Sua Linha de Vida Está Segura? Entenda NR 35, NR 18 e NBR 16325 na Prática

In this ConstruCast podcast episode, host (Speaker A) interviews Germano, a safety professional with over 15 years of experience in industrial and construction fall‑protection systems. Germano recounts how his early exposure to construction through his father and work at a chemical anchor manufacturer led him to specialize in lifelines and anchor points. The conversation delves into the technical definition and mandatory specifications of anchor points (ponto de ancoragem), including material (stainless steel), load capacity (≈1500 kgf), traceability markings, and the regulatory thresholds set by NR‑18 (buildings >4 m or 12 floors) and NR‑35 (any work >2 m). They discuss how anchor points must be integrated during architectural design, the differences between new construction and retrofit projects, and the need for structural analysis when adding anchors to existing structures. Germano highlights common installation errors, especially regarding chemical anchors (chumbador químico) – depth, diameter, and manufacturer‑specified resistance – and stresses the importance of safety factors. The episode reviews the interplay of three standards (NR‑18, NR‑35, NBR 16325) and how they define anchor types, lifeline categories, safety factors, and free‑fall zones. The market’s perception of anchors as either accessories or essential safety systems is examined, with Germano asserting they are mandatory collective protection devices, not structural elements. Legal implications are explored: lack of lifelines can trigger labor lawsuits even without an accident. Practical aspects such as provisional versus permanent lifelines during construction, placement strategies for multi‑storey buildings, and considerations for wood structures are covered. The dialogue ends with a call for cultural change, greater awareness among architects, engineers, and safety technicians, and concrete advice – proactive planning, adherence to standards, and avoiding improvisation – to prevent falls, which account for the majority of construction‑related fatalities in Brazil.
Chapters
Quando falamos em segurança na obra, segurança na indústria, muita gente olha para cinto de segurança, linha de vida, mas isso pouco importa se você não prestar atenção no item principal que você vai conhecer hoje neste episódio.
ConstruCast Arquitetura e Engenharia de Construção.
Este episódio é um oferecimento Hub e Construção. O convidado de hoje tem mais de 15 anos de experiência nesse segmento de segurança industrial e construção civil. Germano, seja bem-vindo a mais um episódio aqui no ConstruCast.
Prazer, muito obrigado, boa tarde a todos.
Germano, conta pra gente como que você entra nesse, fala um pouquinho da sua história, né, como que você entra nesse segmento tão desafiador que é cuidar da vida das pessoas na indústria e nos canteiros de obra.
Bacana, a minha história dentro da construção civil ela começou ali com meu pai. Ele já começou introduzindo em obras já desde pequeno, e eu sempre tive essa paixão por construção, grandes empreendimentos, etc. Até que eu trabalhei na Hard. Conhece a Hard?
Não.
É uma empresa que ela fabrica sistemas de chumbador químico, ancoragens, para construção civil. É uma concorrente da Fischer, da Hilti, etc. E lá eu fui conhecendo diversos produtos e mercados, e aí eu descobri esse universo de linha de vida, sistema de segurança para trabalho em altura. E eu acabei me apaixonando, gostei, me identifiquei com o produto, fui estudar, e aí comecei a trabalhar. E desde então, fazem 15 anos que eu trabalho diretamente com isso. A gente hoje trabalha com alguns players do mercado E a gente fabrica, instala, a gente tem toda mão de obra especializada nisso.
E quando a gente fala de segurança, muita gente, como eu falei no início, a gente olha mais assim para o cinto, para a linha de vida, mas o que realmente importa? O que realmente a pessoa tem que se atentar na hora de construir um prédio ou fazer uma manutenção industrial?
