Mulheres que Constroem | Arquitetura de Varejo | Jovita Torrano | Podcast Construecast

Architect Jovita Torrano spent 40 years designing food markets and supermarkets, including six years at Grupo Pão de Açúcar. She discusses how retail design balances customer experience as a leisurely walk with technical demands like cold equipment, generators, and back-of-house logistics, and how the pandemic shifted stores into gathering spaces.
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Sejam bem-vindos ao ConstrueCast. O episódio de hoje é um oferecimento produtora Infinity Plus. Sejam bem-vindos, está no ar mais um episódio do ConstrueCast e hoje seguimos ainda com a série Mulheres que Constroem. E como convidada eu recebo Jovita Torrano, que é arquiteta especializada no mercado de varejo para alimentação. para conduzir esse bate-papo junto comigo. Eu recebo uma também arquiteta, Natália Santos, só que voltada para outro segmento. Então imagina só como esse episódio está especial. Vai ser uma troca muito bacana. Natália, seja bem-vinda ao nosso podcast. Eu peço que você apresente aí a nossa convidada, conduza as perguntas. Eu vou ficar aqui mais como... Vou ficar nos bastidores aqui. Seja bem-vinda.
Olá, tudo bem, gente? Bom, fico muito contente, primeiramente, pelo convite, é sempre muito legal a gente vir falar um pouco do que a gente faz, né? Porque a gente acaba ficando muito nos bastidores ali, atrás da prancheta, atrás do computador, então falar um pouco do nosso segmento é muito interessante. E hoje nós estamos aqui com a Jovita Torrano, seja bem-vinda!
Bem, primeiramente também estou super feliz de estar aqui com vocês, esse convite bem bacana. E vamos ver se a gente leva um papo gostoso e falar um pouco de arquitetura, que é o que a gente mais gosta de fazer. Bem, eu estou fazendo arquitetura há bastante mais de... Nossa. Não devo falar. Não devo falar!
Fiquei preocupado agora. Gente, quem está ouvindo pelas plataformas de áudio, você vê que tem bastante conteúdo hoje interessante para compartilhar com vocês. Tem muita experiência.
40 anos de arquitetura e assim, logo que eu me formei, eu entrei na área do varejo. e é uma coisa que, assim, te mordem, é um bichinho que te mordem, é uma área muito dinâmica e muito rápida, as construções são rápidas, o projeto é rápido e é uma coisa que ficou muito de acordo com o meu jeito de ser, né? Então, foi uma coisa que deu muito certo e eu comecei a gostar desse segmento e acabei indo e me especializando, hoje eu tenho um escritório de arquitetura voltado para o varejo, na maioria de alimentação. Esse escritório foi montado depois de ter experiências em vários tipos de atuações na arquitetura. Comecei trabalhando em uma gerenciadora de projetos, que fazia projetos, uma empresa francesa que fazia gerenciamento de obras de hipermercados aqui no Brasil. Então, eu tive essa experiência olhando dentro da obra. A gente trabalhava, montava um escritório dentro da obra. Então, você vai vivendo todos os problemas, que são uma obra de prazo muito curto, E você tá lá fazendo projeto ao mesmo tempo que eu começava a obra com o projeto também começando, né? Então, era um projeto muito rápido, no meio de uma obra, com prazos muito pequenos. Então, eu tive essa primeira experiência dentro da obra, depois eu tive experiência mais voltada a projeto e, finalmente, eu trabalhei dentro de uma empresa de varejo. Eu fui seis anos gerente de projeto do grupo Pão de Açúcar, então eu vivi dentro de uma empresa de varejo, então eu comecei a olhar também um outro lado, que seria como você trabalha com a área operacional, comercial, entendimento, de como funciona o abastecimento da loja, o que a loja precisa dar de performance, o que a arquitetura é importante para esse segmento. Então, na hora que, assim, diante dessa experiência, eu achei que valeria a pena montar um escritório. do jeito que eu achava que tinha que ser.
Especializado no mercado de varejo.
Especializando nesse mercado, já que eu já tinha olhado por vários ângulos o varejo. E daí, então, eu montei esse escritório e que abarcava assim, como é que eu sonharia que alguém me entregasse um projeto de varejo. Então, a gente, na verdade, faz uma solução meia completa. A gente tem a possibilidade de fazer bem um terreno e a gente começa a fazer o prédio, Faz a toda parte de interiores também. A gente desenha mobiliários. Tem algumas horas que é muito importante você desenhar um mobiliário exatamente para expor aquele produto específico. E a gente faz também a comunicação visual, mas normalmente, assim, 90% dos nossos clientes a gente acaba fazendo desde o projeto da edificação até a comunicação visual.
João, antes de passar a palavra para a Nath, eu gostaria de te perguntar, eu queria que você contextualizasse o que é um projeto de varejo, né? Porque, assim, qual a importância de um projeto desse para a sociedade? Porque se fala de varejo, onde você recebe muita gente, então, eu queria que você conceituasse pra gente o que é, pra quem tá ouvindo e assistindo a gente, né? O que é um projeto de varejo?
Bem, o varejo, assim, ele tem uma, abarca uma área muito grande. O que eu trabalho é alimentação, então, é basicamente supermercados, lojas especializadas de alimentação, restaurantes, food halls, centros gastronômicos, né? Então, é toda essa área que está aberta ao público, vamos dizer assim, e tem uma coisa muito ligada com a cidade mesmo, porque, por exemplo, uma cidade como São Paulo, que nos últimos anos teve um crescimento absurdo de obras, de prédios, tanto de escritórios como de residenciais, você tem que ter infraestrutura para essas pessoas, tanto que estão morando como as que estão trabalhando. Você tem que ter restaurantes, você tem que ter lojas, Então, a vida de uma cidade está muito ligada com esse varejo que atende os diferentes bairros e necessidades da cidade. Mas é uma área que gosto muito porque ela é visitada por muita gente, né? Eu gosto muito de... É uma obra que é... Passa muita gente pelos projetos que a gente faz. Então, você tem muito retorno, né? Que é muita gente comentando, muita gente vivenciando aquele espaço, né? E gente das mais diferentes cantos da cidade.
É, vivendo aquela experiência, né? Ou seja, cada um tem uma experiência, cada um tem uma percepção, né? Daquele espaço, então...
É!
Nath, pode conduzir agora o bate-papel é contigo, tá? Não mais convocação. assistindo vocês.
Não, é uma coisa que eu acho bem interessante, né? Porque a arquitetura é uma área tão grande que você pode se especializar por qualquer coisa. Você pode fazer desde o móvel da casa até uma escala muito maior, que é o seu caso, né? Eu gosto de brincar que na faculdade a gente faz aqueles projetos extraordinários de centros culturais, coisas que muita gente não vai fazer, mas talvez até por não gostar. Então, você desde o início já sabia que queria fazer varejo, ou foi os testes durante a faculdade que te direcionaram para esse lado?
Não, na faculdade eu nem sonhava, porque a faculdade não fala de arquitetura de varejo, é uma coisa que não existe dentro da universidade, ninguém nem sonha, hoje ainda um pouco mais. Mas naquele tempo não era uma arquitetura considerada para ser estudada dentro da faculdade. Então foi realmente quando eu saí que eu tive essa primeira experiência nessa gerenciadora. Inicialmente começou no escritório de um arquiteto, depois fui para a gerenciadora, mas sempre fazendo lojas, que eu gostei demais. E esse negócio do detalhe é muito bom, por exemplo, no varejo, como eu falei que a gente faz essa solução completa, a gente constrói um prédio onde você vai compatibilizar a estrutura, você vai falar de fundação, de todas as questões que envolvem a construção mesmo de um prédio, e normalmente a gente faz prédios com subsolo, então é uma uma construção complexa até a gente fazer o detalhe de um móvel que vai para expor vasos de flores. Eu acho que isso que me deixa mais desafiada, porque você faz aquela obra e depois vai lá projetar o detalhezinho ou uma plaquinha de comunicação visual. Isso é bem interessante no varejo.
O que eu ia falar era em relação a essa questão mesmo do varejo, porque quando a gente tá na faculdade, a gente aprende muito a desenhar pra uma pessoa x, porque a gente não tem um cliente de fato, que foi uma das dificuldades quando eu comecei a atuar sozinha, foi entender o briefing, a necessidade, como o meu escritório era voltado pra apartamentos na planta, aí é uma coisa que a pessoa ainda nem tem a chave, nem sabe o tamanho, não tem noção do espaço, E pensando nessa questão do varejo, você acaba projetando para uma quantidade de pessoas maior e ainda mais pessoas X, porque pode ter uma pessoa do estilo A, do estilo B. Então, como é que é essa questão? Quais são as dificuldades de projetar uma coisa tão grande para tantas pessoas?
Na verdade, a gente tem sempre dois clientes no varejo. Tem o cliente que contrata a gente, que tem uma série de expectativas e necessidades, e a gente tem o cliente final, que é o cliente que vai usar efetivamente aquele espaço. Então você tem que pensar nesses dois clientes, o que te traz um programa e fala, olha, eu preciso fazer isso, sei lá, num caso de supermercado, eu vou pôr tantos itens, é uma loja que tem padaria, tem açougue, tem uma série de... E o cliente que vai efetivamente viver aquela experiência, que pra gente arquitetos, a gente fica mais preocupado com eles.
