Reforma do Maracanã e construção do Museu do Amanhã | Daniel Hopf Fernandes | Construecast

Architect Daniel Hopf Fernandes discusses major Rio projects: the Maracanã retrofit with a new cable-supported roof covering nearly 70% of the stadium, a 250-meter steel-and-glass pedestrian bridge at Estação da Luz, and the Museu do Amanhã with its complex factory-fabricated geometry. He reflects on structural challenges, BIM coordination, and the architect's role in construction.
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Sejam bem-vindos ao ConstrueCast. O episódio de hoje é um oferecimento produtor à Infinity Plus. Está no ar mais um episódio do Constrycast e hoje eu tenho a honra de receber um convidado que eu admiro muito. E antes de apresentar o nosso convidado, eu peço que você se inscreva nas nossas plataformas de áudio e vídeo, comentem, dá sua opinião, compartilhem com os amigos, isso é muito importante. Agora, vamos lá. Daniel, seja bem-vindo ao nosso podcast.
Obrigado, Paulo. Uma honra. Muito legal.
E, dando continuidade, eu queria que você falasse um pouco como a arquitetura entra na sua vida, como surge a arquitetura na sua vida.
É curioso. Eu sou... Meus pais... Meu pai é arquiteto, minha mãe é engenheira civil, então é algo que eu sempre vivenciei de alguma forma e eu sempre gostei de desenhar, sempre foi algo... Enfim, vivi isso um pouco e... Se eu olho para trás, é algo que parece até natural. Eu, quando me formei lá na escola e fui prestar vestibular pela primeira vez, por algum motivo que eu não lembro muito bem, eu me inscrevi em engenharia, na verdade. Engenharia de produção. Cheguei a prestar o vestibular, não passei. Na época eu só prestei e eu fiquei feliz, porque assim que eu me inscrevi no vestibular eu já me arrependi. Aí no ano seguinte eu fui e prestei arquitetura. Comecei a fazer, na verdade, eu queria ser artista plástico, pintor, alguma coisa, mas eu falei, vou fazer uma profissão, uma arquitetura, se eu for péssimo, pelo menos eu tenho alguma coisa pra fazer pra não morrer de fome.
Na linha ali, né? É.
Mas é verdade que já, desde o início, eu gostei muito, e acho que lá pelo segundo, terceiro ano, me apaixonei pela faculdade, e realmente, acho que eu encontrei algo que é o que eu gosto, de fato. Então, esse foi o início.
E, nesse sentido, como que foi, por exemplo, o processo de desenvolvimento do primeiro projeto? Como que você se viu, de fato, ali na profissão? Ah, agora não, sou arquiteto e vou exercer a profissão porque... Enfim, acho que você já tem um momento da carreira que você, de fato, se sente ali consolidado ou, pelo menos, você está imputado ali no meio, enfim...
É, isso é curioso porque... Acho que para cada um é muito diferente. Eu abri um escritório quando me formei. Talvez eu tenha essa questão por esse aspecto empreendedor, mas assim, eu não abri um escritório porque eu queria ter um escritório. Eu abri um escritório porque eu gostava muito de projetar e eu achava que se eu tivesse um escritório eu ia ter mais possibilidade de fazer o que eu gostava. Eu não via aquilo como uma empresa. Quer dizer, não é que eu não via, eu não fazia ideia do que seria ter um escritório. Então, eu fiz estágios, como todo mundo, no final da faculdade. Alguns bem interessantes. E quando eu estava ali para me formar, surgiu uma oportunidade do meu irmão formar arquiteto junto com um amigo dele, que é o Francesco, que se formaram no Mackenzie. Eles falaram, vamos abrir um escritório, me convidaram. Eu estava ali sem muito bem saber o que eu ia fazer. Eu falei, por que não? Vamos começar. Surgiu assim, meio que do nada. E aí você percebe que não existe. Você não tem projeto, não tem cliente. Não tem absolutamente nenhuma experiência, mas, na hora, isso não é algo que você... Você olha pra trás depois e vê que é uma loucura, né? E, caramba, como é que também alguém contrata um recém-formado de arquitetura pra fazer projeto? Também tem que ser louco como cliente, né? Às vezes eu brinco, acho que a arquitetura como medicina tinha que ter... uma residência, alguma coisa. Você deveria ser proibido de abrir o seu próprio negócio quando você sai da faculdade, porque você não sabe absolutamente nada. E aí é uma profissão de responsabilidade. Mas a gente começou a fazer alguns trabalhos, basicamente estudo. Eu já naquela época na faculdade, eu já fiz meu trabalho final no 3D. fazia maquete eletrônica, o que tinha para fazer, desenho para outros escritórios, a gente foi fazendo, com uma dificuldade de nada, como qualquer outro arquiteto ou profissional no começo de carreira. E aí, já no começo, o Francesco e o meu irmão seguiram por outros caminhos e eu já estava nesse processo, gostava e segui. E aí foi assim que tudo se iniciou.
E o primeiro projeto?
É que hoje é difícil a gente falar o que é projeto, se é algo contratado, se é um favor para um familiar, se é um estudo no risco, se é uma viagem, mas assim...
De repente é aquele projeto que você se identificou, que você olhou e, sabe, sou arquiteto.
Pois é.
Vou exercer a profissão.
Eu acho que a gente já no começo fazia de tudo um pouco, né? Muita reforma, coisas pra familiar. E aí surgiu a oportunidade de fazer um projeto de dois sobradinhos geminados ali no Monte Camel, que é ali pro lado da Vila Sônia, né? Do tio da minha esposa, o João, que é um cara que sempre me apoiou muito. E aí, né? começar com uma casa, porque esse negócio da residência, da casa, é uma coisa que atrai todos, arquitetos e público em geral. Tem toda uma mística. Então, foi um projeto muito bacana onde eu consegui fazer um projeto de fato, de projeto como projeto. Aí teve o projeto de estrutura. teve toda a parte de compatibilização, depois teve o processo da obra, o acompanhamento da obra, e eu não sabia quase nada. Claro, fazer um projeto, um layout, uma casa, ok, isso a gente consegue fazer, mas pensar no processo como um todo e como esse projeto virou uma construção, para mim foi algo muito importante como aprendizado. E foi, como você perguntou, que eu me senti exercendo plenamente, acho que foi esse projeto.
E nesse sentido ainda, antes de chegar aí nos grandes projetos que você desenvolveu, tem algum arquiteto, algum profissional que você se inspira, que você sempre admirou e talvez esse cara foi fundamental para você seguir na carreira?
Obviamente que sim. Eu acho que são mais de um. Cada pessoa que está ali com você no início te impacta de alguma forma. Meu primeiro estágio para mim foi muito importante, porque eu pedi um estágio para o Paulo Mendes da Rocha. Ele, na época, já fazia parcerias com outros escritórios. Na época, ele estava fazendo um projeto com a Via Arquitetura, que depois virou a MMBB, que tem a Marta, o Milton e o Fernando. Mais para frente, entrou o Anjo. Ele já era meu professor, estava me orientando na faculdade, no trabalho final. Já tinha feito, no terceiro ano, uma matéria de projeto. Apesar dele ser aquele super-arquiteto que eu não conhecia, a interação era muito legal. Sempre foi muito legal, desde as aulas, dos atendimentos. a forma de projetar. Aquilo, para mim, me ajudou muito. Me ajudou porque é realmente inspirador. Torna as coisas leves, porque a rotina e a coisa da arquitetura é bem puxada. com ele parecia que era tudo mais leve, mais solto.
E ele era uma pessoa acessível? Você que teve esse contato?
