Patrimônio Histórico | Podcast de Arquitetura | ConstrueCast

YouTube interview (ConstrueCast, 18 Apr 2024) in Portuguese where host Paulo converses with architect Fernanda Craveiro about preservation of built heritage. Fernanda mixes personal memories (growing up in Bixiga) with technical practice: material conservation (notably recomposition of historic mortars), research (term "Pedra Fingida" for massa raspada, used ca. 1920–1950), legal-historical context (Mário de Andrade’s anteprojeto and Decreto-Lei 25/1937 creating tombamento and SFAM → IFAM), and contemporary policy/economic mechanisms (retrofit, sustainability benefits, Transferência do Direito de Construir). She explains how tombamento works in Brazil, who can request it, owner responsibilities, and instruments to support preservation (e.g., TDC). Examples and place anchors include Paraty (Igreja de Santa Rita), Farol Santander / Edifício Altino Arantes, Copan and Pelourinho. The episode emphasizes affective ties to materiality, social value layers of heritage, multidisciplinary practice, and the role of documentation and technology in conservation.
Questions this video answers
1929
Decreto-Lei 25, 1937
"Pedra Fingida"
Circa 1920–1950
Chapters
Em algum momento da sua vida, você já passou em alguma cidade, viu um prédio ou uma casa e foi profundamente tocado? Ó, vou dar um tempinho pra você refletir. Preservação de Patrimônio Histórico é o tema do bate-papo de hoje. Para falar sobre o assunto, eu recebo a arquiteta Fernanda Craveiro, que vai falar com a gente sobre esse tema tão importante. Na verdade, como eu falei no início, que leva você para esse processo de pensamento, reflexão, memória, lembranças, Fernanda, seja bem-vinda ao nosso podcast. Eu comecei um pouco diferente, não sei se ficou bom, mas vamos que vamos.
Vamos. Obrigada pelo convite. Paulo, um prazer estar aqui, uma honra. E eu quero agradecer também ao Marcos Vinícius Grossi por ter feito o Convidado com Vida.
É, você veio do Convidado com Vida, inclusive. Ah, eu posso agradecer também?
Por favor.
Marcos, obrigado pelo convidado. Eu confesso que já aconteceu, hoje, tantas coisas antes da gravação. Então, a conexão aqui foi muito boa.
É uma honra participar com vocês. Especialmente pra propagar esse assunto tão importante, não só na atualidade. Ele sempre foi importante, mas ele tá um pouco mais... em voga no momento, ele tem sido pauta de muitas questões na atualidade, que é a questão da preservação do patrimônio cultural. Essa questão de algo que marca, quando a arquitetura marca a vida de alguém, esse pode ser uma linha de raciocínio da nossa conversa.
Então, para a gente iniciar o nosso bate-papo, vou pedir para você se apresentar um pouquinho, fazer um pit rápido. Quem é a Fernanda Craveiro e por que você se enveredou para a arquitetura e, sobretudo, para esse caminho de preservar as construções? Então, eu trouxe essa reflexão no início, porque eu nasci no interior de Alagoas e voltei lá recentemente e fui tocado por algumas construções que nem foi feita por arquitetos e tal. Sabe aquelas... Lá a gente conhece como Casa de Taipa, né? Aqui, acho que a minha esposa fala um outro nome que agora eu vou lembrar durante o nosso bate-papo, que são aquelas casinhas feitas com madeira trançada, depois você vem com barro ali colocando, enfim, palhas em cima, então... Eu fiquei marcado, visitei agora e fiquei muito... Cara, eu passei aqui em algum momento da minha vida. Entendi. E aqui em São Paulo, né? Que a gente tá gravando. A gente vai ali no centro e... Quando eu tinha coisa de 12 anos, eu lembro que eu passei ali em algum... Em alguns lugares e também fui tocado por algumas construções que ainda estão preservadas. Então... Fale um pouco sobre você, Fernanda.
Vou pegar o gancho nas suas memórias. Antes de me tornar arquiteta, antes de entender racionalmente que eu queria trabalhar com preservação do patrimônio, eu volto para a primeira infância. Eu sou paulistana e vivi até os meus 30 anos no Bixiga, no bairro do Bixiga, quer dizer, Bela Vista. mas Bixiga, carinhosamente. O chamado é um trecho, o Bixiga é um trecho da Bela Vista, inclusive tem uma área com tombamento. E lá morei até os meus 30 anos. Acho que isso teve um impacto muito grande na minha vida, conviver com as construções que traziam as marcas do começo do século XX, porão alto, os tijolos assentados com barro. Eu não sabia nomear essas questões, mas isso tudo foi ficando impresso em mim. Por algum motivo, por algum tipo de sensibilidade, isso sempre me chamou a atenção em todos os momentos da minha vida. Estudei numa escola que tem edifícios tombados atualmente, naquele momento em que estudei. Não, mas é uma escola cujo prédio principal foi feito pelo Giulio Micheli, um italiano, com características muito peculiares. Então, eu tenho uma relação sinestésica com a materialidade de das edificações. Eu me lembro de caminhar por um corredor cheio de pastilhas de porcelana cestavada, branco e verde, do corredor da sua escola. Então, eu sempre tive essa sensibilidade, onde quer que eu fosse, seja no interior, com a família da minha mãe, com a família do meu pai, Eu percebia questões relacionadas à arquitetura, e não é uma arquitetura monumental, é uma arquitetura modesta. É o que você estava falando agora há pouco. É um vínculo afetivo com a arquitetura modesta.
E você me trouxe um ponto agora, quando você fala do tijolo. É até uma curiosidade também, porque essa galera está descobrindo muitas coisas sobre mim aqui no Constricash. Eu já fiz tijolo. Então, quando a gente fala, já fiz. A gente tinha lá um molde, né? Que era dividido em quatro partes. A gente pegava aquele barro vermelho e tal, ia lá mexendo, forrava um plástico, pegava e ia enchendo aquele molde e tal, beleza. Tirava, ele secava, depois a gente fazia o que a gente chama de caeira. Fazia uns quatro buracos ali e ia... colocando vários tijolos ali, colocava lenha, queimava esses tijolos, deixava ele queimando ali a noite inteira. Depois, ele estava pronto para ser construído, para construir uma casa, enfim, qualquer coisa do tipo. E aí você... É engraçado, porque quando você falou do tijolo, automaticamente... Te relembrou. Me relembrei. E sempre que eu visito um projeto ou qualquer, sei lá, qualquer edifício e tem aquele tijolo aparente, aquilo diretamente me lembra minha infância. Louco isso, né?
A gente guarda na memória... cheiro, textura, cor. Às vezes, não conseguimos nem verbalizar a nossa conexão com a matéria. Essas questões sinestésicas são muito importantes e aguçam os vínculos afetivos. existe um trechinho de um texto que diz exatamente esse vínculo afetivo por meio da sinestesia que a gente não consegue explicar.
