Projeto de inovação Natura | Podcast de Arquitetura | Construção

Podcast episode of Constra e Cash (YouTube) in Portuguese: host Paulo interviews architect Roberto Loeb about his trajectory, humanistic design philosophy and social projects (Instituto Anchieta Grajaú). They discuss two signature case studies — the Poupa Tempo public-service centers (service-first layout, table-based atendimento) and the Natura factory (integration with landscape, a ~90 m access bridge, visitor circulation with lab viewing) — and broader themes: interdisciplinary collaboration with engineers, sustainable constructive solutions, and architecture’s potential in socio‑spatial transformation.
Chapters
Constra e creche, arquitetura, engenharia, construção. Sejam bem-vindos, está no ar mais um episódio do Constra e Cash. E hoje eu trago um episódio muito especial. Primeiro, que é um arquiteto muito renomado, um arquiteto que eu já tive o privilégio de conhecer alguns projetos dele, como é o caso da fábrica da Natura aqui em São Paulo. E ele também é responsável pelo conceito dos projetos do Poupa Tempo, ou seja, o primeiro Poupa Tempo na cidade de São Paulo foi projetado por ele. Roberto, seja bem-vindo ao nosso podcast. É uma honra receber você aqui.
Muito obrigado, Paulo. Sempre é muito bom conversar, falar sobre arquitetura, porque arquitetura é muito mais do que esse nome carrega. Ele é uma relação humanitária e humana com as pessoas, fundamentalmente, e a gente tem a oportunidade de trabalhar em várias situações, o que me dá muito prazer e muito trabalho.
Roberto, para iniciar nosso bate-papo, eu queria que você falasse um pouco da sua trajetória. Primeiro, falasse um pouco da sua formação, de forma resumida. Sei que você tem muito conteúdo para compartilhar com as pessoas. E, sobretudo, falar um pouco quais foram os maiores desafios para você chegar no mercado de arquitetura. Ou seja, na arquitetura, como a arquitetura entra na sua vida.
Puxa, Paula, essa pergunta levaria horas para te responder.
Mas temos o desafio da comunicação rápida, que é o que chamamos de pitch hoje.
Para começar, acho que os interesses nascem como uma criança. Temos uma ideia muito clara de que uma criança não é um ser que nasce pronto, mas ele tem uma tendência, uma estrutura de pessoa, de sentimento, que é muito característico, que você precisa pescar. Então eu sou muito contrário a uma educação compartimentada, muito definida em termos rígidos, e muito a favor de uma educação que lê as tendências, o espírito, aquilo que a criança necessita ou precisa. Cada ser é um ser totalmente independente. Isso vem muito da filosofia médico educador chamado Janusz Korczak. O Janusz Korczak era um médico na Polônia, de origem judaica, que criou um sistema educacional numa escola que ele montou, que ele projetou, para atender crianças órfãs ou não, judias ou não. A ideia do Kocha, que deu muito certo, é que uma criança não é um futuro adulto, ele já é uma pessoa. Ele trabalhava com a responsabilidade de cada criança na sua vida, a participação na educação, as suas responsabilidades, as suas cobranças, as crianças muito ouvidas. E esse pensamento foi essencial para eu criar, junto com meus amigos, o Instituto Anchieta Grajaú. Há mais de 30 anos, onde a gente atende praticamente 600 jovens, 150 numa creche e mais de 2 mil famílias. E o Instituto é muito focado nessa filosofia. E lá nós temos portões abertos, praticamente não existem conflitos, as crianças têm uma participação autônoma muito grande. Só para te dar um exemplo do que é isso, a gente recebeu uma doação da instituição Janusz Korczak na Holanda, que as crianças foram de porta em porta pedir dinheiro para nós. Vieram 5, 6 mil euros. A gente cheio de despesas, e claro, a gente recebeu isso com muita alegria, Mas eu resolvi, junto com meus colegas da direção, que esse dinheiro deveria ser empregado pelas crianças. O que elas queriam fazer com esse dinheiro?
Isso aqui é bacana.
Então eles ficaram semanas discutindo, comprar brinquedos, fazer uma piscina. Então nós deixamos eles livremente discutirem entre eles até definir o que eles queriam. E foi muito bonito porque, no fim, eles disseram assim, a gente quer passar um dia inteiro num lugar que tenha piscina, que tenha uma alimentação muito gostosa, que tenha campo de futebol. Eles escolheram isso. Então, com isso, a gente estava ensinando que eles têm poder, que eles podem escolher. E foi uma felicidade, né?
Você cria ali um ambiente onde você, de fato, está dando voz. Ou seja, não tem ninguém aqui decidindo por vocês. Apesar de serem crianças, vocês já são adultos. Eu já começo a construir um senso de responsabilidade a partir de agora. E é muito bacana quando você inculte isso em um projeto.
Eu diria assim, o que isso tem a ver com arquitetura? Para mim tem tudo a ver, porque o pensamento de um projeto nasce de um conceito humanístico. Quando eu fiz o Poupa Tempo, por.
Exemplo, Eu queria falar um pouco sobre o Poupa Tempo. Como que nasceu esse conceito que, de fato, resolve um problema que quem viveu isso antes consegue saber de fato como era essa experiência de você chegar, muitas vezes, e voltar sem resolver aquilo que você se propôs a resolver.
Então, o Popotempo vem também com um desafio de criar um serviço público para atender pessoas de todas as origens, gêneros, para resolver problemas de burocracia, de necessidades, documentação etc. Em geral, isso era feito de uma forma muito rígida, de você ter um departamento, às vezes vários endereços na cidade, onde você tinha que correr de um para o outro, perdendo não só horas, às vezes dias. Quando veio esse desafio, logo pensei assim, não sei que arquitetura vai ser essa. Quero pensar primeiro no conceito. Qual é o conceito? Para mim, o conceito era básico. Você, sendo cidadão e morando nessa cidade com tanta dificuldade de acesso, você teria que ter um lugar em que você facilmente chegasse, pudesse obter sua documentação no tempo mais rápido possível e confortável, e saísse de lá para o seu trabalho. Isso era o básico. Mas eu me aproveitei de uma experiência pessoal de adolescente, tendo que procurar meus documentos nos departamentos da prefeitura de São Paulo, Eu lembro claramente de eu ficar num balcão, tipo sete da manhã, numa repartição, balcão alto, né? E do outro lado do balcão, várias pessoas conversando, tomando café, dando risada, e eu esperando, esperando, me sentindo assim menor, né? Eu era menor. Mas finalmente alguém veio me atender, Eu disse o que eu precisava. Ele fez uma lista de documentos que eu teria que apresentar. Eu realmente não sabia disso. Então, eu tive que voltar, preparar os documentos e retomar todo o processo de ficar esperando a hora que eu seria atendido. Para mim, aquilo foi a lição. A lição que me ajudou a projetar o primeiro Popotempo, na cidade de São Paulo, na Praça da Sé.
