5 3 Como estruturar um modelo de governança para plataformas — m

Fernando Moulin explains how to build governance for platforms using Buscapé as a case study. Three core rules: create customer value, don't change rules for self-interest, and share wealth fairly. Four tools work together: legal terms, community norms, platform code, and social currencies like reputation and reviews.
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Olá, seja bem-vindo à quinta aula do estudo de casa do Romero Rodrigues. Meu nome é Fernando Moulin e é com muita alegria que estou aqui mais uma vez com você para o nosso último encontro desse projeto, para que você possa aprimorar ou aprender novos conhecimentos sobre a construção de modelos de negócio baseados em plataformas. Como você já sabe, eu também sou empreendedor, professora e especialista em transformação digital, aceleração de negócios digitais e gestão da experiência do cliente, com mais de 20 anos de experiência em grandes empresas atuando em diferentes áreas e setores de atividade. Na aula de hoje, você vai entender um pouco mais sobre o dia-a-dia dos negócios plataforma, principalmente no que diz respeito a como estruturar o modelo de governança para plataformas. Vamos analisar alguns aspectos essenciais, como as chamadas falhas de mercado, o que são moedas sociais e seus impactos, e ferramentas para governança de plataformas. Você vai perceber que conforme as plataformas vão se estruturando e ficando maiores em termos de usuários e interações, progressivamente passa a ficar cada vez mais fundamental o estabelecimento de regras de participação claras e a constituição de políticas de uso e gestão para ampliar o valor e o crescimento da própria plataforma em um ambiente construtivo e que atraia usuários com interesses efetivamente em comum. Então, vamos lá!
A empresa tem cultura corporativa do momento que ela nasce, mas ela se passa de diferentes formas, a gente transmitia por exemplo. Dois founders conversando sobre uma ideia, só os exemplos, só a forma como eles estão falando já inspira uma série de valores. E a gente tinha valores muito fortes, só que a gente não tinha criado mecanismos para propagar esses valores.
E uma grande preocupação que o Romero sempre teve foi como é que a gente cresce sem perder a essência, sem perder a cultura, sem perder o jeito de ser. O que a gente precisa fazer para manter essa nossa essência, para manter a cultura da companhia na medida em que ela continua crescendo e vai se tornando mais complexa? Teve algumas falhas no meio do caminho, sem dúvida nenhuma. A gente já trouxe algumas pessoas para dentro do negócio na esperança de ajudar o crescimento que não contribuíram. Algumas até destruíram o valor em algum momento.
E aí começou a criar silos, cada um com a sua cultura. Pior, a gente começou a adquirir um monte de companhia. E começou a ter aquelas rachas, ah, você não é Buscapé, você é Ibite, ah, você não sei o que, você não sei o que lá. E eu me peguei preso no meio dessa loucura.
Foi um esforço muito grande da parte dele, da minha parte, de várias outras pessoas, de eliminar dentro de casa esse feudalismo, essa disputa Porque aquilo não combinava com o que a gente imaginava que seria a cultura correta daquela empresa, que é a mesma que fez ela começar lá na garagem e chegar até aquele momento.
E você precisa criar, primeiro, uma cultura, uma liberdade, mas também um ambiente onde você consiga controlar esses experimentos para que um fracasso não destrua a companhia toda. E quando você faz isso, você já provoca uma mudança de cultura. E essas mudanças são geralmente criadas em cima de dores.