Muito, muito, muito, muito, muito acessível. Incrivelmente acessível, muito bacana. E uma pessoa muito fácil de você interagir, de você absorver e de você assistir o que ele falava. Era realmente... Incrível, é uma pessoa incrível em todos os aspectos, né?
É, eu tive pouco contato com ele.
E aí, isso no começo, quando você tá lá, né, fazendo estágio, sem saber aquilo, é impossível, né, de não impactar. Mas as outras pessoas também do escritório, enfim, o escritório em si era muito bacana. Então, assim, eu dei muita sorte de ter feito um primeiro estágio nota 10 em todos os aspectos. Não só pelo Paulo Mendes da Rocha, mas... pelo escritório, pela turma lá. E depois, mais para frente, entrou o Ângelo, que também aprendi muita coisa de como olhar o projeto e de como se envolver. Acho que esse começo foi muito importante. E, por outro lado, eu tinha os meus pais, que sempre me apoiaram. Nunca, no começo, estavam lá sempre que eu precisava, etc. me deixando totalmente livre, sem influenciar no sentido de querer me orientar ou de dizer o que é bom, o que é ruim, o que é certo, o que é errado. Nesse aspecto, era como se eles fossem qualquer outra coisa, não arquitetos e engenheiros, mas que, ao mesmo tempo, eu sempre precisava e buscava eles, eu sempre tinha um apoio interessante.
E nesse sentido, para você chegar onde chegou hoje, nesses projetos, você acha que esse lado de ter engenharia dentro de casa te ajudou?
Acho que sim, porque os meus pais trabalhavam numa empresa que desenvolvia muita infraestrutura, focada em uma empresa de engenharia. Naquela época, as grandes empresas eram de engenharia, não de arquitetura. E as empresas de engenharia faziam tudo, né? Arquitetura, estrutura, engenharia em si. Eles vêm dessa época da década de 70, 80, onde as grandes empresas de engenharia trabalhavam muito com projetos de infraestrutura. No dia a dia, a gente tem os projetos que estão ali mais palpáveis. Na faculdade, a gente faz de tudo um pouco. Aí você faz um estágio com um escritório, que nem o Aerovio, o MBB e o Palmeiras, que aí tem equipamentos culturais. Essa vivência, de alguma forma, com vários aspectos da construção, acho que me influenciou para querer... Eu achava que ser arquiteto era... fazer tudo, porque, de alguma forma, eu tinha... Não via dessa forma, mas, voltando, você me perguntando, olhando para trás, eu achava que era natural. Tinha estação de metrô, tinha edifício industrial, tinha equipamento cultural, tinha as coisas residenciais, tinha conjunto habitacional, tinha parte de urbanismo, planejamento, paisagismo, urbanização. Então, eu achava que aquilo era o que... Era natural buscar o envolvimento em todas as áreas no começo. Acho que isso me levou a um pouco o que acontece hoje.
E hoje, qual é a atuação de vocês? Eu sei que vocês têm muita infraestrutura, mas, enfim, além dos projetos que a gente vai falar aqui especificamente, como é a atuação hoje em Fernandes Arquitetos Associados?
O escritório é meio esquizofrênico, porque... Eu sempre me orgulhei no sentido de ter, ou não orgulho, talvez seja a resposta, mas sorte de ter tido oportunidade de trabalhar em muitas áreas ou projetos diferentes, que é uma coisa que para mim me motiva muito, de fazer coisas diferentes todo dia. Eu só fui perceber a dificuldade e o que isso representa enquanto negócio Talvez um pouco tarde, como eu já não tinha mais volta, já não tinha como voltar, não tem. Falar, não, eu só quero me dedicar ou vou focar nisso aqui que talvez eu seja melhor. Então, hoje a gente tem uma área de esporte e entretenimento bastante forte, que a gente fez Maracanã e Pernambuco lá atrás, começou e a gente tem muitos projetos nessa área. A parte de transporte, É uma parte que cresceu muito, então, metrô, aeroportos, trilho, todos os tipos de modais nesse sentido. A gente tem 120 estações de metrô, 15 aeroportos. Hoje a gente ainda está fazendo muita coisa, então essa área é bastante forte. A gente tem uma área Hoje que a gente tem uma área de hospitais, hospitalar. A gente fez muitos hospitais, acho que tem quase 3 mil leitos em hospitais gerais. O último que a gente fez foi lá em Caraguá com o investimento do Banco Mundial. Ele inaugurou bem na época do Covid um hospital bem diferenciado. Então tem a saúde, tem o transporte, tem uma parte de urbanismo que a gente tem feito. A gente tem alguns projetos como o Cenar Simatec, que tem lá 5 milhões de metros quadrados, fazer um masterplan, um projeto para uma cidade tecnológica. Mas não é algo, obviamente, comparado com os outros setores. Tem uma parte de mercado imobiliário, de real estate, que não é só a incorporação tradicional, mas a gente tem projetos de tudo um pouco, desde varejo. A gente tem muitos projetos fora do Brasil nessa área. A gente tem uma parceria com o escritório de Abu Dhabi, de engenharia, onde a gente foi em 2016 para abrir uma filial. A gente chegou a abrir uma filial em Dubai. Aconteceu uma série de coisas que eu acho que precisaria de um podcast, o que acontece com o arquiteto brasileiro quando resolve ir para fora do Brasil. A gente pode falar que é uma loucura, mas a gente tem muitos projetos na área de varejo e de imobiliário, de residencial, que lá é um pouco misturado lá fora. E acho que são essas áreas, tem mais algumas outras coisas também.
E aí, quando você resolveu exportar arquitetura, você participou de algum programa, por exemplo, como o Build by Brasil?
Não.
Algo do tipo?
Não.
Foi um processo natural, assim?
Foi. Foi um processo natural. Acho que assim, assim como eu sempre sonhei em fazer todos os tipos de projetos, nem que fosse para experimentar e saber como é que era, né, a gente... Quando a gente fez os projetos dos estádios, principalmente no Maracanã, que deu muita visibilidade, a gente começou a ser convidado para participar de alguns eventos para apresentar os projetos para a próxima Copa. Eventos de estádio, esporte, esse mercado é muito forte lá fora. E tem vários summits, eventos, onde eles discutem tudo que está ligado à operação, exploração, futebol, estádio. Então, eles começaram a convidar a gente. Foi aí que eu comecei a ter contato com outros escritórios, ver que muitos escritórios fazem essa atuação global e que tem essa troca de escritórios dos Estados Unidos fazendo projeto na Europa, fazendo projeto na África, que tem o pessoal na Ásia. Então, assim, comecei a ver que isso era uma coisa que As pessoas estão por aí, e aí eu nunca encontrei nenhum brasileiro, nem nenhuma empresa brasileira, a gente nunca encontrou, e aí por conta minha eu falei, poxa, ia ser legal. Foi ali que acho que plantou uma semente da gente buscar, e realmente nossas primeiras ações foram de tentar vender serviço, foi nessa área esportiva, que a gente no começo não teve sucesso, não conseguiu. Mas foi o que nos fez dizer o que a gente precisa fazer, desde ações, para saber como é que eu chego num outro país, um possível contratante, que é uma coisa surreal. Após a gente ter iniciado esse processo por conta, a gente começou a interagir com a Biofutbol by Brasil, que foi legal, foi uma coisa que surgiu naturalmente, mas os primeiros passos a gente realmente foi meio na loucura, né?
Vôo solo, assim.
