Importância Da Capacitação Profissional | Podcast de Engenharia | Arquitetura | Construção

Transcrição de um episódio do podcast Constrycast em que Paulo modera uma conversa com Edson Cátero (diretor de engenharia), Heloísa Maringoni (engenheira estrutural) e o estudante João Pedro sobre capacitação profissional na engenharia. Discutem trajetórias profissionais, a importância da vivência em canteiro, integração entre projeto e execução, uso de tecnologias (BIM, softwares), especializações (aço, concreto, madeira, vidro) e a necessidade de formação continuada, concursos estudantis e maior diálogo entre academia e mercado.
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Sejam bem-vindos ao Constrycast. O episódio de hoje é um oferecimento CBCA e produtora de vídeo Infinity Plus. Está no ar mais um episódio do Constrycast e hoje quem está acompanhando pelas plataformas de vídeo consegue ver que o cenário está bem diferente. Hoje eu tenho a presença do engenheiro Edson Kater. Seja bem-vindo, Edson.
Obrigado, Paulo.
Tenho aqui a presença da Heloísa Maringoni, que também é engenheira, e o estudante de engenharia João Pedro. Sejam bem-vindos.
Obrigado.
Eu vou pedir para que o Edson se apresente. Ele hoje é meu co-host. a Heloísa, nossa convidada, e o futuro engenheiro, João Pedro, que vai aprender um pouquinho aqui com esses dois. Vamos lá. Edson, se apresenta, por favor. Queria que você falasse um pouquinho de você e falasse aí de uns dois ou três projetos que você já participou aí ao longo dessa longa trajetória na engenharia.
Obrigado pelo convite mais uma vez. Prazer estar aqui com vocês. Bom, meu nome é Edson Cátero, sou diretor de engenharia da RFM Construtora. Uma empresa que eu estou trabalhando já agora há mais ou menos 7, 8 anos. E foi onde eu passei um período praticamente realizando uma das principais obras da minha carreira que foi o Cidade Matarazzo. Aquele complexo do Hospital Matarazzo e da maternidade que foi reformado. virou um hotel seis estrelas. Ele ainda está em execução, a parte do hospital, que não ficou a cargo da empresa para a qual trabalhava. Era um consórcio da RFM com a Sérgio Porto Engenharia de São José dos Campos. Importante falar isso, porque a figura do Sérgio Porto pessoal, inclusive, foi muito importante no andamento da obra. E eu estou agora em 2000. Ano que vem eu vou fazer 40 anos de formado. Circulei muito pelas obras fundamentalmente prediais, de diversos padrões, popular, altíssimo padrão, que foi onde eu comecei na década de 80, porque não tinha recurso, então as obras eram sempre, aquelas obras a preço de custo, condomínio, né? Foi onde eu aprendi muito essa questão do que nós vamos falar muito hoje, que é a capacitação, foi fundamental ali. E passei um período na Aldebrecht, Realizações, no Rio de Janeiro, respondendo pela execução de um conjunto de obras relevante lá na região portuária, no Porto Atlântico. empreendimentos múltiplo uso, a sede da empresa. E voltei para São Paulo, fiquei uns 7, 8 anos lá. Interessante essa experiência, acho que eu já contei um pouco aqui também, porque deu para perceber que o Rio de Janeiro ainda está, mas naquele momento estava razoavelmente atrás de São Paulo no entendimento de engenharia, não só de tecnologia, mas como gestão. E acabei voltando pra São Paulo, fiquei cinco anos no Matarazzo e agora tô à frente de um... voltei pro escritório e tô respondendo pelo BEC, né? Eu tenho que criar as condições pras obras andarem. E aí eu tenho um par, um engenheiro, um par meu, que ele faz a engenharia de obras, de produção.
Mas você continua indo na obra, né?
Conhecendo a edição... Continuo! Invariavelmente eu tenho que ir pra obra. Eu até... vou te dizer que eu tô... tava um pouco cansado. Então, bacana é que agora eu tô conseguindo... É, tentar usar mais da minha experiência pra preparar a obra, né? Porque você, quando tá na obra, o ambiente da obra, ele te leva a reações bem diferentes de quando você tá fora, podendo ter um olhar mais amplo do que tá acontecendo nos canteiros, né?
Ótimo, Edson. Obrigado. Elo, pode se apresentar um pouquinho aí pra nossa audiência? Aproveito que, assim, você que tá chegando agora, já pega um papel, uma caneta, que você vai aprender muito hoje. Elo, fica à vontade.
Bom, eu sou Eloísa Manigoni, mas como vocês acabam de ver, meio mundo só chama de Elo mesmo. É super cotidiano isso, o que eu acho muito legal, porque cria uma intimidade entre a gente que é bem gostosa. Mas a minha especialidade é cálculo de estruturas, então eu sou a engenheira titular da companhia de projetos, que apesar do nome ser bem genérico, ele é genérico no tipo de estruturas, a gente faz todo tipo de estruturas, concreto, madeira, aço, já calculamos vidro, depois você fala cinco línguas, você fala seis, sete, vai indo. E a minha paixão é realmente como resolver um projeto estrutural. E a opção sempre foi por aqueles que têm uma característica diferente, especial. Então, eu não faço predial. O que a gente faz muito no escritório são estruturas especiais. Então, como exemplo, tem o Museu da Língua Portuguesa, nas duas fases pré-incêndio e pós-incêndio. Tem o Museu do Ipiranga, que a gente fala de Ipiranga o tempo todo, mas, na verdade, o nome real dele é Museu Paulista. Tem a Pina Contemporânea, tem o Centro da Cultura Inglesa, que tem aquela fachadona, que tem umas histórias bem interessantes. Mas são sempre estruturas que demandam uma solução especial. E esse é o gostoso para mim em termos de... que apaixona na engenharia, quer dizer, como resolver os grandes impasses ou situações de obras interessantes. E daí a necessidade de que se faça uma especialização e uma preocupação bastante grande com a formação dos engenheiros.
Muito bom. E quando a gente fala de qualificação profissional, a gente tem a presença... Do João.
Do João.
João, se apresenta um pouquinho pra gente. Bom, não é à toa que você está aqui, né? Se você está aqui é porque você se diferencia aí um pouquinho dos demais.
Começou bem.
Começou bem.
Bom, primeiro, obrigado pelo convite, Paulo. É muito, muito feliz de estar aqui, de poder conversar com dois grandes engenheiros da área. E, bom, eu sou estudante de GRE Civil, estudo na MAOA, Instituto MAOA de Tecnologia. Tô finalizando agora o quarto ano. Tô indo pro último, pro quinto e último ano, ano que vem. E, bom, não tenho experiência quase zero, né? Comecei a estagiar agora no final do ano passado. Trabalho com... fui direto pra projeto, né? Acabei não indo pra obra, fui direto pra projeto mesmo. Trabalhei sete meses com um projeto estrutural de edifícios. E agora eu tô trabalhando com projetos estruturais de obra de infraestrutura, projeto do metrô, linha 19 do metrô. E, bom, como eu não tenho pouca experiência, mas eu acabei na faculdade no último ano, em 2022, e esse ano fui participando de muitos projetos acadêmicos, concursos acadêmicos como os do IBRACON, do Instituto Brasileiro de Concreto, que eles oferecem concursos lá no Congresso Brasileiro do Concreto, que esse ano foi em Florianópolis, agora em outubro. e o do CBCA também, que oferecem concursos para estudantes de engenharia que consistem em fazer projetos de estrutura metálica e os de Bracon de estruturas de concreto a fim de criar uma capacitação pelo tema da conversa, mas assim, para o estudante que está iniciando agora no mercado.
Esse episódio é um oferecimento CBCA, Centro Brasileiro da Construção em Aço, e produtora de vídeo Infinity Plus. Pensou em produção de vídeo para arquitetura, engenharia e construção? Pensou em produtora Infinity Plus. Então ótimo, eu vou ficar mais como um ouvinte aqui, eu vou passar a palavra agora.
Posso?
Desculpa, pode, pode. Fica à vontade, aqui é uma bate-papo.
Não, é que tem uma pergunta que eu queria fazer pra você.
Já começa então com você.
Não, uma pergunta é pelo seguinte, você participou do concurso do Ibracom e do CBCA. A gente tem feito uma força louca a gente que eu quero dizer, eu e vários outros engenheiros de estrutura, para que os estudantes de engenharia participem de concursos. Isso é muito cotidiano entre os estudantes de arquitetura. Os de engenharia, a gente tem que fazer uma força para os caras entrarem. Por quê?
Assim, o meu ano lá da faculdade é um ano atípico, assim. Minha turma, assim, o pessoal gosta bastante de participar de concursos. Tanto é que pro Ibracom agora, a gente foi, metade da sala foi lá pro congresso participar.
Pô, legal!
E o CBCA também. O CBCA participaram seis pessoas, né? Cinco eram da minha sala, então... Mas assim, o ano anterior, por exemplo, já é mais difícil. Eu tô tentando, eu tentei puxar um pessoal pra participar, mas o pessoal não tem tanto endereço e tal. Mas é difícil mesmo, assim, porque a pessoa não vê tanto benefício, eu acho, talvez.
Acho que já está na natureza da diferença da cabeça de um engenheiro e de um arquiteto, né? O arquiteto, para começar, ele é mais artista. Eu quase fui para a arquitetura, eu só fui para a engenharia porque na.
Época... Nós somos dois que fomos.
É? Então.
Porque a engenharia, ela tinha um potencial profissional muito maior. Mas a minha formação era muito mais voltada para a arquitetura. Eu me arrependo de não ter feito arquitetura depois de engenharia. Mas eu vejo na figura, é questão de exatas e humanas, né?
Sim.
E eu acho que o pessoal da arquitetura tem uma vocação maior para participar de coisas criativas, né? E concursos são coisas criativas, e engenharia é muito mecânico. Eu concordo com você, tem margem, para caramba.
Tem muita margem.
Tem muita margem, mas eu acho que a maneira como é trazido para os estudantes de engenharia é muito mais restrita. Depende muito das entidades, como ele falou, entendeu?
Mas você sabe que tem uma frase do Arup. que eu acho sensacional. Eu já falei isso naquela palestra, vou falar agora de novo. O arquiteto cria, o engenheiro inventa. Não há nem um pouco de falta de criatividade na invenção. Então, o lance de inventar, de ter um problema na sua frente, que é o que nós temos. Chega um problema para você, porque, na verdade, é um problema, ou é um desejo, ou é um desafio. E o que você tem com aquilo que você aprendeu, com aquilo que você observou? Você vai ter que criar uma solução. É criação isso. A invenção de como juntar as peças, de como tornar aquilo viável, de como dar uma sequência, de como fazer esse planejamento que você fala que hoje está muito fora da obra e deveria estar lá dentro da obra. Isso tudo é invenção e a invenção é altamente criativa. Então, acho que a primeira coisa que a gente teria que fazer... é botar na cabeça de todo mundo que está fazendo engenharia que engenharia não é uma ciência exata, chata. Ela é uma ciência criativa pra caramba. Você tem muito o que criar dentro da engenharia. Você tem uma caixinha de ferramentas que nem um brinquedo maravilhoso que você pode, com aquilo, inventar o que você quiser. E isso é muito interessante. Então eu acho que o lance, vamos dizer, não só da capacitação pós-formação, porque a capacitação vem ligada à pós-formação. Você está formado, você vai se capacitar depois de formado. Mas eu acho que isso devia começar logo cedo. Tudo bem que no terceiro ano é complicado, você ainda está perdidaço lá e dá-lhe cálculo na cabeça, você não sabe.
O que vai fazer. A realização de obras de engenharia é extremamente gratificante. Pelo menos para mim, é gostoso lembrar exatamente da quantidade, inúmeras vezes que você se viu diante de um problema ser resolvido e a sua forma, sua criatividade, seu jogo de cintura, sua presença de espírito, são algumas características que você tem que ter que fazem com que você chegue numa solução, que foi trazida pra você. E a engenharia é isso, a palavra é essa, engenhosidade, você encontrar meios de realizar alguma coisa. E é altamente incrível.
É incrível.
E é isso pra todo mundo. Arquiteto também, quem é que não tem orgulho de lembrar dos projetos dos quais participou? Seja lá na arquitetura, na engenharia ou qualquer outro meio econômico. Mas a nossa área, acho que ela é uma área que a gente tem muita visibilidade, né? Quem é que não anda e fala, poxa, você viu o que está se fazendo ali? E você olha em termos de arquitetura e você olha em termos de engenharia.
Sim.
E acho que agora, nos últimos anos, talvez nos últimos 20 anos, 10 anos, está mudando muito essa coisa, porque a gente está deixando de executar caixotes. que a gente passou décadas construindo praticamente caixotes. Se você pegar o que é a cara dos prédios de São Paulo, do Rio de Janeiro da década de 60, 70, era um negócio que hoje você olha. Agora não, agora é um desafio atrás de outro. Eu não canso de me assustar ainda de quando eu vejo prédios sendo executados que você fala, poxa, coitado do Virgínia.
Você vai cheirar para um desconforto no sentido de você estar sendo sempre construindo ali da mesma forma antes e agora você tem aí esse desafio, novo desafio, né?
Por isso que eu acho que a moçada hoje tá passando por um período, quando você falou do Ciotto, o Ciotto uma vez numa palestra, eu tava com ele, ele foi meu chefe há alguns anos, e numa das palestras eu achei legal quando ele falou que ele tinha inveja, né? Como ele gostaria de ser jovem agora e poder estar diante de um momento diferente, porque ele passou a maior parte da vida dele e eu também, com pouca inovação. Agora não, você olha pra tudo que é lado. Não é só o predial, que nem você falou. Você pega obras como o Museu de Ipiranga, a Pinacoteca, que você falou, são obras maravilhosas, com arquiteturas desafiadoras.