Sim, com certeza.
Claro, e quando a gente tá preocupado no cliente que vai viver a experiência, você acaba atendendo muito melhor a demanda do teu cliente efetivamente que te contrata, né? Porque ele também tá querendo oferecer a melhor experiência, né? Então você não vai exatamente seguir, você vai colocar a tua... expertise exatamente no que você entende que a experiência que ele tá tentando passar, que ele só sabe ver em termos de números ou de número de produtos que ele vai colocar numa loja, mas ele não consegue vivenciar isso.
Uma curiosidade, desculpa te interromper, quando você tá pensando no cliente final, né, que é de fato quem vai ocupar, usar os espaços e tal, já aconteceu de haver uma resistência de quem tá te contratando? Não, Jo, eu acho que isso não, porque eu quero Bora, mas não foi o que eu pensei.
Olha, eu acho que esse tempo todo que eu vivenciei tanto dentro da empresa de varejo, você começa a entender muito como funciona o que ele precisa e o que ele vai ter realmente como espaço. Normalmente são bem aceitas as minhas propostas, mas a gente faz uma pesquisa muito grande. Quem é esse público que ele vai atender? Que lugar do país está? Porque no nosso escritório, a gente brinca, vai doi a pó que eu chui. A gente tem projetos no Brasil inteiro. E tem diferenças culturais mesmo. A gente tem projetos no Rio Grande do Sul e no Maranhão. são completamente diferentes os públicos, né? Apesar de ter, por exemplo, um supermercado, né? Você vai falar, não, vende as mesmas coisas, vende de outra forma.
Você tem uma diferença cultural, inclusive, no comportamento e na questão do trabalho, né? Por exemplo, horas trabalhadas, né? Tem aquele que estende um pouco mais, outros já são mais, não, vamos cumprir ali aquele horário, isso pode impactar em prazo de entrega, né? Tendo em vista que um projeto, quando você fala de dependendo da solução construtiva, que você tá utilizando, você precisa antecipar a receita, né? Então, até é um desafio que você tem que lidar também com isso.
Sim, e você falou, por exemplo, quando a gente constrói o prédio, a pessoa vem com o terreno. Ela sabe que tem um tempo, né, de construção, de obra, mas muitos projetos no varejo, a pessoa alugou um espaço. Daí ela alugou, no dia seguinte ela quer estar virando a caixa registradora e não é bem assim. Então é essa o maior, olha, calma lá, a gente acabou de ser contratada, vai pensar num conceito, porque a gente sempre, talvez o que respondeu a tua pergunta é assim, a gente sempre parte no nosso processo de trabalho de um conceito, né? Então você vai ouvir tudo que o cliente quer e você vai lançar pra ele um conceito. É nesse conceito que ele vai entender o que você está propondo, porque a gente sempre pensa no varejo assim, que é um passeio. Então, sempre eu penso quando eu projeto uma loja, que a pessoa está fazendo um passeio. Então, ela está caminhando e como é que ela vai descobrindo? De repente, sabe, você tem que desafiar alguns momentos, ela vai ter uma surpresa em uma coisa que você colocou lá, porque o varejo tem muito disso. tem uma coisa da pessoa tá meio descontraída, né, e de repente ela se vê num espaço que tem alguns desafios, né, que incitam ela até a repensar um caminho que ela tava acostumada a fazer.
Eu confesso que eu já vivi isso, inclusive num projeto que eu acho que é seu aqui, Imperdizes.
Qual?
Seu Marché.
Qual? O da Sumaré?
Da Sumaré, seu.
É meu. Aquele a gente fez, inclusive, a edificação.
Eu não sabia, tá? Não sabia, porque eu trabalhava numa empresa em frente e eu não, assim, eu tinha uma flexibilidade pra poder sair a hora que eu quiser, enfim, do meu espaço, então... Sabe aquela área, o espaço que todo mundo vai, querer ir na empresa tomar café? Não, eu saía, atravessava a rua, eu ia lá dar uma volta no mercado, não comprava nada, mas só pra viver a experiência, seja da boa arquitetura, tá? É muito interessante isso que você falou agora, que é um, sabe, uma área de passeio, uma área pra descontrair, uma área pra pensar em, sei lá, pra você fugir um pouco do... Sabe... Ah, eu quero colocar meu pensamento agora no quê? Talvez olhar o detalhe da estrutura, né? Que ele foi todo projetado em metálico, é um tipo de solução com estrutura aparente, né? E eu ficava encantado com a iluminação, a forma como as coisas se conectam, né? Essa conexão com a rua também. Então, projeto que...
É uma preocupação muito... Obrigada, que bom que você é cliente de projetos nossos.
Eu não sabia, surgiu agora com essa.
História que você falou. Mas a gente tem realmente essa preocupação no projeto de varejo, porque ele tem que ser... Por exemplo, ainda mais no da alimentação. Você vai lá comprar alguma coisa, você tá pensando num jantar às vezes, você vai oferecer um jantar pra alguém, você vai fazer comida pros seus filhos, então tem uma coisa assim também de... estimular uma coisa mais prazeirosa nessa experiência. E a gente tem a sorte de também ter clientes que topam isso, porque é uma sofisticação do varejo, você pensar nessa experiência como um passeio mesmo.
Quando o cliente compra a sua ideia.
Isso é bem interessante.
Acho que na sua área também é bem isso.
Sim, às vezes a gente propõe algumas coisas. Eu brinco que a primeira versão é a versão do arquiteto, que a gente viaja, faz umas coisas lá um pouco mais ousadas. Aí eles voltam um pouco, falam... Posso pensar? Pode!
Depois a gente continua, né?
É um momento que... Sempre a primeira reunião é muito importante, porque eles recebem muita informação, então eles ficam um pouco perdidos. Eu acho que por conta da surpresa, não saber o que esperar, porque eu acho isso muito mágico na nossa profissão. a gente projeta coisas que não existem. Então, às vezes, é até uma coisa que tá na nossa cabeça e a gente transforma aquilo numa plataforma maquete online, num 3D ou até à mão, muita gente ainda faz, eu super acho lindo, mas não é o meu, a minha praia desenho à mão, né. E a gente consegue transmitir esses desejos, não só dos clientes. Por isso que eu comentei que essa questão do cliente é bem difícil, porque às vezes nem os clientes sabem o que eles querem, né? Então, trazer soluções para isso sempre é um desafio, com certeza. E se tratando de obras tão grandes, pensando nisso, você falou que muitas vezes o cliente traz essa questão do terreno. São Paulo não temos muitos terrenos, né? Então, como a gente pode criar isso? Vocês escolhem também, ajudam o cliente a escolher o terreno, pensando no briefing que ele traz? Ou é sempre um desafio?
Não, é sempre um desafio porque varejo é o seguinte, a grande questão é ponto. Varejo é ponto, ponto, ponto. Então o que o cliente vai atrás? Ele vai atrás de um ponto que tenha a ver com o negócio dele. Como você falou, uma cidade como São Paulo, fora de São Paulo ainda você tem mais terrenos, você tem mais possibilidades. Mas São Paulo é uma coisa. Então, aparece o terreno triangular, aparece o terreno, começa numa rua, sai na outra, em L, em X, aparecem todos os desafios. E daí a gente gosta de desafios. Então, se você olhar os nossos projetos, você tem terrenos dos mais variados. E é uma coisa que, na verdade, o varejo que manda a escolha é o ponto. Isso não adianta querer. Você fala, ai, que terreno lindo, que vista.
Não, não.
Se aqui tem gente que vai usar esse negócio, é o que vai realmente mandar. E tem uma coisa assim, por exemplo, que eu acho que é um pouco diferente do segmento da residencial, né? que o segmento residencial, como você falou, é um sonho que a pessoa tem. Então, às vezes, ela não sabe muito bem materializar esse sonho.
Você vai conduzindo.
Agora, no varejo, a pessoa não tem um sonho, ela tem uma conta que ela... faz nada, tem uma última linha da conta. Então, ela sabe muito bem o que ela quer vender, ela sabe muito bem o que ela quer lucrar, ela sabe... Então, assim, é uma coisa mais... A pessoa vem, assim, muito dura com a gente.
Ela transfere isso pra você.
Sim, e qual a necessidade? Eu preciso de uma loja que venda, eu não posso ter uma loja bonita. E tem uma coisa meio assim, sabe? Acho que hoje melhorou muito, né? Porque a pessoa já entende o que é uma experiência de compra. Sabe, não adianta você simplesmente ter um bom ponto e expor produtos, você tem que oferecer, se você quer se diferenciar, uma experiência de compra. E isso é nisso que a arquitetura de varejo acabou sendo mais valorizada, porque a pessoa entende de que um espaço agradável vai fazer a pessoa ficar mais tempo e entender melhor o que a pessoa tá expondo lá como produtos.
