Mulheres na Solda | ConstrueCast | PodCast da Construção

Creuza Santos left nursing school to train as a welder at SENAI and worked on major projects like the Giral hydroelectric plant and São Paulo's Metrô. She talks through the money, transport, and gender barriers she faced, and what she'd tell other women entering construction.
Questions this video answers
2005
Six months
R$ 5.800
About R$ 300 (earlier job)
Around R$ 2.600 (with overtime could rise higher)
Chapters
Sejam bem-vindos ao ConstrueCast. O episódio de hoje é um oferecimento produtora Infinity Plus. Sejam bem-vindos. Está no ar mais um episódio do Constricash. E hoje eu tenho a honra de receber aqui uma mulher soldadora. Ela está ali no dia a dia trazendo qualidade para os canteiros de obra. Creuza Santos, seja bem-vinda ao nosso podcast.
Obrigada.
Ô, Creuza, para iniciar o nosso bate-papo, eu queria entender como que você foi parar no canteiro de obra.
Então, eu estudava, eu era auxiliar de limpeza, Onde? Na Mil, Hospital Mil, Vila Mariana, e eu estudava para ser auxiliar de enfermagem. E o médico de lá, ele fazia de tudo para me ser um auxiliar de enfermagem. Ele pegava muito no meu pé para isso. Aí eu conheci uma pessoa. Comecei a namorar com esse cara. Ele via o meu esforço, o meu estudo. Perdia muito sono para estudar. Acordava muito cedo para ir trabalhar. E não rendia muito. Minha cabeça não raciocinava muito. Porque eu tinha casa para cuidar, tinha filho para cuidar, tinha estudo e tinha que trabalhar. Então, não tinha muito rendimento meu psicológico para tanta coisa. Aí eu conheci essa pessoa. Aí ele foi e falou pra mim assim, você vai estudar sua vida inteira e você nunca vai ganhar o salário que eu ganho. Aí eu falei assim, como assim? Na época o salário mesmo eu acho que era 300 reais.
Creuza, só um minutinho. Gente, olha só, preparem lápis e caneta, porque vocês vão conhecer hoje a história dessa mulher. Preparem, porque Muita gente chora, viu? Não é? Ó, eu já comecei, assim… Já começa com impacto. Desculpa, Criuza. Pode continuar.
Aí ele falou assim, você vai morrer de estudar e você nunca vai ganhar o salário que eu ganho. Em 2005. Aí eu falei pra ele, por que eu não vou ganhar o seu salário? O que você acha que não? O estudo é tudo. Minha mãe sempre falou que o estudo é uma coisa que ninguém tira da gente, uma profissão. E eu quero ser enfermeira. Aí ele falou assim, você pode ser enfermeira, mas você não vai ganhar o salário que eu ganho. Aí ele falou, na minha área, só eu ganho o meu salário? Só o engenheiro. E ele tem que ser muito engenheiro bem empoderado mesmo, porque se ele não for, ele nunca vai ganhar o salário que eu ganho.
Tem que ser um engenheiro bom.
É, bom. Não é só dizer que era engenheiro, né? Aí foi. Aí, quando foi um dia, ele nunca mostrou o contra-cheque. Antigamente, chamava contra-cheque, né?
Contra-cheque, sim.
Aí, ele falou assim, eu nunca mostrei meu contra-cheque pra ninguém, pras pessoas não colocarem o olho em cima. Mas como a gente já tem certo tipo de intimidade, eu vou te mostrar. Aí, ele tirou o contra-cheque e me mostrou. Quando ele me mostrou, eu falei... Não é de verdade, eu falei pra ele. Aí ele falou assim, é de verdade. Aí ele falou assim, você sabe o que eu sei fazer? Eu falei assim, não. Aí ele falou, você tá sem assinar meu nome. Eu não sei nada. Eu só vou lá, meto o cartão no banco, tiro o dinheiro, porque eu não sei ler, não sei fazer nada. Olha o meu salário.
Creuza, só uma curiosidade, qual que é a profissão dele?
Ele era soldador.
Soldador, que legal.
Ele era tigueiro na área da refinaria da Petrobras.
Mas você trabalhava com a solda Tigre.
Trabalha... não, aí vou chegar lá. Aí o que acontece? Aí depois que ele me mostrou esse contra-cheque, aí eu fui e perguntei pra ele. Um dia eu tenho a chance de ser uma soldadora? Aí ele falou assim, as coisas estão evoluindo. Quem sabe daqui a dois anos, três anos, se não tem mulher na área. Às vezes, vai umas Maria Chuteira. Aí ele falou assim, Maria Chuteira. Não tem as mulheres Maria Chuteira que gostam do jogador? Às vezes, vai umas mulheres para a área para se envolver com engenharia, encarregado, alguma coisa assim. Mas tem a possibilidade, sim, de você ser uma soldadora. Aí eu perguntei para ele o que eu faço para me ser uma soldadora. para me ganhar esse salário. Aí ele falou, fazer curso. Aí, onde que eu faço o curso? Aí ele falou assim, então, tem Escolinha da Petrobras e tem o Senai. Aí eu falei, vamos no Senai, na hora. Chamei minha mãe, minha mãe, ah, por que você vai deixar de ser enfermeira, estudar para ser enfermeira, para ser essa profissão que não ganha dinheiro? Eu falei, mãe, você não sabe o contra-cheque do homem, mãe. Você não tem noção do contra-cheque do homem. Você está brincando. Aí fui para o Senai. Comecei a pesquisar, pesquisar, pesquisar. Junto com minha mãe, andando, todos os Senais de São Paulo não achavam. Não tinha curso na época. Era muito difícil o curso de saudador. Aí eu fiz uma inscrição no Diadema, no Senado de Diadema, que eu moro próximo de Diadema. Fiz essa inscrição lá e continuei trabalhando na Avenida Santa Amaro, na SAMU, ali na Avenida Santa Amaro. E eu fazia encarregada de limpeza. Já tinha subido um nível, né? Para mim já estava mais contente, já tinha subido um nível, porque eu era auxiliar de limpeza. Aí eu fiquei, fiz a inscrição. Sabe quanto tempo passou pra me chamar? Seis meses.
Seis meses.
Porque não tinha turma. Não tinha ninguém que fazia o curso.
Ô criança, mas você nunca pediu pra esse seu colega, esse seu amigo aí, nunca pediu umas dicas pra ele?
Calma.
Porque sua vontade era tanta que assim, eu tô curioso, sabe?
