CAFÉ COM INVESTIDOR #5 Romero Rodrigues, sócio da Redpoint

Interview with Romero Rodrigues (founder of Buscapé, partner at Redpoint and Ventris) on Café com o Investidor. Romero explains why he does not regret selling Buscapé—the sale (to a strong partner, Naspers) was strategic given competitive pressures and capital needs—and that he stayed ~six years after the 2009 sale, leaving around 2014–2015 after Naspers changed strategy. He recounts notable errors and lessons: a delayed decision to downsize after the Bom de Faro acquisition and a high-profile launch of an early one-click marketplace feature (“Comprar Agora”) in ~2010 that provoked retailer backlash. Romero contrasts Brazilian and American entrepreneurs: top talent is comparable technically, but Brazilians are more adaptable and skeptical of rigid playbooks; he criticizes excessive founder vanity and not listening. He attributes his entrepreneurial impulse to family (father and grandfather) and an early attraction to computing and Microsoft/Stanford influences.
Questions this video answers
2009
About six years (left in 2014–2015).
Naspers
Around 2010
Late 2013 to early 2014
Chapters
Este é o Café com o Investidor, direto dos estúdios da B3. Eu converso com Romero Rodrigues, fundador do Buscapé e sócio do fundo de Venture Capital, Redpoint e Ventris. Romero, é muito comum os empreendedores deixarem as suas empresas. As histórias são mais conhecidas lá fora do que aqui no Brasil, onde se tem o conceito de corporation de diversos investidores. Você deixou o Buscapé, que é uma das empresas que você fundou. Você de alguma forma se arrepende de ter vendido o Buscapé?
Olha, Rafa, essa é uma pergunta boa. Não, eu não me arrependo. Foi um processo muito bem pensado e acho que muito acertado. E, de certa forma, eu fiquei muito tempo no Buscapé. É muito raro um fundador, depois de vender a sua empresa, Ficar quase seis anos na companhia, depois da venda eu ainda fiquei, eu vendi em 2009, saí em 2014 para 2015 ali. Então você tem aí seis anos mais ou menos de permanência. E foram aí, desses seis anos, eu posso dizer que os primeiros quatro anos foram incríveis. eu não percebi sequer que eu tinha vendido a companhia, porque a gente tinha muita liberdade para atuar, a gente tinha muita liberdade para... não era muito diferente de reportar para o meu conselho anterior onde tinha fundo de private equity. Eu aprovava o orçamento, eu aprovava as grandes aquisições e tocava, era cultura própria, era seguir o jogo que a gente estava jogando antes. Inclusive foi por isso que eu decidi pela venda, porque a gente era... A gente era um bicho meio único no espaço brasileiro, porque a gente competia com grandes empresas globais, com o Google de um lado, com o Paypal do outro. e a gente podia parecer grande para os players nacionais, porque tinha 30, 35% do comércio eletrônico passava pela gente, mas a gente era minúsculo frente a esses gigantes, então a gente precisava se aliar com alguém. Principalmente quando a gente entrou na parte de pagamento, de auxiliar o pequeno varejista a competir com o grande varejista, que aí entra capital de giro e aí você precisa de linhas de crédito e tudo isso no Brasil lá de trás com aqueles juros era muito difícil. Então ir para um IPO ia ser muito delicado e do outro lado continuar sozinho ia ser ruim. Então a gente se associou, foi muito bem pensado, acho que foi uma parceria maravilhosa com a Naspers. A Naspers resolveu mudar globalmente a estratégia dela em 2014, final de 2013, começo de 2014. Isso obviamente colocava o Busca Pé bem no meio dessa estratégia, então ele ia ter que ser dividido em dois pedaços, que eu discordei e foi aí que eu decidi sair. Fiz um processo de transição tranquilo, foi um ano, um ano e pouco fazendo essa transição e aí saí pra ir pra Red Bull. Então, voltando, não. Até porque... Se eu tivesse ficado sem vender o Buscapé, teria sido talvez pelo motivo errado, por vaidade, por ego, por falar ainda quero. Não era o melhor para a empresa, então acho que o bom empreendedor, ele entende, ele não tem agenda própria, ele responde a agenda da empresa e a empresa precisava de um sócio forte. E sem dúvida nenhuma foi o melhor sócio que a gente pôde ter na época.
Romero, agora a cultura do Vale do Silício valoriza os erros, as tentativas e erros. Qual foi seu maior erro?
Poxa, tanto erro.
Mas cita um que você se recorda que foi memorável pra você e que lhe ensinou algo.
