dos nossos produtos na indústria, desenvolvimento de tudo o que precisamos fazer pensando no futuro, isso está muito relacionado com a industrialização daqui a alguns anos, porque a industrialização vai crescer e vai ser muito importante para o desenvolvimento do país. Eu, então, começo a trabalhar em alguns programas de ampliar e desenvolver a questão do que era necessário para que houvesse um bom atendimento para essa área industrial. Começo a ter contato com muitas empresas de pré-fabricação em concreto. Fui visitar as empresas todas no sul, saber quem eram, onde estavam, o que precisavam, que tipo de apoio para crescer, para se desenvolver. Fui estudando muito esse mercado. Eu tinha um balizamento importante, que no âmbito internacional tinha o PCI, que é o Precast Concrete Institute americano. O PCI tinha muita informação de pré-fabricação. Aqui no Brasil, nós tínhamos poucas informações. Tínhamos grandes engenheiros que, vamos dizer, trouxeram o sistema para o Brasil no sentido de se dedicarem a que o sistema tivesse um desenvolvimento no Brasil. E aqui eu acho importante citar primeiro o professor Vasconcelos, que não está mais conosco, mas foi uma pessoa que implementou no Brasil as primeiras pistas de proteção em indústria. O professor José Zamarion Ferreira Diniz. O professor Vasconcelos tinha feito o doutorado dele na Alemanha. Tinha tido, na Alemanha, muito contato com a proteção. E vem de uma linha europeia. O Zamarion tinha estudado nos Estados Unidos. Tinha visto muita coisa de pré-fabricação lá. E os dois vêm para o Brasil. Isso a gente está falando do Vasconcelos, a gente está falando de década, final de década de 1950, década de 1960, o Zamarion um pouco depois. Mas eles vêm para o Brasil como engenheiros estruturais e como engenheiros integrais que eram, com uma visão de, não, nós precisamos levar a industrialização para o Brasil.
Tem que trazer muito conhecimento.
E tinham outras pessoas trabalhando depois, mais tarde, e que tinham conexão até com eles, que são importantes na história do pré-fabricado, que é o doutor Pedreira de Freitas, pai do Augusto Pedreira de Freitas, o doutor Antônio, que não era engenheiro civil, era arquiteto, mas tinha paixão por a questão habitacional e a questão de painéis relacionada. E os pioneiros da indústria. As primeiras indústrias que se estabeleceram aqui no país. Porque lá dentro da BICIC, da associação, nós temos três indústrias que já são sexagenárias. A gente vê, primeiro, que a prefabricação em concreto está no Brasil, desde o final dos anos 1950, quando as primeiras obras em pré-fabricado de concreto apareceram no país. É um sistema que já é consolidado e tem se mantido ao longo dos anos. no país devido a alguns movimentos que chamo de ondas. Primeiro, você vê quando o Brasil tinha uma perspectiva de crescimento muito grande lá nos anos 1970, o milagre brasileiro, e houveram muitos investimentos. Ali teve muito uso da industrialização em sistemas habitacionais. Os históricos registram isso. Depois, nós viemos para um outro tempo em que o país se abriu para as indústrias multinacionais. Então, vinham indústrias da Alemanha, dos Estados Unidos, de fora do Brasil. Queriam construir aqui no Brasil, chegavam aqui e diziam, não, não posso levar dois anos para construir minha fábrica. Lá na Alemanha, eu construo em seis meses. Então, isso deu ao pré-fabricado uma abertura grande. E aí o pré-fabricado começa a ser utilizado de uma forma intensa em obras industriais. Ficou até por um tempo rotulado com uma imagem de um produto que era para fazer caixote, porque obra industrial normalmente é um galpão grande. Depois tivemos até que fazer um trabalho junto aos arquitetos, tirando esta imagem de que o pré-fabricado poderia trazer uma imagem de rotular. Isso vinha um pouco, se você ler a história um pouco historicamente, havia uma correlação da ditadura com a padronização. Houve movimentos na área da arquitetura aversos a qualquer situação que você tivesse que padronizar, porque isso era meio relacionado à padronização com a ditadura. Então, se formos em questões conceituais, podemos aprofundar em outras questões. Mas a imagem era que, realmente, por ser um sistema padronizado, ele poderia tolher a arquitetura de usar mais. Isso já não existe mais. Isso já não existe mais e tem grandes arquitetos que já trabalhavam no ano 60 com a pré-fabricação e eram entusiastas da industrialização. E aqui o primeiro que eu vou citar é o próprio Oscar Niemeyer, porque a Universidade Nacional de Brasília é pré-fabricada de concreto. E aí teve o Oscar Niemeyer com o Lelé, que era um grande arquiteto também. Ambos implementaram. Eu tenho esses registros em vídeo que a universidade me deu. É muito interessante. Então... Foi bem interessante esse desenvolvimento. Então, final dos anos 1950, início dos anos 1960, tem também parte da construção do hipódromo da Gávea, que teve também elementos pré-fabricados de concreto. Depois, o que aconteceu? Pós esse período da indústria, começaram a vir para o Brasil as grandes redes de supermercados, hipermercados, Carrefour, Walmart. O Walmart, chegamos a ter que entregar a estrutura pronta, montada, em menos de 45 dias, porque, com 60 dias, as gôndolas já entravam para começar o abastecimento, terminava o fechamento da obra já com as gôndolas entrando. Então, eles estavam acostumados a vir desses países e ter um retorno rápido de investimento. Não posso levar para inaugurar uma loja dessas seis meses. Seis meses, para eles, soava como se fosse um absurdo. Depois, o que aconteceu? Teve um movimento, junto com esse de supermercados e hipermercados, das grandes redes de lojas, Marabrás, Casas Bahia, que precisavam de seus centros de distribuição e logística. Não se pensava em construir centros de distribuição e logística que não fossem industrializados, no caso, pré-fabricados de concreto. Por causa do tempo, e disso entrava também não só o pré-fabricado de concreto, mas entrava o pré-fabricado de concreto para estrutura, cobertura metálica, entrava muito de outros tipos de sistemas construtivos industrializados, na composição, algumas lojas até compostas com os dois produtos, com estrutura metálica, estrutura pré-fabricada de concreto. Então, foi um outro momento que impulsionou que essas indústrias, vamos dizer, sobrevivessem no Brasil, que não tinha, e aí já vou explicar porquê. mas o Brasil não tinha e não tem ainda uma proposta de industrializar efetivamente a construção civil no país. Então, essas indústrias todas sobreviviam em um meio onde não existia um incentivo, um desenvolvimento, mas existiam movimentos que aconteciam que faziam com que elas conseguissem se manter no mercado e desenvolver os seus produtos. aconteceu o próximo movimento, que foi justamente o crescimento das cidades. Primeiro as capitais, e aí vieram os grandes shopping centers. Os shopping centers também vinham de uma cultura de investidor que queria o retorno rápido do investimento. Não podemos levar tanto tempo para construir. Temos que ter a nossa construção bastante rápida. Então, mesmo que houvessem desafios na industrialização, que eu vou explicar esses desafios também para vocês, era possível viabilizar por conta do prazo, que é um dos principais destaques de qualquer sistema industrializado, é você conseguir ter muita velocidade de construção, reduzindo muito o prazo de execução, sem interferir na qualidade. Pelo contrário, a qualidade, por ser produzida em um ambiente industrial, mais controlado e tudo, existem vantagens em relação à qualidade. Então, esse binômio qualidade-agilidade sempre que existia uma obra em que esses requisitos eram importantes para o contratante, elas eram definidas por sistemas construtivos industrializados, e muito pela pré-fabricação em concreto nestes cases que citei para vocês. Aí vem a questão dos shopping centers, primeiro nas grandes capitais, e depois, movidos pelo agronegócio, no crescimento das cidades que estavam em regiões bastante ligadas ao agro. Você pega no estado do Paraná, por exemplo, Maringá, Londrina, o próprio Oeste, Guarapuava, Cascavel, que são regiões que se desenvolveram, principalmente pelo agro. Às vezes, o pessoal diz assim, mas o agro isso, o agro aquilo. O agro é importantíssimo porque a construção civil em algumas regiões se desenvolveu em função do resultado do agronegócio no país. Então hoje o agro e a construção civil são dois setores importantíssimos de desenvolvimento para o país.