Aí eu vou chegar lá. Aí o que acontece? Aí a gente foi, eu fiz a inscrição. Aí o Senai me chamou. para a primeira turma, para montar a primeira turma. Aí eu fui. Quando eu cheguei na primeira turma, só tinha eu de mulher. Aí eu olhei assim, eu falei, caramba, mas eu vou assim mesmo. Aí eu liguei para ele, caramba, aqui só tem mulher, só tem homem, não tem mulher aqui. Aí ele falou assim, então, isso é o início de tudo. Ele foi muito importante essa palavra que ele falava para mim, porque ele nunca falou assim para mim de existir, entendeu? Aí eu fui. Aí fiz a inscrição. Me chamaram, eu comecei. esperar a vaga. Aí eu comecei a fazer Senai. Comecei a fazer o Senai, aí eu falei, meu Deus, será que eu vou conseguir? Aí eu ia pro Senai e não tinha dinheiro pra pagar transporte. Eu era auxiliar de limpeza.
Sabe uma coisa que... que assim, que me deixa muito mexido? Você percebe que as palavras que ele te falou no início, que você nunca ia ganhar, só que você percebe que ele era uma pessoa boa, mas ao mesmo tempo ele reproduzia... Sim, negatividade. Negatividade, mas não é... ele tinha um coração bom e aquele não tinha intenção de machucar você?
Não. Não tinha intenção de machucar, mas ele também não queria que eu guardasse o salário, já percebe? É as palavras que ele falava.
Mas ele foi importante nesse processo pra você.
Eu não esqueço de nada que ele falou pra mim. Ele foi muito importante pra mim. Ele foi, na minha vida, ele foi uma pessoa mais importante, que meu pai não veja isso, muito mais importante que meu pai. Entendeu? Muito mais. Eu sou muito grata a ele, muito.
Então, mas uma coisa que eu gostaria de chamar atenção nesse nosso bate-papo é que assim, ó... Você me contando, eu fiquei emocionado, porque eu imagino como você ficou mal com as palavras dele, mas ao mesmo tempo, como foi importante pra esse processo de transformação, porque ele te ajudou muito nesse. Nesse processo, você entende? Então, assim, não é que ele não queria que você ganhasse mais que ele, ou que você ganhasse o equivalente a ele, mas, enfim, ele vinha reproduzindo o que a sociedade reproduz na cabeça do homem, sabe? Assim, que a mulher em tese ganha menos e tudo mais. E ele foi importante, repito, pra mostrar pra você, pra te dar força, que você tinha capacidade, você entende?
Foi. Ele foi, ele foi muito importante. Aí depois disso daí, eu comecei a fazer o Senai. Eu fiz o Senai. Aí no... eu ia fazer o Senai, eu não tinha dinheiro pra chegar no Senai. Da minha casa, você sabe onde que fica a divisa de Adema?
Sim.
Então...
É longe.
É muito longe. Eu ia aquele percurso todinho andando.
Nossa!
Eu não tinha dinheiro.
Mas quanto tempo você gastava? Duas horas?
Uma hora, uma hora e vinte de caminhada.
Você anda rápido?
Ando. Mas eu ia chinelando mesmo para não perder a aula. Por isso que eu falo, mulherada, quando a gente quer, a gente consegue. A gente consegue quando a gente quer as coisas. A gente não tem que ficar esperando para ninguém dar para a gente. Quando a gente quer as coisas, a gente consegue. É qualquer ser humano. Porque tem pessoas que dizem que ninguém ajuda, que ninguém faz isso. Não, a gente tem que correr atrás. Eu vejo isso nos jovens, nessas molecadas, nessas meninas novas, que elas querem as coisas fácil. Nada é fácil.
E nesse sentido, eu trago aqui a Suelen Pedreira. Ela tem sete filhos.
E nunca deixou de trabalhar.
Muito pelo contrário, é um exemplo de profissional.
Mas consegue, sim.
E continuando, Creuza, o que a sua história impactou? O que a sua própria história serviu de motivação para outras mulheres, né? Como que você vem transformando a vida de outras mulheres? Pelo menos, é o que eu entendo que acontece.
Então, a minha força dentro da construção civil, dentro do metrô, foi muito importante.
Eu não gostaria que você ainda entrasse nesse assunto. Porque, assim, primeiro eu queria que você finalizasse a história do... Do SENAI. É, da formação, né? E até a gente chegar no primeiro emprego.
Vamos lá. Então vamos. Aí o que acontece? Aí era difícil pra mim chegar no Senai, porque eu não tinha condição de ir. Pra mim voltar, nem se fala.
E que horas você saía?
Eu saía de casa pra ir trabalhar 4 horas da manhã. Eu dormia 3 horas de relógio. Porque eu não tinha condição de fazer o percurso, não tinha dinheiro. Se eu pagasse do meu dinheiro, do vale-transporte da empresa, eu ficava sem trabalhar. Então eu não poderia.
Não tinha ninguém que pudesse te ajudar com isso?
Quem? Não tinha ninguém. Eu era separada, com dois filhos para criar. A minha mãe não tinha condição. Tinha vontade, mas a condição a minha mãe não tinha. Meus irmãos pouco se importavam. Acho que eles até hoje não acreditam que eu sou o que eu sou. Aí terminou o Senai. Mesmo, não sei nem como foi, que eu agradeço todos os dias a Deus e ao Senai.
Quanto tempo do Senai você fez?
Foi seis meses. Na época eu paguei 5.800 de curso. E essa pessoa que me ajudou em palavras, ele falava assim, em um mês... Eu era toda doida. Cotinha de salário. Em um mês você recupera esse dinheiro. E ele falava. Aí eu falei, sério? Ele falou, sim, pode apostar. A passada do curso era 300 reais. O salário mesmo era 600 reais. Como que você paga 300 e sobe 300 pra você comer?
É, realmente não dá.
Entendeu? Era muito difícil. Eu chegava no mercado pra comprar, pra fazer compra, eu falava com meus filhos quando saía de casa. Feijão, arroz. Farinha, que baiano gosta de farinha. Farinha, sal, açúcar e café, leite. Nada de bolacha. Mãe, por quê? Senão fica sem pagar a conta de luz. Fica sem pagar a conta de água. E graças a Deus que eu sempre tive meu lugar próprio. Sempre tive. Quando eu vim da Bahia pra cá, eu já vim com a vendia que tinha lá e comprei aqui. Então, eu tinha meu lugar próprio. E minha mãe sempre foi cabeça pra isso. Aí, quando eu saí do Senai, eu não sei nem como que o Senai me deu o certificado de saudadora. Porque eu não paguei as últimas parcelas.
Mas você sabia que existe uma lei que eles não podem tirar você da...
Então, eu acho que foi isso. Eu acho que essa lei funcionou pra mim, viu? Porque, sério, as duas parcelas do Senai eu não paguei. Eu não tive condições de pagar. Aí surgiu uma vaga dentro da refinaria onde ele trabalhava, meu ex-namorado.
Esse namorado tem história.
É, ele tem história. Muita história. Aí ele foi, arrumou uma vaga pra mim dentro da refinaria de Ponteadora. Que não era soldador ainda, que não era profissional.
Explica o que que é ponteador, eu sei o que que é, mas explica o que que é, o que que faz um ponteador?