É, vamos ver. E totalmente perdido. A gente, por exemplo, poxa, algumas ações. Ah, vamos... Seria legal se as pessoas precisariam falar ou se comunicar bem em inglês no escritório. Então, foi uma época que a gente contratou uma empresa que começou a dar aula de inglês para toda a nossa equipe, para quem tivesse interesse. A gente subsidiando, pagando lá para que a equipe se preparasse. A gente foi tomando algumas ações, por exemplo, básicas de portfólio em várias línguas, todo o nosso material de portfólio, ficha técnica. Então, hoje a gente tem português, francês, espanhol, mandarim. Porque, às vezes, como aconteceu, aparece uma oportunidade, olha, poxa, não sei o que, tenho interesse aqui de fazer um projeto, me manda o seu material amanhã. E aí não dá pra você fazer pra amanhã.
Você já tá preparado ali, né?
Você tem que ter, você tem que estar preparado, você tem que distribuir. Então, algumas ações nesse sentido, que são relativamente simples. E aí, o problema é que a gente não faz ideia do que precisa, né? No nosso caso, a gente acabou descobrindo na...
Na raça.
Na raça, né? E sofremos muito, mas aprendemos bastante também.
Daniel, já que você tocou no assunto Maracanã, eu queria agora falar um pouquinho sobre alguns cases, enfim, de uma forma um pouco mais detalhada, a solução construtiva, como que foi tomado esse partido arquitetônico, enfim. Como que foi o processo de retrofit do Maracanã?
O Maracanã, para nós, é um projeto muito importante em vários aspectos. Projeto que a gente teve que lidar com os desafios técnicos, novamente, enormes de fazer um projeto para algo que é um estádio para a final de Copa do Mundo, que é algo muito específico pela escala, pela exposição que a gente teve, e aí não é uma exposição positiva, é uma exposição complicada na mídia, na imprensa, no público em geral. A gente passou por situações que a gente nunca tinha passado, que não é do dia-a-dia do arquiteto, e também de tecnologia. A gente teve que se reinventar, a gente teve que dar um passo muito grande lá no escritório. O Brasil foi escolhido, o Maracanã, ninguém nunca teve dúvida que o Rio seria escolhido e ninguém nunca imaginou que o estádio da final não seria o Maracanã. Porque você sabe que tem que escolher a Cidade SESC, quem vai fazer só quartas, quem vai fazer oitavas, quem vai para as finais ou semifinais. O Maracanã sempre foi, não é o Maracanã, é o Maracanã. E a decisão de usar o Maracanã foi uma decisão é política, ou seja, óbvia, mas política. Então, ninguém fez uma avaliação técnica prévia, contratou um especialista e falou assim, olha, vamos fazer uma análise para saber o que precisa ter de intervenção no estádio para ele virar um estádio FIFA, o que acontece. Então, isso foi abordado, enfrentado, quando o projeto começou. E a gente já estava com uma boa experiência em estádios, porque a gente vinha fazendo projetos, alguns que nem foram pra frente, mas a gente já estava com um bom conhecimento e essas questões do estádio da FIFA. E a grande polêmica, né? Vai mexer no Maracanã, o Maracanã, um estádio emblemático, etc. Tem muita gente, até hoje, naquela época não existiam os haters, mas a gente às vezes recebe mensagens de pessoas que nos odeiam, porque a gente fez o projeto do Maracanã. E a verdade é que assim, existiam três alternativas. Uma alternativa era fazer um estágio novo, em outro lugar, no Rio de Janeiro, que seria muito ruim para o Maracanã.
Mas que usaria o mesmo nome?
Não, mas falando dentro das possibilidades.
Entendi.
Quais são as três possibilidades? Não que estudaram essas três possibilidades, mas quais são as três possibilidades? Uma seria fazer, ok, deixa o Maracanã ajeitar, não vão mexer, ele não atende a FIFA, vamos fazer um estádio novo. Escolheria-se um lugar, construiria-se, gastava um dinheiro, ia ter um outro estádio e o Maracanã Por que o Maracanã é o Maracanã? Não é só pela história dele, é porque ele tá ativo. Se você pega um equipamento desse e coloca ele em desuso, e ele já tava numa estação de manutenção péssima, o que ia acontecer? Ele ia entrar em desuso, ia ficar decadente, ia ficar... aquela coisa triste, a memória do Maracanã, matéria, falando que tá as moscas, que as coisas estão caindo, que a cobertura vai desabar e assim por diante. A segunda alternativa seria demolir o Maracanã inteiro. Demole e faz um novo estádio, que nem fizeram em Embry. Aí o Maracanã sumiu de vez. E a terceira alternativa seria fazer a reforma. Ou seja, você modernizar o estádio e a maravilha dele tá lá 60 anos, 70 anos e eventualmente ele tem mais 70, mais 50, ou seja, daqui ele com 100 anos de idade ainda tá recebendo jogos e fazendo parte da vida. E é isso que a edificação, essa ligação que as pessoas têm com a edificação é porque ela tá no dia a dia. Se ela vira um mausoléu, deixa de existir, então... Eu acho que nesse sentido, dentro das possíveis alternativas que ninguém nunca parou para pensar, acho que a reforma foi o melhor para o Maracanã. Porque tem problemas de segurança, tem problemas de acessibilidade, tem problemas de conforto. Qualquer estádio que foi construído na década de 50 teria esses problemas. Não é só a questão de atender algumas exigências da FIFA. Uma série de problemas. A condição estrutural do Maracanã estava péssima. As arquibancadas estavam todas corroídas porque fizeram lá, em algum momento, os assentos, furaram por cima, não usaram o chumbador correto, criou os pontos de infiltração, a torcida fazia xixi nas arquibancadas, a calorina penetrou, ficou anos corroído. Então, assim, o Maracanã estava em péssimo estágio de conservação e sem ofertar nada além do que... Ok, tem questões da geral e tudo mais. Então, foi feito esse projeto que a gente não podia mexer na altura do estádio, não poderia mexer na fachada, não poderia mexer na dimensão. Então, a gente tinha que quase que dobrar a mentragem quadrada construída do estádio sem poder mexer no gramado, na altura, no perímetro, ou seja, como é que você aumenta quase 100% da área construída, porque os estádios antigamente basicamente tinham circulações, um pouco de bar e banheiro, era isso. e os estados novos, eles precisam ter muito mais área construída para atender, inclusive, normas de bombeiro e segurança e tudo mais. E os trabalhos das arquibancadas, rever aquela visibilidade, fazer o novo encaixar exatamente com o existente. Olha, o Maracanã tem uma história muito interessante. Tinham sido feitas tantas camadas de piso sobre as lajes existentes que foram fazer uma topografia, tinha curva de nível a circulação do Maracanã. Era uma coisa maluca, tinha 50 centímetros de enchimento, Tinha a buraqueira, que é quando você não concreta direito, fica um buraco, e na concretagem acharam buracos que dava para caber uma pessoa, ainda na época da construção original. Esse processo de fazer o projeto, de aprovar, de saber e medir o que é uma intervenção, o que fica, milhares de reuniões com o patrimônio, com o Ministério Público, pessoas questionando, pessoas que não queriam que o Maracanã, pessoas influentes, embargadores, políticos, pessoas que achavam que o Maracanã não deveria ser mudado, entrando todo dia com ações, representações. A gente tem que fazer projeto e, no meio do projeto, a gente tem que responder, porque o pessoal basculava para a gente. A Imópel, às vezes, O consórcio pessoal recebia essas coisas e precisava responder. Não pode ficar sem responder. Então eu pedi ajuda para arquitetura. Falei, mas como é que eu vou responder? Tem esse lado político e tudo mais. Faz o projeto, apresenta para a FIFA. Então, questões de orçamento, foi uma coisa muito intensa. e a gente muito preocupado, as pessoas não imaginam, mas a gente muito preocupado com o que a gente estava fazendo em termos da solução. Então, as pessoas não fazem mais ideia do que foi o desafio de fazer o Maracanã, de conseguir manter uma capacidade de quase 80 mil pessoas, que nos padrões atuais pede uma área, a questão da visibilidade, não ter mexido no gramado, dobrar a construída, manter os níveis operacionais. Maracanã tem andares existentes que a gente manteve com o pé direito super baixo. As circulações, as ramas. Então foi um desafio muito grande. Muito, muito, muito grande.
