Engenharia de Fachadas na Construção Civil: Gestão de Obras e Grandes Projetos | Dirceu Grecco

This content was created by Andre Abucham. This content was uploaded by Andre Abucham. This is a Portuguese YouTube episode titled "Engenharia de Fachadas na Construção Civil: Gestão de Obras e Grandes Projetos | Dirceu Grecco" (posted 2026-02-26) from the ConstrueCast. It is a hosted interview-style conversation between Paulo (host) and guest Dirceu Grecco. Dirceu recounts his career path (technical school → CAD/designer → Gafisa → partner at Constata), discusses façade engineering and execution (logistics, fast schedules, materials like argamassas and cerâmicas, concrete aparente), challenges on large projects (Ilha Pura/Vila dos Atletas, Edifício Matarazzo, MASP), workforce management (training, retention, downsizing after 2015, forming new workers), and industry recommendations (need to invest in training, balance quality vs. cost, attention to human/motivational aspects).
Chapters
Sejam bem-vindos a mais um episódio aqui no ConstrueCast. Hoje o tema é engenharia de fachadas e gestão de mão de obra.
Este
episódio é um oferecimento hub e construção. Para falar sobre o assunto, eu recebo Dirceu, que tem uma longa trajetória no mercado de construção civil e é um empreiteiro muito respeitado em São Paulo e no Brasil. Dirceu, seja bem-vindo, é uma honra receber você aqui.
Muito obrigado pelo convite e estou à disposição, vamos lá.
Vamos lá. Para a gente iniciar o bate-papo, eu queria entender como que você entra na construção civil. Pode contar um pouquinho aí da sua trajetória.
Eu comecei, na verdade, fazendo colegial técnico. Tinha um amigo meu de infância que começou a estudar na Escola Técnica Federal e eu sempre tive esse lado pra exatas. Sou filho de uma professora de matemática, E sempre me dei muito bem com exatas. Então, a engenharia já fazia sentido. Ele estudava na Federal e eu falava muito bem e eu quis estudar lá. E aí, na escolha de cursos, de qual lado ir, eu gostei de edificações. Então, inicialmente, eu fui fazer técnico em edificações e depois a engenharia civil virou um caminho natural pra mim.
E aí, onde que você, como foi a primeira empresa que você trabalhou, por quanto tempo?
Como engenheiro ou como técnico?
como engenheiro, né? Já não pode ser como técnico, enfim, já no mercado mesmo, a sua entrada, de fato, na construção civil.
A minha entrada na construção civil foi como técnico. Inicialmente, eu trabalhei em algumas empresas de projeto como desenhista. Comecei como desenhista no Vegetal, ali, com Nankin, Aranha. Depois, quando surgiu o CAD, eu aprendi o CAD e virei um CADista. Trabalhei em algumas empresas, a última era uma empresa de saneamento. Era uma empresa que fazia estação de tratamento de esgoto. Eu tinha um bom salário e comecei a estudar engenharia civil no Mackenzie. Nos primeiros anos, tive a oportunidade de largar minha profissão de desenhista, e eu ganhava bem, para ganhar três ou quatro vezes menos como estagiário de engenharia numa grande construtora.
Que legal. Ele estava feliz e trouxe felicidade.
Foi um processo meio complicado, porque se abrir mão de dinheiro nunca é fácil.
Quando você consegue unir os dois, beleza.
Mas não era o caso. Então, eu dei esse passo para trás, fui trabalhar com obra e ali eu me encontrei muito mais do que como desenhista. Então, a obra abriu um outro horizonte para mim. E aí eu fui estagiário até me formar nessa mesma empresa, que foi a Gafisa. Aí eu me formei lá e continuei trabalhando como engenheiro de obra aproximadamente por nove anos, de estagiário até sair da Gafisa. Aí tive uma passagem para uma outra construtora, não deu muito certo, e aí recebi esse convite para trabalhar numa empreiteira.
E a sua passagem pela Gafisa te trouxe quais aprendizados práticos no canteiro de obras?
