Quem foi Ildony Bellei: Otimização de Estruturas Metálicas, Economia de Aço e Normas Brasileiras

Podcast interview (ConstriCast) with professor-engineer Ildoni Hélio Beley recorded in Volta Redonda. Beley recounts his career (arrived 1960; worked at FEM; later founded IHB Engenharia), the mid-20th-century Brazilian steel-construction boom and its later decline as industry absorbed steel, and material advances (use of vanadium in an American patent and later substitution by Brazilian nióbio). He highlights persistent gaps (scarcity of Portuguese bibliography, need for in-company training), emphasizes optimization of profiles/modulation to reduce scrap and cost, and describes his practical books/manuals (first edition 1994, now multiple editions) that include full worked projects and detailed drawings.
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Seja muito bem-vindo ao ConstriCast, o podcast que leva conhecimento técnico, inovação e grandes histórias da construção civil brasileira até você. Hoje nós vamos revisitar uma entrevista muito especial gravada em 2019 diretamente da cidade de Volta Redonda, um dos berços da construção metálica no Brasil. Naquele dia, eu tive a oportunidade de sentar com um dos maiores nomes da engenharia estrutural em aço, o professor engenheiro Ildoni Hélio Beley, uma verdadeira referência quando falamos de estruturas metálicas, otimização de perfis, economia de aço, normas como a NBR 8800 e todo o desenvolvimento da construção em aço no país. Mesmo tendo sido gravada há alguns anos, essa entrevista continua absolutamente atual, porque boas práticas de engenharia nunca envelhecem. Então, pega seu bloco de notas e aproveita cada minuto. Você está prestes a assistir uma das conversas mais ricas e didáticas que já passaram aqui pelo ConstrayCast. Roda a vinheta. Construir Caixa, Arquitetura, Engenharia e Construção. Este episódio é um oferecimento HUB e Construção.
A história do Arça em Volta Redonda começou com a construção da Faculdade de Estrutura Metálica aqui, em 45. 45? Não, 55. E eu vim para cá em 1960. Então eu ainda peguei quase o início, né? Naquele período ali de 55 a 60, foram feitas grandes obras no Brasil em aço. O Edifício Avenida Central no Rio, o Santa Cruz de Porto Alegre, tudo com 36 ventos, eu juro, 36 andares. Mas depois a coisa acalmou. Quer dizer, por que parou? Porque aí o parque industrial brasileiro começou a crescer. Aí o parque industrial estava absorvendo todo o aço, não sobrava mais aço para a construção civil. Então, nesse período, praticamente, que eu trabalhei na FEM, de 1960 a 1963, como desenhista. E depois eu voltei em 67 como engenheiro. De 67 até aposentar, 90% do que a gente fazia eram edifícios industriais. Era a expansão da indústria, a expansão da siderurgia, a expansão dos outros mercados industriais no Brasil. Depois a coisa começou a mudar para a parte civil também. Tanto é que foi um outro aprendizado. Porque uma coisa é você fazer estrutura metálica para civil, para galpões industriais, e outra é fazer para construção civil. Porque o requinte é maior. Então é por isso que, desde 1995, quando eu aposentei, comecei a montar a minha firminha aqui na IHB Engenharia. Aí começou a aparecer prédio um atrás do outro. E aí fui levando, fui levando, fui levando, tô levando até hoje, né? Nesse aspecto aí. As obras mais importantes aqui dentro da cidade em aço já tem o Cider Shopping aqui do lado, o Pontual Shopping, o Estádio Raulinho de Oliveira, e tem os viadutos. São vários viadutos aqui em Rota