Sim, desafiadoras.
Engenharia altamente desafiadora. E a questão que o João Pedro falou da questão de você, da conveniência de juntar o concreto com aço.
Sim.
Porque é isso que traz a viabilidade, né?
Não só a viabilidade, mas vamos dizer, a tendência que a gente tem hoje é cada vez maior de parar com esse, você falou de Rio de Janeiro, né? De parar com esse fla-flu, ou concreto ou aço. E agora entra madeira também. Quer dizer, na verdade, a gente tem que entender que uma obra pode ter em si todos os elementos estruturais, não só falando da estrutura, mas também em vedos, em outros componentes da obra, acabamentos e etc. Exatamente. Então você tem hoje uma gama muito grande de possibilidades. E a gente tem que sair desse feijão com arroz, de que não, é só isso, só isso. Eu até brinco um pouco, não leve a mal, mas a gente tem na faculdade resistência do material. Quanto tempo você esteve de metade?
Você teve um ano de ótica.
E viva! Normalmente são seis meses.
Na minha época eu tinha um ano de metálica.
Você tinha um ano?
E de madeira também. Mas era madeira e metálica.
Era uma disquina madeira e lembra o professor Moliterno, se eu não estou enganado, de madeira.
Sim, eu estudei muito nos livros do Moliterno.
E metálica também. Esqueci o nome do nosso professor de metálica.
Metálica tinha o Gerson e era.
Mas era muito pouco. O foco era muito mais no concreto.
Eu tive menos madeira, foi só três meses.
Pois é, três meses de madeira. Não dá, gente. A gente tem que aprender tudo, porque o aprender é que te tira o medo de trabalhar com aquilo. Porque o que você desconhece, você tem receio de trabalhar. O que você conhece, você se sente confortável para buscar a melhor solução para cada coisa. Então, se... Agora, você fala, pô, mas nos cinco anos de faculdade não dá para ver tudo. Não, não dá.
Não é o medo, é a alternativa, né? É ver como alternativa e não com medo, né? Você tem que ver como alternativa.
Então, esse lance de que você, vamos dizer, você fez estágio, já escolheu a tua área. Legal, eu também escolhi a minha. Aliás, eu primeiro escolhi a área, depois entrei na faculdade. Ainda que gostasse muito da arquitetura. Mas você sabe que trabalhando com estrutura, o que você faz é trabalhar o dia inteiro com arquitetos.
Claro.
Não que eu não seja amigo de engenheiros, tenho vários. Mas tenho muito mais amigos arquitetos do que engenheiros, porque o convívio grande é com eles. Aliás, tem uma coisa aqui, fazendo uma brincadeirinha, mas... Tem um tempo em que a turma ficava muito brava de chamar os projetos de estrutura ou demais projetos de complementares. A turma ficava brava. Falei, gente, o que é ângulo complementar? Não é aquele que somado ao primeiro dá 90 graus? Quem é que bota em pé a obra? Os complementares.
Hoje os projetos complementares são outros.
Não, mas são complementares porque põe de pé o negócio, vira 90 graus na hora que você complementa.
Eles são necessários. Quando a gente fala complementares, o significado é que eles não são essenciais.
Eles são extremamente necessários.
Mas eles nascem no projeto ali?
Às vezes. Por exemplo, hoje há uma tendência grande, por exemplo, na obra do Matarazzo, na obra do Museu do Ipiranga, na obra do Museu da Língua Portuguesa, Essas obras hoje nascem com uma equipe. O arquiteto é o maestro da... Ele é o David Brubeck da banda de jazz, mas sem o Sonny Rollins e os outros não sai. Então, o desejo, a primeira expressão de uma obra vem da arquitetura. Agora, esse desejo, essa expressão do que fazer, de como organizar no espaço, na cidade, atendendo às demandas do objeto que a gente está falando, do prédio ou do museu, ou de alguma coisa do gênero, ela precisa de quem complemente isso para que isso saia. Então, os concursos hoje são de equipe fechada, o que eu acho sensacional. Porque se você ganhou o concurso, vamos dizer, se a equipe capitaneada pelo arquiteto, ganhou o concurso, ela tem que garantir que aquilo pode ser feito e vai ser feito.
É, a execuibilidade.
A execuibilidade. E você não pode garantir a execuibilidade só com um projeto de arquitetura. Você tem que ter todos. É. senão só no planejamento já falhou.
A gente não colocou como crítica os projetos complementares, é só como um desafio diferente.
É um desafio diferente.
É engraçado que hoje se questiona, a gente passou anos, como você falou, Elô, sentando em mesas com 20, 30 profissionais, e hoje são os cols. com um monte de janelinha na tela e tal, e às vezes você percebe que tem disciplinas que acabam esquecidas, a pessoa não fala. E aí você começa a rever também esse conceito. Será que é necessário fazer essas reuniões, esses calls com tanta gente? Será que não tem que mudar? E na minha opinião tem que mudar.
Na minha também.
Essas reuniões e esses calls presenciais ou calls onde você tem 20, 30 pessoas e algumas caem no esquecimento. Eu fiz uma reunião uma vez, eu nunca mais esqueço. Eu trabalhava na Tishman Spire, era uma incorporadora americana que foi onde, aliás, eu aprendi. Foi um grande salto pra mim na visão gerencial, né? De projetos e essa questão de múltiplos projetos e tal. Até porque eram empreendimentos de múltiplos usos. E teve uma vez uma reunião que tem um horário contado. Quando acabou a reunião, o cara levantou e falou assim, esquecendo de mim. Chamou atenção, foi um negócio extremamente constrangedor, aí o pessoal teve uma oportunidade para ele falar, extremamente forçado, ou seja, mas aquilo marcou. E hoje continua sendo assim, você faz reuniões onde uma parte das pessoas que estão convidadas não falam. E aí que entra o que a gente estava falando, quando a gente fala de capacitação ou qualificação profissional, é qual é o melhor formato. Nós estamos passando por um período que eu espero que seja de transição. A informatização trouxe realmente inúmeros benefícios, não há como negar. Você pega a ferramenta BIM, que ela vai muito além do que é um clash, ela faz o gerenciamento, orçamento, planejamento de uma obra que ainda está muito prematuro no Brasil. Mas o olhar do BIM está muito mais no clash, que é a questão de não ter os conflitos, porque continua havendo conflitos pra caramba de projeto, e você só vai descobrir na hora de executar. Então, está tendo essa melhoria, mas eu acho que está tendo uma necessidade de mudar o modo, como a gente falou, hoje o profissional de obra em campo, ele está muito distante da obra em si. Ele passa mais tempo sentado na frente do computador, tentando até entender os projetos que são riquíssimos. É um desafio gigante você conseguir, você deixar para o engenheiro uma equipe de obra e entender 20, 30 disciplinas. Então quando eu falei para vocês que no começo, na década de 80, quando eu comecei, era arquitetura. Fundação Estrutura Elétrica Hidráulica. Não tinha mais nada. E aí começa a aparecer as disciplinas automação, ar-condicionado, óbvio, depende de cada tipo de obra. Impermeabilização, que não tinha projeto, passou a ter. Hoje você tem projeto de paisagismo, comunicação visual, elementos especiais, controle de acesso acústico, térmico, vidro e inclusive está tendo uma certa carência dos bons profissionais. O caso de vidro, por exemplo, pra mim é flagrante hoje. A gente perdeu aí, acho que o último escritório que eu era do... Paulo Duarte. E aí hoje quem tá fazendo vidro é o pessoal de alumínio. E eu sempre aprendi que vidro, quem entende é de vidro. O cara de vidro entende de vidro e entende um pouco de alumínio. O cara de alumínio entende muito de.
Alumínio e um pouco de vidro.
E aí você tá se pegando hoje com esse desafio. Então eu acho que o desafio nosso é como lidar com essa gama de informações, que ainda tá um pouco extenuante, eu diria até exaustivo. Ainda bem que pelo menos você tem hoje mais gente na obra. Antigamente você tinha muito pouca gente, era impossível. Mas eu acho que ainda tem alguma coisa a ajustar. E como eu comentei antes da gente começar a nossa conversa, a questão de que antigamente as obras eram um pouco mais longas. Você tinha um prédio que demorava três anos, um prédio residencial, um prédio de 20 pavimentos que se fazia, 20 e poucos. Hoje você tem que fazer um prédio de 40 pavimentos em dois anos. E tentando decifrar e materializar aquela juntada de especialidades, que é enorme, né? Num período tão curto de tempo. E aí que é o desafio dessa moçada nova, dos novos profissionais.
Você falou, por exemplo, do lance de vidro e... Tem o Igor também, que é um cara sensacional, com quem a gente está sempre trabalhando, mas esse excesso de especialização, ele traz coisas boas e coisas ruins. Então, por exemplo, vou usar esse exemplo do vidro, que tanto acontecia com o Paulo Duarte, quanto acontece com o Igor, e quanto acontece com qualquer outro. Então, vai-se ver o vidro, vai-se ver o alumínio do cachilho, e aí, de repente, aparece no projeto um perfilzinho estilizado, pintado. O Paulo Duarte pintava de marrom, o Igor pinta de vermelho. E vem escrito assim, ver com projetista de estrutura. Porque ele vem até ali, que é a obra dele. A capacidade, a capacitação e a expertise dele é até ali. Dali pra cá alguém tem que cuidar. Então tá bom. Então a interface que eu acabo tendo, e tenho muito, tinha com o Paulo, tenho com o Igor e tenho com outros projetistas de cachilho também. Vem aí ó, ele me manda o esforço aqui, eu chego aqui, então tá bom. Então vamos trabalhar no que é isso.
Mas acho que o ponto que você tá falando é que o problema ruim é que a pessoa fala daqui pra frente não é comigo.
O problema é seu.
É.
Se você tá trabalhando, aí aqui tá, então entra aí o engenheiro de obra, o gerente de obra, como você fala.
A gente pode chamar esse cara de dono da obra ou responsável?
Tudo bem, pode ser o dono da obra, responsável, mas é o cara que tá ali. Ele tá pegando o projeto de cachilho e ele tá pegando o projeto de estrutura. Se ele for um cara que tem uma certa... um tempo de janela, não precisa ser uns 40 anos, pode ter menos, mas ele vai bater o olho e falar, ops, o projeto do Cachilho parou aqui no vermelhinho ou no marronzinho. Eu preciso chamar a Ilô ou chamar alguém.
Esse é o dia a dia.
Vem cá, você viu que ele está jogando uma coisa no teu projeto? Porque se ele não chamar, ou quem está gerenciando esse projeto não chamar, eu não vou abrir todos os projetos da obra hidráulica, elétrica, cachilha, etc., para procurar se alguém me chamou. Quem vai procurar e dizer, ô, elô, tem uma coisinha aqui que tem a ver com você, é esse cara da obra.
E esse cara vai na pessoa certa.
Ele não vai envolver gente. tanta Porque ele sabe gerenciar tudo isso. Então, pode ser já durante a obra ou antes, pode ser na coordenação de projetos, mas alguém Tem que ser o gerenciador que tem essa grande interface com todos. Não é um cara especialista em tudo, ele é o clínico geral. Ele tem que saber que vai mandar você pro cardiologista ou vai mandar pro neurologista. Ele vai ter que saber pra quem ele manda. Mas ele tem que ter a visão do todo, e essa visão do todo, que era o que a gente falava na escola, você aprende uma pancada de coisas na escola, mas essa visão, isso tudo, você só aprende andando com um cara que nem ele.
Você aprende um pouco de tudo, né?
Ou tipo, você escolheu estrutura. Não, não quero saber de obra, eu quero ser estrutura. Então você vai trabalhar ou com a Aurélia, ou você vai trabalhar com o Marcelo, ou você vai trabalhar com o Ilô, você vai trabalhar com algum cara dessa área que vai começar a te mostrar Uma coisa que você falou do BIM, por exemplo, nós estamos engatinhando no BIM. E vou te dizer que eu, por exemplo, tive o BIM no escritório e parei de ter.
Olha, meu Deus.
Não, não é meu Deus, calma. Não é tão drástico assim. A gente usa programas de cálculo, que não tem nada a ver com o BIM. Para o BIM eu tenho que fornecer aquilo que possa ser compatibilizado com as demais demandas do projeto. Quem tem que manjar do BIM e fazer do BIM legal é o gerenciador. Não é o engenheiro de estrutura.
É outra especialidade.
Eu tenho que trabalhar, por exemplo, tenho e trabalho com programas, porque é claro, a gente antes, do mesmo jeito que você levava quatro anos para fazer o prédio, para calcular na munheca você levava pelo menos um ano. Hoje você entra num programa, modela, E eles saem os resultados maravilhosamente num tempo muito mais curto, o que te permite fazer variações, estudar melhor o assunto, procurar outras alternativas, etc e tal. E que desses programas sai uma interface com o BIM. Ou seja, eu não tenho que ter o BIM no meu escritório, eu não gerencio obra. Eu tenho que ter uma interface com o BIM que possa alimentar ao gerenciador e ao coordenador de projetos.
Fazer o uso da sua informação.
Fazer o uso da minha informação. Porque se eu for ficar com o BIM no escritório, que foi o que aconteceu, você vira um desenhista de BIM. Não interessa. Interessa eu fornecer o material preciso, correto, para que aquele que gerencie recebendo esse material tenha interface. Então a gente tem que trabalhar as interfaces entre todos como já foi. Você lembra quando apareceu o CAD? A gente desenhava tudo na mãozona. Só dava pra fazer três revisões, né? Porque depois furava o vegetal, né? A giletinha furava o vegetal. Hoje você faz...
Mas era aí que você tinha afinidade total, né?