Inclusive é um setor que usa muito a construção industrializada.
E também não só para o desenvolvimento das cidades, mas isso que você falou, porque existe toda uma indústria também que funciona ao redor do agronegócio, ligado à indústria alimentícia. E quando a gente fala em indústria alimentícia, não só a indústria alimentícia para o ser humano, mas a indústria alimentícia animal, porque tem toda uma composição, rações. Recentemente, nós ali no município de Porto Amazonas, um dos nossos associados construiu uma fábrica enorme. Foi uma estrutura pré-fabricada ali bastante interessante. Trouxe para vocês o nosso livro Coletânea de Obras Brasileiras, a segunda edição. A primeira esgotou. A primeira lançamos em 2008. E agora, no ano passado, quando a gente tinha a edição comemorativa de 20 anos da PSIC, nós lançamos, então, o segundo coletâneo de obras brasileiras. Então, nós trouxemos um exemplar de presente para vocês. Essa indústria que eu estou falando também, É uma indústria que vocês vão poder ver o projeto. Ele está classificado por tipos de projetos. E aí o que acontece? Nós tivemos, entre 2009 e 2013, o grande boom da construção civil. Eventos esportivos, Copa, Olimpíadas, PAC, aumento de infraestrutura, Minha Casa Minha Vida. Nesse período surgiu tudo isso. E aí? Como dar vazão a essa demanda? Como aumentar a produtividade? Como fazer com que os equipamentos esportivos cumprissem o seu cronograma? Não tinha outra forma. Precisa industrializar. Então, a industrialização começa a aparecer em setores que ela já atuava de uma forma mais modesta, não tão sob holofotes. mas ela passa a ter holofotes em cima dela, porque ela começa a viabilizar aeroportos, acessos, BRT, que sai um pouco desse nicho que eu te falei, que era um nicho do payback, do retorno rápido do investimento.
É mais consolidado já, né?
Isso. E aí vem, por uma necessidade do país em relação a algumas situações, de entregas. em que somente a industrialização conseguiria dar vazão a essas necessidades. A gente ouvia muito o governo falar em produtividade. Falando em produtividade, quando eu falei que essas indústrias sobreviveram devido a esses movimentos, mas que nunca houve no país um incentivo à industrialização da construção civil, A gente tem, historicamente, a Embrapa, que cumpriu o seu papel de uma forma exemplar e trouxe inovação, desenvolvimento e tecnologia no campo. Com isso, o que aconteceu? Houve uma evasão do campo para a cidade. Em algum lugar, a mão de obra precisava ser utilizada. E tinha-se uma ideia, que não é uma ideia correta, mas que o único lugar onde caberia rapidamente uma mão de obra, que não precisava de qualificação, era na construção civil. E aí a construção civil passa a ser responsável por isto, recebe isto e passa a trabalhar dessa maneira. Então, quais eram as duas implicações que faziam com que a construção convencional e ainda fazem com que a construção convencional se mantenha no Brasil? Você realmente não precisa ter uma qualificação tão grande de mão de obra. Você emprega essas pessoas. e a industrialização da construção acabou ficando à margem. Você vê que o agro se desenvolveu muito tecnologicamente, a indústria automobilística também, e a construção civil fica em uma situação que, primeiro, quando você produz na indústria, tem incidência de ICMS. Se você produz no canteiro, não. Se você produz no canteiro, só ISS. Então, você tem uma diferença tributária que incide sobre os sistemas construtivos industrializados. Entendi. Essa diferença tributária é uma primeira barreira para o desenvolvimento da industrialização. Hoje, por exemplo, em uma área que temos uma larga demanda, que é a parte habitacional e os programas habitacionais, o próprio Minha Casa Minha Vida, você tem a incidência de uma tributação maior. Isso faz com que, quando você executa essas obras no canteiro, você tenha um custo final menor. Uma outra questão que dificulta no habitacional é a questão do financiamento, porque você tem um financiamento de longo prazo, então não interessa você ter uma entrega em curtíssimo prazo. Há uma dualidade nessa questão do financiamento, que é uma outra questão cultural do nosso país. Você vê, por exemplo, demandas habitacionais estão existindo gigantescas, por exemplo, na Europa, por conta da imigração. A gente sabe que muitos movimentos sociais fizeram com que de vários países estejam chegando imigrantes na Europa. E eles precisam resolver rapidamente uma questão de moradia. Eles resolvem rapidamente essa questão de moradia, com a pré-fabricação em concreto. A gente visitou nas missões técnicas. A BICIC tem missões técnicas internacionais. Na penúltima missão técnica, a gente visitou Dinamarca, Finlândia, Holanda, Alemanha. Nesta missão, nós estivemos na Dinamarca, em uma empresa que tinha contrato para quatro anos fechado. Ela estava produzindo e tinha uma frente de produção de mais quatro anos só em projetos habitacionais na Dinamarca e que eram destinados justamente há programas de habitação. Então, sempre que você tem uma grande demanda, Ela normalmente vem por questões sociais, principalmente relacionadas com questões habitacionais, que é a grande necessidade, não só do Brasil, mas de várias partes do mundo. Isso vem do pós-guerra. O que aconteceu no pós-guerra? Por que a industrialização e, principalmente, a pré-fabricação em concreto teve tanta aplicação no pós-guerra? Você vinha de cidades inteiras destruídas. Você não tinha mão de obra, porque as pessoas também, muitos tinham morrido na guerra. Você faltava recursos humanos e faltava recursos materiais. Você precisava fazer muita coisa em pouco tempo, com pouco recurso. Como que eu consigo resolver essa equação? Então, teve uma grande adoção para muitas construções na Europa e ali se consolida a industrialização por conta dessa demanda.
E uma dúvida. Quando você fala dessa questão de impostos, quando você industrializa esse empreendimento, ele sai mais caro. E aquele tipo de solução construtiva, onde você está ali, por exemplo, construindo uma ponte, você tem todo o processo de formas que você produz aquelas estruturas em loco.
Deixa eu te explicar. Você pode produzir Nós temos duas terminologias. Nós temos uma terminologia que se é pré-fabricado, e essa terminologia tem origem na norma técnica. Na BNT NBR 9062, você pode ver um pouquinho melhor sobre isso. Mas você tem o pré-moldado, que é toda a estrutura produzida fora do local de uso definitivo. Você tem o pré-fabricado, que obrigatoriamente é uma estrutura produzida fora do uso definitivo. Porém, ela é produzida em um ambiente industrial. A norma define o que é um ambiente industrial. Não é porque eu tenho uma estrutura sendo produzida debaixo de um galpão, que é um ambiente industrial. Eu preciso ter mão de obra qualificada. Eu preciso ter condições de produzir um concreto de baixa variabilidade. Algumas questões que definem o que é uma indústria e isso é normalizado.
Entendi.
Certo? Então, qual é a nossa preocupação? O sistema você pode usar. Você pode ter um jogo de formas e produzir isso dentro de uma fábrica. E uma construtora pode comprar um jogo de formas e produzir isso lá no canteiro. A preocupação é que, e a norma, estabelece esses requisitos, é que essa estrutura atenda à norma. Porque, muitas vezes, a expertise da indústria não é vista nesse tipo de obra e aí você executar um pré-moldado sem conhecimento, você pode ter problemas sérios depois na execução.
É porque é como controlar isso.