E em todo esse processo, as arquibancadas, elas foram trocadas?
Foram. Então assim, a gente imagina que 70% do estádio foi demolido. A gente tem todo aquele anel de fora, um pouco de arquibancada atrás dos gols, e todo o resto da arquibancada teve que ser refeito atrás dos gols. A gente tem um trecho da arquibancada superior que foi mantido, quebrou-se um pouco do balanço, e as novas arquibancadas que passaram a ser paralelas ao gramado, porque quando a gente deixou as arquibancadas paralelas ao gramado, a gente aproximou, que é uma coisa importante nos estádios de hoje, acertou a visibilidade, e a partir do momento que eu movi arquibancada pra longe do perímetro que não pode se mexer, surgiu esse espaço onde a gente cresceu as áreas à metrade. Então, o movimento da arquibancada liberou espaço pra gente aumentar a área construída também. Só que isso a gente só fez nas laterais. Então, as laterais, elas vêm num perfil totalmente novo. E aí elas encontram com o perfil existente que sobrou da arquibancada superior. Mas assim, a inferior 100% refeita, a superior 70, 80% refeita e a gente ainda colocou níveis de camarote, hospitalidade, então assim, de forma geral foi refeito. Só que o que o Maracanã manteve? O Maracanã é um estádio para 80 mil lugares hoje, ele tem duas vezes e meia a altura do Maracanã.
Duas vezes e meia?
O Maracanã, você vê, ele é super grande e ele é bem achatadinho. Porque antigamente era assim que você tinha geral, que saia debaixo do gramado e tal. Como a gente não podia mexer na cota da onde está a cobertura nova, que tinha cobertura existente, todo aqui... Então, quando você olha, o Maracanã parece que ele tem uma única arquibancada. um estágio de 80 mil lugares e tem pelo menos três anéis. E o Maracanã, isso é muito diferente nele. Quando você olha, parece que ele é uma única arquibancada que vai da primeira fila até o final, com 80 mil pessoas num único bolo, num único lugar. Isso é uma coisa muito, muito diferente no Maracanã, que eu acho muito bacana. Você não tem aqueles vários anéis, aquelas estratificações, toda aquela coisa empilhada.
E uma vez eu fui fazer um trabalho para as Béias e eu precisei fazer um voo. Fiquei voando por um tempo ali. Uma coisa que me chamou muito a atenção é aquela cobertura. Como que foi esse processo de construção, por exemplo? O que você usou como solução? E fala um pouco daquele desafio.
A cobertura é algo único no Maracanã e também costuma ser, nos grandes estádios, um elemento muito... emblemático, que acaba dando a identidade, que são elementos icônicos, porque são estruturas muito grandes, com balanços muito grandes. O Maracanã tem quase 60 metros de cobertura, de balanço, flutuando num anel. Então, tem um passo atrás, que é o que fazer com essa cobertura, mantém ou não mantém, faz por cima da existente. Hoje, a gente tem uma cobertura inteiramente nova e quem desenhou essa cobertura foi a SBP, que é uma empresa alemã. que é uma empresa que talvez seja a mais especializada disso, eles têm quase todos os estádios que a gente conhece, tiveram projeto deles, eles são muito bons na concepção disso, então essa estrutura está aí, essa membrana é a estrutura mais leve, imagina que as fundações são as mesmas, aquela cobertura nova está apoiada nos mesmos pilares e na mesma fundação original.
Você teve um reforço?
Não. Não teve. A gente aliviou a carga quando você tira a parte de concreto existente, já alivia a carga. Então, basicamente, a gente trocou-se uma estrutura pela outra. Teve repários, teve um reforço, mas não para a cobertura. O maracanã tiveram vários reforços no sentido de recuperação da estrutura, mas não necessariamente por conta da cobertura. Então tem aquele anel de compressão e aí tem aquela estrutura de cabos que é extremamente leve, quase efêmera, mas os cabos são bastante grandes quando se olha de perto, mas quando aquilo se arma, aquilo é um sistema onde os cabos e a membrana funcionam em conjunto estruturalmente, porque tem alguns sistemas onde a membrana ou o tecido é um fechamento, tipo uma telha. Ao invés de você pôr a telha, você põe uma membrana. Aquele sistema do Maracanã, a membrana é estrutural. Ela faz parte da estrutura. Aquilo funciona, os cabos e a membrana funcionam com uma coisa só, né? Que tá ali suspensa e flutuando. É muito legal. Aquela cobertura realmente é bem interessante.
E você tem imagens, assim, desse processo?
Temos várias imagens.
Então, eu posso anunciar aqui pra quem tá ouvindo, pelas plataformas de áudio, que caso você tenha curiosidade, Vai no YouTube, procura pelo episódio, o mesmo nome que você está vendo na sua plataforma de preferência de áudio, você consegue entender sobre o que estamos conversando.
É um processo bem interessante porque você tem lá vários apoios radialmente. E aquele conjunto de cabos, pra ele ficar daquele jeito, ele tem que ser esticado. É um monte de cabo. Então, eles chamam de Big Lift, que na verdade eles tem lá todos, tem uma série de macacos e drogas, e tem um processo que dura alguns dias, que é transformar aqueles cabos, que são lá aquele bando de macarrão mole ali de aço, naquela estrutura, e aí eles vão macaqueando simultaneamente e tal, até aquilo formar um frame, e depois eles vêm e colocam a membrana. Então, é bem interessante esse processo de montagem desse tipo de cobertura.
E aquela... Aquela é uma telha?
É uma... É um tecido.
Um tecido?
É um tecido que mistura... É o... É... TFE.
TFE.
Que é um tecido que tem fibra de vidro. É um... É bem leve. Tem poucos milímetros, mas é extremamente... resistente, ele é feito para trabalhar tração, esticado, do jeito que ele está lá no Maracanã.
Nossa, que bacana. Continuando ainda, falando de cases, fala um pouco da ligação Estação da Luz-Sala São Paulo, queria que você falasse, contextualizasse um pouco esse projeto.
