1 1 Nasce um empreendedor — meuSucesso com

This is a transcript of a YouTube interview in which Romero Rodrigues and several interlocutors recount Romero's early life and the origin of Buscapé. The piece traces childhood entrepreneurship (early businesses and family influence), his discovery of programming in school (BASIC, first home 286), and the formation of Buscapé in 1998–1999 (idea born from needing a product-comparison/search tool, original project name "Quanto Custa", naming process that led to "Buscapé", early technical plan to distribute a 1.4 MB diskettes-based collector and later to harvest prices from websites, and an early crisis around mid-1999).
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Uma empresa nada mais é do que um sonho. De uma forma muito habilidosa, compartilhada. Primeiro com os sócios, depois com os primeiros colaboradores, com os fornecedores, com os clientes. E quanto mais a gente acredita naquele sonho, mais ele é tangível, mais ele é viável. Nada é impossível. O pessoal costuma brincar carinhosamente que o Buscapé foi a primeira startup brasileira. Eu acho que, em uma série de fatores, a gente acabou sendo pioneiro. Quando ela começa, ela tem todos os riscos do mundo. Eu acho que uma das vantagens de você estar no comecinho, pequeno e jovem, de ter 20 anos, é um pouco essa ingenuidade. Imagina lá a gente buscar pé no comecinho, os quatro amigos, o que pode dar errado? Tudo pode dar errado. Eu tava um dia desses revirando, enfim, diários antigos, fazendo uma limpa, e aí eu encontrei essa agenda de 1987 ou 1988, então eu tinha lá meus 9, 10 anos, e em uma das páginas tinha lá um plano de negócio de uma empresa que ia chamar Juan, Juan e André, onde eu ia ter o cargo de presidente, ele de sei lá o que.
Ah, era, assim, brincadeira no quintal de casa e ele queria fazer uma sociedade de minhoca, uma criação de minhoca com o irmão. Lógico, a porcentagem maior era a dele.
E a gente ia, basicamente, cultivar minhoca pra vender pra minha avó. Muito engraçado. Eu lembro de criança a vontade de montar um negócio e... e de montar um negócio que eu começasse, sabe? De certa forma veio de família, né? Meu avô tinha comércio, meu pai empreendeu. O meu barato de fim de semana era no sábado ir trabalhar com eles. Então eu acho que eu acabei pegando isso muito do meu pai.
A gente conversava o tempo todo, no carro, indo pra escola, voltando, no vestiário do clube, andando, jogando bola. Nunca ele falou assim, ah, eu quero trabalhar em tal lugar, eu quero ser isso. Não, ele queria sempre executar alguma coisa. Foi sempre uma característica dele.
O Romero foi uma criança peralta. Ele era assim, a mil por horas. E até atrapalhava um pouco. E quando ele queria uma coisa, tinha que ser. Enquanto ele não conseguia, ele não parava. Até conseguir o que ele queria. Ele queria sempre ter um negócio. Tanto na criação das minhocas, como tomar conta dos negócios do pai.
Tinha um gravador Phillips pequenininho, um manual. E eu fui viajar e ele ia todo dia com a minha secretária pra loja e falava, estou saindo de casa, estou chegando na loja. Ele gravava movimento por movimento pra me apresentar depois, quando eu chegasse, o que tinha acontecido.
Na oitava série eu tive aula de computação, eram os primeiros computadores pessoais, eram aqueles XTs, e logo que eu fiz a primeira aula eu me decepcionei, porque no começo, o primeiro semestre era sobre um software que chamava Microsoft Works, que era como se fosse um Office, só que naquelas telas verdes, sem interface gráfica, então era basicamente um Word que você digitava o texto, formatava e imprimia, Eu esperava mais. Fiquei um pouco decepcionado. E aí, no segundo semestre, mudou pra BASIC, que era uma linguagem de programação, e eu fiquei super intrigado. Eu falei, como é que pode? Eu digito um código aqui e esse código executa a função. O computador não tem nenhuma peça móvel, não tem nada. Eu me apaixonei por aquilo. Saí, fui pra biblioteca, peguei todos os livros de programação que tinham, e aquilo foi um divisor de águas na minha vida. Então eu passei o meu colegial, ao invés de estar na lanchonete, passei trocando disquete com os amigos, todos os geeks. E autodidata, aprendi a programar em diferentes linguagens. O primeiro computador que eu tive em casa foi um 286, que era o máximo, porque era o modelo acima do XT que tinha no colégio. E, na verdade, foi um chaveco que eu passei no meu pai, convenci ele que eu precisava de um computador pra empresa dele, que o computador tinha que ficar em casa, que tinha que ficar no meu quarto.
Ele insistiu, insistiu esse microcomputador e a gente, uma vez viajando, a gente trouxe as peças e a gente montou esse micro pra ele. E aí ele começou a se dedicar a isso há um tempo muito grande. Foi.
Com esse computador em casa que eu aprendi a programar, enfim, me desenvolvi.
