Entrevista | Romero Rodrigues, sócio XP Headline e Co-Fundador do Buscapé

Recorded interview (Aug 28, 2022) with Romero Rodrigues (co-founder of Buscapé; partner at Headline, Redpoint and XP), discussing entrepreneurship and venture investing. Key points: talent shortage in tech has driven salary inflation and hiring competition globally; Romero invests in growth-stage startups (cheques ~R$5M–R$50M) and recently co-launched a R$1 billion fund to back ~25 companies; macro liquidity and lower exit multiples have tightened cheque sizes; investment thesis emphasizes team, large market, and meaningful customer pain; areas of interest include fintechs (including blockchain/tokenization), healthtechs, and companies that scale remotely across Brazil; Brazil’s volatility sharpens entrepreneurs (advantage) but shortens windows for exits (risk).
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Oi gente, no seu Business de hoje vamos falar sobre empreendedorismo e investimentos. Para uma conversa sobre esses assuntos está conosco Romero Rodrigues, sócio da Headline e da XP. Há mais de duas décadas empreendendo, ele ajudou a formar ao menos nove unicórnios. É também cofundador do Buscapé, que foi adquirida por US$ 374 milhões, uma das maiores transações feitas por uma startup brasileira. Vamos falar agora com Romero Rodrigues, sócio da Headline e da XP. Boa noite, Roberto. Obrigada por ter aceito o nosso convite.
Obrigado.
E vou te explorar hoje na área tecnológica.
Vamos embora.
Na área de tecnologia hoje, no mundo, parece que existe uma escassez enorme de mão de obra. É verdade isso?
É verdade. O maior gargalo que existe hoje, Brasil e mundo, é gente talentosa para startup. E não à toa, o investimento feito numa startup durante todo o começo da vida dela é sempre em gente. Então, quando eu invisto numa startup, a gente faz cheques que começam em... 5 milhões de reais, vão até 50 milhões de reais. Esse dinheiro vira tudo contratação de gente talentosa. Então, não só nas áreas de engenharia, que são bem óbvias, mas em todas as áreas imagináveis. Então, comercial, marketing, growth, crescimento, até mesmo no back office, no administrativo.
E como é que isso vai se equilibrar? Você tem ideia?
Na verdade, acaba gerando uma inflação na parte de salários. No último ano, a gente viu um roubamonte de talento. Então, uma empresa levanta mais dinheiro, toma, colaborador da outra empresa, a outra levanta mais dinheiro, toma de volta e assim por diante. O home office, que poderia eventualmente ajudar, e no primeiro momento ajudou, porque quando você tem o home office, as empresas poderão podiam começar a contratar fora da região onde elas tinham escritório, num segundo momento atrapalhou. Por quê? Porque a primeira onda foi, poxa, eu tenho uma startup em São Paulo, uma empresa grande em São Paulo, eu vou começar a contratar por causa da pandemia pessoas no Brasil inteiro. E foi bacana conseguir resolver o problema de curto prazo. Mas, num segundo momento, as empresas globais perceberam que podiam contratar pessoas em qualquer lugar do mundo, principalmente para tecnologia, porque você não tem problema de linguagem. Você não fala português ou inglês, você vai falar a linguagem de programação. E aí, os salários de tecnologia multiplicaram por cinco, na média, ao longo da pandemia.
Isso inviabilizou alguns projetos? O que aconteceu?
Não inviabilizou, mas tornou mais difícil para os empreendedores contratarem o time que eles queriam e levou mais tempo para eles conseguirem montar esse time para trazer... Quais.
Projetos você está tocando?
Olha, hoje eu estou envolvido nos fundos Red Point 1, Red Point 2, que tem 62 empresas investidas, e agora acabei de montar com a XP o Red Line 3, que é um fundo de um bilhão de reais, para investir em 25 companhias.
25.
É um mercado muito vibrante e todo dia inovação acontecendo e todo dia eu me surpreendo com novos empreendedores e inovações ainda mais inteligentes. E onde tem gente talentosa, vai ter dinheiro atrás para bancar esses projetos. Então, obviamente, do começo do ano para cá, a gente tem visto um cenário de possível recessão, de crise global e a liquidez enxugou muito.
Enxugou?
Enxugou muito, muito. Então, você tinha... gente jogando dinheiro pela janela, praticamente, e agora os cheques estão muito mais limitados.
Por quê?