Eu quero ouvir. Você tem ele aí?
Eu trouxe porque é um texto do Lúcio Costa, que é, claro, muito conhecido pelo plano piloto de Brasília, mas Lúcio Costa foi uma figura fundamental também no patrimônio e ele escrevia maravilhosamente bem. Ele definia com palavras, de uma maneira muito sintética e muito poética, questões técnicas. Então, eu vou ler porque acho que define perfeitamente bem o que a gente está falando e essa conexão afetiva que fez com que eu tivesse, desde sempre, despertado interesse pelas questões de preservação. Vendo aquelas casas, aquelas igrejas, de surpresa em surpresa, a gente como que se encontra? Fica contente e feliz e se lembra de coisas esquecidas, de coisas que a gente nunca soube, mas que estavam lá dentro de nós. Ele escreveu, Lúcio Costa escreveu em 1929. Essa O que ele descreve é a sensação que eu tenho com o patrimônio. É algo que não pode ser definido. Eu não sabia racionalmente o que eu queria ser quando crescer. Eu não tinha essa visão. Eu não sabia que existia uma figura de uma arquiteta restauradora ou uma arquiteta conservadora, ou o que quer que seja. Eu fui buscando... conhecimento em áreas que me atraíam. Eu fui fazer arquitetura e eu bati o pé. Eu queria fazer fal, porque eu sabia que tinha um lado mais voltado a questões artísticas ou a questões da materialidade, da preservação. A bem, na verdade, eu queria ir para Salvador, mas não me foi permitido sair do meu estado. E bati o pé para fazer fal vários anos. Eu fiz cursinho vários anos porque eu queria entrar lá. e lá descobri a vertente da história da arquitetura, me apaixonei por história da arquitetura. A história da arquitetura explicava tudo aquilo que eu sentia quando passava pelo Minhocão.
Que.
Para além do impacto urbano, me levava criança, passando num congestionamento em cima do Minhocão. Eu tinha uma proximidade, que é justamente o lado ruim do Minhocão para quem mora ali, uma proximidade com aqueles tantos apartamentos, aquelas residências daquelas pessoas e eu olhava para dentro das casas para entender o que tinha lá dentro, para entender porque aquela argamassa estava caindo, porque aquela pastilha estava caindo. A história da arquitetura, no primeiro momento, me abraçou e foi me explicando todas essas questões. Eu parti da história da arquitetura e fiz um percurso sem perceber. Fiz um percurso passando por questões relacionadas à teoria do restauro e fui me embrenhando cada vez mais nas questões de preservação da matéria em si. voltando para as questões afetivas, para aquele vínculo com a pastilha, com a poeira vermelha que eu tinha no interior em função das construções todas feitas com areia de rio das estradas. Acabei tendo um namoro com a engenharia e com o comportamento dos materiais. Hoje em dia, uma das grandes questões com as quais eu trabalho é a recomposição de argamassas históricas. É, digamos, o meu carro-chefe. Talvez seja uma das atividades que eu mais exerço e exerço com mais afinco.
Depois eu vou querer saber um pouco mais sobre isso. Você seria quase uma engenheira, de certa forma, porque você está muito ligada à questão estrutural.
Despretensiosamente, eu busquei me aproximar da engenharia. Não tenho formação para questões estruturais. a felicidade de ter parceiros de trabalho extremamente qualificados e sensíveis para a questão do patrimônio, o que é muito importante. Mas eu sempre me cerco de profissionais de diversas áreas, porque a preservação do patrimônio, por essência, é multidisciplinar. e mais que multidisciplinar, ela é transdisciplinar. Então, assim, muito modestamente eu me aproximo da engenharia, mas eu sou...
Mas é legal, eu falei da engenharia porque quando você falou da argamassa, nesse processo de restauro, a argamassa, eu penso que ela tem uma importância muito grande, inclusive, para você conseguir manter toda aquela estética criada inicialmente. Aí tem também a questão da durabilidade, porque não é barato para você fazer um restauro. E eu já vou emendar com uma pergunta. Qual a importância de fazer esses restauros em espaços e cidades? Porque, na verdade, quando eu falo cidade, na verdade, às vezes um bairro, por exemplo, ele é marcado justamente por essa Por essa arquitetura marcada, né? E quando eu, de repente, tiro um prédio daquele ou tiro uma casa, eu acabo apagando toda essa história.
Bonito isso, né?
Não foi pensado.
Por que preservar?
Por que preservar?
Por que preservar?
Eu gosto muito de cuidar. Aí eu falo que quem cuida tem. Eu falo muito isso. E esse episódio, eu confesso que ele tá me levando pra um processo de reflexão comigo mesmo, assim, sobre mim.
Então, vamos lá. Você cuida do quê?
Eu cuido da planta, eu cuido das pessoas, eu cuido... Não sei, eu nunca fui... Tudo aquilo que envolve sentimento, pra mim, eu procuro cuidar e procuro preservar.
Olha só, você cuida do que você gosta. Você cuida do que provoque em você questões sensíveis. E esse é o cerne da preservação do patrimônio. A preservação só acontece quando a sociedade estabelece critérios para que determinada questão seja cuidada. A gente cuida do que a gente gosta, a gente cuida das questões com as quais a gente se identifica ou com as quais a gente estabelece vínculos afetivos, de memória, de identidade. Eu não estou falando ainda de casas, de prédios, de monumentos. Estou falando de tudo. O que a gente guarda na carteira, na bolsa? Objetos simbólicos, a aliança que foi da avó, o vestido de noiva, uma carta, um caderno, um desenho de um filho. A gente cuida disso como tesouros, certo? Porque tem um significado importante para a gente. O patrimônio, no geral, o patrimônio cultural, para que ele tenha este valor, para que ele seja elevado a patrimônio, ele precisa que a sociedade o enxergue com determinados valores. Quem atribui valor a algo? A sociedade. Sem esses critérios, sem o reconhecimento da sociedade sobre determinados critérios.
A gente não cuida de nada.