Você pensava três vezes antes de fazer o risquinho, né? Hoje você faz o projeto. Quando você tá na décima terceira revisão do executivo, vem o liberado para a obra.
Que não deveria mexer nunca mais.
Não, o executivo já não devia. Porque executivo já é executivo, cara. Depois de 13 do executivo, liberado para obra. E tem liberado para obra 1, 2, 3, 4. Tudo bem, existe a revisão na obra? Como na obra que você fez ou na obra do museu? Por mais que você tenha feito levantamentos, estudos, vai aparecer alguma coisa que é uma surpresa.
Mas tem uma característica no Brasil, que quando eu fui trabalhar na empresa americana, eu tinha uma impressão que depois mostrou também que não era. Então eu pensei, poxa, você vai trabalhar na empresa americana, o americano ele faz aquele planejamento prévio, é maravilhoso, quando a obra começa, mentira. Então eram os mesmos problemas, tivemos os mesmos problemas, o senhor... Estava à frente, a gente vivenciou muito isso. E o fato é que aqui no Brasil, olha, eu vou te falar, a Odebrecht, pelas características que permitiam a Odebrecht, a Odebrecht tinha uma característica de viabilidade de obra que era diferente do mercado, eram outras circunstâncias. Então a gente tinha uma etapa que chamava engenharia montante, que a gente passava um ano estudando o projeto, mas assim, de forma extenuante, convidávamos os demais profissionais da empresa, cada equipe responsável pelo seu projeto. Ela convidava os demais engenheiros para apresentar o seu caso e permitir, mas quando a obra começava, ela estava muito bem resolvida. Não é a realidade do Brasil. Até por uma questão econômica. Então, para você viabilizar um empreendimento, ainda mais hoje nessa área mais predial, residencial, você precisa ter dado a viabilidade do empreendimento. O momento em que se fala da viabilidade, ele é muito próximo do início da obra. E só então que é liberado o recurso para você investir nessa questão da coordenação do projeto, do desenvolvimento e da coordenação do projeto. E é o que não acontece aqui. A gente começa as obras com os projetos extremamente em andamento. A coisa mais comum é você estar começando a obra com os projetos em andamento e traz impactos relevantes. Eu tenho casos onde eu trabalho de descontinuidade da obra. É o fim do mundo você ter uma descontinuidade, que seja um momento mais lento. Mas eu acho que assim, pensando um pouco na capacitação, se você me permitir fazer o papel do co-host que você.
Falou... Claro, na verdade eu já estava com você.
Não, eu queria ouvir, porque eu também tive essa... Quando eu comecei a estagiar, eu fiz FAAP, eu comecei em escritório de projeto. E tava ali relativamente confortável, achando que eu tava... E, por sorte, um amigo do meu irmão, que era um dos donos do escritório de projeto, ele falou, cara, você tem um jeito pra obra. Você não pode ficar aqui no escritório. E eu resisti pra caramba, até uma hora que ele deu um ultimato. Ele chegou no escritório e falou, você vai pra obra comigo. Cara, foi uma transformação na minha cabeça. Foi uma transformação. Isso foi no quarto ano da faculdade. O quinto ano eu simplesmente não ia mais na aula. Eu passava o quinto ano direto na obra. E ainda por cima porque era uma... não era Gomes de Almeida Fernandes, mas era uma escola de gerenciamento. Essa palavra gerenciamento era importante nessa formação. Gerenciamento de obras. E tornava aquela nossa atividade extremamente prazerosa, desafiadora. Ou seja, eu queria resolver. Era muito mais satisfatório estar no canteiro de obra do que na sala de aula. E eu, na Mauá, João Pedro, queria te ouvir um pouquinho, porque a Mauá, desde a minha época, tinha uma fama de não dar muita oportunidade. Até tinha, as piores eram Fei, USP, a FAP, a Mackenzie, um pouco a Mauá, davam mais chance do estudante ir pro campo, pro chão de fábrica, não importa qual engenharia. E você tá vendo o projeto. E essa história de ir pro campo, pro chão de fábrica, seja lá engenharia de materiais, civil, qualquer que seja, química, laboratório, é fundamental. Como é que você tá vendo isso lá?
Então, a maioria das pessoas lá na Mauá começam em obra, começam a estagiar em obra e se gostam, ficam, se não gostam, vão para o projeto. Normalmente a regra é assim. Eu tive... Era para eu ter começado a estagiar no terceiro ano, no ano passado. Só que aí eu participei de muitos concursos, fiz a iniciação científica, acabei falando... Vou ficar focando na faculdade esse ano, e ano que vem eu começo a estagiar. Aí surge a oportunidade de trabalhar com o Aurélio, aí eu falei, ah, vou direto para o projeto. Aí eu fui direto para o projeto.
Mas você trabalhou em obra um pouco ou não?
Não, não trabalhei nada, fui direto para o projeto. Visitei muita pouca obra, assim, com o Aurélio visitei algumas obras, assim. Mas, assim, eu sinto falta porque, assim, eu dei muita pouca noção de como é feito ou é executado na obra. Não tem muita pouca, é bem cheio, assim.
Acho que era ali que ele queria chegar.
Eu posso fazer uma pergunta? Só pra introduzir. Queria que você falasse, só pra você continuar, se vocês já tiveram dificuldade com algum profissional e justamente vocês percebiam que ele tinha muita vontade de aprender, mas ele acabou tendo dificuldade, de repente, para a leitura de uma planta por conta desse tipo de situação?
Eu tive, na verdade, vários, mas eu lembro de um ou dois quando eu era recém-formado e eu tinha os estagiários e a empresa que eu me formei, Ela tinha essa visão muito bacana de dar oportunidade para os mais jovens, mas ela preparava os mais jovens. Então as pessoas subiam muito rapidamente, como estagiário, engenheiro, coordenador de obras e assim por diante. E eu tive situações que me marcaram do estagiário praticamente vir e falar, olha, desisto, eu não estou conseguindo porque é a faculdade que o estudo não me permite. Então teve um caso a USP, o cara queria, queria de qualquer maneira aprender e a escola que ele estudava não dava essa oportunidade. O cara desistiu. Uma vez na Mauá também, que a Mauá tem fome de ser uma faculdade um pouco mais puxada. É mais fácil entrar do que sair.
Mas o lance que eu vejo da necessidade, mesmo sendo, vamos dizer, como eu te disse, eu já entrei para cálculo direto. Na verdade, eu comecei a calcular antes de entrar na escola. Foi uma história que eu já contei aí algumas vezes. Eu fazia matemática pura e fui trabalhar com meu pai e entrei calculando, desenhando, cortando armadura na munheca lá, tudo bem. Mas ele fazia uma coisa... Ele não era professor, mas... Nunca deu aula, mas era um grande professor. E uma das coisas que ele sempre falou e fez, e eu procuro fazer com quem trabalha comigo, é levar até a obra. Porque uma coisa é você desenhar, por exemplo, uma armadura de uma viga. Ah, vai aqui tantas barras de 20 milímetros, aqui os tribo é tanto cada tanto. Você sabe qual é o diâmetro? Porque desenhar uma linha e dizer uma barra de 20 milímetros é uma coisa. Chegar lá na obra e ver aquela armação com barras à milanesa aqui embaixo, que tem tanta barra de aço que não entra nem o concreto, você tinha que falar... Cara, como é que você faz o transpasse? Como é que você faz a montagem disso? Então, a noção do real, de ir até a obra e conviver com o real, porque a gente trabalha com uma abstração. A modelagem é uma abstração, mas ela não pode se distanciar do real. Porque isso vai ser feito de verdade, com barra de verdade, com estribo de verdade, com parafuso de verdade.
Tem um exemplo para mim marcante também, tenho tantos exemplos marcantes na história, mas vocês devem conhecer o Jorge, que era o diretor da Cirela. Cara fantástico também, agora ele está mais como dando consultoria. O Zorzi também é uma pessoa que me marcou porque foi engraçado, a gente trabalhava em empresas diferentes e teve momentos que eu construí pra ele e teve momentos que ele construiu pra mim, que eram empresas coligadas, uma incorporava e a outra construía e às vezes invertia o papel. E uma das coisas que me marcou convivendo com o Zorzi, um dia ele me ligou, ele me ligou e falou assim, ô Cater, podemos marcar numa obra que eu queria te mostrar uma coisa que eu vi lá e eu fui lá na obra e vocês não estão se apercebendo, eu era o construtor. E era exatamente isso. Ele foi me mostrar que era impossível executar uma armação, uma armadura, de um nó de pilar. Porque não tinha como o estribo ser colocado. Então o pessoal acabava cortando, cortava o estribo para encaixar. Ou seja, ele perdia a função, estava cortado. E daí começou a se desenvolver outras alternativas. Os ganchos, aqueles tipo S, sei lá o que e tal. Não vou lembrar porque eu não sou calculista. Mas está no exemplo... Tá ali um exemplo, ele levou também, ele levou o pessoal do escritório de cálculo, não vou lembrar mais quem era, mas ele levou e a gente, aquilo me marcou, porque agora quando eu entro numa obra, a hora que eu dou de cara com um nó de pilar...
A milanesa!
É, eu falo assim, pera aí, eu vou de cara verificar se foi executado de uma maneira que a obra deu um jeito, mas perdeu totalmente a função, a peça.
Sim, porque ela foi executada de outro.
Jeito, cortada, não mexeu. Então, isso que é bacana. Então, acho que essa coisa da...
Essa noção do real é A muito Mauá, importante.
Ela tem muita... Meu filho começou Mauá e veio a pandemia. Ele cursou três semanas, veio a pandemia.
Eu entrei na pandemia também.
Então.
No primeiro ano foi 2020.
Então, dele também. Mas aí ele acabou se dando direito e graças a Deus deu certo. 10K mais uma vez, eu fui vestir e pegou a pole. Ele tá na pole. Mas eu tive a oportunidade de visitar a Malá algumas vezes ali e me fascinou. Porque a Malá tem uma sintonia com o mercado. Seja lá, você vê a questão da indústria automobilística. É fantástico o que se faz na Malá. A Malá, ela é contratada e tal. E acho que você tem razão, Elu. Faz falta, eu percebo que a distância entre o meio acadêmico e o mercado, por mais iniciativas que a gente já teve, as iniciativas, a própria INCOL, quando ela começou com os convênios com as faculdades e algumas ainda tem, então, você percebe, ainda é muito distante. E aí a turma que está na faculdade acaba perdendo essa oportunidade de ir a campo e entender melhor, porque uma hora ele vai lá para o campo. E se ele não tiver a oportunidade de ver antes, indo um pouco na.
Questão da formação continuada, vai, Edu. Formação continuada ou da capacitação profissional. A hora que você, em frente a tudo isso que você tem, o tempo que você tem para estudo, a possibilidade, a distância da faculdade, você sai da faculdade lá longe para vir para o seu trabalho, você sai de lá da Mauá e vai para Lapa, né?
Eu trabalho primeiro, eu vou para Lapa primeiro, depois eu vou para Mauá.
Bom, tudo bem, é longe pra caramba, tal. Acaba dificuldando muita coisa. E uma outra coisa, vamos dizer, além dessa dificuldade, mas que as escolas deveriam trazer o estudante para conviver com o real. Não que você saiba grande coisa, eu lembro, por exemplo, quando a gente estava fazendo, eu não trabalhava no meu escritório ainda, eu trabalhava na Curcunha. E a gente fez a ampliação do shopping em Iguatemi, aquela garajona lá na frente e o terceiro piso do Iguatemi, que é todo em metálica. E eu ia para a obra de madrugada, porque você só pode trabalhar num shopping da hora que ele fecha e antes dele abrir. Então, na madrugada. E aí eu fui um dia, imagina, calculando metálica, me achava legal, hein? Fui lá, e os caras lá soldando um pilar. Soldando uma diagonal, uma placa de base do pilar. Falei, deixa eu fazer. Cara, eu levei um susto, porque aquilo chama a tua mão, você encosta o eletrodo, ferra com fogo.
Ah, você foi fazer a solda? Ah, claro, eu fui e queria fazer!
Ué, você calcula, manda o cara fazer. Não, não é assim, é assado, é frito. Bom, com que... Com que moral? Eu tenho a moral de saber, mas de chegar para o cara... Não, você faz assim. Como é que faz? Aí eu fui querer fazer. Claro que foi um desastre. Eles caíram à beça, se divertiram, às minhas custas, tudo bem. Passei a respeitá-los mais, aprendi com o negócio. Mas você tem uma série de coisas que o teu convívio com a obra não é só você pegar a noção do real. O processo de executar, de quem está na obra e que tem essa expertise que você não tem, para nós é muito abstrato. tem piorado muito com a questão dos grandes programas que a gente tem hoje, falando da parte de cálculo, não da obra. Da obra também por causa do gerenciamento. Mas vamos lá, você tem hoje programas maravilhosos, graças a Deus, que te permitem fazer a modelagem, que é uma abstração do real. Então você faz a abstração do real, você lança o modelo, você vê todas aquelas coisas, mas você botou... a restrição de uma barra chegando em outra. Quando você modelou isso, você se preocupou com isso. Como isso vai ser feito lá na obra? Vai ser engasgo? Vai ser rotulado? O que é isso? Então, eu acho que a gente tem que tomar um cuidado muito grande, porque isso tem sido presente no que eu tenho visto. Esse distanciamento do modelo do real, e aquilo que é possível fazer numa obra. Então, essa continuidade de capacitação e disso tudo, eu acho muito necessária, do ponto de vista que não é possível você, na faculdade, ter tudo o tempo todo. Ninguém pode ver tudo isso lá dentro. Não dá para ser sábio hoje. Dava para ser sábio na Grécia. Hoje não dá mais. Você não consegue saber tudo o tempo todo e com a profundidade que tem. Então, essa troca, por exemplo, entre uma modelagem no computador. Legal, a gente gata um TQS da vida, um STRAP, olha que maravilha. Você faz tudo. Lindo. Mas e na obra? Como é que você vai fazer isso?