Olha, são vários pilares ali que garantem um trabalho seguro, né? Seria difícil a gente elencar apenas um. Mas todo cuidado com EPI, partindo do EPI, que é a análise do cinto de segurança, já é um bom começo. Posterior a isso, se a gente for falar em sistemas de linha de vida, quando a gente vai projetar, fabricar um sistema, instalar ele, a gente tem que ter um cuidado muito grande dos materiais que a gente vai colocar na solução. E aí existem vários critérios que a gente utiliza para dimensionar uma linha de vida. Fatores de queda, o sistema estrutural que a linha de vida vai ser instalado, a absorção de energia do impacto que vai ter essa linha de vida no sistema estrutural, o impacto que o colaborador vai ter quando sofrer uma queda. Então são vários, vários componentes. Eu brinco que a linha de vida, ela envolve várias engenharias, porque eu tenho a engenharia mecânica, a engenharia civil, eu tenho a engenharia química ali, porque eu tenho materiais, vedação. Então eu tenho vários componentes juntos num sistemas, um sistema que aparentemente era tão simples e ele acaba sendo bem complexo conforme a gente vai destrinchando ele, ao ponto de a especificação do material ela tá muito ligada à região que eu vou instalar ele. Então, ah, vai ser inox, vai ser um sistema com uma pintura galvanizada, etc.
E como que você traz ele até você? Antes da gente gravar, você falou que o ponto de ancoragem ali é o ponto principal onde a gente tem que dar maior atenção? Por quê? O ponto de ancoragem, eu tenho aí, só para, como nosso público também, ele, às vezes a gente fala com público, ele é tomador de decisão, mas ele é leigo. Então é importante que na sua resposta você coloque o que que é um ponto de ancoragem.
Eu não trouxe um aqui, mas vamos lá. Ponto de ancoragem, ele é um dispositivo confeccionado em aço inoxidável. Ele precisa resistir a 1.500 kgf. Na composição do olhau de ancoragem precisa ter o nome do fabricante, o CNPJ, lote, rastreabilidade, a quantidade de pessoas que vai trabalhar e um holograma de identificação nele. Então isso é um olhau de ancoragem. A gente instala ele na edificação em todo o perímetro de um prédio, para um pintor, uma pessoa, uma empresa de balancim poder instalar um balancim e fazer uma manutenção de fachada. Então esse é o ponto de ancoragem, são as principais características. E onde ele aparece, a obrigatoriedade dele aparece na NR-18. Lá ela determina que toda edificação acima de 4 metros ou 12 pavimentos precisa ter um ponto de ancoragem. E a NR-35 determina que toda atividade acima de 2 metros precisa ter um sistema de prevenção contra queda. Então elas são correlatas ali e é o que dá vida a esse segmento, a esse universo do sistema de linha de vida e sistema de ancoragem.
E como que isso, a atenção a esse detalhe de ponto de ancoragem, pode resolver, ou seja, pode evitar problemas graves, né, como uma queda.
Total, tem muitos, tem muitos. Todo edifício, isso a gente tava conversando, todo prédio acima de 4 pavimentos ou 12 metros precisa ter dimensionado nele ou previsto um ponto de ancoragem ou linha de vida. Então arquiteto, quando vai prever um projeto de um galpão, de um edifício comercial que ele considera abaixo de 4 metros, Já tem que ter, além do telhado, painel fotovoltaico, precisa ter o sistema de linha de vida, o ponto de ancoragem.
Por quê?
Eu preciso prever como que eu vou fazer manutenção nesse telhado ou como que eu vou fazer manutenção nesse edifício, de limpeza de fachada ou pintura de fachada. Então, o projeto já tem que nascer com isso.
Isso já nasce na arquitetura?
Dentro da arquitetura. Não é o engenheiro que precisa se atentar a isso.
Geralmente— Desculpa, isso entra no cálculo estrutural depois, na engenharia?
Então, dentro da arquitetura há uma concepção e no detalhamento de projeto é feito o cálculo estrutural, porque o arquiteto ele chama empresa especializada e aí nós temos mais de 50 produtos que nós dimensionamos em diferentes locais que se aplica a pro prédio. Tá, e aí nesse processo de especificação de um tipo de ancoragem específica, quando eu enquanto arquiteto, enquanto construtor, determino o tipo de solução construtiva, por exemplo, se esse edifício vai ser entregue em alvenaria estrutural ou metálica ou madeira, a escolha desse ponto de cimento, desse ponto de E agora me fugiu o nome. É o ponto de ancoragem. Ele muda de acordo com o processo construtivo que eu tô utilizando naquele prédio. Eu tenho um caso muito emblemático que foi da Noa. Você já ouviu falar? Então, ela tava fazendo edifício em madeira na Vila Madalena e ela nos procurou. Falou: olha, meu edifício é todo em madeira, como é que eu vou colocar ponto de ancoragem aqui? E eu tenho outro caso emblemático que foi o estágio do Pacaembu. Que nós fizemos sistema de linha de vida dele, e lá a estrutura era toda em madeira. E aí o desafio foi: como que eu vou projetar um sistema de linha de vida e pontos de ancoragem na madeira? E aí a gente tem hoje soluções para madeira, tanto de ancoragem, de linha de vida, porque a resistência mecânica da madeira é tão boa quanto do aço.