Você projetou algo baseado numa experiência que você viveu no passado.
É, e que eu tentei também entender o que os outros deveriam passar, porque eu não seria e não sou o caso único.
Sim, sim.
Então eu me identifiquei com um problema na cidade de São Paulo. E eu tinha uma referência que na Bahia o Lelé já tinha feito, o Figueiras Lima, já tinha feito um serviço semelhante, que eu não conhecia. Aí me apresentaram um edifício na SEC, que era a Secretaria das Finanças. Quem apresentou até foi o Angarita, no governo do Mário Covas. Eu visitei o prédio, eles queriam fazer no térreo um departamento. Eu disse, isso vai misturar, porque as pessoas que vão à secretaria para resolver problemas vão ter que passar por uma triagem. Isso vai complicar a vida de todo mundo. Aí comecei a desenvolver o projeto, criando um acesso independente pela Praça do Carmo, foi feita uma ponte. E aí desenvolvemos o projeto. Cada departamento tinha sua localização. A gente fez um trabalho muito criterioso com os banheiros, com o conforto das pessoas, pensando que aquilo era a casa do governador. E a casa do governador tem que ser um lugar especial, com banheiros bem construídos, limpos, bem vigiados. E o ponto fundamental era a mesa de atendimento e não o balcão.
A mesa de atendimento. Você muda totalmente.
É como a gente está aqui, o Paulo e o Roberto, conversando muito próximos, numa situação muito equilibrada. onde se cria um respeito, um atendimento pessoal.
Você quebra aquela hierarquia. De um lado, tem aquela pessoa que precisa de você. Nesta forma como você fala, na verdade, ali é uma conversa, é uma troca. Preciso disso, disso, disso. Você consegue resolver para mim e a pessoa vai direcionando o que você tem que fazer. Então, é muito importante.
E nós dois estamos sentados. A gente pode até rolar uma conversa mais pessoal sobre futebol, sobre a vida, sobre qualquer coisa.
Muito bacana. Roberto, esse episódio é um oferecimento produtora de vídeo Infinity Plus, que é especializada em vídeos para arquitetura, engenharia, construção e indústria. Roberto, eu queria agora te fazer uma pergunta voltada para algum projeto que me marcou, que é o caso da Natura. Aqui, no ConstriQuest, a gente defende muito a união de sistemas construtivos. A gente não defende só o concreto, o aço, o vidro. Então, durante a minha visita, eu vi que você tem várias soluções construtivas e o uso desse projeto é muito bacana porque eu vi que lá é um projeto que está muito integrado com a natureza. E tem uma coisa que me chamou muito a atenção por parte da Natura, que é essa questão assim, a mulher ela tem um filho, ela leva esse filho pra creche, ela tá amamentando ainda, e durante o período de trabalho ela sai pra amamentar, então assim, Esses foram alguns pontos que me marcou bastante nesse projeto. Eu queria entender como nasceu esse projeto, quais foram os maiores desafios e como tudo isso é pensado ali naquelas trocas ali, ou seja, nas suas trocas com o cliente. Esse é um desejo do cliente? Você sugere alguma coisa com a sua experiência? Enfim, me conta um pouco aí como nasceu esse projeto da Natura.
É, o processo nasce muito através da identificação e da abertura do cliente, porque ele está procurando uma conversa e uma solução que ele ainda não tem. Ele sabe que quer construir uma fábrica, que vai agregar um sistema de produção, porque ele tem que vender seus produtos. E, para mim, fazer a Natura Ela tem um pouco do DNA do projeto que fiz para o Povo a Tempo, que é ouvir as pessoas e tentar me identificar tanto quanto com a questão da produção, da necessidade de vender, de produzir a tempo, quanto a necessidade de acolher pessoas que se estiverem bem atendidas, acolhidas, não só do ponto de vista material, mas do ponto de vista afetivo, se eu posso colocar essa palavra, numa situação industrial, criaria então um campus de produção onde as pessoas podem viver de uma forma muito íntegra. Porque, como você sabe, Quem trabalha na indústria ou em vários lugares vive mais nesses locais do que em casa.
Do que em casa, sim.
O tempo útil que você aplica no seu trabalho. Então, a gente começou a pensar em várias situações antes de fazer arquitetura, de desenhar arquitetura. Porque o desenho da arquitetura começa com o conceito. E a minha experiência de jovem, iniciante, era angustiante, porque eu lembro de pegar uma folha de papel e pensar, tenho que projetar uma loja. Eu já começava a querer desenhar a loja pronta, sem saber quais seriam as condicionantes.
Sem pensar no trajeto, como as pessoas iam percorrer aquilo.
O que as pessoas têm interesse, a questão da luz, a questão do espaço, do acesso, tudo isso tem de ser pensado. E, na Natura, comecei a trabalhar muito com o pessoal da direção, que participaram no início totalmente, desenhando vários layers de projetos. Ocorreu uma coincidência interessante que tive a oportunidade de visitar, na Espanha, aquele projeto que, na verdade, é um local incrível de espaços múltiplos que você percorre, descobrindo espaços e espaços, e não é aquela visão renascentista do ponto de vista, como Brasília, por exemplo, que se você está num ponto de vista, você vê Brasília inteira. Eu queria não procurar a surpresa em cada momento do projeto.
Inclusive, a surpresa é essa, que quem visita tem essa sensação. Por isso que eu falei, para mim, eu fiquei muito impactado como visitante.
Eu vou citar a Alhambra, que é a Alhambra da Espanha, que eu visitei, e que para mim foi um acontecimento, porque eu chegava num lugar, poxa, que bonito, aí você passava por uma porta estreita, era outro momento, e você ia desdobrando, aumentos, aumentos, aumentos, muito estimulante, cheio de surpresa, né?
Sim, até essa sem... não quero fazer você perder o raciocínio, mas essa experiência, como eu vivi aquilo, e eu falo com muita propriedade, porque essa experiência é desde a recepção, assim, é todo o trajeto que você vai percorrendo ali naquela... essa experiência do verde que eu te falei, essas áreas, como as coisas vão acontecendo e, sobretudo, quando você entra no prédio, a própria experiência no elevador. como você vê as coisas ali acontecendo, aquela área viva, tudo acontecendo ali, você vivendo tudo aquilo. Eu queria até só para te lembrar disso também, para você não esquecer.
Acho interessante você falar isso. Vou fazer uma reversão aqui. Vou entrevistar você.
Pode perguntar, sim.