Então, por exemplo, eu falei sobre valor. A gente fala de valor relacionado a questões financeiras. Então, só para fazer um gancho entre essa questão valor de o que é melhor, o que é mais atrativo, o que traz riquezas, Vou falar do conceito do ouro, pegando emprestado um trecho de uma fala do Vitor Ugumori, do IPHAN, a quem eu respeito muitíssimo. Ele falou isso para mim e para outras pessoas. Isso ficou extremamente marcado. Ele falou sobre o ouro. Por que o ouro é tão valorizado? Por que o ouro vale tanto na nossa sociedade? Porque o homem, o ser humano, determinou que o ouro tem um valor acima da prata, tem um valor acima de outros metais do ferro. Por quê? a gente estabelece critérios para valorizar. E, no caso do ouro, a gente pode citar vários, mas eu vou falar de dois. A beleza e a excepcionalidade. A quantidade de ouro no mundo é infinitamente menor do que a quantidade de ferro que a gente pode extrair. Quando a gente fala, então, dando um salto enorme para vocês entenderem essa questão de a sociedade, ela reconhece valores e, a partir desses valores, desses critérios, ela dá valores, é a partir daí que a gente pode começar a pensar em patrimônio. O patrimônio é um reconhecimento de que determinado artefato, então falando do patrimônio material, de determinado artefato, estou até aqui com um livro de Paraty, vamos lá. Que determinado artefato, estamos vendo a igreja de Santa Rita em Paraty. Por que a igreja de Santa Rita é tão importante? Porque a gente determinou que esta paisagem, este cenário, esta materialidade, esse tipo de arquitetura, com esta ambiência, é precioso, é único, é excepcional e não tem nenhum outro lugar.
Eu queria aproveitar e chamar a atenção de quem está ouvindo ou assistindo, enfim, não sei qual a plataforma que a pessoa está. Eu queria que você colocasse nos comentários, assim, se tem algum lugar de alguma cidade que te marcou. E por quê? É porque eu confesso que ouvir você falando, assim, eu começo a fazer uma viagem no tempo. E você citou Paraty agora, eu confesso que eu acabei de ir pra Paraty. Eu fui lá, eu consegui ir. Eu consegui entrar nessa igreja. Entende? Então é muito... Por isso que eu trouxe aqui essa provocação. Você que está ouvindo ou assistindo a este episódio, coloca nos comentários se tem algum lugar que, não importa se você nasceu ou passou há muitos anos, e por que que você foi tocado. Tem também um lugar na Alemanha que eu visitei, né? Revisitei em outro momento. Eu fiz questão de ir e estava lá, coisa de dez anos depois, estava lá intacto, do mesmo jeito. Entende? E por isso que eu trouxe. Só que agora eu vou te mandar outra pergunta. Quer complementar?
Eu quero, porque o que você falou é muito legal, porque traz o gancho do que você pediu lá atrás. Você falou, pessoal, mandem referências do que para vocês é importante no bairro, na cidade. Justamente o que você falou traz a questão das diversas esferas de importância do patrimônio. Quando a gente fala de um vestido de noiva, de uma aliança, de um desenho de um filho, é importante? Para a gente, individualmente. Quando a gente tem referências arquitetônicas urbanas do nosso bairro, é importante para aquela comunidade, talvez, do bairro. Eventualmente, essa construção, essa arquitetura, esse monumento do bairro seja também importante para o distrito, para a cidade toda e, talvez, para o estado de São Paulo, por exemplo. Então, se a gente estiver falando de uma edificação, enfim, o Teatro Municipal está no centro de São Paulo, mas o impacto dele é não apenas ali, para aquelas ruas do centro, mas também para a história da cidade, para a história do estado. E isso pode extrapolar para a história brasileira, então o patrimônio tem diversos estratos e a proteção ao patrimônio, o título oficial de que algo se torna patrimônio, ele é feito por meio do tombamento. Estou falando do patrimônio material. o Ele é feito por meio do tombamento e está dividido justamente nessas camadas, em esferas. A gente tem a esfera municipal, a gente tem a esfera estadual, a gente tem a esfera federal. Então, falando de São Paulo, a gente tem Comprespe, Quando algo extrapola a importância de questões para o território nacional, algo que tem um caráter universal, excepcional, podemos pensar no patrimônio da humanidade.
Patrimônio da humanidade.
Então são diversas camadas, diversas instâncias que aferem o título de patrimônio oficialmente, que no Brasil a gente chama de tombamento.
O que é um edifício tombado? Por que esse nome?
Vamos lá. O tombamento é um instrumento que reconhece os valores para que um edifício seja preservado.
Mas como surgiu?
Então, vamos lá. Lá atrás, década de 30, Mário de Andrade recebeu a incumbência de desenvolver um anteprojeto de lei para criar a preservação de edifícios ou do patrimônio cultural no Brasil. E ele desenvolveu, portanto, o anteprojeto de lei que deu origem, posteriormente, à Lei de Tombamento, de 1937, É o Decreto-Lei 25, que essa lei de tombamento, ela cria o tombamento em si e cria o sfam, que virou ifam, posteriormente. Mas onde ele tirou esse nome, tombar? Porque, num primeiro momento, tombar é derrubar, certo? Pois bem, Mário de Andrade foi muito espirituoso. Ele usou esse termo como uma brincadeira. Ele pegou emprestado dos portugueses. Em Portugal, a Torre do Tombo é a torre que recebe os livros do tombo. Os livros do tombo são livros que documentam uma série de questões importantes relacionadas aos imóveis protegidos e outros documentos em Portugal. Portanto, Mário de Andrade usa esse termo da torre do tombo, os livros do tombo, pega emprestado e transforma a palavra tombar no tombamento, que é a proteção do patrimônio. Em outros países, Isso não acontece, não existe tombamento em outros países. Eles são declarados bem de interesse cultural, como na Espanha eles são BIC, bem de interesse cultural. Eles são classificados, mas tombados apenas no Brasil.
Enquanto você tá falando, eu tô aqui folheando esse livro, que é Pedra Fingida, que eu ganhei gentilmente de você. Tem alguns projetos aqui também que eu consigo, sabe, visitar na memória?
Pedra Fingida é um termo que não existia, tá? É um termo que eu inventei pra esse livro, na verdade, pra minha dissertação de mestrado. mas eu precisei cunhar um termo que abarcasse uma categoria muito diversa de revestimento, que nada mais é do que a massa raspada. A argamassa raspada, que é bem conhecida na arquitetura, é um revestimento que imita pedra na fachada, mas é feita de argamassa. É um revestimento que foi muito utilizado no começo do século XX e que, a partir dos anos 1940, com o uso da pastilha nas fachadas, ele caiu em declínio. Esse revestimento, que é a massa raspada, tem uma série de categorias de acabamento. Então ele pode ser raspado, lavado, ele pode ser apicuado, ele pode ser penteado. Então para abarcar esses diversos tipos de acabamento eu peguei emprestado um termo que são os fingidos de pedra que se usa em Portugal para para identificar revestimentos que imitam pedra, que é justamente o caso da massa raspada. Eu chamei carinhosamente de pedra fingida, era uma questão metodológica para a dissertação de mestrado, e acabou ficando como título do livro e isso foi se propagando. A massa raspada é um revestimento que foi bastante aplicado entre os anos 1920 e 1950 aqui no Brasil. Ele surgiu na Europa e tem o intuito de imitar revestimentos pétreos, só que economicamente mais viável. Ele é absolutamente artesanal e demanda um trabalho extenuante. Gente, provado, comprovado, reprovado, comprovadamente que patrimônio tem a ver com vínculo afetivo, com reconhecimento, com identidade, você sempre se emociona ao pensar em questões da materialidade dos edifícios que você já visitou.
