Yuri Vital | Concreto e arte | Considerado um dos mais promissores arquitetos do Brasil

Architect Yuri Vital discusses his path from aviation influences to designing landmark concrete buildings like Box House and Capela Grua. He talks about his contrarian approach to design, working with custom concrete formulas, and how architects like Paulo Mendes da Rocha shaped his philosophy of merging function and form.
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Sejam bem-vindos ao ConstrueCast. O episódio de hoje é um oferecimento produtora Infinity Plus. Sejam bem-vindos a mais um episódio do ConstrueCast. Hoje vamos conversar sobre arte, cultura, vamos conversar sobre música. Hoje eu vou conversar, inclusive, com um arquiteto que tem feito aí alguns projetos super interessantes. Apesar dele usar muito concreto, parece que os projetos dele flutuam. Antes de apresentar o nosso convidado, eu gostaria de pedir para que você se inscreva em nossos canais. É importante que você dê a sua opinião. O que você está achando? Você quer indicar, inclusive, algum convidado? Quer se convidar? Você tem alguma, enfim, alguma solução que pode transformar o setor da arquitetura, construção, engenharia? Manda para a gente que a sua participação é muito importante. Vamos construir pontes. Essa é a filosofia do canal. Yuri Vital, seja bem-vindo ao nosso Fudgecast.
Obrigado, agradeço o carinho aí, o convite. A gente já se conheceu dos carnavais, né?
É, a gente tem uma ligação.
Mas eu agradeço o carinho, até pela Vivi também, que indicou, que deu uma lembrada na tua memória. Ah, o Yuri!
Ah, a Vivi, inclusive, tem duas perguntas dela, tá?
Ah não, tá bom, eu respondo. Então eu vou falar pra ela, Vivi, só duas, pelo amor de Deus. Mas eu queria agradecer o espaço bacana. Acho que essa ideia é super bacana. Eu vejo o primeiro podcast de arquitetura. E acredito que era uma falta que a gente tinha, porque a gente é muito visual. Eu sou dos livros, então a arquitetura é texto. Frases, falas... Cultura, né?
Sobretudo, né?
Hoje em dia, as mídias, elas são boas, mas elas acabam sendo mais superficiais, né? Nada como você entrar no espaço e visitar, né? Por exemplo, se você olhar a própria faculdade aqui, né? Vou dizer um ícone, né? Se você visitar a FAO. A falsa eu vou sair imagens por fora, você fala, ah, legal, mas quando você entra dentro é maravilhosa.
O Mubi, mesma coisa.
Você olha o Mubi por foto, fala, ah, que legalzinho, mas só quando você chega o Mubi e olha por dentro, você fala, meu Deus do céu.
É diferente quando você vive, né, de fato.
Mas tem uma coisa que eu acho engraçada, o Paulo falando ou escrevendo por arquitetura, é fácil você criar aquilo na cabeça, é incrível. Paulo é um gênio. Então, ele consegue, com texto, fazer a gente criar em mente.
Eu tenho uma pergunta que eu já imagino mais ou menos qual que é a sua resposta. Yuri, para dar continuidade aqui no nosso bate-papo, eu queria entender como que surge arquitetura na sua vida? Ou seja, quem é o Yuri que está por trás daqueles projetos?
Eu vou dizer que é o Yuri Arteiro, né? É que ele gosta de pregar peças, fazer arte, né? Mas eu acho que... A questão, eu sempre tive muito intrínseca a arte, né? Eu sempre gostei muito de arte. Eu sempre... E gostei de fazer o diferente, né? Porque o igual tem muita gente boa fazendo. Eu não vou concorrer. Então, eu prefiro fazer o meu desenho, a minha arte, né?
Você vai na contramão.
Vou total na contramão, entendeu? Total na contramão. Então, eu acho que isso é um caminho que já me norteia. Então, é... De certa forma, é um... Isso no começo da minha carreira, Depois que eu fiz a Box House, fiz a Box House, foi a primeira obra e já super explodiu em tudo quanto é lugar, já ganhou meu prêmio nacional, internacional.
A Box House foi o seu primeiro projeto?
Não, foi o primeiro tudo.
Primeiro tudo?
Sabe aquela casa que você faz, sabe aquela kitnet que você faz no fundo da casa da tia, porque o seu primo vai morar? Eu não fiz. Eu já fiz direto a Box House, entendeu? Porque geralmente, gente que é arquiteto, eu vejo meus amigos. Ah, minha tia pediu fazer uma casinha no fundo, meu pai quer fazer uma indícola. Aí você vai lá e desenha, enquanto você tá na faculdade ainda mesmo. Não desmerecendo, mas... Ninguém te conhece ali, né? Só família. Faz pra gente, né? Ou uma casinha, uma casa mesmo, é normal. A gente sempre faz aquela coisinha no fundo, porque ninguém é pra testar ali, né? E no meu caso, não. Eu até gostaria de ter feito a edícula. Mas a edícula, engraçado, né? A edícula em casa já existia. No máximo que eu fiz foi dar uma reformada interna e jogar meu escritório lá dentro, porque tinha acabado de me formar, não tinha dinheiro, não tinha nada. Aí eu falei pro meu pai, pai, tem um quartinho no fundo lá, posso tirar as tralhas e fazer um escritóriozinho? Aí ele falou, pode. Eu tinha vinte e poucos anos. E durou um ano, dois anos. Inclusive a box house eu fiz lá.
Ah, você fez na Edico.
Era o primeiro home office, né?
Era a origem do home office que eu estava fazendo. Eurinho, você como jovem arquiteto, isso aconteceu em que ano?
Isso foi 2000 e eu me formei em 2005 e comecei a projetar em 2006.
Em 2006.
Em 2006 eu comecei a projetar.
E esse projeto, ele foi executado em que ano?
É impressionante como esse projeto foi rápido. Ele demorou mais pra ser aprovado, praticamente, quase mais do que a execução, mais ou menos. A aprovação dele, a gente primeiro fez o primeiro estudo e em 2006, no começo de 2006, a gente pôs o estudo, fez a planta de prefeitura e pediu pra aprovar. Demorou, demorou, demorou, demorou, sei lá, acho que seja dez meses de aprovação.
Mas aí... E dez meses de obra.
Onze meses de obra.
E até voltando um pouquinho, né? Como que foi o processo, né? Até você decidir que seria arquiteto.
Ixi, aí você tá voltando lá quando... Quando tinha pintinha na cara, né? Tinha sarda, né?
É bem interessante, porque acho que essa.
História... Você vai voltar lá atrás quando tinha sarda.
É bem importante, porque assim... Sim, sim. Ou seja, né? Como que era, né? Aquela criança...
Aquela curiosidade, né? Tá.
Aquela criança, aquele adolescente, pra chegar, né? Nesse nível de arquitetura, eu diria, único, né?
Tá. Cara... pra virar um símbolo na mente da gente, né? Porque é difícil. Eu era assim, assim, assado. Mas se você pegar... O Menino Maluquinho era exatamente meio o Ruivinho com o pintinho na cara. Era igual. Era igual. Tanto é que uma vez teve o filme do Menino Maluquinho. Logo quando eu tinha uns 10, 12 anos. 10 anos. Sei lá, 8, 10 anos. Não lembro. Teve o filme do Menino Maluquinho. Alguma... O seriado. Ou sei lá, uma novela. Alguma coisa que eu pensei no Menino Maluquinho. Eu não lembro. E muitas vezes no mercado as pessoas ficavam me olhando e às vezes chegavam e perguntavam.
Porque era muito igual o do filme, entendeu? O artista, né?
Não, não sou, porque era exatamente, eu era ruivinho, hoje com o tempo a gente vai piorando, né?
Melhorando.
Melhorando. Melhorando pra pior.
Olha, no meu caso eu tô melhorando. Não, é porra, eu era bonitinho, barbudo pra cacete.
Então, eu era ruivinho, com pintinhas na caçada, entendeu? Totalmente ruivinho. Então, isso já era diferente, eu era um menino diferente. E sempre quando tinha alguma coisa, era o Yuri. Um barulho no fundo, ó o Yuri, fica quieto, sempre assim.
Você era aquela criança resolutiva?
Inquieta.
Inquieta, mas resolutiva?
Resolutiva, muito resolutiva. Tanto é que os professores chegavam na reunião dos pais e falavam... Ah, o Yuri fala muito, tá, tá, tá... Ah, meu pai... Puta, foi lá... Tomei uns tapas, já apanhei, normal. Apanhar é mais ou menos dizer, né? Criança, normal.
Sim, sim, sim. Faz parte da educação da época. Faz parte da educação da época, é.
Não de doer, mas tipo castigo, ficar no quarto, tá, tá, tá... Meu pai foi sempre uma pessoa muito bondosa. Minha mãe é um amor de pessoa, né? E meu pai é muito justo, então... Mas, meu... Criança. Ficar no fundo, fazendo barulho, tá, tá, tá... Mas minha nota era sempre boa. Inclusive as melhores notas sempre Matemática, Física.
Matemática, Física e História. Física e História.
Matemática, Física e História. Sempre nota muito alta. Até que eu participei de um torneio que na época, não sei se hoje tem, mas existia Olimpíadas de Matemática, que eles pegavam os colégios estaduais, pegavam os alunos que mais se destacavam e iam para as Olimpíadas de Matemática. Eu viro e mexo e ia lá. Eu lembro até hoje. Minha professora de Matemática era uma... Era uma japonesa, profissional hipônica, um amor de pessoa, Yoshiko. E aí ela falou, não Yuri, você tem talento pra ir pra lá. Era mais fácil você ter talento pra ir pra artes, né? Mas tudo bem, eu ia pra matemática, então eu tinha muita facilidade com matemática. Porque eu não via os números como números, engraçado, eu via os números como letra.
É, isso é uma curiosidade que eu tenho, né? Como que funciona? Essa pegada de você ver o número como letra, né? De onde você tirou isso? Ou seja, onde que você estudou isso?
Isso foi um absurdo, tá? Eu vou explicar pra você de onde foi. Isso eu acho que eu nunca comentei, nunca comentei isso com ninguém. Isso aqui é total, tipo, curiosidade mundial.
É, essa é a dica com o Srikesh.
É, dica com o Srikesh. O que que acontece? O meu pai sempre gostou de tecnologia. Meu pai é engenheiro. Sempre gostou de tecnologia. E ele tinha uma quantidade muito grande de revistas de aviação. Sempre teve revistas de aviação. E acho que ele gostava, sempre gostou, engenheiro, voar, era a invenção, vencer barreiras. Meu nome veio daí, Yuri Gagarin, que veio, vamos assim dizer, uma homenagem a Yuri Gagarin. Aí meu pai tinha gostado do nome, porque era nome curto, meu pai queria dar um nome curto pra não ter apelido. Então, o meu irmão chama Caio e eu chamo Yuri. Mas o pior da história é que no colégio era Caião e Yurinho. Que era o oxinho, né?