A Gafisa era uma grande escola na época. A Gafisa sempre teve isso de ser uma grande formadora. Ela investia muito em formar novos engenheiros. Eu até diria que é uma lavagem cerebral. Eu amava aquela empresa e tinha muita dificuldade de não enxergar a obra como uma coisa minha. Então, era muito apaixonante. Eu me desenvolvi lá, fiz obras de hotel, comecei numa obra de um hotel, depois fui trabalhar numa obra de... popular, residencial, mas habitação popular, com alvenaria estrutural. E, no fim, eu estava trabalhando com prédios de alto padrão. Então, eu peguei três tipos bem diferentes de obra. porque no hotel tinha decoração, tinha que comprar copo, carpete, entregar com televisão. Depois, o popular era um negócio totalmente diferente, alvenaria estrutural. E, no fim, era um altíssimo padrão em Pinheiros. Depois, recebi um convite e acabei aceitando, porque era para ganhar muito mais do que eu ganhava. Aí fui trabalhar em outra construtora e, depois de um tempo, não estava contente lá. Tive dificuldade de me adaptar. Recebi um convite para ir trabalhar como empreiteiro, que era um empreiteiro que fazia fachada. Fui trabalhar lá inicialmente como engenheiro e, depois de um tempo, fui... Fui virando um sócio da empresa. O meu sócio, fundador da empresa, ele fez um processo de sucessão profissional. Hoje nós somos em cinco sócios, todos vieram do mercado.
Bacana. E esse pegada de trabalhar com alto e baixo padrão, muda o olhar do engenheiro?
Eu acho que não. Eu acho que uma coisa é qualidade e outra coisa é especificação. Você tem uma especificação de um produto muito caro, naturalmente você tem alguns cuidados, mas a qualidade em si é a mesma. Você tem que executar o negócio com boa qualidade. Claro que tem as diferenças de sistema. O altíssimo padrão ou o alto padrão geralmente são obras de estrutura convencional. E a habitação popular é mais alvenaria estrutural. Então, o processo é um pouco diferente. A forma de ver a obra, de executar a obra, são obras diferentes. Mas não muda muita coisa em termos de gestão, de planejamento, de processos, não.
E nessa virada que você teve aí na carreira, como que foi sair de uma construtora e ir para uma empresa, ou seja, virar sócio de uma empresa de mão de obra? Como que foi essa virada de chave na sua trajetória profissional?
Foi um processo... Eu fui convidado para ir trabalhar nessa empreiteira, porque eu já tinha muito essa questão de bom relacionamento com a mão de obra, de trabalhar muito com motivação. Eu fazia questão de chamar todo mundo pelo nome. Então, eu sinto que, de certa forma, foram os funcionários da empresa que me indicaram para o meu sócio.
Sua reputação chegou antes ali.
É, eu já tinha um bom relacionamento com ele. Ele já me conhecia, claro. Eu já tinha feito três obras com a Constata, como cliente da Constata. Mas eu tinha bom relacionamento com os funcionários mesmo, com os pedreiros, com o mestre, com o fiscal. Então, ele estava passando por uma reestruturação. A pessoa que cuidava da operação, saiu naquela época e virou um concorrente. Ele estava procurando alguém para carregar essa transição. Eu me adaptei bem, eu sempre tive facilidade de conviver com a mão de obra no dia a dia. E aí deu certo. Foram três anos trabalhando como funcionário até ele perceber que eu tinha jeito pro negócio e que ia dar certo, então aí eu virei um sócio.
Tinha visão de dono, né?
Não era visão de dono, né? Porque quando você lida ali com a mão de obra, a mão de obra tem que gostar de você. Eles têm que sentir em você segurança.
Admiração...
Não só isso. Tem que saber que você tá ali pra brigar por eles, pra dar condição pra ele produzir, pra pagar certo o salário dele, pra ser justo na tarefa, pra olhar pra ele com respeito, com dignidade. E isso é um negócio que é uma transição que não é todo mundo da engenharia, que trabalhou como engenheiro de obra, que consegue se adaptar a uma empreiteira.
E como que a Fachada vira a sua principal especialidade?
Então, a Constata era uma empresa especializada em fachada. Ela sempre foi. Sempre foi, não. A Constata é uma empresa que nasceu... Ela foi fundada em 88. Mas ela começou fazendo civil, alvenaria, serviço interno. Mas ela não demorou muito tempo para se especializar no externo. Então, constata, desde 1988, quando foi fundada, ela já tinha um lado meio que de especialização na fachada. Então, eu fui ser um especialista de fachada numa empresa que já era uma referência.
Então você acabou pegando ali o dia-a-dia, né?
Já peguei, o trem já estava no trilho.
E quando você, foi em 2012 que você virou sócio da empresa?
2012.
Quando você vira sócio, qual foi o principal desafio nesse processo? Foi um processo natural?