Simplesmente porque quando a gente olha o fim da jornada de uma startup, que é ela ser lá no final da história dela adquirida, como o Buscapé foi pela Naspers, ou fazer um IPO na Bolsa, como aconteceu com a XP, Esses valores dessas empresas caíram. E na hora que o valor no final dessa cadeia cai, todos os outros investidores têm que se ajustar para conseguir entregar o mesmo retorno para o cotista. Então, se eu estava entregando um retorno de 30%, 40% ao ano, mas esperando que uma empresa fosse valer 10 vezes vendas, quando ela fizesse o IPO, e agora ela vai valer 5 vezes vendas, eu vou ter que, para dar o mesmo retorno, ajustar meu cheque, provavelmente pela metade.
Então, isso é muito natural. Não é que os recursos saíram pelo ladrão. Emagreceram. Não é que foi para algum outro lugar.
Exato. Tinha o dinheiro inteligente, que sabia o que estava fazendo. E tinha o dinheiro em excesso, que não sabia o que estava fazendo, mas queria estar presente no espaço de tecnologia. Então, algumas vezes, pessoas que nunca investiram, resolveram investir diretamente. Fundos que nunca tinham investido no Brasil, resolveram testar a investir no Brasil. Tudo isso aconteceu muito ano passado. Então, não por acaso, ano passado, sozinho, fui responsável por mais de 9 bilhões de dólares investidos em tecnologia no Brasil.
Eu estou aqui com uma pergunta para te fazer, na dúvida. Depois de você vender a Buscapé pelo preço que você vendeu, por que continuar trabalhando?
Essa pergunta é boa. Bom, primeiro, e aí eu tenho que ser muito sincero, as pessoas esquecem que não era só eu que estava no Buscapé, tinha os sócios, a gente era uma empresa que era, talvez, uma das primeiras empresas a distribuir ação para quase todos os funcionários.
Todos os funcionários tinham ação?
Não todos, mas a gente tinha ali 30%, 40% dos funcionários que tinham exposição ao nosso programa de ação. Isso lá atrás, 2000, não era tão comum. Tinha sócios investidores, então, obviamente, não posso reclamar, o Buscapé me deixou numa situação confortável, mas não é que o Romero recebeu todo aquele cheque. Agora, a resposta não é nem essa, acho que a resposta é porque eu gosto muito do que eu faço, é muito gostoso. Então, a sensação de poder... acompanhar de perto, que nem eu tenho a possibilidade de acompanhar 50, 100 empreendedores que estão com o propósito de deixar o mundo um pouco melhor do que eles encontraram, de criar uma empresa que tire uma dor grande da sociedade, do povo, é muito gostoso. Então é um pouco reviver, trazer um pouco tudo o que eu vivi, trazer tudo o que eu acumulei de olho roxo e cicatriz, porque curiosamente o empreendedor Quando ele escolhe um investidor, e ao contrário do que as pessoas pensam, não é o investidor que escolhe o empreendedor, porque os empreendedores bons, eles têm 10 ofertas de investimento e eles que vão escolher. Quando eles escolhem, eles gostam de escolher o investidor que tem olho roxo, que tem cicatriz, que apanhou muito. e que não morreu. É mais importante do que aquele que bateu. Então, aquele que apanha e não morre vale mais do que o que bateu. Então...
É o caso também de vocês.
Nossa, o que a gente apanhou na história de busca... era processo de varejo, era competidor com busca global, era todos os lados, não faltou desafio.
Por que vocês venderam? Olha... Porque ela ia tão bem.
É verdade. Um exercício difícil fazer é voltar naquele momento do tempo e pensar se eu voltar, se eu venderia de novo ou não. Mas eu acho que com as variáveis que eu tinha e meus sócios, foi a coisa certa a fazer, pensando no próprio busca pé naquela época. Porque a gente estava grande, tinha 25%, 30% de todo o comércio eletrônico passando pela gente. Então, quando a gente olhava quanto a gente gerava de vendas para um submarino, para um Magazine Luiza, para um Extra, para um Ponto Frio, era 30% das vendas dessas companhias já. E das pequenas, 60%, 70% das vendas. Mas a gente não era tão grande. a ponto de conseguir os financiamentos que a gente precisava para poder manter o varejo vendendo em 12 vezes sem juros. A gente precisava de um balanço mais forte. E aí a Naspers procurou a gente, a gente começou um processo e a Naspers trazia muita coisa interessante para a gente na mesa. Independência completa, emprestava o balanço, super agressiva, queria fazer bastante aquisição. E dos 5 anos que eu passei no Buscapé após a aquisição, porque é raro, na média, os fundadores ficam seis meses na empresa depois de adquirida, os quatro primeiros foram incríveis, justamente porque a gente tinha essa independência. No último ano, teve uma mudança de diretoria geral da Naspers, o novo CEO, que era para quem eu reportava, falou, olha, agora a gente vai mudar, não vai ter mais independência, a gente vai começar a fazer uma estratégia única. Eu discordei da estratégia, falei, olha, ok. Entre nós foi aí que eu realmente percebi que tinha vendido a empresa. E paciência, toca o barco, eu vou cuidar do meu próximo capítulo.