Redonda, né? E tem aquele viaduto, o Nosso Senhor das Graças, que foi feito entre 64 e 66, por aí. Então foi o primeiro uso do aço de alta resistência mecânica e corrosão na América Latina, pra você ter ideia. Era uma patente americana. Tem uma diferença aqui no Brasil. Você já viu que está fazendo muito hoje o negócio de nióbio, né? Nióbio. Então, esse aço aqui patenteado, daqui americano, ele entrava com a composição vanádio. Mas o Brasil é rico em nióbio. Conseguiram descobrir que o nióbio fazia a mesma coisa do vanádio. Então, barateou muito o aço. Então, hoje todos os aços brasileiros de alta resistência à corrosão trabalham com nióbio. e a mais usada também, mas ela também tinha para pontes e viadutos. Então, os desafios que você tinha naquela época, para quem fosse iniciar na estrutura metálica, é a falta de bibliografia. Você só tinha que trabalhar com bibliografia estrangeira. De português não tinha nada, praticamente. A FEM, por exemplo, se adotou uma linha que trabalhava com as normas americanas, que eram mais simples e mais objetivas do que as normas europeias. E aí a gente foi trabalhando em cima disso aí, até desenvolvendo o pessoal interno, estudando muito em cima disso aí. Aí consegui depois fazer uma série de recomendações. Eu até lembro, recomendação número um, número dois, número três, como se fosse um decreto. E fui levando assim até... Aí o grupo começou a trabalhar em troçado. Porque você já pensou, você trabalha em equipe de seis ou sete engenheiros, cada um fazendo de um jeito. E saia de férias, e como é que ia fazer o outro? É conseguir organizar isso aí.
E mão de obra, na época?
Não, a mão de obra toda era treinada na própria empresa. Não tinha outra solução. Eu vim pra cá em 60, fiquei seis meses treinando de desenho pra poder depois entrar no ritmo mesmo. O que é que está acontecendo hoje? Hoje tem mais bibliografia, as escolas estão um pouco melhores também na parte metálica. Então, isso está conseguindo despertar um pouco mais o pessoal. Os arquitetos também já estão começando a raciocinar em aço, porque toda obra começa na arquitetura. Não tem jeito. Se ela decidir dar uma arquitetura para um palco, um concreto, não adianta você botar aço ali dentro, que vai estourar. Se eu quero um vão de oito metros, ela vai trabalhar com um vão de três metros. Então, não funciona, não fecha bem a coisa. Então, acho que nisso o pessoal está despertando um pouco. E a parte bibliográfica também aumentou muito, né? Mas ainda falta muito pra chegar lá. Hoje aqui na cidade tem 260 mil habitantes. Nós estamos com índice per capita aqui de 70 quilos por metro quadrado na construção civil. Tô tirando fora toda a parte industrial, tá? Pessoal botado dentro dessa indústria não tem graça, né? Tudo só dentro da cidade aqui. Tá dando uma média de 70 quilos por metro quadrado. Não tem nenhuma cidade do Brasil que tem isso. A média é de 20, a média normal é 20, 15, 20, né? Então, isso aqui deu despertar, porque também tem profissionais aqui. Esse é outro fator também que ajudou muito. Não só eu, tem outros profissionais também. Tem uma parte boa de fabricação e montagem, que você viu ontem na fábrica. Isso ajudou muito. A parte de detalhamento de estrutura, que é outra parte importantíssima. Aqui também tem o Fulbirso, do detalhamento da instrumentalidade. O Fulbirso aqui. E hoje ainda tem muitos profissionais aposentados que ainda estão trabalhando por prazer, vamos dizer assim.
Você acha que seria possível exportar esse conhecimento de periferia para outras cidades?