Não, porque tem coisas aqui, inclusive, que eu olho que, assim, você falou de emoção e nitidamente eu estou emocionado. Porque eu peguei esse livro, gente. Olha só. A Pedra Fingida. Esse livro é meu. Um presente. Um presente. E é louco isso, como você viaja, sabe? Na... Na memória, igual. Tem projetos aqui que eu visitei, inclusive o... Eu não sei se... Agora eu não sei se mudou o nome, se a gente pode chamar que é o... Aquele edifício que antes era o Edifício Banespa, em São Paulo.
O Farol Santander?
Farol Santander. Hoje tá como o Farol Santander.
Ele se chama Edifício Altino Arantes.
Edifício Altino Arantes. É, aqui tá com esse nome, inclusive. Eu não sei porquê, mas me lembrou o edifício do Farol Santander. E tem também ali que eu vivi momentos muito, muito bacana. É o mesmo. É o mesmo?
Eu dei o nome e o sobrenome.
Não, é o mesmo. Então, é o mesmo aqui. E aí tem também aqui o edifício Copan. Eu sempre tive muita vontade de visitar o Copan. E eu queria entender por que ele tinha aquela forma. Outro dia eu visitei o escritório, fazendo trabalho para as Beias, visitei o escritório de um arquiteto que eu admiro muito, que é o Botti. Eu falei, Botti, como é que esse projeto do Copin é dessa forma? Ele forma esse S. E aí ele pegou uma folha, de forma muito gentil, ele pegou uma folha, fez essas curvas e essa folha se manteve de pé. Então, ele... Sabe, foi tão... Olha que legal, eu tô falando, eu tô olhando aqui alguns projetos, então eu tô voltando um pouco, lembrando de amigos queridos e também porque que esse projeto me marcou tanto, esses dois projetos, o Farol Santander e esse do Edifício Coupan. E eu vou levar ainda, vou adiante, esse episódio, gente, Quem me conhece vai ter que assistir esse episódio. Porque eu vou mandar geral. Estou tocado, sabe?
É interessante porque eu falei que fui indo para um caminho tão técnico, e eu trabalho ali com a questão de granulometria, composição mineralógica. É uma questão tão técnica da preservação do patrimônio, mas isso nunca me distancia da questão sinestésica que está lá atrás, guardadinha. O patrimônio e a cultura em geral sempre me emocionaram. Eu fico muito feliz. Por ter essa conversa com você, que não só compreende, mas que promove essa sensibilidade própria, né? Tem essa visão também tão… Uma visão sensível, uma visão amorosa, afetiva com o patrimônio.
Eu diria que… Igual, a gente tá tendo essa conversa aqui, eu tenho várias perguntas aqui. Mas a gente tá fazendo um bate-papo tão bacana, porque é notório. Eu olho pra você e vejo em você uma pessoa diferente. Por quê? Pra... Acho que só pra escrever esse livro aqui. Sabe, relembrar histórias tão marcantes. E até uma coisa também, quem assistir a esse episódio e não passar por um momento de reflexão sobre a vida, sobre o que é realmente importante na vida... Desculpa.
Que bárbaro isso, gente.
É, porque... O que é... O que tem valor pra você? Então, essa é a grande pergunta. O que tem valor pra você?
É algo que... Esse assunto, ele é importante não só pras questões objetivas do patrimônio em si, da preservação daquele monumento, daquele edifício, daquele conjunto urbano, daquele centro histórico. É importante também para que a gente entenda que a preservação dos bens materiais serve para nos lembrar de quem nós somos, para nos lembrar da nossa cultura, do que as outras gerações já foram capazes de produzir, do que chegou para a gente de herança. O termo patrimônio pode estar vinculado ao patrimônio financeiro. O patrimônio com essa vertente de elemento material herdado é algo muito precioso. Cada edificação, cada conjunto urbano é preservado por sua excepcionalidade. A gente não preserva absolutamente tudo porque a vida tem impactos de alteração de usos, mas a tentativa de se preservar exemplares é justamente não apagar essa parte da nossa história. Então, como se vivia antigamente, como se construía antigamente. Existe um fator que é imaterial, que são os costumes, os saberes, o saber fazer. Isso tudo é inerente àquilo que a gente toca, que a gente vê.
É por isso que eu já falei lá no início, né? Essa questão do cuidar. Por que cuidar? Por que preservar? Então, tá diretamente ligado. Então, enfim, esse episódio tá uma verdadeira viagem ao tempo.
A gente tá tão emocionado que a gente se embola, a gente não responde nada.
Não, mas tem outra pergunta. Mas assim, eu tô super gostando do bate-papo aqui, e eu tenho certeza que… Esse episódio realmente é para poucas pessoas. Ele é para pessoas sensíveis. Pessoas que realmente gostam de viver histórias. Agora vou te fazer uma pergunta que é bem direcionada. Quais são os benefícios econômicos, sociais e culturais de investir na restauração e conservação de patrimônios históricos?
Pergunta extremamente importante e extremamente atual. Se a gente parar para pensar na... na lei do retrofit aqui em São Paulo, o impacto que isso promoveu e o quanto a gente tem visto da sociedade promovendo o que a gente chama de retrofit, a readequação de edificações pré-existentes, não necessariamente tombados, mas com pré-existência. Edificações que foram construídas em outros momentos e que têm seus predicados arquitetônicos distintos do que a gente produz hoje do zero. O impacto econômico é tremendo. Porque se a gente reaproveita uma estrutura... Imagine uma edificação com estrutura de concreto armado que foi construída, enfim, na década de 60, sendo readequada para novos usos. Ela estava desocupada. Imagine o impacto financeiro de se reaproveitar uma estrutura já extremamente estável. lá pronta, precisando de cuidados, mas isso é um impacto financeiro tremendo. Agora, imagine o impacto ambiental de se promover a preservação desse tipo de estrutura. A gente não vai precisar demolir, a gente não vai precisar gerar resíduos que, infelizmente, acabam não sendo reaproveitados, mesmo que a gente que haja possibilidade, a gente tem recursos tecnológicos para fazer reaproveitamento de parte do entulho da construção civil, é uma parte ínfima, a gente joga muito desse refugo fora. Não tem como. Tem um impacto na sustentabilidade, no meio ambiente. Então, promover a readequação de edifícios pré-existentes, sejam eles tombados ou não, a gente tem uma série de vantagens econômicas relacionadas ao meio ambiente. São recursos muito sustentáveis. Isso por si só já se justificaria. Agora, existem outros fatores relacionados à qualidade arquitetônica que a gente teve. Aliás, posso adiantar?