É um projeto pequeno até, mas que a gente tem bastante carinho. É um dos mais recentes em termos de construção, inaugurou no final da gestão do Dória. E isso era um pedido que já vinha sendo feito e sendo conversado entre os usuários, a Secretaria da Cultura, de eventualmente viabilizar uma ligação entre a Sala São Paulo E a estação da luz, uma ligação direta, onde as pessoas não precisariam sair na rua, caminhar e entrar de novo. Então, uma coisa que fosse uma conexão mais direta e coberta e tudo mais. E aí surgiu essa demanda pela CPTM. A CPTM, obviamente, que é a Estação da Luz, tem a Estação Júlio Prestes, então a CPTM liderou esse processo do projeto. E ali o desafio basicamente era criar, num caminho de 250 metros, numa área que sempre existiu, que sempre esteve lá e que inclusive já foi plataforma num grande trecho, porque hoje a gente tem lá esses trens de 186 metros, mas antigamente as plataformas eram às vezes muito mais longas e era uma área que está rebaixada, porque está numa calha aquele trecho da estação, da cidade. Então, quando você está ali embaixo, você tem uma visão completamente diferente e é uma área que já foi acessível, sei lá, décadas atrás e que hoje era totalmente acesso restrito. Acabou a plataforma da Estação da Luz, dali pra frente era uma área Então, são 250 metros, aproximadamente, de ligação, onde teria que ter uma cobertura, uma passagem, um tratamento daquele espaço existente. E aí vem-se esse desnível, que vai do nível da via até a parte de trás, que é onde tem o estacionamento que foi feito naquela obra da própria Sala São Paulo. Um projeto basicamente como fazer uma cobertura que sai de uma estação tombada muito emblemática e com uma série de cuidados para chegar em um outro bem tombado. E aí a gente concebeu algo que é bem... Pode parecer até meio pobo, mas casa bem. A gente fez uma cobertura que é um trilho invertido. É um trilho no teto que você tem lá. duas perfis que são guias com elementos como se fossem os dormentes e que faz o pergolado e também serve de apoio para a cobertura de vidro. E isso vai se espalhando um pouco, começa bem restrito, estreito, basicamente só vidro na estação da luz, porque a ideia do patrimônio também é que quem está circulando ou próximo da estação não tivesse nada que impedisse a visão da estação. Se você tem um teto de vidro, você consegue ver e não tem nenhuma obstrução visual. E aí, aos poucos, você vai caminhando, você vai adensando os elementos, e aí ele sobe e vira uma estrutura que pega lá a escada do elevador e chega na Estação da Luz, tudo de aço. E o que foi legal também é que ali nesse caminho, que é muito bacana, tinha uma série de construções antigas, de resto de canteiro de obra, enfim, coisas que estavam ocupações que nunca foram desmontadas, e que quando isso tudo saiu, liberou Esse espaço, muros históricos de contenção passaram a ser visíveis. O espaço em si é muito interessante. Quando você anda nesse trecho, você não vê os carros e você vê a cidade completamente diferente. Você não vê o skyline, você vê edificações históricas, você vê árvores, vegetação. O trem passa mais silencioso, devagar, num outro ritmo. Você foi transportado para uma outra época da cidade. Você vê o veaduto histórico por baixo. Você vê toda aquela estrutura, aquela treliça metálica que você não consegue ver da rua. Você passa por dentro de um dos torreões. Você vê a estação da luz de uma posição de baixo que ninguém nunca viu, porque é a posição que, quando o trem vai, é uma área que você não tem acesso. da comodidade, de fazer a ligação para quem vai assistir, ou eventualmente para os próprios músicos, essa facilidade de conexão. É um passeio quase que turístico nesse pequeno trajeto.
E tá aberto ao público ali, quem quiser conhecer.
Tá aberto. Se você entrar ali pela Sala São Paulo, você vai descer. Quando você chegar lá na ponta, na outra extremidade, que é na estação, vai ter uma catraca. Você não vai conseguir entrar na estação se você não passar o bilhete. Mas o percurso você consegue fazer. Quem vier pela estação, pegou, pagou o ticket, desceu pelo trem, vai até o final da plataforma, passa pela catraca, também vai ter o acesso livre e chega lá na Sala São Paulo. E talvez essa ligação pode ser até que ela seja estendida para a Estação Júlio Prestes no futuro, que era uma das ideias também.
Muito bacana, né? Que esse tipo de solução possa ser utilizado aí nos grandes centros porque...
É, garimpar, né? A cidade tem tantos espaços, às vezes. desprezados, esse é um espaço praticamente como... é como se ele não existisse, de repente ele surge, né, e ele tá lá e ele pode se ocupar, acho que tem tantos cantos, pedaços que podem ser reativados, acho que tem muito por aí.
E essa ligação, né, que você usa uma solução construtiva que acaba remetendo ali os trilhos, os próprios dormentes.
É um projeto novo, diferente, tem que ser distinto do histórico, mas é uma oportunidade de, às vezes, criar um... Todo projeto que a gente consegue ter um discurso quase que mais livre, mais poético, esse tipo de edificação, esse tipo de cenário, ele é muito propício para você relaxar um pouco e pensar com um outro olhar. Isso é muito bacana. Isso te obriga a olhar no nosso dia a dia, pelo menos. Tem gente que trabalha com projetos de patrimônio, geralmente, mas no nosso dia a dia, O patrimônio, aliás, a gente fez muita coisa de patrimônio, né? Você começa a pensar o Maracanã e tantos outros projetos, mas é aquela coisa que você para do que você está fazendo e fala, nossa, isso aqui é muito diferente. E é só uma cobertura, mas é uma cobertura que tem uma importância... Super grande.
Cumpre um papel interessante. O Daniel, eu queria que você falasse um pouquinho também do Museu do Amanhã, da sua participação naquele projeto também, que eu reputo muito importante, muito marcante, falando principalmente de cultura.
A gente teve vários projetos nesses nossos 25 anos, vários que foram muito importantes para nós por motivos diversos, como eu já expliquei. O caso do Maracanã, Como a gente trabalha em muitas áreas de atuação, nossa primeira estação, nosso primeiro aeroporto, nosso primeiro metrô, nosso primeiro hospital, a gente tem vários momentos que para nós foram importantes na nossa história. E o Museu da Manhã, além de ser um equipamento cultural, que é algo que a gente não faz muito, quando fomos chamados para fazer o projeto do Calatrava, foi convidado para não conceber um projeto, mas para a gente pegar uma concepção e atuar no detalhamento, na gestão, na coordenação, enfim, fazer um trabalho de pós-concepção. Isso é muito comum no mundo. Aqui, o arquiteto no Brasil Ele só quer saber de conceber. Ninguém quer fazer parceria, não vamos dividir o trabalho, eu faço a concepção, você faz o desenvolvimento, isso aqui é quase que um sacrilégio. Vamos fazer junto? Vamos. O que você quer fazer? A concepção e você. Aí ninguém chega num acordo e não trabalha junto. E ali para a gente, a gente viu que era uma oportunidade de a gente se desenvolver, além da oportunidade em si de se desenvolver num projeto tão emblemático, mas de a gente desenvolver dentro do escritório uma série de outras competências e tal. Então, a gente pegou esse projeto, o desafio de BIM, que a gente começou o BIM em 2007. Então, para a gente foi um desafio. A gente já, nos primeiros, talvez, escritórios a fazer BIM, mas aquele projeto de BIM era algo realmente muito único. Então, esse projeto tem coisas que nunca foram feitas ou talvez nunca mais vão ser feitas de novo no Brasil, em termos de processo. Para você ter uma ideia, a gente dava informações de locação, às vezes, de um ponto de luminária no teto para ser locado pela topografia. Como a gente estava trabalhando no BIM, a gente dava a coordenada de tudo, e é um projeto que não tem nenhuma parede, vertical, nenhuma linha reta, o pessoal da obra começou a extrapolar. Me dá a coordenada do interruptor que acende a luz. Não vou dar a coordenada do interruptor que não projeto posição, implanta, altura. começaram a pedir coordenada de tudo, como se a gente fosse... tudo que fosse na obra fosse ser locado por topografia.
Não, e naquela época você tinha uma dificuldade também, porque não era todo mundo que tinha, por exemplo, facilidade pra trabalhar com BIM, né?