E principalmente comprar mais, né? Porque hoje a gente, até foi interessante você falar isso, porque querendo ou não, com a pandemia, muita coisa mudou. O estilo de vida das pessoas mudaram, a percepção dos espaços das pessoas mudou bastante, né? E eu creio que principalmente pro varejo mudou, porque querendo ou não, hoje em dia, todo mundo tá com o celular na mão, tá aqui o meu mercado, tá aqui o meu shopping, tá aqui isso, então... Como que vocês estão lidando com essa dificuldade? Não sei se vocês já estão com projetos novos, montando coisas novas, pensando nessa nova realidade, né?
É, isso foi um grande desafio, né?
Bela pergunta, viu?
É, elaborou de uma forma linda, hein?
Foi muito bem pensado.
Elaborou que eu até fiquei assim, falei, uau!
Vamos lá, vamos ver o que vem por aí.
Bem, o varejo realmente é uma compra online, é uma realidade que, na pandemia, ela apressou mais ainda a entrada e, assim, todo mundo hoje não entende, ah, a pessoa mais idosa não liga, não consegue, não, ela compra online, a criança compra, todo mundo compra online. Então assim, a loja física começou a ser repensada e realmente na pandemia foi assim, o que vai acontecer com a loja física? Era uma pergunta que estava em todo mundo que trabalhava com varejo, o que vai acontecer com a loja física? Claro que o ser humano, ele gosta de estar socialmente, né? Então, assim, a loja física, claro que a loja física não vai acabar, porque é muito mais gostoso se você tá num dia cedo.
Fiquem tranquilos, gente. O shopping não vai acabar, tá? Então, podemos respirar em paz.
Do jeito que ele é hoje, vai. Mas ele vai se transformar. Então, assim, o que que é a loja física no momento onde comprar não é mais necessário ir na loja? o que passa a ser a loja física. Então, no nosso escritório, aconteceu um projeto que a gente estava fazendo no meio da pandemia, era ter um supermercado Saint-Marché, que era dentro de um shopping, e o que a gente iria fazer? Como a gente ia repensar? A loja estaria inaugurando no meio da pandemia, quase final. Então, hoje o varejo se coloca como uma área de estar também. É uma coisa de passeio. Tem até um lazer colocado junto com ele. Então a gente criou um projeto, a gente chamava até de loja de estar, e o meio da loja, no centro dela, ela tem uma área de estar. onde a pessoa pode fazer uma reunião de trabalho, pode fazer uma refeição rápida, pode encontrar amigos, pode trabalhar, levar o laptop dela e ficar trabalhando. Então, por quê? E na pandemia aconteceu isso mesmo, né? As pessoas estavam em casa e às vezes precisavam fazer pequenas reuniões e os supermercados estavam abertos. Então foi uma necessidade que a gente foi levando e a maioria do varejo hoje, tanto de alimentação como de outros, pensa na questão mesmo de você oferecer mais coisas além da própria compra específica.
Hoje é muito comum, na verdade, se algum tempo já você fazer reunião em padaria, por exemplo. Então as padarias, elas já vêm aí algum tempo trabalhando para receber pessoas para fazer reunião ali, para ter um espaço.
O Starbucks começou com isso.
Sim.
E foi um sucesso por conta disso até.
Exatamente. E é engraçado você comentar isso, porque eu vim com a minha família, eu sou do Rio Grande do Sul, interior, pelotas, queridos. Não é pelotas pelado no espanhol, não. Enfim, quando eu vim pra cá em 2008, uma coisa que me deixou apaixonada foi que as padarias, no sul você comprava o pão e ia embora. Eu achei demais você ter um espaço, sim! Eu achei demais você ter um espaço pra você sentar e comer o seu pão na chapa. Gente, eu sou apaixonada. Pão na chapa e um suquinho de laranja. Então, isso já vem transformando essa mudança no jeito que as pessoas compram. Porque hoje você não Eu não compro só por comprar. Eu vou comprar um pão. Não, eu vou comprar um pão que é cortado, bonitinho, porque eu vou tirar uma foto no Instagram.
Que na sai hora, né? Que sai na hora.
Exatamente. Então, assim, a forma já vem se modificando. Claro, hoje eu acredito que, espero, e que Pelotas tenha padarias que possa tomar café.
Vai a dica, vai a dica. Não, fica a dica. Fica a dica pra Pelotas. Olha, agora fazendo parênteses, eu podia imaginar tudo, menos que você fosse gaúcha. Porque eu trabalhei muito com gaúcho. E gaúcho é muito sério, né, amor? Eu podia falar tudo, menos que você era gaúcha.
Ah, mas é o signo.
Qual que é o seu signo, só pra nossa audiência saber o que você falou?
Eu sou uma capricorniana.
Capricorniana.
Então, é bem isso mesmo, assim, o estilo de vida. A mesma coisa que, por exemplo, uma coisa que eu tenho notado que nos projetos de interiores tem os clientes pedindo é, por exemplo, ah, eu quero um canto instagramável na minha casa pra fazer vídeo. E em casa. Então, eu acredito que também o varejo tenha trazido isso. Porque não adianta, a pessoa tá lá, ela vai querer tirar uma foto pra mandar pro parente, pro amigo. Olha só que legal isso aqui! Porque hoje, cada vez mais, o que você comentou, né, de sermos sociáveis, a gente quer compartilhar. Sim, é.
As mídias também mudaram muito a arquitetura, né? Porque a pessoa quer te dar fotos, né? Mas a gente até... Não adianta só você viver o espaço, você tem que mostrar que você viveu aquele espaço.
Tem mostrar que que você tá lá.
Mas tem uma outra coisa também que eu acho que é interessante nesses projetos que a gente tem feito, esse especificamente tinha bastante do Marche, que é você trazer a produção pra loja, né? Então é uma coisa também de... Mas aparente ali pras pessoas... Aparente pras pessoas verem na... Então assim, ela vê fazendo pão, o pão indo pro forno, sabe? Então ela vê fazer a pizza, ela vê fazer o sushi. Então nessa loja a gente tem uma série... A gente traz as produções pro meio da loja mesmo, né? Então isso também é uma coisa que aguça os seus... sentidos, né? Porque o varejo, a gente tem muito disso, né? Você tem, pelo menos a alimentação, né? Pessoa, ela, às vezes ela tem que degustar coisas, daí você tem o cheiro do pão saindo fresquinho, você, né? Você tem as cores da fruta, não, não tem coisa mais linda do que fruta, verdura, né? Aquela exuberância de cores e formas.
É aquilo que vai xingando você.
Então, assim, no alfaré de alimentação, a coisa dos sentidos é muito importante, né? E você, como arquiteto, tem que saber levar a pessoa para ela realmente se envolver com, né? Desde como você vai expor aquela fruta, como você vai iluminar. A iluminação é fundamental, né? Você vai iluminar aquela fruta para que ela pule, né? Que aquelas cores todas se mostrem na sua melhor.
Olha que interessante. Você falou de iluminação e olha como ela avança por conta dessa luz que tá atrás dela. Você descola do fundo, né?
Não, iluminação em varejo é muito, é muito importante.
Eu sou apaixonado por iluminação, por luz.
Sim, ele tava aqui. Um ponto, um ponto. Eu demorei meia hora pra entender que.
Um ponto era sobre a luz.
É, um ponto a mais.
Não, e o varejo é isso mesmo. projeta um equipamento, vamos falar assim, sei lá, de exposição, que eu falei agora das frutas, né, a beleza de, claro, frutas, verduras, legumes é a coisa mais linda que tem, né, natureza. Então você vai projetar uma vasca, que a gente chama, onde essa exposição vai ser a melhor possível e você vai projetar uma iluminação que incida nela e que faz ela tchum.
E até essa parte de exposição, eu queria que você falasse um pouco sobre essa questão, como vocês pensam, como é pensado essa questão da iluminação, porque de fato é muito importante. Depois eu tenho uma outra pergunta ainda sobre esse projeto que você citou.
Bem, a iluminação, a gente trabalha em parcerias, né? Com luminotécnicos, a gente não faz efetivamente, porque é uma área muito específica, todo dia lança a lâmpada nova, então... Tem uma especificidade, né? É uma coisa, assim, que você tem que estar todo dia pensando naquilo.
E ainda mais com alimentos, né? A temperatura da luz acaba... Tudo, tudo.
A gente entende, né, um pouco, mas assim, é muito melhor que alguém que só faz isso A gente sempre tenta mostrar pros nossos clientes essa importância e a maioria entende e contrata um luminotécnico que tenha essa expertise em varejo e a gente trabalha daí em parceria. Normalmente eu passo um conceito, sento com ele e falo, ó, tô pensando numa loja assim, o conceito é esse, daí ele vai falando, ó, então vamos, que tal uma coisa assim, né, as atmosferas que a gente quer, porque a luz mais quente, a luz que tem que tem uma reprodução de cor muito boa. Então, assim, a gente pensa junto com o luminotécnico, e daí a gente projeta elementos que vão permitir essa iluminação dentro da arquitetura, né? Que se harmonize, às vezes forros, rebaixados, né? Depende muito do projeto.