Exatamente. Este é o ponto. Então, eu vou te dar um exemplo. Arena Corinthians. A Arena Corinthians tinha uma obra... Vou dizer que todos os estádios novos, praticamente todos, exceto o de Natal, tivemos o uso intenso de prefabricado de concreto. A Arena Corinthians, ela foi inteira neoquímica hoje, ela foi inteira pré-fabricada de concreto. A própria Arena do Palmeiras, aqui, também teve... Ela tem o fechamento todo, o envelopamento delas é metálico, mas a estrutura delas é pré-fabricada de concreto. Mas, se a gente pegar a Arena Corinthians como exemplo, porque eu acompanhei bastante a execução dessa obra, fiz algumas visitas durante, levei algumas pessoas de fora do Brasil, inclusive, visitar a obra. Você tinha peças que eram muito grandes, que eram conhecidas como viga jacaré, porque elas são dentadinhas assim. que são vigas que são colocadas nas arquibancadas para suportar os bancos que também são pré-fabricados de concreto, o apoio dos bancos, os degrais que são pré-fabricados de concreto. O que aconteceu? As vigas jacarés tinham um comprimento muito grande. Você imagina transportar uma viga jacaré daquelas no trânsito de São Paulo e no prazo que precisava executar a obra. Então, a própria indústria montou, no canteiro de obras, uma produção, mas similar com todos os controles e com todos os cuidados que tinha na indústria.
Ah, você inicia a operação lá na fábrica.
Tinha produção de pré-fabricado no canteiro e tinha produção de pré-fabricado na obra.
Entendi.
Na fábrica. Mas nas duas questões existia todo o controle técnico como se fosse na fábrica. Então, você pode lançar a mão de usar o sistema na obra, desde que você atenda todos os requisitos da norma, tome todos os cuidados necessários e saiba como fazer. Porque você imagina, você pega um pilar de 30 metros e você tem que sacar esse pilar de 30 metros do dia seguinte que ele está concretado. A quantidade de requisitos técnicos que você tem que cumprir para que ele resista a esses esforços, de ser lançado na forma, de ser transportado, a resistência que ele tem que ter, o que eu tenho que tomar cuidado com aquele concreto que está envolvido. Existe todo um cuidado diferente Critérios de produção, de controle de qualidade, requisitos de controle, que são diferentes do que você executar uma obra convencional. Então, se você quiser só usar o sistema para se beneficiar da agilidade e da rapidez, mas tratar o sistema como se fosse um sistema convencional, vai aparecer, seguramente, muitas patologias. porque ele é um sistema que funciona bem, desde que funcione corretamente, debaixo do que está especificado na norma. No pré-fabricado tem uma outra questão importante também, que não são os elementos, são as conexões, porque você tem que ter alguns elementos de conexão para conectar um pilar com uma viga que você montou. E esses elementos de conexão, eles precisam ter muito cuidado tanto na execução deles quanto na especificação deles. E aí você ter um bom projeto estrutural pode fazer toda a diferença, pode impactar inclusive Se você estiver com elementos inadequados, às vezes você diz assim, vou optar por esse elemento porque esse elemento de conexão é mais barato. Mas aí você tem uma dificuldade de executar essa conexão na obra que faz com que você tenha que ter um número de horas maior de guindaste para poder executar isso. Se o projetista não está atento a todos esses detalhes, tudo isso impacta no custo. Então, o que eu digo sempre é o seguinte, pré-moldar não é para amadores, nem na parte de projeto, nem na parte de execução, nem na parte de montagem. Requer, primeiro, que você cumpra rigorosamente as normas técnicas. Além de você cumprir rigorosamente as normas técnicas, que você tenha os produtos que são os produtos adequados e execute de uma forma também atendendo essas normas. Porque a norma, às vezes o pessoal diz assim, a norma é para quem está fazendo o projeto. Não. A norma tem o seguinte nome. É o seguinte nome. Projeto e execução de estruturas pré-moldadas de concreto. Então, você tem que tomar cuidado na parte de projeto e na parte de execução. Execução envolve produzir e envolve montar.
Maria, e uma curiosidade quando você fala da questão da qualificação desses profissionais que a construção civil acabou trazendo. Você tem aí essa questão da industrialização que requer uma mão de obra qualificada e a construção tradicional, sua vez, simplesmente está empregada ali numa construtora. Você que está no meio, no movimento, o que a indústria tem feito para ajudar na qualificação desses profissionais?
Veja, o que acontece? A construtora trabalha de uma determinada forma e algumas construtoras já têm buscado a industrialização. Eu ia entrar para você em uma outra fase, que é hoje a fase atual da industrialização. onde a industrialização está em vidência, porque nós estamos tendo duas questões bastante importantes, que o país vai ter que responder a essas demandas. A primeira delas, a questão de mão de obra, porque a construção civil já está vivenciando um outro apagão de mão de obra. Aquela mão de obra que existia, e que precisava ver o que fazia com a mão de obra, e que ela existia em grande quantidade, e que ela era barata, ela não existe mais. O jovem hoje não quer mais ser pedreiro. Ele tem muito acesso à tecnologia. Ele quer trabalhar de uma forma mais... técnica, ele quer mais tecnologia envolvida nos processos, ele não quer seguir a carreira do pai que estava lá na obra sentando o tijolo. Isso não é mais, com todo o acesso à informação que ele tem ao desenvolvimento tecnológico, isso já não é mais viável se pensar que vamos ter um grande contingente de pessoas trabalhando ali. E ali tem uma outra questão também, que é os próprios dados do nosso censo, do IBGE. A nossa população envelheceu. Eu agora, esses dias, estava lá na reunião do conselho da FIB, nesse outro trabalho do doutorado que eu te comentei, e eu fiquei assim... impactada com a quantidade de jovens brasileiros que vi trabalhando lá fora. Nós estamos tendo jovens com potencial. Não estamos mais falando de mão de obra operária, estamos falando de mão de obra intelectual, porque são jovens que estão trabalhando lá em hotéis, em restaurantes, em museus, buscando melhor qualidade de vida, buscando mais estabilidade, porque viram seus pais passando altos e baixos sempre, com mudanças de planos, economia, política e tudo isso. Eles buscam maior estabilidade e querem estudar. Eles vão para lá normalmente falando inglês e aprendem a língua local. francês, alemão, para se habilitarem a uma universidade e ficarem... Há hoje muita oferta chamada de países internacionais para empregos fora do Brasil. Esse é um outro ponto que eu entendo que se deveria ter muita atenção. porque vamos começar a experimentar cada vez mais, sentir cada vez mais de perto essa falta de mão de obra. Quando você não tem mais a mão de obra, ou tem pouca mão de obra, é claro, ela vai ficando mais cara, mais escassa. Dentro da própria indústria, vou dizer para você, a indústria tem níveis de automação. Ela pode ser mais ou menos automatizada. Dentro da indústria, eu posso ter processos menos automatizados ou mais automatizados. A própria indústria com essa escassez de mão de obra, ela vai automatizar mais.
Vai ser um processo natural.
É um processo natural. E as construtoras vão buscar mais a industrialização. não só através das fábricas, mas algumas empresas construtoras criando as suas próprias fábricas. Nós vamos ter agora um mercado onde a gente começa a ter novos entrantes. Não é aquele mercado que a gente conhecia, que a indústria fornece para X, Y, Z, para a construtora. A indústria vai continuar fornecendo, mas a necessidade de industrializá-la vai ser tão grande que as próprias indústrias, talvez, não consigam dar conta dessa demanda. Nós já estamos começando a ver, recentemente, semana passada, semana retrasada, inaugurado o Eco Parque, lá em Cascavel. Não sei se você chegou a ver essa notícia. É uma grande fábrica, talvez a maior do país. Eles chamam de fábrica de edifícios, com tecnologia alemã. É uma empresa, inclusive, associada da Psyche, que fornece equipamentos, que montou, que estruturou toda essa fábrica. É um projeto que o próprio investidor ele vai construir todo o empreendimento. A fábrica para produzir os edifícios é uma parte do projeto dele. Não é o fim, a fábrica em si. Entendeu? Então, nós vamos começar, neste mercado da industrialização, a experimentar as próprias construtoras, montando e desenvolvendo os seus próprios meios de industrializar.
Sabe que esse ponto que você falou agora para mim, é muito importante, até me acendeu um alerta. Eu fiz uma viagem agora, semana passada, de dez dias pelo Nordeste para conhecer soluções construtivas. Visitei condomínios de altíssimo padrão. e as coisas estão sendo ainda construídas da forma tradicional. Quando você vem para a indústria, aeroportos, pavimentações, essas coisas, você tem muito uso de industrialização, mas eu noto que a gente tem um caminho gigante para percorrer e quando você traz esse alerta da questão da mão de obra, é assim, unânime todo mundo. A minha obra está atrasada, não tem mão de obra. Tudo bem, as construtoras precisam testar, vai ser um processo automático. E para essa parte de residencial, você tem visto algum movimento?