Então não é um impeditivo para eu colocar ou não um ponto de ancoragem. Ela tá apta a receber, porém eu preciso de sistemas e componentes corretos para ela. Tá, e quando você traz um ponto específico desse, né, que você entrou ali nesse processo de construção ou de manutenção, muitas vezes esse prédio que foi construído, ou sei lá, de repente é um retrofit, e ele de repente passou por um processo industrializado, esse ponto de ancoragem ele precisa nascer na indústria dependendo da situação, ou ele é colocado direto no canteiro?
Direto no canteiro, tranquilamente. Eu tenho muitas obras de retrofit, no caso, que eu coloco sistemas de ancoragem. Sesc Consolação, por exemplo, ali do lado do Mackenzie, a gente colocou mais de— não vou me recordar quantos pontos de ancoragem, mas foram bastantes, e o edifício já tinha mais de 30 anos. A gente colocou lá Mas é feito o quê? Uma análise estrutural. Por quê? A NR 18, ela determina que o ponto de ancoragem precisa ser acompanhado de um projeto estrutural. Para uma obra nova é fácil, eu tenho lá um projeto estrutural da construção, tá fácil, sai, nasce. Quando não tem, eu tenho que elaborar um projeto estrutural daquilo. O que que é? Eu preciso saber qual que é aquela laje, que tipo de viga, onde estão os pilaretes de laje, aonde tá amarrado, para eu conseguir colocar minha ancoragem no lugar correto. Então hoje eu tenho uma demanda alta de edifícios que vão precisar de manutenção, que síndicos nos procuram, que eles falam: olha, eu preciso de ancoragem porque eu vou ter uma equipe de pintura mês que vem aqui. E eles pediram ancoragem para mim.
E quais são os erros mais comuns que você já presenciou na execução do sistema de ancoragem?
Olha, alguns. Vamos lá, vamos começar pelos materiais. O chumbador químico, na grande maioria das vezes, a gente tem alguns tipos de chumbador químico. Sabe o que é chumbador químico? É aquela cola bicomponente à base epóxi. E aí o chumbador químico, ele—
só uma coisa, esse chumbador ele precisa ter uma profundidade mínima?
Qual que é a norma que rege esse? Como que eu controlo isso? Sim, sim, o fabricante do chumbador químico ele determina via boletim técnico a resistência mecânica conforme o embutimento do furo. Então vamos supor, eu tenho um furo de meia polegada e aí o meu chumbador químico vai ser embutido 14, 15, 20 centímetros. Para cada profundidade, diâmetro, eu tenho uma resistência mecânica. Então vamos supor, eu tenho um chumbador de meia polegada, aço meia polegada, no furo de 14, aonde eu vou embutir 15 centímetros. Quando eu olho no boletim técnico do chumbador químico eu vejo a resistência que eu tenho de arrancamento. E aí, quando aumenta o diâmetro e profundidade também, então uma polegada, duas polegadas. Então quem determina isso, a resistência, é o fabricante de chumbador químico. Claro que o fabricante das barras roscadas e dos prisioneiros ou das ancoragens que vão ser chumbadas tem, mas são super, são muito superiores. O elemento mais frágil desse componente é sempre o chumbador químico. Então a gente sempre tem que se atentar ao que o fabricante de chumbador químico especifica. E vale lembrar que há um coeficiente de segurança. Quando ele especifica que lá resiste tantas toneladas, você olha lá em letras miúdas, há um coeficiente de segurança que ele majorou.
Então aquilo já tá com coeficiente de segurança. É quando você tem a especificação ali do peso que esse chumbador vai resistir O peso do operador, ele tem algum tipo de influência?