Conta um pouquinho para a gente do próximo capítulo. O que você está fazendo agora? Quais são os investimentos? No que você está apostando na área de tecnologia?
Boa. Bom, eu me tornei investidor em startup, investidor de venture capital de uma forma muito natural e pouco planejada. Quando aconteceu a venda do Buscapé em 2009, Muitos empreendedores começaram a me procurar, procurar meus sócios para pedir mentoria, para pedir ajuda, para pedir conselho e nisso eu acabei me envolvendo e investindo em mais de 30 startups. Então, um exemplo.
Simultaneamente?
Ali junto com o Buscapé, investindo e ajudando um pouquinho. Então, um caso real, um time muito bom de três empreendedores me procuraram, um deles, o César, o CEO, várias vezes falou para mim, Romero, pô, me dá duas horas, eu quero tua mentoria, mentoria. Recebi ele, um cara fantástico, adorei o que ele estava fazendo, ele falou, pô, eu queria muito. que você ficasse uma, duas horas por mês comigo, porque eu tenho o mesmo problema que você teve". Eu falei, qual? Falei, pô, as grandes lojas queriam matar você lá atrás e aqui no meu negócio eu estou tendo um problema com as academias, para mostrar como eu gero valor para as academias. Era o comecinho da Dimpesso. E aí, obviamente, acabei me envolvendo, me tornei investidor da Gimpass lá atrás.
Explica para o nosso espectador o que é a Gimpass.
Gimpass hoje é uma startup que está no espaço de bem-estar e que ela vai ajudar os colaboradores das empresas a poderem usar de uma forma mais inteligente as academias que estão ao redor. Então, é uma rede com mais de 30, 40 mil academias no Brasil inteiro e as empresas dão isso como benefício para os colaboradores. Então, em vez de ter uma academia só, que está ali perto da empresa, ainda mais no momento de pandemia, cada um está num lugar do Brasil, os colaboradores podem ir em qualquer uma das academias. Como um plano de saúde faz com um hospital e médico?
Isso está de pé hoje, já é grande?
Está de pé, está super bem. Eu diria que hoje a Jim Pez é o maior exemplo de uma startup brasileira que internacionalizou. Então, ela conquistou a Europa super bem, está hoje nos Estados Unidos. E eu brinco que talvez, brinco com o César ainda, que talvez seja uma daquelas startups que Quando fizer IPO nos Estados Unidos, o americano vai jurar de pé junto que é uma startup americana, que nem o americano acredita que Skype e Spotify são americanos também, apesar de não serem. Como assim?
Explica.
Não, é uma empresa... Empresas de tecnologia que são super bem sucedidas nos Estados Unidos, geralmente ganham esse status de o público americano falar assim, não, pô, essa é uma empresa americana. E depois eles vão descobrir que, na verdade, por causa do sucesso também, eles vão descobrir, na verdade, que era uma empresa europeia, uma empresa de outro mercado, mas foi tão bem sucedida nos Estados Unidos, como ela está listada nos Estados.
Unidos, eu acredito que é uma empresa americana. Romero, vou te interromper um minutinho e a gente volta já já. No próximo bloco, continuamos a nossa conversa com Romero Rodrigues, sócio da Headline e da XP. Voltamos com o nosso entrevistado, Romero Rodrigues, sócio da Headline e da XP. Roberto, eu estava pensando aqui com meus botões. Você deve receber 800 mil projetos por dia de tudo quanto é área. Como é que você faz essa curadoria do que pode dar certo e o que não?
Olha, Sonia, é um trabalho contínuo. A gente recebe cerca de 1.500 projetos por ano. para escolher cinco ou seis, ou seja, é 200 para um. É duas vezes mais difícil do que medicina na USP. E a gente investe num estágio muito específico, que é depois que a startup já está no ar, já tem audiência e está começando a ter receita. É depois do que a gente chama de vale da morte. Exato. Então, antes do momento, as startups que chegam até o estágio que a gente assina um cheque, elas já são sobreviventes, porque 80% morrem antes.