Você tem algumas empresas. Esse movimento do Eco Parque é um movimento importante, é regionalizado, pontual, mas está ali, está acontecendo e vai servir de modelo para outras situações. Se pega, por exemplo, a construtora tenda. Ela também, usando vários sistemas, inclusive madeira. A madeira é um sistema construtivo industrializado que tem crescido também. Desenvolveu uma fábrica também para atender às suas demandas. Porque essa solução ainda é muito buscada e, às vezes, você ter uma produção por questões tributárias dentro, acontecendo dentro do próprio empreendimento. Isso também ajuda nessa questão tributária que a gente falou. Da mesma forma, a gente tem algumas indústrias nossas de pré-fabricado que, quando querem entrar no habitacional, têm que mudar o modelo de negócio. para ter todo o processo na mão, para evitar bitributação ou algumas situações tributárias, se fossem meramente fornecedoras de um empreendimento de terceiro, por exemplo.
Entendi.
Então, esse mercado, isso acontece muito no habitacional. Então, como a gente tem uma demanda muito grande, E, realmente, a questão da mão de obra é uma questão importante de ser evidenciada nesse momento. Então, isso vai induzir e vai fazer com que cada vez mais haja movimentos pró-industrialização. E esses movimentos vão vir não só da indústria, mas vão vir de frentes distintas. Isso inevitavelmente vai acontecer. Precisa acontecer. E nós temos uma outra demanda importante, que é dar respostas à neutralidade de carbono e às metas de 2030 e 2050. vai precisar sempre fazer mais com menos, vai precisar racionalizar. Para isso, precisa de um controle de qualidade muito forte, muito bem desenvolvido. Além de você ter um controle de qualidade bem estruturado, bem desenvolvido, você precisa lançar mão de outras tecnologias. Eu falei para você de novos entrantes, então vou falar para você agora também de novas tecnologias.
Eu ia te perguntar agora isso.
Para nós, na indústria, o que vai acontecer? Nós vamos ter que trabalhar com concretos cada vez mais, com maiores prestações, com maiores qualidades, com maior... Prestação, eu falei um termo aqui espanhol, me perdoem, que é prestaciones, que me veio na cabeça e não sei por que eu falei, mas que é o que eles usam para definir como desempenho, na verdade. A gente vai precisar trabalhar com concreto sempre de melhor desempenho e com menos volume de concreto dentro da indústria. Dentro da indústria vital, por exemplo, o concreto de ultra high performance, porque esse concreto vai trazer leveza às peças. Melhora a questão de emissão de carbono durante o transporte das peças. Se eu estiver trabalhando com peças mais leves, puder transportar mais peças por carga. puder ter guindastes com menor capacidade de carga fazendo a movimentação desses elementos. Então, para nós, os concretos que podem reduzir o peso dos elementos e podem fazer com que aquelas características que nós precisamos de resistência inicial serem atingidas para toda a movimentação das peças e tudo o que precisa para que a gente seja viável. Então, a gente vai caminhar sempre, a indústria caminha sempre, a indústria puxa a tecnologia de ponta.
E você tem algum case de alguma construção hoje no Brasil que foi utilizada esse tipo de solução?
Sim, a indústria hoje, nós fizemos uma pesquisa recente, você teve a oportunidade de estar lá conosco com a pesquisa sondagem que nós fazemos setorial com a Fundação Getúlio Vargas e uma das perguntas que nós temos na sondagem é justamente o quanto por cento da indústria está implantando já implantou ou considera implantar os concretos de ultra-high performance. E nós temos ali que 2,5% das empresas já estão trabalhando com esse material, não de uma forma ampla, mas em trabalhos específicos que requerem algumas exigências específicas. Um dos trabalhos onde foi utilizado o concreto de ultra-high performance foram as bases do Sirius, que é um projeto de altíssima tecnologia. Ele não é uma estrutura inteira pré-fabricada, mas nós tivemos uma participação importante da pré-fabricação. e a solução adotada para o nível de exigência que a obra requeria foi através do concreto de ultra-high performance. Então, é um material que uma parte importante, creio eu, se não estou enganada com o número, aproximadamente 35% ou 55%, não me lembro se era 35% ou 55%, já está com estudos para implementar esse material. Dentro da indústria, quando a gente tem um bom controle de qualidade, é fácil você implementar novas tecnologias, principalmente quando elas estão relacionadas ao concreto. Fácil, entre aspas, porque Tem custos altos, precisa viabilizar, mas o ambiente industrial sempre é mais fácil de você trabalhar e ambientar uma nova tecnologia do que você fazer isso diretamente no canteiro de obras.
Até por conta de condição, do próprio clima. Um dia está muito solto, outro dia está chovendo.
E os benefícios que a industrialização, independente de que tipo de concreto você vá usar, a gente já sabe que, por exemplo, dentro da indústria não tem desperdício. Dentro da indústria o ambiente é controlado. não tem a situação de que a forma teve um desnível e, então, consumiu mais concreto do que deveria. Não, é o que é, porque a gente trabalha com forma metálica, a maior parte. Às vezes, trabalha até com forma de madeira, mas de madeira de reflorestamento, certificada, tudo direitinho. mas para uma ou outra situação com muito controle, mas grande parte da indústria não trabalha. Também na obra você dispensa toda a parte de escoramento, porque não é necessário algumas etapas que a construção convencional tem. Mas você fez uma pergunta lá no começo que era como a indústria está qualificando a mão de obra a gente não tem acesso a qualificar a mão de obra nos canteiros de obras, certo? Sim. Mas quando essa mão de obra vem para a indústria, eu brinco, ela tem que passar por um processo de lavagem cerebral. Porque é uma mudança de mentalidade. Às vezes você sai, de uma empresa convencional trabalhando como pedreiro e você vem para dentro da indústria. Dentro da indústria não tem nem a nomenclatura pedreiro. Ele vai ser um auxiliar de produção ou montador. Então, até a nomenclatura toda das funções é diferente. Ele vai precisar começar a pensar diferente, assim como eu digo sempre para as construtoras. Não tente converter o convencional em industrializado. Esqueça o convencional e pense em um processo industrializado. Porque, se você tentar converter, você não vai adquirir todos os benefícios da industrialização. Você vai perder muito nesse processo de tentar converter. Então, você precisa mudar de mentalidade, olhar para a sua estrutura e ver como vai ser o seu modelo de negócio, considerando que você vai passar a industrializar a construção dentro da sua empresa. E ele vai ter um contingente de funcionários lá na obra, muito menor, porque, a partir do momento que ele está industrializando, ele vai ter que ter alguém que receba essa estrutura pronta lá na obra, alguém que gerencie a interface de outros processos que vão estar acontecendo simultaneamente na obra. E ele vai ter que estar mais preparado com o pessoal que está no canteiro, para receber uma obra industrializada. Porque, efetivamente, eles não vão executar tarefas de execução da obra lá no canteiro de obras. Porque já vai vir pronto. É como uma montadora. Você já vai recebendo pronto e vai fazendo a montagem dos elementos e tudo isso. Mas quem vai executar isso? No caso do pré-fabricado, normalmente a indústria tem Ela mesma monta a estrutura. Temos um percentual, alguns elementos, como laje alveolar, que chamamos de venda mercantil, que você vende a laje para a construtora. Mas isso é um percentual muito pequeno. Normalmente, o que fazemos é entregar a estrutura montada. Então, esse é um ponto. Agora, a construtora que decidir ela mesma executar as peças dela, o pré-fabricar e tudo, vai ter que ter uma atenção a toda a parte de montagem. E ela não vai poder pegar simplesmente o pessoal dela, que hoje é pedreiro, e dizer assim, olha, a partir de amanhã você é montador. Ele vai ter que passar por um processo de qualificação para que ele possa ser um montador.