A gente, é por isso que a ancoragem ela tá hiperdimensionada, porque a ancoragem ela tá dimensionada para 1500 kgf, ou seja, eu posso pendurar 1500 kg, ou seja, isso daria o quê, 2 Fiat Uno pendurado, mais ou menos 700 kg, por aí, vamos colocar aqui um Uno pesa 700 kg aqui, o colaborador ele vai pesar 100 kg, caso ele caia com a distância da queda, o impacto, com muito lá vai chegar a 450, 600 kg, ponto. Mas a altura também influencia, influencia a queda livre, força versus a velocidade versus gravidade ali, a queda. E aí o que que eu vou ter? Um caso de ancoragem para balancim, o balancim com duas pessoas, etc., geralmente eles especificam 800 kg. Então, e claro que eles não vão colocar tudo isso, 800 kg, em uma ancoragem. Eles vão dimensionar em 4, 6, geralmente. Então é hiperdimensionada ancoragem justamente para ela servir como um item de segurança individual caso tenha um colapso mútuo. Então se as ancoragens de um sistema de balancim romperem, uma ancoragem vai resistir, ela tem que resistir o mesmo sistema. Eu já vi isso acontecer.
E o mercado, ele enxerga essa parte de ancoragem como acessório ou como um sistema estrutural?
Como que está vendo isso hoje? Não, hoje eles enxergam o ponto de ancoragem como um sistema de segurança obrigatório. Como extintor.
Mas fazendo como parte do sistema estrutural do prédio?
Não, como um sistema de, é um complemento para futuros de limpeza e manutenção do prédio. Então ele sempre olha, olha, eu preciso deixar pontos de ancoragem futuros para limpeza e manutenção do prédio, não estrutural, porque a gente não usa ele como um item que vai ajudar na estrutura do prédio, algo do tipo, mas sim como um item que vai auxiliar na manutenção e limpeza do edifício. Então hoje as nossas conversas com arquitetos e projetistas é, ó, como que eu vou fazer a limpeza nessa fachada ACM, nessa fachada pele de vidro, como que eu faço para uma corda passar por aqui e não amassar, etc.
Bacana, agora vamos falar um pouquinho das normas, né? Antes de falar de norma, quero agradecer o apoio do nosso patrocinador Portal Hub Construção, que inclusive lá tem muitos conteúdos para você que quer aprender sobre normas, sobre materiais e soluções para o mercado da construção. Agora, de forma resumida, Qual que é o papel da NR 18 na questão de segurança no canteiro de obra?
Olha, ela tem vários itens ali que ela vai falar sobre escada, cremalheira, muito relacionado à altura, itens relacionados à altura, mas o que a gente mais se foca é no ponto de ancoragem, que lá ela destaca a questão das características e da escada marinheiro também. Então ela vai trabalhar muito o que é uma ancoragem, as características dela, o que que é uma escada, as características dela, como ela aborda também a questão da grua, da cremalheira. Então ela é mais voltada para questão de itens que dão acesso a trabalho em altura ali.
E a NR-35?
Também, ela também faz essa relação para trabalho em altura. Eu tenho, ela determina ali o que que é uma linha de vida, as características, os tipos de ancoragem que eu tenho, A, B, C, D, Delta. E aí ela determina fator de segurança, zona livre de queda, a altura mínima por um trabalho. Então a NR-35 aborda isso, elas são correlatas, eu falo, uma complementa a outra. E aí eu tenho também as três, né, vamos falar que as três tem uma, uma complementa a outra, é 16, NBR 16325, a NR 35 e a NR 18. Então a NBR 16325, NR 35 e a NR 18.
E qual o papel da NBR 325 nesse?
Ela também, ela aborda bastante os tipos de dispositivos de ancoragem. E aí eu tenho ABCD. A NR 35 vai abordar a questão do trabalho em altura, da linha de vida E a NR18, ela entra bastante na questão da ancoragem, tá?
Entendi. E vamos falar um pouquinho de— tem alguma pergunta que você gostaria que te fizesse? É só para não esquecer, já que a gente agora tá saindo um pouquinho de normas.
E vamos sim, como que o mercado— o que que é uma linha de vida para quem não é desse mercado? Como que você vê isso?
Como que é uma linha de vida? Eu como leigo, é A linha de vida é aquele, é um cabo de aço, né, que fica esticado em todo o perímetro da obra ou de alguma indústria onde eu vou fazer algum tipo de... Ah, eu tenho uma carreta que está sendo carregada. Eu tenho uma linha de vida que fica ali acima daquele ponto daquela carga. Tô com cinto de segurança, prendo esse cinto na linha de vida e executo aquele serviço com segurança.