Você ia falar, passaram pelo vale da morte.
Vale da morte, exato. Elas passam pelo vale da morte, a gente investe logo depois e 80% já morreu, mesmo assim, de tudo que a gente investe, um terço vai morrer. Um terço anda de lado e o último um terço vão ser empresas, companhias gigantescas. Então, o Venture Capital, no final do dia, é apostar alto. É melhor dar errado ou se dar certo, dar muito certo, do que aquele negócio que você tem certeza que não vai morrer, mas você vai ganhar duas vezes o dinheiro, não é o nosso negócio, infelizmente. Porque senão a gente não consegue dar o retorno que a gente dá para o nosso investidor, para o nosso cotidiano.
Mas escuta, o mundo está virando isso, né? Ou fica grande ou fica em casa. Uma mini boutique concentrada numa área.
Ok, funciona. Agora, um ponto interessante, como é que a gente seleciona aí essas? Bom, primeiro e o mais importante é time. Porque no estágio que a gente investe, apesar de ter um pouco já de receita, de vendas, apesar da tecnologia, no final do dia tudo vai mudar. O modelo de negócio vai mudar, a tecnologia vai mudar, então pessoas é o mais importante. Então, quando eu estou investindo, eu estou investindo naqueles empreendedores e na capacidade deles de resolver aquela dor. Segunda coisa é o tamanho do mercado. E aí a gente não consegue investir em mercado de nicho. Precisa ser um mercado tão grande a ponto de, se essa empresa der certo, uma, lembra que o fundo tem 25 empresas, uma só tem que ser capaz de pagar o fundo inteiro e as outras 24 vão ser lucro. E a última análise é a dor. Então, se for uma dor importante, num mercado muito grande, sendo resolvida por um time muito talentoso, esse negócio vai ficar grande.
Interessante esse teu raciocínio. Isso você faz com números ou com capacidade intuitiva?
É números. A dor, a gente também consegue medir com número porque a gente investe depois que já está no ar, então eu consigo mensurar, eu pego todos os dados da startup, a gente tem um software analítico que a gente coloca dentro e vai falar, olha, está indo bem, a empresa está crescendo, ela está trazendo o consumidor e não está perdendo e assim por diante. O mais difícil... que é o mais importante a pessoas. E aí aquela famosa frase que percepção requer envolvimento. Então a gente precisa passar tempo com os empreendedores, conhecer eles...
Conhecer, conversar muito antes de começar a investir.
É isso.
Tem alguma... Você falou que nicho não é tão importante ou tão visado, mas a área, tá? Que áreas vocês veem com maior possibilidade?
Tem alguns setores que tradicionalmente são muito fortes no Brasil. Então, o setor financeiro, as fintechs, o setor de saúde, as healthtechs têm tido muita atração. Por quê? Porque são espaços enormes e com muita dor. E as pessoas falam, pô, mas fintech de novo? O terceiro fundo que você está, o terceiro fundo que fintech, o fintech está sendo reinventado de novo. Muito porque os empreendedores estão usando agora a tecnologia que foi usada no Bitcoin, que chama blockchain, para descentralizar alguns espaços de finanças.
Aí você vai explicar aqui para a gente. O que é novidade nessas fintechs, que é com a Bitcoin mistura, etc?
O principal é descentralização. Então, as startups estão criando sistemas onde você descentraliza operações financeiras ou que você descentraliza tomada de decisão. Então, vou dar exemplos práticos. Poxa, descentralização de finanças. Eu tenho uma ação do Itaú. Quero passar para você. Hoje eu preciso passar por uma bolsa. Tem startups trabalhando para que eu não precise passar para uma bolsa, simplesmente dou ela para você. E eu tiro esse...
Não é capital aberto.
Mesmo de capital aberto, eventualmente. Mas o ponto é... Com o capital.
Aberto, você pode fazer isso?