Pode, por favor.
Posso fazer o convidado com vida?
Pode, por favor. Pode fazer o convidado com vida, inclusive. Só pra manter, você citou a questão da tecnologia. E na sequência, eu vou emendar uma pergunta sobre tecnologia.
Ai, desculpa, não me mata que eu tô… Vamos lá.
Qual que é o seu convidado com vida? Gente, eu falo que esse episódio tá diferente. Hoje ele tá diferente.
Desculpe, mas é o seguinte, falando sobre qualidade arquitetônica que a gente já teve, existem duas questões importantes para serem ditas aqui e uma é a seguinte. Professor Benedito Lima de Toledo, que foi professor da Falma, professor querido, foi meu orientador, Ele tem um livro importante que se chama São Paulo, Três Cidades e um Século. Nesse livro, ele diz que São Paulo é um palimpsesto. Palimpsesto é um pergaminho que era utilizado para escrever e depois era apagado e reutilizado. com escritas, com textos. E, normalmente, a cada vez que ele era apagado e utilizado para outra peça literária, ele recebia uma peça literária com qualidade literária inferior à que havia sido escrita anteriormente.
Isso aqui é profundo.
São Paulo, esse livro do professor Benedito fala São Paulo três cidades em um século porque São Paulo foi uma cidade reconstruída duas vezes em cima de si mesma. e com uma qualidade inferior. O que veio depois tem uma qualidade inferior em relação à arquitetura previamente existente. Justamente para falar sobre isso, para simbolizar essa questão, o quanto de arquitetura a gente tem, extremamente rebuscada, com uma qualidade construtiva e estética, eu gostaria de convidar o jornalista Raul Justilores para vir falar, sobretudo da Não é só mais um livro, porque virou um grande mote de pesquisa dele, que se transformou inclusive em um canal no YouTube, que chama São Paulo nas Alturas. É o nome do livro dele, São Paulo nas Alturas, que fala sobre o preciosismo da arquitetura produzida em São Paulo entre os anos 50 e 60. O que foi aquilo. Então, esses prédios, por exemplo, dos anos 50 e 60, são prédios extremamente importantes, marcantes na nossa paisagem, que estão em uso, que estão em vigor. Copan, por exemplo.
Copan, sim.
O Conjunto Nacional e tantos outros. Então, a gente tem, atualmente, um furor acontecendo na cidade relacionado ao retrofit, que se apropria... Amém! O que é bárbaro, né? De edificações pré-existentes, algumas tombadas, outras não, mas edifícios, muitas vezes, dos anos 30, 40, 50, 60, para transformar em edificações requalificadas para um novo uso, um uso contemporâneo.
E isso é um tema que a gente vai conversar muito ainda no Consolecast, porque realmente é uma reflexão muito importante.
Extremamente importante. Isso é importante economicamente, do ponto de vista ambiental e de sustentabilidade, e do ponto de vista também de referências, de identidade e de memória.
É, porque às vezes a gente se depara com algumas situações, você muito mais que eu, que é derrubar tudo e reconstruir.
Exato, a gente perde referência.
Perde referência. Então, é aquela coisa, né? Quanto vale essa referência?
Sim.
Então, tem coisas assim, que é intangível. Igual, eu falo, a viagem que eu fiz agora, se eu fosse um investidor, eu não ia pensar duas vezes. Se para derrubar custasse um milhão, estou dando um exemplo, tá? E para manter aquela memória, enfim, fazer o retrofit custasse três ou quatro, com certeza eu ia pagar três, quatro, cinco, não importa. Porque o valor da memória é intangível.
E veja, o patrimônio foi visto por muito tempo como algo um monumento congelado no pedestal. Quando a gente pensa em patrimônio, a gente fala que aquele bem é tombado, não pode mexer, não pode fazer nada, deixa lá em um santuário. Mas ele não estava fazendo parte da vida da sociedade. Ele estava lá como um bibelô. Isso, ao longo do tempo, foi sendo alterado com discussões no âmbito da preservação que foram evoluindo, amadurecendo essa questão. O conceito do patrimônio foi se moldando às questões da sociedade. O aspecto social foi inserido no patrimônio e reconhecido como patrimônio. A arquitetura modesta hoje em dia... Por que tombar um bairro com casas modestas? Com casas que foram construídas sem ter nenhum tipo de história? Não foi uma casa que recebeu Dom Pedro.
Se você pegar o bairro Pelourinho, em Salvador, pra quem já visitou, sabe, tem ali, é um bairro tombado, né?
Sim.
Então, tanto é que, por exemplo, tem aquele clipe do Michael Jackson, não lembro a música.
Que ele fez com o Olodum, né?
Com o Olodum. Eu lembro que, assim, eu nunca tinha visitado aquele bairro. Eu fui fazer um trabalho em Salvador e a primeira coisa que eu falei é, quero conhecer o Pelourinho. Quando eu entrei, quando eu cheguei naquele bairro, eu olhei, nossa, que foi onde o Michael Jackson gravou aquele clipe. Olha que legal. E aí eu fui e visitei ali aquela... Aquela... Alguns lugares que ele visitou, onde ele tirou foto, assim, e tá cheio de fotos dele lá, você já deve ter visitado.
Mesmo que a gente não tenha estado, a gente reconhece os marcos importantes das cidades, né? Isso vira cartão postal, isso vira motivo de fotos de todos os nossos amigos nas viagens. A gente tem uma memória de lugares que a gente nunca esteve. Lembra das duas coisas.
É, você pega pessoas, assim, o orgulho que elas têm ali, né? Lógico. Fazer parte daquele bairro, daquela rua.
E algo interessante dessa modificação relacionada ao patrimônio, de dar aspecto social, é dar ao patrimônio as construções. Estou falando do patrimônio arquitetônico. Dar às construções um caráter, uma importância para além daquela do bibelô, que é algo que faz parte do tecido urbano. Então, a gente traz do Olimpo, eram só museus, palacetes isolados, a gente vai trazendo o patrimônio para a nossa rua, para o nosso bairro. E, aos poucos, a gente cada vez caminha para abraçar o patrimônio de maneira a considerá-lo dentro da nossa vida corrente. Para que isso aconteça, a gente precisa, de certo modo, de adaptações e readequações. A gente tem esse movimento acontecendo agora de forma muito mais evidente. Trazer o retrofit dessas edificações ou a requalificação dessas edificações pré-existentes, tombadas ou não, e transformá-las em novos edifícios de uso residencial, de uso comercial, é fazer com que a gente consiga morar, trabalhar, viver, transitar, respirar o patrimônio dentro da nossa vida, no nosso dia a dia.