Essa obra foi... esse BIM foi, inclusive, do consórcio construtor na época, que tinha, acho que tinha a Carioca, o Debreche, etc, foi a primeira... Primeira obra, né? A gente fez o Maracanã em BIM, mas assim, onde o BIM estava integrado no processo de construção, o pessoal ficou duas semanas lá com a gente, na época, no escritório, para a gente poder ajudá-los nesse processo, acompanhamento de concretagem e, assim, um projeto que a gente fez um modelo no BIM, totalmente maluco, a gente fazia toda a coordenação e a gente modelou 50 disciplinas no BIM. E não é modelar do projeto, a gente basicamente tinha definido, porque não dava tempo pro projetista de instalações fazer o projeto, passar pra gente, a gente pegar aquele projeto 2D, modelar no BIM, ver se bateu, fazer clash e já tinha acabado a obra. E o subsolo do Museu da Manhã, o projeto Calatrava, não tinha um subsolo técnico. Aquilo surgiu no desenvolvimento do Executivo. A gente tem quase 100 folhas de detalhamento do pipe rack de todas as instalações. Tem até tratamento de água do mar ali naquela região. Então, tem uma parte muito de compatibilização, tem uma parte de gerenciamento, tem uma parte de coordenação, tem uma parte de detalhamento de um projeto do Calatrava. Uma equipe muito grande. A gente chegou a ter quase 20 arquitetos. A gente nunca colocou 20 arquitetos em nenhum projeto.
Em um único projeto.
Em um único projeto. Então, foi uma coisa bastante... A gente aprendeu muito nesse processo. De muita responsabilidade também. E com muitas curiosidades. Então, esse negócio do BIM, com certeza, foi algo... Imagina que você faz um modelo... Tem um projeto de formas. Esse projeto de formas nunca foi usado, porque não dá para você ir com o desenho na obra. e construir uma forma com base num desenho que foi gerado pela forma. Então, esse modelo ia pra empresa que foi contratada pra fazer as formas, que acho que foi a Peri. A Peri pegava esse nosso modelo BIM, fazia um modelo dela, né, pra ela usar dentro do processo de construir, porque essas formas todas foram construídas dentro da fábrica.
Mas na época a Peri já fabricou aqui no Brasil ou fora?
Eu não sei se ela fabricou aqui no Brasil ou fora, eu realmente não tenho certeza. Eu precisaria checar agora, mas foi tudo feito na indústria. Aí eles faziam um modelo que eles iam usar para fabricar as formas, mandavam de volta o modelo deles para nós, a gente sobrepunha o modelo deles com o nosso original para saber que estava totalmente íntegro, perfeito, e a gente dava liberação para ele construir as formas a partir dali. E aí ele construía formas As formas em si eram quase obras... Algumas peças eram 30 centímetros, daria para você pôr em um museu, porque a forma em si, os pedaços de forma para fazer aquela geometria eram coisas malucas, que chegavam lá transportadas de navio ou de caminhão. E aí, o que a obra fazia? Ela tinha que alocar aquilo milimetricamente, aí depois concretava. Então, é um processo muito diferente.
E aquela parte, eu tenho muita curiosidade daquele avanço.
Naqueles balanços gigantescos.
Aquilo ali o que é? Ele simula o casco de um barco, é isso?
É difícil saber o que as obras do Calatrava, ele já começou, tem sempre uma relação com a natureza, com a questão dos esqueletos, dos animais, dessa coisa quase que natural. Eu acho que esse projeto segue um pouco na mesma linha. A edificação é aquela estrutura. Se você olhar o que tem de concreto dentro, em termos de área construída, é bem reduzido. O que realmente dá a dimensão do edifício é aquela estrutura metálica que tem lá 70 metros de balanço para ambos os lados, que tem um apoio central e alguns apoios na estrutura de concreto. É um negócio muito esbelto, inclusive para aquelas dimensões e para os balanços que tem, aqueles elementos que abrem e fecham. Aquilo é uma loucura, realmente.
Antes da gente avançar, você tem algum outro case que você queira citar?
Puxa, tanta... São tantos projetos. Acho que o aeroporto de Nakala, que foi o nosso primeiro aeroporto, um aeroporto pequeno, lá em Moçambique, para um cliente muito diferente, para algo que ajudou a gente a entrar nesse setor, um aeroporto com um terminal pequeno. um aeroporto que hoje circula pouca gente. Ele foi construído não necessariamente por uma necessidade de demanda. Ele tem toda uma questão de contexto do país e da visão que eles têm de que as obras de infraestrutura podem ajudar a desenvolver as regiões, porque Nacala é uma cidade portuária, onde você vive de um porto. E a realidade de um país muito muito pobre realmente em Moçambique, uma situação bastante complicada e o cuidado que eles têm e como essas edificações que a gente às vezes não liga para eles lá são tão importantes. Então esse é um aeroporto que para a gente tem uma importância grande. Os estádios, com certeza, tiveram um papel importante. Alguns projetos que a gente fez lá fora, em Abu Dhabi, em Dubai também, por conta da gente ter vivido uma realidade muito diferente da relação com o cliente. E tem um projeto da China que eu acho que eu gostaria de comentar, que foi uma coisa muito maluca para a gente. A gente estava lá no escritório em 2018, 2019, acho que foi 2019, recebemos uma ligação de uma pessoa falando inglês, falando que era um chinês de uma empresa que chamava Evergrande, que na época eu não sabia quem era, uma super empresa. que aí tá mal das pernas hoje, que todo mundo achou que ia quebrar o planeta, inclusive, perguntando se a gente não queria participar de um projeto de estádio. Eu achei que aquilo era mentira, tinha certeza que era trote, mas aí ele ligou de novo, falou a mesma coisa.
Então, era verdade.
E eu falei, ah, até era, claro, o que é? Não, é assim, a gente quer fazer um estádio e a gente quer contratar pra fazer um estudo. São três alternativas. Falei, ah, beleza, então tá, eu vou te mandar um e-mail. Ele mandou e-mail, uma proposta já toda montada, só tinha que preencher o valor, em chinês, em mandarim, com algumas coisas em inglês. Eu falei, nossa, facilitou a nossa vida aqui, né, deixa eu ver, são três propostas, valor tal, só o conceitual, multipliquei por três, mandei, na mesma, dois minutos ele ligou e falou assim, olha, putz, mas você tá cobrando três vezes igual ao meu preço, variado, não, dá pra dar um descontar, manda de novo, por e-mail, né, com fax, e aí ele falou, não, beleza, vamos Está fechado e você aceita começar a trabalhar sem receber o sinal? Isso assim, durou duas horas. Entre ele ligar para a gente, a gente mandar a proposta, ele negociar e mandar a gente começar. Então assim, eu nunca vi algo em duas horas. Eu nunca vi algo na minha vida. Aqui você vai participar de uma concorrência, de um processo. Se durar seis meses, você dá graças a Deus. O cliente não te dá retorno. É uma coisa maluca, tem que preparar. Eu falei, eu achei tudo muito estranho, mas não tem nada a perder, né? Vou começar a trabalhar, teoricamente ter uma primeira... E assim, um cronograma totalmente maluco, num estádio de 80 mil lugares, com áreas de comércio, lojas, numa cidade lá... da China, com um programa maluco, com um cronograma totalmente maluco, onde em cinco dias eu já tinha que apresentar projeto pra eles, com render, com não sei o que, cinco dias, não dava nem pra começar a trabalhar. Um cronograma de entregas e tudo detalhado, eu falei, mas pode acontecer, já tem uma entrega logo ali, se eles não pagarem, achar que é frio, eu paro, perdi duas semanas de trabalho e não tem nada. Então, comecei a trabalhar, a gente começou a trabalhar, recebeu o material, e aqueles horários e tal, e aí a gente falou, eu vou me preparar muito, eu vou tentar já impressionar o pessoal na primeira reunião, eu já vou levar mais do que normalmente a gente levaria, 4, 5 dias de trabalho, então eu já levei lá alguns estudos, já levei um pouco de modelagem, porque a gente já faz tudo no BIM e tudo mais, E as reuniões começavam meia-noite e acabavam três da manhã, porque era o horário mais cedo que eles poderiam começar a reunião lá. Então, para mim, eu sentava para fazer a reunião meia-noite e meia e terminava três horas. Reunião era lenta, porque falam em traduz, eles falam em mandarim, traduz para o inglês. Eu falo em inglês, o cara traduz em mandarim, etc. E aí, quando eu mostro o desenho, algumas coisas, o cara chega e fala assim, mas acho que tem poucos pilares. Quer dizer, eu não estava nem preocupado com o pilar, a gente estava projetando a arquibancada. Falei, não, mas a gente tá trabalhando há três dias. Pouco pilar, né? É, porque eu tô aqui com o meu engenheiro e ele tá olhando aqui. Ele acha que deve ter uns 50 pilares aí nessa sua imagem. Deve ter pelo menos uns 150, 200. Aí eu comecei a entender que maluquice que era aquela, né? Justifiquei assim. E preocupado com essa questão da cultura, da relação. E assim, trabalhamos que nem uns loucos, né? O chinês faz você trabalhar muito. super, eles foram muito respeitosos, sempre incentivando, uma coisa interessante, o cara sempre incentivando assim. Ele nunca fala, ele nunca fala, eu não gostei. Ele nunca falou assim, não gostei, não sei. Ele sempre chegava e falava assim, tenho certeza que você pode fazer melhor. Então assim, é uma coisa totalmente diferente. Não, tá bom, mas eu sei que se você se empenhar mais, vai ficar melhor ainda.