Ainda não. Mas tem empresas trabalhando para isso. Ou seja, a ideia é eu quero tirar um banco de dados central onde são negociadas as transações. Governança. Um exemplo simples. Poxa, clube ou cartório, a gente nunca vai... Clube ou condomínio, cartório é até uma dor mais legal. Nunca vai na reunião, tem que ser às sete da noite, clube também, fazem um monte de coisa com o dinheiro do clube, a gente não sabe o que está acontecendo. Por que não tem um sistema de votação no blockchain, onde você está descentralizado, as pessoas tomando decisões de governança sobre aquilo que é pertinente na vida delas? Ou informações que hoje estão distribuídas, estão centralizadas. Isso já não existe? Hoje você tem até soluções que buscam trazer esse tipo de transparência, mas não conseguem trazer de uma forma 100% transparente porque elas são centralizadas, não são distribuídas. E às vezes você tem coisas distribuídas como cartório, que é um caos, que deveria ou estar centralizado ou de uma forma mais inteligente, que continue distribuído, mas que esteja conectado. que eu possa ter uma forma muito mais simples, eu transferir um imóvel, exato. Então, a tokenização, que é no fundo pegar ativos e quebrar eles em pedacinhos e permitir que esses pedacinhos possam ser comprados e vendidos por diferentes pessoas, é algo que também está entrando muito em foco agora. E depois de provocar aqui, né?
Ninguém imaginou. Quem teríamos essa pandemia do tamanho que nós tivemos, né? E ninguém imagina nesse sistema de blockchain que um dia possa faltar energia e o sistema desaparece. Tem um backup?
A vantagem de ser descentralizado é que, por mais que caiam vários computadores, você tem todo aquele banco de dados distribuído.
Em toda a rede. Distribuído também.
Então, hoje...
Isso seria um red?
Seria um red já natural. Então, é um sistema, nesse aspecto, muito resiliente, porque ninguém é o dono central de um banco de dados. Ao contrário do que a gente viveu na última década, onde tudo era centralizado, se aquele servidor central daquela empresa sofresse um ataque de hacker, como a gente viu algumas empresas sofrendo, não tem o que fazer, você fica completamente refém. Ou se aquilo é destruído, você não tem backup, não tem... Não tem como.
Exato.
Então, no fundo, o sistema distribuído, ele é ainda mais resiliente.
Distribuído faz um equilíbrio.
Um red natural.
Nessa corrida pela tecnologia nova, pela invenção, existem muitos projetos sendo replicados pelo mundo simultaneamente, que um não sabe do outro.
Olha, a gente até sai da tecnologia aqui e começa a falar de uma consciência mais global, mas é muito curioso como as ideias, elas surgem e pipocam ao mesmo tempo, exatamente como você escreveu.
E no mesmo caminho, né?
No mesmo caminho. É realmente uma consciência global, é muito, muito curioso. O próprio Buscapé, a gente começa o Buscapé lá em 98, 99, não existia nenhum site de comparação no mundo. No mundo. No mundo. Aí o primeiro é lançado nos Estados Unidos, que chamava Mais Simon. A gente corre, lança o Buscapé, o Buscapé foi o segundo. Aí depois de alguns meses na Europa, aparece o Calcul, aí aparece nos Estados Unidos mais dois ou três, que era o Dealtime, o Shopping.com.
Isso independentemente de um saber do outro?
Eu conheço todos os fundadores. Obviamente, 25 anos fazendo isso, conheci todos, alguns são amigos meus até hoje. E você escuta a história de todos, nenhum se inspirou.
No outro.
E você olha os sites na época que eles foram lançados, até as colunas, eles são idênticos, então assim, as ideias elas surgem simultaneamente no mundo todo, eu não sei. A gente precisa trazer alguém menos técnico e mais esotérico para explicar para a gente, mas acontece.
Eu imaginando também nesse novo mundo, nessas invenções simultâneas, eu fico pensando O brasileiro, ele tem uma resiliência, uma formação, na minha opinião, ele dá muito mais, nos dá, muito mais capacidade de inventar. Porque convivemos com inflação, convivemos com mudança de regra a cada cinco segundos, convivemos com um sistema fiscal enlouquecedor. Coisa que outras pessoas não passaram por isso, que, aliás, é o que os Estados Unidos hoje está passando no quesito inflação.
Nunca tinham visto.
Nunca tinham visto inflação, estão quase infartando, não tem como lidar, não tem sistemas para lidar, é muito difícil, né? Essa criatividade brasileira, você acha que ela vai se destacar nos próximos anos?
