Projeto Hospital Mater Dei | Siegbert Zanettini | ConstrueCast

This YouTube documentary (ConstrueCast) interviews architect Siegbert Zanettini and investor Dr. Henrique Salvador about the design and industrialized construction of the Hospital Mater Dei in Salvador. Zanettini recounts six decades advocating industrialized systems (notably steel), describing early experiments (first steel project 1972), large prefabrication examples (19,000 m² plant assembled in 45 days), and over 500 steel projects. For Mater Dei he explains a mixed steel–concrete solution (filled steel tubes, high-strength steel ~350 MPa), modular double-panel partitions with integrated services, and highly integrated multidisciplinary design to reduce time (claims of reducing construction time by roughly two-thirds). Salvador gives institutional context (Rede Mater Dei founded 1 June 1980), stresses flexibility, faster construction, cleaner site, and that hospital scale ~70,000 m² with multiple garage levels motivated the industrialized approach. The transcript emphasizes sustainability, humanized hospital environments, and Zanettini’s legacy/teaching.
Questions this video answers
1º de junho de 1980.
1972.
19,000 m²; assembled in 45 days.
More than 500 projects in steel.
Approximately 350 MPa.
Chapters
Sejam todos muito bem-vindos ao Constricast. Dessa vez, você vai conhecer uma obra de um jeito diferente. O arquiteto Zanettini nos recebeu em seu escritório e comentou um pouco sobre sua carreira na arquitetura, seu papel fundamental na implantação da industrialização da construção civil no Brasil e o projeto do Hospital Mater Dei em Salvador.
Eu não me preocupo só com arquitetura. Eu tenho uma formação multidisciplinar, E acho que a arquitetura tem um papel igualmente quando junta com as outras disciplinas. Ela não tem muito sentido sozinha, ela ser evoluída e o sistema construtivo antigo. Não tem sentido isso, quer dizer, as coisas têm que se evoluir como um todo, é um sistema, são conjuntos de sistemas.
Em paralelo a isso, também conversamos com o investidor, doutor Henrique Salvador, que explicou como foi a decisão de escolher o escritório de arquitetura para a construção deste hospital Mater Dei, em Salvador.
O hospital é uma organização que está sempre em movimento, ela está sempre mudando os seus espaços, então ter essa possibilidade já na concepção do projeto é fundamental para que a gente possa ir ao longo do tempo adequando os espaços às necessidades temporais que a organização apresenta.
Zanettini.
É um grande e reverente nome na arquitetura, mas como um arquiteto chegou a isso? Como começou sua luta pela industrialização da construção civil no Brasil? E quem responde é o próprio Zanettini.
Já na década de 60 eu comecei a mexer com aquilo que me perturbava, que é a mão de obra escrava sendo usada na construção civil, uma maneira quase milenar de construir, que se repete exaustivamente até hoje, é presente até hoje, um sistema construtivo absolutamente obsoleto. Nesse sentido, quando comecei a mexer com outros sistemas, trabalhei com madeira, sistemas pré-moldados, sistemas de um tipo novo de lançamento de estruturas, Eu comecei a pensar por que nós não mexemos com aço no Brasil. Na década de 60 não existia isso. Então eu falei, vou começar a mexer com isso. E fiz o primeiro projeto em aço. Foi em 72. Uma indústria grande de barulhos. Mas a indústria tinha 19 mil metros quadrados e nós montamos ela em 45 dias. Sem nenhum problema. Montamos, fechamos e cobrimos. Em 45 dias. Aí eu vi, principalmente, que era um outro caminho que a gente tinha que adotar. E comecei a trabalhar integradamente com algumas indústrias da época para ver se a gente racionalizava o processo todo e estendia isso para o sistema todo de construção. Infelizmente, isso não aconteceu. Ainda permanece o sistema construtivo bastante desatualizado, ele se repete há 50 anos os mesmos processos, e isso não tem mais sentido hoje, quando a gente luta por uma melhor sustentabilidade, por umas melhores condições de vida. Então a obra tem que ser feita de uma outra forma, não aquela que é feita normalmente. Então é aí que entrei nesse caminho do aço e, de lá até aqui, fiz mais de 500 obras em aço, para vocês terem uma ideia, em todas as atividades. Fiz escolas, hospitais, creches, centros de pesquisa, como o da Petrobrás do Rio, que é o maior centro de pesquisa do país. Todos os outros tipos de construções, centros de pesquisa, eu montei a partir de soluções em aço. e fiquei muito conhecido