Então teve apelido. Entendi.
Do mesmo jeito, o nome curto teve apelido. Então, Moiô, como a gente diz, né? Moiô. E aí, meu pai tinha essa coleção de revista de aviação. E eu gostava muito de avião, muito de avião, queira ou não queira, com cinco anos de idade, seis anos de idade, estava passando o Top Gun. Sim, o primeiro. Que criança não se apaixonou por Top Gun e no ano seguinte de volta para o futuro? Nós somos... Reflexo disso, né?
Sim, sim.
Então, são duas coisas que me apaixonou, aviação e carro. Quem não queria ter um DeLorean, né? Quem não queria ter um F-14 e a Tomcat, né?
Então, e tudo isso tá ligado, assim.
A... Tá, eu acho que ele tá ligado, sim.
Porque, assim, até falando, ouvindo um pouco, assim, eu imaginava que você poderia ir pra engenharia.
Sim, exatamente. Eu vou explicar o porquê. Eu quase fui pra engenharia. Até meu melhor amigo fala, você quase foi capturado, né? Pro lado mal da força. Ele brinca, ele é engenheiro também, né? Você quase foi capturado pelo lado mal da força. Mas tudo começou nessas revistas. O que que acontece? Eu tinha praticamente, acho que uns 4 anos de idade. 4 pra 5. Quando você começa a entender algumas coisas... E eu ia pra biblioteca do meu pai. Meu pai tinha uma vasta biblioteca. E aí eu abria e ficava vendo os livros de avião. Avião militar. Então, eu com 4, 5 anos de idade, você não sabe ler, você não sabe, né? Aí eu comecei a ver, só que aquilo vira um ritmo, assim, pegava e abria, sabe? Como se fosse o meu lazer, era abrir, ficar vendo as revistas, fotos, né? Dos aviões, tal, tal, tal. Às vezes, aí com 6 anos, né? 5, 6 anos, você começa a ler e escrever, né? Abacate, caju, você vai aprendendo a falar as frutas. E aí eu comecei a ler. E aí eu lia esse livro, esses livros de aviação, então eu lia os nomes. Só que o que acontece? Imagina, um livro que começa com a frase, paulatinamente, uma criança é um mês pra estudar, né, pra falar. Então, eu acabava vendo um pouco. E sempre tinha, vamos assim dizer, os próprios nomes dos aviões lá, né? Por exemplo, Dassault, os franceses, né? McDonnell Douglas, os norte-americanos, né? Então, tudo ia... E lá, claro, aí tinha iluxo em Sukhoi, que é os russos, né? Na época da aviação russa. Ih, tem um monte, Beriev, Tupolev, tem um monte de coisa. E eu sempre... Aí eu comecei a gostar dos russos. Eu não sei porque, os aviões sustos, não sei. Talvez acho que porque em um momento lá apareceu o Yuri Gagarin. Não era um avião, mas o Yuri Gagarin era um piloto de teste. Tanto é que ele faleceu pilotando um MiG. Um MiG-15UB. Então acho que eu peguei alguma coisa ali e vi meu nome lá. Então marcou o russo e o meu nome ali. Porque criança não sabe que seu nome é russo. Então marcou vendo aquele MiG-15 ali. Na história do Yuri, aí vindo os foguetes, tal, tal, tal. Aí já queria ser astronauta. A criança já quer ser astronauta na essência. De repente você pega isso... Eu já nasci pra ser astronauta.
Já nasceu.
Já nasci. Todo mundo sabe. Mas eu sou astronauta. Você já se guia, né?
Você já se enxergava ali.
Eu sou uma semente de astronauta. Só precisa brotar. Então, essa era a filosofia. Então eu já gostava de avião, tal, tal, tal. E aí que tá, e eu vou voltar aquela história das letras e números. O cirílico, o alfabeto cirílico, se você percebe as letras, são letras que nós não temos no alfabeto romano. Você não tem. Então tinha letras que pareciam número. Tinha uma letra lá que parecia um 3. Então eu comecei a entender aquilo, sabe? Começou a ficar na minha mente como que aquilo fazia parte de um texto, como se fosse texto. Então quando eu comecei a ver números, os números não eram números. Era uma letra.
Nossa, que loucura isso.
Com um valor. É meio maluco, é meio maluco. Eu sei, todo mundo fala, eu disse que é meio maluco, mas fazer o quê? Mas eu sou do bem, entendeu? Eu sou do bem, dou comida pro doguinho ali que tá passando fome, eu sou maluco do bem.
Não, isso é engraçado, né? Porque acho que quem tá ouvindo ou assistindo vai começar a entender...
Eu não sou maluco.
Vai começar a entender, né? Ou seja, o porquê desse seu estilo de arquitetura. O porquê desse seu amor por aviação. O porquê desse seu amor por automobilismo. E como isso, de fato, reflete na arquitetura.
Algo de, vamos falar assim, de 35 anos atrás está na minha mente, né? Uns 5 anos, 7 anos, que seja.
Não, isso é bem interessante. E assim, até pra, já dando continuidade, qual que é o arquiteto ou profissional, enfim, pessoa que você mais se inspira, né? Só pra gente entender um pouco, né, do que vem aí adiante até, entender um pouco como isso reflete nos seus projetos.
É, tem muita gente que eu gosto. Muito mesmo. Tem muita gente que eu gosto. Só que se eu precisar focar três, vamos falar que eu dizei três e depois eu posso até... É que é difícil falar um. Quando eu falar um, parece que todos os outros não tem valor pra mim. Aí eu...
Não, imagina.
Lá a minha alma... Por que você não falou dele? Aí eu vou tomar banho, eu fico... Por que eu não falei o João? Por que eu não falei a Maria?
Não, mas o que você tá resgatando, né? Ou seja, como que você... De repente, você tá resgatando algo dessas pessoas e... Sim, sim. Imputando ali na sua arquitetura.
Eu vou separar como arquitetos brasileiros que trabalharam muito tempo no Brasil e arquitetos fora. Eu vou começar pelos de fora, porque, pra mim, o meu carinho tá aqui dentro, né? A arquitetura brasileira. Então, Le Corbusier, pra mim, é gênio. Le Corbusier é óbvio, mas isso aí, não sou só ele, é o mundo, né?
Sim, é o mundo.
Outra pessoa que eu gosto muito, muito, muito é o Mies van der Rohe. Mies. É... bem... Não precisa de apresentação.
Também, não precisa.
E outro que eu tenho um carinho especial, até porque ele começou a profissão tarde, mas pra mim é um gênio, é um gênio. É... É o Louis Kahn. Isso eu tô falando da Velha Guarda, se for começar da Nova Guarda, aí tem Itadauan, tem um monte de gente boa, muito gente boa, as próprias áreas, tem muita gente boa. Mas se for pra colocar os três, as três pessoas pra ir com você pra uma ilha deserta, né? Vou levar os três pra estudar com eles, entendeu? E aí se fosse uma ilha deserta no Brasil, tem três que eu tenho um carinho especial. É... Eu vou falar de... Eu não vou pôr ordem, né? Porque a ordem não muda nada aqui pra gente. É só pelo carinho. Porque é difícil você pôr peso em um, sabe? É muito difícil. É igual a arte. Não consegue falar qual o melhor quadro do mundo, sabe? Cada um é uma época, uma tendência.
Cada um representa algo, né? Dentro de você.
Exato. Exato. São pequenos amores que habitam o meu coração.
Sim.
Então... Primeiro lugar que eu tenho um carinho especial é o Oswaldo Bratic. Acho que tem um carinho mais especial, porque eu trabalhei com o Carlos, que é o filho dele. Trabalhei um tempo com o Carlos, três, quatro anos. E tinha a gaveta do Carlos, que até eu falava pro Carlos. Falava, Carlos, posso ficar um pouco mais a noite? Eu vou bater meu ponto, mas posso ficar a noite? Ele, por que menino? É o trânsito. Eu falava que era o trânsito, coitado, enganei. Mas não era, porque eu abria a gaveta lá a noite e ficava vendo as plantas do doutor Oswaldo. Projetos lindos que nunca ninguém nem viu. Tudo desenho a mão. Pegar umas pranchas a zero desenhadas a mão pelo Oswaldo Bratico. Um desenho lindo. Na época, imagina, não tinha nem celular pra bater foto. Tinha tudo na cabeça, mas tá tudo aqui. Tá tudo aqui. O scanner mental, né? Assim... Scaneava com os olhos.
E você lembra de tudo?
Lembro muita coisa. Lembro muita coisa. Não pode ser que eu lembro tudo, mas eu lembro da filosofia. Então eu consegui entender a filosofia do Dr. Oswaldo, que pra mim é um gênio também. Eu até brinco, é um semideus. Até a gente brinca. Não, pelo amor de Deus, metade. Mas é um... Como se a gente fosse o Olimpo, né? Na Grécia Antiga, é um semideus. Depois, não menos ou mais importante, é o Artigas, sem sombra de dúvida. Até porque o Artigas começou algo. Foi ele que começou algo da arquitetura brasileira. Ele não gostava de chamar... assim, né? O Paulo depois não gostava de chamar do brutalista, né? Tem cada um... as pessoas às vezes não gostam de chamar de um jeito ou de outro, mas eu digo esta arquitetura. Então, quem está aqui sabe o que eu estou falando. Então, este tipo de arquitetura, eu acho incrível. Do Artigas, a arquitetura dele, eu acho que é única também. Ele é muito acima, fora do tempo, acima do tempo, né? Imagina. Incrível. E é uma pessoa que eu tenho muito carinho. E um lado bom também é que eu li muito o livro do Oswaldo Brat, e muito o livro do Artigas. E o que mais me impressiona foi aquela ida que ele foi lá pra fora, né? Ele foi pra fora, quando voltou, já voltou... Sabe? A todo vapor. Então é esse start que eu acho que é legal no Artigas, dele ter dado esse start. Porque ele poderia estar fazendo o projeto como ele fazia antes, estaria fazendo o projeto dele lá e não ter tido esse bloom aí. Depois do Artigas, acredito que o Gênio, vem a pessoa com quem eu mais visitei obras, que é o Paulo Mendes da Rocha, que é único. Por exemplo, o Paulo consegue captar tudo que a arquitetura teve lá atrás e passar para frente. Não querendo dar peso entre os três, O Paulo, ele seria muito mais contemporâneo, ou seja, ele está muito, mas muito à frente do tempo dele. Os outros estavam muito à frente, o Paulo estava séculos à frente.