O ponteador, ele vai pontear, tem os tubos do ar, do gás oduto. Aí a união da tubulação vai fazer a união e vai pontear, que é pra ficar preso. Pra depois vir fazer a limpeza e o soldador vir soldando, fazendo a parte final. Mas o ponteador, ele faz a mesma coisa que... o mesmo salário que o soldador ganha. É a mesma coisa que o soldador faz. Ele só não faz a finalização da tubulação.
É, porque, na verdade, você... Ele prepara, né? Ele prepara o... Ele antecipa ali o trabalho do soldador, né? Porque ele já faz toda a fixação, depois o soldador vem só fazer o fechamento.
Só o fechamento, fazendo a raiz e acabamento. Faz a raiz, depois vem com o acabamento.
Ah, e você já entrou, mas já pra... Pra pontear. É, e não entrou essa... Diga-se de passagem, né?
Sim, mas ele me ajudou, né? Ele foi muito bom pra isso. Aí, depois disso daí, foi uma parada de três meses. Depois dessa parada, aí tinha a vaga de emprego pra Camargo Corrêa, pra viajar pra fora, de São Paulo.
Caraca, criança!
Que legal! A minha filha tinha 15 anos. O meu filho tinha 12 anos.
Como que é o nome da sua filha?
Keilani.
Keilani é o nome do seu filho?
Nideson.
Você tem dúvida o quão incrível seus filhos serão?
Eles são incríveis pelos orgulhos que eles sentem de mim.
Sim.
Entendeu? Eles sentem muito orgulho, porque eu vejo eles falarem para os amigos deles o tanto que eu sou forte a respeito disso. Eles contam muito isso, principalmente o meu filho. O meu filho conta muito isso. Ele fala assim, minha mãe... Aí os caras falam assim, a minha mãe é isso. Aí meu filho fala assim, a sua mãe não é igual a minha mãe. Minha mãe é assim, assim, assim. Precisa se ver com minha mãe. Sua mãe nunca faz o que minha mãe faz. Então, ele tem um orgulho muito, um ego muito grande dele falar de mim a respeito disso daí, entendeu? E isso me fortalece cada vez mais, porque ele não seguiu a minha função, nem ele, nem a menina. A minha menina é auxiliar administrativo. O meu filho trabalha no IUB e tem o próprio negócio dele. Mas eles não seguem a minha função, mas eles têm um orgulho muito grande.
Mas é legal eles terem você como exemplo, sabe?
Tem, eles têm uma força também, né?
Eu acho que fraqueza é uma coisa que não existe no vocabulário deles.
Não, na minha casa não. Na minha casa não tem isso. A gente não sabe quem é essa palavra fraqueza.
Você tem noção como eu me sinto feliz aqui em bater esse papo com você? E eu gostaria, Creuza, que, assim, a sua história de vida, né, o que você... viveu, eu gostaria que um monte de, sabe, de engenheiros, de pessoas mesmo que têm empresas, que... Enfim, eu gostaria que esse conteúdo chegasse nessas pessoas, para que eles entendam o que muitas vezes esses funcionários, esses colaboradores deles, passam e às vezes a gente como empresário, enfim, ou que ganha um pouco mais, consegue ajudar. Porque muitas vezes naquele processo que você tava passando ali, dormindo três horas por noite, muitas vezes menos, se as pessoas prestassem atenção nos outros, assim, ó... Você precisa de ajuda? Porque muitas vezes era só uma condução.
Uma palavra já é muito...
Eu não diria nem a palavra, porque assim, é você olhar, perceber que você, sabe?
É.
E você percebe que você poderia dormir ali mais duas horas. Ou seja, você ia pular de três pra cinco.
Pra cinco horas, é.
Por isso que eu bato muito na tecla, sabe? Vamos prestar atenção no colega do lado. Entende? Porque às vezes... Você… Assim, desculpa a minha emoção, mas não dá. E aí, a minha indignação também. Porque o que aconteceu com você lá atrás, acontece ainda… Acontece muito. Com muita gente.
Muita mulher.
Por essa razão, gostaria de chamar a atenção pra esse ponto.
Assim, as vezes… Hoje eu já não choro tanto, assim. Mas vai chegar uma parte que eu vou acabar me emocionando igual… Muita gente se emociona, porque essa parte, ela é muito… É muito forte.
Eu tô com medo.
É sério.
Porque eu tô me segurando aqui já.
Essa parte é a parte mais forte da minha história. Dessa história todinha. Acho que é a parte mais forte que eu acho. Aí eu fiz essa inscrição pra Camargo Corrêa. pra ir pra Rondônia, onde teve aquela greve. Lembra daquela greve todinha, aquele repercussão todinha? Eu estava naquela obra. E sabe quem tinha de mulher naquela obra, no meio de 28 mil pião de mulher? Eu.
Fala o nome daquela obra pra quem não conhece, Creuza.
Era uma obra da Camargo Corrêa, Giral. Chamava a obra do Giral.
Giral, que é uma hidrelétrica.
Que era uma hidrelétrica que tava fazendo pra... pra jogar a força, acho que era pra Bolívia.
Sim, que inclusive eu participei. Olha que coisa legal. Eu participei daquela obra. Eu sempre trabalhei no mercado audiovisual. E naquela época eu fazia o acompanhamento de... Eu gravava os processos na Foit, que é uma empresa aqui em São Paulo que fica no Jaraguá. E também tem a Jaraguá em Sorocaba, que eles fabricaram as turbinas.
Sim, sim, sim. Eu soldava crastobina.
Eu sei, olha que legal, que conexão legal.
Eu soldava crastobina.
Então assim, eu participei também daquela obra que foi tão importante para o país.
Ali já foi o meu segundo salário de soldadora. Em 2010. Quem lembra quanto era o salário? Eu não lembro. O primeiro salário que eu recebi daquela obra foi muito emocionante. Porque eu ganhava R$ 600 e passei para R$ 1.000 e pouco quando fui para a refinaria. Quando eu cheguei naquela obra, a gente fazia muita hora extra. E eu já fui com salário daqui de dois mil e pouco.
Não, naquela época...
Naquela época, 2010, eu já ganhava dois mil e seiscentos reais de saldoadora. E com as horas extras, quando eu cheguei no banco, que eu meti o cartão que vinha aquele dia, eu ajoelhei assim no banco, assim, gente, eu tô rica! Eu tô rica, meu Deus, o que eu vou fazer com tanto dinheiro? Bem assim, eu gritava assim, eu tava rica, com tanto dinheiro, eu vou ajudar minha mãe, eu vou fazer isso pra minha mãe, eu vou comprar uma casa, eu vou fazer isso. Eu fazia vários planos. Aí, a cada três meses, a gente vinha visitar a família. Essa é a parte que dói o coração. Aí a gente vinha visitar a família. Nessa visita de família que eu vim, a minha filha ficou com 16 anos, o meu filho ficou com 12 anos. Eu fui nas lojas das Casas Bahia, que é a loja que os pobres compram mesmo. Quando eu cheguei lá, tinha começado a sair computador e essa televisão plasma.