Cada elemento, né? Faz parte ali de um... Ou seja.
Tem uma função, né? Cada produto tem um tipo de iluminação, né? Porque, assim, tem uma coisa no varejo, que eu estou falando dos supermercados e também maioria dos varejos de alimentação, a gente tem vários projetos dentro de um projeto só, né? Que você projeta uma padaria, você projeta um açougue, você projeta uma área que vende flores, então são vários projetos dentro de um projeto só, né? O que isso é muito interessante, né? O que faz com que, para cada produto, você tem que ter uma solução. Você tem que ter um equipamento específico que melhor demonstre aquele produto. É um projeto de muitos projetos dentro de um projeto só. Tem uma complexidade, parece que não, você entra lá... Mas tem um baita, porque você tem equipamentos também refrigerados.
Tem um porquê, né, de tudo aquilo.
Exatamente, você tem uma área, a gente tá falando da muita experiência do cliente, mas vamos falar um pouco da área de retaguarda, né, desses projetos. É muito grande, você tem uma área técnica muito grande, porque você tem equipamentos de frio alimentar, então você tem que ter equipamento de frio, você tem normalmente ar-condicionado. Aí você tem câmeras frigoríficas. Então, você tem uma retaguarda técnica, você tem que ter um gerador. Então, você tem uma questão de energia muito alta, você tem que entrar em média tensão. Então, você tem uma complexidade técnica, que a gente também gosta lá no escritório, uma complexidade técnica, então, essas áreas de retaguarda, essas áreas técnicas. Então, quando a gente pensa o projeto, a gente também já pensa em como vai ser toda essa, ou qual é a melhor posição de você localizar a casa de máquinas do ar-condicionado, porque você não quer que o duto passe por não sei aonde, então quando a gente lança um projeto, a gente também já lança todas as casas de máquinas, exatamente para você poder ter ou melhor performance, caminhamentos menores, ou você também ter as coisas que em arquitetura te interessam. como os dutos passando por onde você gostaria que eles passassem, né? E tem uma coisa do equipamento, que você falou de produtos, que é muito legal, né? Porque a gente faz, a gente adora desenhar os equipamentos, mas a gente... Essa coisa da vaidade do arquiteto, né? Eu me lembro as vezes que eu contratava arquitetos pra... Ó, você vai desenhar um móvel, mas deixa eu te falar uma coisa, esse móvel é feito pra sumir. Hahaha! Não adianta ser vaidosa com seu equipamento, porque o que tem que aparecer é o produto, né? Então você pensa todo o equipamento, evidentemente que ele tá lá, né? Ele tem uma presença, as pessoas acabam notando, né? Mas ele é feito exatamente pra assumir, porque ele tem que valorizar o que vai ser colocado em cima dele. É diferente de você desenhar uma cadeira que vai ficar exposta. Então é um design muito ligado com essa questão mesmo de valorização de uma coisa que não é o equipamento em si. É muito legal isso, porque você também tem que ter essa cabeça.
Jô, e quando você está projetando um espaço desse, você também pensa, por exemplo, quando você coloca a padaria lá no fundo, ou açougue, ou qualquer coisa do tipo, você pensa no trajeto que esse cliente vai percorrer até aquele lugar, o que que ele, ou seja, o que que ele tem que sentir até chegar naquele local e, de repente, por onde que ele vai voltar? Será que ele vai voltar por aquele mesmo lugar ou ele quer viver uma nova experiência naquele espaço? Como que funciona isso?
É, isso é a coisa mais divertida e gostosa, né? Porque você realmente imagina como é que a pessoa vai entrar naquela loja, qual vai ser o primeiro impacto. Então, a gente sempre, quando tem um projeto, qual seriam os primeiros produtos que seriam interessantes mostrar pra pessoa, e um pouco assim, no varejo cai um pouco aquela coisa de, que se chamava, que ainda tem um pouco, mas puxador de tráfego, então põe a coisa que o cara quer comprar longe, todo dia, põe a padaria longe, porque, ah não, daí o cara passeia pela loja inteira, põe na padaria, não, hoje ninguém quer irritar o cliente.
Cada vez menos tempo temos, né?
Então, se o cara faz a compra do pãozinho todo dia, poxa, eu ponho o pão na frente, porque ninguém vai ser, sabe? Não é porque você foi obrigado até o fim da loja que você vai comprar mais.
Você vai sair e comprar tudo.
Apesar que tem gente que vai comprar alface e sai de lá com tudo menos alface, né?
Então tem caso de caso. Mas daí, a gente não pode achar que a gente tem esse poder, né? As pessoas sabem o que elas querem. E também o tamanho do bolso delas. Então, assim, você pode estimular ela. Eu sempre penso assim, né? Eu tenho um pouco com essa questão, sabe? De estimular ela a fazer um passeio agradável, né? Na hora que ela tá fazendo o passeio agradável, ela vai olhar uma fruta. Nossa, deixa eu levar essa maçã linda para o lanche do meu filho amanhã, né? Eu acho que é esse tipo de estímulo que a gente busca. Mas esse passeio é a coisa mais gostosa de pensar. E o varejista, ele entende muito de layout. Ele não sabe, ele não entende como é que você vai criar o espaço, mas layout ele entende, porque ele vai pro produto naquele layout. Você vai entregar o layout pro cara e ele vai dizer, aqui eu vou pôr isso, isso, isso, ele vai fazer uma, que a gente chama de departamentalização. Ele vai pôr o produto em cada prateleira.
Eles que te passam essa demanda, então.
Isso é uma coisa de dentro do varejo, né? São as pessoas do comercial que fazem isso, né? Isso eu vivi dentro também do varejo, né? E você, agora, os clientes, eu não tô dentro da companhia deles, mas eu mando pra eles o layout e eles me devolvem essa departamentalização. Cada produto... Claro que eu já mando sabendo Não é que assim, eles vão pôr uma coisa e vai mudar o meu projeto. Não, eu já sei exatamente os produtos dele, a gente já coloca, faz um layout pra atendê-los. Mas eu não ponho assim, ah, essa prateleira vai ter um negócio, essa prateleira vai ter outro.
Até porque isso muda também, né? Conforme o tempo, estação do ar. Isso é muito... uma coisa engraçada.
Foi o quê?
Eu ouvi, eu não sei se eu ouvi num podcast, mas alguém comentou, e eu fiquei com isso gravado, que teve uma pesquisa num supermercado de que se colocasse as fraldas do lado da cerveja, vendia mais fralda.
Sério isso?
Eu achei isso lindo. E eu falei, não, pera, porque eu gosto de colocar o podcast no carro e ir ouvindo, né? E aí o cara falou isso, eu até parei o carro e falei, não, eu tenho que entender, como assim? Fralda com cerveja? E aí ele explicou que o que acontece, a maioria das vezes, as pessoas quando a esposa fala, ai meu amor, compra lá pra mim a fralda, é o marido que compra. E aí, pra ele, eles são muito... gostam muito de ver jogos e tudo. Então, quando ele tem um jogo, ele vai comprar a cerveja dele, ele já fala, já vou comprar uma fralda, que aí ninguém vai pedir pra eu comprar. Então, isso que é a magia do negócio.
Eu esquecia de comprar, às vezes, a fralda.
Então.
Assim, isso que eu acho mágico nesse setor alimentício, porque assim, ele te faz... Como que eu posso falar assim? instintivamente seguir e comprar alguma coisa que você às vezes nem tá aprendendo, que foi a brincadeira que eu fiz da pessoa que vai comprar alface e compra outras coisas, mas é o caminho, é o percurso, igual o Paulo comentou, né? Então, isso que é mágico, eu acho isso muito mágico, né?
É, e você linka algumas coisas, quando você faz o layout, né? Você linka produtos, né? Que a gente fala da venda casada, né? Então, se você tá na área de massas, você vai pôr os queijos ralados, você vai linkar exatamente pra pessoa, porque também Tem gente que vai com a listinha, mas tem gente que não vai com a listinha. Então você fala, nossa, estou comprando massa, preciso levar o queijo. E o queijo já está aqui do lado. Então a gente, quando você faz um layout para um cliente, você pensa exatamente nesses links. Nunca pensamos na cerveja com a fralda.
Agora eu fiquei.
Mas assim, você linka produtos, porque são também que a gente fala soluções de compra. Você vai comprar um negócio e você já vai levar tudo que tem a ver com aquela compra que você está fazendo. E assim, as lojas de alimentação, é aquilo que eu tô falando, é um passeio mesmo, né, ou as lojas mais sofisticadas de alimentação, que você não vai fazer uma compra de todo dia, mas aí você vai fazer uma compra de um jantar, né, então é uma coisa que você acaba se… se envolvendo com tudo que está lincado. E é uma compra do dia-a-dia. É o lugar que a pessoa frequenta quase diariamente. Então é um lugar que você precisa ter uma coisa agradável no espaço pra.
Você se sentir... Se sentir bem.