Começou a fazer programas de controle de estoque. Vou fazer isso, você compra, compra. Eu era sempre o primeiro cliente dele em tudo que ele fazia.
Eu tive essa sorte de saber muito cedo o que eu queria. Aí eu comecei a me preparar já no primeiro, segundo colegial para prestar vestibular especificamente para aquilo em engenharia elétrica e fazer computação na poli.
Ele fazia o cursinho, fazia junto com o terceiro colegial.
Muito aplicado, muito inteligente, obstinado. Ele é uma pessoa que traz um objetivo e ele realmente luta por aquilo.
Foi indo, foi indo, foi indo, foi indo. Quando aconteceu, estava dentro da pole.
Não foi surpresa, eu sabia que ele ia conseguir.
E eu tinha dois amigos meus que também entraram em boas faculdades, e na época fizeram uma conta. Falaram, olha pai, é 500 reais a mensalidade, que era o valor da época, vezes 12, vezes 5 anos dá 30 mil reais. Pô, isso dá pra comprar um Golf GTI, eu ganhei um Golf GTI. O outro fez a conta, deu um astra. Quando eu fiz a conta pro meu pai, meu pai olhou pra mim e deu risada. Falou, olha, eu nunca ganhei carro nenhum, não vou te dar carro, mas se você quiser eu te dou um computador.
Eu disse pra ele que com o computador ele ia comprar quantos carros ele quisesse. Ele ia aprender a trabalhar, ele ia empreender, ele ia se desenvolver e que ele ia comprar os carros que ele quisesse. Eu precisava ensinar ele a pescar, não dar o peixe pra ele. Eu dei um Pentium pra ele, que era um computador, na época, que era o mais rápido.
Ele ficou, assim, alucinado com o computador.
Foi com isso aí que ele foi andando e foi desenvolvendo.
E foi com esse computador que eu comecei o Buscapé. A ideia de empreender já estava ali no coração há muito tempo. Então, logo que eu entrei na faculdade, eu me mantive curioso e inventando. Cheguei a montar uma empresa que desenvolvia software com um amigo meu de faculdade. E um dia, num laboratório de pesquisa, onde eu fazia estágio como pesquisador, um amigo meu, Rodrigo, virou e falou, pô, você conhece algum site que compara preço de produtos?
Eu, o Romero e o Ronaldo, a gente fazia poli junto. E a gente trabalhava num laboratório na USP. E a gente queria mexer na internet. Nesse laboratório tinha internet lá de graça, né, e banda larga. Eu comecei a procurar uma impressora na internet e não achava essa impressora. Cadê? Yahoo? Não tinha Google na época. Achei os sites da Epson, sites da HP. Como recarregar o cartucho, mas a impressora em si, que eu estava procurando para comprar, não achava.
E aí veio a ideia do Buscapé. Pô, e se a gente criasse um site de busca, só de produtos? Que ele vai trazer informações relacionadas à compra do produto para as pessoas estarem mais preparadas na hora de comprar o produto.
Não havia compra online na época ainda. Não existia, era só realmente tomada de decisão. Você escolher a melhor impressora, o melhor modelo, dentro das características do produto, pra você depois ir se dirigir à loja e comprar. Foi assim que começou.
E chamei o Ronaldo, que era esse meu outro amigo que tinha a empresa de software comigo. Foi um tempo que ele chamou o Mário.
E aí a busca foi tentar achar alguém que fizesse isso e não existia, né? Falei, pô, isso não existe, mas é possível, será que não existe mesmo? Olhou, procurou por lá e não existia. E daí... Então, vamos em frente. Vamos montar aí esse site.
E aí a gente começou a trabalhar lá meio de 98, até meio de 99, de madrugada adentro. Nossos calls eram via ICQ. E nossas reuniões ou eram lá no meu apartamento, no apartamento dos meus pais, ou nos francos-cafés aí que a gente se encontrava para discutir. Não era de garagem, porque ninguém morava em casa, né? Mas no fundo do quintal ali, dentro de casa, cada um.
As pessoas têm uma curiosidade enorme de saber de onde veio o nome Buscar Pé. A gente já fez vários concursos culturais para dar prêmio para os usuários, onde a pergunta era essa, de onde veio o nome Buscar Pé, para ver o que as pessoas respondiam. O nome original do projeto era quanto custa.
Fizemos logo, fizemos site, tudo era em quanto custa. Isso faz muito sentido para um comparador de preço. Um olhou pro outro e falou, tá, e o quanto custa .com.br e você registrou. Não, foi você, foi você e cada um botando a culpa no colo do outro. Saímos correndo, conectamos na internet. Foi a conexão mais lenta da minha vida, todo mundo transpirando.
Tinha lá o registro .br da FAPESP, foi olhar e já tá registrado. Pô, acabou a empresa, e agora, o que fazemos?