TV de plasma.
É, de plasma. Aí as amigas da minha filha tudo tinha os pais pagando prestação lá em cima. Aí a minha filha ficou triste, ela falou assim, mãe, minha amiga, o pai dela comprou um computador, mas o computador era aquele grandão do fundo, né?
É de cubo, né?
É de cubo. E o pai dela quer comprar essas televisões que estão saindo. Eu falei, sério? Sério. E você quer o quê? Eu queria uma, mãe. Um computador. Como eu fico em casa sozinha, e a senhora está viajando, eu queria a televisão e o computador. Eu falei, você quer? Então vamos lá. Mãe, você vai comprar? Vamos lá comprar. Aí quando eu cheguei lá, eu comprei e eu paguei a vista.
Os dois?
Os dois. Eu fiz um desafio comigo mesmo. Aí ela, mãe, onde você arrumou? Eu falei, filha... Mãe agora é... a mãe agora tá rica, né? A mãe agora tá rica, né? A mãe tá rica agora, a mãe não tá mais pobre.
Bem assim.
Aí, eu liguei pro meu filho, meu filho veio, né? O pai dele mandou ele, tava na casa do pai, e a gente foi pro mercado fazer compra. Quando chegou no mercado, Sempre a gente ia no mercado, era tudo limitado, né? Porque não tinha condições de comprar. Aí quando chegou no mercado, a gente pegou... Eu costumo de pegar o carro pequeno ou a cesta pequena. Aí meu filho falou assim, mãe, eu pego a cesta ou o carrinho? Eu falei assim, pego o carro maior que tiver. Aí ele falou assim, como assim mãe? Eu falei, pego o carro maior que tiver. Aí eu falei, pode pegar, aí ele pegou. Aí a gente começou a fazer as compras, aí quando chegou nas partes de bolacha, da noni, essas coisas, aí ele falou assim, mãe, eu posso pegar uma bolacha? Aí ele falou assim, você pode pegar, eu falei assim, você pode pegar tudo que você quiser. Aí eles saíram pegando, jogando no carrinho, meu Deus, minha mãe tá mandando... Aí nessa hora, eu ajoelhei assim dentro do mercado, aí eu comecei a chorar. Mas eu chorava de verdade. Chorei muito naquele dia. Foi uma parte, assim, muito difícil. Foi essa parte. Quando eu vi eles fazerem isso, entendeu? Eu falei assim, meu Deus, por que eu não... Por que eu não aprendi isso antes, né?
Então, curiosa, mas você entende... Às vezes, hoje eu entendo o porquê das coisas, porque foi tão importante, né? Esse processo, tudo que você passou pra você ter... Essa maturidade, essa força que você tem. Então assim, a gente vai chegar daqui a pouco no momento que eu te conheci. Então... A admiração que... A Nicole... tem por você, sabe? Imagina, eu tô passando na obra, eu falei, Nicole, eu preciso de uma soldadora, eu preciso de uma profissional de obra pra levar no Constrication pra mostrar um pouco da história.
Eles têm.
E o olho dela brilhou na hora, assim, ela é técnica, ela é auxiliar de técnica de segurança.
Segurança do trabalho.
E ela, falando de você, me levou lá e eu fiquei assim, sabe? A nossa conexão foi tão... O Verdadeira foi tão bacana. Entende, Creuza? E tudo isso é fruto daquilo que você viveu, do processo.
Eles têm, assim... Eu tenho muito orgulho do que eu falo. É por isso que eu falo pra você. Quando você me convidou, você viu que eu não falei que não. Porque, assim... A minha história, eu não tenho vergonha de contar pra ninguém. Eu tenho o maior orgulho de falar isso. Ontem a gente estava conversando, eu, Raul, Jorge e o Sr. Ricardo, que é o nosso supervisor, e eu estava contando essa história que eu ia vir para cá para contar para ele. Eu comecei a contar para ele desde lá quando eu comecei a contar para você. Quando eu olhei na sala, estava todo mundo chorando.
É, eu tô aqui, eu tô aqui me segurando.
Aí eu falei assim, eu falei, Raul, por que você tá chorando? Aí ele falou assim, é uma história linda. Ele falou assim, você tem mais é que contar mesmo. Aí eu falei assim, então Raul, na época que... que eu comecei, que eu fui para Galvão, lá no metrô, em 2013, foi muito difícil para mim, porque era a única mulher que tinha na obra. Uma história que acho que eu quebrei o preconceito da construção civil. Uma coisa que eles apostaram e deu certo. Essa obra do Itacamarco Correa, que eu fui para Rondônia, Era tanto homem, tanto homem dentro da obra, que quando... parece que Deus manda, assim, alguém, um anjo pra gente, sabia? Quando a gente tem um coração limpo e é batalhador, acho que Deus manda uma proteção, alguém pra proteger. E esse encarregado meu, ele me tratava, assim, com tanto carinho, que quando eu ia pro banheiro, pros banheiros químicos, ele mandava sempre alguém ficar na porta. para não correr risco de ser estrupada, de os caras fazerem coisas... barbaridade dentro daquela obra, porque aquela obra ali, você conheceu aquela obra.
Não, eu conheci.
Você sabe que rolou muito essas coisas. Teve muito isso dentro daquela obra, entendeu? Então ele não deixava eu sair sozinha de jeito nenhum. Quando eu ia jantar, Ele mandava mensagem pra mim. Você tá indo jantar? Eu falei assim, tô. Aí ele falou assim, então, você quer ir com a gente? Com a nossa turma? Pra você não ir sozinha? Aí eu falei assim, quero. Então aquilo ali foi um aprendizado pra mim também.
E quanto tempo você ficou nesse...
Eu fiquei dois anos.
Dois anos?
Dois anos. Quando eu saí dessa obra... Quando eu saí dessa obra, eu já tinha a minha casa aqui de São Paulo. Quando eu saí dessa obra, eu saí com o objetivo de comprar um lugarzinho para mim e os meus filhos. Um lugar mais aconchegante. E eu fiz esse refúgio. Eu tenho esse refúgio. Gente, é impressionante a sua história. Eu gosto tanto desse refúgio meu que eu não comprei pronto. Não comprei pronto. Eu comprei o terreno. E eu comecei o meu projeto, eu fiz sozinha. Sem engenheiro, sem arquiteto, sem nada. Eu fiz sozinha na minha cabeça. Comprava o material, pagava o profissional, e ela exigia. Olha, não faz errado, porque eu conheço obra, hein?
Tem muita estrutura metálica?
Tem. Tem muita estrutura, tem muita ferragem, tem muitas coisas na minha casa. Cada coisinha que tem lá tem meu detalhe.
Eu imagino como você deve ter orgulho de olhar para cada canto, para cada detalhe.