Elô, eu tenho uma pergunta. É pra você, mas muito direcionado pra experiência que o Edson teve e algumas coisas que a Elô viveu. Quando você fala que lá no passado você encontrou uma pessoa que viu em você um potencial pra obra, Enfim, ele acabou te levando, você realmente se identificou e é quem é hoje. Então, foi um alguém que apareceu pra você. A Helô, ali tem as dificuldades dela vividas no campo, com a nova geração. Enfim, você vive essa falta, esse sentimento de, ah, eu gostaria de viver um pouco mais o canteiro de obra. Eu entendo que deve existir um interesse por parte da pessoa. Eu tenho esse interesse. Você força isso? Você se comunica? Você fala? Porque também a gente vive o momento de, ah, tudo bem, eu tenho vontade, mas eu não me manifesto. Como que é esse seu desejo? Como que você se manifesta no dia a dia junto ali à diretoria, aos seus colegas ali, enfim, que estão acima de você?
É que assim, eu acabei de entrar na empresa que eu tô, né? Entrei faz três meses. Então, a gente trabalha no projeto do metrô também, né? E é tipo, por exemplo, projeto do metrô vai ser executado, projeto básico do metrô vai ser executado daqui, sei lá, cinco anos ainda. Tem projeto executivo. Então assim, fica mais complicado porque não tem a obra ainda, né?
É, mais distante.
Mas no outro escritório que eu trabalhava, que era de edifícios, aí sim, eu fui visitar umas três vezes a obra. Mas assim, mesmo assim, é muito pouco, né? Que vai só vir alguma coisa e tal. Mas, sim, é... É mais difícil a comunicação, o estagiário e tal, mas...
Aquilo falou, o tempo é muito curto. A verdade é que você entra numa faculdade de engenharia de cinco anos, você fica dois anos no básico. Ainda é assim? Deve ser, né? Aí você escolhe a sua especialidade no terceiro. Meu, passa assim. E se você imaginar que você tem que fazer um estágio também, esse período que você faz o estágio, o tempo passa voando. Então, na verdade, é que a Helô falou, o curso talvez devesse demorar mais. Não à toa que tem cursos que demoram mais, medicina demora mais, e deve ter outras especialidades. Eu tive uma experiência particular na minha vida que foi muito favorável, que eu fiz escola técnica. Eu fiz a Escola Técnica Federal de São Paulo, que naquela ocasião, junto com o Liceu de Artes e Ofícios e algumas outras, tinha Instituto Tecnológico de Osasco, tinha umas poucas escolas técnicas. E eu vou te falar, eu acho que não teve nenhuma atividade de obra que nós não executamos na mão na escola técnica.
Sim.
Cortar aço e dobrar, montar instalação elétrica, montar estação, levantar parede, confeccionar concreto, bater forma. Olha que coisa maluca se você falar isso hoje. pra alguém, o cara falou pra você, fez isso, fizemos, topografia, locamos a escola, todas as atividades que compunham a construção, que era uma quantidade menor de disciplinas, que eu te falei, levantar a parede, fazer estrutura, elétrica, hidráulica, a gente fez. Então... Isso na escola técnica. Quando eu entrei na faculdade e fui para um escritório de projeto, era de instalações, aquele assunto já era extremamente familiar para mim. E aquilo que você falou, um exemplo que eu sempre lembro, um cara é um projetista se ele não tiver noção, ele monta... Uma sala de máquinas, de hidráulica especialmente, que é um conjunto de peças enorme. E ele pensa que vai caber aquele conjunto de peças naquele espaço, e na hora que você vai executar não cabe. Então, só que você vai descobrir depois que a sala já está lá montada. E aí a hora que você começa a ver, aí que entra a questão das peças que você falou, desenho da peça com peça com peça, se vai caber ou não vai caber. E no desenho, quando é um unifilar, aquela coisa unifilar, cabe tudo.
Sim.
Na hora de você executar... Se você.
Não tem noção da dimensão, cabe tudo.
Isso conta na disciplina da Elô na questão da armadura. De às vezes a... Pouco, né, Elô? Mas de você ter projetos que depois a armadura não cabe na forma. Hoje já não tem, mas quase, mas acontecia.
Hoje já não tem, mas já aconteceu muito.
Não Se tinha como dobrar a curva e tal, não cabia na forma. Ou a tamanha quantidade. No Matarazzo, Aconteceu. Era um projeto que tinha uma densidade de armadura tão alta que no projeto cabia. Mas na hora que você ia montar os balanços, principalmente os balanços de 4, 5 metros, a hora que você começava a montar não cabia. Não cabia, não sobrava espaço para entrar o concreto.
Fora quando ocorre, você falou nos balanços e eu estou rindo agora que a gente fez a obra do Shopping de Campinas. e foi junto com o César Pereira Lopes. Eu fazia a metálica, o César fazia o concreto. E pediram uns balanços enormes no concreto, que obviamente deram uma taxa de armadura tamanho do bote. Aí eu chego pra fazer o que eu vou fazer de metálica, eu preciso botar chubador.
Não tinha onde?
Não teve uma placa de base padrão. Porque você tinha que fazer uma máscara em cima e desviar das armaduras. Não tinha nenhuma padrão. Ou seja, foi um artesanato aquele negócio. em decorrência desse monte de coisas. Mas quando eu falo da educação continuada, eu acho que a gente tem... Você já falou isso, você vai fazer, e eu já falei também. A escola não te ensina tudo. E outra, o mundo não para no dia que você sai da escola. Por exemplo, eu fiz matemática antes de fazer engenharia. E um dia me caiu na mão um livro sensacional, que era a demonstração do Teorema de Fermat, que foi um teorema que ficou só 350 anos sem ninguém conseguir demonstrar, porque não existia matemática para ele ainda. Não era possível demonstrar aquele teorema com o que se conhecia de matemática. E eu saí do mestrado do IME, sem conhecer a matemática necessária para ter essa demonstração. Ou seja, a engenharia é igual. Você não vai sair da escola sabendo tudo sobre engenharia, como eu não saí, como você não saiu. A gente foi aprendendo e vai aprendendo ao longo do tempo. Então, por exemplo, quando a gente fala de capacitação, o que a gente está querendo? Porque um outro que fala de monte é o Marcelo, meu parceiro nessa questão. Quer dizer, eu sou parceiro dele, ele começou antes. Então, o que acontece é o seguinte, você, quando sai de uma escola, ou como você está vivenciando um processo, Você tem que ter conceitos básicos muito bem formados, que é isso que a escola tem que dar. De forma que você, tendo esse conceito, você consiga acompanhar o que vem de tecnologia na frente. Dá preguiça, de repente, aprender um programa novo? Dá. Mas se você tem o conceito do que é aquilo, você consegue aprender mais rápido e se atualizar mais rápido. O que a gente fala de capacitação é assim, gente, ninguém está formado pro resto da vida nunca. E não tá. Eu não tô formado pro resto da vida. Tudo bem que não falta muito, mas não tô formado pro resto da vida. Porque o dia inteiro tá aparecendo, por exemplo, você falou do Bin. A hora que apareceu o Bin lá no escritório, eu falei, ai, que dose. Vai ser que nem quando apareceu o Cade. Quando apareceu o Cade era a mesma coisa. Aquela dificuldade, ai tem que fazer desse jeito, ai que chato, ai tem que aprender a linguagem e tal. Foi igualzinho. A gente aprendeu, trabalhou com ele. O BIM é a mesma coisa. Só que o que acontece? A gente tem que saber hoje o que aprender de cada coisa na tua área pra você ser bom o suficiente pra conversar com o outro. Mas isso não quer dizer que eu tenha que saber mexer com o BIM. Eu tenho que saber conversar com quem vai usar o BIM para gerenciar uma obra. Sim, o BIM vai fazer o quê? Ele vai fazer você construir uma obra... hipoteticamente, num modelo, pra que quando você for construir ela de verdade, você tenha o menor número de surpresas possíveis. O que não quer dizer que não vai haver, tá? Vai haver.
Inclusive pela quantidade de subsistemas...
Não só a quantidade. Aí vamos para os profissionais que estão na obra. Por exemplo, vou falar de linguagem. A linguagem da estrutura metálica, e você participou de um concurso, você sabe que ela é completamente diferente da linguagem do concreto. Fazer uma forma de concreto é dar forma a alguma coisa, porque o concreto não tem forma. Ele é uma geleca. Enquanto você não fizer uma forma, o concreto não tem forma. Por isso você precisa desenhar a forma de concreto. Você precisa desenhar uma ação de concreto. Você precisa saber o tamanho das bitólatas, se na emenda dá certo, o nozinho, etc. A linguagem da Metallica, que era unifilar durante muito tempo, já deixou de ser, porque o unifilar só entendia aquela linguagem os experts da linguagem. Então, era a pia que sabia, aquela turma que lia no unifilar perfeitamente tudo. Você punha só a linha e botava o nome do perfil e acabou. Hoje você já tem uma necessidade pelas interfaces de desenhar a estrutura metálica, vamos dizer, sem ser unifilar. Ela já entra com as larguras de aba e tal, mas largura, não com espessura. É um projeto de fabricação. Como é que eu vou pôr no papel uma linha de 3 milímetros? É espessura da chapa. Seis milímetros. Cara, não dá para desenhar isso. Então, existe uma coisa que fica subentendida, que só entende quem entende a linguagem. Então, por exemplo, eu já propus para várias construtoras. Gente, eu vou até aí e dou uma aula de meia hora por semana de como se lê uma estrutura metálica. Porque você fala, ah, não, mas tem o projeto de fabricação. E a turma confunde, por exemplo, na metálica, o que é projeto executivo, que é o que eu faço, do que é o projeto de fabricação, que é o que o fabricante faz. Há uma diferença entre os dois. Até onde vai o meu, até onde você pinta de verdinho, vermelhinho, e até onde o outro entra. Essa linguagem precisa ser entendida agora. Aí os caras falam, ah, mas isso é metálica, não é civil. Não é civil por quê? Porque é mecânica. Não, não é mecânica. Ela é civil também. Foi mecânica lá atrás. Não é. Mecânico é o engenheiro responsável pela fábrica. Você tem que ter um engenheiro mecânico lá dentro. Que entenda de metalurgia, de soldas, etc. Mas no escritório, não. Eu não entendo de metalurgia para poder chegar numa fábrica de metálica. Eu entendo de estática. De como é que eu vou fazer ligações, como é que eu vou fazer esse prédio ou essa estrutura Ficar de pé e atender às demais necessidades que ela tenha. Então, hoje, quando você começa... Ah, não, eu vou fazer unifilar. Cara, você não vai, porque o cara não vai entender. Hoje, por exemplo, a gente está entrando com a madeira. Madeira laminada e colada. É a mesma questão da fábrica de estrutura de metálica. Eu não fabrico madeira laminada e colada, eu calculo. Mas existem aqueles que tem o sistema todo pronto. Tem lá a AITA, tem a CROSLAN, tem uma pancada de gente que tem o sistema pronto, ele tem o LEGO pronto. Então o cara vai lá, compra, eles fornecem o material, porque ele já conhece o material, os elementos de ligação, conhece tudo. O projeto deles é quase que um diagrama de montagem, já que eles calculam, eles fabricam, eles montam. Ele não tem que desenhar tudo bonitinho, exceto por um fato. Ele tem que fazer a compatibilização com a hidráulica, com a arquitetura, com um monte de gente. Então começa a vir essa necessidade de você, não sendo um calculista de madeira, poder entender o que você está recebendo. Senão a obra vai sair uma desgraça. Então essa interface das linguagens é que é extremamente importante na capacitação. Você saiu da escola com a caixinha de ferramenta? Ótimo! Mas, cara, você tem que ter alguém que te diga, ó, quando você pegar uma goiva, ao invés de fazer assim, faz ela de ladinho, que dá melhor o resultado. Ou, ah, eu vou tocar piano.
Isso é no campo.
É no campo, não tem outro lugar pra você aprender isso.
É. E, inclusive, eu gosto de dizer o seguinte, a gente aprende muito com os erros, né?
Sempre, mas é melhor que o erro dos outros.
É engraçado, você sabe que o caso do, foi um evento que eu fui apresentar, o caso do Porto Atlântico, que era uma obra de metálica gigante, 120 mil metros quadrados, quatro edificações, cinco subsolos, totalmente metálico, na época do Odebrecht, quem fez foi a Kodemi, que é um pessoal bacana lá, um dos donos da Kodemi é um co-autor de Norma, acho que é o Roberval, né? Fantástico, conversar com aquele cara e tal. E a gente fez muita coisa errada. E o bacana é que quando a gente foi apresentar o case, foi um dia que foi até interessante, foi o mesmo dia, a gente apresentou acho que no Secóvio, assim, nos cons. Eu apresentei o case do Porto Atlântico e um engenheiro, um gerente da obra da Camargo, apresentou o case do Viol. Que era outra obra magnífica, né, de Metallica. E nós dois, foi uma coincidência, no final a gente apresentou que não deu certo. O que eu faria diferente, né?
Sim.
E é bacana isso, porque você... E aí eu lembro que até o Roberto Souza falou, poxa, acho que foi a coisa mais legal da apresentação foi você.
Mostrar... Sim, você porque apresenta na hora que o que não deu certo.
O que não deu certo. E não é só falar que é case de sucesso, teve um monte de insucesso.
E sempre tem.