Foi um processo bem natural. O Noel, que é o fundador da empresa e que é o meu mentor nesse processo, Ele... eu confiei na experiência dele. Porque assim, qual que é o grande problema de você virar sócio de uma empresa que já tem anos e anos de mercado? Existe um passivo, um passivo trabalhista. Sempre que você lida com a mão de obra, existe uma conta por trás. Então, ao mesmo tempo, você tem que acreditar muito na empresa. Porque você... se a empresa tiver um problema, Difícil de você não ser dragado pra dentro dele. Então, era uma relação um pouco de acreditar na empresa e ele acreditar em mim. Eu confiar que aquela empresa era perene, que ela era uma empresa sustentável no longo prazo, e ele confiar que eu estava preparado pra ajudar ele nesse processo de sucessão. Ele ainda trabalha na empresa até hoje. e no final das contas ele vai ficar com nós pra sempre, se Deus quiser.
Se Deus quiser, e hoje a Constata faz cerca de 100 obras a ano.
É, eu não sei, não sei precisar exatamente o número.
Mas é uma quantidade grande assim, como que é gerenciar essa quantidade de canteiro assim a nível nacional?
É, a execução de fachada é um escopo que você executa 85% do contrato de 3 a 4 meses.
3 a 4 meses?
É muito rápido.
Mas você industrializa, é um processo industrializado pra ser rápido dessa forma?
É, é um processo bem maturado, pelo menos na Costata, a forma de execução, então assim, pensar no canteiro, na logística, no abastecimento, pra que você consiga desempenhar prazos muito curtos, e tenha bastante eficiência de produtividade. No fim das contas, são obras muito rápidas, porque se você vai executar 85% do seu contrato em três ou quatro meses, só que depois você tem esses 15% é os rabinhos que vão ficando e ficam por muitos meses. Então, assim, você tem muitas obras com quatro, cinco, seis funcionários, que são obras que estão finalizando, aí tá esperando manta de impermeabilização terminar, tá esperando a jardineirinha, não sei o quê, e obras no comecinho, que você tá montando balancinho, que você tá fazendo uma preparação, às vezes começa fazendo varanda, que também tem pouco funcionário. gigantesco, que acontece nesses três meses em que você executa os balancinhos externos. E aí, ela se sobrepõe muito. As obras se sobrepõem muito. Então, assim, no pico, em média, você vai ter uns 30, 40 funcionários no canteiro nesse período.
Entendi. Imagina, no caso de vocês que atuam em grandes projetos como Vila dos Atletas, Edifício Matarazzo, MASP, qual que é o nível de exigência para atuar em projetos como esse?
Olha, assim, são complexidades diferentes, né? É, são obras bem diferentes que você citou. A Vila dos Atletas, ela era um grande desafio no sentido de que a minha empresa é em São Paulo, né? Então, mobilizar um volume gigantesco, porque a gente executou lá 31 torres, acho que foi 31 torres simultaneamente. Então eu cheguei a ter naquela obra 750 funcionários de fachada. Uau! Então assim, foi um momento e todos alojados. Foram todos daqui de São Paulo pra lá. A gente montou os alojamentos. Eu tinha uma função nesse momento que a gente chamava de prefeito. Que era uma pessoa que cuidava só dos alojamentos. Então assim, foi um grande desafio nesse sentido. Era uma obra que era 100% revestida de cerâmica, as fachadas. Embora não eram prédios muito altos, se eu não me engano 15 ou 16 pavimentos, era um volume gigantesco de operários, de metros quadrados, de logística, um canteiro absurdamente grande. Então, ali foi uma grande experiência nessa diferença de você estar aqui e transportar 750 funcionários para outra cidade.
E ainda falando da Vila dos Atletas, você teve esse desafio de alojamento para essa quantidade de funcionários ali e a questão da logística também com a indústria. Para atender essa quantidade de torres ali, imagina, porque você tem ali várias indústrias fornecendo e para você atender o prazo também da obra de forma eficiente, tem um desafio também com a indústria. Como foi essa relação empreiteira e indústria?
Ali na Ilha Pura, o grosso dos materiais era a argamassa da Votorantim. Eu nunca tive problema de falta de argamassa. Tinha muito problema de logística, como toda obra, todo canteiro demanda muito de cremalheira, Pra você executar a fachada num período muito curto, num prazo muito apertado, você precisa ter um volume de material enorme que você sobe todos os dias. Então demanda muito tempo de cremaleira. Nós estamos falando de um prédio... Um prédio normal, quatro apartamentos de 100 metros quadrados, prédio de médio padrão, estamos falando de 50 toneladas dia para subir na cremaleira de material. Então, são sete, oito horas de cremaleira todo dia. Esse é o desafio de abastecer. A indústria tinha capacidade de abastecimento. Então, nunca foi um grande problema. O desafio ali não foi chegar o material no canteiro, foi chegar o material no balancinho.
Além da argamassa, você também tem os revestimentos, né? Cerâmica.