Eu falei isso para os meninos ontem. Tenho 14 anos de obra, de metrô. Eu gosto de tudo que eu tenho, mas esse cantinho meu, eu defendo, eu brigo com qualquer pessoa por causa desse cantinho. Porque aí eu estava falando... Aí vai todo mundo chorando de novo, né? Aí eu falei assim, quando eu abro a porta, assim, que eu vejo aquilo ali, que tá ficando, a cada dia, do jeito que eu quero, que é muitos anos eu mexendo, porque, você sabe, construção é uma coisa que nunca tem fim.
E quando você gosta, então, aí você quer mexer um pouquinho aqui e tal.
Sempre tá mexendo, é. Aí eu falei assim, então, quando eu abro a porta, que eu vejo cada tijolinho ali, cada bloco ali, tem o meu sual, tem o meu dedo, tem o meu trabalho, eu tenho uma força tão grande, tenho um orgulho tão grande, que você não tem noção do orgulho que eu tenho daquilo ali, de falar, é meu, eu fiz, a minha capacidade eu fiz sozinha, eu não tive ajuda de ninguém, só Deus, tudo foi, a mão de obra foi paga com a minha mão de obra, vendendo a minha mão de obra, e eu sou muito grata.
Não, eu imagino... Ô, Creuza, eu queria que você falasse um pouquinho, depois que você saiu lá da hidrelétrica, né? Enfim, quando você saiu dessa obra, você foi pra qual obra?
Galvão.
Você foi pra Galvão, mas qual obra?
Metrô Linha 5.
Linha 5. Eu também participei.
Barba Gato e Alto da Boa Vista. Eu fiz aquela obra, o início daquela obra de escavação completa, daquela obra da Galvão, junto com o pessoal, aí teve um desentendimento, mas foi inocência minha também, que eu era muito novinha, né, na época.
E ainda é. Pra mim, você é.
Eu era muito inocente, então teve um desentendimento entre o encarregado e comigo. Mas ele foi traíra comigo. Só que o exigiêrio tentou aproveitar o máximo que ele pôde pra mim ficar, mas eles não conseguiram, eles não foram culpados, foi minha inocência mesmo. Quando eu saí de lá, da linha 5, Aí eu conheci um encarregado que fazia o trecho de lá, que ele era da Serra Romeda de Andrade. Aí ele passou e viu eu trabalhando. Aí ele falou assim, uma mulher? Eu falei, sim. Aí eu peguei e falei pra ele, aqui dentro eu não sou mulher, aqui dentro eu sou homem, eu tô aqui pra trabalhar. Porque às vezes eu também sou grossa, eu sou bruta. Por isso que as pessoas me respeitam.
Quando você tá com aquela máscara, com aquele capacete... Às vezes eu sou bruta.
Aí eu falo assim, então, aqui dentro eu não sou mulher, aqui dentro eu sou homem. Eu sou mulher só quando tiver indo pra minha casa. Aí ele falou assim, posso falar com você? Eu falei, pode. Você pode me dar seu telefone? Eu dou o meu telefone e fico com o que? Aí ele falei, pode me dar um currículo seu? Gostaria muito de ter uma mulher na minha equipe. Eu acho muito da hora mulher assim, trabalhadora, que tem coragem de trabalhar, meter a mão na massa mesmo. Aí eu falei pra ele assim, é... sim, posso sim. Aí eu dei meu currículo. Aí quando foi três dias depois, a Galvão tinha me dispensado.
Nossa!
Foi. Aí, quando eu tava chegando em casa, que eu fui dar baixa nas minhas coisas da Galvão, da linha 5, quando eu tava chegando em casa, ele me ligou. Onde você tá? Eu falei assim, tô chegando em casa. Tem como você chegar aqui na... O escritor Andrade, na linha 17, era ali na Bernardino de Campo.
Olha!
Minha mente tá boa. 2015? 2015, 2016. Aí ele falou assim, tem como você vir na Bernardino de Campo? Eu falei, tem. Vem aqui até uma hora que eu estou te esperando na portaria. Eu falei, por quê? Você ainda quer a vaga de soldador? Ele falou, lógico. Acabei de ficar desempregada.
Será que ele sabia? Eu não sabia, não.
Eu acabei de ficar desempregada, por que não? Aí ele falou, então venha pra cá que eu estou esperando você pra me levar você diretamente no escritório. Vou apresentar você pra mim. Dá pra você entrar direto. Porque estava assim de gente pra fechar. Aí tinha que passar na frente, né? Porque era indicação, né? Eu me achei mais puderada, né? Aí quando eu cheguei na portaria, ele tava me aguardando já na portaria. Aí a gente entrou lá, ele foi... Essa daqui vai ser minha saudadora, não sei o quê. Aí eu fiquei lá. Fiquei 2016, 2017, 2015, 2016, 2017.
É muito bacana. Cris, eu queria que você falasse agora um pouquinho algum ponto, alguma situação que te marcou dentro do canteiro de obra.
Marcou na linha 17. Quando a gente estava na linha 17. Às vezes, no final de semana, a gente ia almoçar fora. Numa sexta-feira, ia comer uma feijoada. Aí, ali perto da Globo, da Água Desplanhada. Acho que ali tem negócio de ambulatório, né? De análise, alguma coisa. Da USP. Então, aí tinha um restaurante ali que a gente ia almoçar. Sempre. Ali. Aí teve um dia que a gente foi almoçar e eu sempre tirava a camisa de cima pra ficar com a de baixo, que eu tinha um certo tipo de vergonha, né? De sair na rua com aquela blusa. Aí eu fui tirar a blusa pra ir. Aí o meu chefe foi e falou assim, por que você tá tirando a camisa da empresa? Aí eu falei, ah chefe, é porque a gente vai almoçar no restaurante lá. Tem um monte de madame passando de salto, tudo bonita, de cabelo balançando, tudo chique, e eu aqui toda suja. Aí meu chefe foi e falou assim, não, você vai com essa camisa. Eu falei, não, chefe, eu tenho vergonha. Aí ele falou, querido, você está me... Aí ele me escrachou. Isso me marcou muito, essa palavra que ele falou. Ele falou assim, ó... Deixa eu te falar uma coisa. Tá vendo essas mulheres bonitas aí, andando de salto? Essas madame aí, tá vendo? Aí eu falei assim, então, pra elas ganharem o salário que você ganha, elas têm que trabalhar dois meses. pra ganhar o que você ganha com essa roupa suja. Tá vendo esse salto que ela tá usando aí? Eu duvido se ela apagou esse salto. E você vai lá e compra a vista. Então você tem que ter orgulho da roupa que você veste. Você tem que ter orgulho do que você faz. Então isso que ele falou pra mim me marcou. Aí teve uma outra situação que a gente foi no banco.
A mesma pessoa.