Fernanda, eu tenho uma pergunta nesse sentido que você trouxe agora, que você falou da tecnologia lá atrás. Eu queria falar um pouco da questão da importância do governo, que eu vou falar na sequência. Só que primeiro eu queria te perguntar como as tecnologias estão sendo utilizadas na conservação e restauração de edifícios históricos? Por que eu te pergunto? Porque, para você preservar a história, muitas vezes, quando você usa tecnologia, por exemplo, para documentar o que existe, você acaba facilitando um trabalho futuro. Então, como a tecnologia está facilitando hoje esse processo de conservação da história?
A evolução tecnológica sempre esteve atrelada à preservação do patrimônio. Sempre. O conceito do patrimônio surge quando o homem se dá conta do processo inexorável da passagem do tempo. Ou seja, que lindo isso, essa construção. A gente vai perder. Como é que a gente faz para preservar? A preservação surge neste momento da humanidade. Então, os primeiros recursos de preservação, os primeiros recursos tecnológicos eram o registro.
O registro. Olha que legal, e eu faço parte disso. Cuido do registro.
O registro é uma ferramenta ou, na verdade, é um elemento fundamental na preservação, porque é ele que vai contar ou auxiliar a contar a história do edifício. desde sempre. Então, inicialmente, claro, registro feito por meio de desenho.
Das condições, né, do momento.
E aí, lá pra frente, né, passa o filme um pouco pra frente, aí quando a gente tem o advento da fotografia, então, a tecnologia nos auxiliando a promover o registro. Então, aí a gente tem por meio do desenho, da descrição, da escrita, do desenho, do registro, depois fotografia, filme e isso vai avançando e chegando nos dias de hoje. Até retomo algo que o Marcos falou sobre as questões de diagnóstico. Ele falou bastante sobre a tecnologia no diagnóstico. Olha a interface entre engenharia diagnóstica e preservação do patrimônio para que a gente documente um edifício que passará por uma intervenção de restauro, de conservação, a gente precisa registrar para mostrar como ele era antes da intervenção, porque cada intervenção transforma o edifício, a materialidade.
Eu queria agora me dar mais uma pergunta, aproveitar que você me deu esse gancho. E quais são os critérios utilizados para determinar quais edifícios ou áreas devem ser protegidos como patrimônio histórico?
Então, vamos lá. Aquilo que eu falei, né? A sociedade é que determina.
Sim, você já tinha falado um pouquinho lá atrás.
Tinha falado sobre isso. Então, assim, a sociedade pode ter a iniciativa de falar, olha, este imóvel no meu bairro é importante pra gente, pra nossa comunidade, e a gente gostaria de pedir o tombamento municipal. Então, como fazer isso? Ai, meu Deus, vou precisar contratar a Fernanda? Não! A comunidade pode se reunir, tirar fotos do documento, do monumento ou do imóvel e escrever. Escrever com suas próprias palavras. Esse imóvel, ele retrata determinada situação, ele é muito querido pela nossa comunidade, ele tem uma história assada, ele foi construído por não sei quem. Levar para o órgão de preservação e falar, estamos pedindo a abertura do processo de tombamento. A sociedade pode fazer isso. Qualquer pessoa pode fazer um pedido de abertura de processo de tombamento. E aí, a partir do momento em que o órgão que recebe vai determinar se tem embasamento, se o processo pode ser iniciado, e ao longo do processo eles vão avaliar todas as características e vão tombar ou dizer não. Mas o que valida isso é a o quanto esse imóvel é importante para a comunidade ou para a sociedade.
Pode ser também, nesse sentido, uma pergunta curiosa minha, que de repente vai ajudar muitas outras pessoas. Imagina que tem a casa do meu avô. Tudo bem que eu tenho ali outros irmãos, outros tios e tudo mais. Eu posso solicitar o tombamento dessa casa? Então... E após isso, imagina que, ah, tudo bem, foi aceito. Quem cuida se precisar, enfim, investir ali em cuidados pra manter aquela estética, aquela história?
Então, aí tem algumas questões fundamentais pra esclarecer. Primeiro, nem sempre foi assim. O que a gente recebe, o que a gente tem de herança tombada hoje em dia no Brasil, boa parte veio das esferas técnicas. Os órgãos de preservação que, ao longo do tempo, foram sendo criados. Em 1937, a gente tem a criação do SFAM, o embrião do IFAM, que é o órgão de preservação federal, em 1937, e depois vieram as outras esferas, as estaduais, as municipais. Mas os órgãos técnicos, os órgãos de preservação e os técnicos dos órgãos de preservação é que determinavam o que era importante para a sociedade por questões históricas, fatos históricos, ou por questões estilísticas de beleza. Então, o monumento, o palacete, o museu. A gente tem uma massa de patrimônio tombado que chegou de cima para baixo. Ao longo do tempo, e sobretudo a partir do momento em que a gente reconhece um impacto, uma esfera, um aspecto social do patrimônio, é que a sociedade efetivamente começa a demonstrar o seu vínculo, sua identidade e memória. E aí, solicitar os tombamentos. Então, isso é muito contemporâneo, né? Qualquer pessoa pode pedir o tombamento de qualquer item.
Mais ou menos.
É... tá?
Já entendi.
O que acontece? Vamos lá. Então, respondendo a sua pergunta. A casa do seu avô, ela pode... você pode pedir o tombamento. Mas, assim, ela tem um impacto pra você e pra sua família? Ou ela tem um impacto para a sua comunidade, o seu bairro? Então, a gente tá falando de questões pessoais. Então, assim, ele é muito importante pra você, pra sua família, pra história da sua família. Mas, assim, ele tem impacto de identidade, de memória da sociedade ou de um grupo pequeno?
Eu entendi. Depende muito onde esse imóvel tá localizado.
Não.
Não?
Não. Depende muito do impacto que este imóvel tem numa comunidade. Então, vamos supor... A gente muitas vezes vê situações em que há comunidades quilombolas ou comunidades no litoral de pescadores ou comunidades no sertão com determinada atividade, uma atividade cerâmica. Então, essas diversas comunidades que têm como referência, às vezes, a casa de alguém, alguma personalidade que era importante para aquela comunidade, ou uma casa, um centro de referência, de encontro da comunidade. Você pode apresentar e falar que essa casa é uma casa que a gente se encontra toda semana para passar os nossos saberes, das panelas de barro ou os nossos saberes do trançado da palha. A gente se reúne nesse espaço e a gente passa das gerações mais velhas para os mais novos e a gente reconhece esse espaço que é um galpão que não tem nada de belo, ele foi construído em 1970, não tem características históricas proeminentes, não é que Dom Pedro dormiu naquele galpão, mas ele tem um impacto importantíssimo para aquela sociedade, para aquela comunidade como um todo. Essa comunidade pode se unir e solicitar o tomamento daquilo como algo que seja um símbolo, um símbolo que une os costumes, o saber fazer.