Como vocês puderam ver no episódio, em diversos momentos na história da empresa, Romero e a equipe se depararam com os complexos dilemas decorrentes de estruturas de governança, interna e externa, crescentemente sofisticada, para assegurar os direitos, desejos e deveres dos inúmeros stakeholders, ou seja, os constituintes do ecossistema busca pé. Desde o início, quando houve a necessidade de se criar um modelo de negócio que preservasse a tecnologia proprietária do Buscapé, em conjunto com a satisfação de seus usuários e também dos vendedores que estavam na plataforma, até a decisão de venda para a Naspers e, mais tarde, com as mudanças estratégicas tomadas pelo acionista controlador que alteraram a proposição de valor vigente na plataforma por mais de 10 anos junto a seus usuários, encerrando algumas funcionalidades e serviços e verticalizando integralmente outras, os temas de governança foram essenciais na definição dos sucessos e fracassos do busca-pé. Mas o que é governança no universo das plataformas? Governança nada mais é do que o conjunto de regras que define a quem pode participar de um ecossistema, b como se dá a divisão do valor capturado de mercado pela plataforma, e c como os conflitos são resolvidos. Ou seja, entender a boa governança da comunidade nada mais é do que entender o conjunto de regras que orquestram seu determinado ecossistema. Parece simples, não? Pois bem, veremos que essas simples questões podem se tornar extremamente difíceis de resolver, principalmente quando as coisas estão evoluindo mal, ou bem, demais. Assim sendo, se você tem interesse em ser assertivo ou lidar com regras de governança enquanto constrói sua plataforma, sugiro que jamais se esqueça das três regras básicas para uma boa governança. São elas, regra número um, sempre, sempre criar valor para os clientes a quem você serve. Regra número dois, jamais usar seu poder para mudar as regras somente em benefício próprio. E regra número três, não buscar mais do que uma justa parcela da riqueza. O objetivo de uma boa governança é criar riqueza que seja distribuída segundo critérios claros e justos entre todos os participantes que geram valor para a plataforma. Como os negócios de plataforma cada vez mais vêm gerando uma vasta quantidade de novas riquezas, existe pelos participantes a expectativa simplista ou explícita de que esses benefícios sejam administrados com justiça. Normalmente, a gestão do ecossistema será tanto mais sábia e eficiente quanto menos egoísta for. Por outro lado, como há múltiplos interesses envolvidos e nem sempre alinhados, essa tarefa se revela muito mais complexa no mundo das plataformas do que na economia tradicional. Mas como ela funciona na prática? Vamos voltar ao nosso exemplo, que já usamos nas aulas 3 e 4 desse estudo de caso, em que você estava planejando o lançamento da sua nova e muito sonhada loja de produtos para o segmento PET. Lembra que em nosso último encontro você havia constituído a mais nova plataforma digital do mercado PET no Brasil? Pois bem, após a aula, considere que você refletiu bastante e decidiu se associar aos sócios proprietários daquela rede social de clínicas veterinárias que atuava na mesma região que você. Cheio de expectativas de que as duas empresas certamente poderiam se beneficiar imensamente do tráfego aumentado de usuários e da opção mais variada de produtos e serviços disponibilizados pelos donos de animais de estimação. E realmente, no início parecia um conto de fadas. Mais usuários, pouca sobreprodução de produtos e serviços vendidos, mais negócios e lucros para os coopetidores. Devido ao próprio sucesso desse projeto, diversos novos produtores passaram a querer se integrar à plataforma. E aí, alguns deles ofereciam tanto serviços veterinários quanto produtos PET. Outros chegaram por intermédio de relacionamento somente com um dos sócios, diretamente. E ainda também havia usuários que faziam avaliações positivas de parte dos serviços oferecidos na plataforma, providos por uma das empresas sócias, e