como o homem do aço no Brasil. Mas tudo bem, acho que o mais importante dessa divulgação do meu trabalho era a importância de dar uma condição mais limpa de construção. Isso identificado com uma visão que eu tinha de arquitetura já na época, já construída também, que era de uma visão de arquitetura contemporânea, como ela devia ser, não mais arquitetura que se fazia na época, a arquitetura moderna, que eu achava que estava sendo exaurida. Hoje se continua fazendo arquitetura moderna em todo o país, mas acho que naquela década para mim já tinha acabado, como em alguns profissionais da história também de fora do país. E, nesse sentido, eu comecei a procurar soluções mais integradas com a indústria. E fiz aí um coletivo de obras de vários tipos e tamanhos que são um repertório muito grande nessa área da construção civil. Nos Estados Unidos se faz a construção em aço há muitos anos. Na Europa se faz muita construção em aço também há muitos anos. Mas no Brasil, quando eu comecei, não existia aço. Era concreto, na forma que vocês veem até agora, Era feito naquela época e se preservou essa forma meio escravocata de produzir arquitetura, usando mão-de-obra escrava, que eu chamo de barata, porque essa é uma forma de economizar, usando formas que se transformam em lixo depois. Não tem nenhuma visão sustentável nesse processo. É uma visão extremamente retrógrada em relação ao que se deseja do meio ambiente hoje. A integração das construções com o meio ambiente não tem nada de integração. Elas são extremamente vísceras e bastante equivocadas em relação ao meio ambiente. Não tem orientação solar, não tem regime de vento, não tem água utilizando, não tem reuso de coisas, não tem nada. Então é uma obra feita como se fazia há muitos anos atrás. Então o que a gente defende é um outro caminho. Isso há muitos anos, não é de agora. Eu que venho praticando nesses 60 anos de trabalho.
São mais de 60 anos de trabalho muito bem sucedidos que o levaram a projetar o Hospital Mater Dei.
A Rede Mater Dei foi fundada em 1º de junho de 1980. Nós já tínhamos uma experiência adquirida já com a construção de dois hospais com o mesmo método construtivo. Nós observamos algumas vantagens em relação a um método construtivo com a estrutura metálica. Normalmente, a gente tem uma obra mais rápida, mais limpa, permite espaços maiores, onde a gente tem estruturas mais flexíveis. Isso em hospital é muito importante.
Bom, o Hospital Malteser foi uma daquelas séries que a gente acha que sempre acontece. Como é que se convence um cliente, como é que se convence uma empresa, uma estrutura que está acostumada com o processo, a mudar o seu sistema construtivo? Eu falei, vamos tentar. Já encontrou no Belo Horizonte, quando foi o primeiro Mater Dei que eu fiz. É um hospital também de mesmo porte que esse, um pouco menor que esse de Salvador, mas um hospital de grande porte. E eu tinha um problema naquela época. Eu tinha que inaugurar esse hospital em 20 meses, porque o hospital cede para a Copa do Mundo em 14. Ele tinha que atender toda a Copa do Mundo, então tinha que estar pronto em 1º de junho. 1º de junho ele ficou pronto. Foram 20 meses e nós montamos o hospital. Ao colocar esse novo caminho, que eu poderia reduzir a orba de um terço, um quarto do tempo, né? Então isso era, em alguns aspectos, extremamente importante, mas no caso desse hospital em Belo Horizonte, do próprio grupo Maserdei, que ele tinha que ser inaugurado para funcionar para a Copa. Se ele não funcionasse para a Copa, ele não podia ser inaugurado. Então, tínhamos que inaugurar para isso, para ele ter que mudar o sistema construtivo. Então, foi meio induzido a produzir uma nova forma de produção da obra. Isso foi tão marcante para o grupo, que os outros hospitais que vieram... Eu fiz depois um outro hospital na região ainda de Minas, perto de Belo Horizonte, que é na região onde ficam as indústrias todas, o centro industrial todo de Minas. E lá fizemos o hospital, um outro hospital, o Melterdei, também de mesmo porte, também estrutura metálica. E aí eles queriam, num certo momento, sair do Estado, construir uma nova construção, uma nova sede deles fora do Estado. E foi que a gente fez esse projeto para Salvador.
Um hospital tão grande e com formato único levou o arquiteto a pensar em uma série de estruturas industrializadas, resultando em um sistema misto de aço e concreto.
Uma das questões mais importantes que existem em obra é o tempo de construção. Quanto mais curto é o tempo, mais barata é a obra.