É isso mesmo.
E na obra, como que isso funciona?
É bem isso, é um sistema de cabo de aço Que aí eles vão, como disse, né, na NBR 16325 ela fala sobre vários tipos de linha de vida, né? E aí, como você disse, eu tenho a linha de vida para caminhão, que são os pórticos. Eu tenho linha de vida, sistemas de linha de vida que são os trilhos, que é para quem vai fazer uma limpeza e manutenção numa fachada de um prédio também. Então é basicamente isso, tem vários.
Germano, e na construção civil a gente tem, enquanto essa obra está sendo construída, a gente tem aqueles pontos de linha de vida, né, que fica ali, o prédio tá subindo, são colocados, né, aqueles pontos de ancoragem provisórios. Naquelas situações acontece em algum caso, ah, eu tenho uma coluna que tá subindo e naquela coluna eu já ter pontos de ancoragem definitivo?
Então, a gente não coloca—
ou é sempre no topo, lá em cima do prédio?
Enquanto tá subindo? Isso. Vamos supor, eu vou ter 20 pavimentos, no 4º pavimento eu já tenho.
É, no 4º pavimento geralmente eu já tenho ali uma linha de vida para enquanto esse operador tá executando, eu posso ter material ali, ele tem aquela linha de vida para esse processo durante a obra.
A provisória eu vou subindo conforme eu vou avançando as lajes.
Sim.
A definitiva a gente coloca é sempre que a última laje Eu primeiro começo da última laje e aí eu vejo aonde minha prumada ali, meu pano, vai atender. E vamos supor que eu tenho um edifício retangular, mas no quinto pavimento, no quarto pavimento, eu tenho uma piscina com borda infinita que avança 12 metros. Lá nessa região eu preciso prever outra ancoragem, porque de repente o prédio continua ali por baixo, etc., um edifício garagem. Então eu sempre vou colocar dos aonde eu tenho uma altura acima de 12 metros. Então o prédio tem, vamos colocar uma conta fácil, o prédio tem 100 metros. Do desse pavimento até o de baixo, que é onde eu tenho uma outra laje, eu vou ter 20 metros. Então precisa essa ancoragem dessa laje agora que eu venci eu tenho mais outra laje embaixo, eu tenho mais 20 metros, aí eu também vou precisar de ancoragem ali.
Isso porque aquele cabo, imagina que eu tô descendo, depois eu tenho um avanço, esse daqui eu já não consigo mais utilizar, porque quando eu tenho esse avanço, imagina, eu tô descendo ele aqui, aí eu tive um avanço e o cabo, esse cabo de aço vai pegar na estrutura da fachada. Então eu preciso criar um outro ponto de ancoragem.
Exato. Pra ir vencendo.
Sim. E aí, tudo isso também é definido na arquitetura?
É na arquitetura o melhor lugar, porque a gente vai ver como que o sistema vai interferir com a fachada, com os componentes, com o paisagismo. Eu tenho questões ali que às vezes os arquitetos conversam comigo: "Olha, mas eu tenho uma floreira bem aqui, como é que eu faço?" "Ah, eu tenho a questão da impermeabilização, que solução que eu uso?" "Ah não, você vai colocar uma ancoragem, mas eu tenho um guarda-corpo aqui." "Ah, nesse ponto não dá porque eu tenho um ACM, a corda não pode encostar aqui." E agora nesse ponto que você fala, né, dos materiais, eu particularmente visito alguns prédios e eu nunca vi ponto de ancoragem.
Como que vocês trabalham isso para deixar ele invisível?
Invisível, você diz? Ah, porque não tem.
Porque eu nunca vejo.
Nesse caso acho que não tem. É porque assim, hoje o sistema de ancoragem ele está nascendo já nos edifícios. Edifícios 15, 20, é porque a norma é de 2006, ela é nova. Então a gente não vai ver edifícios 2000, 1900 e tal. Então os edifícios novos já nascem com um sistema de linha de vida e ancoragem, edifícios residenciais. Agora, quando a gente fala em galpão, indústria e setores logísticos, quando é galpão, vamos colocar indústria alto padrão, de grandes marcas, vamos falar, uma Nestlé, uma Heineken, e esses projetos são feitos por grandes escritórios de arquitetura, provavelmente ali vai ter uma linha de vida nesses pontos de ancoragem. Então também galpões novos estão nascendo, nascendo com linha de vida. E por que muitos deles já estão nascendo com painéis solares? E hoje você precisa fazer manutenção e limpeza neles também. Além da calha do edifício ali, do telhado. Então a gente já coloca a linha de vida para manutenção, limpeza dos painéis solares também.