É, e uma coisa que me chamava bastante atenção no Paulo, tive o prazer de trabalhar um pouco, de visitar algumas obras dele, estando com ele, é a forma como ele era, né? Extremamente acessível, né?
Sim, sim.
Uma pessoa simples. Enfim.
O próprio Dr. Oswaldo era extremamente acessível. O Dr. Oswaldo era super acessível. Muito. O Carlos, o filho também.
Sim, sim.
Era um ótimo arquiteto.
Não, é impressionante.
Ele me chamava de menino.
Menino. É.
Tanto é que a gente ia pros eventos. É engraçado. A gente ia pros eventos e, às vezes, ele me chamava pra ir pro evento. E ele me chamava de menino, filho, mas eu me chamava de filho e o pessoal achava que eu era o filho, o parente, alguma coisa dele, né?
Então o pessoal tinha até medo de.
Falar comigo, porque ele gostava de me levar para o evento. Ah, vamos lá, lá. Porque... Eu era muito escolado, então às vezes ele perguntava, eu falava na lata. E tinha coisa que ninguém falava que eu falava, entendeu? Ele gostava disso. Ele... gostava disso.
Tinha alguma ligação familiar, as pessoas achavam.
Acho que deve ter alguma energia. Talvez, talvez ele tenha esse carinho por eu ter um carinho pelo pai dele. Ele via eu vendo os desenhos. Talvez acho que... Ele falou, poxa... Sabe, ele tem um carinho pelo meu pai. Imagina, tem alguém que tem um carinho pelo seu pai.
É interessante.
Você acaba tendo esse carinho por essa pessoa. Mas foi tudo nada pensado. Foi porque eu amava ver os desenhos. Eu sempre gostei de desenhar também.
Yuri, eu vou começar o nosso bate-papo, assim, de fato, para falar um pouquinho dos projetos e tal, dos seus projetos, falar um pouquinho do Yuri, arquiteto, com a pergunta da Vivi, né? Acho que faz todo sentido, tendo em vista que ela que convidou...
A culpa é dela.
A culpa é dela. Então, vamos lá. Pergunta da Viviana e Viana. Vamos lá, ó. Yuri, em sua filosofia profissional, para a concepção de seus projetos, o que vem antes? A função ou a forma?
Bela pergunta. É aquela pergunta que a gente sempre fica, aquela briga na faculdade, né? Que os professores falam. Talvez ainda é um pouco complexo falar sobre isso. É uma resposta tão fácil. Pra mim não é. Porque é A ou B, né?
É A ou B?
É. Só que pra mim eu diria que é C. Porque é muito fácil você falar se é A ou B. Porque você escolhe um time e põe pra jogar. responde a pergunta, mas o nosso objetivo aqui não é responder a pergunta e sim explicar um conceito. Então eu acho que, de certa forma, eu começo por uma e acabo por outra. Como eu posso dizer? Eu não sei se é por algum motivo ou por alguma facilidade, eu consigo ao mesmo tempo fazer a planta, eu estou desenhando a planta e já sai a volumetria mentalmente. Então se eu traço um traço, ele já tem altura. E se eu já estou fazendo a volumetria, automaticamente estou pensando na forma. Você entende? Ah, eu nunca penso pela forma. Se você nunca pensasse pela forma, não teria nenhum projeto quadrado, né?
E de onde que vem a função?
Então, a função, você precisa fazer um espaço. Vamos falar que eu vou fazer uma quadra. A função é ser uma quadra. Ela, obviamente, é um quadrado. Ninguém vai fazer uma quadra de futebol. As quadras esportivas são retangulares, quadradas retangulares. Então, a função é o início para mim. A função é o início. Você precisa resolver aquele problema da função. Só que enquanto eu estou desenhando, que eu até brinco em diagramas de bolha, eu começo o diagrama de bolha, né? Tal, tal, tal, ó, precisa resolver isso... O... Essa... Eu não vou dar nomes, porque senão começa a ficar confuso. Isto tem que ficar perto deste item, este outro item não pode conversar com esse, porque vai dar problema, não importa o que eu estou fazendo. Este item tem que ficar próximo, porque ó, isso aqui é a saída, aqui é a entrada, aqui as pessoas não podem vir, aqui é a era técnica, tal, tal, tal. Quando você vai... Quando você começa a desenhar, você está pondo o diagrama de bolhas, né? Bolhas. Só que essas bolhas têm altura. Então se já tem uma certa forma, você entende onde eu quero chegar? É confuso dizer, não, eu só penso na planta. Eu só penso na função. Eu só penso na... Eu não penso ainda no corte. Eu só penso... É difícil porque nós somos arquitetos. Os arquitetos criam espaços. Então, a função é o primeiro lugar. Só que na tabela sai a forma, não tem como desvincular uma da outra. Eu não consigo desvincular uma da outra. Praticamente tudo nasce junto, sabe?
Porque quando você pensa, quando você desvincula pela sua forma de pensar, você acaba se limitando. Seria isso?
Sim, é cortar asas, né? Porque eu acho que a mente do arquiteto, a coisa mais incrível da mente do arquiteto, são as possibilidades de. Então, quando você está fazendo uma função, o seu cérebro já está vendo as alturas, o que pode ser, o que não pode ser, entendeu? Então, eu não consigo separar um dos dois. O que eu posso dizer para você é que eu começo pelo programa de necessidades, ou seja, pela função. Aqui é a entrada, aqui tem que ser isso, aqui tem que iluminar, aqui tem que ter iluminação, aqui tem que ter isso. Nesse conceito, eu começo pela função. Só que não tem como depois eu dar forma. É impossível. Já vem junto. Ela nasce junto, sabe?
Nesse sentido, você consegue imaginar, você consegue visualizar o resultado daquilo?
Já. Eu já consigo. É impressionante. Quando você fala pra mim, Yuri, me cria... Por exemplo, você chega pra mim. Yuri, me cria um teatro. Aí eu vou perguntar pra você, quantos lugares? Você fala, 600. Na minha cabeça, já... Já tá montado. Já tá montando.
Por que eu te pergunto isso? Porque assim, eu sou apaixonado por fotografia, por luz, né? E eu tenho muita dificuldade de transmitir com palavras, sabe? De transmitir por texto a emoção, aquilo que de fato eu sinto.
Sim.
Entende? Mas eu consigo... através da minha, enfim, da minha mente, do que tá dentro de mim, eu consigo tocar aquilo, entende? É algo muito profundo.
Sim, é mais ou menos isso. Você, por exemplo, um exemplo, agora pensando a fotografia do seu lado, tá? Quantas vezes você chegou, pode ser numa obra de arquitetura ou num lugar, você... Vamos lá, você vai até sorrir agora. Foca a câmera nele, porque ele vai.
Sorrir quando eu falar.
Porque o sorrir é aquele, ah, é isso mesmo. Quantas vezes você chegou num lugar e falou assim, vou naquele cantinho pra bater foto que vai enquadrar desse jeito? É.
Faz sentido.
Você viu?
Eu já consigo.
Você entendeu? Você tem aquela foto.
Inclusive a luz, a sombra, parece que eu já tô vendo.
Exatamente. Você viu? Você viu essa foto? Não? Mas você já não criou o ângulo na tua cabeça?
Criei o ângulo, inclusive o resultado, eu já sei exatamente como é que é.
É isso, só que em arquitetura.
E nesse sentido, Yuri, você acha que é dom? Porque às vezes eu acredito em dom, às vezes não. Eu acredito muito no esforço. Então, eu, por exemplo, Paulo, me acho uma pessoa muito esforçada. Entende? Eu não sei, eu...
Eu acho que...
Esforço ou dom?
Esforço ou dom? Eu acho que é um pouco dos dois. Porque nada que é extremo é perfeito. Você entende? Nada que é extremo. Nem a pessoa religiosa extrema é perfeita. Então eu acho que é sempre o equilíbrio. Por isso que eu sou de Libra. Então, mas mó dizendo, eu vou fazer propaganda do meu signo. Mas eu acho que o equilíbrio é o segredo de tudo. Até na própria arquitetura, em tudo, no prato, tudo é equilíbrio. Eu não acho que nem nenhum nem o outro. É engraçado, né? Você fez duas perguntas e eu tô sempre meio do muro.
Não é meio do muro, é porque.
Exatamente é uma opção eu ficar no muro.
Não, e sabe o que é o interessante, assim, desse bate-papo? É justamente, eu até chamo atenção aqui pra quem tá ouvindo, Fala as suas redes sociais, já no começo agora, para quem tiver curiosidade lá visitar, porque acho que é um bate-papo um pouco diferente, é um pouco profundo, porque de fato, seus projetos flutuam. Então, muita gente vai fazer uma ligação com a aviação.
Exato!
Então, isso eu já deixo claro aqui. Só que assim, cada pessoa vai interpretar de um jeito. Quando eu falo de arte, o que é arte? De repente, o que representa aquela arte para mim? Para mim, Pode representar uma coisa para.
O Flávio, para o está aqui? Pedro A que arte é subjetiva demais. Por isso que a arte agrada a todo mundo, porque é subjetiva. Cada um tem o seu gosto.
Cada um tem o seu gosto, cada.
Um tem o seu olhar.
E tem aquela curiosidade, por exemplo, onde que ele se inspirou, como que ele trouxe esse traço, esse desenho. E por essa razão, eu tinha outra pergunta. Eu já sei mais ou menos quem você vai responder, mas assim, quem é a sua grande inspiração? Eu acho que você já falou um pouquinho e tal.
Mas eu vou falar de novo porque eu tenho orgulho dele.
E de onde você se inspira para desenvolver seus projetos? Onde você busca inspiração para desenvolver seus projetos?
A minha inspiração no mundo da arquitetura... É o Paulo. Paulo Mendes. É o meu... vamos dizer assim, o norte.
E curiosidade, por que o Paulo? Assim, é pelo contato que você teve com ele ou sempre foi? Eu entendo porque tem aquela coisa quando você gosta e a própria pessoa te remete, sabe?