Evidentemente, era uma tecnologia que não está ao alcance de um investidor normal. Ele quer que o projeto dele se construa no melhor tempo possível, no maior custo possível e, se possível, sem nenhum problema secundário ou externo. Que se resolva o problema no sentido mais global. A gente adotou esses sistemas, que são sistemas mistos de aço concreto. São tubos de aço que são preenchidos de concreto. Com isso a gente evita de fazer toda a proteção de incêndio das peças metálicas. O sistema já é de proteção para incêndio. Então fizemos esse sistema utilizando um aço de 350 MPa. MPa é a mega pescoal que tem o aço. É um aço de alta resistência. Então esse aço foi o aço que a gente utilizou nas três construções. Essa última também, a mesma. Então são tubos de aço que são preenchidos com concreto para pilares. Depois tem as vigas, treliças, todas as peças secundárias de apoio de laje, apoio de peças de fechamento. É tudo um aço dessa categoria de alta resistência. Esse sistema implica em você trabalhar integradamente. Não tem como você fazer um projeto de aço se não tem uma... uma união muito grande entre o arquiteto, que cria o processo todo, e aqueles conjuntos de trabalho de engenharia que vão suplementar, vão se integrar a esse projeto, a essa concepção. Então vem todas as engenharias, engenharia de estrutura, engenharia de fundações, engenharia de fechamentos, de lajes, de vedações, de fechamentos externos, placas e vidros, enfim, todo esse conjunto de sistemas tem que nascer integrado, porque você vai fazer um projeto não só para resolver as questões estéticas dele e funcionais, vai resolver um problema profundamente técnico. Isso está integrado tanto aos desejos do programa do projeto, que é o desejo do cliente, como também as intenções dessa produção toda. É uma produção toda de base industrial que tem que ser profundamente integrada. E ela nasce já integrada. Então, na concepção, essas atividades todas, essas disciplinas, participam do processo de concepção. Às vezes, até atuando com especificações e com detalhes que auxiliam essa concepção global.
O hospital é uma organização que está sempre em movimento, ela está sempre mudando os seus espaços, então ter essa possibilidade já na concepção do projeto é fundamental para que a gente possa ir ao longo do tempo adequando os espaços às necessidades temporais que a organização apresenta.
Lá é still deck, as divisórias em painéis, que são painéis duplos sob estrutura metálica. Essa estrutura metálica é como vazão para passar toda a instalação, porque você tem que levar em cada quarto todos os insumos. É gás, é oxigênio, é isso em cada quarto. Então você tem que levar instalações para cada painel desse. Só que não é que eu ponho, rebento o painel e coloco a instalação. Não. Ela já vai nascer dentro do painel, junto com o painel. Então vai antes ela, depois vem cada painel para fechar. Então tem uma sequência correta para montagem, são montagens. Na verdade, a obra é só uma sucessão de montagens bem programadas, isso também depende da própria obra, tem um corpo de engenharia importante, é o caso do Mater Dei, tem um grupo de engenharia muito forte. E acho que... A obra é extremamente programada em todas as suas etapas. Então, vão entrando os insumos de produção industrializada e vão sendo encaixados, tempo a tempo. Às vezes, com incomitância. Enquanto estou trabalhando dentro, posso trabalhar fora. Não preciso depender de uma coisa ou da outra. Então, uma programação também de obra bem feita facilita, porque não há produção interna, é montagem interna. E essas montagens podem ser sequenciais.
Com a obra muito desafiadora pela sua grandeza e com pouco tempo para construir, vem o grande desafio do tipo de método construtivo. Como é possível viabilizar algo desse porte junto ao investidor?
O primeiro Mater Dei foi um impacto. Como nós vamos fazer um hospital em aço, estrutura metálica? Nunca vi fazer isso, não existia isso. Como que nós vamos fazer um hospital que é complexo demais, em conjunto de subsistemas que ele tem, integrando tudo isso? Falei, isso é o que faço normalmente. Já fazia muitos anos quando fiz o Mater Dei primeiro. Foi no começo deste século. E aí falei, Eu acho que não há problema nenhum. Só que, como a gente tem um prazo muito justo, ou a gente faz um sistema altamente industrializado ou a gente não consegue completar essa obra, que tem cerca de 70 mil metros quadrados de construção, com seis, sete pavimentos de garagem. Como eu vou resolver isso num sistema tradicional? Não tem como. Então, eu convenci que isso deveria ser o caminho. Esse caminho, como sempre, uma vez que foi aceito e ele foi introduzido, ele praticamente não volta mais, porque a diferença que existe é muito grande, em todos os aspectos, na qualidade da obra, nos detalhes, nas maneiras todas integradas de resolver todos os problemas. Não tem problema que é postergado, é tudo resolvido já nos projetos, que se integram também, têm que nascer integrados, todos os projetos, não só de arquitetura, mas de todas as engenharias. de sistemas e até da decoração, até da parte de interiores. Tudo tem uma relação muito bionímica, muito integrada. À medida que você faz isso, se vê que o resultado é fantástico. E aí aquilo acaba capturando o cliente, acaba fazendo com que o cliente se apaixone pelo sistema, porque a forma é extremamente limpa, extremamente correta, não tem muitas sobras, não tem resíduos, não tem lixo. Então você vê que aquela solução daquele edifício que teria uma forma podia ser em vários sistemas construtivos, mas você adotou um que se adequou a todos os condicionantes. E aí é um resultado que se agrada a qualquer cliente. Ele começa a perceber que há um outro caminho de construir. E aí se repete. É sempre a recomendação que faz. Quando é que você consegue convencer um cliente a fazer em aço? Porque é uma coisa não comum. Por exemplo, experimente uma primeira vez. Se fizer uma primeira vez, nunca mais você voltará a fazer outro sistema. Porque é um outro caminho.