E o que eu ia falar que ela levantou, que é essa coisa que também tem no varejo muito importante, que é a sazonalidade. Porque você tem datas onde, Natal, se compra muita comida e a loja é abarrotada de panetone. Então você também tem que ter uma loja, um projeto de loja e de imobiliário, de comunicação. que atenda essas sazonalidades. A Páscoa é uma sazonalidade, a loja vai encher de bacalhau. O Natal é uma sazonalidade, o Dia.
Das Mães... E tudo isso tá pensado na arquitetura, por exemplo, quando você entrega o projeto, você já tá detalhado, tal época, você vai...
Não, não. A gente pensa em equipamentos que podem receber essa sazonalidade. Porque, por exemplo, a loja de alimentação, ela é uma loja de moda, né? O produto é muito parecido, né? Então, a sazonalidade, outono, verão, inverno, mas é vestido, é bolso, sei lá, o que que é, né? Então, o produto é mais específico. Numa loja de alimentação, o produto é tudo, né? Então, desde o temperinho até o bacalhau. Então, você tem que projetar equipamentos e a forma também como você faz essa arquitetura, onde você permita que essas coisas aconteçam, né? Que essa sazonalidade aconteça. Então, às vezes, a gente tem mesas de exposições que têm que receber variados produtos, né? No Natal, na Páscoa, sei lá.
Ou até espaços que precisam ser abertos, né? Porque, por exemplo, você pensa em Páscoa, gente, não tinha nem acabado o carnaval, fui no mercado perto de casa, já tava lá os ovos de páscoa. Falei, gente, calma!
Nós estamos na floresta! Exatamente!
Então assim, mas eles abriram todo um corredor na frente pra fazer isso. Então, creio eu que tem que pensar. Ah, mobiliários fixos, outros que vão ter que sair no momento. Onde vai guardar isso? Isso tudo com o tempo.
Exatamente, inclusive a gente tem equipamentos que a gente projeta para degustações, então eles tem um lugarzinho lá deles no depósito que daí eles vão para a loja na hora que isso for necessário, que nem por exemplo esses coisas de ovo de Páscoa, nossa, vira e mexe. Ah, pensa num negócio mais interessante pra gente pousar o de Páscoa, que eu posso guardar depois, porque todo ano eu tenho essa coisa, monta o pergolado lá pro ovo de Páscoa. Então, essa coisa também é uma coisa que, na arquitetura, você tem que pensar nesses espaços e nas circulações, evidentemente, e é um negócio bem... Bem desafiador.
Depois dessa aula de mercado e de varejo, eu queria agora falar um pouquinho sobre, inclusive, desse projeto que você pegou, né? Eu imagino que você deve ter concebido ele antes da pandemia e na hora da execução veio uma pandemia. É isso? Ou ele já nasceu no meio da pandemia? Só pra eu concluir minha pergunta.
Não, ele já nasceu no meio da pandemia.
Tá, eu queria te perguntar, é quando você cria um projeto, tudo bem, eu nasci no meio da pandemia, então eu vou mudar um pouco a minha pergunta, imagina que você precisa fazer um rearranjo de projeto ali, quando você pensa numa solução de material que você vai utilizar, solução arquitetônica, como você vai construir aquele tipo de empreendimento, você já pensa num, por exemplo, imagina que no meio do projeto eu precisei pensar que, ah, eu vou mudar a entrada, Ou de repente essa rua aqui aconteceu tal coisa, eu vou mudar alguma coisa. Você pensa nesse tipo de...
Crescimento e mudança?
Crescimento e mudança e por essa razão você acaba escolhendo, por exemplo, construir com pré-moldado em concreto ou metálica ou madeira.
Olha, o varejo tem uma coisa que às vezes acontece, que é a loja ter necessidade de crescer. A loja é um sucesso e ela vai precisar crescer e daí se consegue um espaço do lado e daí você vai ampliar a loja. Acontece bastante essa questão da ampliação da loja, às vezes já foi previsto em projeto, se o terreno era grande inicialmente, você pode começar de um tamanho, daí você já está prevendo esse crescimento, o que ajuda muito, porque você já deixou tudo enganchado para aquele crescimento. Agora, uma demanda que aparece assim do nada, é muito difícil de você prever. Os sistemas construtivos, o que pega no varejo é prazo. Prazo e custo, né? Então, os sistemas construtivos acabam sendo muito direcionados para isso. Então, por exemplo, a estrutura metálica é uma coisa que a gente gosta de usar muito porque ela tem essa questão da rapidez, né? E ela vem pronta. E, às vezes, como eu falei, se você tem cidades como São Paulo, nem sempre você tem canteiros de obras grandes, né? normalmente você está usando, se não são terrenos grandes, então já vem. O pré-moldado, ele também foi uma solução muito usada, Hoje, os custos do pré-moldado sempre eram imbatíveis. Hoje, ele já está mais equilibrado com as outras tecnologias. Você tem opções de pensar o seu projeto. Eu gosto muito da estrutura ambiental, porque ela é muito leve. E a gente trabalha sempre com uma arquitetura muito a maioria dos nossos projetos, isso é uma característica um pouco do varejo, mas a gente gosta muito, são projetos muito de deixar a estrutura aparente, do piso ser de concreto, muito despojados. Acho que o mesmo varejo sofisticado, quanto mais despojado é o espaço, mais interessante é. A gente gosta muito de trabalhar com estruturas que já são bonitas por si só e que permitem, às vezes, se brincar um pouco mais.
E nesse processo de escolha construtiva, tudo bem, se você escolheu a estrutura metálica, mesmo que inicialmente ela tenha, de fato, um custo mais elevado, mas você acaba antecipando receita, né? Porque você imagina, você escolheu uma solução construtiva que você conseguiu antecipar em seis meses, né? Um exemplo. Então, pode ser mais, eu acredito. Como que é o processo de convencimento? de um cliente, de um investidor que vai pagar aquela conta, porque nem sempre.
É o... Mais barato.
O mais barato.
É, aí ele vai, se ele tem uma questão de... Porque de prazo, ele topa. Mas é muito difícil você conseguir convencer um cliente de varejo a colocar uma estrutura um pouco mais cara. Ele vai acreditar que não, que não, mas a gente vai conseguir em tal tempo, né? Não, mas olha... Mas assim, a gente conseguiu muita coisa com a estrutura metálica por conta de prazo. O cliente pensando em termos de prazo. Então, o Italy foi um que não se pensou em termos de custos, se pensou em termos de prazo porque era uma obra muito grande. Então, ela demoraria muito mais. Mas eu já tive problemas no escritório da gente fazer o projeto inteiro executivo em estrutura metálica. Daí o projeto, todo mundo contente, feliz, a gente mais ainda, daí o que aconteceu? O projeto demorou um pouco para ser executado, às vezes por questões de prefeitura. Quando chegou na hora de executar, a estrutura metálica, sei lá, tinha dado uma oscilação, estava bem mais cara, a gente fez a adaptação do projeto inteiro para pré-moldado.
Mas aí você, nesse caso, se você pensa num tipo de solução mista, você conseguiria manter, de repente, a mesma estética?
Então, a gente teve que adaptar, porque a estrutura pré-moldada, ela tem uma estética muito diferente da metálica. Então, a gente teve que adaptar todo o projeto, inclusive a modulação dela é diferente, né? Então é um trabalho, um retrabalho, é um projeto novo. O cliente tem que entender que ele vai ter que estar te contratando quase de novo para fazer essa adequação.
Quando você fala dessa questão da estrutura ser mais leve, você muitas vezes não tem um canteiro para armazenar esse material. Falando de uma obra como Italy, imagina você numa área daquela aquele trânsito caótico ali na região da Faria Lima, né, quais foram os benefícios, né, na utilização, falando especificamente do ácido, eu queria que você fizesse um comparativo, se possível, né, com a sua vivência aí no dia a dia, se um projeto como aquele fosse feito, por exemplo, em...
Estrutura convencional.
Estrutura convencional. Quais seriam os impactos que um projeto como aquele iria causar de transtorno naquela região, de acordo com o seu dia a dia?
É, eu acho que assim, uma estrutura convencional, a gente até tem ultimamente, a estrutura convencional tem ganho alguns, projetos por questões de custos, mas assim, ela é, primeiro, um canteiro de obra muito mais complicado, né? Você tem formas, aí você tem o concreto que demora, que faz barulho, que é mais sujo, e daí você tem um tempo de cura, e por mais que você tenha hoje elementos que fazem a cura ser mais rápida, tecnologia, você tem uma obra muito mais em etapas, né? Uma coisinha faz, aí faz a outra, quando a estrutura metálica chega e já põe. E eu acho que, assim, esse tempo de obra, né? Ele causa um transtorno na cidade, ainda mais em regiões de muito trânsito. Então, assim, o quanto você consegue, com uma estrutura em aço, minimizar essa entrada, saída, esse tempo da obra, é muito melhor pra cidade, né? Então, assim, se fazer uma obra inconvencional, ela é sempre um problema para o local onde a obra está.