Eu queria saber a tua sensação. O que você, nesse percurso, desde a recepção, atravessar a ponte, o Pátio da Japa de Cabelo, qual foi a tua sensação?
Essa visita aconteceu já há bastante tempo, tem mais ou menos aí uns oito a nove anos, não sei. E sempre que falam, a gente fala com muitos arquitetos, eu visito muitos projetos e tal. E é muito bacana quando um projeto te marca pela experiência vivida. Então, o que eu vivi ali? Primeira coisa, foi a experiência da chegada. Desde a entrada, a forma como as coisas vão acontecendo, essa descoberta que você fala, é muito bacana porque eu vivi. E também essa parte, essa integração, onde ali me parece que você não tem uma divisão clara de hierarquia, por exemplo, quem é diretor, quem é operário. Então, isso é um ponto que me marcou muito. Eu estou ali numa praça conversando, muitas vezes eu estou conversando com uma mãe que tem ali um filho na creche, mas eu não sei. Então, as coisas acontecem de uma forma tão natural. Apesar do tamanho daquela planta, eu me senti assim, imagina que eu estou numa casa, grande, com uma família grande, sabe aquela família que se comunica bem, uma família harmoniosa? Então, assim, a sensação que eu tive foi uma experiência única. Eu não consigo comparar aquela experiência com nenhum outro projeto que eu visitei, mesmo visitando vários outros projetos, não só no Brasil como fora também, mas é a forma como eu me senti abraçado. E durante nossa visita lá, eu estava com outras pessoas e a sensação delas, outras pessoas com o projeto, foi muito parecida com a minha. E eu queria agora devolver uma pergunta para você. Como que você busca essa referência para construir? Porque aquilo ali para mim é uma cidade, onde você está o tempo todo descobrindo algo novo. Eu confesso que assim, eu hoje eu tenho o desejo de voltar lá para descobrir mais coisas que eu deixei de viver durante aquela minha visita. Como nasce assim? Onde você vai buscar referência? Tudo bem que você já falou de uma referência e tal, mas Eu acho muito desafiador para você, como arquiteto, chegar no nível de entrega daquele, que é o caso do Projeto Natura. Como nasce isso?
Primeiro nasce com uma harmonia entre quem está trabalhando, projetando, pensando e os clientes, que sempre foram muito transparentes, muito sensíveis e esperando abertamente, que trouxesse várias possibilidades. Esse projeto não nasceu de um desenho único. Ele foi sendo construído. Se eu pegasse assim... Eu tenho até um caderno com todas as etapas. Se você olhar a primeira etapa, ele é mais rígido, mais convencional, e ele vai evoluindo, evoluindo, porque você precisa de tempo para isso. E, para mim, a questão que ficou clara era que eu queria uma surpresa, uma integração da fábrica na paisagem, um respeito muito grande pela topografia, pela paisagem, e um respeito pelo ofício. Como arquiteto, tenho um ofício, como engenheiro tenho o seu, como médico tenho o seu. Então, o ofício que aprendi na escola e no meu convívio com arquitetos como Rino Levy, Fábio Penteado, Telesforo Cristófano, com quem estagiei, me mostraram que a produção da arquitetura é uma produção de pensamento e de prancheta, ou de computador. Hoje são outros elementos. Mas eu trabalhei no escritório do Rino Levy, vi ele sentado desde as primeiras horas do dia, desenhando na prancheta, em cima de vegetal, papel, apagando, redesenhando, redesenhando, num processo de construção. Então, o ofício é muito importante, a sensibilidade que você tem. Mas, por outro lado, o ofício só não basta. Ele tem que ser carregado de ideias, sugestões. Eu queria que as pessoas tivessem surpresa. Bom, a natura vende beleza, entre aspas. Vende o bem-estar, que é até o lema deles. Então, pensei, bom, bem-estar o que é? Eu fazia um percurso imaginário. Eu chegar, eu quero chegar, estacionar, se eu for de carro, ser bem recebido. Eu quero facilmente chegar num espaço que me acolha, que me dê uma surpresa. e que não seja sem segredos, que você chegue e já descobriu o que é a natureza, acabou. A topografia me permitiu criar uma ponte de quase 90 metros para chegar em uma área de circulação que permite que você circule entre os andares e tenha um lugar de café. Você tem os laboratórios, os escritórios. e tudo isso conversado com eles.
E aquela sensação do cheiro dos ambientes quando você chega, porque você estava falando, estou viajando aqui, estou sentindo aquilo que vivi há alguns anos atrás. Aquela parte também é pensada por você? Como funciona?
Também. A gente entrou profundamente em tudo. Eu não sou um especialista de laboratórios, mas eu tinha agentes trabalhando comigo que me davam espaço para definir situações, como fazer laboratórios móveis, porque eles têm que ser muito dinâmicos, como é que você protege as áreas de pesquisa da circulação de pessoas. Isso tudo eu estudei com muito cuidado, porque eu visitei a fábrica anterior, onde você podia ir para a linha de produção só paramentado. Era muito complicado, você tinha que pôr toda uma roupa. E quando eu desenvolvi a fábrica, a fábrica tem uma conexão com os escritórios através de um corredor de visitação em que você vai livremente e vê a fabricação através de grandes vitrines e vitrines ligadas com o exterior. Eu não queria uma fábrica que fosse um caixote e as pessoas ficassem o dia inteiro sem ver a chuva, sem ver sol, sem ver luz, sem ver a natureza. Lá tem uma integração forte.
É bacana. O projeto da natura, para mim, é o que eu conheço. Eu conheço outros projetos, mas não viver igual eu vivi aquele de fato da natura. Inclusive, eu até gostaria um dia, se possível, de fazer um episódio como esse, mas, de fato, falando, visitando, vivendo ali, a gente microfonado, conversando, como que foi pensado isso aqui, como que foi pensado essa ponte. Então, se é possível, já está feito aqui, o meu convite a você, se você conseguir viabilizar uma visita dessa, um percurso, seria muito bacana, porque o que eu estou fazendo aqui agora, conversando com você, eu estou vivendo, é como se eu voltasse no tempo e eu tô sentindo, eu entrando no ambiente, eu sentindo o cheiro ali dos produtos, eu... Sabe? Então, como que funciona uma arquitetura dessas? Como que eu traduzo ali não só a cultura da empresa, Mas, sobretudo, os produtos que a empresa vende. Então, é muito legal quando você consegue viver, não só viver, mas sentir também tudo isso. Então, essa foi a experiência. Agora, você tem algum outro projeto que te chamou a atenção e você gostaria de falar um pouquinho sobre ele?