Quando eu era estudante, e eu não conhecia o Paulo, não tinha visto o Paulo, sabia dos projetos do Paulo, mas quando eu era estudante, a pessoa mais importante pra mim Era o Bratic, o Dr. Osvaldo. Tanto é que eu juntei o salário de três meses estágio pra comprar o primeiro livro que eu tive na vida, que é do Dr. Osvaldo, tem o livro até hoje, e eu mesmo encapei ele com papel manteiga, que ele adorava encapar com papel manteiga, os livros dele, e eu encapei o livro dele. E eu comprei, do Toninho, que vendia lá no diretor acadêmico. Toninho dos livros. Me ajudou muito. Toninho me dava uns descontos que eu falava, menino, fazia preço de curso que ele sabia que... Lógico, não tinha dinheiro na situação lá, mas ele me ajudava com uns descontos absurdos. Eu até comprei esse livro por, sei lá, 30, 40% de desconto lá. Tava com a capa suja. Eu falava, vai esse, Toninho. Melhor ter isso que ter nada. Então, foi o livro do Oswaldo Bratic, tá? Um livro muito bom. E talvez eu tinha esse carinho por Oswaldo Bratic também, porque ele gostava de desenhar e eu adorava desenhar. Só que era início da faculdade. Primeiro ano, segundo ano, alguma coisa do tipo. Primeiro pro segundo. Tava no primeiro. Primeiro salário de estágio. Foi pra comprar o livro do primeiro ano. Primeiro três meses de salário. Três meses, pessoal. Vocês reclamam de hoje. Mas foi pra comprar esse livro. Tem até hoje o livro. Se bobear eu mando uma foto pra vocês.
Ah, eu quero.
Que aí você posta. Ah, o livro que ele falou.
Tá lá. Até hoje.
E aí, com o tempo, eu fui entendendo a arquitetura, mas tendo uma atualização. Não que não era o Osvaldo, mas foram algumas coisas que me chamaram mais atenção, eram as mais expressivas, entendeu? Até porque o doutor Osvaldo, a gente não pode esquecer que ele... Vamos lá. O doutor Osvaldo veio de uma parte... Era faculdade de Engenharia e Arquitetura. Então, ele tinha muita engenharia, racionalismo, aquela questão toda, sabe? Então, ele tinha uma engenharia muito forte, que é o que eu gostava.
Que, inclusive, isso acabava tendo uma certa ligação com você, porque você tava, né? Você já vem, né? Com engenharia, né? Família mesmo.
E aí, eu gostava muito. Porém, até a primeira vez que eu visitei o MUBI, o dia que eu visitei o MUBI, tudo mudou. Absolutamente tudo mudou. quando eu digo tudo, tudo. Daquele dia eu comecei a explorar tudo que era do Paulo, visitar todas as obras que eram do Paulo, entender, rabiscar, desenhar. E aí o próximo livro foi do Paulo. Mais o próximo livro era do Paulo.
E aí você começou a virar essa...
E aí foi essa virada aí, que era do Dr. Oswaldo, depois para o Paulo, porque eu visitava, então era mais fácil entender, porque, para mim, arquitetura é espaço. A arquitetura nada mais é do que espaço. Não é um detalhe bonitinho. Não, não. É o espaço. O detalhe faz parte. Mas espaço. É criar o espaço. E, de certa forma, o espaço que tem uma iluminação natural, que aí vai para o Kahn, vai para o Louis Kahn, que é o contraste luz e sombra, que é maravilhoso. O Kahn.
Sim.
Só que aí, depois que eu comecei a conhecer muito o Paulo, Eu fui buscar as origens do Paulo. Aí veio o Artigas. Aí virou o Artigas, entendeu? Mas obrigatório. Eu senti você pegada nessa... Quem me inspira por onde eu vou é o Paulo, talvez porque eu vi mais obras.
Entendi.
Talvez porque eu vi mais detalhes, porque eu acompanhei. E pelo carinho também de... Eu conheci ele pessoalmente. É uma pessoa incrível. Incrível, incrível.
Não, ele é. Ele dispensa comentários. Ele é uma pessoa incrível de fato. Yuri, e... Você já respondeu uma pergunta que eu ia fazer, né? Do que é arquitetura pra você, enfim, mas... Como que você se inspira, né? Imagina, você tem um projeto, você precisa começar um novo projeto. Como você se inspira, né? De onde surge ali os primeiros... Como surgem os primeiros traços ali? De onde vem a inspiração?
Eu acredito... Tudo tá dentro da gente. Então, eu posso te falar o que eu não faço quando eu vou criar. O que eu não faço é ver referência de nada. Eu conheço pessoas que, ah, vou fazer tal coisa, vou abrir um livro, uma coisa pra ver o internet, tal, pra ver. E é exatamente isso que eu não faço. Aí eu vou na contramão para esse valor.
Não, você vai na contramão e uma coisa muito interessante, porque um ponto importante nessa sua fala é... Só que como funciona a leitura que você faz? Por exemplo, porque o cliente tem uma necessidade ali, ele te procura, imagina... Geralmente, eles imaginam alguma coisa, um exemplo ali, sei lá... Enfim, tem a necessidade dele. E o louco é como você faz essa leitura?
Né? Eu, talvez, e já me falaram, não sei se é ou não, tá? Me falaram, os clientes já me falaram. Talvez eu tenha uma sensibilidade de quando o cliente fala, eu já interpreto aquilo em área e já monto a casa enquanto ele fala. Lembra que eu te falei que às vezes eu tenho facilidade de montar o projeto 3D? Montar um volume, não 3D. montar o projeto completo como se tivesse uma placa processadora dentro. Então, já monto o projeto tanto funcional como a forma, o que a gente faz? Funcionar ou forma, aquela briga de sempre. Então, já monto. Então, às vezes o cliente vai falando e eu já vou montando a casa mentalmente. Por quê? Ele já me falou, o terreno é um terreno de tanto por tanto. Então, é a minha base de papel.
Entendi.
Não tem como sair daquilo, é o meu limite. Então já tem um limite. Ah, eu quero uma casa, dois pavimentos. Já outro limite. Daí pra frente, minha cabeça constrói absolutamente tudo. Então, muitas vezes... Olha, eu vou dizer pra vocês... Eu acho que os nossos últimos cinco projetos... Eu tô pegando cinco, podia ser mais, mas eu tô pegando cinco aqui. Sete, que seja... É, os últimos cinco. Sete, pode até ser. Não mudou nada entre o conceito. que eu entreguei a primeira vez e o projeto executivo pra obra. Mudou quase nada.
É bem...
É, não sei. Eu não sei te explicar.
É, eu tenho outra pergunta. Inclusive, são perguntas bem interessantes, né? Que me mandaram, né?
E... Pode perguntar.
Acho que tá até dentro, né? Dessa nossa linha de raciocínio aqui. É... O que te faz ser diferente dos demais arquitetos? Né? Até, enfim...
Já em algumas palestras, eu faço bastante palestras pelo Brasil todo, e essa pergunta também já foi feita em palestras muitas vezes. Eu lembro de palestras. E é engraçado que... Eu acho que o que faz ser diferente, de primeiro lugar, é a contramão. É pensar na contramão, sabe? Pensar no outro... Porque já te dá outro... Você já tem outro... Outro norte, né? O sul. A vista norte é o sul, então... Que já é o contramão de tudo. Eu acredito que isso é um grande papel, tá? Eu vou... Então, o que explica... O que vai explicar um pouco isso foi quando... Um detalhe, eu sei... Dois minutinhos, mas vai valer a pena. Quando eu fui fazer uma igreja, e eu já volto aí. Ah, você fez igreja? Fui fazer uma igreja. E a igreja, eu sempre pensava igreja, cruzinho, telhadinho, cruzinho, telhadinho, cruzinho, telhadinho, cruzinho. Aí eu fiz uma coisa, em 2009, tinha acabado de entregar a Box House e me chamaram pra fazer uma igreja. Tanto é que ela foi premiada, a igreja, né?
Que bacana.
No Capela Guru, no IAB, em 2009. Pegou o primeiro lugar no prêmio. E aí eu fiz uma lista, eu lembro hoje, tinha 17 itens do que me lembrava igreja. Vitral, cruzinha lá em cima, telhado de duas águas, cúpula, tudo, fiz tudo. Uma lista de 17 itens que me lembravam igreja. Ok? O que que eu fiz? Eu lembro até hoje, eu peguei meu computadorzinho, pá, coloquei na parede lá, peguei uma fita crepe, amarelinha, daquelas de desenho, né, amarelinha, pá, colei, vou começar a desenhar. Computador na frente, né, que às vezes eu peguei o terreno, né, terreno, a mão na frente pra desenhar, pus aqui a telinha e falei, pronto, eu não posso ter nada desses 17 itens. Maluco, né?
Não, isso é totalmente ir na contramão de fato.
Exatamente, é um pouco isso, entendeu? Tudo que me lembrar algo, eu tiro. Não pode ter, não pode ter isso e isso e isso. É como se fosse um programa de necessidades inverso.
Então, e como que depois, né? Na verdade, quando esse projeto tá pronto, como que essas pessoas se sentem naquele ambiente? Ou seja, como que te remete ali que você está dentro de fato de uma igreja?
Exato. Eu vou mandar a imagem pra você da Capela Grua e você põe do Box House aí, eu vou mandar o material...
Não, na verdade, assim, o importante, já vou aproveitar pra falar aqui que quem tá ouvindo pelas plataformas de áudio, agora a gente tem aqui No YouTube, você consegue ver. Você consegue ver, de fato, do que a gente está falando. Então, enfim... O audiovisual.
É o audiovisual.
É o poder do audiovisual, né? Esse poder do som e da imagem.
Legal. Eu vou mandar para ti também, para o pessoal entender, né? Mas isso é legal, porque voltando ao assunto do que faz ser diferente, eu nunca quis ser diferente, porque todas as pessoas são iguais, até brinco, brinquei com você lá fora, todo mundo é igual, tem gente que se acha, tem gente que é isso, todo mundo é igual, gente. Então não tem o que fazer, eu até brinco, mas morrer e feder é igual, né?
Um que não vai feder porque foi cremado.
Esperou que seja cremado, né? Então, vai todo mundo um dia, vai pro céu. Então, indo nessa filosofia, eu nunca pensei em querer ser diferenciado a ninguém. Mas eu acho que pelas minhas escolhas, escolher caminhos, a estrutura, que é muito importante, a história de aprender uma outra língua pra poder ver o livro, depois até um item, né?
Sim.
Talvez me fez não ter as mesmas referências, ou seja, eu não vou beber a água na mesma fonte. Entendeu? Por exemplo, todo mundo vai lá beber... Um exemplo, vamos fazer uma brincadeira aqui. Todo mundo vai beber água na fonte X. Aí eu vou lá e bebo vinho. Eu vou na fonte.
Deixa eu sentir outro gosto.
É outro gosto, entendeu? Eu não vou naquela fonte porque a chance de você ir naquela água e beber algo parecido é enorme. E eu nunca faço arquitetura, olhando arquitetura, nunca. Às vezes eu tô na rua, eu até falei com você, às vezes eu tô lá, eu gosto de mecânica né, eu tô lá mexendo o carro, o carburador me deu uma ideia de fazer uma janela. Então eu acho que a vida te dá, às vezes eu tô num restaurante, entrei num lugar super, não precisa ser um restaurante feito pelo master arquiteto. Mas esse foi um restaurante feito por um arquiteto bom, detalhista, que conseguiu captar aquele momento e eu falei, nossa, que bonito isso. E aí eu pego aquele espaço, não aquele detalhe, e eu falo, o que eu senti de bonito daquilo? Eu gostei daquilo. Por que eu não posso pegar aquela sensação e na minha obra mesmo a sensação? Com outros materiais, outras cores, com outras tecnologias. Mas é a sensação, é o feeling, é o sentimento.