Sempre tem, mas aí na outra obra você já... a lição aprendida, a famosa lição aprendida.
E uma coisa que eu sinto uma falta muito grande entre nós engenheiros todos, os de obra, os de cálculo e etc e tal, é falar sobre o que não deu certo. A gente tem, talvez porque se cobre da engenharia ou do engenheiro, a certeza, a confiança, a assertividade, então a gente tem uma dificuldade muito grande de falar do não acerto. de falar do erro, de falar do problema, porque você é cobrado pela certividade, você não é cobrado, quer dizer, na hora que você fala, ih, errei, fiz uma bobagem, e todo mundo faz, um dia você vai fazer, se você não fez até hoje, espera que um dia você vai fazer, todo mundo faz, só não erra quem não faz e aí errou porque não fez. Então, vamos combinar que todo mundo erra.
Mas sabe um ponto que me chama a atenção em vocês dois? Talvez que você deve estar tendo... A gente não deixa de falar.
Não, não, não.
Você deve estar tendo a mesma observação, que é assim, ó. Você pega pessoas super experientes, que de certa forma têm muita credibilidade no mercado, mas que muitas vezes têm dificuldade de ser ouvido por uma construtora. Isso com a credibilidade que vocês têm, só que vocês têm um diferencial. Primeiro, ó, eu estou aprendendo, não sei tudo. Só o que eu ouço muito de pessoas experientes é a dificuldade de se comunicar com essa nova geração no sentido de eles estão chegando agora da faculdade e acham que sabem muito. Já aconteceu alguma situação com vocês?
Eu não resumiria assim. Acho que isso é uma sensação que se cria, mas não dá pra sintetizar nessa frase. É que nem eu falei. Hoje, essa moçada tá vindo da escola, indo pra campo...
Mas não generalizando, tá?
Não, não, não. Tudo bem. Com tanto mais coisas a lidar, né? Se você pensar nas ferramentas, nas disciplinas, nas especialidades, nas certificações, nas demandas, nos relatórios. Eu vejo nas minhas obras, eu fico com pena. Você chega lá e você vê uma equipe muito bacana e olha, tem uma moçada nova, eu tenho uma equipe de engenheiros recém-formados que são fantásticos, mulheres. Muito bacana isso.
Mulheres... Bom, devo dizer que essas obras foram mulheres as gerentes de obras.
Então, é isso. Não é bacana porque elas trazem um olhar, um outro olhar, muito legal. É o toque feminino, é uma coisa... É um olhar até às vezes mais cuidadoso, né? Mas é um grupo de moças e moços que eles vêm com uma gana. Só que, ao mesmo tempo, que nem eu falei, quando eu comecei, eu tinha muito mais tempo. Eu tinha muito menos coisa pra aprender no mesmo tempo. A quantidade de informações que nós estamos processando, seja na nossa cabeça, seja nas ferramentas, nos aparelhos, no mesmo tempo, é gigante hoje em dia. Isso está trazendo uma falsa sensação de insucesso, de dar a impressão de que eu não estou aprendendo. Não é. É a carga que é muito grande. Por isso que eu acho que também é o momento de alguma transição. Acho. Tomara que seja. Porque eu também tinha as minhas dificuldades naquele momento. Você lidava com aquele momento com meia dúzia de projetos, com nenhuma ferramenta praticamente informatizada, era papel. Você também tinha as suas dificuldades, mas você tinha um outro tempo. Hoje você tem uma série de coisas maravilhosas, os softwares que calculam, as ferramentas de gestão maravilhosas e a própria percepção que as pessoas têm hoje do que é mais ético, do que é mais sustentável, a questão ambiental, que a gente passou muito tempo ignorando, pra não dizer... Segurança, segurança... Vamos falar do assunto segurança? Meu Deus do céu, se eu ficar lembrando como é que eu fazia as minhas obras... Em relação à segurança do trabalho, você vê hoje o cuidado que tem. Isso é muito bacana, mas o que a gente tem que se preparar é dar condição para essas pessoas que estão entrando lidarem com tudo isso ao mesmo tempo. E aí isso começa na questão da própria viabilidade. Como é que eu vou viabilizar? Essa é uma área minha também, de como materializar um orçamento de obra que permita o que as pessoas vão lá e executem. Com todos os conceitos de execuibilidade, segurança, sustentabilidade técnica, execuibilidade total. Acho que é esse que é um pouco do que está acontecendo. Então acho que o olhar do cliente, quando você falou o olhar do cliente, eu me pego muitas vezes tendo que explicar para o meu cliente contratante, seja lá externo, para quem eu presto serviço algumas incorporadoras, seja o interno que nós também incorporamos, a gente se pega o tempo todo tendo que explicar para eles o porquê que eu preciso de determinada pessoa trabalhando. Eu tenho um cliente, por exemplo, quando eu falei de segurança, que ele é fissurado por segurança e me questionou por que que eu mantenho no orçamento um técnico de segurança full time na obra. Eu falo, gente, eu não consigo imaginar que eu estou fazendo uma obra e tenho um segundo sequer que eu não tenha alguém com um olhar de segurança ou com um sistema de proteção coletiva. Então, quando você perguntou da gente conseguir com o tempo ir mostrando para o cliente contratante, Quando você fala, o cara ele entende de construção, ele não precisa entender, porque quando ele não entender, tomara que ele recorra, por exemplo, às empresas de gerenciamento. É muito comum que o cliente incorporador, quando ele não é da área, até porque hoje tem incorporador na construção, que vem de tudo, vem do agronegócio, não.
É a raiz, não tem.
Então tomara que ele recorra realmente a uma empresa de gerenciamento que vai poder mostrar pra ele e que explique pra ele porque a outra ponta que executa tem razão quando quer especificar, prever e provisionar recurso pra que aquela obra que ele quer, aquele produto que ele quer materializar aconteça da maneira correta.
E uma coisa que é importante também pra você mostrar para o cliente, para o incorporador. Se a gente antes tinha um tempão para projetar, e a obra também tinha um tempão para ser feita, hoje você tem tudo muito rápido. É tudo muito rápido, tanto o projeto quanto a obra, quanto tudo isso. Agora, a importância de que o projeto tenha conhecimento do que vai ser feito, o projeto, o incorporador, o orçamentista, o gerente de projetos, o calculista, o especialista de cada coisa, e que o que se gasta aqui é economia daqui pra lá, porque os caras acham que economia é economizar em tudo. Não. Essa primeira parte, não que você vai sair gastando arrodo, não é isso, mas que essa primeira parte de estudo, isso não é gasto, é investimento, é exatamente isso. Não é gasto, é investimento. O que você, nesta fase, consegue estudar, antever, costurar e deixar pronto, vai ser um ganho enorme no que vem lá na frente. Então, na hora de, vamos dizer, vendo na formação de um engenheiro, a formação da engenharia, as escolas, tudo isso, isso é um investimento, gente. Educação é investimento. Formação é investimento. Não se pode pensar que o cara aprende depois, ele se vira. Não. Você tem que investir no ensino, porque isso é o que vai gerar a otimização de tudo e dar uma economia tremenda lá na frente.
O potencial de economia. Tem aquele famoso gráfico que é que a oportunidade de economia e de qualidade é inversamente proporcional ao tempo. Quanto mais o tempo passa, mais distante.
Você está da... E é desafiador.
É fácil.
É desafiador transmitir isso para aquele investidor. Você investe aqui, mas você ganha lá na frente.
Depende de cada um.
Depende dos caras.
Depende deles.
Depende do segmento que você está. Eu imagino que você enfrente isso muito mais do que eu. Porque como eu me especializei em encrenca, Quem me procura já sabe o que vai ser para resolver a encrenca. Mas digamos que fosse um predial, uma coisa assim. Vai ter a exprimição de, não, eu tenho um fulano que faz mais barato, vai ter isso. Do mesmo jeito que na obra o cara vai, ah, não, ele especificou tal material que é fantástico, maravilhoso, mas tem um similar aqui. que dá para se usar. Então, esse conceito de que, numa obra, o pensamento todo vai no sentido de quanto mais planejado, quanto mais estudado, quanto maior a sua continuidade nas pesquisas, em conhecer coisas, é super importante porque isso vai gerar uma baita economia depois. uma viabilidade de uma obra legal e que você não pode só pensar na entrega da obra, você tem que pensar na vida dessa obra.
É, Luiza, eu acho que nesse ponto que eu acho que talvez a moçada hoje está mais preparada do que da antigamente, porque a gente antes era muito mecânico, apesar de ter mais tempo, menos projeto, a gente era menos provocado. Era menos provocado. Hoje você tem uma provocação constante, o que também traz um pouco de tensão e estresse. Mas eu vejo os estudantes hoje muito mais provocados e motivados a pensar em tecnologia, em reengenharia. Eu gosto dessa palavra porque ela é muito usada no meu setor. Ela é uma necessidade a reengenharia, porque nada nasceu perfeito. Depois que você tem um conjunto de projetos, você ainda tem toda oportunidade de novo, quanto mais rápido possível. E essa moçada tem essa vontade. O que eles precisam ter é um pouco de tempo, mas a vontade e a capacitação para olhar para as oportunidades de reengenharia, eu acho até que são maiores do que quando eu comecei. Porque não tinha muita inovação. Então, como fazer hoje? Vou dar um exemplo. Quando é que você vai fazer um bloco de fundação, você precisa ter uma forma, não dá para usar aquela forma que é amarrada no... São alternativas que não existiam antigamente, era muito mais artesanal, ainda é artesanal, mas tem algumas alternativas a mais. E eles têm mais condição de ser provocados a pensar nisso e trazer.
Tem. Você falou de um termo que eu até brincava com o Paulo antes, que às vezes me arrepia. Reengenharia. existem conceitos muito díspares do que é reengenharia. Eu já recebi e fui mal criada, devo dizer que fui bem mal criada, com alguém que liga para o meu escritório e fala, estou aqui com o seu projeto, mas eu vou fazer uma reengenharia no seu projeto? Eu mandei catar coquinho e desliguei o telefone. Então vamos lá. Reengenharia no sentido de que feito todos os projetos, ajustados todos os projetos, você chame todo mundo que participou disso. Olha, aqui, se a gente fizer assim, a gente pode melhorar. Mas vem conversar comigo. Não vai me chamar um fabricante de metálica e dizer que ele vai fazer uma reengenharia do meu projeto. Sabe o que ele vai fazer? Ele vai pegar tudo que foi estudado com as instalações, com a arquitetura, com tudo Ah, não, esse perfil W tá muito. Eu vou botar um de chapa dobrada.
Isso acontece no... Acontece.
E acontece de monte.
Mas você tem que recalcular tudo, né?
Eu?
Ele recalcula e fornece pro cliente e no outro juiz. O comentário dele é o não entendimento.
Do que é a reengenharia.
A facilidade com que a pessoa traz pra ela alguma coisa, como se fosse reinventando a roda. Desconsiderando tudo que foi trabalhado até ali. Eu costumo dizer que a gente paga bem para alguém projetar, recolher uma RT. O respeito que você tem que ter pelos projetistas é enorme. Aliás, eu nem preciso. Se eu tenho, se eu recorri a um projetista que recolheu uma RT, torci todo o conhecimento dele para projetar algo, ainda que a gente como engenheiro se sinta à vontade para discutir, Você pode discutir. Com bastante frequência, fundação, por exemplo, e contenção, é uma disciplina que a gente rediscute bastante. Precisa, não precisa e tal. Mas sempre colocando o projetista como... Sim.
Por exemplo, no próprio Museu Paulista, falando em fundações, você tinha ali, por sondagens e etc., você tinha uma especificação para fundações que o engenheiro de fundações, que era o Marcos Guimarães, tinha especificado. Aí chegou num ponto, em que apareceu água, não era para aparecer, o riacho de piranga está lá embaixo, não era para estar lá em cima, mas tinha um trecho em que apareceu. Ali foi necessário mudar, e o que ia ser uma sapata, passou a ser estaca raiz. Você teve que mudar ali. Por quê? Porque a contingência do projeto trouxe isso. O que a gerente da obra, que era uma mulher sida, o que ela foi buscar? Chamou o Marcos, me chamou, chamou quem tinha feito o coiso, e nós fizemos revisão daquilo tudo, adequando É uma nova circunstância. É uma nova situação. É diferente de você chegar, por exemplo, eu falo que na Metallica ocorre muito isso. Os caras vão, fazem todo o projeto, a gente discute seis meses com a arquitetura, porque eu quero que a aba do perfil arremate o cachilho aqui na borda. E aí o cara vem e troca por um perfil de chapa dobrada que.
Não tem nada a ver com coisa nenhuma.
Porque é mais barato. Agora, como? Que negócio é esse? Quer dizer, uma coisa é um projeto de fabricação chegar pra você, por exemplo, e dizer, olha, Elô, a gente aqui tem usado tal processo e feito tal coisa e tem dado certo. Eu olho, bato o papo, que legal a sua solução, bora, vamos fazer essa. Sem problemas. Mas fazer o que tem gente que entende ser reengenharia, que é simplesmente dar pra outro fazer mais barato, não. Você joga fora toda a engenharia feita com aqueles 30 caras que estão na telinha.
Além do que isso custa, né?