Não, eu tenho. Só para terminar um pouco a Natura. A Natura contratou um especialista em logística, um alemão, uma pessoa extremamente experiente na Europa. Quando nos encontramos e tivemos uma conversa, comecei a falar um pouco do meu conceito. Ele, de forma arrogante, disse, você é o arquiteto, você faz a forma. Da logística, sou eu que cuido. Ele criou um clima. Eu ouvia aquilo e trabalhei intensamente na logística.
Mas ele nem te ouvia.
Ele não me ouvia, mas fui desenvolvendo projetos, desenvolvendo projetos, sistemas de transferência de produtos de matéria-prima para a linha de produção, da linha de produção para o embarque, graças ao layout, e eu tive a satisfação, e até admirei esse senhor alemão, que no fim chegou para mim, olha, parabéns. Eu não sabia que a arquitetura fazia isso. Então, O arquiteto não vai só fazer a forma, é fundamental o trabalho dele para receber e agregar pessoas no conforto, na vida e no desenvolvimento delas. Mas ele tem que ter um respeito muito grande por prazo, por funcionamento, se aquele produto vai chegar na hora, na linha de produção.
Eu queria falar, já que a gente ainda... Eu vou até voltar, fazer mais uma pergunta ou duas sobre o Projeto Natura. Como eu falei lá no início, me chamou muito a atenção a união desses temas, desse projeto. Eu queria entender um pouco de você como tudo isso foi pensado. Porque eu entendo também que a boa arquitetura já é pensada de forma sustentável. E ali você tem um projeto muito integrado com a natureza. Eu vi que tem sistemas também inteligentes muito bem pensados, ou seja, estou falando de uma boa arquitetura, de fato. Então, eu queria entender como foi pensado ali as soluções construtivas, essa mistura do concreto, do vidro, do aço. Eu vi que vocês têm um vidro ali eficiente, pensado para eficiência energética, para consumir menos ar-condicionado. Enfim, então tem uma série de de elementos que eu queria que você falasse de forma resumida, porque eu estou sentindo que a gente vai fazer uma visita.
É bom que você tenha feito essa pergunta, porque eu tenho uma enorme, eu poderia dizer, gratidão da possibilidade que eu tenho de trabalhar com engenheiros muito experientes e muito abertos para discussão e para produção. Tive a oportunidade de trabalhar com vários engenheiros. Ultimamente, tenho trabalhado muito com o Iopanã, Rebelo, com a Gisele Diniz, mas já trabalhei com vários outros. Inclusive, na Natura, a engenheira que me acompanhou foi a Heloisa Maringoni.
Nossa, a Heloisa é uma pessoa sensacional. Ela já participou aqui recentemente de um episódio.
Muito articulada, uma pessoa... Bom, todos são... Eles não são, no sentido convencional, calculistas, eles são humanistas, pensadores, que têm o instrumento do conhecimento do ofício, do movimento das forças, das estruturas, para presentear, conceder e participar de um processo de criação. Então, tudo aquilo que você está me perguntando, concreto, vidro, estruturas específicas, tudo isso foi criado numa espécie de conjunto, como se fosse uma orquestra. Então, essa orquestra tem que funcionar e as pessoas têm que se comunicar e têm que ter uma amizade no sentido afetivo e uma admiração mútua. Eu tenho um enorme prazer de trabalhar com calculistas. Desculpe chamar de vocês de calculistas.
Desculpa o termo, né?
Humanistas que conhecem as forças da natureza. convergem num trabalho integrado com as pessoas de iluminação, de elétrica, de fundações, de paisagismo. Então, é uma grande orquestra que tem que ser conduzida de forma participativa, nunca impositiva. Nós estamos lá trabalhando juntos.
Inclusive, esse é também um grande pilar aqui do Constricast, que é esse que a gente precisa construir pontes, e não muros. A partir do momento que eu paro para ouvir a ideia do outro, a partir do momento que eu, enquanto engenheiro, ouço um arquiteto, enfim, arquitetos e engenheiros ouvem também ali o pessoal da obra, a gente consegue de fato traduzir todo esse pensamento em construções muito melhores. É bem bacana esse ponto que você trouxe sobre essa questão do unir. O que é melhor? O que vai trazer um projeto muito melhor? E essa troca é muito importante. Então, eu queria aproveitar e deixar um abraço aqui, um beijo carinhoso para a Eluísa Maringoni, que eu falo que, você citou aqui, três pessoas que eu falo, o bate-papo que eu tive com eles parecia uma coisa muito mais...
Informal.
É, informal, assim, a engenharia é pura filosofia, pura, que a gente estava conversando aqui. Então, apesar de falar de engenharia, era um... Foi um bate-papo leve, assim, que você fica horas ali ouvindo. Então, queria chamar aqui a atenção para isso. A gente pode falar agora de outro projeto?
Não podemos. Só quero citar na minha escola o Zúcolo, com quem eu tive aulas no Mackenzie, que também era um engenheiro absolutamente aberto para qualquer tipo de desafio. Na época, eu fiz até uma cobertura para o Cantara Machado, toda de pneumática, com vãos sustentados por cabos, muito inexperiente, iniciando a minha profissão, o apoio que ele me deu foi fundamental para eu poder construir aquele trabalho. Na época, eu trabalhava com dois arquitetos com os quais partilhamos o início da carreira, que eram o Flávio Mendring Marans e o Marclense Aguilanda. com quem a gente trabalhou muito tempo e produziu o projeto do Unibanco.
Do Unibanco. Roberto, antes de mudar o assunto para outro projeto, eu queria te fazer uma pergunta muito pessoal, por conta da sua experiência, da sua vivência. Então, quem tem dúvida sobre o Roberto Loeb, pode colocar o nome dele no Google para ver a biografia. Eu nem vou citar aqui porque a gente ficaria horas aqui falando da quantidade de projetos que você participou e de tantas coisas que você participou e participa. ainda. Por essa razão, essa pergunta é muito boa. Você é a pessoa certa para me responder. O que que muda da arquitetura, de quando você começou, para a arquitetura atual? Quais são os desafios? Hoje você tem aí a tecnologia vindo muito forte, mas eu entendo que a gente fala muito de pessoas, né? Como centro de tudo. Então, como que era? Quais eram os desafios antes e que você ainda enfrenta hoje? Então, não sei se Ficou claro.
Entendo a sua pergunta, porque ela traz primeiro um viés tecnológico de desenvolvimento dos sistemas para você projetar melhor, mais rapidamente, para você compatibilizar através do Havit projetos, hoje com inteligência artificial. Então, hoje, vamos dizer, a infraestrutura de elementos tecnológicos para você trabalhar aumentou muito. Eu sou de outra geração, trabalho com todos esses elementos, através de terceirização ou de pessoas do escritório que podem me ajudar, mas o meu trabalho básico é o trabalho no papel e no grafite, porque é a mão. Sinto que o trabalho que você enfrenta em cima de um papel branco é face a face com angústia. O que eu vou fazer com isso?