Eu tenho uma pergunta que, na verdade, é um assunto muito recorrente quando a gente fala de industrialização. A industrialização elimina emprego?
Veja, eu diria para você que ela qualifica emprego. Considerando que hoje a gente tem menos mão de obra disponível, eu acho que... Acho não. Eu entendo que essa preocupação com eliminar emprego, só essa questão da falta de mão de obra vai fazer com que ela deixe de existir. Porque hoje nós estamos com falta de gente para trabalhar. Então, como é que nós vamos pensar em eliminar emprego? Nós estamos pensando em continuar executando a demanda atual, nos preparar para uma demanda maior com um contingente de pessoas menores. Bom, vai continuar tendo emprego na construção civil se tudo industrializar? Claro que vai continuar existindo emprego, mas um outro nível de emprego que vai colocar esse contingente de pessoas em uma situação de qualidade de vida melhor, inclusive, de treinamento, de tudo isso. Agora, o que eu acredito? Veja. Eu acredito muito se você considerar que você tem hoje aproximadamente 10%. A gente não tem esse número exato, mas nós vamos ter em breve. Mas se você considerar que 10% da construção no Brasil é industrializada, 90% é convencional. Se a industrialização crescer 20%, 30%, considerando a falta de mão de obra que tem, hoje no mercado, eu diria que essa questão do emprego não vai nem ser percebida.
Você tira do canteiro e leva para a indústria.
É uma questão. E na indústria você usa menos mão de obra. Você não tira tudo. Mas se hoje o canteiro já está com falta, ele está buscando quem contratar, O que eu acredito é que a gente vai ter um movimento de transição. Nós vamos ter empresas que vão dizer assim, não, eu vou mudar meu modelo de negócio e eu vou partir para a industrialização, eu vou me unir com as fábricas que já existem e eu vou desenvolver um processo. Existem construtoras fazendo isso. Você vai ter construtoras que vão dizer assim, olha, eu preciso industrializar, eu preciso melhorar a produtividade, eu preciso resolver essa questão da falta de mão de obra. Então, eu vou passar a industrializar determinadas etapas do meu processo, que também já tem várias construtoras fazendo isso. Por exemplo, a fachada, eu vou eliminar a mão de obra de fachada e vou trabalhar com painéis pré-fabricados de concreto, por exemplo. A estrutura é convencional e ele trabalha com painel de fachado. Ele já está eliminando uma etapa do processo, mas ele não está construindo 100% industrializado. Então, isso já existe e vai continuar existindo. E acho... e entendo que a construção convencional vai continuar existindo sempre, como existe nos países que são desenvolvidos. E ela também de uma maneira mais qualificada. Ela de uma maneira mais racionalizada.
Uma coisa puxa a outra.
Ela de uma maneira mais racionalizada. E a gente está falando aqui sempre de construtora, de indústria, de uma área que a gente tem um determinado controle. Mas, quando você pensa em Brasil, você tem 25% do país, talvez, se você pegar até a destinação, de cimento no país, você tem 25%, mais ou menos, isso a grosso modo, você tem mais ou menos 25% sendo destinado a mercados técnicos que envolvem construtoras, concreteiras, indústrias, e 75% via distribuidor, via loja de material de construção, que isso vai para a autoconstrução. E aí, na autoconstrução, não existe controle.
Não tem controle nenhum.
Então, nós temos no país, temos que ter isso em mente, que nós temos no país, principalmente quando a gente pensa em neutralidade de carbono, em net zero, em todas essas questões, você tem sempre uma questão envolvida relacionada a esta necessidade que o país tem de evolução. E, a partir do momento que houver esse crescimento da industrialização, esse movimento, menos mão de obra, maior qualificação e tudo isso, isso acaba também evoluindo no sentido de que novos produtos, novas tecnologias vão ter que surgir para dar resposta a esse outro lado da autoconstrução, novas soluções e tudo, a indústria de base precisa pensar nisso, no sentido de que a gente tem que resolver uma questão no país. Quando a gente vê, por exemplo, que o governo do estado de São Paulo já está com o processo de licitação, que é de obra industrializada, preocupado com baixa renda, da experiência que teve com o problema das chuvas que teve, que a industrializou, conseguiu entregar rapidamente aquelas casas. Talvez com esse movimento da industrialização, e isso atingindo mais as soluções industrializadas chegando mais à população de baixa renda, talvez todo esse movimento tenha um processo benéfico em relação a esse tema, que é um tema muito relevante, mundialmente relevante para o nosso país também. que é a questão da neutralidade de carbono e que a construção civil tem que dar respostas importantes também nesta questão.
E rápidas, porque está chegando 2030, está aí.
Exatamente. Então, nós temos duas questões importantes, resumindo, que a gente deveria pontuar. onde a industrialização tem um papel relevante e onde ela é protagonista, que é a questão da carência de mão de obra, falta de mão de obra. e na questão da neutralidade de carbono. Então, tem dois pontos importantes. Apesar dos desafios todos, que eu já te comentei, que nós temos para industrializar mais no país, eu entendo que os movimentos que estão existindo hoje para a industrialização, eles estão existindo porque a industrialização está em evidência e são muitos. Vou citar aqui para você, por exemplo, Construa Brasil. Construa Brasil foi um movimento que nasceu no governo anterior, dentro do Ministério da Economia. Ele tinha três eixos fundamentais. Desburocratização, digitalização e industrialização. Principalmente digitalização e industrialização caminham juntos. O governo atual manteve esse programa, hoje é abrigado no MDIC. E manteve o programa com o mesmo nome, Construa Brasil. O que eu entendo que foi muito inteligente, porque é um programa que, uma vez, deslanche dentro da MDIC, porque, na transição, algumas coisas ficam sendo analisadas, o que é normal, mas, uma vez que o programa deslanche, que a industrialização, que é um eixo que ainda não teve o foco que deveria ter dentro da divulgação do trabalho que foi feito ao longo de dois, três anos. Esse trabalho teve muito apoio das entidades que representam a industrialização da construção civil. no Brasil, a BICIC, a BICEN, que é da construção metálica, a BRAMAT, que é de materiais de construção, mas coordena esse trabalho todo do grupo de trabalho de industrialização, a Associação Drywall, essas entidades que são de um movimento pró-industrialização e que caminham juntas em defesa em apoio, eu diria nem em defesa, mas em apoio à industrialização da construção civil no Brasil, apoiadas por outras entidades, como a Cebic, como a própria Sobratema, a Brainc, as entidades que têm interface toda com o mercado da industrialização. Então, esse caminhar Ele precisa também ter agora um olhar dentro desses três eixos. A digitalização eu entendo que teve um foco bastante importante, porque precisava que o BIN tivesse uma política nacional e tivesse um encaminhamento e tudo isso. Mas a industrialização agora seria a próxima etapa e a próxima fase, onde tudo que foi trabalhado nesse contexto deste programa, que veio de um edital do governo e que foi mantido agora, que esse olhar para o eixo industrialização do programa tivesse o foco que é merecido e que pudéssemos dar andamento. Esse é um dos programas. A questão da industrialização no programa Construa Brasil. E existem outros movimentos que têm as entidades que já são consolidadas, que são essas entidades que comentei contigo. e até novas entidades que estão nascendo, falando em construção modular, falando em construção off-site. Afinal, o que nós fazemos é modular e é off-site. Mas, com o crescimento de novas tecnologias e novas informações, é natural que surjam outros movimentos que venham corroborar com a industrialização da construção civil no país.
Olha, nesse processo todo, eu tenho uma pergunta para te fazer, que eu não gostaria de deixar ela, enfim, sem aproveitar você aqui. Nesse processo todo de industrialização, você que está presente nessas fábricas e é uma pessoa muito ativa na industrialização, como que você está vendo o aumento das mulheres, principalmente dentro da fábrica. Como está esse movimento? Eu queria ouvir de você.