Que vem muito da filosofia, como que você melhora aquele pensamento. Você pega aqueles pensadores do passado e como que você melhora isso. Ou seja, como que você traz o seu olhar praquilo.
A gente hoje pensa assim, na arquitetura, a gente planta corte, elevação e perspectiva. Para mim ainda tem tantos outros itens, tem sentimento, tem a sensação, tem você continuar o seu trabalho. Hoje você vê projetos do mesmo escritório, cada um tem a sua escolha, mas do mesmo escritório que tem diversas variedades. Eu não consigo fazer isso, porque meu padrão é um padrão, entendeu? Até porque pra você fazer um portfólio que te representa, eu acho que tem que ter um padrão, porque depois a pessoa vai te procurar pelo padrão que você tem, entendeu? Eu quero esse padrão, entendeu? Então você acaba tendo clientes que vêm te buscar o que você faz, né? Não buscar só um projeto.
Buscar um projeto. Na verdade, eu quero aquele sentimento de ser único, né? De ser exclusivo.
Exatamente.
O que é ser exclusivo? O que é ser único pra você, Yuri Vital?
A palavra difícil, hein? A palavra difícil, hein?
É, porque, de fato, se você... Eu olho seus projetos e eu falo, cara, como que ele, né? Como que ele tomou partido disso? Você pega o próprio, aquele hotel mesmo que você me deu...
O Rio. O residencial Rio.
Residencial, isso. Eu falo, cara, sim. Eu falo, não, como que você conseguiu fazer aquelas curvas, né? Tudo bem, em concreto, mas imagina a dificuldade de fazer as formas, por exemplo.
É, eu... É, é complicado. Aquilo é uma relitura da fachada de Ubatuba, né? A gente pegou... Ubatuba, se eu não me engano, deve ser o litoral que mais te enoja, né?
Eu não imaginei outra coisa.
Sério mesmo? É porque a ideia foi o seguinte, entenda, é uma metáfora. Então a gente pegou toda a fachada de Ubatuba, planificou ela e foi transformando em morro. Lógico que vai ter o mais alto e o mais baixo, mas eu não posso fazer isso na laje, né? Então eu fui só aumentando as bases.
Eu vi aquele projeto, você me mandou a foto, na hora eu tava com a minha esposa e a gente tava... Coincidência, a gente tava ali na praia, tá vendo? Eu olhei a foto e falei, vamos dar uma olhada nas ondas do mar. Porque, assim, faz sentido. Então, a gente via que as ondas, não é uma coisa linear.
Ela faz as quebradinhas da onda.
Então, aquele projeto, assim, de cara. Eu falei, acho que ele tomou partido das ondas do mar.
Se eu fosse do marketing, eu já seria a Bossa Nova.
Você entende?
Fazia uma brincadeira, chamava o Tom Jobim, põe a música do Tom Jobim no fundo. Não, foi meio vai e vem do morro. Tanto é que tem imagens dentro, quando a gente já visita a obra, que a gente fez a brincadeira do morro, né? Você vê o morro e o vê certinho em cima do morro. Mesmo o ângulo dele, certinho, sabe? Um pouco uma metáfora do que o Neymar fez, que não precisa nem descartar apresentações lá. Sim, sim. Então, Nini Terói. Mas a gente foi meio que uma brincadeira disso, encaixando os morros ali dentro, entendeu? Quando você olha. Então, fica uma... é uma criatividade, só que olha que engraçado. Onde veio a criatividade? Do morro.
Do morro, você vê, e eu fiz outra leitura, né, da água, da natureza, de fato.
Bom, então agora eu posso usar também, fala que eu pensei em tudo.
Você entende? Então, assim, por isso que a gente tava falando de arte, né, que cada um interpreta de um jeito. Exato. Então, eu vivi aquele...
Não, peraí, eu... E a água faz sentido.
Sim, eu fiz a ligação.
Sim, faz total sentido. Né? Então, a inspiração, a inspiração, ela acaba... eu tento não... imagina, foi o que eu falei, veio do mar, veio do... como chama? Tem um banheiro que pra mim veio a inspiração de um caracol, tava olhando o caracol, tava parado assim olhando, eu vi o caracol, eu falei, poxa, né? Fiz assim, podia se sentar por aqui, sair aqui, sabe? No banheiro, fica fechadinho, você não vê, chuveiro, privada, sabe? Tem coisas que o mundo, né? O mundo dá muitos sinais.
Sim.
O mundo dá muitos sinais pra gente. Então a gente tem que estar aberto a esses sinais, às sensações. Então, se eu procuro alguma referência da arquitetura, geralmente não é a arquitetura.
Ô Yuri, e nesse sentido, né, desses desafios aí que você se propõe, assim, esse autodesafio, né, que você tá aí vivendo constantemente a cada novo projeto que você, enfim, que você projeta, assim, é solitário? Como que é? Porque, assim, como que é o Yuri no dia a dia? Assim... aquela, não sei, aquela solidão, porque as pessoas olham e falam, não, esse cara de fato é louco, né? Mas um louco...
Não tem amigos.
...Com bom sentido, né? Então assim, de fato, essa questão de amizade, né? Como que funciona isso? Pra você, como que é?
Olha, é incrível, nunca ninguém me perguntou algo do tipo, eu acho genial essa pergunta, porque isso tem a ver com o que eu sinto, que é a... A troca de energia, né? A vida, a vida. O que a gente tá aqui vivendo. O resto... O trabalho é algo que passa o tempo pra gente viver. Mas nós vivemos. A solidão eu acho que talvez... Não merecendo ou desmerecendo ninguém, porque você me conhece, sabe que eu sou o cara mais tranquilo. Não gosto de ficar comentando, mas... Eu me sinto um pouco... numa estrada sozinha. Estrada eu acho que apresenta muito bem isso, porque pega o carro que eu gosto, né? Pega a rua. Imagina, eu tô com... um carro raro numa estrada sozinho. Eu me sinto um pouco isso, porque... Se eu estou certo ou errado, eu não sei. Mas está dando certo. Eu estou conseguindo ter um nome. Hoje em dia, quando o pessoal procura concreto, já me liga. Muita gente... Concreto, eu tenho como referência. Jovem arquiteto, tal, tal, tal. Então, muitas coisas que me norteiam clientes. Então, eu acredito que isso é um certo sucesso. Se você não está indo atrás, as pessoas estão vindo atrás de você. É um certo sucesso. Mas eu sinto sozinho nessa estrada. Porque... Entenda, não quero desqualificar ninguém, não quero desqualificar nada. Mas eu vejo que hoje em dia muitas construções são fachadas ou materiais, sabe? Só um material, só uma fachada. Não mais ou menos, mas é um material, uma fachada. E a arquitetura é mais do que isso, é espaço. Eu não conseguiria fazer isso, porque eu sou o cara que pensa no espaço. Então, às vezes, tem um material novo lá que sai, aí a pessoa reveste, faz um quadrado com aquele material. Fica bom? Pode? Pode ficar bom. Mas não é isso que eu almejo. Eu almejo fazer algo diferente. Foi o que você falou. Uma plástica, né? A palavra. Ter uma plástica. Arte plástica, né? Tanto é que era artes plásticas, né? Mas quando a gente era criança, artes plásticas. Então, eu acredito que é uma estrada... Eu vou dizer pra você, eu tô num Datsun, né? Um carro Datsun, né? Na estrada vazia. Mas, eu não me preocupo nessa estrada vazia, porque eu sei que por essa estrada é o caminho do sucesso. Eu sinto isso.
E nesse sentido, né, quando, na verdade, nessa solidão, quando eu falo... Bom, acho que já...
Eu entendi a palavra.
Todo mundo sabe, né, quando eu falo essa solidão. Na verdade, é quando você cria algo, quando você é diferente, de fato, e ainda mais quando você se sente. Eu não sei se é o seu caso, se você se sente diferente em alguns momentos. Hoje a gente fala muito em industrialização, em padrão, né? Mas como que você, inclusive, inova mesmo com industrialização? Porque quando você desenvolve uma forma que muitas vezes não... sei lá, que não existe ainda no mercado, a indústria precisa abraçar, né? Então... Como que é esse processo, né? Você tem apoio, porque eu entendo que pelo seu estilo de projetar, você acaba desenvolvendo muitas coisas, você, né? E a indústria acaba abraçando essa ideia, ó, preciso desenvolver uma forma assim e tal, com esse formato, muitas vezes aquilo só vai ser usado naquele projeto, entende? Então é aí que tá o grande...
Sim, eu acho que a gente tem o poder de pegar peças pré-fabricadas e transformar em arte. Eu acho que nós temos o poder disso, a gente tem o poder. Porque para mim a arte é o espaço, a luz e sombra. Resumindo, é isso, é o espaço e a luz e sombra. Dá pra fazer? Dá. Dá pra fazer. Ela fica tão plástica? Depende. Depende da qualidade e do que você tem. Por exemplo, o próprio Paulo Mendes da Rocha fez uma casa ali na Panamericana que é exatamente isso. É uma casa que tem uma arte única e é feita pré-fabricada. Entende? Então, dá pra fazer.
É, a diferença tá na forma, né?
Como você traz. Exatamente. Então, que dá pra fazer, dá pra fazer. Agora você pergunta, na sua arquitetura é assim? Hoje não. Porque hoje não. Porque eu estou, vamos assim, desenvolvendo uma técnica. Que eu comecei lá atrás. Entendeu? Então a primeira casa que eu fiz com concreto desse jeito, que eu trabalho, foi em 2009. Foi pro cliente, pro Badin. Marcelo Badin. Primeiro cara que acreditou em mim. Marcelo Badin. Ele viu. Meu, o trabalho é sensacional. É uma pessoa incrível, ele e a família dele e tal, esposo, filho. Então até que moram hoje na casa que eu fiz pra eles, casa incrível.
E basicamente é concreto e vidro, né?
Só, concreto e vidro, mais nada, concreto e vidro. E lançou o desafio, fez a casa e deu super certo. Ele ama, nossa, já vem gente comprar a casa, ele não quer vender.
E na sequência veio esse projeto da Porto Seguro? Ahn... Tem um projeto também que eu acho lindo assim.