Você traduzindo ali o seu pensamento, primeiro para um papel, uma forma de pensar e depois você muda. Isso vai para a tecnologia.
Não, e tem uma questão muito interessante que eu lembro de um texto que eu li sobre o Henry Miller, o escritor, que dizia que, ao iniciar a escrever, ele gastava folhas e folhas de papel iniciando um texto que ele jogava fora, amassava e jogava fora. Até, finalmente, as ideias começarem a esclarecer. Numa aula que eu dei no Marquins, eu disse que isso era muito semelhante a você deixar uma torneira fechada há muito tempo. E, se você não abrir e deixar a água suja, ferruginosa a sair, não vem água limpa. Então, para mim, isso ficou, até no início da carreira, ficou muito claro, porque eu vivia na sujeira, naquela coisa que não vinha, não vinha, não vinha, e às vezes você desiste, você diz, sei lá, vou entregar os pontos, eu não vou conseguir fazer nada. Se você desistir, você vai deixar de superar o limite da angústia, da dúvida, que é começar a iniciar realmente o projeto. E mesmo quando você acha uma solução que você achou genial, finalmente consegui, é bom você se recuar, deixar aquilo amadurecer. Porque muitas vezes o que é genial não é a solução final. Ela é só um caminho intermediário para você continuar fazendo o projeto.
Isso serve para a vida. Que forte você trouxe aqui. Que pensamento. Muito forte. E nesse sentido, eu queria que você falasse agora, citasse um outro projeto que te chama muito a atenção, para a gente falar um pouquinho sobre ele.
Valeu. Alguns projetos, se a gente for na linha de falar de projetos de centros de pesquisa industriais, Posso falar da Mali, que é uma indústria ligada à indústria automotiva. Tivemos o privilégio de projetar o Centro de Desenvolvimento Tecnológico da Mali para a indústria automotiva. Eles atendem toda a indústria automotiva desenvolvendo peças. Nosso projeto é um projeto que fez uma leitura da paisagem, através de um voo de helicóptero que fizemos. Na época, eu estava trabalhando com o Luiz Capote, com o Damiano, com a Chantal, e fizemos esse projeto para Mário com respeito total à natureza. O projeto está assentado na topografia. o que é o contrário do que eu tenho visto, que é a grande terraplanagem para você construir um bloco quadradão em cima. É claro que, em certas situações, isso é necessário. Mas, nesse caso, a gente trabalhou muito essa questão. E também, de novo, a surpresa através dos corredores circulares, através das escadas de ligação, até chegar nos ambientes de teste de motores, que são ambientes muito complexos, que não podem ter vibração, Mas a minha visão, de novo, era uma visão do prazer e da circulação, de você ter uma solução que te permitisse ver a natureza, integrar na natureza. E até quando apresentei o projeto para a diretoria, uma das pessoas que gostou muito do projeto, o engenheiro, para me ajudar a convencê-los, disse assim, Isso é uma forma diferente de colocar os mesmos tijolos.
Uma forma diferente de colocar os mesmos tijolos.
Então a Mali foi um exemplo interessante.
O que fica?
Fica na Raposo também. imigrantes.
Roberto, eu queria te perguntar também, numa situação de um projeto como esse, eu entendo que assim, quando você tem o projeto pensado ali para o uso, para essa questão da surpresa, ou seja, primeiro que quem está ali no dia a dia acaba saindo um pouco daquela mesmice, daquele ambiente que cansa, porque, enfim, é sempre a mesma coisa, é sempre o mesmo olhar e tal. Então, numa situação como essa, você acaba, eu entendo que você acaba trazendo aquelas pessoas para um, sei lá, para um abraço mais coletivo daquele projeto. E nessas situações que você te marca, que me marca, enfim, como arquitetura, As pessoas que fazem parte, que usam o espaço, em algum momento são entrevistadas? Por exemplo, sobre a sensação dela naquele ambiente, que vai passar por uma transformação ou, muitas vezes, a mudança de uma planta? Como funciona esse processo?
A gente faz uma imersão muito grande no convívio com as pessoas que trabalham nesses espaços. Você preparar o escopo do projeto, o programa do projeto, é uma coisa muito difícil, porque no Brasil, não sei se já existe, nos Estados Unidos existe, quando participei do projeto do Citibank na Paulista, nos interiores, um arquiteto especializado em definir programa. Ele vinha para você trabalhando intensamente com os grupos e trazendo, olha, precisa disso, disso, disso, tem a relação das áreas, quem trabalha, quem não trabalha. Em vários casos, fizemos isso. Criamos um sistema de desenvolver, espaço por espaço, um documento que é quase que um arquivo para eu saber, por exemplo, como essa sala funciona. Precisa ter acústica, temperatura, iluminação. Precisa ter conforto, número de plugs para você conectar o seu sistema, internet. Então eu faria para essa sala uma ficha, que eles chamam de Card Room, ficha do espaço, fazendo uma descrição completa de tudo que é necessário. Aí eu chego para o usuário, mostro essa ficha e digo, é isso que você quer? Ele dá uma revisão e me pede mais alguma coisa e está pronto. Aí eu vou para o projeto. Quando eu faço o projeto, é raríssimo alguém chegar para mim e dizer, você esqueceu de pôr a tomada que eu queria em tal lugar. que isso já está. Então, é uma coisa do ofício. Eu reconheço, por exemplo, quando você pega um arquiteto, colega, que faz um trabalho excelente, me dá muito prazer. Muito prazer. Eu admiro isso. Recentemente, eu acompanhei o trabalho que o Fernando Brandão fez em Juqueí, naquela escola que foi completamente destruída pela catástrofe. E o Fernando, inteligentemente, pegou o único galpão que sobrou e, em vez de derrubar, ele construiu uma nova escola, toda feita em placas de madeira, dentro do galpão, em 105 dias.
O Dicas de Passagem foi uma ideia brilhante.
Muito, muito brilhante. Ele merece até uma entrevista.
Inclusive, a gente vai ter aqui o quadro Convidado Convida. Você já pode convidar para vir aqui falar desse projeto.
Pode marcar o Fernando Brandão, que trabalhou na China, é um cara extremamente criativo, exigente, conhece o ofício, de forma que a gente... compartilha. Tem outros arquitetos que admiro muitíssimo. Toda a geração jovem que tem feito projetos muito interessantes.
Qual é o grande sonho que você tem ainda, que você gostaria de realizar na arquitetura?