Não, e esse cara não estava lá. Ele chegou depois, quer pegar a janelinha? Não, para. Não é isso. Existe todo um processo, então uma coisa que é importante a gente entender Eu digo que a linguagem é um negócio extremamente importante. Do mesmo jeito que eu te falei que a linguagem do concreto é diferente da linguagem da madeira, é diferente da linguagem da metálica. Cada um deles fala numa língua, desenha com um símbolo diferente. É a linguagem específica de cada um que a gente tem que aprender. Você tem que ler tudo. Você não pode ler só um e falar assim, ah, eu vou fazer concreto porque eu só sei ler concreto. Não, senhor. Aprenda a ler tudo e faça o que for melhor para a tua obra. Mas na hora que você está fazendo essa linguagem, essa coisa toda, é muito importante que haja essa compatibilização de todo mundo e que se entenda o que cada termo quer dizer. Então o termo reengenharia tem que ser entendido de uma forma diferente do que vem sendo entendido não pelas grandes construtoras, que essas sabem entender o valor das coisas, mas em obras menores. Por exemplo, do mesmo jeito que eu faço essas grandonas confusas, eu faço umas casas de arquitetura que, como eu digo, arquitetura moderna, engenharia barroca. Porque pra embutir tudo, você tem que embutir o trilho do cachilho, você tem que embutir tudo porque o acabado tem que ser lisinho. Pra o acabado ser lisinho, tudo tem que estar embutido em algum lugar. Então a arquitetura é moderna, a engenharia é barroca, cheia dos detalhinhos no meio do caminho. Então, essa questão da linguagem ser entendida de uma forma clara, não importa o tamanho da obra, e não tem que importar mesmo. Não é porque uma obra é pequena que você pode fazê-la de qualquer jeito. Não pode. Você tem que ter o conceito do que você está fazendo. E outra coisa que a gente fala muito da questão da formação continuada, da capacitação, Se você é uma pessoa que se mostra capaz até determinado ponto, então vamos dizer há 30 anos atrás, eu me sentia capaz de ir até um ponto. A partir dali, eu sabia que eu tinha que estudar para me capacitar para mais que isso. Assim como você. Você começou com uma obra pequena, aí você vai, vai indo, vai indo. Ou seja, capacitar é elevar o sarrafo do seu salto cada vez que você aprende alguma coisa.
É conhecimento.
E é conhecimento. Tem uma coisa que também é extremamente importante, que é a gente não confundir informação com conhecimento. Eu não sei se você tem isso, mas eu tenho ainda, por afetividade, uma pasta desse tamanho com catálogos. Era difícil a gente achar catálogo antes, catálogo técnico, de telha, de perfil, de parafuso, de tudo. Quando você achava, aquilo era uma preciosidade, você guardava. Hoje, você dá um Google, em três segundos aparecem 15 mil catálogos para você olhar. Agora, uma coisa é você ter facilidade de informação. A outra coisa é você ter conhecimento. O conhecimento, você tem que deglutir aquilo, mastigar, digerir, para depois poder usar. Então, hoje, a gente tem uma facilidade de informação muito rápida. E, às vezes, isso tem dado problema Por exemplo, você falou que às vezes fica difícil você perguntar. Eu acho que você tinha que ser descarado e perguntar tudo, porque às vezes você tem uma informação que você acha que você entendeu tudo. E na hora que você chega e fala para o Marcelo, esse negócio aqui é assim mesmo? Ele vai te dar uma aula com o maior prazer. Porque ele vai pegar aquilo que você trouxe como informação e vai transformar em conhecimento para você. Então, a quantidade de informação que a gente tem hoje, mesmo que foi o que ele falou um monte de vezes, é muito grande. A gente tem muita coisa para conhecer. Agora, para se informar, e para conhecer profundamente, saber trabalhar com aquilo, pegar, mexer, a gente tinha, sei lá, você não sei, muito provavelmente, mas a gente, quando era moleque, eu fui moleca. Eu sempre gostei muito de brincar, de construir coisa, cabaninha, fazer um monte de coisa. Então, pipa, aquele monte de coisa que você aprende. Quando você vai fazer uma pipa, você começa a aprender o que é tração, o que é compressão, por que você tem a barra rígida, por que você tem o tirantinho. Você não sabe por que chama barra rígida, porque não chama, chama vareta. Você não sabe que chama linha, porque você não sabe que você pôs o contrapeso, a rabiola lá, porque você tem que ter um contraponto pro vento pra dar estabilidade. Você intui tudo aquilo. Só que quando você vai pra faculdade de engenharia, você fala, ah... Esse contrapeso tá aqui pra criar binário com aquele negócio. Eu não sabia o que era binário. Eu sabia que eu empiarava a pipa. Acabou. Então, esse conhecimento que a gente tinha muito intuitivo por manusear coisas, hoje você não tem. Vocês brincaram de monte, como os meus filhos também. Só que eles são mais velhos que você. Pô, os caras jogavam videogame japonês sem falar uma palavra de japonês. Na tentativa e erro. Você ia lá, aí você apertava esse botãozinho e dava isso, você apertava aquele botãozinho e dava aquilo. E os caras jogavam videogame japonês.
Mas é lógico, o que você comentou, que hoje o desafio é que a quantidade de informação é tão grande que é a turma perceber, não pode ser tão mecânico.
Não.
E essa, você usou a palavra certo, que é intuitivo. Essa intuição tem que estar presente em cada um. A curiosidade, a intuição, a percepção, porque isso diminui riscos.
Diminui riscos.
Porque os riscos grandes. Se são acreditar na tua intuição. É. Os riscos são grandes. Nós estamos falando de uma disciplina de risco enorme que é uma construção. Então, se você... Eu já vi. Eu já vi gente que eu conheço, colegas meus, por pouco terem tomado decisões que, se tivesse ido adiante, você poderia quase causar uma ruína. Então, acontece. A pessoa estava, talvez, um pouquinho no afã de resolver e não se apercebeu. Ou mero conhecimento, não é uma questão só no afã de resolver. Então, essa questão da intuição é muito importante. Que é o que eu acho que está acontecendo. A turma tá muito mais, assim, é um massacre a quantidade de informações.
De informação, é. Ensaio sobre a cegueira, eu chamo isso.
Ensaio sobre a cegueira.
Demandas, demandas.
É verdade. Excesso de luz. Você lembra do livro do Saramago?
É.
Não é uma cegueira que te deixa tudo escuro, é o contrário. Você bota esse monte de foco de luz na sua frente e você fica tão cego quanto quem é cego de verdade. Porque é tanta informação, é tanta luz na sua cara que você não consegue distinguir as coisas.
Priorizar e assim por diante.
Então, o excesso de informação pode te causar um ensaio da cegueira mesmo.
Vamos aproveitar. O que vocês, com a experiência de vocês, diriam para esses jovens que estão no processo de formação? Porque o que a gente está tendo aqui é uma aula.
A primeira coisa é pergunta. Não tenha vergonha de perguntar. Se apareceu na sua frente uma coisa que você olhou, mas não entendeu direito, Seja descarado, pergunta, apaga o mícono, sem problema de ser feliz. Eu acho que o perguntar é extremamente importante. E essa questão de intuição, de tentar lembrar como é que funciona, ou, por exemplo, olhar uma coisa, você está olhando aquele tripé ali. Você fala, puts, você lembra quando você estava lá fazendo uma aula de topografia e vinha um engraçadinho e chutava o pé daquilo? Desnivelava tudo. Você queria matar o desgrama que fez aquela história. Pô, mas por que você só tem... Por exemplo, outro dia eu fui numa obra em que tinha um portão extremamente grande. Portão de correr. Enorme. Como o portão era muito grande, puseram três rodas. E a parede não estava absolutamente nivelada, o trilho onde corriam as três rodas. Aí eu cheguei e falei pros caras, reforça as duas rodas da extremidade e tira do meio. Por quê? Eu falei, porque três pontos definem uma curva. dois pontos definem uma reta. Se o seu portão é uma reta, é um plano, ele tem que andar por uma reta. Se você põe três pontos, ele vai acompanhar a deformidade da parede. Reforça duas linhas, duas roldanas e tira do meio. Se você está querendo fazer aqui uma coisa reta, ande por uma curva. Não vai dar certo, ele vai emperrar. Aí você fala assim, nossa, que legal. Gente, isso é geometria básica, que você aprende E você fala, não vou usar essa porcaria nunca mais. Vai! Então, o lance de você observar coisas. Então, olha com curiosidade, com fome. Aliás, tem uma frase da Adélia Prado que eu acho fantástica. Eu não quero nem a faca, nem o queijo. Eu quero a fome. E é isso. Olha com fome. Quando você olhar alguma coisa, olha com fome. Por que esse negócio funciona desse jeito? E se eu tirasse isso daqui e pusesse isso lá? Que bicho que ia dar? O que ia acontecer? Então, esse tipo de questionamento e de pergunta, e que é óbvio, vai ter horas que você vai sacar sozinho e vai ter horas que você vai falar que, puta, não consigo. Vai pra alguém mais velho e pergunta. Então, a primeira questão é muita informação, é muita coisa. Não são fáceis. A gente aprende umas coisas cabeludas.
O desafio está aí. O meio que a turma está vivendo está dificultando com que ela se dê a oportunidade de questionar. E ela é elevada a executar as coisas como são impostas e acho que você tem que sempre encontrar um momento pra refletir. E normalmente o momento de reflexão não é na hora que você tá no campo. É o travesseiro. É verdade. A gente fica horas e horas durante o dia trabalhando e não é a hora que você pensa melhor. Você é muito mecânico. Tudo bem, lógico que você tá trazendo uma engenharia, uma carga técnica enorme e a visão gerencial. Todo esse conjunto de coisas. Mas tem que caber, tem que ter um espaço pra fazer uma reflexão. E que nem ele falou, eu já ouvi isso muito de alguns professores projetistas meus. Tem um projetista que eu gosto muito, que até hoje o José Luiz da Apoio.
Ah, sim.
Que é um professor.
Sim.
E ele falava isso. Ele falava, Edson, o que eu gosto é que você tá 20 anos, 30 anos, você continua me ligando e perguntando. Até dizer assim, professor, eu não lembro mais como é que faz isso. Hoje eu falo pros meus meninos, falo, eu não lembro mais como é que faz isso. Como é que faz? E não tem que ter vergonha de perguntar. Você tem que perguntar. Porque por deixar de perguntar, você pode estar direcionando uma decisão de uma forma totalmente equivocada. Então, tem que dar uma oportunidade de sair do mecânico da informatização e se questionar, será que isso está sendo a melhor coisa? Ou procurar outra forma e provocar. Procurar a pessoa mais velha e falar, pensei em fazer dessa forma. Não tem que ter vergonha. Porque existem. Existem as formas de fazer. Diferente.
Não, aí tem certas coisas, vamos dizer que nos livros está descrito de uma forma, não que você vai duvidar dos livros, não é isso que eu quero dizer, mas que ele está de uma forma extremamente teórica. Por exemplo, uma das discussões que eu tenho levado muito para a academia, professores de engenharia e tal, é que está havendo um distanciamento muito grande entre a academia e a engenharia. Eu lembro que, você deve lembrar disso também, que quando a gente recebeu o Código de Ética da Engenharia e outras coisas, Instituto de Engenharia, etc. Então, você tinha lá engenheiro júnior até cinco anos de formado na mesma especialidade ou graduação. Engenheiro pleno, 10 anos de formado, com experiência ou mestrado. Engenheiro sênior, 15 anos de formado ou... Veja, esse ou é importante. Se você está na sua especialidade, matando um leão por dia, Há 15 anos, você é um engenheiro sênior. Mesmo não fazendo um doutorado, mesmo não fazendo nada disso, você ali é um cara expert nessa história. Ou você faz academia. Agora, a academia não pode se distanciar. Ela tem que se distanciar porque ela tem que fazer pesquisa. E a pesquisa nem sempre está no campo. Está em materiais novos, está em novas tecnologias que não estão sendo usadas lá. Então é importante a academia ter um certo distanciamento da obra, porque ela tem que buscar coisa nova, ela tem que ir atrás do novo, do que não se está fazendo, mas você não pode abrir um espaço, um rombo entre uma coisa e outra. Porque quantos vão sair da faculdade e vão querer ser professores? Esses caras vão ter que saber ensinar a quem não quer ser professora, quem quer ir para a obra. a quem quer ser calculista, a quem quer ser especialista em vidro, a quem quer ser especialista em segurança do trabalho, ou hidráulica, ou elétrica. Então, não pode haver esse abismo entre a academia e a realidade.
E nem essa questão, por exemplo, de detalhar. Você me fez lembrar a questão da norma de desempenho.
Sim.
Porque a norma de desempenho, ela mudou um paradigma, foi fantástico. Ela não remete pra você dizer como vai executar uma coisa, mas é o desempenho que tem que ter ao final. Antigamente as normas eram prescriptivas, você dizia como executar alguma coisa pra poder chegar num determinado desempenho.
E hoje nas revisões de normas sim.
A gente tirou um monte de coisa. Cara, se você invente coisas, cria, mas você tem que chegar nesse mesmo desempenho.
O desempenho é que é cobrado, quer dizer, não só o desempenho da entrega, né? A entrega e o que vai acontecer com isso ao isso que longo traz do tempo.
É a melhoria constante.
Isso é muito interessante, né? Porque te leva a prova, peraí, deixa eu pensar mais em novas soluções, novas.
Opções para chegar na atividade.
Não, e você tem que ter a pesquisa, porque se você não tiver a pesquisa numa universidade, se você não tiver a pesquisa na academia, a gente vai ficar a vida inteira fazendo a mesma coisa. Então, é necessário que a academia se distancie em ideias e busque novas coisas, mas ela não pode romper com o real, com o que se faz. Mesmo porque ela vai trazer a melhoria para isso, mas para trazer a melhoria, ela precisa conhecer. Assim como aqui, a necessidade, quando você fala, poxa, eu preciso de uma coisa para resolver um problema. Você leva para a academia esse problema, para ajudar a resolver. Então esse diálogo é extremamente importante. E é uma coisa que não pode parar, gente. A gente tem que ter isso com uma continuidade pro resto da vida. Quer dizer, você pegou o diploma, tá ótimo. O meu diplominha, por exemplo, tá fazendo 41 anos dia 25 agora, que é o meu filho do meio. Mas você não pode parar nunca de questionar, de buscar, de buscar uma alternativa, de tentar resolver. Fazer o que você fez a vida inteira é a coisa mais sem graça da vida. Não vale.