A mesma pessoa. A gente foi no banco no dia do pagamento, porque não tinha esse negócio de aplicativo ainda, né? Pra você ver se o pagamento tinha caído, você tinha que ir lá, apertar o cartão pra ver se tinha o pagamento caído. Aí a gente foi. Eu e ele. Quando chegou no banco, o cartão dele tava com problema. Aí ele, vamos entrar pra gente... pra gente ver lá dentro, né, na gerência. Aí fui. Quando chegou lá, a moça do banco olhou pra ele, ele tava todo bonito, ó, porque roupa de encarregado é diferente, né, mas a roupa de pião é diferente. Aí a moça olhou assim pra mim, assim, com a cara de nojo, assim, sabe? Aí ele foi e falou assim, por que você tá olhando pra ela assim? Nada. Você tá com nojo dela, tá com nojo da roupa dela. Aí ele pegou assim na minha roupa, falou assim, tá vendo essa roupa aqui? Só tá suja. Quando ela for pra casa, ela vai vestir a mesma roupa que você tá vestida. Tá vendo essa roupa aqui, ó? Essa roupa que ela tá, ela compra até o seu sorriso com o salário que ela ganha. Ela compra o sorriso de vocês tudo, assim vocês brincarem.
Que legal!
Aí depois que ele falou isso pra mim, isso me marcou muito. Aí eu parei. Hoje eu vou no banco, eu não tiro nem a touquinha da cabeça. Eu não tenho vergonha. Não tenho vergonha de ir em qualquer lugar com a roupa da empresa, de toquinha, de bota. Se for possível, eu vou até pra casa. Eu não tenho vergonha mais de nada.
Então é orgulho. Mas sabe o que é legal? Porque a roupa, na verdade, é uma casca.
É uma casca. Foi isso que ele falou. Ele falou, se você tirou a roupa, você vai ficar do mesmo jeito que as meninas estão.
Você entende igual. Eu vendo você lá na obra, eu olho pra você na obra, você tá com os EPIs ali de proteção, agora… Faz assim pra mim. Faz pra aquela câmera. Gente, olha isso, ó. Ela veio da obra. Você veio da obra agora pra conversar comigo.
Eu vim da obra agora.
Você entende?
A vaidade da mulher não deixa de ser.
Então, o que a gente precisa, de fato, quebrar é isso. O fato de você estar ali com um macacão de soldadora, uma toca de soldadora. Você está protegendo a sua pele. Sim, sim. Você entende? E não muda.
Não.
Não te desclassifica em relação àquelas mulheres que trabalham em escritório.
Não. Entende?
Então, assim, quando você fala... Inclusive, a questão financeira, isso é uma coisa muito importante citar, que pra ganhar o que você ganha hoje, se a pessoa não tiver um MBA ali...
Não ganha.
Não ganha. Um doutorado... Tem que ser doutorado pra.
Ganhar o salário que eu ganho.
E olha lá.
E eu não vou revelar.
Não, e não vai revelar, porque eu não vou deixar.
Não vou revelar, não.
Tá curioso? Tá curioso?
Deixa todo mundo ficar curioso.
Ô, Creuza, mas o que vai ter de gente perguntando no... nos comentários seu salário.
Vai mesmo, não vou falar, não pode falar não.
Não, mas assim ó, agora falando um pouco mais sério, enfim, tudo que foi falado aqui foi muito sério, mas assim, uma dica pra você, imagina que as mulheres que estão nos assistindo ou ouvindo pelas plataformas de áudio, gostariam de fazer um curso pra trabalhar também em canteiro, qual que é o caminho que elas devem seguir?
Elas têm que fazer o curso e buscar o que elas gostam de fazer dentro da obra, de uma obra. Se gosta de trabalhar de empreteira, faz o curso de empreteira. Se gosta de carpintaria, vai carpintaria. Se gosta de maçonaria, faz maçonaria. E correr atrás e buscar.
E assim, e se precisar de alguma dica, as pessoas podem entrar em contato com você?
Pode.
Hoje a gente tem também o Senai, né?
Tem o Senai que hoje tem curso para tudo. Qualquer tipo de curso que quiser fazer, principalmente se estiver desempregada, a mulher estiver desempregada, para quem não sabe, o Senai dá curso de graça. A Petrobras também dá curso de graça.
Eu queria chamar a atenção para um ponto, porque, nitidamente, você é uma pessoa apaixonada por obras.
Eu sou.
Agora, eu queria te perguntar, é muito pessoal isso, você está na obra pelo dinheiro ou pela paixão? E tudo que você construiu, o dinheiro foi uma consequência?
Pelas duas coisas.
Pelas duas coisas.
Sim. Porque o conforto da minha casa, da minha família, eu comecei a dar através da obra.
Então, mas você entende, Creusa, que assim, você entende que o processo que você traçou, imagina, o que você abriu mão para se destacar na área que você está hoje, você poderia ganhar, talvez, o mesmo valor, ou até mais, também trabalhando em outras áreas, porque, assim, o seu... Quem fez? Quem faz? O seu sucesso é você.
É eu.
Você entende? Sim. Olha quando o seu chefe, na época, saiu. Você estava empregada e você tinha tanta gratidão e tanto carinho pelaquela pessoa que você abriu mão daquele emprego pra ir com ele.
Foi.
Você entende que não é dinheiro?
Não, é amor mesmo.
É amor. O dinheiro é uma consequência.
É consequência. Eu amo estar na obra.
Você entende?
Eu nem me sinto cansada pra ir pra obra. Se for pra mim, domingo é domingo. Tudo que eu faço dentro da obra, eu faço com amor. E talvez, talvez, não por eu ser mulher, hoje, o meu destaque da minha mão de obra não é todos os homens que ganham pra mim.
Curiosa, deixa já, agora vamos falar, quero dar uma provocada agora. Curiosa, eu estava conversando outro dia com a Tawana, foi uma convidada que veio aqui no Construquestia, ela estava falando da qualidade de mão de obra. da mulher. E aí ela deu o exemplo da solda e tal, porque ela entende que na cabeça dela existe muito desperdício de solda. Enfim, solda é um... É um item caro.
É uma arte.
E também é uma arte.
É arte.
Agora, você... O que que é ter qualidade, por exemplo, de solda? Como que a mulher traz... Ou seja, como e por que a mulher traz tanta qualidade pra solda?
Porque a saudade exige dedicação e muita determinação. Não é um trabalho silencioso, é como se fosse um desenho. É uma arte.
Por mais que exista repetição.
Sim, sim. Mas é uma arte. A repetição que a gente vai fazer da saudade, ela não é repetida. Você vai fazer um, tipo assim, por isso que é uma arte, porque vamos supor, você vai fazer uma raiz, dependendo do filete que você for fazer, você pode fazer 10 ou 20 filetes. Você vai fazer uma vez só a raiz e vai seguir sequência. Então é como se você fosse desenhando. É a mesma coisa de você pegar um lápis e você desenhar o que você quer o desenho. A mesma coisa é a saudade pra gente. É por isso que quando a gente baixa aquela máscara pra saudar, se acontecer qualquer coisa ao redor da gente, a gente não percebe o que tá acontecendo.