Eu gostaria de usar o meu ofício e a minha capacidade relativa dos tempos em que produzi, com o meu conhecimento hoje, de poder interferir numa mudança importante nas periferias das cidades brasileiras, que acho que merecem uma abordagem construtiva muito sensível, porque são pessoas que vêm de inúmeras partes do Brasil procurando uma oportunidade de trabalho, e que se alojam em sistemas muito precários e que, mesmo assim, são mão de obra, tem muita dificuldade de transporte por centros industriais, por centros comerciais e tem muita cultura. Essa cultura tem que ser aproveitada e são muito produtivos.
São pessoas que estão produzindo ali, de fato, no dia a dia, e quando voltam para suas casas, eles não têm o mínimo de conforto.
Não, eu posso dizer isso de experiência pessoal, porque há 30 anos eu fundei com amigos o Instituto Ancheta Grajaú na Capela do Socorro, onde a gente atende duas mil famílias, tem uma escola para 600 jovens – escola não, é um trabalho de complementação escolar com música, com literatura, internet e ainda uma creche para 150 crianças. Tenho convivido com essas pessoas que são extremamente criativas e às vezes sinto que é como se você tivesse um tesouro e não o estivesse usando. Acho que resgatar essa gente através de oportunidades seria um trabalho muito importante. Acho que muitos arquitetos fazem isso já.
Mas acho que a gente precisa intensificar mais, mostrar que é possível quando você começa a fazer um movimento e de repente você atrai a atenção do outro, outro começa e a gente começa de fato a criar um movimento de transformação. Inclusive até lá também seria um lugar que eu gostaria de, se possível, a gente fazer um bate-papo lá, uma visita guiada, falar isso aqui foi pensado para isso e tal. E de repente como que essa nossa visita lá a gente consegue de repente mover, criar um movimento para atrair outras pessoas para que pensem também.
Por exemplo, no Instituto Angeta Grau, que eu presidi durante 12 anos, fundei e presidi, agora temos outro presidente, sempre a minha abordagem foi, primeiro, a criança e o jovem. Se você for lá, não tem grandes arquiteturas, porque as grandes arquiteturas demandam muito recurso e muito tempo, e as urgências são muito grandes. Então, poder construir uma casinha de madeira simpática, poder restaurar um imóvel que estava perdido nessa situação e transformá-lo num novo espaço, Então, contrarando um pouco aquele desejo de você fazer uma grande arquitetura, a grande arquitetura também é a leitura do conceito e a possibilidade de você fazer aquilo que é possível.
Sim. Inclusive, quando eu falo de fazer uma visita, de repente a própria indústria pode estar vendo aquilo também com outros olhos. Opa, deixa eu... Também eu quero participar desse movimento.
E muitos querem. Esse projeto cresceu tanto que ele já tem até uma sede na Alemanha, sedes nos Estados Unidos e muito apoio local. E eu consegui, antes da pandemia, graças ao apoio de várias empresas e várias pessoas, construir até hoje o que é considerado o maior UBS, Unidade Básica de Saúde, do município de São Paulo, atendendo mil pessoas por dia.
Por dia?
Por dia. Eu lembro que quando eu iniciei o projeto, eles diziam, olha, não vai funcionar, você não tem recursos, isso não vai dar. Eu insisti e consegui doações diversas. O projeto é interessante, mas é formado por doações. A estrutura que tenho lá é doação. Encaixei a estrutura. É uma colagem, mas é uma colagem inteligente. O espaço é ventilado, você tem tudo o que é necessário para atender a população. de forma que, ao invés de dizer que perdi a oportunidade de fazer um tremendo projeto de arquitetura, não perdi, fiz aquilo que era possível.
Entendo também que a grandiosidade das coisas está na forma como você se propõe a fazer aquilo. É um projeto que gostaria de visitar, porque, como falei do movimento, Quando você começa a criar esse movimento, de uma forma, por exemplo, eu não visitei lá, eu não conheço lá, então eu gosto muito dessa experimentação de viver. Por exemplo, como que é, como são essas crianças, esses jovens que vivem, que usam esses espaços lá? Então, de repente, esse movimento começa ali, chega em alguma indústria, chega em alguém que está disposto também a participar. Eu acho muito bacana essa iniciativa que você teve aí há tantos anos atrás e como isso está sendo ainda usado hoje. Então, o que a gente consegue fazer para melhorar ainda mais? Para dar mais... Para trazer mais gente, para dar oportunidade para outras pessoas.
Quando você me perguntou, disse que esse é um dos pontos que me entusiasma e motiva. Claro, estou fazendo projetos interessantes de arquitetura, mas para mim isso é arquitetura também. Estou vendo a possibilidade de fazer muito mais. A gente conseguiu chamar o INSPER. O INSPER dá um apoio enorme para o Instituto, a Companhia Brasileira de Meteorologia e Mineração, o IBEMEC. Nós temos muito apoio. Inclusive o apoio do Global Care, que é uma entidade de suporte a projetos sociais no mundo inteiro, da Knorr-Brance, que está lá presente, trabalhando com a gente.
Bacana, Roberto. A gente, com certeza, vamos fazer mais outros conteúdos. Inclusive, eu vou até pedir para a Gabi para a gente marcar um bate-papo, porque eu queria, de fato, visitar alguns projetos. Mas, de fato, a gente ir lá na obra, ir no projeto... mostrar, falar como surgiu, como foi resolvido aquela solução e tal, porque daí você começa, como eu falei aqui da experimentação, a partir do momento que a gente está falando e mostrando aquilo, você de fato começa a mostrar para esse jovem arquiteto, para esse jovem engenheiro que, ó, isso aqui foi pensado de tal forma, eu estou mostrando e também te falando, ó, isso a gente tinha um desafio e foi solucionado com essa solução, né? Então, falamos muito aqui do Projeto Natura, até ficamos muito tempo eu tenho certeza que vamos voltar nele em outros projetos que você projetou, então, eu gostaria, de fato, de depois fazer um bate-papo com você para a gente escolher aí alguns projetos e, de repente, fazer visita, trazer aí o apoio da indústria junto para a gente conseguir mostrar isso, que eu também tenho o desafio de como que a gente leva bons conteúdos também para os novos arquitetos, para os novos engenheiros, enfim, para essa nova gama aí de pessoas que vem chegando no mercado.
Seria um maior prazer fazer essa visita com você e, se quiser, com estudantes, o grupo que tem interesse em participar, ou colegas arquitetos. Como eu tenho muito interesse em visitar obras de colegas arquitetos. Isso me dá muito prazer.
Bacana! Então, eu vou começar a criar esse movimento. Tenho algumas reuniões com algumas empresas para a gente tentar ver uma forma de ampliar esses conteúdos, indo, visitando soluções, conhecendo como isso foi pensado. Então, como a gente pode, de repente, em uma situação como essa, fazer de outra forma, fazer diferente com as novas tecnologias.