Depois de terminar o embosso, a gente ainda executou cerâmica. A cidade de Matarazzo, as dificuldades estavam mais ligadas às especificações e alterações de projeto. O projeto do Matarazzo foi andando junto com a obra. E aí inventa de fazer massa, tortinha, parecendo aquelas casinhas gregas. Então, teve seus desafios, aquela piscina que era toda raiada, com borda redonda. Teve muitos desafios, um prédio que também não tinha muito tipo. Então, tinha muita montagem e desmontagem de equipamento. mas era uma obra em que a dificuldade estava mais na complexidade das especificações.
Ali, aquele projeto do Matarazzo, pra mim, tá? Pra mim, Paulo, foi um dos projetos mais, assim, diferentes que eu já visitei na questão de complexidade, assim, de execução, pelo menos ao meu ver. Numa situação daquela, onde você tem um projeto, né? Você passa um orçamento, mas ele não tá ainda, ou seja, o projeto não tá fechado. Então, você tem muitas variações. No caso do empreiteiro, você tem variação de valores? Então, imagina, como que vai mudando isso ao longo do tempo? Como que é essa dor de cabeça que você tem que administrar?
O meu contrato inicial no Matarazzo, ele representa, acho que, 25% do valor final que terminou a obra. O meu escopo foi mudando, mudando, mudando, mudando, e no final, o valor que eu recebi era quatro vezes o contrato inicial.
E aí,
a complexidade é difícil de você precificar. Esse primeiro contrato foi muito desequilibrado. A gente ficou muito negativo nesse contrato inicial. Só que, com o passar dos anos, você vai vendo as dificuldades e vai aprendendo a orçar aquela obra. Então, ela foi se recuperando, se recuperando, e ela acabou saudável. Mas não foi uma obra que eu falei, nossa, tive uma margem decente. Não perdi, pelo menos.
Mas é prazeroso, né, participar de um projeto como esse?
É, é prazeroso. São projetos muito diferentes, muito icônicos, né? São projetos que... que dá a impressão de te trazer um legado, né? Como engenheiro, isso é legal, você participar de obras que você fala, nossa, essa obra aqui faz parte de um legado aqui da minha carreira, né?
É, eu tive a sorte ali de acompanhar quase todo aquele projeto ali, até mandar um abraço pro Cater, que o Cater, enfim, esteve ali, né, tocando a obra. E agora, falando um pouquinho do MASP, pelo menos aparentemente é uma obra mais simples, mas assim, uma fachada marcante, está num lugar importante aqui, né, em São Paulo, assim.
É, o MASP era uma obra de concreto aparente. Sim. Aí, o concreto aparente, que é um outro trabalho que a gente também faz, ele é um trabalho muito técnico. Muitas pessoas têm a impressão de que o concreto aparente é ótimo, que você não precisa fazer nada. O concreto está pronto. mas não é bem assim. Tratar o concreto para ele ficar com aquela cara no final é trabalhoso, requer muitos cuidados, porque todos os desvios, quando você vai corrigir, você precisa fazer eles sumirem. E, obviamente, o concreto não é um material homogêneo. Ele muda de cor, ele muda... Então, sim, tem muitas nuances. É um projeto complicado. A minha dificuldade no MASP foi que a construtora tinha uma visão do concreto aparente, o arquiteto tinha uma outra visão do concreto aparente, e eu fiquei no meio dos dois. Então, um queria uma coisa, outro queria outra, e não se conversavam. Então, administrar isso foi o mais difícil da obra, eu diria.
E aí eu vou acrescentar um... Porque
assim, o concreto aparente, só pra... Assim, quando você executa um embolso, fachada de embolso ou revestimento cerâmico, tá claro que você vai entregar no final, né? Não tem muito pra onde correr. Quando você faz casa de concreto aparente, grandes mansões, casas de alto padrão em concreto aparente, o cliente final está te contratando. Então é fácil você alinhar uma expectativa. Você vai lá, faz um mockup, ele aprova, vai ser isso e você vai entregar isso. Quando você faz concreto aparente em prédio para incorporador, o cliente final varia muito. Porque o cliente final, às vezes, nem estava lá no processo durante a execução. Só que cada pessoa tem uma ideia de concreto aparente. Tem pessoa que acha que o concreto aparente tem que ser o mais natural possível, tem que ter defeitos, e tem pessoa que não consegue conviver com qualquer defeito. Então, traz um outro tipo de desafio, que é lidar com essas expectativas dos clientes.