É um problema cultural também. Não é fácil, não. Porque o pessoal tem muita resistência. Ah, você tem um bom soldador lá, eu não tenho soldador aqui. Você tem um bom, eu não tenho aqui. Entendeu? Não é tão fácil, não. Eu não acho tão facilidade assim, não. Você fazia uma estrutura aqui, por exemplo, pra pôr lá em... Vitória no Espírito Santo, por exemplo. É muito difícil você fazer isso, é para concorrer. Só a distância de transporte é um negócio louco. O diferencial financeiro cai em tudo. Eu acho que o mais importante, se vocês conseguissem, Era que as pequenas cidades, cada um de mesmo, são fabricantes ali, incorporados ali. Ali é muito mais fácil. Por exemplo, em Juiz de Fora tem umas duas fábricas de estrutura albertânica boas. Do Porto e do Mário, assim. Entendeu? Então já estão fazendo muita obrinha lá em Juiz de Fora também. Ele faz ali exporta para o Brasil inteiro, para o Rio de Janeiro, ele faz muita coisa para o Rio. Mas são fábricas de menor porte. Eu não acredito mais nas fábricas de grandes portos. tem capacidade de fazer 3.000 toneladas por mês, 2.000, você entendeu? Eu não tenho mais mercado para isso. E esse grande mercado que absorvia isso era o industrial. O industrial não tem muita coisa para fazer mais, não. A ciderúrgica não vão ampliar mais. Os outros setores também são poucos. Então, eu quando escrevi o primeiro livro, vou ter que contar essa história aqui, que é interessante, Eu já tinha feito o que eu falei com vocês, tinha feito aquela série de decretos, vamos dizer assim. E um dia eu estava lá em Guarapari, numa praia, de férias. Aí o anjo da guarda chegou e falou assim, junta tudo que você tem que vai dar um rio. Eu falei, a mulher, acabou a férias. Aí comecei a escrever. Pior, achei que em seis meses eu resolvi o problema. Levei dois anos escrevendo. E era muita coisa, porque um livro de engenharia não é um livro de direito, só tem conversa fiada. Eu tenho que fazer e mostrar. Só de desenho tem mais de 600 desenhos no livro. Então o negócio levou muito tempo para fazer, mas, pelo menos, ficou pronto em 94, a primeira edição. Agora já está na sexta edição. Aí me deu mais anos para fazer o segundo, que eu fiz com o Fernando Pinho, irmão dele. A gente já tinha escrito muita coisa. Eu vou juntar aqui num livro, eu vou organizar e vou botar na praça. Mas em todos os dois livros, Eu sempre termino o livro com um projeto completo no final. Com a memória de cálculo, passo a passo, você entendeu? Não está escondendo nada. O cara que seguiu aquilo ali faz a obra. Aí depois eu fiz um outro manual lá junto com o meu garoto, aquele edifício de pequeno pote esculturado em aço. E depois nós fizemos, ou eu com o Pinho ou de pontes. Então eu acho que o negócio está bem sedimentado. Mas tudo com o prático, você entendeu? Tem lá um exemplo prático de passo a passo. É a que os outros livros não têm. O cara fala sobre a norma. A norma fala assim, faz isso, fala a norma. Como é que você faz na prática? Como é que você começa e termina? Porque a memória de cálculo que você faz não vai para a obra. Quem vai para a obra é o desenho. Agora você tem que transformar uma memória de cálculo em desenho. Aí que está o pulo do gato. Aí que tem a acessibilidade da pessoa. Você tem que otimizar a estrutura. Não é uma estrutura que fique... Ela vai pesar mais, ela vai custar mais caro. Uma estrutura que pese mais, ela custa mais barato. Porque você tem que otimizar, você tem que otimizar os materiais também. Se eu fizer aqui 10 vigas, 10 vigas diferentes, o que vai fazer? Que custo vai estar isso? Então, se eu vou agrupando, se eu vou ajustando, vou agrupando, vou ajustando, até o final. Entendeu? Então, o grande segredo do negócio é a otimização da estrutura. O que acontece hoje com o ar? Os perfis... Eles são fabricados com 12 metros. Então, a sua melhor otimização que você pode fazer com eles é 6, 8 ou 12. 