Você sabe que, só para finalizar, eu diria que você ser anônimo no fim de um projeto é muito interessante. Eu lembro de chegar no Unibanco, que era o centro administrativo deles, depois da obra pronta, onde eu entrava toda hora, entrava e saía, e ser barrado pelo pessoal de segurança que queria saber quem eu era, por que eu estava lá, pedindo documentos. Normal. E, na natura, eu lembro de estar circulando com alguma pessoa que eu conhecia e alguém me apresentar para outras pessoas e falar assim, esse é o Robert Loiro, que foi o projeto. Aí a pessoa vira assim, mas você existe? Então... Acho que faz parte um pouco desse trabalho de você se desligar daquilo que fez e continuar.
E continuar. É muito legal, porque, de repente, quando você se apega muito àquilo, ao querer aparecer, você acaba perdendo um pouco... É aquilo que a gente falou um pouco de vaidade. A gente se apega muito àquilo e deixa de criar outras coisas também.
É, mas fique claro que eu quero aparecer porque assim me contratam para outros serviços. Mas esse é o objetivo.
Mas a grande questão aqui é quantas pessoas aqui vão ficar curiosas para saber quem é esse projeto, onde fica esse projeto. Entende? E não à toa eu vou ver até com você se a gente consegue fazer umas imagens, eu posso ir pra alguém da minha equipe ir lá fazer algumas imagens, assim, até pra deixar esse episódio muito mais rico, porque eu acho que o que tivemos aqui, né, primeiro que, até a forma como a gente conversou, eu tenho certeza que quem tá ouvindo pelas plataformas de áudio vai querer ver algum vídeo, vai pesquisar, deixa eu ver esse projeto, então é uma forma da gente de fato criar aí essas conexões, porque a partir do momento que você fica curioso para conhecer alguém, tudo bem, eu conheço hoje o Roberto Loewe que fez o projeto da Natura, mas vocês falaram com tanta empolgação, com tanto, enfim, uma forma tão empolgante que eu não quero saber mais. Então, a gente está vivendo hoje o mundo, principalmente no pós-pandemia, como que eu desenvolvo projetos que, de fato, atraem as pessoas para quererem ir trabalhar nas empresas. E quando a gente está falando de projetos que foram citados aqui, você não está falando de pós-pandemia, você está falando de uma época onde A gente não pensava muito nisso, nunca foi pensado em pandemia, mas já existia espaços pensados para atrair os colaboradores a quererem ir trabalhar lá.
Isso é muito importante. Eu diria também que, quando você me perguntou o que mudou, pelo menos o que mudou para mim é uma visão diferente de você ter um prédio, um edifício, uma construção que é uma espécie de disco voador que chega em um ponto e se estabelece. Ele tem várias qualidades, ele resolve o problema da produção, resolve o problema das pessoas que lá trabalham. Mas como é que ele interfere na malha urbana? Então, em vez de ele ser voltado para si próprio, como é que ele se volta centripetamente para a comunidade, para o urbanismo? Acho que isso também é uma questão que os arquitetos têm que enfrentar para fazer o desenho da cidade, porque não é só o desenho do edifício. O edifício é importante como objeto e tem que ser bem feito. Mas o desenho da cidade, como é que você chega, como é que você integra as populações nesse trabalho, como é que você progride?
E é até esse ponto que eu chamei muito a atenção, que se você passa na frente, você não sabe que ali tem tudo aquilo. Você está ali e passa na própria marginal UTT, no próprio entorno do projeto, que você vê muito ali a natureza, natureza, natureza. Então, ou seja, eu sei que ali tem aquela... eu vivi toda aquela experiência, porque eu fui convidado a ir visitar e, opa, foi como assim? Como assim existe uma empresa aqui que proporciona uma arquitetura dessa forma, toda essa experiência. Então, como que a gente pode pegar esse modelo e replicar em outras construções?
Em outra escala?
Em outra escala. Então, é esse um ponto que eu falei muito aqui, que me marcou muito. Loeb, eu queria que você falasse agora, a gente tem aqui o quadro Convidado Convida, e essa pergunta você tem que responder. Eu queria que você indicasse uma ou mais pessoas que você gostaria de ver aqui, um bate-papo, que ao seu ver essa pessoa vai de alguma forma contribuir com a indústria da construção, arquitetura e engenharia.
Eu gostaria de indicar o Fernando Brandão. O Fernando é um arquiteto muito criativo, com uma vasta experiência. Por exemplo, ele trabalhou na China durante quase dez anos, quando ganhou o concurso para fazer o pavilhão do Brasil em uma das expos internacionais. Ficou lá um tempo dando aula, produzindo, fez a livraria Cultura, que é uma livraria tão interessante. Que pena que ela perdeu um pouco o seu fôlego, mas ele deixou um rastro supercriativo. E agora essa escola em Juqueí, que merece toda a atenção, porque não é apenas a arquitetura que é bonita, que é criativa, mas é o conceito de você criar uma grande cobertura e, sobre a cobertura, você construir. É muito diferente de você fazer um edifício a partir das fundações, levantar as paredes, fazer a cobertura. No caso dele, você podia produzir. Depois de construir do grande galpão, que é rápido, que lá já existia, você já podia trabalhar internamente com materiais mais leves, madeira, madeira engenheirada, cores, o que permitiu que ele fizesse, num prazo recorde, uma escola nova em 105 dias, 110 dias.
Não, bacana. Então já tá feito o convite aqui. Tenho certeza que, vindo de você, ele já aceitou.
Ah, tá bom, tá bom.
Tenho certeza. Tem alguma... Assim, eu sei que a gente tem vários assuntos, mas eu queria marcar um outro bate-papo com você, mais pra frente. Mas, nesse episódio, tem alguma coisa que você gostaria de responder que eu deixei de te perguntar?
Talvez da minha origem, né? Da minha origem e de onde que essa inspiração, essa vontade partiu, né?
Como? De onde partiu?
Não, eu acho que... Meus pais, né? Meu pai era formado em Belas Artes, na Hungria. O ofício dele principal era a joalheria, ele desenhava, criava e produzia. Desde a minha infância, eu vi o meu pai desenhando, produzindo, entregando peças das formas diferentes. Era um arquiteto da miniatura.
Você foi para escalas maiores.
Foi para escalas maiores, exatamente. Foi uma inspiração. Minha mãe, que era muito ligada com música, com a educação que recebi, muito cuidadosa. Meus avós. Então, essa origem familiar é muito importante. E meus filhos. Tenho dois filhos arquitetos. Os outros filhos, um é fotógrafo, o outro é ligado ao empreendedorismo. um deles faz animação. Embora tenha se formado em administração pública, ele é muito voltado à animação, filmes e ganhou vários prêmios.