E aí nesse processo, vou acrescentar, o desafio de você trazer um bom fornecedor de formas e escoramentos para esse processo. Como que foi esse desafio, especificamente no MASP ali, a empresa de formas e escoramentos?
Olha, eu entrei lá só para tratar o concreto aparente. Lá foi feito com mão de obra própria. a forma, a execução da estrutura. Embora Constata execute estrutura, a gente já fez vários projetos de concreto aparente, por exemplo, na Universidade Einstein. E aí, claro, quando você vai executar uma forma com concreto aparente, exige muitos cuidados. Paginação da forma, escolher o tipo de desmoldante, alinhar o material concreto, com a usina, o tipo de armação, pra você ter pouca fissuração. Então, assim, é uma disciplina vasta, tem muita técnica envolvida, muito mesmo. Então, lá no MASP, eles usaram um sistema trepante na escada, o que entregou uma ótima qualidade. Já na parte interna, eles estavam fazendo um retrofit, porque aí já era um prédio pronto. Então, tem muitas emendas, tem muitas dificuldades que isso gera, né?
Entendi.
E aí, pra depois quem vai fazer o acabamento do concreto, acaba sendo mais desafiador, porque você tem mais problema.
E nesse processo de ir falando em desafiador, qual foi a obra, até hoje, mais desafiadora que você já pegou?
Mais desafiadora?
Projeto que te marcou, assim, foi, cara, essa obra...
Eu acho que a Ilha Pura, nesse sentido de ter que fazer uma grande movimentação de gente pra outra cidade, muitos alojamentos, foi muito desafiador.
Esses alojamentos vocês fazem com construção modular?
Não, geralmente a gente aluga casas próximas e monta um alojamento em casas.
Entendi, não é no próprio canteiro ali próximo?
Não, geralmente não.
Entendi. Agora nós vamos falar um pouquinho de fachadas. Porque a fachada é uma das etapas mais críticas de uma obra?
Ela é um desafio logístico, como eu disse, é um volume muito grande de material e ela é caminho crítico de todos os cronogramas. Todos os cronogramas sempre têm uma virada. que é a fachada. Você vem subindo fazendo estrutura, você vem subindo fazendo alvenaria, você chumba contramarco, só que enquanto você não executa a fachada, você não tira água do prédio. E aí chega um momento que a sua linha para Você tem um macro fluxo de execução em todas as obras, cada construtora tem uma pequena variação, tem umas que entram com o contrapiso antes do gesso, tem outras que entram com o gesso antes do contrapiso, mas são variações pequenas. Só que, num determinado momento, você para a obra esperando a fachada acabar para poder pôr cachilho, para daí voltar por porta de madeira e poder pintar e pôr os acabamentos mais preciosos. Então, nesse processo, sempre tem uma virada de cronograma. Muitas vezes, a obra está toda subindo, aí você tem uma atividade descendo, que é a execução da fachada, e depois você volta a subir de novo. Isso gera uma quebra de fluxo. Isso faz a fachada ser o caminho crítico de todas as obras. Fora isso, a fachada é o que fica no final, a imagem da construtora, A visão do cliente, quando vai receber, o primeiro é a fachada. Então, ela tem uma importância estética grande para vender aquele prédio e tudo mais. E tem outro aspecto. A fachada pode te dar um impacto de imagem gigantesco, se você tiver problema. Então, se você entregou uma obra e está com problema de fachada, Toda vizinhança vai saber.
E nesse processo de problema de fachada, quais são os erros mais comuns que você já presenciou em fachadas?
Eu diria que erros mais comuns é limpeza. O erro mais comum de execução de fachada é a limpeza da estrutura. Porque daí o chapisco não adere direito e aí você passa a não ter aderência.
E o que muda nas fachadas? Você pega a volta de 15 anos atrás, o que muda nas fachadas de 15 anos atrás para as fachadas de hoje? Você está falando também de aquecimento, a gente tem aí desafio de climática, etc.
O que mais mudou, eu acho, embora tenha uma variação de temperatura que às vezes parece ser maior do que tinha no passado, mas o que eu vejo que mais mudou é a estrutura de concreto armado. Com o passar dos anos, a estrutura de concreto armado, o concreto foi aumentando muito de FCK. E isso trouxe a possibilidade de fazer estruturas mais esbeltas e mais altas. Estruturas mais esbeltas e mais altas, elas deformam mais. E deformando mais, elas precisam de materiais que acompanhem melhor essa deformação. Só que o embosso, É um material razoavelmente rígido. Então, para acompanhar essas deformações, acompanhar essa mudança que teve na engenharia dos últimos anos, a gente precisa ter argamassas cada vez mais flexíveis. O módulo de elasticidade das argamassas tem que ser cada vez mais baixo. E isso não acompanhou. A gente tem uma norma, ela é uma norma que passou por revisão atualmente, mas ela é uma norma da década de 60, 70, e que ela especifica muito a questão da resistência ao arrancamento e nada de flexibilidade. E aí foram passando muitos anos, agora teve, nessa revisão, trouxeram uma referência de flexibilidade das argamassas. que a meu ver ainda é muito alta, né?