Veja, eu tinha comentado com você um pouquinho sobre a minha carreira lá no início e cheguei até a Votorantim. Deixe-me falar um pouquinho para você do pós-Votorantim e como eu cheguei na área institucional. E aí a gente pode abranger esse tema das mulheres. Eu, em uma determinada altura, depois de oito anos de votorantia, decidi ir para uma carreira de consultoria. Nessa carreira de consultoria, eu tinha tido também uma formação importante na área de qualidade, qualidade como processo, como gestão da qualidade, como ISO 9000, como auditoria, como todas essas questões. O que acontece? Eu vou para essa carreira solo e tenho muitas consultorias na área de industrialização, principalmente com a indústria do pré-fabricado. Tenho muito trabalho nessa área. Tenho muito trabalho também com a... com a questão de que isso... Eu já estou falando para você em 1999. Um grande movimento das construtoras buscando o ISO 9000. Como eu tinha formação também na área de qualidade, que isso aconteceu em paralelo dentro da Votorantim, Acabei atuando também como auditora subcontratada do BVQI, que era um organismo de certificação importante. Auditei construtoras pelo país inteiro. Construtoras e obras diversas no país inteiro, não só obras de edifícios, mas metrô no Rio de Janeiro, drenagem e dragagem da Lagoa da Pampulha, barragem do Castanhão, no Polígono das Secas, no Ceará. Eu viajei esse Brasil inteiro, vamos dizer assim, auditando obras e também fazendo esse trabalho de consultoria principalmente voltada para a indústria do pré-fabricado e da industrialização. Foi um período importante porque tive contato não só com Sul e Sudeste, que era a minha área de atuação maior, mas esse período das auditorias me possibilitou andar pelo Brasil inteiro e conhecer todas as realidades que temos de construção civil no país. Até que, em um dado momento, eu comecei a prestar algumas consultorias para a própria BICIC, que já tinha iniciado em 2001. Em 2008, fui convidada a vir para profissionalizar a associação e fazer um trabalho que eu pudesse trabalhar com o desenvolvimento setorial efetivamente. Apesar de eu já ter contato com a BICIC antes por consultoria e através de clientes meus que fundaram e que eram associados à BICIC, Eu percebo que havia um universo institucional, e o que me motivou a deixar a consultoria e mergulhar com profundidade foi que não seria mais para mim um trabalho. O que me motivou a ir para o meio institucional foi eu ter entendido que havia uma missão. Existe uma missão. Qual é essa missão? corroborar com a industrialização da construção civil brasileira e fortalecer um setor, que é o da pré-fabricação em concreto, que tem um protagonismo muito importante no país. Em paralelo a isso, eu tive muito contato com a FIB, que é a Federação Internacional do Concreto. A FIB tem um núcleo de pré-fabricação, que é a Comissão 6 de Pré-fabricados, onde tem experts em pré-fabricação de várias partes do mundo. Mas, com essa questão que eu fui desenvolvendo institucional e de relações institucionais e governamentais, Essa outra área que comecei a desenvolver por estar atuando e a me qualificar por estar atuando em um meio institucional despertou muito a minha atenção, não só a nível Brasil, como a nível internacional. Comecei simplesmente a estar disponível para alguns trabalhos que precisavam ser feitos. e fui conhecendo pessoas do mundo todo. Acabei participando do conselho da FIB, já desde 2015. Mais recentemente, vice-presidente. Dependendo dos resultados da assembleia que vai se realizar agora no final do ano na Nova Zelândia. eu devo culpar ser a primeira mulher a ser presidente da Federação Internacional do Concreto.
E eu estou na torcida já.
Uma federação... Muito obrigada. Uma federação que tem um trabalho voluntário gigantesco. de levar informações sobre o concreto, não só industrializado, mas de todas as formas do concreto para o mundo inteiro. Como te falei, ela congrega mais de 40 países. e com um desafio muito grande nesse processo. Vejo, além de ser um ambiente sempre muito masculino, um ambiente internacional com uma participação europeia forte. Eu sou latino-americana, sou brasileira, sou mulher. Isso me fez ver que, primeiro, quando o trabalho é feito com ética, com posicionamento, eu acho que a mulher tem muitos desafios. Mas a mulher também precisa saber se posicionar. Precisa ter um posicionamento. Eu não gosto muito, quando vamos por um lado, de buscar uma exclusividade feminina. Eu gosto muito da integração. Eu gosto da diversidade, mas gosto dela integrada. Nós somos uma equipe. Não importa se eu sou mulher e se você é homem. Nós somos, acima de tudo, uma equipe. E nós temos que desempenhar corretamente. A partir do momento em que eu me posiciono, não como eu tenho, por ser mulher, a necessidade de estar aqui. E o fato de eu ser mulher começa a ser a coisa mais importante que tem nessa situação. Eu tiro essa diferença.
Faz todo sentido.
Para mim, o que importa é eu trabalhar de uma maneira correta, de uma maneira digna, de uma maneira ética e eu me posicionar corretamente. Então, eu entendo que existem desafios que precisam ser vencidos. seguramente, porque sabemos que existem resistências em relação à mulher trabalhar em determinadas áreas. Tem uma máxima que diz que a mulher deve estar onde ela quer estar, porque o mundo está aberto. É importante que haja essa abertura do mundo. É importante que haja o respeito. Se você percebe que um determinado ambiente falta com respeito, isso é bastante complicado. Você precisa lidar com essa situação. Como você lida com essa situação? Tendo um posicionamento. Tendo uma maneira de proceder. Eu, na verdade, não estou ali para ser percebida como mulher. Porque, às vezes, você quer... Não, eu tenho que ser percebida como mulher porque sou mulher e estou aqui. Não, eu penso um pouco diferente. Eu preciso ser percebida como um membro daquela equipe que vai trazer resultado e trabalhar com eles normalmente. Talvez eu tenha algumas dificuldades para ser aceita, que eu vou precisar vencer, mas eu vou trabalhar para vencer essas dificuldades, mas não trazendo o foco sobre essas diferenças. mas, sim, buscando sempre uma integração. Até o ponto em que estamos trabalhando juntos e não importa quem é homem, quem é mulher ou quem tem as suas outras situações. Importa que a gente consiga trabalhar juntos e que a gente consiga desempenhar, que a diversidade está presente e que a gente pode dentro de toda a diversidade e fazer um bom ambiente de trabalho acontecer.
É ser percebida pelo êxito da função que está existindo.
E, às vezes, nem buscando esse êxito. Esse êxito precisa ser uma consequência natural de você ter desempenhado um bom trabalho. Você não trabalha para fazer isso, porque, se fizer isso, vai chegar a ser presidente. Isso é uma questão muito minha, particularmente. Você perguntou a minha opinião.
Mas é uma coisa que eu acredito também.
E como eu cheguei aqui? O que eu faço, na verdade? Não, eu tenho uma meta e eu preciso trazer um resultado. Eu, particularmente e pessoalmente, nunca pensei em trazer um resultado. Eu sempre pensei em trazer um resultado um pouquinho maior do que a meta que estava proposta. Isso é uma questão minha também. Se eu trabalhar para alcançar um resultado melhor do que o que está proposto, isso me dá satisfação. Em primeiro lugar, eu me sinto satisfeita com isso. Ao eu me sentir satisfeita por ter alcançado esse resultado, esse resultado vai ter, evidentemente, uma consequência de uma percepção desse resultado. E eu tenho que buscar trazer esse valor para aquele processo onde eu estou inserida. Se, ao eu trazer esse valor para o processo que estou inserida, isso é aceito, eu automaticamente sou aceita.
Processo natural, né?