Todo mundo triste, falou, nossa, acabou, alguém vai fazer, já tem um concorrente, vai lançar antes da gente, a gente vai perder a oportunidade de ser o primeiro e tudo. E ficamos mega assim, abalados, achamos que já tinha acabado a oportunidade.
Eu pensei, pô, vou pensar num nome brasileiro, que todo mundo conheça, que nunca tenha sido usado como marca antes e que não remeta a preço, porque o quanto custa era muito preso na história de preço, dava pouca liberdade. Mas não cheguei a nenhum nome bom.
Voltamos lá para a nossa mesa de reunião e começamos a discutir. Foi o seguinte, semana que vem, cada um volta com as suas ideias. Na nossa reunião, a gente discute e conversa.
O Rodrigo começou a buscar preço, aí busca oferta, busca produto, busca tudo, busca desconto. E a gente tinha colocado pra cada um trazer 10 nomes, ele foi até o nono. E aí ele falou, pô, não consigo pensar em mais nada, então vai qualquer coisa, busca pé. E aí eu comparei com as minhas notas e falei, meu, busca pé.
Um dia ele chegou e falou, Mãe, o que você acha? Busca-pé ou corre-corre? Falei, busca-pé.
Gostei do busca-pé. Também aí. Não, mas... Eu tava brincando, mas pô, é legal, é um nome simpático, é um nome que tem uma empatia, é uma coisa de gerar velocidade, tem busca, enfim.
Ficou Buscapé, que de certa forma é um nome fácil de lembrar, né? E na hora que você vê a internet, uma época ainda que não existia mecanismo de busca, era importante ter um domínio que impactasse a pessoa.
E eu estava completamente apaixonado pelo nome, o Rodrigo também, acho que todos estavam, no fundo, apaixonados, o Ronaldo também, mas eu lembro que a gente falou assim, bom, então vamos fazer o seguinte, se a gente encontrar outro nome, beleza, mas vamos com esse por enquanto que a gente precisa resolver. Provisório até hoje está.
A.
Ideia original do Buscapé era pegar preço de loja de rua, até porque tinham pouquíssimas lojas na internet naquele momento, na internet brasileira devia ter quatro ou cinco lojas online que a gente soubesse.
Estudava na Poli, trabalhava no LARC. À noite a gente chegava em casa, jantava, dava uma descansada. Meia-noite conectava pra começar a desenvolver. Da meia-noite às seis, você pagava um curso só de telefone. Então não gastava a telefonia, então podia ficar a noite inteira.
E a nossa visão era desenvolver um software que ia caber num disquete, então tinha que ter até 1.4 megabytes. O disquete ia ser distribuído, então qualquer varejista poderia pegar esse disquete numa banca de jornal, alguma coisa assim, instalar no computador. Esse programa ia procurar dentro do computador por planilhas de preços ou software de gestão, ia esperar da meia-noite, que aí o pulso era único, conectar pelo modem na BBS e mandar os dados para o nosso banco de dados.
Na verdade, ele era mais um chupa cabra, né? Ele pegava, entrava no computador desse cliente, entrava, identificava tudo que era produto, preço, na base de dados e ia pegar aquilo e jogar no nosso banco de dados na internet.
E com a primeira versão desse software pronta, eu peguei uma caixa de disquete e fui andar pelo bairro, no paraíso, e voltei com os 10 disquetes que eu tinha saído de casa.
Me dá um tempinho, cinco minutos, eu já te retorno. Ele nunca retornava pra gente, né?
Fui chamado de louco, de pirado. O pessoal achava que era pegadinha. Falava, pô, mas não faz nenhum sentido isso. A gente não dá preço nem pelo telefone, que é justamente pro consumidor vir aqui, que aí ele já veio, ele vai comprar mesmo. Por que que eu vou dar todos os meus preços pra você e você vai colocar na internet? Depois que a empresa não deu certo com o software em disquete, pegando preço de loja física, veio a ideia de pegar os preços que já estavam disponíveis na internet.
Então a gente passou esse período todo acreditando nesse modelo, achando que ia ser super certo, desenvolvemos tudo, e na hora que a gente foi falar com o cliente, realmente, isso é muito do que o design think fala, né? Você fala com o cliente, depois você desenvolve o produto. A gente fez o contrário, desenvolveu o produto e foi falar com o cliente. Não se aplicava naquele momento. Talvez hoje, a maioria dos varejistas, principalmente por causa de questão de pandemia, todos falavam, vou botar a sua loja na internet, você vai começar a vender muito mais. Todo mundo topa isso. A gente tá falando de 98, né?
Ali foi uma das primeiras vezes que, das várias, que o Buscapé morreu, ou quase morreu. Alô, boa tarde. E é engraçado que a primeira vez, em junho de 99, eu não vou mentir, eu fiquei com o olho mareado. Foi até bom ter sido por telefone, que seria vergonhoso. Em uma empresa daquele tamanho, eu mal comecei a minha vida profissional, sou um empreendedor há três dias e vou tomar um processo de uma empresa bilionária.
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