Tio Romani, qual que é a importância da linha de vida quando a gente fala em processos trabalhistas? Porque isso é um ponto forte se a pessoa alegar que não teve ali, ah, eu trabalhei naquela empresa e eu não tinha equipamento de proteção coletiva de acordo com a minha, com o meu como que eu executava, né, de serviço ali naquela indústria, naquele prédio.
É, isso daí a gente tem reparado quando a gente visita alguns clientes, porque a gente sempre faz uma pesquisa em campo. Por que que você decidiu colocar linha de vidro? O que houve? E aí a gente reparou que muitos advogados estão entrando com ação trabalhista Porque como eles não conseguem alegar que a empresa não dava EPI, eles alegam que a empresa não fornecia EPC, que é equipamento de proteção coletiva. E aí, se o funcionário fez alguma atividade no telhado e não tinha uma linha de vida, e ele prova que é um item obrigatório, a empresa tem que pagar uma indenização, porque ela expôs o funcionário a um risco de queda fatal.
Mas isso é um item obrigatório a partir de qual, de que pavimento, de quantos pavimentos?
Então, a NR-18 fala que a ancoragem tem que estar disposta acima de 12 metros ou 4 pavimentos, mas a NR-35 determina que a linha de vida é obrigatória em toda atividade acima de 2 metros de altura do pavimento inferior. Então, vamos supor que eu estou no subsolo e eu vou fazer uma atividade em altura. Se a minha escada tiver 2,10m ou estiver 2,10m de altura, eu tenho que ter um sistema de linha de vida de proteção contra queda. Ou seja, 2 metros, 2 metros. Então eu vou fazer uma atividade no mezanino, mezanino não tem um guarda-corpo, um mezanino de uma fábrica que ali se eu cair para qualquer lado eu morro. 2 metros de altura, 2,10m, ali eu tenho que ter um sistema de proteção contra queda. E se o funcionário registrar, registrar que ele fez uma atividade que não tinha um EPC, uma linha de vida provisória, coisa do tipo, a empresa é obrigada a pagar. Então não precisa nem acontecer o acidente.
Entendi. Mas mesmo, ah, tudo bem, eu forneci cinto de segurança, aí ele ia prender aonde?
E nesse sentido, que conselho você daria para Pros empresários, enfim, pra toda essa galera aí que... O maior conselho que eu dou é porque eu vejo que o técnico de segurança ele levanta uma bandeira muito forte que é... E ele acaba tendo que impedir muitas atividades e a produção não quer que ela pare, né? Mas o técnico de segurança ele acaba comprando uma briga muito grande na indústria e na construção civil que é buscar sistemas de segurança para atividades em geral. E o conselho que eu dou é o básico: não espera o pior acontecer. É o seguro do carro, não espera seu carro ser roubado, coloca o seguro. Não espera o pior acontecer, não espera um processo trabalhista, não espera um acidente fatal, já se preocupe em colocar um sistema de proteção de linha de vida, uma proteção pressão coletiva agora, que é a melhor coisa que você faz, que todo mundo vai dormir tranquilo. E quando você fala o técnico de segurança, né, que geralmente são os grandes vilões aí da indústria, é, mas quem mais salva a vida, né? Como que você enxerga o papel deles no dia a dia de uma obra? Anjos da guarda, porque se não tivesse o técnico de segurança em uma obra A nossa taxa de mortalidade de acidentes é alta. Sem a equipe de segurança do trabalho, seria muito mais alta. Eles podem muitas vezes ser chatos, etc., mas eles estão fazendo um bem coletivo ali para todo mundo. Então eu acho que o Brasil tem um número muito alto de mortes, acidentes de trabalho.