Certeza absoluta. Eu tenho a sorte de ter a XP como sócia, mas também tenho outros dois sócios, que é a Headline e a Redpoint, que são fundos consagradíssimos do Vale do Silício que também estão na China. Então, eu tenho essa possibilidade de comparar um pouquinho os empreendedores, os melhores empreendedores das regiões. E o brasileiro não deve nada para um empreendedor, primeira linha brasileiro para o primeira linha americano ou chinês, não deve nada. Pelo contrário, ele tem justamente essa resiliência, eu falo que é adaptabilidade. E por que isso? Vem justamente por causa desse cenário de volatilidade, de incerteza do Brasil. O americano, ele vai para uma aula em Stanford, Minha alma mata, eu tive a oportunidade de já ter aula lá. E tem um framework, tem uma receita de bolo, você vai fazer isso, isso, isso, aí você vai estar faturando tanto, quando você estiver faturando tanto, vai aparecer cinco fundos te escrevendo um cheque de X vezes o teu faturamento, papapá. Aí você olha aquilo como brasileiro e fala assim, tá. Mas no Brasil eu tenho que ter um plano B, não tem como.
Plano B, C, D, E.
Eu preciso ter um plano B. Então, os próximos três anos vão ser anos de chacoalhada. Liquidez secou, as startups estão tendo dificuldade para levantar dinheiro. Os valuations estão caindo, mas por incrível que pareça, tudo isso é bom. Se a gente olha, mesmo nos Estados Unidos, os 50 anos que existem de venture capital e pega os momentos de recessão americana, foram três grandes momentos, são as três melhores safras de empresas de tecnologia, são as empresas mais robustas. Recessão da década de 70, a Apple e Microsoft, no ano 2008. Google, Tesla, mercado livre, busca pé aqui na América Latina, 2010, tudo que tem no celular. Uber, Airbnb, economia compartilhada, estava em crise, e tudo que é social, Instagram, WhatsApp, Pinterest, surgiram durante a crise. Então, a crise justamente faz com que o empreendedor resiliente, que não é aquele que necessariamente é bom de captar dinheiro, aquele que é bom de operar, de executar, de criar valor, esse vai se destacar.
É isso que você procura, né?
Sempre.
O que você me diria sobre o quesito juros altos e investimentos em startups?
Olha, em geral, juros altos tornam muito difícil para um fundo captar. um sucesso muito grande agora recente com a XP captando esse fundo de quase 1 bilhão de real, mas ele fica mais difícil. Por quê? Porque o custo de oportunidade é alto. Se o juros está a 2, o investidor começa a se coçar e falar que precisa de alguma coisa que dê mais retorno. Eu vou tentar investir em startup, vou fazer venture capital, porque vai me dar 25%, 30%, 35% de retorno. Na hora que o juros está em... Ou zero, né? Ou zero, se eu escolher o gestor errado. Se o juros está em 14, que fala, pô, será que vale a pena eu correr mais risco, o dinheiro ficar preso 10 anos para eu ganhar 10% a mais por ano? Mas o contra-intuitivo é, justamente quando é difícil de captar, é o melhor momento de investir. E é o melhor momento de investir por quê? Como tem menos dinheiro no mercado, as startups que a gente e os outros fundos vão investir, vão ter menos competição, vai ficar mais fácil contratar talento. Elas têm que ser mais eficientes em capital. Então, os modelos de negócios que surgem durante crise são modelos... Tem muita demissão agora, né? Está tendo. Está tendo ajuste, teve muito exagero. Então a gente pega as grandes empresas de tecnologia, os unicórnios, boa parte deles, se não todos, fez algum tipo de demissão ou redução. Mas ali eu diria que tem três tipos de empresa. Tem a empresa que aproveitou o momento para ajustar, tirar um pouquinho, a gente brinca de gato gordo, aquele colaborador. que acabou o Covid, acabou a pandemia, mesmo assim não foi para o escritório e faz um sem ligar a câmera. Então, quer saber, é um bom momento, deixa eu tirar aqui 10% da minha força de trabalho que não está performando. Tem uma boa parte que são empresas boas, saudáveis, mas que perceberam que, poxa, a gasolina vai acabar e não vai ter posto de gasolina, não vou conseguir levantar dinheiro nos próximos um, dois anos. Ou pelo menos meu plano B diz que se eu não levantar dinheiro, eu preciso sobreviver. Então, eu vou diminuir despesa e vou usar o dinheiro que eu tenho da última rodada de investimento para sobreviver mais tempo, esperar passar o inverno. E tem um terceiro grupo, que eu espero que seja pequeno, que são startups que não tinham um modelo de negócio necessariamente muito robusto e que essas vão sofrer mais, algumas podem até vir a fechar.
Rodrigo, vou te interromper um segundinho e a gente volta já já. No próximo bloco tem mais conversa com Romero Rodrigues, sócio da Headline XP. Não saia daí! Voltamos com Romero Rodrigues, sócio da Headline XP. Romero, estamos falando sobre inconsciente coletivo, voltando um pouquinho nessa toada, e como isso influencia a criação hoje tão rápida de coisas semelhantes pelo mundo. Você acha que vai ter problemas de direitos autorais?