Você já usou?
Já usei.
Com essa mudança, já teve essa mudança, você já usou e...
As argamassas não mudaram muito, não. Na verdade, a norma trouxe uma referência de flexibilidade, mas pra se ajustar às argamassas que a gente já tinha. Não é que a norma mudou as argamassas. As argamassas, a norma foi feita pras argamassas ficarem enquadradas. O que eu sinto é que a gente tem uma âncora, que é o arrancamento de 0,3 MPa. Aí veio uma revisão de norma de cerâmica e pediu 0,5 MPa. Só que quanto mais você pede de resistência ao arrancamento, mais você tem dificuldade de baixar módulo, porque mais cimento e mais cimento deixa a argamassa mais rígida.
Mas isso não pode ser resolvido, de repente, se você pega alguma indústria de fato interessada com o equilíbrio de aditivo pra você trabalhar melhor essa flexibilidade?
O equilíbrio com aditivos muda a questão preço. Então, deixar o margamaça com alta resistência ter um módulo de elasticidade baixo, deixa ela muito cara. E o que a indústria fala é que eu já estou competindo com o cara que compra areia, cimento e bate o traço na mão. Se eu deixar minha argamassa industrializada muito cara, eu estou jogando contra o processo de industrialização. O que é um argumento. Eu não vou negar que é um argumento, mas a gente precisava discutir se realmente a gente precisa desse 03 MPA. Talvez ele seja o problema. Mas enfim, é uma longa discussão. Eu penso que a gente, enquanto não melhorar o módulo de elasticidade, a gente vai ter muita fissura, vai ter algumas patologias decorrentes de ter um material muito rígido que não acompanha a deformação da estrutura.
É, isso é uma pena, né? Porque quando você começa a ter esse olhar apenas visando lucro, lucro, lucro, lucro, lucro, de fato, a gente não tem um... Quando a gente deixa de olhar pra essa questão, né? O que a gente precisa de fato pra resolver aí eventuais problemas, a gente acaba perdendo em qualidade, né? Isso é um, de fato, um problema. Antes da gente, afinal, a gente tá chegando já no momento final, assim, eu queria, você tem algum assunto que você gostaria de tratar, aproveitar agora esse bate-papo, tendo em vista que a gente fala aí com toda a cadeia da construção, investidor, operários, engenheiros, arquitetos, construtores, enfim.
A gente abordou muito a questão fachada e, no final das contas, não falamos muito da mão de obra. Eu vejo que a mão de obra está passando por um momento delicado. Muitas empresas, tem reclamado que tem dificuldade de conseguir mão de obra e que está cada vez mais difícil, até porque existem outras possibilidades de emprego. O que eu sinto de verdade é que os empreiteiros, as empresas que trabalham com mão de obra, elas são resistentes com formar mão de obra. E a gente só tem um caminho. para que a gente tenha sustentabilidade na consul civil. É formar mão de obra sempre, porque a gente precisa repor os funcionários que param de ter aquela produtividade toda. Acho que o caminho natural de um pedreiro é que quando ele vai ficando mais velho, ele deixa de ter tanta produtividade para trabalhar em obras mais pesadas e ele passa a fazer bico, reforma. Ele costuma ter muito mais qualidade porque tem muita experiência. mas não tem tanta produtividade, ele vai para esse mercado de reformas. Então, as empresas que trabalham com mão de obra, elas precisam estar sempre formando, formando e formando e formando, para elas terem uma longevidade.
Vocês já tiveram aproximadamente 3 mil funcionários e agora decidiram trabalhar com a mão de obra mais enxuta. Como que foi essa mudança? Como que está sendo esse processo? É o próprio mercado que está... Antes
de 2015, a gente vinha num processo de crescimento. Então, a gente tinha um volume de obra muito grande e a gente foi crescendo, crescendo, crescendo. Quando chegou em 2015, veio uma crise econômica muito pesada.
No período pós-copa ali, né?
É. Em São Paulo, pós-copa, e no Rio, pós-Olimpíada.
Pós-Olimpíada, sim.