Hoje existe uma preocupação muito grande com ambientes que sejam mais humanizados. Uma das características da Rede Mater Dei sempre foi procurar prestar o atendimento mais humanizado, personalizado e diferenciado possível. Acho que a estrutura metálica encaixa muito bem nesse conceito. Os nossos hospitais têm áreas verdes importantes, seja teto verde, seja até bosques anexos. E essa interação com o meio ambiente Questões também ligadas à sustentabilidade, reaproveitamento de recursos naturais, tudo isso é muito importante e acho que hospitais são equipamentos que vão ter que se integrar cada vez mais as comunidades dentro desse conselho.
A industrialização não se trata apenas de construir mais rápido e melhor, mas também de pensar na sustentabilidade, um tema muito importante para o Zanettini, que não esconde seu desejo de juntar a arquitetura com o meio ambiente.
Às vezes o cliente não necessita disso para operar. Ele quer ter um hospital correto, uma obra correta, funcionando, sem problemas, com muita flexibilidade ao longo do tempo, porque tem mudanças necessárias por mudanças de sistemas, mas não tem essa implicação de que eu tenho que fazer uma obra em tal condição. Não. Eu acho que é com essa liberdade que a gente tem que pensar, independente dela ser ou não, documentada num sistema qualquer de avaliação. Na realidade, essa avaliação é um sistema que documenta a qualidade da obra. Nós temos obras. A Bebraun, por exemplo, uma indústria que fiz no Rio de Janeiro, durante a obra já tinha uma parte mais holística de montagem dos galpões e resolveram fazer uma internização. lidigoso para ela nessa fase inicial. Então, é a qualidade de todo o conjunto. E se qualquer cliente nosso quiser pedir uma avaliação no sentido de conquistar um prêmio desse, uma certificação dessa, eu acho que será extremamente bem-vindo, porque o CBCA, por exemplo, foi um dos órgãos que me levou para os Estados Unidos para ganhar o prêmio top 1 internacional. Eu tenho o maior prêmio internacional de sustentabilidade do mundo. Quando você faz uma estrutura porque não é só aço, pode ser madeira, pode ser outros materiais. Eu fiz muitas obras em madeira também, sistema industrializado de madeira, como reciclar madeiras que são transformadas em lenho, você recompõe ela para fazer um ligamento. Fiz várias obras assim, muitas obras assim. porque a minha ideia é sempre de aproveitar o material, não deixar lixo urbano. Nesse sentido, é extremamente importante que, na concepção do projeto, você já pense como você vai atuar não só para a produção da obra, mas como aquilo resulta em relação ao meio ambiente todo. Como ela contribui para esse meio ambiente? Como ela faz parte disso? Então acho que é uma arquitetura que tem esse grau de sustentabilidade muito forte, porque, se ele não tiver, ele está ferindo, ele está contraditório à sua ideia. É nesse sentido que acho que pensar hoje uma obra no sentido pleno tem de ser pensada em todo o seu conjunto. na sua concepção, no seu desenvolvimento, na sua construção e no seu uso. Nesse conjunto de coisas que são integradas, que levam uma obra a ser usada há 40, 50 anos, um hospital desse porte não é usado para meia dúzia de anos, é pensado para 50 anos. com toda a flexibilidade que ele tem de se transformar ao longo do tempo com a medida que entram novas tecnologias. Como acontece agora. Agora está entrando na área médica toda a visão mais metabólica da saúde, que é uma outra visão mais completa. Vêm os novos sistemas, o laser abólico. Começam a aparecer outras maneiras de curar, de tratar, e isso tudo tem que estar profundamente integrado ao que vem na construção. na concepção da construção. Tem que ser profundamente dimensionada cada uma das etapas. A partir disso, todo esse planejamento, um todo, você não faz o projeto de arquitetura separado dos demais. Todos os projetos são integrados sob a nossa compatibilização e desse nasce um projeto que é o que produz a obra. Então a obra é extremamente organizada, ela já sai organizada na concepção. É evidente que depois, ao transportá-la para o canteiro, ela também tem que ter todo um comportamento também organizado. Então, se você vai em uma obra nossa e começa de Salvador, você tem elogios da vizinhança. porque não faz barulho, porque não atua nas horas que deve se dormir, porque tudo é programado, não tem lixo na rua. É uma outra maneira de se enfrentar a realidade. E você constrói sem perturbar a vizinhança toda, sem perturbar o meio ambiente. Você está compondo junto com o meio ambiente. Então essa posição, que está ligada muito a uma divisão de entender a arquitetura como um ponto importante para a sustentabilidade, é extremamente pensada num projeto desse tipo. E é feito isso com várias especialidades. Eu não faço arquitetura sozinho. Dependo de uma série de especialidades de engenharia e outras, de subserviços e sistemas, que vão se integrar todos no projeto. Então o projeto já sai integrado. Ele vai para a obra toda planejada, então é um processo totalmente planejado, diferente da obra convencional brasileira.