Fernanda, e nesse sentido, qual o papel dos governos, dos governos na verdade, instituições e organizações não governamentais na preservação do patrimônio histórico?
Cada esfera a gente tem um tipo de atribuição. O que acontece é o seguinte, os órgãos de preservação são órgãos vinculados às diversas esferas da administração pública. Então a gente tem o IFAM, a gente tem as esferas estaduais vinculadas ao governo do estado e as esferas municipais vinculadas às prefeituras. Esses órgãos de preservação são os órgãos que são capacitados tecnicamente para analisar se um bem deve ser ou não tombado. por todas as suas questões históricas, estéticas, estilísticas, sociais de identidade e memória. E ele tem também a questão da fiscalização, de entender se tal bem que foi elevado a patrimônio, se ele está sendo bem cuidado como ele deveria. isso para bens privados. Quando a esfera federal possui um bem, além de ter todas essas atribuições, ele ainda tem a obrigação de cuidar do bem. Quando um imóvel é tombado, o proprietário se torna o responsável pela manutenção deste bem. O tombamento, a proteção ao patrimônio não altera em nenhum status, em nenhuma questão, a propriedade. A propriedade continua sendo do proprietário. O fato de um imóvel ser patrimônio do Brasil, um pacto importante para o Brasil todo, não faz dele, compulsoriamente, um imóvel Entendi. E isso é algo que assusta bastante, porque eu digo que um proprietário de imóvel tombado recebe de presente o ônus e o bônus. O bônus é parabéns, graças à mente, o seu imóvel se tornou importante para toda a cidade. Agora você vai ter que gastar.
Para manter aquela beleza toda.
A preservação necessita de cuidados especializados, ela precisa de acompanhamento de especialistas que sejam comprovadamente especialistas, porque senão você não consegue aprovar isso nos órgãos de preservação. Toda intervenção em imóvel tombado precisa ser aprovada pelos órgãos de preservação. Não por todos. Um imóvel tombado pelo município precisa ser avaliado pelo órgão de preservação municipal. Os serviços costumam ser mais onerosos porque você precisa de mão de obra especializada, você precisa de técnicas que são compatíveis com aquelas e que muitas vezes A técnica se perdeu.
Agora, olha que legal. Tudo bem, você paga um pouco mais por isso.
Um pouco, não. Não é muito.
É, mas você parou pra imaginar que só você, nesse bairro, nessa cidade, tem essa casa, esse edifício.
Não, maravilhoso. Acontece que é essa dor, né? O ônus... Não é fácil.
A gente ajuda, ó. Manda mensagem aqui pro Cônselo de Quedas que a gente dá um jeito de ajudar. Fernanda, eu acho que a Gabriela tem uma pergunta. Vamos lá, Gabi. Ai, Gabi. Pergunta da plateia. A Gabi, que é da nossa produção, ela perguntou o seguinte, a pessoa que pediu esse tombamento, imagina que, posterior a isso, ela identificou que é muito caro manter essa preservação, esse tombamento, e ela decidiu, ah, não tenho dinheiro pra manter, como que fica isso?
Não tem dinheiro, não tenho dinheiro.
E aí?
É complicado, muito complicado. Vai cair? Então, primeiro, Às vezes cai e não é por falta de dinheiro, às vezes é por interesses. Isso acontece em qualquer lugar do mundo. Às vezes cai porque realmente aquele imóvel foi herdado e aí ficam três, quatro, cinco herdeiros, ninguém tem fôlego para bancar uma preservação do jeito que deveria ser feita e não consegue. existem determinados instrumentos de contrapartida ou uma tentativa de auxílio Eu vou citar um dos exemplos que tem sido bastante utilizado já há muitos anos e que foi apontado desde o Plano Diretor Estratégico de 2015, que é o TDC, a Transferência do Direito de Construir. O que isso significa? O que é a TDC, a Transferência dos Direitos de Construir? A TDC é um incentivo para proprietários de imóveis tombados. Se você tem um imóvel tombado, seu imóvel está bem preservado, se você consegue mantê-lo em ordem, você pode vender o potencial construtivo passível de transferência que o seu imóvel teria se ele não fosse tombado. Porque você não vai poder usar o potencial construtivo desse terreno porque você tem um imóvel tombado e ele é tombado dependendo de cada imóvel, é tombado só externamente, às vezes externamente e internamente, mas de qualquer maneira ele é tombado e você não vai alterar, a princípio, a volumetria, não vai ocupar o potencial construtivo daquele terreno, daquele imóvel. Então você pode, se o imóvel está em bom estado, você tem que fazer uma série de solicitações, tem que comprovar que ele está em bom estado, fazer uma solicitação para poder vender o potencial construtivo passível de transferência. Pra quem ele é vendido? Pra construtoras, incorporadoras que queiram construir e utilizar potencial construtivo a mais do que o que é disponível pro terreno que eles vão construir em outras partes da cidade.
Entendi, isso serve inclusive como argumento de venda, né? Depois, porque você, de certa forma, você tá construindo algo novo naquele terreno, mas mantendo a história de alguma forma, mantendo uma casinha ali.
É assim, você pode comprar transferência do direito de construir de um imóvel que está no Bixiga e construir um empreendimento no Itaim. É como ao invés de você comprar a outorga onerosa para aumentar em altura o seu edifício, para além do que é permitido, você compra, ao invés de comprar autórga da prefeitura, você compra de particulares que tenham imóvel tombado em boas condições.
Confesso que eu não entendi.
É assim.
Se eu falar que entendi, eu estou mentindo.
Não tem problema nenhum. A gente explica porque eu acho que é algo... É um instrumento interessante. É um instrumento que funciona. É... Claro que há questões a serem discutidas, né? Porque o imóvel precisa estar preservado. Ou você precisa estabelecer um compromisso de que você fará uma obra de restauro. E pra isso você precisa apresentar projeto, enfim.
É, porque assim, se eu comprei esse direito, por exemplo, num bairro, um exemplo, eu comprei no Morumbi, e por que que eu tenho o direito de construir um outro?
Então, vamos lá. É assim, ó.
Em outro bairro. Em outro bairro.
O princípio da autoargonerosa é assim. Você, num determinado terreno, você tem condições de construir até uma metragem tal. Vou ocupar o terreno de maneira a não ultrapassar determinados parâmetros. Mas, para que o seu negócio seja viável economicamente, você, uma incorporadora, uma construtora, para que seja viável economicamente, você precisa construir mais andares do que aquele que o teu terreno comporta. Você, portanto, tem a alternativa de comprar uma área extra para subir um pouco mais, o direito para construir um pouco mais além do que a legislação permite para o seu terreno. E aí você pode comprar essa área a mais, o direito de construir essa área a mais da prefeitura, isso se chama outorga onerosa.