negativas da outra parte, providas pela outra empresa sócia. Na prática, um dos passos essenciais para o sucesso consiste em definir as regras que vão orientar essas relações, como por exemplo, a admissão de novos constituintes da plataforma, punições a prestadores de serviços de má qualidade, remuneração recíproca pelo projeto conjunto mesmo que somente uma das partes preste o fechamento de serviço, comissões para novos fornecedores com características híbridas e assim por diante. A depender de seu nível de relacionamento e transparência com os novos sócios, esses problemas, positivos a princípio, trazidos pelo crescimento da plataforma, poderão na prática representar o início do fim desse projeto em comum. E é por isso que hoje veremos mais dicas e técnicas para que a sua governança seja excepcional e esse tipo de problemas e dificuldades mínimo. O que você acha? Parece bom, certo? Bem, para que possamos entender cada vez melhor como funcionam as regras de governança dentro dos negócios de plataforma, é fundamental estudarmos quais são as assim denominadas falhas de mercado e as suas causas e origens. Como mencionamos há pouco, ter boas regras de governança nas plataformas é essencial. Modelos de negócio que sejam totalmente livres, isto é, em que consumidores, fornecedores e os gestores da plataforma realizem interações entre si sem quaisquer regras ou restrições, normalmente se transformam em ambientes estéreis e pouco sustentáveis. Nesses ambientes, o fato é que não existe a mínima confiança necessária para a realização de transações. Sabe aqueles grupos de condomínio em redes sociais nos quais todos os moradores se sentem no direito de dar opinião sobre tudo e todos, compartilhando qualquer tema que lhes pareça adequado ou conveniente sob a ótica de seu próprio ponto de vista e muitas vezes afrontando a própria convenção condominial ou pretendendo passar por cima dos poderes formalmente constituídos para o síndico, para que ele possa exercer melhor os seus trabalhos? Pois bem, Você acha que esse tipo de ambiente consegue produzir resultados concretos, que sejam diferentes de muitas discussões, que não tenham o menor cabimento, que em diversas ocasiões pendem para falta de profissionalismo, falta de foco? Não, certo? Pois então, toda vez que você tiver dúvidas sobre a importância de boas regras de governança na sua plataforma, sugiro que você se lembre do que vem à mente com esse exemplo que eu acabo de compartilhar do condomínio. A despeito de ter ou não regras excepcionais de governança em uma plataforma, existem situações em que boas interações, que são as interações justas, mutuamente satisfatórias para todos os participantes, deixam de ocorrer. Por exemplo, quando procuro algum produto que não aparece no motor de busca ou no filtro da plataforma. E por esse motivo eu não consigo concluir a transação desejada. Ou até mesmo situações em que ocorrem más interações. Por exemplo, fraude, extrapassas, engordos. E essas más interações causam muitos dessabores para o usuário. Nesses casos, a gente fala que ocorreu uma falha de mercado na plataforma. São quatro as possíveis principais causas que podem originar uma falha de mercado. 1. A simetria de informações A simetria de informações surge quando uma das partes na interação conhece ou tem acesso a fatos que as outras partes desconhecem e usa esse conhecimento para obter indevida vantagem pessoal. Um bom exemplo é quando o vendedor oferece bens falsificados e o comprador não sabe disso. Se você é usuário de e-commerce há muito tempo, já passou provavelmente por essa situação ou conhece pessoas que vivenciaram essa realidade. Segundo, externalidades. Externalidades acontecem sempre que houver custos ou benefícios oferecidos na plataforma que venham de um elemento externo que não esteja envolvido naquela interação. As externalidades podem ser negativas, vamos dizer, uma manipulação de informações sigilosas que envolve o uso de dados restritos para que se obtenham benefícios indevidos, ou positivas. Essas