Da Porsche Guru, é, da Porsche Guru foi incrível. Esse da Porsche Guru foi algo incrível, cara. Foi algo... Foi a contramão que me fez ganhar ele. Exatamente a contramão. A contramão sempre me faz ganhar algo. É impressionante.
Não, é... É quando você falou, né? De ir, ah, visitar o Mubi, viver... De fato viver a experiência também, assim, foi assim que eu me senti quando eu entrei naquele projeto, assim.
É, é contramão total, é.
O...
O histórico foi o seguinte, box... Só pra fazer um histórico rapidinho aqui, né? Sim, sim. Um cronograma. Box House 2000, vou falar quando construiu ou de projeto, o que você prefere? Pode ser projeto, vou falar projeto, porque aí todo mundo tem um começo. Box House 2006, Capela Gru 2000 e... não, Box House 2006, Casa do Marcelo Badin 2007, Capela Gru 2008, aí 2009, aí começou a vir muitas coisas juntas, não dá pra ter um prédio ícone. Aí eu tenho 2003, 13 a Porto Seguro, que é um concurso. Porto Seguro, aí vem 2013, aí 2014, aí começou 2015 a Baronesa, aí tem 2011, veio as Duas Vigas. Duas Vigas foi o maior portfólio de marketing da fase da terra. Até pra obras internacionais.
Baronesa também, né?
É a Baronesa, sim. É que a Baronesa é um ícone, só que a diferença é, a Baronesa, ela é linda, maravilhosa, premiada. Ganhou o melhor projeto de estrutura residencial do Brasil, né? Pela Gerdau. O maior prêmio de estrutura a gente ganhou. Veio da... Entendeu?
Que é o prêmio Gerdau, que é um prêmio...
É o maior da estrutura.
É um prêmio muito importante, assim.
E a gente ganhou com ela. Junto com o nosso calculista, claro, né?
Quem que é o calculista?
Ah, é o Dirk. É um gênio.
Dirk.
É o Dirk. Dirk Mader. Gênio. Gênio. Aliás, Jake poderia ser um cara que eu chamaria aqui pra...
Eu vou antecipar a minha pergunta.
Pode antecipar.
Yuri, no quadro Convidado Convida, quem você convida aqui, ou seja, você que já conhece, gosta da história e gostaria de compartilhar a história dessa pessoa com a nossa audiência do Constraigaste.
Olha, eu chamaria uma pessoa que eu acho que ele tem um talento acima, muito acima da média boa. Muito bom. Uma pessoa super bacana, um cara super legal e pra mim um gênio e acredita no que eu faço. Então, é uma pessoa que eu confio muito. É o cálculo estrutural. O Dirk.
Dirk.
Dirk Mader.
Para aquela câmera convida você. Responsabilidade sua.
Bom, Dirk. Você está convidado. Tá? Porque nada mais nada menos chamar você que acaba acreditando na gente também. Eu acredito em você e ambos acreditam no outro, né?
Então vamos compartilhar, né? Vamos compartilhar conhecimento aí.
Sim, ele é uma pessoa super bacana. E ele acredita nas minhas loucuras, sabe? Ele apoia. Ele apoia mesmo. Então eu não tenho nada que... que de certa forma... Tem gente que fala, ah, eu não sei quem que eu chamaria, tal, tal, tal. Eu acho que o próprio... A própria construção seria interessante, alguém da área civil, da engenharia do cálculo estrutural é interessante. Voltando, nós estávamos na sequência. Aí foi essa questão de sequência de habitação. Então, o Espaço Cultural por Seguro foi um concurso 2014 e eu só ganhei porque fui na contramão. Eu vou explicar rapidinho o porquê. A Porto Seguro mandou carta convite pra vários escritórios de arquitetura. Vários escritórios muito bons de arquitetura, muito bons mesmo. Escritórios que eu estudei nos livros quando eu era estudante. Ou seja, era uma referência. E na época a pessoa me ligou e falou, ó Yuri, a gente fez uma triagem aqui de alguns escritórios e o pessoal gostou do seu trabalho, é inovador, é diferente, a gente queria ver um pouco, ter uma certa inteligência da economia. Minha obra tem muito disso, sabe, a questão de uma obra artística e econômica ao mesmo tempo. Então se junta dois mundos, a beleza e a economia, né? Porque a beleza não tem fim de custo, se você quiser, né?
Sim.
Então eu sou associado muito a isso, a beleza com a economia, a arte e a economia, né? Isso sempre. E aí, você fazer um museu, é praticamente isso. Você não pode ficar gastando milhões em um acabamento de museu, porque o que importa é o que tá lá dentro, né? E aí, na época, aí eu perguntei pra ele, né? Foi inocente, né? A pessoa que tinha o contato lá dentro. Nervoso, né? É, quem que tá concorrendo com a gente? Ah, eu não posso falar, tal, não sei o que lá. Aí eu falei, mas tem a lista de quem tá concorrendo com a gente, tal, tal, tal. Ah, não posso falar, tal, tal, tal, tal, tal. Aí, por cargas d'água, eu fui lá, né, no dia, acabando e vendo quem era, né. E aí eu falei, ah, voltei com um bicudo, né? Falei, imagina, tipo, tá lá o... A seleção, só os profissionais e de repente chega um novo atleta ali, sabe? Aí eu falei, vixi, os caras são bons, né? E que eu respeito, eu tenho muito respeito, mas os caras são bons. Aí eu falei, bom, mas eu vi uma luz, acredita? Eu vi uma luz, uma luz pra mim que é assim. Aqui sim, a contramão é mais importante do que qualquer coisa. A luz. Aquela história de fazer listinha com as coisas na igreja? Veio aí. Aqui veio uma outra dessa, né? Que a igreja foi antes disso, né? E aí, eu cheguei à conclusão. Se eu for fazer aquela... Projeto de arquitetura com a caixinha, toda perfeita, certinha, organiza bonita, estética, tal, tal, tal... Com o acesso, tal, tal, tal... Eu vou estar concorrendo com os melhores que fazem isso. Não menosprezando meu trabalho, mas eu tô concorrendo com os melhores, ou seja, a chance de apanhar é maior. De apanhar porque eles têm mais experiência. Eles têm mais experiência, eu vim depois. Eles viram coisas que eu não vi, entendeu? Então, aí minha ideia foi a seguinte, como eu já tinha ganho um projeto de um teatro, eu aprendi muito de acústica. Eu estudei muito acústica, eu estudei muito acústica. E aí eu lembro do tempo de reverberação ótimo. Aí eu falei, puxa, o museu, né? O museu é um lugar que você tem vários layouts, todo vazio, com quadro, uma peça. Então, quem tem que trabalhar acústica é o espaço, não as peças. Porque às vezes você fica vazio, fica com eco, aí fica cheio, fica ruim, né? A sonoridade. Você pôr uma música, porque o museu você chega em um silêncio, mas uma pessoa fala uma coisa que é aquele zum, zum, zum, zum, zum, e aquele zum, zum, zum. Não, mas é do que o eco batendo, que o eco vai e volta, o som batendo. Esse eco não é bom. E no museu as pessoas... Gente, não adianta você falar... Acabou essa história, né?
Mas a ideia da música foi sua?
Do quê?
Do... Do museu?
Da música? Não, não, não. Até agora, não.
Vamos lá, te explicar.
Então, quando você tem um tempo de reverberação acima do normal, né? Que eu só aprendi lá atrás, coisa daí. Você acaba tendo esse... O que é chato. E pra acabar isso, você não pode ter o eco. Pra não ter o eco, você precisa do quê? duas coisas ou gastar absurdamente material que absorve esse som que é um material muito caro Porque ele é importado, é especial, tem um tipo de anti-chama, anti-fogo, tem que aguentar X tempo no fogo. Então é um material nobre, não vende a qualquer hora, porque não é toda hora que você faz isso. Então acaba às vezes o material sendo mais caro do que a própria parede, do que a própria estrutura. Então eu falei, já vou resolver isso de um jeito. As paredes paralelas, elas dão eco. Mas se você der uma inclinadinha em um, não tem mais eco. Agora já resolveu, já entendeu o desenho do projeto, por isso que ele tem aquela forma. Não é que eu quis fazer um projeto dobrado pra chamar atenção, porque eu quero ser melhor que ninguém, não. As dobras são pra acabar com o eco, e o que aconteceu? Revestimento zero.
É interessante, então agora você vê que legal, você tem uma função.
Você entendeu? Como a função vem junto, não tem como você parar, porque a hora que eu já faço a parede assim, já sobe lá, inclina. Já respondeu a primeira pergunta?
Já respondeu agora.
Agora você consegue um ícone, um iconográfico pra você ter isso.
E aí você foi buscar essa solução na acústica.
Na acústica. Então como é que foi o espaço cultural acústico? Mas é um museu, eu falo, é, mas às vezes o museu, às vezes o barulho é chato, né? Você tá lá, né? O eco, né? Às vezes a pessoa fica falando, falando... Antigamente, você poderia chegar no espaço e falar, cala a boca, fica quieto, né? Só que hoje em dia, a cultura mudou, às vezes pode ser ofensivo você falar, fica quieto! Às vezes pode ser, né? E eu já imaginaria que um dia isso seria ofensivo, você mandar, cala a boca! Né? Todo mundo tem a liberdade dela. Só que eu não saberia quando isso ia chegar. Então, se você não vai estar em um lugar... Ah, cala a boca! Vai dar uma briga, o outro vai te processar, vai dar... Entendeu? Então, isso não existe mais. Então, eu queria que a arquitetura resolvesse esse problema antes de alguém falar...
É, e quando eu fui lá, tava tendo um estilo de som ambiente, de música ambiente...
Exatamente. E você consegue ter um som ambiente que não ultrapassa... Sim. É super inteligente.
Mas aquilo não foi, não partiu de você essa ideia do som.
Não, então, o som foi possível por causa dessa técnica das paredes.
Entendi.
Entendeu? Ele foi consequência.
É porque fica muito agradável, assim.
Exato.
E ainda nessa linha de concreto, Yuri, você que é reconhecido, enfim, pela forma de projetar com concreto e tornar essa arquitetura leve, apesar de ser com concreto, eu queria que você falasse um pouquinho sobre esse concreto que você inventou.
Ah, legal. Chama Creto.
Creto?
É. Isso foi... tem muito gente genial pra criar nomes, né? Eu não. Eu pensei na coisa mais simples possível. E o nome saiu feito... Concreto.
Concreto.
Então eu só tirei o concreto. E você usa?
Como funciona?
Eu uso. Na verdade o nome dele, tem nome e sobrenome. O nome dele é Creto. O nome dele é Creto 936.
E tem uma indústria específica que faz, que desenvolve?