Estrutura metálica e todos esses sistemas industrializados sempre deixam as pessoas em dúvida sobre optar ou não por esse tipo de sistema. Mas o Zanettini garante, está na hora não só de experimentar, mas também de implementar a industrialização na construção civil no Brasil.
Primeiro é isso. Se tem dúvidas, quais são as dúvidas? Normalmente é assim. Quanto é o custo? Quanto é o tempo? Com que empresas eu vou atuar? O que me amarra nisso ou não me amarra nisso? Não, não tem problema nenhum, sem total dificuldade para decidir. Basta experimentar um. Se você experimentar uma vez, você nunca mais vai repetir de maneira diferente, porque você vai ver a diferença. São anos luz do sistema transmissional. Então eu acho que, na medida que você tenha essa experiência feita, ela se repetirá normalmente. Então experimente pela primeira vez, só. Na medida que você faz isso, evidentemente os ganhos de todos os aspectos, ganho econômico, ganho brutal do tempo, a obra a gente reduz pelo terço do tempo. A obra de Salvador, por exemplo, se fosse feita em um sistema funcional, levaria uns 4, 5 anos pelo porte dela. Não é só ela, mas ela e o Centro Médico são duas grandes obras nessa data que seria impossível em qualquer outro sistema. Isso para nós já é um prêmio. E com todas as produtoras, todas essas firmas que a gente trabalhou ao longo dos anos e vem trabalhando com várias indústrias integradas e vários sistemas de engenharia também integrados, que isso implica em fazer tudo meio junto. Você não pode construir isso separadamente, tem que pensar nessas soluções todas integradas. Isso, então, dá uma sequência. Vem a estrutura, depois vem uma large steel deck, depois vem um painel... Já esses painéis são duplos, no meio vem a instalação toda. Então, é todo um sistema que é montado e que dá um resultado de qualidade e de tempo brutal.
Na industrialização, temos inúmeras vantagens e o Zanettini faz questão de ressaltar cada uma delas.
No caso de Salvador, nós tínhamos já uma coisa que acontece, que quando você faz com o cliente um primeiro projeto em aço, quando ele for repetir um outro projeto, ele dificilmente vai querer outra disferiologia, porque ele vê as diferenças que tem uma obra convencional com uma obra de aço. Por exemplo, uma obra que nós já tínhamos feito, o Mater Dei Contorno, que é lá de Belo Horizonte, nós fizemos a obra, uma obra do mesmo, quase do mesmo porte de Salvador, E ela foi feita em tempo bábil, porque tinha que ser desaugurada para a Copa do Mundo da época, de 1914. Então, não seria possível no outro sistema. Fazer um hospital desse porte levaria quatro, cinco anos. Nós fizemos em dois. Como nós estamos fazendo... Fizemos o Dibetim, que é o projeto seguinte do Grupo Mater Dei, que foi um hospital também de grande porte, também em aço, e estamos fazendo agora Salvador, que é o maior de todos, mas que está sendo um auê em termos de repercussão pública, porque é um festival de mensagens e de coisas que nós temos recebido pela qualidade do projeto. Você vê que a tecnologia está no seu mais alto nível em Salvador. Pode ser feita em qualquer lugar do país. Isso é montado em qualquer lugar do país. O aço é fabricado, é transportado pronto e é montado, sem nenhum problema, em qualquer região do país. Eu tenho uma obra em tempo recorde. Eu tenho feito obras de um terço do tempo que ela deveria em qualquer outro sistema. Então, como a boa produção da obra não é feita no canteiro, Ela é feita fora do canteiro, ou quase em totalidade é produzida fora do canteiro, ela é montada na obra. Então eu retiro do canteiro todo esse processo produtivo que é o que a torna com todas as suas imperfeições. É muito ajuste, as regimentações locais e construtivas que acontecem quando você faz uma obra em loco. Você tem uma série de conflitos necessários no processo de produção não controlada. O processo de produção industrializado é um processo controlado. E, no caso do aço, em mil condições. É levado até a extremos. Passado por radiografias, às vezes. Então é um processo de controle total de produção. Então é milimétrico cada ajuste. Não tem ajuste de centímetro, de milímetro. E com essa qualidade é que eu levo a produção de uma obra. O resultado disso são obras limpas, obras com desempenho excelente por muito tempo, com grande facilidade de transformação, porque são processos leves de transformação, Eu não tenho parede de concreto ou parede de alvenaria, eu tenho painéis. Nesses painéis, no intervalo deles, passam todos os sistemas. Se eu tenho que trocar um sistema, eu tiro os painéis e troco o sistema. Isso começou em 1968, já fazendo isso. Revolucionando a questão hospitalar, porque