Você entra em um mundo paralelo, é um mundo seu.
É o mundo da gente. A gente só fica focado naquilo que tá fazendo. Ter um pouco de controle respiratório pra gente fazer. Porque se você... Uma pessoa... Conforme você vai fazendo, dá diferença.
Nossa, que interessante. Você já foi... Você já chegou... Você já foi na fábrica de aduelas?
Quem montou a fábrica de aduelas fui eu.
Que legal!
Eu, no sentido, assim, de soldadora, fui eu. E teve um outro companheiro que ele não está mais na Acciona.
A fábrica de aduelas, para quem não conhece, é onde são fabricadas as aduelas da linha 6 laranja de metrô.
Aquelas placas de concreto grandes.
O tatuzão, ele vai furando, ele vai perfurando ali. E essas aduelas, elas são colocadas de forma automatizada, né? Então você já vai deixando ali a parede do túnel já pronta. E essas aduelas são fabricadas lá em Perus.
É. Eu poderia ter, hoje, se eu não tivesse essa profissão, se eu não tivesse me apaixonado tanto por essa soldadora, eu poderia ter sido uma médica, eu poderia ter sido uma técnica de enfermeira, eu poderia ser uma técnica de segurança do trabalho, eu poderia ser uma engenheira de segurança do trabalho, eu poderia ser uma... não que não é... que é uma área também muito gostosa, meio ambiente, só que eu não quis, porque Essas três áreas, eu tentei.
Você tentou a saúde?
Sim. Eu fiz auxiliar de enfermagem, eu já estava no estágio. Eu chutei o balde e fui fazer o curso de saudadora. A Galvão me deu a bolsa para me fazer segurança do trabalho, entre segurança do trabalho e engenharia de construção civil. Eu fui para a segurança do trabalho. Eu já estava na fase do estágio também. Eu não fui também. A minha profissão é apaixonante para mim. Eu não me vejo nem eu fora de uma obra da construção civil. fazendo uma outra coisa e nem me vejo fazendo uma outra coisa que eu não consigo fazer.
E um ponto que eu queria também chamar para... é uma área também que eu respeito muito, que eu gosto muito, que é a segurança do trabalho. Eu acho que eles têm um papel fundamental para cuidar da vida daquelas pessoas e a área de construção civil O povo teimoso é o povo de canteiro.
É muito importante a segurança dentro da área da construção civil. Uma construção civil no porte que nós temos hoje, a Acciona, Eu não sei quantos mil funcionários a gente já tem, mas a gente vai chegar a aportar 9 mil funcionários, interno e externo. Os internos são os nossos, da Acciana. Os externos são terceirizados, que eles falam que são as contratadas. A segurança é muito importante, porque no porte que nós temos é muito perigoso. A construção civil se torna uma das obras perigosas.
É muita movimentação, né?
É muita movimentação de carga, é muita... Tudo tem movimento de muitas coisas, entendeu? do arame à portaria, se torna perigoso. Então é muito importante a segurança. Eu acho que se a gente não tivesse... Eu fico imaginando naquela época que não tinha segurança. Como que não era? Porque eu me vejo muito importante assim. E quando um técnico de segurança está falando, eu escuto muito, que eu gosto muito.
Sabe, e também, Creuza, tem... Acho que no seu caso, em especial, acho que também pode ser devido a toda a sua história. Porque imagina, você já começou... dentro de grandes empresas, né? Você foi trabalhar numa obra muito importante, que foi uma hidrelétrica, a construção de uma hidrelétrica. Então, assim, você já começou grande dentro da construção.
As empresas, assim, do Brasil, as grandes empresas, eu conheço. Esse escanteiro da Verde, da Linha Verde, que está... Tocando também, iniciando agora, todas as empresas que estão lá, dificilmente eu não conheci uma pessoa. E eles também não me conhecem. Porque sempre tem um ou dois, aí fala assim, principalmente na minha área de soldador, passa e pergunta, nossa, eu conheci uma soldadora. Aí todo mundo fala, quem? Como que é ela? Qual o nome? Ah, trabalhei com ela. Ah, sério? Ela tá da linha 6! E, assim... É... De 15 anos de profissão, eu nunca saí da minha casa com uma pasta e um currículo pra... pra entregar em obra. Nunca.
É, é, é. Isso mostra realmente...
Eles mesmo... As equipes mesmo que saem do canteiro quando acaba, eles mesmo me chamam.
Ô, Creuza, você acha que relacionamento é mais importante que dinheiro? Sem os relacionamentos você consegue ter dinheiro?
Não.
Olha que legal.
Eu não... Eu sou solteira.
Não, mas quando eu falo de relacionamento você entendeu, né?
Sim, eu entendi, entendi.
As relações que você cria, entende os amigos e tal, que indica você e tal.
Não. Meus amigos, eles são muito importantes também para mim, dentro da minha área. É muito importante. Tem amigos que você leva pra com você, com certeza. Tem amigos verdadeiros, como todo lugar tem, né? E tem muitos amigos traíras também.
É como tudo na vida, né?
Tem muitos amigos que estão ali perto de você, se aproximam de você, não pra ser seu amigo, que é pra adquirir alguma coisa, alguma falha. Mas, igual você fala, eu sou muito forte.
Você acha que é fácil estar perto de você? Quem não tem a mesma capacidade que você? Então, assim, acho que não tem nem o que falar o quão você é uma mulher bem-sucedida na vida, porque sucesso é isso, né? Sucesso é você olhar. pra outro e falar, nossa, que pessoa feliz, né? Eu sou. E o meu desejo, que eu sempre falo, que pessoas como você que tem esse sorriso, que tem essa alegria, que isso só aumente e que você nunca fique triste, porque da mesma forma que você tem muita gente querendo sua felicidade, tem muita gente que você ofusca.
Não, mas não consegue, né?
Não, mas não consegue.
Esse sorriso aqui só tira Deus.
Imagina! Dá pra brincar com a gente?
Muito.
Dá pra brincar com a gente? Não dá.
Não dá, não. Ninguém me deixa triste, assim, por um motivo fútil de qualquer... porque tem ciúmes ou tem inveja do que eu faço. Não, não me deixa.
Creuza, vou mudar seu sobrenome. Posso?
Não me deixa, sim.
Fala seu sobrenome pra galera.
Santos.
Não, agora é Creuza Sucesso. Criou de sucesso, que participou aqui do podcast e abriu a série Respeito Se Constrói. Então, tudo que você construiu até aqui foi adquirindo muito respeito e estamos agora na série Respeito Se Constrói, que vai ficar dentro da série Mulheres. que constrói. Olha que legal.