E nesse sentido de São os anjos, eu acho. O que vocês têm feito para fomentar conhecimento para esses profissionais de segurança do trabalho que também influenciam, tem o poder de influenciar a tomada de decisão aí de um processo de construção, tendo em vista que eu tô construindo esse prédio, eu tô ali no dia a dia e tô acompanhando se esse prédio tem esses pontos de ancoragem ou não, e eu posso também influenciar outros construtores nesse processo de segurança?
O nosso maior trabalho hoje é de conscientização, um pouco do que a gente está fazendo nesse podcast. A gente participa, já participou e nós vamos participar de outros, conversa, seminários, workshops também que a gente participa de divulgação do sistema, desse item que a gente pode falar, do sistema de segurança para trabalho em altura. Então é levar esse assunto para o máximo de pessoas possível. Hoje a gente vê uma demanda crescente de instalação de painéis solares, mas à medida que cresce também a gente vê uma grande exposição ao risco e manutenção. Então você tem lá um painel solar que vai precisar dali 1 ano, 2, uma limpeza e uma lavagem. Alguém prevê um sistema de proteção contra queda de alguém que vai subir naquele telhado? Então é algo que a gente já precisa se atentar. E isso não vale só para um prédio ou para um galpão, vale para uma residência também. Então a gente já tá participando hoje de projetos residenciais onde a gente já tá colocando linha de vida, escada marinheiro e passarelas para no telhado. Então o futuro dono, porque a pessoa comprou uma casa, como é que ela vai fazer manutenção no telhado, na placa, no painel voltaico? Na placa solar dela.
Depois do episódio de hoje, eu tenho certeza que a próxima casa que eu for construir, sem dúvida alguma, eu já vou pensar nos pontos ali, num ponto de linha de vida, na cumieira, sabe, de um ponto a outro. Porque imagina, você tá aí, sobe no telhado, aquele troço escorrega, e aí?
Como que o Gugu morreu, né? Esse tipo de acidente, ele é mais normal do que parece.
É aquela coisa, né, nunca aconteceu.
Não, mas acontece muito, só que é velado, os dados não são tão divulgados. Mas a morte na construção civil proveniente a queda em altura mata mais que a guerra do Afeganistão, matou mais que a guerra do Afeganistão, para você ter uma ideia. Então morre mais gente hoje na construção civil do que, sei lá, no combate ao tráfego de drogas no Rio de Janeiro, vamos colocar assim. Então é uma indústria que infelizmente ainda tira muitas vidas. E por causa disso, falta de conhecimento, é falta de preparo. E não é só do operador que vai lá fazer uma atividade, é de quem tá pensando no projeto também, que não sabia que precisava prever isso. É como se a gente projetasse um prédio e não colocasse um sistema de prevenção contra incêndio. Não dá para pensar nisso hoje em dia. Todo mundo já fala: olha, preciso colocar um sistema de exaustão de fumaça aqui na escada. Todo mundo, um Sprinkler, preciso.
E você acha que isso é um problema cultural? Tendo em vista que, igual, agora depois que a gente está conversando, você trouxe um ponto que são as placas, a placa solar. Mas eu vou até um pouco além. Se eu preciso subir no telhado para fazer uma manutenção, para trocar uma telha, automaticamente eu subi, eu estou exposto.
Sim.
Então, se eu tenho essa preocupação mínima enquanto arquiteto ali, na hora de projetar, já deixa eu pensar num ponto de ancoragem, pra pensar numa linha de vida, por mais que seja uma residência ali que tem 3 metros e pouco de altura, isso é cultural na sua opinião?
Eu acho que é uma falta de conhecimento ainda. Muitos não têm noção, a gente só consegue tratar um problema a partir do momento que a gente tem conhecimento, consciência dele, né? Então, como muitos arquitetos não sabem que isso é um problema ou que isso é uma necessidade ou uma obrigatoriedade, Não se olha para isso, se olha para outras coisas, se dá importância para outras coisas. E nosso trabalho também é conversar com alguns arquitetos, projetistas, especificadores, e falar: precisa. E não é porque eu quero vender o projeto para você, não, é porque é obrigatório, é lei, tá? Tem que estar lá. E se não quiser fechar comigo, fecha com outro, mas vai precisar fazer.
Agora aquela pergunta pessoal, Germano: quando você tomou consciência da importância de sistema de proteção?