ideias positivas constituem uma falha de mercado da plataforma porque elas agregam valor para uma das partes sem que este valor esteja sendo muitas vezes percebido como oriundo da plataforma e a ela acreditado. Terceiro, poder de monopólio. O poder de monopólio é caracterizado sempre quando o fornecedor de um determinado ecossistema se torna muito poderoso porque ele detém o conhecimento ou uma capacidade produtiva de um bem muito desejado. E aí usa esse poder para exigir preços maiores ou favores especiais que de uma outra forma não conquistaria. E a quarta falha, o risco. O risco nada mais é do que a possibilidade de que algo extremamente imprevisível aconteça, transformando uma boa interação em uma má interação. Bom, você já deve imaginar que riscos são fatores inerentes a toda e qualquer atividade humana, e por extensão, a todo e qualquer modelo de negócio, plataforma ou não. Assim sendo, o mais importante nesse caso é sempre procurar processos otimizados para contingenciar e reduzir os riscos que têm maior impacto para os usuários da plataforma, de maneira a manter o interesse dos usuários e seguir gerando interações na mesma. Entender como as falhas de mercado ocorrem, bem como desenvolver mecanismos efetivos de governança que minimizem seus impactos, principalmente aqueles que são negativos, tanto nos usuários quanto nas interações, é extremamente importante para o sucesso do seu negócio. Pensando no assunto de casos do Buscapé, por exemplo, a empresa quase teve um impacto irreparável de imagem logo em seu início, quando a plataforma saiu do ar devido a um problema nos servidores, justamente às vésperas de seu primeiro e mais impactante passo na imprensa especializada do mundo dos negócios, que alavancou sua visibilidade e imagem positiva perante investidores. Olhando para o passado, parece quase primário que uma empresa que dependia integralmente de tecnologia e disponibilidade contínua aos usuários, não tivesse um plano de contingência preparado para o risco de estar com problemas de hardware ou software na plataforma. Mas acredite em mim, esse tipo de falha é muito mais comum do que você provavelmente imagina, inclusive naquelas empresas mais famosas e estruturadas. Portanto, esteja atento, pois uma falha de mercado significativa pode prejudicar a continuidade do seu negócio.
A estratégia da Naspers era, não, mas se a gente pegar todos os comparadores que a gente tem no mundo e juntá-las, ou fazer com que elas se comuniquem de uma maneira mais eficiente, a gente vai para o mercado de cooperação de preços, a gente vai ser muito mais forte.
Eles começaram a olhar e falaram, putz, o Buscapé cresceu muito e cresceu para áreas que não são o core business do Buscapé.
E o problema disso foi que o Buscapé não era mais nenhum comparador de preço, nenhum pagamento, nenhum classificado, nenhum site de vendas.
O Buscapé, que é a parte de comparação de preços, vamos colocar aqui. O que é o Bicash, que era o nosso meio de pagamento, vamos colocar ali. O que era tal coisa, vamos colocar colado. Não, mas espera aí, o que funciona estrategicamente para a companhia é exatamente todas essas coisas conectadas. A gente desconectá-las, a gente perde muito valor, a gente perde muita força.
Mas não tem como, vai destruir a empresa, porque eu não consigo separar mais pagamento de comparação de preços. E as duas coisas separadas não vão ter valor. Então se você pega um cavalo, corta uma pata, você não vai vender uma pata por um quarto do preço do cavalo. Pior, o que sobra do cavalo você também não vai vender por nada. Você perde valor dos dois lados.
E a gente, de uma certa forma, não concordava 100% dessa estratégia. Até porque foi a estratégia que a gente estava trabalhando até um pouquinho antes da entrada da Naspers, e a nossa estratégia era essa. Vamos conectar um monte de serviço aí no ônibus para pé, exatamente para poder criar uma barreira, criar uma experiência para o usuário completa.
Mas foi uma decisão que foi tomada e que tinha que ser implementada.