Mas isso está muito ligado à cultura do Brasil. A questão do concreto? Sim, porque você traz aí uma solução construtiva que tudo bem, ela vai... Sabe aquela questão de pensar no outro? Porque quando você traz uma solução construtiva, que ela de fato vai... Imagina, aquela obra vai durar um ano, na metodologia tradicional, e você traz isso pra metálica, ela vai durar ali, sei lá, de repente três meses de obra, porque parte desse... O processo acontece na fábrica.
Sim.
Né? Então, quando você traz, assim, essa preocupação, né, com aquelas pessoas que ocupam aqueles espaços ali vizinhos, essa questão do trânsito que você evita na região, porque tudo acontece de uma forma, sabe, perfeita.
Planejada.
Planejada.
Muito mais planejado.
Né? Não tá ligado um pouco a questão, não tá ligada a cultura? Ah, enfim, vai custar tanto, então é com essa solução que eu vou construir.
É. Essa preocupação que a gente tem, arquitetos, de menos impacto na cidade, da vizinhança, o varejista ele tem no momento que ele sabe que um problema pra ele vai ser um problema também de atrasar a obra, porque se você causa muito transtorno na vizinhança, você também tem muita reclamação, você tem uma série de problemas que acarretam de parar a obra num horário X, porque você começou a causar demais, daí os vizinhos começam a reclamar e você tem que ser mais... Então assim, a preocupação mais é essa, eu não vou causar problema porque eu não quero ter problema. Exatamente, não é uma coisa assim de um pensamento mais em termos de cidade, de preocupação com a cidade, é mais um termo assim, não quero causar problema porque eu não quero ter problema. Mas tem uma coisa cultural muito nas estruturas. O Brasil é um país muito ligado com o concreto armado. É uma tradição nossa. Temos o Nirmai como nosso grande mestre. O concreto é muito fácil de ser entendido pelo leigo também. Estou lá, vou construir o meu negócio, eu entendo. A estrutura metálica, o aço já... consegue ver as vantagens na questão dos prazos, da limpeza da obra. E por incrível que pareça, o pré-moldado teve uma entrada muito grande no varejo. O pessoal que tinha empresas de pré-moldado, eles venderam muito bem a questão do pré-moldado para o setor varejista. Então o cara sempre vem na primeira... A primeira ideia dele é fazer em pré-moldado de concreto. Aí você tem que... mostrar pra ele que existem outras tecnologias que, dependendo de onde você está, dependendo do local que você está, são mais adequadas. Agora, por exemplo, tem as estruturas de madeira que estão crescendo muito, fazendo coisas lindas.
E é muito bacana quando você tem essa experiência ou essa ousadia pra trazer, Outras soluções construtivas, ó, existe outro mundo que talvez você não conheça.
Exatamente.
Eu acho que essa dificuldade em relação à cultura entra mais pra parte residencial. Porque quando a pessoa tá no varejo, ela já tá vendo um pouco mais sobre essa questão, já tá preparada pro tempo também, porque...
Pro impacto que tem na cidade, né?
O varejo tem impacto na cidade. Igual, na construção de casas, Raramente você consegue convencer um cliente de dizer, vamos fazer uma estrutura metálica? Vamos fazer um pré-moldado? Difícil. Então, eu acho que essa dificuldade no varejo, claro, eu vendo de fora, é muito mais tranquilo você lidar com um cliente e falar assim, vamos para esse lado que você vai ganhar tempo. Opa, tempo é dinheiro, então vamos. Diferente do pensamento de quem está construindo uma casa.
Então, mas aí a gente tem uma questão, né? Por exemplo, o aço, na maioria das vezes, ele nunca aparece. No seu caso, sim, você... O aço, ele é um elemento, né? Ele pertence àquele...
É um elemento arquitetônico. Arquitetônico. Porque a gente quer tirar partido, né?
Sim.
Aquela coisa de você tirar partido de um elemento. Agora, só como curiosidade, eu fiz uma casa só na minha vida. Eu falei que eu não... Eu fiz um estrutura...
Viu só? Então eu acho que é as técnicas de convencimento dela que estão afiadas.
É hoje que depende muito, por exemplo.
Mas era questão do prazo. Eles iam mudar de cidade, precisavam de uma obra muito rápida, então eu falei, então vamos fazer metálica. Porque era um amigo meu, né? Eu falei, não faço residencial, né? E eu falei, não, não, mas ele tinha trabalhado comigo, ele é a esposa. Ah, não, mas a gente quer, a gente quer, a gente quer. Eu falei, tá bom, então eu vou fazer uma casa como se fosse pra mim, a gente é amigos, acho que vai dar certo. E daí eu fiz uma casa em estrutura metálica, e pra eles, por conta do prazo, como eles estavam mudando de cidade, e eles queriam construir muito rápido, eles toparam. E ficou, claro, eu adorei, né?
É, eu acho que a gente tem uma questão mesmo, é muito cultural mesmo, a questão do conhecer, né, porque quando você igual, eu acho assim, não é que eu esteja defendendo o aço ou a madeira ou o concreto, eu acredito que quando você abre a sua mente, né, para conhecer outras coisas e o casamento aí dessas soluções construtivas, acho que você consegue algo muito melhor.
E não só isso, a oferta e a demanda, né, conforme mais construções e estrutura metálica a gente tiver, Eu acredito que o preço até melhore. Por quê? Porque tem a demanda, tem o pedido. Às vezes, a escassez de pedidos faz com que o preço fique muito atual. Eu vou ficar com esse material aqui? Parado, exemplo, né? Então, eu acho que é falta de conhecimento, sem sombra de dúvida.
Parada do sei, viu?
Aí vai pro varejo, né?
É, mas é que tem oscilações da própria matéria-prima, né? O aço oscila a preço, o concreto oscila a preço. Então tem épocas que nem esse que a gente fez o projeto inteiro executivo em metálica. Chegou na hora, deu alguma oscilação no preço do aço que...
É, você tem que mudar tudo, né?
Eu não posso dizer pro cara, não, você vai gastar mais porque o projeto a gente quer fazer em metálica é mais bacana. Ele tem que realmente acreditar que aquilo vai ter um retorno pra ele.
Jô, antes da gente, a gente já tá com o tempo bem avançado, eu queria que você fizesse, bom, eu vou fazer uma pergunta pra você, queria que você falasse sobre algum, escolhesse algum case pra falar um pouco do desafio do projeto e o que que você entendeu que na sua, no seu ponto de vista, aquele projeto, uau, foi o projeto.
Seu favorito.
Agora, deixa eu pensar. A gente tem uns projetos, assim, muito queridos. A gente fez, não sei, vou escolher um.
Você pode citar vários, a gente coloca na transcrição. do vídeo e mas assim de repente você falar porque acho que o que você vive nenhum dependendo do tipo de solução que você trouxe para aquele você trouxe com experiências vividas em outros projetos.
Sim. Olha tem um projeto que a gente gosta muito inclusive ele ganhou um prêmio ano passado tudo que é o da um marchê da Rebouças. Por que eu gosto dele assim? Porque ele tem uma relação com a cidade muito legal. Eu sempre falo, a coisa da legislação para gente, arquitetos, pega muito. Porque tem coisas muito legais que poderiam ser feitas na cidade que a legislação às vezes te tolhe. Porque toda legislação é meia genérica. São Paulo tem agora uma questão da fachada ativa. Então se você coloca comércio nos térreos dos seus empreendimentos, você ganha alguma maneira de construir a mais. O que tem aparecido pra gente? Muito térreo de edificação pra colocar Varejo. O que ainda não se entendeu muito bem é que a gente recebe muitos projetos onde a pessoa não pensa o térreo como pra cidade, né? Então o que ele faz? Ele faz um edifício residencial, desce os pilares que tá sendo pensado pro residencial ou pro comercial e me dá um térreo enlouquecedor, né? com parede de concreto cortando. Quando a pessoa procura a gente no nascedouro do projeto dela, a gente ainda consegue falar. Calma lá, eu vou para uma loja aqui. eu preciso de espaços mais abertos, olha, eu tenho que pôr lixo, eu tenho que pôr geradoras, as pessoas não param nem pra pensar, eu preciso de áreas abertas de técnicas, eu preciso entrar com uma doca, então a pessoa fica, nossa, mas não precisa, eu tenho que pôr caminhão aqui, eu tenho que tirar lixo, então assim, às vezes a gente consegue dar tempo da gente conversar, porque está ainda em lançamento, e a gente sentar juntos e colocar as nossas necessidades. Mas esse projeto da Rebouças, a gente até trabalhou inicialmente com eles, dizendo necessidades de DOC, mas a estrutura não chegou com paredes de concreto, mas não, era uma coisa. Quando a gente foi visitar o local, um das pessoas que trabalham com a gente, cliente nosso, falou assim, o que você vai fazer com esses pilares? Eu sei, nós vamos tirar partido deles, né? E foi um projeto, e até tinha o cliente falando isso e tinha o investidor que falou assim, nossa, depois que inaugurou, ele falou assim, nossa, eu não acredito que aconteceu isso, porque eu ficava preocupado, o que ia acontecer com tantos pilares gigantes no meio do espaço, né? Então a gente pensou num layout realmente tirando o partido dessas estruturas metálicas. Como a gente gosta também das estruturas aparentes, a gente tirou o partido de paredes de concreto. Então criou espaços muito aconchegantes entre aqueles lugares, espaços... Nessa loja já entrou com os espaços de estar, para a pessoa comer lá. Então a gente tirou um partido muito grande desses espaços com comunicação visual, desses... gigantes, pilares gigantes que nos deram de presente. E também ela tinha uma fachada envidraçada dando para a Avenida Rebouças, então a gente colocou um painel artístico meio presenteando a cidade com alguma coisa que pudesse também conversar com a rua, não ficar aquela coisa tão fechada. E assim, a solução ficou, as pessoas entravam e falavam, não dá para acreditar, eu não vejo mais aqueles pilares, o que você fez? O empreendedor falou assim, nossa, eu fico abismado quando eu chego nessa loja, de pensar quando eu entrei a primeira vez e vi aquela quantidade de pilares e hoje eu vejo, parece que nem existe pilar mais aqui. Então, essa foi um baita desafio e o projeto ficou muito interessante, tanto é que a gente ganhou um prêmio até internacional com esse projeto, porque eu acho que é uma, eu gosto muito dele, é um projeto que sim, muito querido.