Foi no mercado, quando trabalhava na rádio, conheci esse mercado, sistema de linha de vida e ancoragem. Eu fui me aprofundando nele e eu gostei. Eu gosto de poder— são duas paixões: construção civil e pessoas. Eu gosto muito dessas duas coisas. E poder ter um produto relacionado à construção civil aonde eu vou salvar vidas justifica eu estar fazendo algo. Então eu encontrei um produto, eu encontrei uma paixão, e eu gosto de fazer isso. Por causa desses propósitos. Tanto é que em alguns momentos eu recebi convites para empreender em outros nichos, outros mercados, e eu não me senti tão cativado quanto esse. E aí eu ainda fico nele porque eu gosto. Eu falo: pô, faz sentido para mim estar aqui. Eu sou apaixonado, eu gosto de falar desse assunto. Eu acho interessante quando eu converso com as pessoas: ah, trabalha com linha de vida, você conhece? Mas quem nunca viu, não sabe o que que é isso.
É, mas eu saio daqui hoje com outro tipo de pensamento.
E aí, arquiteto, pessoal, cara, mas como assim? Linha de vida, cara, que que é isso? Mas o que que vai, para que que serve? E é legal que aí você explica, e eu vou formiguinha por formiguinha, trabalho de formiguinha por formiguinha. E hoje é legal que eu conheço pessoas depois de, sei lá, 15 anos, fala: nossa, é, você me explicou aquele dia, e hoje todos os projetos a gente coloca, a gente não deixou de especificar Porque o meu produto, ele previne o risco da morte. Isso eu acho interessante. É como se lá, se há 100 anos atrás eu tivesse falando: coloquem cinto de segurança nos carros. Então assim, milhares de pessoas sobem nos telhados todos os dias, se a gente parar para pensar, e milhares de pessoas estão estão desprotegidas, né, estão expostas ao risco. É isso que eu queria alertar, é, precisam se proteger, precisa ter um sistema de proteção contra queda. E não dá para esperar o pior acontecer, porque na— quanto que era? Acho que era 93% dos acidentes, ou 97% dos acidentes provenientes a queda de altura acima de 3 metros são fatais.
Nossa!
Eu acho, eu acho, é porque você olha idoso, ele morre, às vezes ele tá andando, bate a cabeça. Você vê, ó, eu tava uma vez numa escola e eles me chamaram e falaram, ó, a gente precisa colocar sistema de ancoragem nos corredores. No corredor? Mas por que corredor? Falou, não comenta com ninguém e tal. Um colaborador foi trocar uma lâmpada, ele botou um banquinho, o banco virou 50 centímetros, ele caiu, bateu a cabeça e faleceu. Então você vê, 50 centímetros já teve uma queda fatal.
Esse negócio de trocar lâmpada, às vezes eu fico tão bitolado quando eu vou subir numa escada, eu sempre olho o que tem em volta, porque dependendo da situação eu subo, tem uma cadeira ali, eu caio, bato a cabeça na quina daquela cadeira, já era. Então é, e nesse sentido você traz uma última dica aí para as pessoas tomarem cuidado? Na hora de subir numa cadeira, numa escada, porque às vezes sabe que ele olhar aquele 360 e fala: "Opa, essa pessoa tá correndo risco de vida em cima de um banco." Se puder usar andame. Não, mas a manutenção na casa do cara ali.
Se puder usar andame, se não é verificar se a cadeira, a mesa, a escada está em boas condições, principalmente essas de alumínio, porque eu acho elas são muito frágeis. Então tem que olhar se ela tá amassada, se não tá, se as travas dela tá bem travadas ali.
E cuidado com improviso, né?
Ah, total, não dá. E nem sonhar em colocar um banquinho e uma escada por cima do banco para ganhar altura. Isso jamais, não tem como.
Complicado. Germano, suas últimas palavras para a gente encerrar esse episódio?
Ah, queria agradecer a todos aí, obrigado pela oportunidade, e foi um prazer estar aqui. Espero Que quem estiver ouvindo, arquitetos, engenheiros, síndicos, tomem cuidado, procurem ver se o edifício ou projeto de vocês tem linha de vida, sistema de ancoragem, e é isso.
E quem chegou até o final digita: profissional de segurança, anjo da guarda. Boa, muito bom, obrigado. Um abraço e até o nosso próximo encontro aqui No ConstruiCash, afinal, conhecimento também se constrói.
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