Ah, mas daí, porque você é mulher, você vai ter mais desafios, porque não vão acreditar em você, porque não vão fazer e tal. Sabe, a gente não pode valorizar demais essas questões. Porque quanto mais valor você dá para elas, mais elas crescem no processo. Se você não valoriza tanto isso e segue nos seus princípios, trabalhando, fazendo o que você precisa fazer, você Uma hora você vê que você está desempenhando bem. Ao você estar desempenhando bem, o seu valor pode ser percebido ou pode não ser percebido. E aí existem as desigualdades. Porque o salário do homem é maior ou da mulher é menor. porque se acha que a mulher tem menos produtividade, por isso, por aquilo. Bom, aí é um trabalho que a gente precisa fazer de uma maneira institucional e não eu pessoalmente tentando provar isso. Sim. Então, eu entendo muito que a mulher... Primeiro, a mulher tem a posição importante dentro da sociedade. Todos nós, como seres humanos, temos. Precisamos ser respeitados. Precisamos acreditar na integração e que, nessa integração, se busque o melhor resultado coletivo. Porque, em primeiro lugar, está um resultado coletivo. Você não pode pensar muito em você, você, você, você, você. Você tem que pensar hoje muito no resultado da sua equipe. Como sua equipe desempenhou. Todo mundo está bem? Principalmente como gestor. Você tem que saber se todos da sua equipe estão alinhados, estão bem, estão desempenhando bem, se tudo está atendido. E aí você consegue ir equilibrando as coisas. E existem algumas questões, principalmente quando você está em um universo internacional, que são mais difíceis de lidar um pouco, que são questões culturais. de países que têm muitas restrições à mulher, mas que essas mulheres estão ali, são pesquisadoras, estão nas universidades, estão produzindo. E começa a aparecer todo esse trabalho delas. E elas estão ali, escondidas, fazendo todo esse trabalho. Nem podem se mostrar muito por questões culturais. Quando temos questão cultural, precisamos aprender a respeitar a questão cultural. Você não pode ir lá querendo destruir uma questão cultural. Você tem que entender a questão cultural, e ver como você pode promover essa integração de uma forma que não agrida aquela cultura. E, quando você vê, a cultura está entendendo que precisa fazer parte do processo, que precisa integrar. Eu acredito muito, e isso vem muito pelo respeito. Eu não posso me levantar contra alguma coisa. Eu tenho que entender como aquilo funciona, tenho que entender quais são os paradigmas, qual seria um razoável disso funcionar em conjunto, como fazer para essa integração acontecer e ter um posicionamento sempre muito ético e, principalmente, demonstrar que você tem uma posição.
Maria, eu queria aproveitar esse momento para pedir para que você deixe, estamos no mês de março, pedir para você deixar uma mensagem para as mulheres.
Eu gostaria de incentivar que todas as mulheres, por eu ser engenheira civil, que todas as mulheres que desejam e que participam e que trabalham na engenharia, primeiro, Eu gostaria que elas alcançassem êxito nos seus processos, alcançassem êxito no seu trabalho. E sempre que elas conseguissem ser realizadas na dimensão integral da vida, não só profissionalmente, mas com suas famílias. Que houvesse um progresso sempre nas suas carreiras. e que nunca deixassem de acreditar que é possível. E sempre mantenham um posicionamento baseado nos princípios, baseado nos valores e, principalmente, com respeito. E eu entendo que, dessa maneira, vocês vão alcançar tudo aquilo que vocês desejam na carreira e, principalmente, aquelas que querem se dedicar ao ramo das engenharias, que tem crescido cada vez mais a participação das mulheres. E que todas as mulheres, aquelas que estão em evidência, aquelas que estão trabalhando, aquelas que estão tendo dificuldades, às vezes, para se colocar no mercado de trabalho, mas eu desejo que todas as mulheres tenham uma oportunidade e principalmente neste dia da mulher que todas as mulheres possam ser felizes.
Muito bem, agora eu queria te perguntar, a gente precisava de mais tempo para esse podcast, eu queria te perguntar, agora a gente tem um quadro Convidado com Vida, eu gostaria de saber quem você gostaria de ver aqui no ConstraeCast?
Augusto Pedreira de Freitas.
Por quê?
O Augusto Pedreira de Freitas é uma pessoa que tem... é um projetista de estruturas. Nós falamos aqui em valorizar a engenharia. Falamos da questão... Acho que não chegamos a falar durante o podcast, mas na nossa conversa inicial, antes da abertura, nós chegamos a falar sobre arquitetura e engenharia.
Eu ia perguntar, era a minha próxima pergunta agora.
Chegamos a falar da importância deste tema. Chegamos a falar da importância da interface da arquitetura com a engenharia para o desenvolvimento da industrialização. E chegamos a falar também, falamos praticamente sobre industrialização. Então, eu entendo que é uma pessoa que poderá vir aqui, poderá contribuir com o tema da industrialização, poderá contribuir com esse tema da engenharia, da arquitetura e das suas interfaces. E é uma pessoa que tem tido uma visão importante da evolução da industrialização no país. Eu gostaria de deixar essa sugestão em relação a um engenheiro. E, se você me permitir, posso deixar uma sugestão em relação a um arquiteto e a um construtor na mesma linha. Por favor. Recentemente, tivemos um painel que aconteceu na Hill Summit sobre industrialização. E, nesse painel, além da pré-fabricação, que eu fiz esse papel, nós tínhamos também uma indústria de pré-fabricado participando do painel. Mas, dentro da linha que você comentou de ter um engenheiro e um... um engenheiro e um arquiteto. Participou conosco, lá desse painel, o arquiteto Jaime Lago.
Já esteve aqui, inclusive.
Então, já esteve com vocês. Um outro arquiteto que eu gostaria muito de ver aqui com vocês e que falaria muito da industrialização, não só dos anos atuais, mas desde os anos 60, entusiasta da industrialização, o Sidônio Porto, que seria um outro convidado bastante interessante que vocês poderiam ter aqui, e de um construtor. O diretor da Lúcio, que é o engenheiro Roberto Clar, que recentemente teve experiências com a industrialização da construção civil bastante importantes e poderia trazer o tema da industrialização desde a perspectiva do lado do construtor. Porque acho importante esse painel que fizemos ali na Hill Summit. Ele trouxe a visão da industrialização de todos os ângulos, da engenharia, da arquitetura e do construtor.
Muito interessante.
Esse painel trouxe essa visão. E são pessoas que eu entendo que contribuiriam muito Quando organizei o painel, essas pessoas foram convidadas. E são pessoas que contribuiriam muito para o desenvolvimento desse tema da industrialização. Porque são pessoas que têm se dedicado a esse tema, têm trabalhado nesse tema e têm tido resultados importantes. e que poderiam compartilhar as suas visões corroborando sempre para que a industrialização caminhasse a passos largos e que ela tenha realmente o crescimento tão desejado e que o país entenda a importância da industrialização, da construção civil como o desenvolvimento do nosso país mesmo. A construção civil não pode ficar à margem como ela ficou. Ela precisa ter um destaque por inovação, por desenvolvimento tecnológico, por mais qualidade de vida para os próprios envolvidos no processo e no ato de construir, e o Brasil precisa impulsionar esse movimento da industrialização da construção civil.
Por falar em impulsionar, eu queria que você falasse um pouquinho do prêmio, como que funciona, que a gente defende muito essa união da construção civil, enfim.
A Abcic tem o Prêmio Obra do Ano e o Prêmio Obra do Ano foi estruturado para que aquelas obras realizadas em um determinado período pudessem ter evidência, pudessem se apresentar para esse prêmio, que tem um júri bastante qualificado. Nós temos como júri o presidente da Sobratema, que é o Afonso Mamed. A Sobratema trabalha muito com a parte de logística e equipamentos, que é fundamental para o nosso processo de construção industrializada. O Paulo Euler também, que é um dos diretores da Sobratema, membro do conselho, também com grande experiência em engenharia e da revista Grandes Construções. Eles olham mais essa parte de processo construtivo. O Dr. Roberto Bauer. Dr. Roberto Bauer é outra pessoa interessante para você ter aqui.
Vamos trazê-lo, sim. Está na nossa lista.