Agora que entendemos um pouco melhor as regras de governança dentro de uma plataforma, além das possíveis falhas de mercado que acabam reduzindo a qualidade das interações entre os usuários e podem afetar a saudabilidade desse ambiente de negócio dentro do ecossistema como um todo, nós vamos falar em mais detalhes sobre uma das mais importantes formas de incentivo usadas pelo mundo dos negócios para regular o comportamento dos usuários, as moedas sociais. Como costuma afirmar em uma de suas famosas frases de efeito o pensador e filósofo Leandro Karnal, Como eu prefiro sentir-me vigiado que sozinho, eu prefiro me sentir criticado do que largado pela indiferença." Essa frase, que pra muita gente pode parecer inclusive engraçada dependendo do contexto, traz de seu fundamento uma grande verdade humana, também aplicável às plataformas. Mais do que dinheiro, fortuna, fama e diversão, pra muitas pessoas não tem valor maior do que uma modalidade intangível e subjetiva, que se conhece como moeda social. O protagonista do nosso estudo de caso, Romero, observou com sabedoria, logo no início da sua trajetória, a importância que a marca Buscapé tinha junto aos seus usuários, em termos de reputação de qualidade, seriedade e bons negócios. E justamente por isso, as pessoas acabavam preferindo usar preferencialmente Buscapé em suas buscas, criando um ambiente extremamente propício para que cada vez mais varejistas fossem também atraídos e procurassem participar desse ecossistema sólido de bons princípios de governança. Isso tem tudo a ver com as moedas sociais. Você já ouviu falar desse conceito? A ideia por trás do conceito de moeda social é a de dar algo no intuito de se receber ou conseguir algo em contrapartida. Por exemplo, grande parte das redes sociais mais populares está baseada no conceito de compartilhamento de um texto, de uma foto, de um vídeo, do recebimento de retornos em comentários como likes, favoritamentos, compartilhamentos, positivos, favoráveis, desfavoráveis. Quando a gente estende o conceito para plataformas cujas interações tenham por pano de fundo transações comerciais, como o próprio Buscapé, as moedas sociais incluem a reputação de um fornecedor através de estrelas, ou reconhecimentos dados pelos usuários, ou reviews positivos, ou ainda seguidores que uma determinada marca ou usuário ou fornecedor possui. Agora que a gente entrou um pouquinho mais em detalhe, eu acho que não é difícil entender o enorme poder das moedas sociais e o seu impacto nas plataformas, que é muitas vezes subestimado. Pensemos juntos no seguinte exemplo. A diferença de corridas conquistadas por um motorista de Uber que tem avaliação média acima de 4,8 e centenas de corridas efetuadas, em comparação com o motorista mais novo na plataforma que tem média 3,5. Ou ainda, em utilizar plataformas que os fornecedores que já existem no ecossistema já tiveram dezenas ou centenas de avaliações e comentários dos usuários na sua loja, ao invés de uma plataforma com fornecedores que tem pouquíssimas avaliações. Com quais desses parceiros você preferiria realizar seus negócios? provavelmente com o motorista de Uber melhor avaliado, ou aquele lojista com centenas de avaliações. A resposta é evidente, certo? Da mesma maneira, também existe um combate obsessivo das principais plataformas de comércio à indústria dos fake reviews, pela nocividade que essa prática pode trazer para a reputação e credibilidade das ofertas que existem na plataforma. Nunca se esqueça de que uma boa governança significa cuidar dos parceiros da própria plataforma. E jamais subestime os verdadeiros impactos que as moedas sociais podem trazer a seu negócio, positivos ou negativos. Você sabia que um dos momentos mais delicados na vida de nosso protagonista de Estudo de Caso, Romero Rodrigues, possui total correlação com o tema de governança? Pois é, depois que decidiram fazer a venda do Buscapé e suas diversas propriedades digitais e empresas para o Grupo Naspers da África do Sul, em 2009, houve um período de fortalecimento da empresa e nova expansão, subsidiada pelo poder financeiro do grupo. Ao longo de mais ou menos quatro anos, as regras de governança e gestão da relação entre Naspers, acionistas e proprietários, e Buscapé, sócios