Tem uma parte, sim, também que marcou, que é aquela atriz que faz os quadros do metrô, que é assinada por ela. Eu nem sei o nome dessa mulher, Mas é muito importante esses quadros dela dentro do metrô. Olha pra você ver. Eu era nova. Nem tinha a cabeça que eu tenho hoje, né? Nem penso que nem eu pensava hoje. Quando foi no meu aniversário, ela foi no canteiro da Galvão. Olha que privilégio.
Quando que é seu aniversário?
28 de maio. Aí ela foi dentro do canteiro de obra e falou assim, eu posso tirar uma foto sua? Eu falei, pode, mas por quê? Eu vou te dar um presente antes do meu aniversário. E ela já sabia a data do meu aniversário. Aí ela fez uma moldura linda, linda, linda, linda. Eu, a minha filha e meu filho. E me deu. E assinou. Uma palavra que ela fala que me emociona até hoje.
Qual que é?
Ela falou assim, muita gente ia no metrô. Olha pra esses quadros aqui e não sabe o que eu fiz.
E você tem esse privilégio.
Deu assinar isso pra você e ela assinou pra mim. Fez essa mudura linda. Só que na época eu não pensava nada. Ela nem tinha juízo pra pensar nova, achava que aquilo ali nunca ia passar aquilo da minha cabeça. Aí eu tava comentando isso com o Raul ontem, eu falei, caramba, se eu tivesse essa cabeça hoje que eu tinha, eu tinha isso guardado comigo. E eu não guardei, porque eu achei assim que não era importante. Mas olha a importância que isso foi.
E quem falou que você não tem?
Não, mas aquilo que ela fez pra mim foi um carinho enorme, pelo carinho que ela teve, entendeu?
Olha você emocionada, você tem. Você tem na sua memória, você tem na sua mente, você tem no seu HD.
Eu tenho, que acho que essa mulher nem é mais viva.
Você entende.
E olha o privilégio que eu tive.
Muita gente não sabe. Olha, mas você tá, tá no seu HD, tá na sua memória, porque nem sempre aquilo que você salva, que você coloca pra fora pra mostrar pra outras pessoas, mas o melhor de tudo é olhar pra você e saber, sabe, a gratidão, o quão você é grata. por todo esse processo, e você foi uma privilegiada?
Fui.
Ou seja, você foi, sabe?
Eu fui.
Se fosse uma loteria, você foi aquela carimbada que ganhou o bilhete. Entendeu?
Então, tem muita história assim, bonita, assim, que eu sou muito feliz por isso. Eu levanto de manhã assim e agradeço muito a Deus. Eu falo assim, gente, eu sou rica, mas é de felicidade, de privilégio.
Cruza, antes da gente encerrar, primeiro que eu gostaria que esse episódio chegasse no maior número de pessoas possível. E tem muita gente que reclamou, né? Agora, quem tiver reclamando pra mim, eu vou pegar esse episódio e vou mandar pra pessoa. Entende? Eu vou fazer um trabalho muito forte com esse episódio. Você não veio por acaso aqui, a gente não se encontrou por acaso. Aquele dia que eu fui no VSETT, não foi por acaso. Eu sempre falo que as pessoas não cruzam o meu caminho por acaso. E você agora não vai mais sair da minha vida. Ai, também. Já tem meu contato. Esse espaço aqui é seu. E eu gostaria que você desse a oportunidade, você, Creuza, pra trazer outra pessoa também do canteiro de obra. Pra vir aqui pra falar um pouquinho da história.
Traga.
Entendi, ó, tá com você. Entendi, esse espaço aqui é nosso. Aqui a gente recebe engenheiros, arquitetos, donos de construtoras, enfim, coordenadores de obras, mestres de obras. Então, assim, o que me deixa encantado, o que me brilha o olho é isso, é poder, sabe, criar essas conexões.
Gostaria de agradecer a você, às meninas, né? E a paciência de eu ter chegado aqui.
Foi legal, foi legal.
Nada é igual o que você está falando, nada é por acaso, né? E estou feliz, estou contente. É uma coisa que eu queria sempre ter contado mesmo, porque eu tenho orgulho mesmo de contar. Não tenho vergonha. Se eu pudesse escacarar sobre o maior morro do mundo para contar, eu contaria sem medo nenhum. E eu tenho o maior orgulho do que eu faço. Tenho o maior orgulho do que eu faço. Eu conto para qualquer pessoa, sem restrição nenhuma de contar. Não tenho vergonha de contar. E eu estou muito grata e estou muito feliz.
Então, e eu tô muito mais feliz, Griosa, por você contar a sua história aqui no Constricast, um canal que eu reputo tão importante para unir toda a indústria da construção, arquitetura, engenharia, um canal que fala com arquiteto, um canal que fala com engenheiro, um canal que fala com dono de construtor, um canal que fala com profissionais de obras, enfim, técnicos de segurança. Então, aqui não tem separação, muito pelo contrário, aqui tem união.
Tem acolhedor.
Então, gente, você que ficou aqui até agora, tenho certeza que você está muito impactado com essa história. Não deixa, não deixa essa história parar com você. Manda para pelo menos mais quatro, cinco, seis pessoas, dez, enfim, quantas vocês acharem pertinentes. Um abraço para você. Fiquem ligados, porque a Creuza vai trazer mais uma pessoa aqui logo mais, e ela vai estar junto aqui, apresentando esse episódio, esse podcast com outra pessoa junto comigo. Creuza, ó, naquela câmera do meio ali, dá um tchau pra aquela galera. E convida as pessoas pra se inscrever.
No canal, Creuza, porque... Se inscreve no canal, assista. A história é bem contada e emocionante.
Muito emocionante.
More from Andre

Tenha Cuidado Redobrado na Hora de Comprar um Apartamento | Podcast | Construção | Arquitetura

Quanto Ganha um Ajudante de Pedreiro na Construção Civil? Fala do Mestre de Obras Glaudio | Podcast

O Erro na Reforma Tributária que Pode Custar MILHÕES à Sua Empresa | Podcast #202

Valorização Profissional na Construção Civil | Podcast | Engenharia | Arquitetura #obra

Método CHAMA Gravado Com o Engenheiro Boutros Bichara | Pessoas Negativas | Paulo Barros #podcast

Assista ao Vídeo do Roberto Justos Sobre Caso Daniel Vorcaro do Banco Master | Podcast | Construção

AI FIRST #2 . André Abucham e Lauro Fiuza - Os desafios intrageracionais dentro e fora das empresas

Vidro NÃO É Tudo Igual! Descubra o Erro Que Pode Destruir Seu Projeto | Podcast | Arquitetura

Como ZERAR o Desperdício na Obra e Economizar R$ 600 mil com Construção Off-Site | Construecast #200

O Desperdício de Material na Construção Civil é Assustador | Podcast de Engenharia | Arquitetura

Pedreiro Faz Viga Invertida Que Imita MASP da Avenida Paulista em São Paulo | Podcast de Construção