Muito educado.
Um negócio totalmente maluco. E a gente foi fazendo, foi fazendo opções, opções, opções. Uma loucura fazer aquele negócio. Depois o estádio cresceu para 100 mil lugares, porque tem uma lei lá que você só pode preencher 80% do estádio. Eles queriam ter 80 mil lugares, então subiram para 100. 200 mil de abelho, terreno, estádio maluco. Chamamos o SBP para ajudar a gente no projeto da cobertura e do fechamento. Produzindo material, render e documento, uma coisa totalmente insana. E aí a gente ia produzindo, o cara gostava, mudava totalmente. E aí chegou o momento que a gente tinha que entregar três das opções oficiais. A gente entregou três dessas opções oficiais, e aí eles escolheram uma para a gente seguir para uma próxima etapa. E aí foi quando trabalhamos mais um milhão de horas, mas num período muito curto, reuniões, e pedindo cada vez mais, querendo que a gente ensinasse eles a fazer estádio, quais que eram as regras. Começaram a pedir um monte de coisa que Estava além do conceito. E aí, para não me estender muito, que é uma história muito legal, chamaram a gente e falaram assim, olha, vocês ficaram entre os seis finalistas. Vem aqui apresentar. Peguei o avião, fui para a China. E cada empresa, eles destacavam alguém deles para cuidar, para ser o ponto de contato e tal. E eu conversando com esse cara, que era o Tyler, Ele me contou que eles tinham contratado 20 escritórios no mundo todo e pedido três estudos. Então, eles receberam 60 projetos diferentes. Dos maiores escritórios do mundo, de esporte ou não, desses 60, ficaram esses seis. Além de mim, tinha a Populous, que é um dos mais conhecidos nessa área esportiva, a Gensler, que é o maior escritório de projetos do mundo, a GMP, que é um escritório alemão muito grande, um outro escritório da Alemanha que eu não consegui, conheci um outro escritório da Inglaterra, e eu tinha ido lá apresentar sozinho. Eu cheguei lá, esses escritórios com dez pessoas, metade deles tinha um escritório lá na China também, e eu falei, putz, vim aqui sozinho, e aí a gente fez um jantar, recepcionaram a gente, e a gente ia apresentar no dia seguinte as nossas ideias para o para o chairman, que é o cara que escolhe ir lá. Aí, no jantar, ele falou, olha, tem um imprevisto, o chairman não vai poder vir, mas a gente vai para Pequim, vamos fazer a apresentação lá, ele vai pôr vocês no avião dele e vocês vão fazer a reunião para lá. E aí a gente chegou no outro dia, acordamos de manhã, fomos para o aeroporto, o avião dele era um Boeing, entramos lá, e aí ele falou assim, mas só pode ir dois de cada equipe. Então, eu já fiquei em menos de saltar. Porque todo mundo que foi com uma equipe grande teve que deixar pra trás. Então, você ficou dois e eu sozinho.
Você falou, deixei eu lá pra economizar espaço.
Já deu uma equilibrada. Chegamos lá, fomos recepcionados, fomos lá, fizemos uma conversa. Aí, uma mesa gigante. Obviamente, não pode usar celular, não pode usar nada. Ele pediu que cada um fizesse uma defesa oral do seu projeto ali na reunião, na hora. Tinha todas as pessoas da empresa, o Sherman, todo mundo. E, sei lá por quê, me deixou por último. Então falou um, falou outro. E eu fui vendo o que cada um foi falando. E aí a pessoa terminava de falar e o Sherman dava um feedback. E ele ia lá e... né? Educadamente, mas... Porque eu falo, ah, a gente pensou na cultura da China, não sei o quê, não sei o quê. Não tem cultura da China nada, o estádio tem que parar, não esquece disso. Ah, eu pensei na receita, na exploração, na melhor operação, no negócio. Que negócio? Aqui na China a gente só tem prejuízo com o futebol, os ingressos são quase de graça, a televisão não paga nada. tem que pagar o dobro para o jogador e para o técnico. Então, tudo o que as pessoas iam usando para... Foi bom ficar por aí. Tudo o que eles iam usando para tentar dar suporte no discurso, ele ia rebater.
Você ia eliminando da sua apresentação.
E eu fui tendo tempo para pensar. E aí, quando chegou na minha vez, eu fui para o lado emocional. E eu não lembro bem o que eu falei. E os caras adoraram. O cara chegou e falou que se deu bem. Me deixaram por último. Fizemos isso e ele falou que não ia ver projeto nenhum. A gente não fez a apresentação do projeto. Na verdade, foi essa defesa oral. Porque eles tinham impresso todos os painéis numa galeria. E o que ele fez no final da reunião? Quando a gente achou que tinha terminado, que a gente já trabalha milhões de horas, Eu tenho certeza que vocês podem fazer melhor. E aí, assim, os europeus, esses mega escritórios ficaram meio... Meio incomodado, né? Eu, que sou um ninguém, eu tava tranquilo. Falei, ah, vamos continuar fazendo isso. Tô adorando trabalhar com esse negócio aqui, fazer isso e tal. Já fiz 30 opções. Mas o pessoal ficou incomodado. A gente foi almoçar, o pessoal rindo. Pô, vamos fazer o quê? Vamos ter que fazer mais e tal. E era pra gente voltar pra apresentar isso no dia... Essa revisão no 24 de dezembro. Eu pensei, ah, não, vou perder meu Natal. Mas o cara quer que a gente venha aqui, né? Porque são grandes empresas. Eu ali só escutando. A gente acabou não voltando porque foi quando a China fechou por conta do Covid. Então a gente ia voltar a fazer a apresentação final e não fez. A gente continuou fazendo um trabalho, uma rodada, elaboramos. Eu já não tinha mais o que fazer no meu projeto. Mexi na implantação, não tinha mais o que mudar. E aí foi que, um belo dia, os caras me lêem e falam assim, ah, a gente queria te avisar que você ganhou. Falei, como assim? Ganhei? É, ganhou. Ah, que legal. Não ganhei nada, porque não ganhei. Escolheram o projeto. Então foi um processo de conhecer como eles pensam, de como eles investem, de como eles incentivam a arquitetura. Essa questão de contratar os projetos, de não pedir para fazer as coisas no risco. Essa maneira interessante de... de fazer você trabalhar que nem um louco e você gostar de trabalhar que nem um louco, porque, na verdade, o cara tá quase que te incentivando, sabe?