que venderam o negócio e seguiram responsáveis pela operação, estiveram baseadas em muitos conjuntos de leis, normas, arquiteturas e mercados de atuação anteriormente vigentes. que já eram de prática recorrente na operação do Buscapé e estavam extremamente bem assimilados pelo Romero e pelos colaboradores da empresa. Essas regras se baseavam em alguns princípios de autonomia, valores, integração tecnológica e comercial das empresas do ecossistema Buscapé, que foram mantidas e ajudaram a transição entre operações a ocorrer sem maiores impactos culturais ou operacionais. Contudo, com as mudanças de mercado e o advento de um novo CEO no grupo Naspers, houve um conjunto de regras de governança que chegaram novas, foram mal assimiladas e fizeram com que Romero não reconhecesse mais a empresa que havia construído. E por não aceitar totalmente essas novas ferramentas de governança e as novas regras do jogo, Romero decidiu sair e posteriormente deu início a sua nova e atual carreira como investidor anjo executivo vinculado ao ecossistema de inovação e startups, onde é super bem sucedido. Portanto, a decisão equivocada de ferramentas ou mudanças bruscas das regras de governança podem afetar a confiança entre consumidores e fornecedores que interagem com sua plataforma, desgastando os efeitos de rede e destruindo o valor que você tanto lutou para construir. Vamos ver mais detalhes sobre isso juntos? Segundo o economista americano Alvin Roth, um modelo de boa governança feito para prevenir a ocorrência de falhas de mercado deveria levar em consideração e acionar, sempre que necessário, quatro alavancas para manter o negócio a salvo. Primeira alavanca, segurança. Por meio da transparência, qualidade ou outros mecanismos que fomentem a ocorrência de boas interações. Segunda alavanca, espessura. Espessura é a capacidade de atrair participantes de dois lados de um mercado, consumidores e fornecedores, e promover a facilitação do contato entre eles. Terceira alavanca, evitar o congestionamento. Isso é, mecanismos que facilitem a realização de pesquisas bem-sucedidas na plataforma, evitando o excesso de participantes irrelevantes ou de conteúdo de baixa qualidade. Quarta alavanca, minimizar atividades repulsivas. Essa alavanca descreve claramente o porquê da proibição de alguns conteúdos que são relacionados a temas socialmente inaceitáveis em plataformas. Por exemplo, venda de animais e órgãos humanos, ou ainda, realização de pornografia e trabalho infantil. Um outro tema importante relacionado a essa alavanca é a curadoria de assuntos e conteúdos relacionados a fake news. Da mesma forma que países, estados e nações se organizam em sistemas e regras, as plataformas também precisam se organizar. Diante dessa comparação, nós conseguimos visualizar mais quatro importantes ferramentas de governança que você pode e deve considerar para o seu negócio. São elas. A primeira, leis de uso da plataforma. Estabelecer um conjunto de leis para a utilização de uma plataforma é uma ferramenta que parece até mesmo bastante tentadora. Sanções legais para punir maus usuários nada mais são do que uma abordagem tradicional para reduzir o problema do risco. Porém, definir quem é o culpado, ou seja, o responsável pelos problemas que eventualmente surgem e que deve ser por eles punido, nem sempre é algo simples ou objetivo. Se você estiver achando que seria um exagero estabelecer leis formais para definir regras de governança, vale lembrar o clássico problema de anfitriões do Airbnb que possuem suas casas alugadas para a realização de festas ou encontros de caráter ilícito. Que pegam bem mal, né? Por outro lado, as plataformas normalmente se variam de diferentes artifícios jurídicos para reduzir suas responsabilidades legais no caso dos problemas. Um outro exemplo clássico é o dos vídeos de violência em massa publicados no YouTube ou no Facebook, que em geral são de responsabilidade de quem os publica, e não das plataformas. Assim, elas conseguem terceirizar esse problema de certa forma. Quando pensamos em leis internas, ou seja, termos de uso de uma plataforma, o contexto é bem diferente. Existem regras que moderam o comportamento, seja no nível dos usuários, seja no nível do ecossistema. A Apple, por exemplo, tem