Está com um tempo bem extenso aqui, até por conta da qualidade dos convidados. Você quer fazer alguma pergunta para eles antes de eu fazer uma última pergunta?
Vou perguntar só para a Eloísa, como que ela conseguiu, questão do que a gente estava conversando mesmo, de ir para a obra, de projetistas e irem para a obra. Como você conseguiu adquirir essa... Cheretice.
Eu fui para a obra. Foi querer ir. Querer ver como é que faz. Porque uma das coisas que me apaixonou na engenharia foi a concretude do pensamento. Veja, a gente, como projetista de estrutura, você está o tempo todo pensando. Você está pensando, você está modelando. Mas o desejo nosso é de que isso se concretize. Senão só vira papel colorido ou desenho de computador. Não interessa. Ver isso... concreto, de verdade, ir lá na obra, passar a mão e falar...
Materializado e deu certo.
Materializado é legal. Teve uma vez que eu cortei um pilar. Fiz uma viga de aço protendida, três. E cortamos o pilar porque era essa a função. Cara, na hora que a gente protendeu a viga, Botou o tensor e viu que o pilar já não era mais um pilar, ele estava sob tensão de tração. Aí foi cortar, aí o cara foi cortar e depois aquela serra diamantada, desse tamanho, na horizontal. Claro, mordeu a serra. Eu falei, não, cara, você nunca viu como é que corta árvore? Corta a árvore assim, porque aí tem o efeito de cunha, desliza. Se você cortar no plano, ela amassa de novo. Tem que ser assim pra ter o efeito de cunha. Agora, onde é que se aprende isso? Só se você for lá e ver alguém fazendo. Por exemplo, na obra do museu, aliás, já tinha... na obra do Museu da Língua Portuguesa, e foi a mesma equipe que foi para o Museu do Ipirâmbia, da Concrejato. A mesma equipe. Eram os mesmos engenheiros de obra. Hoje somos amigos de infância. Ótimos. Porque havia essa troca de conversa, dos caras ligarem e falarem... Pô, tem um treco aqui estranho. Vem aqui ver. Então, vem aqui, vê, é legal, vai lá ver. Vai lá xeretar, mas nem que não te chame, vai de xereta mesmo. Porque o ver as coisas, acompanhar as coisas, tem que ser uma iniciativa tua. Tudo bem, você vai ter que chegar para o chefão lá e falar assim... Puxa, eu queria tanto ir na obra ver o tamanho que tem isso, como é que os caras fazem isso. Eu duvido que ele diga para você, não, não vai, porque você tem que detalhar esse pilar. Ele vai e fala, vai. Então, além da pergunta, mostre a vontade que você tem de ver aquilo que você projetou, como é que ele é feito. Como é que o cara concreta aquele negócio lá? Por exemplo, no Museu do Ipiranga tem uma vigona lá, que eu brinco, que é a minha predileta, da viga. Chama-se Viga 301, porque a gente numera todos os dias, né? É a Viga 301. E a Viga 301 ia concreta, mas ia concreta pra caramba, que é aquela que fica na frente do janelão lá. E aí eu ligava para o Renatão. O Renato era um engenheiro da ópera. Renato, eu quero a concretagem na velocidade tal. Ele falou, você quer que eu concreto com colherinha? Eu falei, não, pode ser de sopa. Porque se você concretar muito rápido, você vai estufar toda a forma. E aquilo era o chance da arquitetura, é olhar aquela viga lisinha, bonitinha e curva. Eu falei, se você concretar muito rápido esse negócio, vai explodir a forma, não vai ter jeito. Vai ter que ser devagarzinho? Vai. Então tem coisas que tem o tempo de... Mas você acha que eu aprendi isso sozinho? Eu aprendi isso porque eu vi estourar uma forma um dia. O dia que eu vi estourar a forma, eu falei, opa, tem tempo pra fazer isso. Aí fui ver como é que se calculava o tempo pra poder concretar um...
Então isso você não vê na faculdade nunca, isso aí. Só na...
Não vê, mas você vê na hora que você foi na obra. Viu estourada uma forminha, você fala, credo, olha que barriga feia que ficou aquela forma ali, aquele lombinho ali. Ai não, não quero que aconteça isso. Aí você vai ter curiosidade de ir atrás do negócio. Então, o olhar, a fome, nem a faca nem o queijo, vai com fome para a obra. E se você chegar para o seu chefe e falar para ele, olha, eu queria muito ver isso que eu calculei aqui, eu quero ver como é que faz. Eu duvido que ele não vai deixar. Porque para ele... Vamos dizer, para nós o que interessa é exatamente perceber o quanto você está com vontade de ir adiante, de melhorar, de entender o processo.
Só cuidado que depois você corre o risco de não querer mais voltar para o escritório.
Ah, tudo bem, mas aí ele achou a linha dele.
Achou a linha, se descobriu.
Não há nenhum problema em deixar de ser... Não, mas não há nenhum problema em deixar de ser... Claro, cada um para...
Um calculinho para cada espaço.
Um projetista e descobrir-se um engenheiro de obra. Não tem problema nenhum.
É, tem muito pouco tempo ainda. Eu acho que eu já me achei no projeto, mas...
Não, mas veja, você ir até a obra não vai te fazer desistir. Pode te fazer mudar. pode te fazer mudar como fez a ele. Mas mesmo que não mude, vai fazer o contrário, vai te reforçar e te fazer um cara melhor no projeto. Então, o conhecer não é assim, eu não quero nem ver pra não gostar daquilo. Não, não é isso. Vai lá, experimenta, gosta, de repente você fala, uia, acho que eu quero fazer isso. Ou vai pro... Ou fazer de outra forma, né? Não, ou um cara que tá lá na obra, Vai lá no teu escritório pra tirar umas dúvidas e fala, ui, é legal fazer isso que você tá fazendo. De repente muda pro lado de cá. O mudar não é um problema. Mudar realmente não é um problema.
Eu queria até primeiro aproveitar o apoio do CBCA nesse episódio, né, quando você fala de enriquecimento.
A gente nem falou deles, né?
O CBCA tem uma importância, eu entendo, mas eu queria ouvir.
Você sabe, João, um pouco da minha história. A minha proximidade com o CBCA se deu justamente pela oportunidade de fazer as estruturas metálicas lá no Rio. Foi lá que eu conheci a Carol, que já esteve aqui com você.
Carol, deixa um abraço para a Carol.
É, saudades, gente finíssima. Então, o que acontece é que, para mim, era um outro tipo de obra. Eu me identifiquei demais com a estrutura ambiental, porque o CBCA foi uma maneira de eu tomar mais contato, Circulei com eles, a gente chegou a fazer algumas palestras, eles tinham aquele roadshow. Eles tinham um roadshow e eu fui com eles apresentar o nosso case. Eu vou te falar, quando eu fiz as minhas obras metálicas enormes, quando eu falo em 110, 120 mil metros quadrados, em optar pela metálica foi pela garantia da execuibilidade no prazo e na qualidade. E que no fundo, que é um exercício que eu fiz bastante, eu acho que você vai tentar mostrar que aquilo era um investimento.
Uma coisa, quando a gente fala de custo de metálica, ó, eu tô nessa de brigar pela metálica porque embora eu calcule tudo, eu vou ser sincero pra você que Eu tenho um xodózinho pela metade. Eu também. É inegável. Quando a gente fala de custo e falando da tal da reengenharia, de engenharia e de tudo, o quanto é a estrutura num investimento desse tamanho? O que acontece? Primeiro que você não faz uma obra só em aço. A laje necessariamente vai ter concreto. A fundação vai ter concreto. Os arrimos vão ter concreto. A mistura de materiais é inerente a qualquer obra. A questão do custo da metálica, que é grande, é maior que o do concreto, é inegável. Eu não vou nem discutir, porque isso aí seria mentir e dizer que é mais barato. Mas ela vem atrelada a uma sequência de coisas. Então, por exemplo, se você for fazer um edifício em metálica, Qualquer coisa em metálica. E aí você vai fazer os vedos com tijolinho, bloco. Cara, você acabou de botar o penasaco e fazer bobagem, né? Pra não falar outra coisa. É um sistema. Você quando escolhe concreto ou aço ou a madeira, você está escolhendo um sistema. Estrutura é sistema. Estrutura não é peça empilhada. Então você não pode comparar o custo aço com concreto, com madeira, com... Agora a turma tá com a mania do Adobe. Você pode fazer o que você quiser, mas o que é o mais adequado dentro do sistema que você escolheu? Então, quando se fala muito em custo, só custo, ah, é 10% mais caro, ah, tá bom, 10%, 20%, é 2%, cara. O que é 2% na obra inteira? Depende do que você escolheu pra sua obra. Então, você não pode analisar um custo de nada da estrutura de nenhum outra coisa, do vedo de nada, sem pensar no sistema.
Esse é o desafio de você vender esse peixe para o cliente contratante.
Porque ele não tem a menor noção, ele faz um partido. O negócio dele é assim, eu economizo na estrutura, economizo na hidráulica, economizo na elétrica, economizo no acabamento, economizo na...
Mas você tem que mostrar isso.
Sim, aí ia ser o problema.
E não é fácil.
Aí ia ser o problema, mas o que seria importante a gente botar na cabeça das pessoas é que, quando você está fazendo uma obra, essa obra é um sistema formado por várias peças que devem se encaixar, se complementar, funcionar juntas. Agora, se você migrou de um sistema para outro, de uma parte desse sistema para outra, tudo bem, você é bem-vindo sempre. contanto que você faça a sua parte bem. E para fazer bem, você tem que perguntar, ser xereta, ter fome, ir atrás. E é isso que é... A curiosidade. A curiosidade é extremamente... Porque é engraçado, eu não sei. Eu, por exemplo, quando entendo um negócio, a famosa caia-ficha, vocês nem sabem o que é caia-ficha, vocês não usaram telefone com ficha nunca na vida. Nós usamos. Então essa história de caia-ficha, só a veia-arada sabe o que é. Mas vamos dizer, o negócio de você ter o clique, Na hora que você tem um clique, que você sacou uma coisa, não te dá um prazer incrível?
É enorme.
Você fica numa satisfação e fala, cara, entendi esse negócio, entendi mais. E isso é o prazer. Essa é matar a fome, é uma delícia. Claro que com comida boa é melhor.
Joel, e o seu processo de formação, como está sendo o apoio do CBCA para você?
Então, como eu falei, eles oferecem um concurso que é muito legal, o concurso do CVCA para estudantes de engenharia. Acho que foi a quinta edição esse ano. E é muito legal porque eles te dão uma arquitetura e você tem que criar uma solução de engenharia nessa arquitetura. Por exemplo, esse ano foi uma habitação social. Aí você tinha que propor uma estrutura metálica que atendesse todas as especificações da arquitetura deles. Fazer desenho de detalhe de ligação, desenho de forma. Então, projeto completo não, mas assim, projeto básico.
Mostrando que você entendeu o problema.
Mostrando que você sabe resolver aquela solução. Explicitar os cálculos, tudo. Então, isso é muito legal, porque se junta uma equipe de seis pessoas, a gente junta uma equipe de seis pessoas.
A gente faz um escritório.
É, a gente se junta na faculdade lá, cada um faz uma parte, um modela no Revit a estrutura, o outro modela no Cia para pegar os esforços para calcular, o outro faz detalhes no Cádia de ligação. Então, assim, uma integração muito legal que, na faculdade, sim, durante a formação, ajuda bastante, assim.
É bacana. Aí é o legal que ela começa a te dar... Porque, vamos dizer, você na faculdade tem aula disso, aula daquilo, aula daquilo outro, aula daquilo outro. A hora que você entra num concurso, que entram os cinco, seis, vocês vão aprender, primeiro, a juntar aquilo que vocês aprenderam em cada matéria separada. Então, é pegar aquilo e botar num... numa coisa só. E a outra é esse mecanismo, que eu chamei de escritorinho, de cada um fazer uma parte conversando com o outro. Isso é extremamente bom na formação. Então, participar de concurso, eu acho que é interessante, primeiro para juntar o que você aprendeu em células separadas. A aula disso, a aula daquilo, você botar tudo junto. E outro que é você vendo o trabalho de outras pessoas, aquilo te alimenta também, né? É bem legal.
Eu queria aproveitar e falar que eu estou muito contente com o conteúdo que estou acompanhando aqui com o meu co-host. Eu vou deixar aqui o recado pra você, Lô. Acredito que você não conhecia ainda tão bem o ConstructCast. A gente tem o propósito de promover ideias e soluções e unir todo o setor de arquitetura, engenharia e construção, ou seja, toda a indústria. Antes de passar para suas considerações finais, porque quem vai encerrar esse episódio vai ser o Edson Carter, que já participou de um episódio aqui antes, lá no começo, lá no início. Caso você tenha algum tema que você gostaria de trazer aqui para discutir com a nossa audiência, esse é o momento. E você também, estudante de engenharia, caso você tenha algum tema que você sente falta, esse é o momento também para pedir. Claro que a gente vai trazer. Vamos trazer, né, meu co-host?
Vamos lá. As ideias surgiam aos montes.
Elu, pode dar suas considerações finais.
Olha, eu acho que o tema que vocês chamaram é extremamente interessante, esse do... da gente trazer a escola com quem trabalha nisso, com quem vai executar. Você juntou três pontas, o que foi muito interessante.
Não foi combinado, tá?