até então era um hospitalzão, um beliger, aquele hospital escuro, feio, preto. Eu transformei, pus cor, pus flexibilidade, pus alegria, luz, porque, para mim, é um edifício como qualquer outro, com mais condições ainda de estar atendendo à saúde do ocupante. Então, ele tem que ter essas qualidades que a arquitetura pode ajudar, ela pode contribuir. de ter um edifício mais bem orientado, mais bem integrado ao nosso clima, que é insuperável. Você pega o clima brasileiro e tem de fazer uma arquitetura brasileira, com as condições que o clima possibilite. E não vem com uma importação com arquitetura moderna da Europa e se aplica aqui. Não tem nada a ver com a atualidade brasileira, onde o meio ambiente é estrutural. Se você não entender que o meio ambiente brasileiro é estrutural, ele é especificamente o melhor do mundo, você não está usando o meio ambiente. Você está fazendo uma construção que não está identificada com o lugar e com o espaço. Então, fazer isso é uma coisa condicionante, extremamente importante para o Brasil. Estou preocupado em como evoluir uma arquitetura brasileira, com condições próprias. Nós temos montanhas de ferro, mas não uma produção como ela foi, que foi de produzir ferro para mandar a matéria-prima para fora. Não é essa a maneira de fazer. É fazer essa matéria-prima se transformar em produção interna de estruturas, de sistemas, e dar trabalho, dar emprego para isso. e não vender o aço como matéria-prima. Não é o aço, é o ferro que é vendido. Então, acho que essas questões têm que ser entendidas, porque transformando isso em construções que são feitas no Brasil, todo o sistema produtivo é brasileiro. Inclusive para exportar. Caso exportar, exporta o produto acabado. Produto terminado. Você está dando emprego, está dando qualidade aqui para a produção nossa e está vendendo o produto acabado. Está vendendo um produto.
Quando falamos da industrialização da construção, não falamos apenas em integrar sistemas, mas também pessoas e grupos de diferentes áreas. Nesse quesito, Zanettini tem muito a contribuir.
Um costume que é muito grande aqui do escritório que é de fazer as coisas nascerem integradas, não é fazer as coisas partidas. No início de uma concepção, de um partido do projeto, a gente se reúne com as principais especialidades, elétrica, hidráulica, estrutura, instalações em geral, vácuos, enfim, todas as partes de subsistemas, vidações, externas e internas, pisos, lajes, foros, equipamentos básicos. A gente já procura trabalhar com todo esse conjunto que faz com que aquele projeto já nasça integrado. Todas as interligações e todas as condicionantes que cada sistema coloca são levadas nesse bolo de concepção e é, de uma certa maneira, disseminado no sentido de transformar isso em uma obra integrada, no seu total. Então, quando ela vai se desenvolvendo, ela se desenvolve integradamente já no projeto. Quando vai para a obra, já tem um todo resolvido, e uma série de decisões são feitas independente da obra. Vou contratar estrutura metálica, solto a estrutura metálica. Vou contratar vendações, solto vendações. Vou contratar piso, solto piso. Na medida que eu tenho um projeto todo integrado, ele nasce integrado, o que faz? Quando você vai fazer uma obra, você vai atender às retratos da obra. Então, você solta um projeto de fundações para um grupo que vai trabalhar na obra. Ao mesmo tempo, você está soltando a estrutura para um outro grupo. está exportando instalações para vários grupos, porque são vários subsistemas. O ar-condicionado é um grupo, elétrica é outro grupo, hidráulica é outro grupo. Às vezes pode ser o mesmo grupo, mas normalmente são unidades que trabalham de uma forma separada. Então você integra esses todos no projeto, nas decisões, que são decisões de pensamento e de solução, e cada grupo desse trabalho independente faz a sua fabricação, coordena essa fabricação, mas ele se integra aos outros sistemas. E, quando ele vai para a obra, ele já está resolvido. Você vai olhar, por exemplo, as montagens dos painéis. Você vai ver aqui as montagens dos painéis de Salvador. Ele vai prontinho, não tem remendo na obra. Ele vai pronto, colocado, encaixado. Vidro, a mesma coisa. Painéis de parede, a mesma coisa. É uma sucessão de montagens, isso sim, sequenciais, que segue uma sequência correta. Enquanto você está fazendo dentro, está fazendo fora, não depende uma da outra. Você ganha tempos. Não posso esperar isso para fazer aquilo, não. Um grupo está fazendo tratamento externo, outro grupo está trabalhando internamente, outro grupo está fazendo sistemas. Porque não é produção in loco, é montagem in loco. Eles são feitos fora.