Nossa, eu tive um erro grande quando a gente fez a aquisição do Bom de Faro. Eu demorei muito tempo pra tomar uma decisão de redução do time lá. Eu fiquei tentando salvar o time, mas tinha uma cultura diferente e o time achava que ia ser demitido. Eu tentei reverter isso e é uma decisão que eu podia ter tomado um mês depois da aquisição. Eu tomei depois de seis meses. Lembro até hoje um dos meus investidores, um grande amigo, falando, olha, a razão de você tocar a empresa e da gente confiar em você é pela sua intuição. Confia mais na sua intuição. Você já sabia, você já sabia. Por que você insistiu? Puto, eu queria isso. Não, você tinha que ter feito. Então esse foi um bom aprendizado. A gente lançou um projeto maravilhoso, que eu li outro dia, que o Google está querendo lançar nos Estados Unidos agora. A gente lançou em 2010, nove anos antes. A gente pegou no Buscapé e criou um botão que chamava Comprar Agora. E por trás tinha uma tecnologia super avançada, de uma companhia que hoje chama ZUP, e essa tecnologia saía e fazia a compra toda pra você, em mais de mil lojas. Então era um conceito de marketplace, muito antes de qualquer marketplace, qualquer Magazine Luiza, B2A, qualquer um. E lá do Buscapé, você já apertava um botão, a compra chegava, funcionava maravilhosamente bem. E aí teve um erro, acho que entra no critério, uma das coisas que eu acho que empreendedor erra muito, de vaidade. A gente fez um lançamento muito grande disso, um barulho muito grande disso, e os principais varejistas não gostaram, sentiram enciumado, começaram a boicotar o projeto. Então ali teve uma lição grande de, se eu tivesse, por exemplo, feito mais low profile, mais quietinho, teria sido provavelmente muito melhor recebido. Foi um fiasco no final. Poxa, e por aí vai, tem tanta coisa.
E qual a principal qualidade, o principal defeito do empreendedor brasileiro?
Olha, acho o excesso de vaidade um defeito grande, mas o principal é não escutar, não ser o que a gente chama de coachbook, que eu estava falando. Você descobre rápido se você fez um bom investimento, porque você tem as primeiras reuniões, você faz uma provocação, se o empreendedor fala assim, isso não, só porque eu trabalhei antes na empresa X e tentaram lá, não dá certo. Perdeu o investimento. Você não vai trocar o empreendedor, ele não escuta, você não está discutindo, aceitou o seu dinheiro, vai viver com você os próximos sete anos, não está nem discutindo, então foi um péssimo investimento. Ter investimento bom, que é o que você dá a sugestão, ele fala, pô, vou pensar, ele pondera, anota, vai, volta, ele fala, pô, gostei ou não gostei, por isso, por isso, vou fazer ou não vou fazer. Então o investimento vai ser sensacional, que é o que você dá a sugestão. depois de duas semanas ele volta e você não sabe. Eu tive uma ideia e ele repete o que você falou. Esse é o melhor de todos porque a ideia agora é dele. E a ideia dele vai dar certo. Ele comprou a ideia. Então isso ao mesmo tempo é a melhor e a pior qualidade. Ser assim é a melhor qualidade que um empreendedor pode ter. Não ser assim é a pior. Isso muda muito o destino da companhia.
E existem diferenças do empreendedor brasileiro com o empreendedor fora do Brasil?
Existe.
O americano em especial?
Existe. Não sei se vai diminuir essas diferenças, mas existe. O empreendedor brasileiro é muito mais preparado.
O brasileiro? Em que sentido?
No seguinte sentido. Do ponto de vista de você pegar os melhores empreendedores brasileiros e os melhores americanos, eles estão lado a lado, pau a pau. Não muda nada. Tecnicamente, não muda nada. Mas o brasileiro tem um a mais. que é o seguinte, o americano está acostumado com muita estabilidade. Então ele pega os frameworks, pode ser o Business Canvas, pode ser o Lean Startup, pode ser o que ele aprendeu em Stanford. Eu estudei em Stanford.
Ele tem um playbook.
É um playbook e vai dar certo. E cara, nove de dez vezes dá certo o playbook. Entendeu? Então ele vai e vai certo. Playbook. Vou levantar a próxima ordem daqui a 18 meses, daqui a 18 meses a economia vai estar boa, Estados Unidos vai estar tudo certo, vou levantar a ordem. O brasileiro, ele olha o playbook e fala, sei não, hein? Vou defender disso aqui? No Brasil? Até o passado, certo? Sei não, hein? Então, o brasileiro...
É adaptado, né?
É. Porque o que faz o bom empreendedor e a boa empresa não é a inteligência, a capacidade de engenharia, não é a força, o quanto tem de dinheiro, é a adaptabilidade. E essa coisa dessa desconfiança, não sei. Será que essa reforma da Previdência vai, será que não vai? E isso faz com que ele sempre tenha um plano B, que ele sempre esteja pensando em diferentes cenários, que ele testa mais.
Aqui é o famoso se vira nos 30 para se adaptar. Você foi empreendedor, é investidor.
Sou empreendedor de novo, eu gosto de falar isso. Porque se você parar para pensar, um dos motivos de eu fazer venture capital hoje é que uma das delícias de fazer lá atrás startup é que não existia o mercado de startup. E hoje não existe o mercado de venture capital. Então, lá eu, Anderson, Manuel, Rodrigo, a gente se considera empreendedores da Redpoint também.