Eu costumo brincar aqui e falo, a ideia é de quem faz. O que eu quero dizer com isso? Eu vi, eu lembro ao longo da história do Buscapé ter recebido algumas vezes e-mails de muito carinhosos, de pessoas que falavam assim, olha, pô, que bacana, eu acompanho o Buscapé desde o começo, você sabe que na mesma época que você e teus sócios tiveram a ideia, eu tive a mesma ideia e, pô, foi quase. E eu falo, poxa, obrigado e tal, agradeço, mas eu penso comigo, quase, foram 17 anos trabalhando sábado, domingo, das oito da manhã às nove da noite, não teve nada de quase na história do Buscapé, foi sofrido pra caramba. Então, eu acho que a questão do direito autoral, ela está cada vez mais fraca nesse sentido. Exemplo, começo da história do Buscapé, naquele primeiro ciclo de digital, 25 anos atrás, as pessoas não gostavam de falar ideia. O que Para um monte de gente ao mesmo tempo. Quem ganha não é quem tem ideia boa, quem ganha é quem sabe executar bem e faz aquela ideia virar realidade.
Mas se não tiver ideia também não consegue a execução, né?
Não, mas você tem excelentes empreendedores que não precisaram ter a ideia original. Eles olharam o que estava acontecendo nos Estados Unidos, na China e falaram, pô, no Brasil tem uma dor parecida, eu vou adaptar isso e trazer para o Brasil. 9 de 10 modelos de negócios que a gente olha, nossos sócios no Vale do Silício já viram 2, 3 anos antes. Por isso que é tão valioso ter eles no nosso fundo, porque é um pouco investir no passado, sabe? A gente olha o futuro, volta e investe. Agora, 1, 2 a cada 10 é o que eu brinco que são os nossos açaís, né? Não são nem jabuticabas, porque a jabuticaba não internacionalizou, o açaí internacionalizou. Então foi mais bem-sucedido.
Me explica o mistério da sobrevivência do Vale do Silício, mesmo com a China tentando copiar em todos os sentidos.
Cai um pouco de volta para o elemento mais importante de inovação e tecnologia que tem, que é pessoas. Então, o que o Vale consegue fazer, e é muito especial, é reter e continuar atraindo pessoas muito talentosas para lá. E isso acontece porque você tem uma combinação muito boa de mercado privado e academia. Então você tem Stanford, você tem todo aquele núcleo Berkeley, todo aquele núcleo acadêmico que produz muito talento, e você tem todas as empresas ali em volta que mantém e remuneram bem esse talento. Então isso cria um ciclo virtuoso muito positivo, muito forte.
Muitos anos, né?
Por muitos anos.
Na China tem algo parecido?
Tem, você tem alguns ecossistemas parecidos, inclusive não só de software, Shenzhen, por exemplo, é um ecossistema de hardware, é como Silicon Valley na China, só que é muito focado em empresas de hardware. A Tencent tem o headquarter lá, que é a maior empresa chinesa. vestida da Naspers, que comprou o Buscapé também. E aí, obviamente, Beijin, você vai ter polos importantes de tecnologia.
Mas nisso eles não conseguiram ainda superar os americanos. Na Europa existe algum polo parecido?
Europa tem. Você tem Paris como um polo interessante, proeminente, Berlim é muito forte, porque na primeira geração teve startups muito importantes europeias que tinham base em Berlim e Londres sempre também cria gravidade. Agora, a China, a China tem um mercado muito fechado, então é muito difícil para uma empresa de tecnologia entrar na China. Você vê a dificuldade que foi Google.
Facebook... E da empresa de tecnologia de lá sair?
Menos dificuldade. O mundo ocidental é mais aberto. Mas esse fato da China ser fechada para proteger o seu próprio mercado faz com que a gente não tenha muita conexão de China com o Vale do Silício como poderia existir.
Interessante. Aqui na América Latina?