Nossa, que legal!
Então, os filhos para mim também são uma referência. E as pessoas com quem convivi nesses anos todos e minha mulher, a Marília Razzucchi, que tem uma galeria de arte, e que é um ambiente que é o meu ambiente.
É muito legal quando você fala das suas referências do seu pai. da sua mãe, né? Enfim, o que vem depois. Então, o seu pai, ele desenhava, né? Ali, joias e tal. E a música também, eu entendo que ela é muito importante nesse processo criativo, porque como que você... Imagina, você junta aí essa experiência do seu pai, a experiência da sua mãe, como que você transforma tudo isso numa arquitetura mais de sentimento, de fato, que você precisa viver aquilo, né? Então, a música também, eu entendo que tem um papel fundamental.
Não, está tudo envolto em afeto. Então, o afeto é fundamental para você entender as pessoas. E por isso que a gente começou falando, como é que você projetou O Povo a Tempo? Foi através do afeto. Ou da agressão que eu recebi, sendo mal atendido, que eu transformei essa matéria-prima em afeto.
Não, é interessante, assim, acho que o que eu saio hoje, assim, que eu trago de aprendizado pra mim desse baixo palco que tivemos, assim, é como que... como é importante você viver uma experiência que ela não seja boa, mas, assim, o que eu faço com aquilo? Como que eu uso aquilo pra transformar... em algo bom. Né? Então, assim, isso foi uma grande lição. Eu tenho pra mim agora uma última pergunta pra gente encerrar esse episódio que.
Eu tô muito... Com a pena que vai encerrar. Tô gostando.
Tô muito feliz, assim. Eu queria, assim, ouvir de você. Como que você tá enxergando com o strecast, assim? O que que você, né? Com a sua experiência. Como você entende que a gente vai, de fato, contribuir muito aí com a transformação desse setor? Que hoje, assim, infelizmente, não tem canais falando de união na construção, de união no setor. Ou seja, a gente traz aqui pedreiro, pintor, soldador, mestre de obras, arquitetos, pedreiros, CEOs e grandes construtoras e grandes indústrias. Como que você enxerga tudo isso em um único canal?
Eu acho que isso é um caminho espetacular, porque você conversar com as pessoas que produzem na base, É uma forma de você ouvir e criar uma ligação, um interesse e um afeto. A pessoa se sente ouvida. Eu diria que, se você vai pelo caminho de ir a campo, eu te sugeriria entrevistar essas pessoas que vivem na periferia, em situações muito precárias. porque são pessoas muito dignas, que vivem muito mal e que precisam ser ouvidas. Seria uma forma também de criar desafios para uma arquitetura mais leve, mais fácil de construir, que não exigisse grandes estruturas, grandes movimentos, porque é mais urgente você fazer rapidamente alguma coisa, até com o resto das construções. e caminhar para o resgate dessa população que é muito abandonada. Isso é um desafio muito bonito, porque costumo dizer que a matéria-prima mais importante para os arquitetos, e acho que é para mim, é o caos. Porque, se tivesse tudo resolvido, não teria.
Muito o que fazer.
Faria mais bonitinho aqui, mas já é uma coisa importante fazer. Acho que a gente tem, por um lado, a tristeza de ver populações tão abandonadas e a felicidade de ter essa matéria-prima para enfrentar e fazer uma transformação. E é possível fazer, acredito totalmente nisso, sou muito positivo e otimista. Independente dos conflitos, dos problemas políticos, o Brasil é grande, o Brasil é importante, vai crescer, vai recuperar, vai ser muito bom.
Não, bacana. E o legal também é que hoje, a sua vinda aqui, também a gente traz a série Nasce Hoje, a série O que é arquitetura pra você? Que, inclusive, a gente vai falar com essas pessoas.
Ah, legal.
Porque é bacana. O que é arquitetura pra essa pessoa? Então, a gente vai pegar falas de pessoas de diferentes classes sociais. E a gente vai mostrando. Porque, muitas vezes, aquilo que é pra mim não é pra outro. E a gente vai criando essas conexões. Então, quando você vê rodar isso, Roberto, pode falar que essa ideia foi a minha ida no conceito.
Não, é nossa.
É nossa. Você trouxe, então a gente vai executar. Então é uma coisa coletiva e tenho.
Certeza que... E eu saio daqui também muito abastecido. Eu gostaria demais de encontrar você. Quando você quiser, eu faço entrevista e você fica no outro papel.
Eu vou trazer um bate-papo aqui. Eu quero muito um bate-papo. Você aqui do meu lado. E eu vou trazer a Heloísa Maringoni para fazer um bate-papo com você.
Legal.
Porque vocês têm muita história. A forma, ouvindo a Heloísa, inclusive, ela estava aí, do seu lado e do lado dela tinha um estudante de arquitetura que ganhou o prêmio do CBCA e tal. Então foi uma troca bem bacana e viu a forma como o estudante olhava, ela falava, ouvinha, sabe? Então, assim, foi uma coisa, para mim, muito marcante. Então eu já tenho certeza que teremos aí um bate-papo da Heloísa Maringoni com você. Então, para falar disso. Então a Gabi está ali anotando tudo. Bom, gente, eu queria agora passar as considerações finais para você para a gente encerrar esse episódio que é muito, muito bacana.
Bom, primeiro, uma surpresa muito agradável de estar aqui com você. Tive que marcar e desmarcar várias vezes, graças à paciência da Gabriela. Acabei pegando Covid no meio da história. Estou bem.
Covid em 2024.
Modelo 2024. Mas eu acho que poder conversar sobre o trabalho, sobre o ofício, sobre as ideias, é uma forma de ventilar e levar para as pessoas que têm interesse em ouvir uma contribuição e um diálogo. Eu acho que isso é excelente. Eu gosto de ouvir o que os outros falam e fico muito satisfeito de poder me expressar. E agradeço a forma como você conduziu essa nossa conversa, de uma forma muito afetiva, inclusiva, me sinto privilegiado e gostei muito.
Obrigado, Loeb. Então, gente, quem ficou aqui até o final, eu tenho certeza que ficou muito impactado com o que ouviu. Então, essa conversa não vai parar aqui. A gente vai ter vários outros conteúdos com o Roberto Loeb. Vou trazer aqui engenheiros que ele também admira e tenho certeza que, juntos, a gente vai, de fato, transformar o setor da construção e arquitetura engenharia e também a indústria, tá? Um abraço muito carinhoso pra vocês e até o nosso próximo encontro aqui no Constra e Cash.
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