Você sabe que você tá me trazendo uma... eu... quem me conhece sabe que raramente alguém vai me ver reclamando sobre alguma coisa e quando você pega um tipo de situação dessa, né, você vê, acho que você olhou e falou, não, peraí, o que que eu consigo... o que que eu consigo fazer, entregar de melhor pra essa situação? E naquele momento, Jô, o que você sentiu assim, quando você viu aquela situação, aqueles pilares gigantes, dependendo da situação, se a pessoa tivesse uma preocupação em entender um pouco, mas peraí, eu consegui até usar um tipo de tecnologia de concreto, que seria possível, de repente, deixar esses pilares mais esbelto, enfim, pra não ficar aquela coisa gritante, né, conforme você pegou naquele início. Então, como que você encarou naquele momento? Você ficou puta com a engenharia? Ou você falou, não, peraí, deixa eu pensar numa solução de melhorar tudo isso aqui?
Olha, eu não sei, isso é uma coisa muito minha, assim, quando eu vejo, eu falo assim, nossa, o que que eu posso fazer pra tirar o melhor daqui? Realmente não me assustou um pouco por causa que eu tenho muitos anos de experiência, então eu já vi tanta coisa na vida, né? Mas foi assim, desafio total. Nossa, é meio assim, primeiro assusta, né? O que que eu vou fazer aqui? Mas depois você fala, nossa, tô doida pra sentar na prancheta e saber o que que eu vou fazer aqui, né?
Deixe-me olhar como as coisas acontecem.
Quando você tem um espaço... Às vezes, a gente começa com uma folha em branco, se você tem um terreno. Essa é a grande questão. O que eu vou tirar de partido disso para conseguir tirar o melhor e fazer, naquela época, um supermercado, um marché, que consiga com esses pilares e foi... Então, assim, num primeiro momento assusta, mas depois você quer muito saber o que que você vai poder criar nesse espaço pra que ele se torne agradável, né?
Natália, você tinha uma pergunta sobre retrofit, sobre soluções construtivas pra retrofit, é isso?
Exatamente, porque é uma coisa que, igual a gente comentou, né, como São Paulo não tem muito como começar do zero, você tem, inclusive, um projeto que fez um retrofit, Como que foi essa questão? Vamos manter o existente, não vamos? Vamos fazer uma integração? Porque nós arquitetos, a gente tem um apego com o passado também, né? A gente quer sempre contar uma história e não tem como você apagar o que ficou para trás, né? Então, como que foi isso, Jô?
Olha, a gente tem um projeto muito querido de retrofit, é uma fábrica moca, chama até, né? E era também essa coisa do emocional, é muito legal porque os donos do terreno, eles eram os herdeiros da fábrica, era uma fábrica de lingerie, chapéu, luvas, uma coisa assim, que era da família. Então, eles tinham também um carinho por aquele espaço, né? e eles queriam fazer um centro comercial e colocar um supermercado lá dentro. Foi o próprio supermercadista que apresentou para... Minha arquiteta é essa, se vocês quiserem fazer tudo com ela, eu vou fazer o supermercado. O supermercadista estava muito preocupado, porque era um meio de quadra, era uma fábrica no meio da quadra, e ela pegava de uma rua a outra. As coisas assim, meio de quadra, tem muito fora do Brasil, né? Aquela coisa do meio que você caminha, né? No Brasil não tem muito meio de quadra sendo muito utilizado. A gente é de faixa de esquinas, né? Mas, assim, essa coisa de você entrar por uma rua, sair pela outra, fazer um caminhamento. E daí eles falaram, acho que a gente não vai querer esse ponto, porque onde vai poder implantar o supermercado vai ficar muito escondido. Eu falava, nossa, é tudo que eu quero. É pegar esse projeto. Mais um desafio. Eu falei, não, pode deixar, não vai ficar escondido. Porque assim, o que a gente imaginava? Eles tinham vários galpões, não deu para aproveitar todos. A gente teve que algum, porque senão não dava nem para entrar. Mas o galpão mais bonito estava bem no meio e era onde poderia fazer o supermercado, porque o supermercado era a âncora do negócio. Então, o espaço maior teria que ser para ele. Então, a gente fez uma situação de restaurar toda aquela estrutura, era inteirinho de tijolinhos, estruturas de madeira, aquela coisa que a gente adora, uns chedes lindos. Então, a gente restaurou esse galpão principal, só que ele era pequeno ainda para o supermercado. Então, a gente fez todo um crescimento com uma estrutura, porque o que é legal no retrofit é que todas as suas interferências sejam vistas como interferências. Você não vai fingir que alguma coisa é antiga também. Você vai mostrar que está interferindo aqui. Uma das formas de interferir em uma estrutura que era totalmente de tijolinho assentado era colocar uma estrutura metálica. Então, fizemos um crescimento no corpo do galpão em estrutura metálica para complementar o supermercado, mas pintamos de cores terrosas para ficar dentro da gama de cores do próprio, do antigo prédio. Daí fizemos a área que seriam outras lojas. O prédio era muito tijolinho, muito reto. Então continuamos com a estrutura com ângulos retos. A área nova, que seria a área das lojas, fizemos toda orgânica. com a mesma estrutura metálica, só que pintada toda em branco, então era orgânica, muito leve, e ela direcionava você para o centro da quadra. Então, de longe, a visão era direcionada para a fábrica. Por isso que eu falo, não se preocupe, a fábrica vai ser vista. Então a gente fez essas estruturas orgânicas muito claras que te direcionavam a visão. para o meio da quadra, onde estava a edificação restaurada. Ela não era tombada, nada, era só um desejo. E também um desejo porque a Moca tem uma história. O bairro Moca, para quem não sabe, aqui em São Paulo, era um bairro industrial de migração italiana. onde tinham fábricas e galpões industriais. Então, a gente também tinha uma preocupação de como você entra nesse bairro, como você respeita aquele bairro. Você manter edificações é uma forma de você respeitar a história do lugar. Então, foi muito gostoso, porque o mais gostoso ainda foi porque essa empresa nunca tinha lojas na MOCA. Ela estava muito preocupada porque ela não tinha entrado ainda nessa região da cidade, como é que iam receber. E, assim, o bairro abraçou o lugar. É um ponte hoje, porque é um lugar que tem outros restaurantezinhos, mesinhas. Então, é um lugar muito frequentado pelo bairro e que o bairro se apropriou do espaço.
Virou um ponto.
Quem mora lá se apropriar daquele espaço. Falei, é meu esse espaço, né? Isso que a gente, como arquiteto, fica feliz, né? Varejo tem isso, né? Você está jogando para um público, né? As pessoas que moram naquele local. Então, eles realmente se apropriaram. Esse espaço é nosso, né? Então, foi muito gratificante esse projeto.
E uma curiosidade, quando você faz um projeto de retrofit como esse, onde você tem ali, geralmente, aqueles tijolos antigos e tal, Você faz um processo, ele passa por algum processamento de alguma tinta específica pra você manter aquela textura? Ou simplesmente é só uma limpeza? O que que acontece pra você manter aquela estética, assim?
Então, a gente, por exemplo, o tijolinho tava bem conservado. O que a gente fez, onde a gente teve que retirar, a gente guardou tijolinho por tijolinho. Então, as áreas que tiveram que ser demolidas, se guardou todos os tijolinhos e se aproveitou em outras áreas que a gente precisou usar. Então, teve alguns lugares que não eram da parte nova, mas a gente criou paredes com os tijolinhos antigos. A limpeza do tijolo é muito simples, a gente depois usou, claro, um elemento de proteção para o tijolo, mas ele estava bem, ele não estava com pinturas, nada disso. O que a gente teve que fazer uma restauração maior foram nas esquadrias. que estavam mais detonadas. Então, teve um trabalho de restauro e substituição de algumas, mas, quando você estava na edificação antiga, a gente substituía por esquadrias iguais, mandava fazer exatamente igual à antiga. E a estrutura de madeira, que também a gente teve que fazer uma limpeza, porque daí sim ela tinha a pátina de várias pinturas e a gente quis deixar ela na madeira, madeira-madeira. Então teve uma coisa de lixamento, de tratamento. Ela não tinha nenhum tipo de bichos, nada, mas, mesmo assim, a gente fez tratamentos, porque a madeira é madeira. Apesar de ser madeira de lei e não pega... Alguns bichinhos não gostam de madeira de lei, graças a Deus. Então, daí a gente teve que... As estruturas estavam intactas, porque realmente são madeiras de lei, mas os forrinhos tinham aqueles forrinhos de... Sabe?