Não. O que acontece? É difícil você querer, vamos assim dizer, ter alguém específico para te fornecer isso. Porque o que acontece? Cada obra é numa localização. O concreto demora no máximo 3, 4 horas. Você tem um tempo de vida útil na betoneira de 3 a 4 horas para ele chegar até a construção. Passando o tempo útil do concreto, passou de um prazo, o concreto não é mais funcional. Você tem que descartar. Exatamente, jogar fora.
Mesmo tendo aquele giro, aquele movimento?
Sim, você tem um tempo certo. Passou daquele tempo, lógico né, passou de um tempo. Ah, eu posso colocar o aditivo para demorar mais tempo? Demora, mas não muito mais horas, entendeu? Às vezes tem uma região muito remota, que nem onde fiz a casa das duas vigas. A gente conseguiu colocar um aditivo que demorasse mais, mas demora mais, mas não muito mais. Porque muita coisa varia no concreto. O concreto, ele é uma reação, certo? Uma reação química ali. Se ele é uma reação... A gente não está no CNTP, condições normais de temperatura e pressão. É uma temperatura específica, é uma pressão específica, uma umidade específica. Então, tudo isso influencia. E para você dar qualidade de um concreto, para ter um FCK de 35, alguma coisa do tipo, não ter fissuras, você tem que seguir ele em um tempo útil, que a gente chama. Passou daquilo, é descartado. Você fala, nossa, mas descarta-se. Então, o que eu acabei fazendo foi o seguinte, eu sempre via, eu andava por aí, eu via as formas de concreto, desculpa, as formas de madeira, e aí quando você tirava o concreto, você não pegava tanto a estampa, você pegava as ripas, você pegava a veia da madeira. E aí eu falo, a madeira é um material tão nobre e tão lindo, a madeira é tão linda e tão nobre, Por que que a gente não extrai ao máximo dessa textura da madeira? Porque aí parece uma madeira cinza, né? Pela textura você sente que é madeira. Você olha uma foto preta e branca, você consegue falar que ela é uma madeira?
Consegue.
Agora, um concreto não, mas é com uma foto preta e branca da madeira, cinza, né? Ou seja, sair dessa filosofia. Então, o que eu pensei? Eu vou criar... Na verdade, criar é muito arrogância falar a minha. Então, vamos desenvolver um concreto específico que eu consiga extrair ao máximo essas veias, os detalhes da madeira. Até o nó aparece. Se eu chegar lá, o nó já aparece do concreto. Então você acaba colocando, a gente colocou 6 aditivos, com 5 ou 6 aditivos extras no concreto, a mais do que os originais, pra que ele tenha todo imperializável, tenha o auto adensante, além da forma né, o material que você passa na forma pra, vamos assim, desmoldar né. Então a gente acabou desenvolvendo uma receita que é o concreto que nós usamos o nosso nome. Por que? É melhor que os outros? Não. Mas é o meu.
É o seu.
É para diferenciar o meu dos outros, entendeu? Yuri, mas o seu é melhor que os outros? Não. É concreto igual.
E esse concreto pode ser fornecido por qualquer indústria?
Por qualquer indústria. Qualquer indústria. Porque eu tenho as pessoas que me fornecem todos os aditivos. Por exemplo, aditivo A da empresa X, aditivo B da empresa Y, aditivo C da empresa tal. Então, eu tenho... Aí, o que acontece? Na minha casa. Fiz na minha casa. Primeiro teste, foi na minha casa, né? Tinha que testar para ver. Problema, eu sou o culpado. Então... Acabei testando ele, e deu super certo, ficou lindo! lindo, lindo, lindo, lindo, lindo, mas assim, eu adorei, adorei o resultado, sabe? E não foi uma mão de obra extremamente especializada, não sei o que lá, fui eu, uma equipe muito boa, que a gente tinha um contato, sabe? E fizemos as formas, concretamos e fizemos paredes maravilhosas com 10 centímetros de concreto.
10 centímetros de concreto.
10 centímetros, maravilhoso, tá em pé, tá rígido, você bate 10 centímetros.
E com resistência, né?
Com resistência. Entendeu? Então, claro, porque tudo isso é esse concreto que a gente foi possível chegar em uma estética, beleza, existência, tal, tal, tal... E é um concreto que eu confio, porque aí eu testei na minha casa e deu certo. Quando os clientes perguntam, é bom ou não, eu falo, vou lá em casa ver. Deixei o pessoal para tomar um café em casa, né? Aí quando o pessoal olha aquele concreto, tá? Olha o concreto, meu Deus, eu mando foto... Minha nossa! E aí impressiona.
Ô Yuri, eu tenho outra pergunta da internet aqui nessa linha. Verdade que você aprendeu cirílico para estudar cálculo de estrutura?
Meu Deus do céu, alguém que vai dar palestra, né? Certeza que foi alguém de palestra. A gente faz muita palestra, né?
Então... Sim.
E eu te explico.
Vamos lá.
2005. Eu trabalhava no Carlos Bratic. Tinha acabado de me formar, fui convidado a trabalhar no Bratic. Onde eu fui lá estudar as coisas do Oswaldo e tal. E eu já via os projetos do Osvaldo, e por ver os projetos do Osvaldo eu achava legal, e aí eu tava começando a conhecer Paulo, as coisas do Paulo. Já conhecia na faculdade mais do mesmo, do Paulo, que a gente aprende, mas indo visitar obras dele, vendo coisas diferentes, projetos na praia que nunca foi divulgado, aquela uma casa, então começando a ter contato com coisas mais raras. Aí eu falei, meu, preciso ser bom em estrutura. Porque, às vezes, eu não sendo bom em estrutura, não consigo argumentar pra fazer o que eu quero. Aí o engenheiro poda minhas asas. Não na maldade, mas porque você não sabe explicar o que você quer. Aí o engenheiro não sabe o que você quer, ele não vai saber o.
Que você faz, né? É, muitas vezes falta de conhecimento da sua parte.
É, é conhecimento de ambos. É que nem relacionamento. Tipo, são duas pessoas maravilhosas. Só que elas não se bicam porque elas não falam a mesma língua, assim. Entendeu? É só isso. Aí, na época, eu fui na faculdade e perguntei pro professor de engenharia. Falei, professor...
É...
Eu não sou... Eu até peço desculpa estar aqui. Eu não sou da área, eu sou da engenharia. Eu sou da arquitetura, mas eu vim aqui na engenharia perguntar... Eu preciso de um livro pra aprender concreto. Aí ele falou, ah, meu filho, tá. Esse livro aqui, ó. Era concreto, armado e eu te amo. Livro. Aí eu peguei, eu li o livro, mastiguei o livro e falei, ah, tudo bem. É legal, mas eu quero mais que isso. Eu quero... Aí cheguei pro professor, li o livro, comi o livro lá, acho que em duas, três semanas, comi o livro. Aí eu voltei lá, professor, tem alguma coisa diferente? Não, meu filho, mas isso aí já tá bom, porque ele tava achando que eu só queria fazer o vãozinho de símbolo.
O básico, o básico.
Não sabia. Aí eu falei, não professor, eu queria aprender a fazer coisas diferentes. Aí ele olhou pra mim assim, você quer um desafio, né? Eu falei, pode ser um desafio. Então, tá bom. Os melhores cálculos de concreto e formas, desenho de forma e cálculo de concreto, eles vêm da escola russa. Que, na verdade, era da antiga União Soviética, quando se construía aquelas coisas de concreto. Mas, vamos assim dizer, se eu falar russa, eu estou sendo um pouco genérico. Eu vou falar da União Soviética como um todo. Então, envolve todo mundo ali quando era a União Soviética. E aí, falei, cara, agora já sei, né? Falei, obrigado, professor. Tem algum livro... Aí fui na biblioteca e não tinha nada. Literatura zero dessa área. Aí falei, bom, beleza. E eu lembro que naquela época já tinha acabado de lançar alguma coisa próxima, assim, era pouco conhecido, mas eu nunca tinha visto ninguém que comprou. Mas falei, vamos aí, vamos testar. O eBay. Ninguém conhecia o Ebay na época. Hoje o Ebay, todo mundo compra tudo no Ebay. Ninguém conhecia o Ebay. Era muito forte na América do Norte, mas aqui não... Aí, beleza. Aí no Ebay, achei uns livros... Russos, né? Ou seja, dessa época de estrutura. Aí eu peguei e falei... Aí o professor até tinha me dado uns nomes, né? Procura esse autor, esse autor, né? E aí eu peguei e coloquei, achei de 10 que ele passou, achei 7. Aí eu falei, mas perfeito. Genial. Comprei todos os livros. Não gastei 100 reais com livros, sabe? 200 reais, que seja. 150 reais, não gastei. E aí chegaram os livros em casa. Puta, chegou, era uma euforia, né? Caramba, chegou tudo de uma vez só, né? Porque eu mandei comprar... Na verdade, tudo de uma vez só não. Por quê? É... A mesma biblioteca tinha quatro livros e a outra tinha uns três, sabe? Tipo, três aqui, três aqui.
Entendi.
Porque o frete é caro. Eu não tinha nem grana pro frete. Eu tava sem grana pra frete. O frete internacional é muito caro. Eles falavam, vou comprar o máximo aqui e o máximo aqui. Então, chegou quatro. Quando chegaram os quatro, super feliz, abri a caixa, abri, ta, ta, ta, abri tudo, feliz, agora que eu abri o livro... Não tem inglês junto?
Cara, você tá na União Soviética!
Inglês junto! Vem traduzido pra língua do inimigo dele, né?
Não dá!
Não dá!
Não dá!
Aí eu falei, meu Deus do céu! Eu nem imaginei! É inimaginável, porque você imagina que todo livro que eu abri na biblioteca tinha o inglês do lado, né? Por inocência, né? Minha eu achei que ia ter. Não é nem que eu achei que ia ter, mas eu achei que ia ter alguma coisa, pelo menos um italiano. Alguma coisa pra ler. Aí eu falei, até porque o inglês pode ser britânico, que tá logo deles ali, né? Não tinha. Decepção. Decepção total, porque eu vi os desenhos, mas eu vi os textos falando, falei, meu... É um desenho com hierogrifo, você não sabe ler, né? Aí eu falei, quer saber de uma coisa? Eu vou aprender russo. Russo não, é a moda de dizer, eu vou aprender o cirílico, né? O alfabeto que faz base da família russa ali, que é muito próximo de outros. Como é próximo também, se você ver a grande da União Soviética ali, se você for pegar, a grande parte usava, algumas não, mas a maioria usava o cirílico. Então falei, beleza. parte... Aí eu lembro até hoje, fui na Saraiva do Shopping Eldorado, meu escritório ficava na... Nessa época eu já estava com o escritório. Não, ainda não. Mas eu sempre andei pelo passo, porque era caminho para ir para o Bratica. Eu parei no Eldorado. Eu fiquei até feliz, porque nessa época é aquela que você podia pegar dois ônibus em menos de uma hora. Você pegava o outro, lembra?