Mas quem te inspirou? Quem te inspira? Quem te inspirou no passado quando você foi criar o Busca Pé? E quem te inspira hoje? Afinal, são quase 20 anos aí de diferença entre a criação do Busca Pé e o momento que a gente está hoje.
Ralf, essa é uma pergunta que às vezes eu até penso em várias respostas e dou nomes, mas eu não tenho uma resposta assim muito bonita e poética pra ela. Eu sempre quis empreender. Outro dia eu tava mexendo em casa e achei um caderninho, uma agenda que eu tinha. E é dos anos 80. Tinha o Overnight, então eu investia com meu pai o dinheiro. Dava qualquer trocado que eu ganhava dele por cortar grama. E no Overnight eu fazia a conta dos juros toda noite. E numa das páginas lá tinha, década de 80, eu tinha 9 anos, 10 anos, 11 anos. Tinha lá um... não sabia o que era Business Plan, mas tinha lá a descrição de uma empresa que eu ia montar com o meu irmão pra fabricar minhoca no quintal de casa e vender pra minha avó. E veio muito inspirado pelo meu pai. Então a resposta pode não ser a mais bonita, mas meu pai foi empreendedor a vida toda. Teve seu negócio, diferentes negócios. Eu adorava ir trabalhar com ele. Meu avô também tinha, eu adorava trabalhar com ele. Então, eu nunca imaginei. O que eu fiquei muito tempo pensando era no que eu ia empreender. E na oitava série, aí nos anos, já começo dos anos 80, começo do colegial, conheci a computação, me apaixonei. E naquela época eu li uma matéria da Veja sobre a Microsoft. E eu falei, putz, é isso que eu quero fazer. Eu quero fazer um negócio que seja em computação. Eu adoro computação, pô, não precisa de muito capital, é só a minha inteligência. Qualquer outro negócio eu vou ter que alugar imóvel, vou ter que comprar estoque, eu não tenho dinheiro. Então, muito apaixonado naquilo de me virar, de fazer. Então, ali, de certa forma, o que a Microsoft tinha feito, a Microsoft tinha acabado de fazer o IPO, ela valia sete bilhões e era um absurdo o número. Era uma entrevista na Páginas Amarelas com o Bill Gates e dentro, uma reportagem de Stanford. Falei, puta, quero estudar em Stanford. Stanford eu não consegui fazer. Fui fazer poli, fui fazer depois Stanford, fiz recentemente. Mas, obviamente, eu sou apaixonado por empreendedores apaixonados. Eu tento pegar o melhor de diferentes empreendedores.
Então, por exemplo, o que você pega do Steve Jobs, por exemplo?
A paixão, a paixão, eu vivi muito a paixão que o Steve Jobs vivia pela criação dele, criador, criatura. Eu tenho um episódio engraçado. Quando saiu o primeiro filme do Steve Jobs, que era com Aston Kutcher, mostrava muito ele lá duro e tal, eu recebi duas mensagens de texto de pessoas que trabalharam no Buscapé pra mim, falando, pô, lembrei de você assistindo o filme. E eles não falaram isso por causa da genialidade, falaram pelo... Você era durão. É, porque, pô, era o meu bebê e tal, você não tava fazendo direito de tirar daqui, eu era... Então isso, eu não me inspirei nele, eu sem querer peguei... Se eu tivesse me inspirado nele, seria a parte brilhante dele, não a parte difícil. Mas eu adorava essa paixão que ele tinha, essa capacidade que ele tinha de, em cima da paixão dele, convencer todo mundo daquilo e acabava acontecendo. Se você pensar no Elon Musk, ele faz o contrário do que eu falo para qualquer empreendedor meu. Eu falo, cara, foca, foca, um é difícil, foca.
Tem vários negócios.
Tem vários negócios, mas se você olhar a capacidade dele de pensar grande, de resolver problemas que são realmente problemas importantes, que a gente tem pra lidar como uma espécie, é muito bonito. Você tem diferentes caras, tem um cara que vendeu, um israelense que vendeu a companhia pra SAP, chamado Shai Agassi, fez um projeto, Live Better, que era sobre carros elétricos, cara muito bacana. Então acho que o bom empreendedor, que nem eu falei do coach, eu acho que ele vai pegando pinceladas aqui e ali. Eu nem faço isso de propósito, mas... Mas acontece, você tem grandes figuras que são inspiradoras, grandes líderes que são inspiradores, que não necessariamente estão tão ligados a negócios. Enfim, acho que tem muito lugar para se inspirar gostoso. Eu não sou nesse aspecto, eu não consigo citar um nome ou dois nomes.
Romero, muito obrigado por participar do Café com o Investidor. Imagino que as pessoas aprenderam muito aqui com as suas lições, com a sua trajetória, tanto do lado do empreendedorismo, que você continua sendo, como você falou, e do lado do investidor, que é onde você está agora.
Obrigado, Ralf. Obrigado pela oportunidade.
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