De... Ripa.
É, de lambrezinho de madeira, lá estavam bem danificados, lá a gente teve que tirar e recolocar.
E você usou estrutura metálica para refazer essa estrutura?
Não, a estrutura de madeira estava intacta, só que a gente assim, não tinha, isso também é um problema nos projetos de retrofit, você não tem ainda mais muito antigos, você não tem documentação para saber qual é a carga que aquela estrutura vai aguentar. Então, assim, a gente chamou, claro, os calculistas que foram lá analisar e falaram que não ia aguentar nada. Nem luminária. Porque a fábrica antiga tinha quatro chedes, então de dia eram pouquíssimas iluminações, um chede para a face sul, tudo como o melhor da construção industrial. E o... E daí... Porque, imagina, 1920, 1930, era uma lâmpada.
E olha ele lá, né?
Tempos e tempos. Então, a gente teve, daí, sim, que fazer uma estrutura metálica fixada nas paredes pra poder receber iluminação, comunicação visual, pra você não poder pôr nada, nada, nada naquela estrutura de madeira. Então, ela ficou só segurando o telhado que já existia. E a gente pôs de novo o forrinho que existia, ou seja, a gente não acrescentou nenhuma carga a mais nela porque ela não aguentaria.
Imagina que você teria feito algum reforço ali com estrutura.
Não, a gente fez uma estrutura paralela a ela, fixada nas paredes que eram de alvenaria, né, importante, tinham fundações possíveis, e daí penduramos tudo que precisava ser pendurado.
Muito bom. Você tem alguma outra pergunta?
Sim, eu ia fazer uma pergunta. Jo, pensando nisso que a gente falou, o varejista quer prazo, quer isso, quer tempo, quer valor também, muito importante. É vantagem construir um retrofit para o varejo?
Olha, é, porque aquilo que eu te falei, né? É, às vezes você recebe farejistas, né, que querem demolir. Ah, porque é velho, vamos demolindo. Ele fala, não, pelo amor de Deus! É exatamente esse o charme do lugar, né? Então tem um pouco dessa... Isso é uma cultura muito Brasil, né? A gente não... Não corta a nossa memória, vamos falar a verdade. Em todos os sentidos, não só arquitetônicos. Em todos os sentidos, a nossa memória é bem complicada. Então, às vezes, a pessoa vem com essa coisa de querer demolir. Então, você precisa falar, não, mas o charme maior vai estar em você restaurar. Muitas vezes, a gente já tem lugares que são tombados. Graças a Deus, tombados. Então, a gente fez um projeto no Rio, onde a fachada era tombada. Estava totalmente destruída. Tiveram outros comércios que foram deturpando a parede. Tivemos que restaurá-la para o que era originalmente, para dar a gente poder, porque ela era tombada. Eu não sei te dizer se... Eu acho que é vantagem, né? Porque eu acho que a gente, como arquiteto, a memória do... Entra muito naquela.
Questão que você falou do bairro e da região.
Exatamente, de você respeitar aquele lugar, né? De você... Então, assim, eu vejo vantagens. Às vezes, se está muito deteriorado o espaço, o custo de você restaurar, se não tem um tombamento, às vezes desanima. ou varejista, né? A não ser que ela tenha algum valor, né? Mas eu adoro se puder fazer o retrofit. Acho que a cidade merece isso, né?
A gente tá discutindo muito isso, né? Nos grandes centros urbanos aí, né? O que a gente vai fazer com a memória, inclusive, dessas áreas, né?
É, porque é muito importante, né? A gente, a cidade tá sendo, virou um canteiro de obras atualmente, né?
Sim. Você tem mais alguma pergunta? Eu tenho uma pergunta pra cada uma de vocês. A gente tem um quadro aqui, convidado convida. Tem algum engenheiro, arquiteto, enfim, algum profissional da área de construção, engenharia, que você gostaria de convidar pra vir aqui fazer um bate-papo junto comigo?
Olha, quando a gente falou em iluminação, que eu falei do luminotécnico, eu queria falar que o luminotécnico que trabalha pra gente, eu acho que valeria fazer um com ele.
Ele é um... Qual o nome dele?
Mingroni.
Ó, convida, olha pra aquela câmera, essa câmera aqui, e convida ele.
Professor Mingroni, tô te convidando pra um bate-papo aqui com o Paulo no ConstruCast. E que vai ser muito legal e tenho certeza que a tua experiência vai fazer muita gente vibrar com a Luminotécnica.
E aí, eu construí Cache pra você, que é apaixonado, assim como eu, pelo setor da construção, engenharia e arquitetura. Nath, e você?
Ah, então eu vou aproveitar já aqui essa parte da iluminação, né? Acho que você deveria convidar não somente meu pai, mas um eletricista pós-graduado agora em Engenharia Elétrica, Carlos Augusto Santos, para vir falar também sobre elétrica e iluminação.
Complementa, né?
Sim.
De repente, acho que até trazer os dois aqui pra fazer um bate-papo junto comigo, porque acho que um complementa o outro, né?
Pode ser.
Que um pensa, o outro executa.
Exatamente. As dificuldades, né? Porque querendo ou não, é bem isso. A gente constrói, mas a gente tem que pensar 360, igual a... A gente tava falando, ah, eu quero construir isso, mas eu também tenho que pensar que tem a parte feia, que ninguém quer ver, mas também tem que pensar na parte bonita. Então, um assunto complementa o outro, né?
E tem alguma... Se vocês podem fazer suas considerações finais aqui no ConstruCache. E antes de você fazer suas considerações, eu gostaria de pedir para que vocês curtam esse episódio, que vocês comentem o que vocês estão achando, porque isso é muito importante aí para os próximos passos do canal, né? Para onde que a gente vai direcionar nossos conteúdos.
Primeiro, quero parabenizá-los. Acho que é uma iniciativa muito legal esse falar em arquitetura, engenharia e construção, que são coisas que estão intimamente ligadas. Nesses que você está falando, que a gente está participando sobre a mulher na construção, é também uma coisa nova. focar exatamente na mulher na construção, que é uma área que a mulher vem crescendo muito, a arquitetura principalmente, a participação da mulher é muito grande. E gostaria muito que as pessoas curtissem esse bate-papo, porque eu gostei demais de estar aqui e bater o papo com pessoas tão interessantes e poder falar da nossa experiência da arquitetura de varejo, que esse bate-papo inspire os arquitetos, outros engenheiros, investidores a investirem na arquitetura de varejo. Porque é uma área muito legal, muito desafiadora, e eu acho que a cidade precisa pensar melhor nos seus espaços de varejo, porque a gente queria uma cidade só de bulevares.
Sim. Obrigado, viu, Jô. E você, Nath, o que você queria que falasse aí dessas suas considerações finais?
Ah, foi um prazer. Eu acho que eu gosto muito da frase que, inclusive, meu pai fala, que é triste o dia que a gente não aprende nada. E foi muito interessante, porque essa área do varejo eu não tinha pensado pra ver quanto a nossa carreira, nosso trabalho, nossa profissão, ela nos possibilita essas variações, né? Então, eu não tinha nem ideia de tudo isso que proporcionava e é muito interessante, eu acho que foi exatamente o que a Ju falou, a gente tem que mostrar cada vez mais a importância da arquitetura, porque muitas pessoas pensam na arquitetura como a parte mais, como eu posso dizer, supérflua de decoração e de luxo, e não, isso é necessidade para pessoas, para o ser humano, assim como a gente projeta espaços para o dia a dia dos clientes que vão morar, que é o refúgio das casas, principalmente agora com essa questão de pandemia, a gente se voltou nessa questão das casas, né, pô, eu chego em casa, tô num cubículo, peraí, é isso que eu quero pra minha vida? E também nos espaços que a gente frequenta, a gente quer lazer, a gente quer sair, a gente quer vivenciar experiências, que cada vez mais nós estamos voltados para isso, nos tornamos cada vez mais pessoas sensitivas, estamos ali vivenciando, não vou só comprar uma coisa no mercado, estou vivendo uma experiência, então saber que isso tem sido pensado cada vez mais é muito interessante, eu fiquei muito contente.
Então é sobre tudo isso, pessoal. Hoje nós tivemos uma aula sobre arquitetura para varejo, principalmente no setor alimentar. Peço que vocês compartilhem esse conteúdo e até o nosso próximo encontro, ainda na série Mulheres que Constroem.
Tchau!
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