Na América Latina, sem dúvida nenhuma. São Paulo acaba sendo um mercado superimportante, é talvez o grande polo nacional, mas o que a gente vê e é curioso, e como consequência do Covid, é que isso está se dissipando. A startup no estágio que a gente investe, ela costumava estar em São Paulo ou Rio, com um espaço, num co-working. não está mais, porque não faz sentido, está todo mundo remoto, os desenvolvedores, os engenheiros estão remotos. Então essa startup está espalhada pelo Brasil inteiro, está sendo criada próximas de universidades, então a gente tem uma federal em Manaus, que é fortíssima em tecnologia, você tem Belo Horizonte, você tem Recife, tem Fortaleza e Salvador, faculdades boas, você tem no Sul, você vai ter tanto. em Florianópolis quanto Porto Alegre, então esses outros hubs estão começando a ferver e grande parte da nossa tese, o motivo pelo qual a gente se associou também, um doce com a XP, é que como a gente acredita que essa startup não vai estar mais necessariamente em São Paulo, como que eu encontro ela? E aí a gente pode usar a rede de 10 mil assessores da XP que hoje originam e trazem startups para a gente analisar. Então, para você ter ideia, o fundo está ativo há um mês e meio e a gente esperava receber 1.200 startups por ano. Já está com 650 startups em 40 dias no nosso funil de análise. Eu estou sem dormir, é dia e noite analisando startup. Ou seja, o que eu previa para seis meses aconteceu em 40 dias.
Isso é muito interessante.
E a maioria não está em São Paulo, Rio de Janeiro. Founders, às vezes, espalhados, cada um num lugar.
Essas startups fintechs não é necessária convigência ou um local físico?
Não. E mais do que isso, mesmo que seja, pensa que no estágio que a gente está investindo, aquela startup que ainda não sabe o nosso cheque do nosso estágio, outros fundos também fazem o cheque no mesmo estágio. É o que define se ela morreu ou se ela passou o vale da morte. Então, não faz sentido ele gastar dinheiro com o escritório naquele momento. É muito melhor deixar todo mundo remoto, até porque é mais caro contratar presencial hoje. Porque o engenheiro, o desenvolvedor, se é remoto e ele está trabalhando na praia, ele topa ganhar um pouco menos. Mas se é para ele mudar de novo para São Paulo, ele vai ter que alugar casa, ele vai ter que gastar com transporte, ele vai perder duas horas por dia indo e vindo e ele fala, desculpa, eu não quero 10 mil para ir para São Paulo, eu quero 15 mil. Ele fala, não, não, não. Eu economizo no escritório e economizo 5 mil do teu salário. Fica aí na praia, trabalha por 10 mil e estamos juntos.
E a língua é universal.
E a língua é universal, como eu comentei. Então, a gente tem 10 mil olheiros, Brasil afora, procurando a próxima startup, que nenhum outro fundo tem.
Muito, muito interessante. Estamos aqui chegando no final do nosso programa, queria te fazer uma última pergunta. Na sua visão, qual seria a maior incerteza de vocês estarem hoje localizados no Brasil, fazendo esse sistema? O que o país gera em vocês? De incerteza. É.
Eu acho o Brasil, pela volatilidade e por tudo que ele traz de desafio, ele acaba sendo um excelente mercado para polir e preparar os empreendedores. Ele é um mercado grande com muita dor, ele acaba sendo um excelente mercado para se criar inovação, porque onde tem dor, você tem oportunidade. Eu brinco, é muito mais fácil criar algo 10 vezes melhor no Brasil do que na Noruega. onde tudo funciona muito bem. Uma ordem de magnitude melhor é mais difícil.
Não só, e também eles recebem um script mais prontinho.
Mais prontinho. Então, aqui, se você é bom, você tem mais chance de prosperar. Lá é mais competitivo. Onde que atrapalha? O final da jornada, normalmente. Então, como existe volatilidade no Brasil, você, quando vai fazer a saída, a venda da startup, ou fazer a listagem na bolsa, o IPO, as janelas no Brasil são sempre mais curtas, mais difíceis. Isso é uma judiação.
Da situação econômica do país.
Exato, e instabilidade, instabilidade política, econômica, incertezas e assim por diante. Então, acho que isso é a parte que mais prejudica a história da startup.
E um contra também.
É o sweet and sour, né?
Tem jeito. Olha, Romero, muito obrigada pela sua participação. Queria vê-lo outras vezes aqui no programa. Eu pensei assim, bom, para saber todas as novidades, vou ter que entrevistar ele a cada seis meses. Não, é a cada uma hora. É muito curto.
Adorei. Obrigada. Como sempre, obrigado mais uma vez.
Namastê, namastê. O Show Business de hoje termina por aqui. Eu, Sonia Raci, tenho um encontro marcado com você na próxima semana. Direto dos estúdios da Band aqui em São Paulo. Até lá!
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