A industrialização na construção civil não é uma nova ideia, ela já está há muito tempo. Mas por que é tão difícil implementá-la em nosso país? Será esse o novo conceito da arquitetura moderna?
A arquitetura moderna era o concretão aparente, era a fase do concretão aparente, que deu a arquitetura brutalista em São Paulo e que deu a arquitetura carioca no Rio. tudo em concreto, no maior peso dele possível. Em São Paulo, então, há excesso. Eu participei disso, parte, porque fui formado nesse contexto, na década de 60, mas depois vi que não dava mais para continuar, porque era anti-clima, anti-construção, anti-sistema. Falei que isso não era o caminho, era o caminho superado. Superei isso na própria década. No fim da década, já não estava fazendo mais. E acho que... de ler para frente e vir lutando para transformar essa construção. É lento esse processo transformador, porque não interessa mudar certas coisas no momento. Você não muda porque está acostumado com aquilo, tem o seu grupo de trabalho assim, e vai em frente com ele, mesmo sabendo que aquilo tem vários inconvenientes. Isso fica para depois, como é o caso da obra aqui do vizinho. Cai um transtorno no bairro, mas tudo bem. Enquanto não punem ela, a hora de começar a punir essa gente por todos os transtornos que julgam, que produzem, acho que vai começar a mudar mais facilmente. Enquanto não houver punição, é isso, transforma uma lua numa montanha de jetos, destrói engalçada, piso de concreto, a vegetação vai para o espaço, tudo. É uma destruição total para fazer uma obra. Não tem sentido mais fazer isso. A coisa nova sempre assusta, né? Se bem que não é nova, como eu digo, nós estamos nisso há 60 anos, mas, infelizmente, é lento esse processo no Brasil. Todo processo transformador no Brasil é muito lento. Mesmo sendo lento, é difícil, às vezes, a pessoa mudar daquilo que está acostumada a produzir, está acostumada a fazer concreto do jeito que está acostumada. Tem já o grupo dela que faz, tem o pessoal que trabalha. Então, o que vou mudar? Eu ganho o suficiente com isso, vou continuar fazendo dessa forma. No entanto, quando esse grupo, por qualquer motivo, seja ele um grupo privado, seja um grupo de construtora, técnicos ou especialistas que queiram experimentar um sistema industrializado em aço, eu recomendo. Se você quer fazer, experimente fazer um. Você já tem uma série de obras que você tem. Faça uma e depois você compara, faz a comparação de como é o teu processo que vem vindo há anos e como é que um processo novo se introduz na tua prática, se ele contribui, se ele dá certo. Normalmente, quem fez uma vez em aço não volta mais atrás. É o que está acontecendo. Eu faço em aço para um, é quase sempre quando se repete para aquele grupo. Outras construções, como acontece muito na área hospitalar, você fazer para o mesmo grupo novas unidades, essas unidades já nascem no sistema novo, porque eles veem uma diferença enorme. de se programar, de fazer uma obra que pode ter um plano correto de programação dela toda, de conceitos, de definição, de atividades, de contratos, enfim. Ela pode fazer uma programação toda engenheirada, estruturada e de uma maneira controlada. Coisa que, em uma obra convencional, vai acontecendo meio no jeitão. Acho que não. Uma obra como essa implica em você organizar todo o processo. Ou seja, de concepção como desenvolvimento do processo todo, da obra toda.
Enquanto nossa produção estava lá, foi feita a grande pergunta. Zanettini, o que é arquitetura para você?