6 você corta no meio, não deu sucata nenhum. O de 8 você corta, sobra o 4. Com outro pedaço você faz mais 4, você faz 8. Não tem sucata nenhum. De 2, você não tem sucata nenhum. Se você conseguir, numa obra, implantar isso aí, se você conseguir implantar isso aí, sua obra vai ficar maravilha, não tem quase sucata nenhum. Então, se você não trabalhar com os ons adequados, vamos dizer assim, para ter economia na estrutura, ela vai ficar mais cara. E, às vezes, a imposição... Por exemplo, nós vamos hoje lá na Unimed. Lá foi estabelecida pela arquitetura uma modulação de 7,5 para 7,5. Não é o ideal, mas elas estão obrigadas a fazer aquilo por causa do quarto, do apartamento, do centro cirúrgico, não sei o que. Então, aquela modulação é patente. No Brasil inteiro é 7,5 por 7,5, entendeu? Quando o ideal seria o quê? 8 por 8. Eu teria muito mais benefício em 8 por 8 do que em 7,5 por 7,5. É claro, um pouco de economia, né? E menos bom de obra de emenda, de fazer emenda, né? Porque 7,5 para 12, falta quanto? 4,5. Na outra peça tem 7,5 também, 4,5 por 4,5 deu 9. Ah, eu vou ter que fazer sete mil. Vou perder o quê? Vou perder um metro e meio, tenho que jogar no lixo. Entendeu? Agora, uma outra coisa, só complementando isso aí, a estrutura metálica, estou falando de qualidade, a estrutura metálica é o seguinte, 70% é cuca, é projeto, é pensamento, é divisibilização, e 30% é cálculo. Porque se você vai para o computador, hoje você resolve isso aí, com o computador. Quem tem poucas experiências acha o contrário. Acho que 70% é o projeto. É aí que está o pulo do gato do negócio. Eu, quando dava aula, insistia sintomaticamente com isso que está aí. E em projeto também tem o seguinte. Você começou a desenvolver o projeto, Começa a botar mais uma peça aqui, outra aqui. Você chega no ponto que vai fazer alguma coisa, rasga, joga fora e começa a doar da outra vez. Não adianta você ficar fazendo gambiarra em segundo plano. Não vai dar certo. Por que o pessoal está usando muito aço na parte comercial, nos efeitos comerciais aí? Primeiro, ele trabalha com vão maior. E, como consequência, menos fundação. E leveza também, né? A estrutura metálica pesa um sexto, um sétimo, deve dar uma pica de concreto. E isso, como consequência, já tem menos fundação também.
Eu tenho.
Que começar na arquitetura porque tem que ter aprovação de prefeitura, essas coisas, tudo. E eu vou ter que pegar um profissional competente para tocar um negócio, para desenvolver o projeto junto, você entendeu? Quando eu trabalho aqui com os três ou quatro arquitetos, e sou muito bom nisso aí, Já na prancheta, quando ele está desenvolvendo o projeto, a gente chama lá. Onde é que nós podemos colocar a coluna aqui? Onde é que não posso? Eu posso adotar esse vão aqui ou não? Aí já sai praticamente o cuidado do assunto. Aí fica muito bom. Quando sai assim, é uma maravilha. O grande problema nosso hoje na Constituição Civil é o quê? A Constituição Civil absorve a mão de obra desqualificada. Na estrutura metálica tem que ter obra desqualificada. Agora, o que é a vantagem da obra qualificada? O indivíduo vai ganhar mais também financeiramente, né, pô? Vai acelerar o mínimo, vai receber muito mais, porque ele é qualificado. Então, enquanto eu tive essa ideia de que nós temos que implementar a Constituição Civil, cada um de obra pode ser desqualificado, não dá. Nós não vamos ter qualidade, não. Aqui no Brasil, a diferença daqui é para os Estados Unidos. O engenheiro civil lá nos Estados Unidos é civil, é de obra. E lá tem o engenheiro estrutural, que é o estrutural, engenheiro estrutural. Aqui a gente seria, mas aqui no Brasil não tem essa categoria, é só civil.
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