Muito legal, então eu comprei isso em outro bairro e posso...
Não, inicialmente você está comprando da prefeitura. Prefeitura, é o seguinte, eu quero construir um edifício no Itaim, meu edifício vai ter 15 andares, tanto de área, só que pela legislação eu só posso construir 10 andares, tanto de área, então eu preciso comprar 5 andares ou o equivalente a tanto de área aqui nessa área. Você tem estoque para que eu possa construir essa área mais no Itaim? Tenho e custa tanto. É tabelado, tá? Tenho e custa tanto. Então você vai lá, compra da prefeitura e não é... você compra uma área da prefeitura que é uma área que não existe, né?
Entendi.
É uma... você compra o direito de construir aquela área. Tá? Então, isso, ok. Só que você pode comprar a autoargonerosa da prefeitura ou você pode comprar de um proprietário de imóvel tombado que já tenha o potencial construtivo passível de transferência autorizado. Então, ele tem que pedir. Então, são outros bairros, né? Esse aqui é tombado, esse aqui eu estou construindo. Então, o incorporador, o construtor bate na porta do... do proprietário de móvel tombado, ou vice-versa, né? E fala, olha, eu soube que você tem potencial construtivo, que você pode vender, e eu quero comprar. E aí, eles negociam o valor por metro quadrado entre eles.
Nesse caso, não é tabelado, né?
Não, não, não. É uma negociação entre eles. Mas não é que, se esse tá no Bexiga e esse tá no Itaim, não é que esse aqui vai vender tantos metros, X metros, e o X metros vai, tipo, chegar no Itaim e virar x-metros, mesmo porque o valor por metro quadrado aqui é diferente do valor por metro quadrado aqui. Então existe uma conta, existe um fator que é aplicado na prefeitura. Então essa negociação é entre eles financeiramente, o negócio. Mas a tratativa relacionada à área pautada em parâmetros e a prefeitura fica de olho, faz a conta e isso tudo é documentado, né? Então, olha, eu estou vendendo X, tá bom, eu quero comprar X, eu vou te pagar tanto, deixa eu ver quanto é que o seu X vai virar, será que o seu X vai ser suficiente para eu construir os meus cinco andares? Ufa, deu certo, ou ufa, não deu, então vou ter que procurar outro imóvel.
Nossa, que interessante.
Isso é interessante por quê? Porque isso possibilita que o proprietário de imóvel tombado receba um valor por algo que ele poderia construir caso não fosse tombado, e este valor precisa ser investido na conservação do imóvel. tem condições de se programar para as próximas manutenções. Mas para que a TDC seja liberada, você precisa deixá-lo sempre em boas condições. E aí você assume o compromisso de preservar eternamente.
Então agora, pra quem não tinha esse dinheiro pra cuidar, agora tem. Que legal, eu adorei esse podcast. Enfim, agora, Fernanda, infelizmente, eu queria te passar pras considerações finais. Mas assim, eu tenho aqui outras perguntas pra te fazer. Mas deixa pra um outro momento que, claro, que você vai voltar aqui.
Com prazer. Acho que a gente foi falando... Foi conversando e eu fiquei com a sensação de que eu devo ter respondido, assim, duas perguntas objetivamente. O resto a gente fez de digressões, um lembrava o outro de questões. Foi interessante isso.
E eu tenho certeza que quem ficou até aqui, tenho certeza que vai colocar nos comentários, a gente vai se conectar com outras pessoas.
Com essa questão de sensação, de afetividade, vínculo com memória e identidade em determinados edifícios ou determinados logradouros, conjuntos urbanos.
Olha, de verdade, eu tô encantado com esse episódio.
Espero que o público consiga entender, porque a gente não teve uma linha muito... Um storytelling, né?
Uma historinha e tal.
Espero que as pessoas consigam acompanhar o nosso caso.
Mas assim, eu confesso, eu sempre, falando por mim, tá? Se eu tivesse do outro lado, Eu sou do audiovisual, né? Então, assim, pelo áudio eu consigo viver essa história. E quem tá pelas plataformas de vídeo é melhor ainda porque consegue ver ali a nossa expressão, aquela questão do sentimento, aquela questão da, enfim, da emoção como um todo. Então, nesse sentido, eu estou extremamente feliz. Caso as pessoas não se identifiquem, que eu acho muito difícil, eu já me identifiquei e está registrado. Então, estou super feliz por isso. Agora suas considerações finais pra gente... Encerrar, você já fez o quadro Convidado com Vida.
Sozinha.
E agora eu queria que você falasse, só pra gente encerrar, junto aí com as suas considerações finais, eu queria o que você tá achando do Constricast, você que é uma arquiteta, né, e aí voltada pra essa área, que é tão importante, que é preservação de monumentos históricos.
Seu canal é fundamental. para que a gente consiga unir as diversas vertentes que não deveriam ser vertentes ou facetas. A gente está falando de construção e arquitetura, engenharia e todas as disciplinas compõem, fazem parte de um universo extremamente complexo chamado construção civil. A gente precisa dessa multiplicidade de profissionais conversando a mesma língua ou trocando informações. A gente tem um histórico de que cada um tem seu clubinho, seu instituto, seu conselho, mas é muito importante que haja essa integração e eu vejo o Construcast como um canal de integração.
Isso é verdade. É muito legal ouvir isso de você.
E mais do que unir os profissionais formados com suas especialidades, graduação, pós-graduação, mas também trazer. todos os profissionais envolvidos, todos que estejam envolvidos com construção, sejam eles graduados, pós-graduados, sejam eles envolvidos com a mão na massa, com todo o saber fazer. Eu falei esse termo diversas vezes. Sem o saber fazer, a gente não chega em lugar nenhum na arquitetura, na construção civil. E você também traz a palavra do estudante, Ninguém dá muita bola para o estudante. Então, eu acho que ouvir as expectativas, ouvir até as dores, as grandes questões, é muito enriquecedor. E eu acho isso muito bonito. É uma epifania. Estava faltando isso no mercado.
Eu acho que você falou do estudante, o estudante de hoje é o arquiteto de amanhã, é o engenheiro de amanhã. Então, a gente tem que, de alguma forma, eu sempre falo aqui, construir pontes. A gente tem que unir, quando a gente fala de cadeia. um complementa o outro. Você não consegue construir essa cadeia só com uma engenharia, só com uma arquitetura. Então a gente precisa das outras frentes. Então o Constricash vem de fato para unir. Fernanda, muito obrigado pela sua participação. Fiquei muito contente. E você que ficou até aqui, gente. De verdade, sou muito grato a você. E reforço, quero ver seu comentário, porque não é possível que só eu fui tocado por esse episódio. Um abraço e até o nosso próximo encontro aqui no Constra e Cash.
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