Mas, assim, nesse processo, de 2015 pra frente, veio aquela crise do destrato. E aí as pessoas que tinham comprado imóvel começaram a devolver os imóveis, muitas incorporadoras quebraram, e a gente teve que enxugar muito. A gente saiu de 3 mil funcionários para 900 funcionários. E aí, nesse processo de demitir e tal, por outro lado, a gente teve muita inadimplência. Muitas incorporadoras que eram nossos clientes quebraram. Por exemplo, a própria Odebrecht, na Vila dos Atletas, começou a ter problema. Então, assim, a gente passou por um período difícil. Quando voltou, em 2019, a gente decidiu que não queria mais ter aquele tamanho. Em 2019 o mercado voltou a crescer o suficiente, poderia ter crescido de novo, mas a gente optou por ter um tamanho que a gente julga ser o mais eficiente, para ter cuidado com a mão de obra, para ter qualidade nos processos, para ter uma empresa mais saudável.
E uma atenção maior para quem está ali trabalhando.
E uma atenção maior.
Odisseu, e nessa parte de mão de obra, o Brasil, você acha que o Brasil está preparado em questão de mão de obra para obras complexas?
Eu acho que está. Eu acho que, na verdade, a gente sempre tem conflito de gerações. Sempre teve e sempre vai ter conflito de gerações. As novas gerações têm uma velocidade, elas são mais imediatistas, elas têm informação mais fácil realmente. O X da questão é que você precisa mostrar para aquele profissional que ele vai ter oportunidades de crescer na sua empresa. O que retém mão de obra é o cara enxergar que aquela empresa vai proporcionar a ele produção, produtividade, crescimento profissional e oportunidades. Então, é uma obrigação, a meu ver, de todo empreiteiro investir em formação de mão de obra. Porque aquele discurso que, ah, mas se eu formo o cara e aí quando ele está pronto ele vai trabalhar para o concorrente, Isso é verdade. Mas não é por causa disso que você deixa de formar mão de obra.
Tudo depende da relação que você criou ali, né? É igual relacionamento.
Se você é justo, se você trata ele com dignidade e com respeito, por mais que tenha algum momento que ele queira sair pra trabalhar em outra empresa, conhecer, ter novos ares, ele vai sempre olhar com carinho, né? Ele volta. E assim, falando de fachada, é um processo físico. É um trabalho muito físico, muito desgastante. Você ficar ali no balancinho, no sol, no vento, é desgastante. Além de físico, tem todo esse desgaste do sol, do vento. Então, você precisa renovar a equipe. Você não tem outra alternativa. Você tem que investir nisso. Está sempre renovando e renovando. Então, na Constata, a gente tem um processo grande de formação. A gente sempre tem aproximadamente 5 a 6% de ajudantes aprendendo de pedreiro. E sempre tem ali... Porque, assim, ajudante trabalhando de pedreiro e depois meio oficial. aí é uns 80 meio-oficiais. Então, ou seja, o tempo que ele demora pro ajudante aprender um pouco e virar um meio-oficial, ele demora mais... quatro vezes mais pra virar um pedreiro.
Entendi.
Mas você tem que renovar a sua equipe pelo menos 10% de equipe por ano, no mínimo, pra sobreviver. De 10 a 15% é o que a gente renova de equipe todo ano.
É bacana, e como você já tem muita experiência, já tem mais ou menos assim, já tem o tempo, né, que as coisas vão acontecendo, de certa forma isso acaba ficando fácil, corriqueiro ali pra vocês? Ou tem algum desafio nesse processo?
É, tem desafios, mas tem jeitos, né? Obviamente, o pedreiro, ele precisa ser o professor de um novo profissional. E você tem que convencer ele, que é um profissional, né, a ajudar outro profissional aprender aquela profissão. E isso, obviamente, requer algum trabalho, mas é muito gratificante. Eu acho muito gratificante você ver o crescimento profissional na empresa, você ver as pessoas crescendo. Na Constata, como é uma empresa que tem 37 anos, a gente tem muito filho de pedreiro A gente tem muito filho de mestre, muito filho de encarregado. A gente tem muito essa segunda geração e às vezes até a terceira geração trabalhando na empresa. A Constata tem 14 engenheiros para fazer a gestão da empresa. São 14 engenheiros. quase todos são filhos de pedreiro, ou às vezes são o pedreiro. Eu tenho um engenheiro lá que era um pedreiro.
Que legal.
É um negócio que eu acho também gratificante. Acaba sendo também um legado. E eu sinto que... Quando você forma um profissional, assim como eu lá atrás, quando fui formado pela Gafisa, tive uma certa dificuldade de tirar aquilo de dentro de mim quando eu saí de lá. Vai acontecer a mesma coisa com o pedreiro, né? Vai acontecer a mesma coisa com o encarregado, vai acontecer a mesma coisa com o mestre. Então, vale muito a pena formar mão de obra. É um investimento, mas é um investimento... É o melhor que você pode ter numa empresa de mão de obra.