Eu tenho uma definição da arquitetura contemporânea que é razão e sensibilidade. Razão que vem da ciência, razão científica. Do outro lado, é a sensibilidade. que vem da arte, da parte artística. A união entre arte e técnica é o que faz a arquitetura para mim. Não existe uma união entre esses dois mundos, o mundo racional e o mundo científico, o mundo racional e o mundo das ideias e da arte. É arte e técnica juntos. não separados, juntos. Normalmente é separado, ou quase nunca existe de um lado. O que eu sempre lutei foi para unir esses dois mundos, e aí eu tenho uma visão mais integrada do sistema construtivo e da arquitetura como peça de arte que ela é. É o que eu chamo de arquitetura contemporânea. A meditação de arquitetura contemporânea é o resultado físico-espacial do encontro equilibrado e harmônico entre o mundo racional e o mundo sensível. Essa é a minha definição de arquitetura, minha tese de inocência na universidade, no começo dessa década. Essa arquitetura contemporânea deve ser feita no século XXI, não mais com a tecnologia de 50 anos atrás. E aí esse resultado físico-parcial integrado tem que nascer integrado em todos os sistemas. E para isso precisa de uma produção também de grande qualidade, que não pode ser mais a produção artesanal de obra. que é algo que se faz normalmente até hoje. A questão brasileira é montada de forma artesanal, mas de uma forma artesanal absolutamente equivocada, toda ela cheia de problemas conseqüentes.
Zanettini está deixando um grande marco na construção civil e na história da arquitetura como um todo. Sabendo disso, ele passa por uma grande reflexão. Qual é o legado que ele quer deixar?
Me preocupa muito que nós estamos já começando a entrar no meio do século e não há alterações rápidas desse processo. Acho que já deveríamos estar agora fazendo arquitetura com contemporaneidade que ela deve ter. que tem uma estruturação extremamente sistêmica, tem um sistema que se monta, que tem uma visão holística, tem uma visão global, não mais separada. É o que está fazendo a medicina agora. A medicina também não está estudando mais coração, pulmão, está vendo o corpo humano como um todo, uma visão mais holística desse sistema que é completíssimo do corpo humano. Então, da mesma maneira que se faz já na medicina essa visão mais evoluída de entender a doença não como ponto fora, mas como entender o corpo humano como um todo, uma visão mais holística, mais total e sistêmica, isso pode ser levado para a construção civil. E, nesse sentido, tanto o projeto como a construção não nascem separados, eles nascem como um todo. tem suas etapas diferentes, tem uma etapa de projeto, uma etapa de obra que se segue, mas tudo isso já nasce integrado. Por força de ter dado aulo 40 anos na FAO, fiz a carreira toda universitária, até professor titular, saí da FAO já em 2004, o que tentei fazer? Deixar, tanto na universidade como fora dela, todo um patrimônio cultural que me parece importante e passar para as novas gerações. A minha preocupação não é tanto de estar produzindo tantas ou quantidades de obras, é de passar todo um recado cultural que tenho como obrigação de professor, um professor que sou de muitos anos. de deixar para as novas gerações qualidade arquitetônica e construtiva de padrão, o que eu defini como arquitetura contemporânea. Na tese de livre docência, fiz essa definição da arquitetura contemporânea, que era essa integração de conceito e produção em todo o integrado. E isso me parece que é a mola mestra de toda a minha ocupação nesses anos todos, de deixar um patrimônio cultural. já consolidado para que as novas gerações peguem esse patrimônio e levem à frente, nas novas condições que vão acontecer. Mas acho que deixar um legado me parece uma das condições importantes para um professor. Geralmente, é quase que uma obrigação que se sente de deixar um patrimônio, e não um patrimônio econômico, mas um patrimônio cultural.
Para você que chegou até aqui, o nosso muito obrigado. Se gostou desse conteúdo mais documental, não esqueça de deixar sua opinião nos comentários. E até o nosso próximo episódio aqui no Constricash.
More from Andre

Construção Industrializada no Setor Público: Desafios e Inovação em SP | Marcos Monteiro (SIURB)

Mestre de Obras Merecem Reconhecimento e Nós Valorizamos | Podcast | Construção | Engenharia

Muitos Cursos On-line São Divulgados na Internet | Obra se Aprende na Prática | Podcast

Tenha Cuidado Redobrado na Hora de Comprar um Apartamento | Podcast | Construção | Arquitetura

Quanto Ganha um Ajudante de Pedreiro na Construção Civil? Fala do Mestre de Obras Glaudio | Podcast

O Erro na Reforma Tributária que Pode Custar MILHÕES à Sua Empresa | Podcast #202

Valorização Profissional na Construção Civil | Podcast | Engenharia | Arquitetura #obra

Método CHAMA Gravado Com o Engenheiro Boutros Bichara | Pessoas Negativas | Paulo Barros #podcast

Assista ao Vídeo do Roberto Justos Sobre Caso Daniel Vorcaro do Banco Master | Podcast | Construção

AI FIRST #2 . André Abucham e Lauro Fiuza - Os desafios intrageracionais dentro e fora das empresas

Vidro NÃO É Tudo Igual! Descubra o Erro Que Pode Destruir Seu Projeto | Podcast | Arquitetura