E com grande experiência principalmente na área de qualidade das construções, então ele olha mais esses temas. O professor Munir Kalil Eudebs, que tem grande experiência na área de engenharia estrutural, de ensino na academia, então ele está mais relacionado a essas questões. Temos o Paulo Fonseca de Campos, que é professor, arquiteto. Também outra pessoa bastante interessante, relevante. Uma pessoa que, desde o ponto de vista da arquitetura, hoje é mais voltada ao ensino, mas atuou muito com construção industrializada. Outra pessoa interessante de entrevistar seria, com certeza, Então, nós temos um júri robusto, independente, que avalia essas obras. E temos a coordenação técnica do prêmio, que é quem nos ajuda na psique a classificar as obras. a encaminhar todo esse material para o júri analisar, que é o Rodrigo Nunberg, que é mais voltado à área de software, é um dos diretores da TQS Informática. Então, essa parte de software é importante também, principalmente hoje com o BIM e outras questões envolvidas. Então, esse prêmio concede o reconhecimento a empresa que produziu aqueles elementos pré-fabricados, o engenheiro da estrutura e o arquiteto também. Por que, além da empresa construtora, nós incluímos a engenharia e a arquitetura? Porque é impossível industrializar sem um bom projeto. E um bom projeto tem que ter beleza, estética, função, critérios de arquitetura bem definidos, mas ele também precisa ter uma estrutura é bem projetada. A gente falou das ligações, das conexões na nossa entrevista, da importância, do peso que isso tem, do impacto que pode ter no custo de execução da obra. Então, decisões, desde o ponto de vista estrutural, precisam estar bem sedimentadas, bem corretas. E a integração e a interface entre a arquitetura e a estrutura precisa também ser consolidada. Isso precisa nascer sempre quando um projeto nasce em conjunto ou é desenvolvido em conjunto. A gente vê que o reflexo e o êxito que isso tem na obra final é muito melhor do que aqueles projetos em que acontecem separadamente. Então, a gente até tem um lema dentro do próprio prêmio, porque, afinal, a arquitetura e a estrutura caminham juntas.
É bem interessante. Oi, e aí uma última pergunta. Antes prometo agora a última. Como você enxerga... Estou à disposição de vocês. Como você enxerga o papel do ConstructCast que vem para unir todo o setor de construção, arquitetura e engenharia e promover ideias e soluções para o mercado?
Veja, eu acho que a divulgação, a difusão de uma informação qualificada, ela é sempre importante, porque a desinformação... Eu gosto muito de um versículo que tem na Bíblia, que diz assim, esse versículo está em Oséias, e ele diz assim, o meu povo perece porque lhe falta o conhecimento. Quando falta o conhecimento, é o maior problema, porque decisões são tomadas erradas, diretrizes são desvirtuadas. O conhecimento é algo fundamental. Por que citei a Bíblia? Porque o conhecimento é fundamental desde os primórdios da humanidade. Então, sempre quando a gente tem um veículo que se propõe a levar informação qualificada, a trabalhar de uma maneira séria, consistente, separando muitas vezes algumas questões que querem se dar ênfase por uma questão de marketing ou tem alguma... questão comercial envolvida ou isso tudo. Isso é importante também, faz parte do dia a dia, faz parte do nosso negócio, mas nós temos que tomar muito cuidado, porque eu digo isso muito entre as entidades, às vezes. A gente faz parte de alguns grupos que têm entidades, várias entidades participando desses grupos. Então, eu tenho falado sempre, vamos unificar o discurso Por exemplo, o próprio tema de industrialização. Se cada um que defende a industrialização só puxar para o seu lado ou querer defender, por exemplo, o seu sistema. Estou aqui falando de pré-fabricação em concreto. Mas a pré-fabricação em concreto pode ser utilizada de forma isolada ou ela pode ser utilizada em conjunto com outros sistemas construtivos. e a construção convencional não vai desaparecer e ela pode ser utilizada também em conjunto com pré-fabricação em concreto. Posso ter um grande mix de sistemas construtivos. Então, eu não quero desconstruir nenhum outro sistema, quando eu enfatizo os benefícios da pré-fabricação em concreto. Pelo contrário, eu acho que, se os sistemas estiverem sendo usados, cada um na sua melhor função, e cada um escolhido melhor, ou mix, ou individualmente, da melhor forma para aquele tipo de obra, nós vamos estar contribuindo com o tema, inclusive, da sustentabilidade. Então, primeiro, nós não podemos entrar em um discurso de desconstrução de nenhum sistema construtivo, porque nós estamos falando da industrialização. Como eu te falei, nós temos 90% e, dentro desses 90%, muita coisa vai acontecer. Já tem acontecido e ainda vai acontecer. Então, o nosso discurso precisa ser correto para a finalidade que ele precisa atingir, E tem que ser um discurso, não o discurso da ABSIC, da ABSEN. Ele tem que ser o discurso do que nós precisamos para melhorar a construção civil brasileira. Então, ele tem que ser um discurso correto. E tem que ser igual, porque se eu tenho um discurso com algumas variações conceituais de como cada um tem essa percepção, mas ele precisa ser o mesmo discurso. Porque se amanhã ou depois chega alguém aqui para você e fala sobre a industrialização diferente do caminho que precisa ser tomado, ou querendo enfatizar alguma situação A ou B, sabe? Isso desvirtua a comunicação que vai chegar lá para quem está nos ouvindo, para os nossos ouvintes.
É falar de união, não é?
É. Nós temos no país muitos desafios. Temos no país muitos desafios em áreas diversas. E precisamos contribuir sempre Independente de qualquer questão envolvida, nós, como engenheiros, como parte desse processo, precisamos dar a nossa contribuição de forma positiva. Então, poder estar aqui com vocês, poder dar determinadas informações para quem está nos ouvindo sobre o processo de industrialização de construção civil no país, para nós é um prazer. Foi muito importante estar aqui contigo, Paulo, com a sua equipe. Desejo que esse seu trabalho avance ainda mais, porque ele tem uma grande importância e relevância na construção civil. E, se você me permite, nós temos uma novidade este ano, que é a integração das entidades que representam a construção industrializada dentro de uma feira, que é a Modern Construction Show, que vai acontecer em outubro deste ano, na EMBI. e a primeira edição da feira, onde, principalmente, nós vamos estar enfatizando todo esse, podemos dizer assim, esse universo da construção civil e da construção mais voltada para a industrialização, o universo específico da industrialização, da construção civil, melhor dizendo. e cujo objetivo é poder trazer conteúdo qualificado, debates importantes, painéis relacionados à industrialização da construção civil e apresentar também quem são os diversos atores que atuam no ecossistema da industrialização. Então, eu queria deixar aqui um convite a todos que puderem participar desse evento e puderem estar lá conosco e com as entidades que apoiam e que co-realizam a Modern Construction Show para esse evento.
Inclusive, na minha visita pelo Nordeste, já convidei alguns empresários de lá e eles estarão presentes. Já fiz alguns convites. Quem tiver mais curiosidade para saber mais sobre a feira, o link está na descrição das plataformas de áudio e de vídeo. Iria, obrigado mais uma vez. Foi um prazer enorme receber você aqui. Eu que agradeço.
Então tá bom.
É isso, gente. Tenho certeza que agregou demais. Então, um abraço e até o nosso próximo encontro aqui no Constricash.
Da fundação aos caminhos da inovação e da união construi, creche, arquitetura, engenharia e construção.
More from Andre

Construção Industrializada no Setor Público: Desafios e Inovação em SP | Marcos Monteiro (SIURB)

Mestre de Obras Merecem Reconhecimento e Nós Valorizamos | Podcast | Construção | Engenharia

Muitos Cursos On-line São Divulgados na Internet | Obra se Aprende na Prática | Podcast

Tenha Cuidado Redobrado na Hora de Comprar um Apartamento | Podcast | Construção | Arquitetura

Quanto Ganha um Ajudante de Pedreiro na Construção Civil? Fala do Mestre de Obras Glaudio | Podcast

O Erro na Reforma Tributária que Pode Custar MILHÕES à Sua Empresa | Podcast #202

Valorização Profissional na Construção Civil | Podcast | Engenharia | Arquitetura #obra

Método CHAMA Gravado Com o Engenheiro Boutros Bichara | Pessoas Negativas | Paulo Barros #podcast

Assista ao Vídeo do Roberto Justos Sobre Caso Daniel Vorcaro do Banco Master | Podcast | Construção

AI FIRST #2 . André Abucham e Lauro Fiuza - Os desafios intrageracionais dentro e fora das empresas

Vidro NÃO É Tudo Igual! Descubra o Erro Que Pode Destruir Seu Projeto | Podcast | Arquitetura