Aquela época que você podia sair.
Eu fiquei até feliz. Eu economizei R$1,50.
Você tinha um tempo.
Eu economizei R$1,50 do busão, eu já estava feliz. Olha a nossa alegria como era, né? E aí eu desci rápido no caminho, comprei o CDzinho e voltei. E aí, eu tinha um disquimé em velho, colocava e punha o fone de ouvido, e aí tava lá, tinha um book e o CD pra você ficar ouvindo, né? Aqueles caderninhos que você comprava pra aprender línguas, né? E aí tava o caderninho lá e de repente, meu, passou dois, três meses e os caras acharam que eu explodi o busão, porque eu tava parado aqui assim, de olho fechado, cansado, né? Falei assim, passe, bá! Dava, bila! Tava falando uma língua maluca. Os caras eram loucos. Eu não tava nem aí, eu nem me importava pro mundo. Eu tava aprendendo o cirílico, né? Isso foi bom, porque eu aprendi um pouco esse cirílico. E aí, eu conseguia interpretar, né? Ou traduzir os textos e me aprofundar em cálculos de concreto. Então, resumidamente, foi isso. Foi... Ah, eu lembro que depois, numa época na própria... Acho que na Universidade de São Paulo. tinha um curso de línguas e você podia escolher. Aí eu lembro que na época eu pus, na época, o cirílico, mas aí na época não fez quórum, aí não teve, imagina. Lógico, né? Bem incomum. Eu me cadastrei e tava feliz, agora eu vou ter professor. Não deu quórum, não fechou a sala, então... Oi, Yuri.
A gente já tá, infelizmente, chegando aí ao final do nosso episódio. Última pergunta, antes da gente encerrar. Como é projetar para fora do Brasil?
É legal. É legal, só que é bem desafiador. Porque envolve muita coisa diferente. Leis, regras, as próprias filosofias dos clientes são diferentes.
A cultura, né?
A cultura é muito diferente. Mas uma coisa é incrível no pessoal, vamos assim dizer, no overseas, o pessoal de fora, nos estrangeiros. o quanto eles confiam no arquiteto. Eles não querem mudar o projeto. Eles mudam o engenheiro, mudam tudo, mas não mudam o projeto. Aqui no Brasil ainda tem aquela coisa, faz assim, o cliente fica mudando e tal, eles não mudam.
Mas geralmente no primeiro desenho, no primeiro projeto que se apresenta, na primeira versão...
Vamos falar, a primeira versão acaba sendo quase 90% do que eles querem. Mais ou menos a média. Mas depois que ele fechou, você ajusta. Ah, eu quero um banheiro maior. Ah, minha filha não falou, mas ela queria um closet maior. Aí você vai lá e desenha. Mas nada que é fora do conceito. Apenas dimensionável, sabe?
Entendi.
Ou seja, o conceito é o mesmo. Você só aumenta. Ou seja, você não acerta em cheia as medidas. Mas essa questão acaba sendo, e a confiança deles é absurda, chega a ser absurdo, sabe? Tanto é que muitas vezes eles falam assim, falam assim, olha o engenheiro daqui falou que não consegue fazer isso, você tem dinheiro pra ir mão de obra do Brasil pra eu contratar? Olha que ponto que chega.
Vai ser interessante.
Isso é super interessante. Teve um projeto que eu fiz na ilha de Bora Bora. Engraçado que está muito na acionia ali. Fiz ilha de Bora Bora, em Manila, aqui nas Filipinas, tem na Itália, em Tulum, no México. Mas enfim, você percebe que muitas vezes eles querem os meus profissionais. Não sei qual é o custo de mandar a pessoa ir, sabe? Não sei nem se ele vai querer ir, ficar longe da família.
E de onde vem essa procura, Yuri, antes da gente encerrar? Você participa de algum programa de internacionalização?
Não.
De arquitetura?
Não, nunca participei. Eu acredito que muitos vêm por premiações, porque às vezes você sai em premiação e aí você sai numa revista lá fora... Com certeza, o projeto que o cliente veio atrás de mim é porque a gente saiu num livro. Entendi. Tá um livro lá. Tem grandes arquitetos no livro, inclusive brasileiros, mas o cara resolveu chamar eu. Tava lá no livro, entendeu? O da Itália já não. O da Itália ele viu na internet e... gostou. Na verdade assim, foi a esposa dele que viu, a esposa dele que gostou. Mostrou pra ele e falou que incrível. E aí a gente acabou fazendo. E Tulum não. Tulum é um cara super bacana também. Ele é, vamos assim, coaching, né? Um coaching super famoso em Las Vegas. E aí ele viu o nosso trabalho e falou, meu, o seu trabalho é único. Eu quero, de alguma forma, fazer alguma coisa com vocês. E a gente fez a B&F. Também foi premiado em A&B.
Interessante.
Então, eles acabam procurando. É diverso o caminho, não existe uma trilha certa. É uma rede que tudo vai se conectando. Aí a pessoa às vezes viu o meu nome.
É uma construção, na verdade. Exato, é uma construção.
Às vezes a pessoa viu Yuri Vital. Aí eu ponho no Google, é muito fácil. Yuri Vital, sabe? Não tem tantos. Então já cai no site, já cai no Instagram. Entendeu? Então o nome que, por sorte, também acaba sendo fácil do cara pôr searching e vem bastante coisa, sabe? Já vem foto, vídeo, casas, desenhos, então é uma facilidade.
É, você acaba ali criando uma certa conexão, né? Mas que, de fato, foi construído, ou seja, não é...
Exato, exato.
Por isso que é importante essa questão, quando eu falo lá atrás, de viver o processo. Então, hoje você tá, na verdade, colhendo... É, o que você plantou lá atrás e a tendência é que isso... E plantando mais. E plantando mais pra que essa colheta continue aí a cada dia. Yuri, e queria que você desse aí suas considerações finais, infelizmente nós chegamos ao final do nosso...
É, a consideração... Primeiro, agradecer o processo, achei super bacana, é super confortável, super... Você deixa a gente super à vontade, o que é bom, que a gente precisa... Se não ficar muito pressionado, você não fala, né?
É uma conversa, é um bate-papo.
É um bate-papo, isso que é incrível. Esse incentivo, né? A você ouvir o arquiteto, não só ver o arquiteto. Hoje em dia é fácil ver o arquiteto, você vê. Ouvir, ouvir histórias, como chegou, por que chegou, isso é muito legal. que não vai estar em livro nenhum. Só os grandes contam a história, né? A gente que é pequeno aqui, né? Se você não tiver como contar, e às vezes a gente acaba sendo um... um norte para um jovem arquiteto, ou um possível fornecedor para um cliente. A vida vai criando, foi o que você falou, nós estamos em construção. Mas eu acho que é muito válido essa atitude de vocês, eu achei super bacana. E se tivesse agora, se você pedisse para chamar outra pessoa, eu acharia interessante agora outras pessoas.
Não, por favor, fique à vontade, Yuri.
Tem uma pessoa que já trabalha na parte da construção mesmo, né? Na pré-fabricação de peças. Eu gosto muito do trabalho dele e ele é um gênio em concreto.
Concreto.
É. É. É o gênio. Tá? Ele é... Vamos lá.
Aquela câmera convida. Pode convidar, por favor.
E o gênio, eu tô te chamando aqui também. Não sei, não vai ficar fora dessa não, tá bom? Então o convite fica pra você.
Ele é engenheiro estrutural.
Não, não é estrutural. Ele é engenheiro, só que ele tem três empresas, uma delas é a 3UNO, que é uma empresa que faz, vamos assim dizer, peças em concreto. Então, ele tem outras empresas, não vou ficar fazendo marketing dele, deixa que ele nem faz. Mas ele é uma pessoa, tratamento de concreto, já me salvou às vezes em projetos que eu vou fazer uma reforma e já tem um concreto. O cliente tinha um concreto com problema e eu vou fazer a reforma. Aí eu chego lá e tem coisas que eu tenho que fazer do zero e ele me ajuda a salvar o concreto.
Não, bacana.
Tenho certeza que essa... Que pra gente aqui é interessante, porque hoje quem salva o concreto depois de feito eu não conhecia, agora eu conheço ele.
Não, e é interessante pra própria indústria, né? Porque de repente tem alguém aí da.
Indústria que não conhece... Exato, não conhece e tem um contato com ele, sim. que é o objetivo que você falou, que é a ideia de construção.
É, na verdade, a ideia do ConstriCast, como eu sempre falo, que é promover ideias e soluções para o mercado de arquitetura, engenharia e construção.
Eu já fiz os dois, eu sou.
Arquiteto, falei de engenharia e construção. E construção. E agora você está trazendo um engenheiro que está trazendo soluções para concreto. Então, super interessante.
Em concreto, vale super a pena. Agradecer não todo mundo aqui, né? Para fechar, agradecer e, de certa forma, a gente está aqui, lógico, a gente quer passar um pouco do nosso carinho, do nosso desenho, tal, tal, tal, e, lógico, é impossível agradar todo mundo, né? E, muitas vezes, quando estou em palestra, eu tento inflamar os arquitetos, os jovens arquitetos, para eles fazerem a arte deles, para ir buscar a... o interior, criar algo deles. E aí eu falo pra eles ousarem não terem medo de errar. Não tenha medo de errar, faça. Se você errar, se acerta. Aí da próxima você não erra e se acerta o outro. Foi o que aconteceu comigo. Então eu falo que no final da história sempre vai ter alguém lá no fundo que vai falar assim, ah, eu não gostei. Aí você fala, não tem problema, não foi pra você. O pessoal ama. Foi pra alguém. E se alguém gostou, tá bom. É difícil a gente agradar todo mundo.
É, e até pra gente, um fechamento aqui que é importante, eu falo que assim, acho que só a gente sabe, né, só a gente interpreta a música do jeito que a gente interpreta, o outro não pode interpretar por nós.
Quantas vezes aqui você não ouviu uma música e você tinha certeza que ele falou tal coisa, aí quando você foi ver o encarte era outra?
Sim, não é, faz sentido.
É interpretação, se houve uma coisa, mas não é, no texto é a mesma.
Então é nesse clima que a gente encerra o episódio de hoje, eu conversei com o arquiteto Yuri Vital, que eu tenho uma admiração muito grande e tá na linha que eu acredito, que é ser diferente, fazer diferente, sair do normal, fujam do normal, sejam loucos. É com esse recado que eu deixo pra vocês Yuri, pra aquela câmera lá. Tchau pessoal, até o nosso próximo encontro.
Obrigadão, sucesso.
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