O cara tá ali... Feedbacks, assim, a forma como dá feedback.
É, e uma educação, uma coisa, um respeito, sabe? Uma coisa que a gente tá zero acostumado. Fiquei muito bem impressionado com o profissionalismo e com a maneira de lidar e com essa relação muito respeitosa. E, realmente, eles trabalham de segunda a segunda, não tinha sábado, não tinha domingo, não tinha horário. Sempre assim, olha, você pode, pensa, é importante. Apresentações, coisas malucas. Então, foi uma experiência muito legal.
Muito bacana. Daniel, e antes da gente encerrar, passar aí para que você fale suas palavras finais, a gente tem o quadro Convidado Convida. Quem que você gostaria de ver aqui, enfim? Qual a sua contribuição com a audiência do Construecast?
Eu comentei no começo da minha primeira experiência como estágio, que foi muito marcante, e aí eu lembrei do Ângelo. O Ângelo já assisti depois algumas apresentações, fui a alguns eventos, assim como... Putz, eu adoro ouvir o Ângelo falar, as coisas que ele tem pra passar. Eu acho que é um cara incrível, genial e tudo mais. Então, fazendo essa conexão com o meu primeiro... primeiro contato com a arquitetura de verdade, com o meu primeiro estágio, eu acho que o Ângelo é muito bacana escutar, seria muito legal.
Convidei ele pra você, pra aquela câmera.
Não sei, Ângelo, se você puder, vai ser muito bacana ouvir você falar sobre arquitetura, é muito legal.
Eu tenho certeza, eu tenho certeza que pode.
Ótimo.
Fiquei curioso também, é uma pessoa muito... cara incrível que também gostaria de... Cheio de histórias, né? Cheio de histórias. Muito legal. Gostaria de ouvir mais. Daniel, dá as suas palavras finais aí pra... antes da gente encerrar, o que que você... Enfim, durante toda essa trajetória, o que você aprendeu e o que você passaria para essa nova geração de estudantes? E, principalmente, falar um pouquinho também dessa conexão de arquitetura-obra, ou seja, toda a cadeia como um todo, da importância dessa conexão e nunca criar muros.
Primeiro, acho que essa oportunidade foi muito bacana porque Quando a gente revisita, relembra tantas coisas, isso até mexe um pouco com a gente, porque é muito tempo, a gente passa por muitas situações legais, outras... Enfim, é tudo muito intenso, então essa oportunidade foi muito interessante. E com relação ao que você falou, É absolutamente fundamental. É uma questão muito complicada. Primeiro, essa questão de quem está... Eu acho que a arquitetura é uma maratona. Se você começa nessa profissão ou em algum... Seja pra profissão, carreira ou próprio projeto, não é uma prova de 100 metros raso. Então você tem que entender que isso é um... É uma prova de longuíssimo prazo, e nesse percurso vai acontecer de tudo. E tem que ter essa visão de que as coisas vão ter um grande tempo para acontecer, sejam elas o que forem. E essa coisa com o arquiteto, eu sinto que no Brasil o arquiteto Ele está apartado da construção. Mas não é o arquiteto. Acho que as partes da construção como um todo são muito desconexas. em todos os tipos de projetos. Em alguns projetos o arquiteto está separado, outros projetos a engenharia, outros projetos o construtor, outros projetos o investidor. Existe sempre um conflito, uma dificuldade de que isso funcione em conjunto como normalmente deveria acontecer ou como acontece em muitos lugares. Isso afeta muito o sucesso. do empreendimento, o sucesso do que se realiza. Eu projetei coisas que eu gosto muito, que a realização ficaram muito ruins, muito tristes com isso. Tem projetos que você faz que nunca vão ser construídos, tem outros projetos que algumas coisas acontecem que você chega a pensar, precisa ter sorte nessa versão, não é possível. Você faz tudo o que tem que fazer, quer dizer, tem uma série de condições a algo totalmente tectal e aí você tem a sensação que Dar ou não dar certo quase que depende da sorte, mas é por conta de que não existe um trabalho conjunto de fato. Não existe. Seja de objetivo, seja o arquiteto não estar envolvido na obra. Claro, tem algumas áreas onde o arquiteto está na obra, talvez reforma. mas ele está totalmente apartado. Tem projetos que a gente faz que o cliente, ele dá graça a Deus se a gente não for, porque a gente vai querer saber se envolver. Então, eu não sei como que a gente reconquista isso, eu realmente não sei. Eu acho que falar de materiais, de processo construtivo, o arquiteto tem que ter, isso que vocês promovem, de pôr todo mundo junto. Isso é tão importante porque essas coisas se encaixam. Você, quando passa esses anos todos, olha se realmente essas coisas se encaixam. Aquelas coisas que você acha que não têm relevância, ou que você acha que não tem nada a te agregar, ou aprender, ou vivenciar, ou que é secundário. Depois que você ganha experiência, você vê que aquilo tudo faz parte de um quebra-cabeça. Essas pecinhas que estão faltando, você monta um quebra-cabeça de 5 mil peças maravilhoso e aí faltam três peças em lugares que... Você fecha os olhos e fala assim, não quebra a cabeça grande, mas você não consegue deixar de ver.
Falta algo.
Falta algo. E assim, cada hora é uma coisa. Uma hora é na borda, outra hora é no miolo. Então, não sei o que fazer, mas... É muito terrível isso aqui, sabe? É muito cruel com as próprias obras e com os empreendimentos.
É, eu... A ideia, né, do ConstrayCast é justamente isso. É de você dar voz a essas pessoas, porque eu acho que a gente só consegue consertar algo. Eu acho que toda relação... Precisa, de fato, existir os conflitos, mas quando só um lado fala e o outro ouve, você nunca consegue consertar nada. Então, acho que o propósito do ConstructCast é isso, é unir, é dar voz ao arquiteto, ao engenheiro, aos profissionais. Enfim, acho que toda a cadeia, desde o investidura até aquele cara ali que está projetando.
Eu não falo como vítima, acho que o arquiteto tem muitíssima responsabilidade. pela situação que a gente está hoje. Não adianta falar assim, ah, o cliente, ah, não sei o quê. Não é, na verdade, não é. É uma situação que se formou, né, e difícil, mas assim, ao mesmo tempo, significa que a gente tem muita oportunidade.
Sim, acho que a gente tem um caminho.
Muita, a gente tem como ir pra frente. Imagina, você tem lugares que você faz projetos que você fala assim, não tem o que o cara melhorar. O processo já está tão redondo, sai tudo direitinho. A gente tem muita coisa, muito campo. Isso afeta a tecnologia, afeta tudo. Esse é o lado que eu vejo positivo, de você ter um mundo de coisas para a gente melhorar, conquistar e abrir frentes, etc. mas a frustração está no outro lado.
É importante viver esse processo. Então, enfim, mais uma vez eu quero agradecer a sua presença aqui, brilhantando ainda mais o nosso canal. E trazendo aí conhecimento, acho que foi um bate-papo de fato muito rico, e eu tenho certeza que quem está tendo a oportunidade de ouvir ou assistir, de alguma forma sai transformado. Então, você que me ouve, que assiste, é muito importante sua participação, comenta de onde você está falando, dá sua opinião, inclusive você pode sugerir convidados, isso é muito importante, porque esse canal é de todos. Um abraço e até o nosso próximo encontro aqui no Constricash, o canal que unem toda a cadeia da construção, arquitetura e engenharia.
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