uma regra que obriga os desenvolvedores de aplicações a submeterem todos os códigos à revisão prévia, antes da publicação para os usuários. E essa regra não infringe qualquer outra regra de confidencialidade ou lei aplicável do gênero. É uma prática que permite a Apple, a essa empresa, segurar uma melhor qualidade técnica e uma curadoria dos conteúdos que vão ser disponibilizados em sua plataforma. Característica que, em geral, é bastante apreciada pela grande maioria dos usuários do iOS. Vale observar que cada vez mais as plataformas vêm abusando do seu poder de controle, um híbrido entre leis e normas, através dos conhecidos termos de uso que praticamente ninguém lê. Segunda ferramenta, as normas. Um dos bens mais valiosos em qualquer negócio, incluindo as plataformas, é a existência de uma comunidade comprometida e ativa. Em geral, comunidades com essas características são alimentadas por gestores eficientes que implementam boas normas, pautadas pelo design de comportamento. O que é design de comportamento? Design de comportamento pode ser entendido como uma sequência recorrente de gatilho, ação, recompensa e investimento. Gatírios são estímulos enviados pela plataforma, por exemplo, e-mails, mensagens de bots, notificações no aplicativo, etc, que deixam o usuário alerta para realizar alguma ação em resposta. Essa ação gera uma recompensa, que deve ser interessante para o usuário. E na sequência, a plataforma pede para os participantes que façam algum investimento da parte deles também, sobre o formato de tempo, informações, capital social ou dinheiro. Esse investimento feito pelos usuários, por fim, reforça o compromisso que aquele usuário tem com a plataforma e alavanca a repetição do padrão de comportamento desejado pelos gestores nos processos de governança. Terceira ferramenta, arquitetura. No mundo das plataformas, o termo arquitetura deve ser entendido basicamente como programação de código. Arquiteturas bem constituídas são ferramentas poderosíssimas de governança. Softwares bem projetados se auto aperfeiçoam, reduzem falhas de mercado a níveis mínimos e encorajam e recompensam automaticamente o bom comportamento dos usuários da plataforma. Quanto maior o volume de dados e interações compartilhadas na plataforma, mais poderosos e capazes se tornarão os algoritmos de gestão, alimentando esse ecossistema. Em outras palavras, essas trocas geram melhores resultados, mais bons negócios e o próprio crescimento do efeito de rede. E por fim, como quarta ferramenta, temos as moedas sociais, que você já conhece, sobre as quais já falamos há pouco. Então, dando encerramento ao conteúdo dessa aula, é importante não esquecermos de mencionar a importância das regras de autogovernança das comunidades. Por exemplo, quando usuários podem denunciar outros usuários que praticam hábitos contrários às normas e regras de uso. A autogovernança, quando bem gerida, faz a plataforma reger suas próprias atividades de acordo com os princípios da transparência e da participação. Você já pensou como o Buscapé, o Uber, o Instagram e tantas outras plataformas seriam sem a prática adequada de boas regras de governança e gestão? Com certeza elas não teriam o mesmo impacto na sociedade e também não seriam capazes de criar novos mercados. Portanto, ao desenhar seu negócio de plataforma, construa excelentes práticas de governança e reduz as falhas de mercado ao mínimo possível. Bem, acabamos de ver várias questões que podem te ajudar a gerenciar todas as complexas regras de governança que são essenciais para um ótimo funcionamento do seu negócio de plataforma. E antes de finalizarmos a aula, eu gostaria de lembrar que temos um material complementar disponível para download. Nele, você vai encontrar os exercícios de fixação desse nosso encontro e poderá verificar o que aprendeu. Aproveite e compartilhe com a gente o que você achou. Esse é nosso último encontro dentro do estudo de casos espetacular do meu caríssimo Romero Rodrigues. Foi um grande prazer estar ao seu lado nessa trilha de conhecimento e eu espero que você tenha curtido o que nós comentamos hoje. Tenha muita saúde, faça ótimos negócios e com certeza nos vemos por aí. Até já! E aí E aí.
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