Não, mas eu achei que foi um lance que deu legal, porque você está pegando o começo, o meio de campo e o que vai. Eu acho que a gente poderia ter um papo muito interessante, lembrando o que ele acabou de falar. o convívio, por exemplo, com a arquitetura. Então, a gente pegar, por exemplo, uma obra qualquer e discutir, num papo como esse, que é extremamente interessante, o que foi o projeto, o que foi a execução dessa obra, o desenvolvimento dela, porque a gente falou muito por cima dessas questões. E, às vezes, você pegando um exemplo, Escolhe uma obra qualquer. Por exemplo, teve uma também que deu trabalho do carro no Rio de Janeiro, que foi o SEMPES do Rio de Janeiro.
Qual foi?
A obra do SEMPES, do Centro de Pesquisas do Rio de Janeiro.
Do Zanettini, que o arquiteto é o Zanettini.
Que eu fiz com o Zanettini, que era um concurso de equipe também, e que haja aço e haja concreto ali. Teve de tudo. Teve protendido, teve concreto, teve... Como no museu. O museu teve proteção, concreto armado, metálica, madeira, teve tudo. Quer dizer, era legal trazer não só a parte da engenharia, mas trazer também... Seria legal. Um estudante de arquitetura, um estudante de engenharia, um arquiteto, mil coisas. Isso aumenta a mesa aqui, hein?
Quando eu conversei com o Cater, da vez que ele veio aqui, a gente até chegou a pensar nisso. Vendo sua apresentação lá, lembra? E é bem levantado. Esse vindo de vocês facilita muito.
É legal você ter as pontas todas do processo de construção.
Mas existem as iniciativas, né? Você tem os órgãos setoriais do nosso meio. Você pega o próprio Secob, Sinduscom, Ibracom, CBCA. Existem as iniciativas. Quando eu falo pra você, eu gostaria muito mais, a experiência que eu tive de levar um ou dois cases via CBCA ou via outros meios para contar as histórias das obras, eu gostaria de fazer isso muito mais. É mais um dos problemas que a gente tem hoje em dia. É o nosso agenda...
Eu trabalho muito com a BESC, que.
É a questão dos comunistas de estruturas. Você teria que fazer uma coisa muito... Você teria que se determinar a fazer isso.
E trazer um caso para a gente estudar legal.
Então tem que se dedicar. Então, iniciativas como a sua, Paulo, dos podcasts, e que engraçado, a gente, acho que a molecada, eu me surpreendo quando eu estou lá no escritório, eu falo, outro dia eu vi a tua entrevista lá, ou tem um podcast e tal, a gente está um pouco mais distante, a moçada está um pouco mais próxima de si.
Eles são mais ligados.
São mais ligados, né?
Mas por isso mesmo que é legal trazer para eles por esta via.
E o que não falta são cases, né? E que a gente vai multidisciplinar. De contar os causas, de contar as dificuldades.
Contar o que rolou na obra, como.
É que foi isso. Por exemplo, tinha um lugar que eu trabalhei que tinha um diretor que a gente criou um comitê de desastres. Comitê de desastres. Que era aquelas coisas graves que a gente não podia deixar acontecer novamente. E isso vira uma literatura fantástica.
As coisas mais simples. Porque você aprender essas coisas, na hora que você vê, você fala, nossa... Por exemplo, a gente está trabalhando lá no MASP, no prédio novo do MASP. que é uma requalificação de uma obra existente. Então, não é aquele assim, eu peguei o papel em branco, vou fazer tudo o que eu quero. Não, não tem nada em branco aqui. Você tem que se adequar àquilo que está sendo posto, ao que já existe. Você pode inovar um monte de coisa? Pode, mas tem um monte de coisa que é ditado pelo que está ali. E por essas condições de contorno, e é engraçado, quanto mais condições de contorno, maior a tua criatividade. Você olhar um papel branco, você fala, não sei o que eu vou fazer, mas você faz qualquer coisa. Quando você já vem com... Aqui já tem desenhado um pedaço, aqui já tem isso, você tem que juntar A com B, a tua criatividade tem que ser muito maior.
Aliás, tem tido casos que você chega ao ponto de descobrir que é melhor destruir e fazer de novo.
Mas nem sempre você pode.
Nem sempre você pode, mas tem acontecido.
Por exemplo, quando você pega lá o Hospital Matarazzo, a parte nova do hotel é legal. Se bem que teve uns turnês de ligação, deixa lá a capela. Eu lembro de uma palestra que o Agal fez pra falar como é que deixaram aquilo de pé e etc e tal, foi muito legal. Ele contando o processo, foi super interessante, precisa aprender como é que faz. Mas, obviamente, você tem agora, no lado do hospital antigão, Tá tombado. Tombado no sentido que você tem que preservar aquilo. Então você não pode sair fazendo qualquer coisa que você enraixa aquele treco todo.
E teve a vontade também. Se você perguntasse, talvez se eu destruísse aquilo e fizesse um novo poderia ser mais barato? Talvez. Mas não era nem considerável. Não era nem cogitável. Porque a ideia era, primeiro que tinha a preservação e segundo porque era uma vontade. da obra de manter aquilo.
Vamos dizer, tanto a vontade quanto a necessidade de preservação te obrigam a isso. No caso do MASP também, você tem uma série de coisas que te ingestam ali, cara, não pode tirar isso e acabou, é assim.
Aliás, Edu, o que é bacana é isso que a gente viu no caso do Matarazzo, foi a iniciativa do incorporador lá, do francês, é de que a gente fala, puxa, tomara que apareça mais gente com a ousadia que esses caras tiveram. Porque são poucos casos que você vê, mas são casos que acabam causando impacto urbanístico.
E passam a ser uma nova proposta, a ser vista e analisada em outras situações.
Sim, sair do lugar comum e cogitar coisas mais relevantes. Se não houver algumas pessoas que a gente chama, alguns malucos, que trazem essas ideias, a gente não muda, entende?
Você não muda.
E chamava muito a atenção. Eu que visitei aquela obra algumas vezes, eu fiquei impressionado. Eu falei, como você está de pé?
Então, mas isso é legal, quer dizer, ter que ver uma solução para isso, como é que você vai viabilizar isso e tal, eu vou ser sincero com você, depois vai ficar feio isso, mas o que menos me importava era a capela. A solução... A solução de engenharia...
Eu costumo dizer que a Capela chamou muito a atenção na mídia, mas em termos de engenharia, ela foi uma das mais simples que teve. Teve muita mais coisa.
Teve coisa complicada.
Muito mais complicada do que a Capela.
Teve. É que algumas coisas ficam icônicas, então fica todo aquele auê em volta, né? Mas teve uma série de outras coisas pra fazer. Por exemplo, no Museu do Ipiranga teve um túnel que a gente teve que fazer pra dar acessibilidade. Pra sair da parte nova, que é enterrada, e aflorar dentro do Edifício Monumento. E como é que nós vamos fazer esse raio desse túnel? Porque o outro é fundação direta. Então, você começa a ver, e o que ficou muito legal, e isso foi uma iniciativa da arquitetura, foi deixar no prédio o monumento, o testemunho do que você estava fazendo. Então, você está subindo a escada rolante, você vê uma cortina atirantada, de repente, pedra argamassada, e de repente...
Isso é legal demais.
Você entra dentro do wall do museu. do grande salão de recepção do museu, e entra pelo mesmo lugar que foi o lugar, aquele nome emitido, Ponte Cocher, que era onde chegavam as carruagens para se descer e entrar. A escada rolante hoje é como se fosse a sua carruagem. Você chega no mesmo lugar onde se desembarcava de carruagem para entrar. Tem todo um lance histórico. Então, você começa a conhecer as coisas, mas por sair de um limite imposto. Então às vezes o limite imposto é aquilo que te obriga a qualidade, né? Tem uma fase do Paul Klee que fala isso. É a resistência que te sustenta o voo. É muito legal, quer dizer, você só vai voar se algo te oferecer resistência. Se você for ficar com os dois pés no chão tranquilo, você não vai pra lugar nenhum. Então pergunta, tá? Xereta, vai atrás, vai com fome.
João, agora o que você gostaria de... um tema que você gostaria de ver.
Aqui no... Ah, eu acho, só de poder ter falado dessa parte dos concursos, assim, já foi bem legal. Porque é uma coisa que é pouco, na área de engenharia mesmo, é pouco disseminada nas faculdades, eu acho. Então... E a Mauá, ela cultiva bastante essa participação nos concursos. Manda um abraço pro professor Pedro Lira. Porque o coordenador do curso, que ele até que me... Acho que passou o meu contato para você... Que ele curtiu bastante essa ideia dos concursos e... Então, essa bacana, essa ideia dos concursos é bem legal.
E eu até aproveito aqui, né? Falar publicamente para você que está chegando agora na engenharia, tem certeza que terá um futuro brilhante. Aproveito para falar que esse espaço aqui é nosso, pode usar quando quiser, pode indicar para as faculdades, que eu também tenho muito interesse. Não é à toa que escolhemos aqui... a D do Dois Profissionais pra somar aí na carreira de vocês, e você que tem esse contato com a nova geração, enfim, de certa forma, você tá aí trazendo, criando essas conexões, né?
Além disso, a verdade é que entregar conhecimento aqui com vocês foi muito legal.
O lance de você reforçar essa coisa do concurso eu acho muito legal.
Olha, Luiza, aproveitar também, tá? Esse espaço aqui é nosso. Sempre que você tiver vontade de apresentar algo pra nossa audiência, o Cater já sabe, Cater é um amigo também de casa. Fiquem à vontade. Essa questão que você falou de trazer os cases, uma coisa quando eu pego, quando o Cater tá me apresentando mesmo, o case lá do Porto Atlântico, onde a gente tá vendo as imagens ali e discutindo, então... Isso é bacana, de repente a gente fazer um episódio, de fato, ali ó, trazendo as imagens e explicando quais foram os desafios aí. Você ter ali a arquitetura junto também.
É legal, e juntar as pontas é muito legal.
Sim.
Porque a obra só é aquilo que termina. Você só fazer um projeto não te traz satisfação. Você faz e acabou. Não. O projeto executado, ele lá montado, você entrar naquilo, é uma emoção muito grande, porque é ver todo o processo se concretizando daquela forma. que é muito legal.
Edson, agora com você pra encerrar o nosso episódio. Não foi combinado isso também.
Não foi combinado. Eu não sou tão bom pra abrir e pra fechar do que fazer o meio. Não, bacana. Eu acho que... Pô, Paulo, obrigado pela confiança, pelo convite. A gente já se falou bastante a respeito de algumas outras matérias. Eu acho que tá aqui um veículo valiosíssimo pra criar essa proximidade entre os diversos meios. Não só quando a gente fala acadêmico e... e o próprio profissional. Dentro do próprio profissional, se você imaginar a quantidade de entidades que possam ser juntadas, para poder criar esses fóruns de conhecimento, que nem a gente acabou de falar, o Ibracom, o CBCA, o Secob, o Sinduscom, bom, são vários, é que eu estou me referindo muito àquelas mais próximas da minha área que é predial. E o setor acadêmico, que eu acho que eu ainda sinto uma falta, por mais que digam, acho que eu já vi momentos onde se tentou uma proximidade maior Por exemplo, da USP. Você vê que tanto é que muitos profissionais da USP acabaram virando grandes consultores e demorou pra isso acontecer. Quando eu comecei, eles estavam... Eles começaram... Era até porque eu acho que não podia. Eu tenho a impressão que não podia.
Tem um lance que não podia.
E, de repente, esse pessoal... Olha que valor que essa turma trouxe do meio acadêmico pro meio profissional. Uma série de consultores hoje a quem a gente recorre. para pedir apoio em várias disciplinas, vieram do meio acadêmico, ainda estão no meio acadêmico, não é que vieram e abdicaram, ainda estão no meio acadêmico. Graças a Deus foi dada essa oportunidade. Então, acho que para encerrar, concordo com a Helô, muito bacana que tenha sido uma coincidência de juntar três pontas, é sempre legal, porque a gente vai ficando mais velho e vai se distanciando. Mas, cara, eu não esqueço nunca. Eu vou dizer uma coisa, João Pedro. Eu guardo como o período mais gostoso da minha vida foi quando eu fui estagiário. É muito bacana. Eu tenho um orgulho enorme de quando eu fui estagiário, porque era uma época que você tem menos responsabilidades na sua vida.
Você tem tempo de aprender.
Você está juntando um momento da tua vida que você tem uma energia gigante, com aquele momento que você se propôs a aprender, Você está olhando o mercado profissional, então aquela questão, ah, vai ser remunerado, não vai ser remunerado, não é esse o ponto. E óbvio que eu também lembro muito bem, porque foi me dada essa estrutura, foi me dada essa... As empresas onde eu trabalhei tinham esse viés, é o que eu falei para vocês, a escola da Gomes de Almeida Fernandes, que nesse meio predial, ela foi uma escola em como formar os profissionais para fazer o gerenciamento da obra. Essa palavra é importantíssima. Não é só tocar a obra, é olhar a obra, Todos os aspectos.
O geral.
O negócio. Como eu falei, olhar pro negócio. Então, acho que tem assunto pra caramba. Pena que eu também não tenha, talvez até eu mesmo, guardado mais informações que eu pudesse ter guardado de alguns empreendimentos, mas acho que não falta assunto e oportunidade, Paulo.
Vamos trazer aqui.
Bacana, foi legal.
Posso encerrar, então?
Pode, pode.
Então tá, gente. Aproveitar pra agradecer mais uma vez o apoio do CBCA. E compartilhe esse conteúdo com o maior número de pessoas que eu tenho certeza que dessa forma sim vamos transformar a indústria da construção, arquitetura e engenharia. Um abraço e até o nosso próximo encontro aqui no Constricash.
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