É, e que não só na empresa de mão de obra, e o meu desejo é que tenha mais empresas, assim, pensando como você, porque é dessa forma que a gente vai resolver essa questão aí de falta de mão de obra. Porque toda vez que eu... tem oportunidade de ajudar alguém no processo de formação e eu deixo de ajudar por pensamento, ah, se eu ajudar ele vai trabalhar pra outra pessoa, isso acaba virando um problema. E assim como você tá fazendo, tem um caso aí de uma grande construtora em Balneário Camboriú que ela forma a mão de obra dela. E tem casos que esses, às vezes, ah, eles não têm obra suficiente pra todos os funcionários que eles formaram, beleza, eles vão pra outra construtora, mas ficam o tempo todo, ó. Entrou obra nova, então eles não têm problema, porque de fato existe uma gratidão ali muito grande nesse processo de formação.
E aí há um jeito também de você reter o servente. O servente, eu vejo muita gente reclamando que o servente não quer ficar na empresa e tal. O servente não quer ficar na empresa porque ele não vê ali oportunidade de crescimento. Se ele olha pro lado e vê que os outros serventes, um virou pedreiro, o outro tá aprendendo, tá trabalhando de pedreiro, o outro...
O outro virou engenheiro, né?
Ele quer ficar na empresa. Então, eu acho que também é um jeito de você reter esse profissional.
Disseu, agora um conselho seu, com toda a sua experiência, pra quem tá entrando na construção civil, enfim, em qualquer área da construção civil, engenheiros e etc.
Um conselho? Olhe sempre para a motivação das pessoas. A gente não é ninguém sem equipe, a gente não constrói nada sozinho, a gente sempre vai precisar um do outro. O engenheiro vai precisar de outros engenheiros, mas ele vai precisar do mestre, ele vai precisar do pedreiro, ele vai precisar do eletricista, Foque na motivação, foque nesse lado humano, porque o lado técnico, o lado matemática, eu tenho certeza que você já vai ter uma boa bagagem da faculdade. Mas esse lado é o lado que vai levar você para outro nível.
E talvez um pedido para a indústria, um conselho para a indústria, você que de fato também está vivendo ali o dia a dia de obra, ali nas obras, e se depara com várias situações,
um conselho para a indústria? Quem sou eu a dar um conselho para a indústria? A única coisa que eu penso, pensando especificamente sobre as argamassas, mas sobre as normas como um todo. A gente precisa criar normas que sejam para a nossa realidade. A gente é muito E continua muito olhando pra fora, né? Olhando pras normas de fora e sempre tentando trazer de lá pra cá. Mas aí o que a gente precisa mesmo era desenvolver as nossas.
E trabalhar em obra te ensina coisas que a faculdade nunca ensina?
Ah, com certeza, né? A faculdade traz uma baita bagagem. traz um tipo de raciocínio. O raciocínio de engenheiro é um raciocínio lógico, é um raciocínio linear, o que é muito saudável. É você saber sempre o porquê você está fazendo determinadas coisas. Nunca fazer alguma coisa aleatoriamente. Sempre tem que saber o porquê você está fazendo aquilo, onde você quer chegar. E esse raciocínio lógico ele já é muito bom. Então, desenvolva esse lado mais humano, mais de relacionamento humano, porque a liderança é o que realmente vai fazer você crescer mais.
Bacana, eu acho que conseguimos conversar sobre vários assuntos assim. Agora, pra gente encerrar, tem mais algum assunto que você gostaria de tratar ou posso passar aí pras considerações finais?
Posso passar pras considerações.
Então, volta pras considerações finais, Liceu.
Queria agradecer aqui o convite, vir bater esse papo aqui. Achei legal, fico à disposição, né? Espero que tenha conseguido aí passar alguma coisa boa.
É maravilha de ser. Eu queria também, aqui, agradecer o seu tempo, a sua contribuição com o mercado de construção e coloco o nosso canal também à disposição se você tiver alguma obra que você achar interessante. Paulo, traz sua equipe aqui para a gente gravar um episódio, fazer um episódio especial mostrando o dia-a-dia, ou seja, como que funciona, de fato, uma execução na prática. A gente também se coloca aqui à disposição para a gente contribuir com o mercado. Então, um abraço e até o nosso próximo encontro aqui no ConstrueCast. Afinal, conhecimento também se constrói.
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